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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O café filosófico do quotidiano – as Ciências Humanas podem ser abarcadas pelo método científico?

(Volta e meia, há uma pequena guerrinha sobre a validade das Humanas como objeto do conhecimento. Pelas suas dificuldades em se amoldar ao método científico, há razão em dizer que elas são “menos” ciências que as naturais?)

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Quando eu falo dos meus métodos de passar café, tem gente que me pergunta por que eu não coleciono chaveiros, que são muito mais baratos. Bem, os motivos são dois: 1) eu também coleciono chaveiros e 2) eu não coleciono métodos de extração, apenas gosto de poder variar de vez em quando. É que existe uma gama tão variada de grãos, de torras, de espessuras que só conseguimos chegar ao melhor ponto através de diferentes apetrechos. E eles são muitos mesmo. Por isso, uma boa parte do prazer do café está na pesquisa, e isso inclui ter vários métodos disponíveis, sendo que alguns são mais simples, e outros mais sofisticados. Um deles é a cafeteira de sifão, mais conhecida como globinho.


É uma verdadeira aula de física, que demonstra como funcionam vários princípios da termologia e da dinâmica dos fluídos. Basicamente, são dois balões onde ocorrem processos de convecção e sucção por rarefação de ar (não dá para chamar propriamente de vácuo). Uma lamparina que aquece a água no bolão de baixo é o início do procedimento.


Quando a água está próxima ao ponto de fervura, é encaixado o balão de cima, onde já deverá estar contido o café em ponto de moagem médio.


Assim que chegar ao ponto de fervura, a água subirá pela cânula do recipiente superior e começará a se misturar ao pó. É preciso ter em mente que restará um pouco de água na parte de baixo, por isso a quantidade de pó deverá estar bem adequada ao processo.


Neste momento, é preciso apagar ou retirar a lamparina, para que a parte baixa esfrie e inicie a sucção, que força o líquido a passar pelo filtro embutido no alto da cânula. Aos poucos, o café excessivamente forte que está no alto vai se diluir na água que restou no bojo inferior.


Por fim, é só servir.



Nome do utensílio: cafeteira de sifão (globinho)

Tipo de técnica: percolação por sucção térmica

Dificuldade: Alta

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: um processo de fervura no bojo inferior faz com que a água suba por uma cânula a um globo superior, onde está depositado o café. Cessando a fonte de calor, a troca na rarefação do ar fará com que a infusão contida no globo superior seja sugada para o inferior, em um efeito sifão.

Resíduos: Poucos

Temperatura de saída: Muito alta

Nível de ritual: Alto

Não tenho a menor vergonha de dizer que comprei esse aparelho usado, porque era um daqueles negócios de ocasião, e está em estado de novo e funcionando perfeitamente. Dá a impressão de que o ex-dono ganhou de presente e não gosta de café. Afinal de contas, ele custa o olho da cara e era luxo demais pagar o preço que normalmente pedem por ele. Melhor assim: alguém que quer se desfazer da coisa obtém algum trocado de quem a aprecia e se propõe a pagar um preço camarada de verdade.

Como é possível supor pelo meu relato, o processo todo não é exatamente rápido, por isso dá tempo de pensar em um monte de filosofias. A cafeteira globinho é quase um instrumento científico, daqueles de laboratório, que trazem a imagem mental que normalmente fazemos sobre a Ciência. E, diante de mim, vejo todo um experimento que é possível de reproduzir e registrar, como preconiza toda a metodologia científica. Se formos pensar bem, é possível que eu isole variáveis no processo e comece a fazer medições sérias: controle de temperatura, densidade do líquido antes e após a filtragem, pH do composto também antes e depois, pó mais espesso ou mais fino, velocidade da infusão e demais que-tais, exempli gratia. Isso começaria a dar cara de metodologia em uma coisa trivial, e às vezes saber o que essa construção significa pode ser bom para nos posicionarmos.

Diante da torrente irrefreável de baboseiras que a pandemia nos trouxe, eu resolvi contribuir com os meus centavos de conhecimento acerca dos mistérios sobre o que é a Ciência e suas metodologias, e falei sobre a lógica aplicável à pesquisa, aos rigores dos métodos e até mesmo ao controle dos vieses. Entretanto, como eu estava tendo em mente em especial as abobrinhas que se falam sobre remédios e vacinas, acabei deixando uma lacuna importante, que achei conveniente suprir agora: a metodologia aplicada a Ciências Naturais é a mesma que utilizamos para Ciências Humanas?

Não vamos ter, meninas e meninos, como fugir de delinear o que é esse marco divisório. Nós chamamos de Ciências Naturais todas aquelas a quem chamo graciosamente de "ciências de jaleco", majoritariamente feitas em laboratórios e observatórios, mas que também utiliza muito campo, especialmente para a obtenção dos dados que serão analisados. São aquelas que investigam a natureza de modo independente ao que a humanidade lhe interpõe de cultura, e são aquelas que mais nos causam temor nas grades curriculares: Física, Química, Astronomia, Biologia, Medicina e outras mais. Já as Ciências Humanas estudam todos aqueles fenômenos onde o homem põe a mão de alguma forma. Não nos lembramos dos cientistas de jaleco quando pensamos neles, mas nas atuações junto às comunidades humanas. Engloba áreas sociais, como a Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, Economia e outras áreas de registro, como a Geografia e a História.

Bom. Existe a lenda de que o pessoal das hard sciencies acha que os cientistas de humanas são maconheiros que gostam de abraçar árvores e aplaudir o sol, enquanto no sentido contrário temos raptores do termo, que se fecham em suas torres de marfim e esquecem do restante do mundo. Nada mais do que estereótipos colocados em prática, com o componente alienação sempre em altos teores. Pode até ser que um ou outro tenham lá suas rusgas, e precisamos levar em conta que a aplicabilidade do método científico como vimos até agora realmente dá uma travada quando olhamos para uma sociedade ou uma cultura ao invés de um vírus ou um asteroide.

Vamos ver. Podemos ter várias maneiras de definir o termo Ciência, mas a melhor maneira é dizer que, em um conceito generalizado, trata-se do estudo da realidade. Essa realidade, obviamente, é completamente multifacetada, e embora as diferentes áreas façam suas interlocuções, cada uma delas abrange um grupo de conhecimentos bastante específicos. Comparando a realidade detectável (tchau, metafísica) com uma casinha, podemos perceber que cada um dos cômodos tem suas sutilezas e uma função específica, e também que cada um deles representa um pedaço da realidade total. Assim, temos um cômodo que representa o cosmos e seus componentes, como as galáxias, as constelações, os buracos negros, os pulsares e tudo o mais que exista no espaço sideral, e este cômodo é a Astronomia. Outro cômodo contém as reações entre os diferentes compostos, as mudanças de estado, as combinações e misturas e a forças de interação entre as substâncias, e é o cômodo da Química. Em mais um, há o funcionamento dos corpos, a fisiologia dos órgãos, as funções dos sistemas e temos o cômodo da Medicina, e assim tantos outros da nossa edificação. Todos são campos do conhecimento, disso não resta nenhuma dúvida. Mas há outros ainda, que contém outras características: há um cômodo onde é vista a sociedade, suas relações e seus funcionamentos; há outro onde vemos a cultura dos diferentes povos e como elas se imbricam e transformam, e há ainda outro em que observamos como opera a mente, como ela interage com os organismos e de que maneira reage às variações do ambiente. A sociedade, a cultura e a mente também são partes da construção que chamamos de realidade, alicerçadas pela Filosofia e com as paredes erigidas pela Lógica e pela Matemática.

Sendo assim, tanto as Naturais quanto as Humanas vencem o critério de objeto de estudo, sem nenhum tipo de distinção. A coisa ganha complexidade na medida em que estipulamos métodos de pesquisa que devem ser atendidos para que a área produza trabalhos de natureza científica. Partindo do mais básico, um método precisa conseguir definir o objeto que estuda, explicar o seu funcionamento, fazer predições sobre sua repetição futura, controlar as variáveis que influenciam na sua ocorrência e estabelecer situações em que a hipótese proposta deverá falhar e demonstrá-la como falsa. Vamos usar um exemplo das ciências naturais: a curvatura de um chute na direção do gol.

Vamos começar pela definição: a curvatura de um chute é o desvio de uma linha reta imaginária que liga o ponto de estado de repouso de uma bola até o atingimento de um ponto específico no espaço (no caso, o ângulo superior esquerdo de uma trave - um golaço!). Essa definição é importante porque serve para excluir chutes retos, arremessos laterais e outros possíveis objetos não abrangidos. Ou seja, sabemos exatamente o que estamos estudando.

Em seguida, vem a fase da explicação. Por que um chute foge à intuição de que ele descreveria uma linha reta? Normalmente, dois fatores influenciam na trajetória da bola de forma que a mesma descreva um arco: a sua rotação e a força do vento. Dessa forma, podemos explicar o fenômeno como o resultado da aplicação de uma força em um ponto tal da bola que a faça girar. A bola posta em rotação atrita com as camadas de ar de forma a fazê-las servir de "apoio", como se a bola estivesse rolando em um chão de baixa densidade. Isso faz com que a bola ganhe um ponto de translação imaginário, influenciada ainda pela força e direção do vento.

A boa técnica metodológica dita ainda que as variáveis que influenciam no processo devem ser detectadas e controladas.  A bola teste, por exemplo, deverá ser uma oficial. Ou seja, terá uma medida fixa e não será uma das variáveis. No entanto, ela deve ser experimentada com diferentes pressões e em diferentes tempos de uso. Deverão ser detectados os exatos pontos de impacto de cada um dos chutes, a velocidade e direção do vento deverão ser medidas a cada execução da rotina e, se possível, deverá ser tentada a mesma experiência em uma câmara de vácuo.

Com tudo isso, o método científico deverá proporcionar predições, ou seja, dadas tais e tais condições, o resultado será x ou y. Se eu chutar a bola com a parte externa do pé exatamente a três centímetros de seu centro, com vento na direção leste e velocidade de dez nós, teremos como resultado uma curvatura de quinze graus e ponto de entrada na meta a dois centímetros do travessão e cinco da trave lateral esquerda. Outro golaço.

Por fim, a declaração de falseabilidade, afirmando que se o chute dado em condições de curva com velocidade do vento neutra nunca poderá ser reto. Os resultados sempre serão passíveis de críticas, mas estão de acordo com a metodologia científica atualmente aceita nos meios acadêmicos.

Agora, vamos fazer o mesmo paciente exercício em uma ciência humana. Em minha hipótese, preços baixos de ingresso farão com que um estádio consiga incremento de público. Primeiro, a definição: o preço dos ingressos é um dos fatores principais que influenciam a frequência de público em estádios de futebol.

A explicação é simples: em países com baixa renda e preços de ingressos além do poder aquisitivo, camadas grandes de população terão seu acesso dificultado a eventos que, in extremis, não façam parte dos pacotes de primeiras necessidades. Entretanto, como há um grande apreço pela prática do esporte, existe uma demanda reprimida que poderá ser ativada por dois fatores: o aumento da renda ou a diminuição do preço do ingresso.

Os fatores de controle do experimento deslizam em dois eixos: variar a renda do público em estudo e fazer várias escalas de diminuição do preço do ingresso, fazendo descer da exorbitância a um lucro moderado, depois ao empate custo/benefício e até mesmo à gratuidade. A predição será no seguinte sentido – dado um declínio no preço até X ponto, o incremento na demanda será de Y por cento. Ou coisa parecida. Finalmente, os pontos de falseamento poderão ser os seguintes: a baixa dos preços não refletir aumento na demanda, a elevação da renda não representar aumento na demanda.

Quando observamos a aplicabilidade do método no primeiro exemplo, tudo está de acordo, lembrando que é apenas um exemplo ilustrativo. No segundo, no entanto, vamos encontrar muitos problemas de aplicabilidade. Na fase de definição, está tudo certo, ambas são idênticas. Na explicação também, partindo da premissa que estamos usando o método dedutivo-hipotético, e é essa a premissa a ser testada. O busílis começa a partir do controle. Como vou fazer para variar a renda de uma grande fatia da população e ver o reflexo na aquisição de ingressos? Esse controle somente seria possível com intervenção governamental, que provavelmente  estará mais preocupada com outras políticas públicas do que com a compra de ingressos. Outro caminho seria convencer os clubes a baixar os preços, coisa mais factível, mas, a meu ver, mais indesejada. E daí a aferição fica prejudicada, restando métodos indiretos de coleta de dados, como as entrevistas e surveys. Isso tudo vai afetar diretamente a capacidade de predição, porque a base que precisará ser pesquisada é muito mais ampla, e as variações da população e do momento vivido por aquele agrupamento são compostos por fatores imensamente mais variáveis que aquelas do experimento da bola.

A grande questão é a seguinte: não há, para as Ciências Humanas, como seguir um único paradigma. Se realizarmos um experimento laboratorial de Ciências Naturais em qualquer parte do mundo, ele deverá ter resultados sempre iguais, com raras exceções muito específicas. O exemplo da bola deverá ter os mesmos resultados se forem realizados no Brasil, na Finlândia, na Tanzânia, no Camboja ou nas Ilhas Fiji, porque contém um conjunto limitado de variáveis e que são todas controláveis. Já a experiência dos estádios seria fundamentalmente diferente em cada um desses países, porque os brasileiros gostam de futebol, mas os finlandeses preferem hóquei, os tanzanianos curtem corridas de fundo e assim por diante. Não será possível obter repetibilidade pelo único fato de se mudar de país. As raras exceções que mencionei dizem respeito a especificidades. Em Naturais, por exemplo, não há como realizar experimentos em vulcões no Brasil. Outra questão diz respeito a uma ciência dura, a Meteorologia. Ela tem uma dificuldade preditiva muito grande, porque atende a uma série de sistemas não-lineares que tornam praticamente impossível de manter uma previsão sólida. Basta um ventinho maroto vindo de estibordo para mudar todo um temporal em uma insuficiente brisa de um dia tropical. Por esse motivo, dizemos que as Ciências Naturais são monoparadigmáticas, enquanto as Ciências Humanas são multiparadigmáticas. E o que é esse tal de paradigma?

Paradigma está por trás de tudo o que falei até agora. É uma padronização em que encaixamos um conjunto de procedimentos e que deve guiar as pessoas na busca de um resultado. É como se fosse um modelo: um paradigma de bom jogador é aquele que proporciona a si mesmo o preparo físico mais adequado, com boa técnica de execução de jogadas e ótima consciência tática. O paradigma de pesquisa científica para as Ciências Naturais, que incluem todas as fases que mencionei neste texto, é apropriado para elas, que não necessitam de um segundo, terceiro ou quarto paradigmas, o que é de rigor para as Ciências Humanas. Estas não podem ficar presas a um único paradigma, embora não possa deixar de tê-los. Precisa quantificar dados, estudar casos, coletar bibliografia e fazer muito, mas muito campo para fundamentar suas teses, do contrário... aí sim teremos mero achismo.

Não é ninguém menos do que Karl Popper, o pai da falseabilidade incluída no método científico, que diz que não faz sentido querer atribuir a mesma objetividade das Naturais nas Humanas. Ele diz que o cerne da Ciência é o conhecimento e que o cerne do conhecimento é a problematização, que vem da ignorância, no final das contas. As Humanas atacam problemas da mesma forma que as Naturais, e pelo mesmo propósito: superar a ignorância. Observar um problema social, por exemplo, causa o efeito de se defrontar com uma dissonância com o conhecimento que possuímos. E aí as Humanas seguem, de certa forma, o mesmo curso das Naturais, porque produz soluções abertas à crítica, e que são aceitas enquanto resistir a elas. Isso porque também aqui temos a mesma mágica de qualquer Ciência – ela não deve procurar SER a verdade, mas se APROXIMAR da verdade. A objetividade de toda Ciência reside na objetividade do método crítico, e isso toda Ciência tem, inclusive as Humanas. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Citei  Popper, e este é o livro que a quem me refiro:

POPPER, Karl. Lógica das Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

5 anos de Aporias Plurais – sobre o que motiva e o que desmotiva a atividade filosófica

Olá!

Efeméride importante. Há exatos cinco anos eu inaugurei este espaço, dadas as facilidades proporcionadas pela internet gratuita e a necessidade de desenvolver um projeto pedagógico. Gostei da brincadeira e a mantive até hoje, já com uns novos propósitos.


Nunca pretendi fazer deste blog um espaço puramente acadêmico, e sim um humilde norte para estimular a interpretação filosófica de espertos rapazes e cultas garotas, apoiado em duas constatações: ainda que surpreendente, há muita juventude interessada no pensar filosófico, mas que não sabe exatamente onde achá-lo. Por isso mesmo, vou dando minhas dicas de livros, filmes e etc. para que nossos mancebos e moçoilas possam tomar gosto pela coisa.

Um lustro! Deu tempo de produzir bastante coisa. Mas confesso que tem horas que bate um certo desânimo. Às vezes fico pesquisando um tema por meses a fio, principalmente aqueles que geram textos concatenados entre si, para ter, como resultado, quinze ou vinte visualizações. De vez em quando, alguém compartilha um desses textos nas redes sociais (devo agradecer muito ao Fernando Faria, que tem feito um grande trabalho de divulgação do meu blog) e o tal acaba ganhando um pouco de respiro, mas é raro. Fico com aquele encafifamento típico de quem acha que está falando muito, falando difícil, falando merda... Mas, raciocinando, chego à conclusão de que o formato blog está perdendo a força. A média de visitas a este espaço tem aumentado, pelo óbvio motivo de que há cada vez mais postagens, mas a consulta a textos novos declinou bastante.

Talvez eu devesse migrar de plataforma, usar o Tumblr ou o Wordpress, mas minha inabilidade atual com edição para internet chega a causar pena. Sou do tempo dos frames e do Front Page, tecnologias que se vão longínquas nesses tempos atuais (longínquo, no caso, são dez anos). Também pensei em criar um canal no YouTube, mas posso garantir a vocês, meus amigos, que escrevo muito melhor do que falo. E, além disso, precisaria fazer a edição, produzir uma vinhetinha decente, cuidar de conseguir um equipamento razoável, sem deixar de escrever o texto, transformado em roteiro, ora pois. E, por último mas não em último, minha figura não é, por si só, uma atração. Quem me conhece pessoalmente pode atestar.

Pode ser que um dia eu faça isso, mas não vai ser agora. Por enquanto, lutemos contra a pusilanimidade e prossigamos neste formato, e tentando descobrir a causa do sucesso do meu texto mais lido, escrito de maneira tão despretensiosa que quase não o publico. Quer dizer, o porquê de sua busca constante eu já descobri: se você digitar no Google os termos “eclesiastes” e “filosofia”, verá o fagueiro artigo na cabeceira da consulta:


O que eu não compreendo é o motivo da benesse concedida pela gigante das buscas. Como nunca pensei muito bem em termos publicitários, não sei como cheguei nisso, e como ninguém que torna uma escrita pública gosta de vê-la escondida (caso contrário, guardá-la-ia numa gaveta), aceito dicas de bom grado.

Minha patroa me pergunta às vezes porque não colijo meus pensamentos em livro. E há quem pergunte por que eu não parto para a produção de artigos acadêmicos de verdade, publicar em revistas e o escambau. Bom, por vários motivos.

O primeiro é que este espaço é um hobby atualmente. Por isso, não preciso esquentar a cabeça com prazos de entrega, periodicidade, disponibilidade de livros, ABNT e così via. Depois, os artigos acadêmicos podem ser mais úteis e precisos, mas são naturalmente mais chatos, e com isso não vou atingir o público que eu quero. Além disso, para pesquisar seriamente, precisaria de mais tempo, e não posso largar minha atividade principal. Fazer pesquisa significa produzir novidade, o que não preciso fazer no meu blog. Outra coisa: não sou um nome conhecido para chegar na academia e dizer “publicaê”. E, final e principalmente, pesquisa demanda dinheiro.

Ora (direis), vá aos cofres públicos! Faça um bom projeto de pesquisa e requeira verbas às instituições de fomento, quem sabe você não consegue mamar nessas gordas tetas? 1. Não gosto de leite. 2. Financiamento gera obrigação. 3. Atualmente, não tenho vínculo empregatício com nenhuma instituição de nível superior. 4. Vou contar uma historinha.

Muito bem. Como já está bem decantado pela nossa operosa imprensa, vivemos uma crise sem precedentes na nossa história (o que não é verdade inconteste; basta que se tenha mais de 40 anos para lembrar bem da década de 80, mas não quero discutir política neste momento), gerando grandes contenções de gastos em todas as áreas onde o governo precisa injetar dinheiro. Algumas destinações de primeira necessidade, como saúde e educação, recebem quantidades brutais de verbas (se são bem empregadas, é outra história), e qualquer por cento que se reduza em seus orçamentos representa uma avalanche de (ainda) dilmas. Outras áreas não são tão agraciadas, para a nossa lamentação, como é o caso das pastas de Ciências e Tecnologia, mas, até mesmo pelo fato de não fazer ninguém morrer de fome diretamente, recebem cortes orçamentários proporcionalmente mais profundos. Tudo isso está lindamente explicado neste e neste vídeo do Canal do Pirula, e não vou tentar fazer melhor do que ele. Assistam lá e voltem cá.

Vejam como a discussão entre o financiamento da Ciência de base e a Ciência aplicada é importante. Não há como fugir do questionamento do uso prático de uma pesquisa científica, mas também não há como aplicar conhecimento se não o temos. Ciência de base inclui especulação, longas observações, cálculos complicados, tempo e mais tempo. É muito mais atraente falar sobre medicamentos, mas alguém teve que pesquisar sobre composições químicas antes disso; é atraente falar sobre cirurgias a laser, mas alguém teve que descobrir propriedades óticas primeiro; é atraente falar sobre carros elétricos, mas alguém precisou compreender o que é eletricidade um dia. Não se aplica Ciência sem se saber Ciência.

Mesmo assim, a Ciência de base ainda tem algum apelo e atrativo. Só em São Paulo, entidades como a Estação Ciência (fechado temporariamente), o Museu de Zoologia da USP, o Catavento Cultural e outros exibem a seus visitantes atrações como simulador de terremotos, fósseis, imersão em cavernas, corpo humano por dentro, modelos computacionais e, com isso, demonstram que a ciência de base desperta o interesse das pessoas até mesmo como espetáculo, porque são coisas que podem ser bastante curiosas e trazem respostas a algumas de nossas perguntas fundamentais. E são incríveis mesmo – uma pessoa cabeluda com a mão em um gerador de Van der Graaf sabe do que estou falando. Não é exatamente o melhor dos universos, mas é muito útil para cutucar o espírito científico e para divulgar a atividade acadêmica.

Mas o fato é que a grana está curta, e se já é difícil obter verbas para o financiamento das Ciências, que tem algum apelo junto à população, o que diremos do financiamento à pesquisa filosófica? Mais ainda: quem acreditará que pesquisar filosofia de base pode ser importante?

Sim, porque também temos essa diferenciação em Filosofia. Há áreas voltadas para a análise de atividades práticas, como a Filosofia Política, Filosofia da Educação e Filosofia da Ciência, e existe aquela Filosofia mais profunda, que discute o âmago e as causas mais primordiais das coisas, como a Metafísica, a Epistemologia, a Lógica, a Ética. A Filosofia de base discute temas abstratos como a verdade, o tempo, o ser.

E eu pergunto: quem conseguiria financiamentos para repropor o Ser? É claro que a pesquisa filosófica é bem menos cara do que uma pesquisa científica, que requer materiais, laboratórios, observatórios, equipamentos, cobaias e muitas coisas mais. Em Filosofia, os maiores gastos são com livros, que poderiam, em todo caso, ser acessados nas bibliotecas das próprias universidades. No extremo, será necessário adquirir um bom computador, contratar um tradutor, fazer algumas viagens e utilizar os serviços de algum biblioteconomista, de um historiador, de um arqueólogo, mas dificilmente atingirá o custo de uma pesquisa científica simples. Mas são custos que existem e que dificilmente podem ser suportados pelo pesquisador com seus parcos ganhos. E, de acordo com a natureza do objeto a ser pesquisado, o total auferido será zero.

Imaginem a seguinte situação: o conhecimento consagrado diz que a Filosofia nasce a partir dos gregos. Queremos investigar e repropor essa tese, e, para tanto, precisamos viajar para a África, berço mais antigo da humanidade. Precisaremos nos encaminhar para lá, detectar as fontes históricas, conversar com os acadêmicos locais e tentar extrair alguma sistematização do conhecimento que possa estar fugindo da base mitológica, à semelhança do que aconteceu na Grécia. Sendo semelhante e anterior o leque de temas propostos por essa primeva Filosofia, teríamos que perscrutar os caminhos que conduziram essas linhagens de pensamento aos gregos, se é que tal fato aconteceu. E com isso mudaríamos a data de nascimento do pensamento racional.

Isso tudo é muito lindo, mas vamos cair na pergunta pragmática: serve para quê? E a resposta não é muito animadora, já que, a princípio, serve “apenas” como conhecimento. Não haverá uma revolução científica, não haverá uma transformação histórica, não haverá uma reforma ética, não haverá a redescoberta da roda. Teremos mais saber, e somente o futuro dirá o que faremos com ele. A Filosofia, que já convive com especulações sobre sua utilidade, não tem grandes armas para se defender. E o agente de financiamento mete o fúnebre carimbo de “rejeitado”, selando com o túmulo o projeto de pesquisa.

Mas as coisas não são assim e já é hora de que haja uma melhor divulgação filosófica, incluindo os pensamentos mais fundamentais. Mencionei acima a Filosofia da Educação, que é indistinguível das correntes pedagógicas adotadas pela escola do seu filho, meu caro amigo. Construtivismo, Comportamentalismo, Criticismo e outras vertentes não sobrevivem sem a Epistemologia, área da Filosofia que versa sobre o conhecimento. Com relação à Filosofia Política, que é a discussão racional sobre as relações de poder, e que geram todas as discussões entre direita e esquerda, podemos falar em Marxismo, Monarquismo, Liberalismo, mas não podemos falar em nada disso sem ter em mente a Ética, que é a área da Filosofia que trata das relações humanas. E sobre Filosofia da Ciência, vou me alongar um pouquinho mais.

Os antigos gregos possuíam uma metodologia de investigação que se baseava na dedução, e que não dependia muito da experimentação e da observação, o que nos afasta dos métodos científicos como os conhecemos hoje. Quem primeiramente descreveu cuidadosamente um sistema em que múltiplas variáveis deveriam ser recolhidas e comparadas foi Francis Bacon, ainda no século XVII (já falei dele neste texto). Era o indutivismo, onde cada observação de um fenômeno era candidata a derrubar todo o conhecimento formado até então. A Ciência parte definitivamente para o empirismo, e esse método perdurou até o começo do século XX, quando Karl Popper, que mencionei no mesmo texto, introduziu o conceito de falseabilidade, uma das grandes características da pesquisa hodierna.

Basicamente, a diferença entre ambos é muito sutil. O empirismo de Bacon dá força a uma indução na medida em que encontre elementos que confirmem a tese. Por exemplo: uma minhoca vive na terra, duas minhocas vivem na terra, três minhocas... Bacon procura sempre mais minhocas para reforçar sua conclusão. Já Popper vira o foco: ele vai procurar a minhoca que não vive na terra. É o que ele chama de ponto de falseabilidade – uma circunstância que invalida a conclusão. Quanto mais testes sofrer a teoria, mais forte ela se torna. E mais ainda: uma proposição somente pode ter caráter científico se ela possuir esse ponto. Tudo o que não puder ser falseado, não é científico. É Filosofia, é Religião, é Metafísica, é Arte, mas não é Ciência.

Mas mesmo o sólido modelo de pesquisa de Popper não passa incólume a críticas e revisões. Paul Feyerabend, filósofo austríaco, por exemplo, faz críticas virulentas à tentativa de encerrar a Ciência em uma metodologia fechada. Para ele, toda a história de descobertas científicas está marcada por mudanças de rota, detalhes insólitos, acaso e tortuosidades que não podem, nem em sonho, ser previstas pelas folhas limpinhas de um método. O ponto em comum de todas as descobertas é um só – sempre que se tentar encaixar uma experiência em uma norma, haverá a possibilidade de se fazer um desvio dessa norma.

Algum problema nisso? De jeito nenhum, no pensamento de Feyerabend. Essa liberdade de acontecimentos é rigorosamente necessária para o surgimento do novo. Sob pena de não se progredir, os cientistas de escritório precisam supor mais, mexer mais, até mesmo sonhar mais. A regra é: o único método válido para a Ciência é o vale-tudo, chamado pelo pomposo nome de anarquismo epistemológico. Não se pode pautar unicamente pelo racional – é também necessário buscar no absurdo.

Claro que Feyerbend construiu suas teses na medida certa para “socar” a metodologia de Popper, mas muitas de suas assertivas são coerentes, e, principalmente, feitas para provocar e tirar a comunidade científica da comodidade.

Já a crítica de Thomas Kuhn, filósofo norte-americano, está ligada à falta de uma perspectiva histórica na aplicação dos métodos científicos. Isso porque o racionalismo que caracteriza a Ciência não a tira do lapso temporal. A Ciência existe no tempo como todos nós, e se transforma através dele, também como todos nós. E são essas transformações que fazem com que o conhecimento científico mude radicalmente. Para entender melhor, Kuhn lança mão do conceito de paradigma.

Paradigma é um conjunto de representações que formam um modelo consensual a ser seguido. Como existe um acordo entre todos os atores, o paradigma é a matriz a partir da qual toda a atividade científica evolui. Da formação de um paradigma e de sua aceitação, nasce a Ciência Normal, que nada mais é que o conjunto de atividades que seguem determinado paradigma. Veja a semelhança que Kuhn dá entre um paradigma e um dogma...

Acontece que Kuhn observa que, de tempos em tempos, surgem hipóteses que fogem aos ditames do paradigma e da ciência normal. A princípio, como o paradigma é bem consolidado, estas hipóteses são consideradas meros desvios e erros na aplicação da metodologia. Na medida em que vão surgindo mais e mais evidências que corroboram a hipótese destoante, o modelo começa a entrar em crise. E, na medida em que a crise se amplia, ocorre o fenômeno: o paradigma anterior explode, e surge um novo paradigma. Essa é a revolução científica, como chamada por ele mesmo. Esse repente no surgimento do novo paradigma faz com que a tese anterior seja defendida a todo custo pela maioria da comunidade acadêmica, e o convencimento, este se dá aos poucos.

Assistimos inúmeros destes casos na história da Ciência: antes de Darwin, o fixismo era normalmente aceito por gente do calibre de Linneu. Antes de Copérnico, todos achavam que Ptolomeu já tinha matado a charada com o geocentrismo (e mesmo Copérnico foi superado por Kepler). Antes de Pasteur, a geração espontânea era uma solução francamente aceita pela comunidade científica. E todos eles precisaram segurar a barra de montanhas de contestações. Ou seja, o paradigma novo surge repentinamente, mas sua aceitação é progressiva.

A falseabilidade de Popper e as novas propostas de Kuhn e Feyerabend não são transformações científicas; são epistemológicas, são filosóficas. São aplicadas para a Ciência, mas nascem da Filosofia, e daqueles questionamentos mais profundos: o que é a verdade? É possível conhecê-la? ISSO é filosofia de base, que deriva para uma Filosofia “prática”. Seria melhor prosseguirmos na dedução aristotélica e na indução baconiana para praticarmos Ciência? É onde estaríamos se a Filosofia não apontasse novas metodologias e caminhos. E, com isso, espero humildemente colaborar para diminuir a sensação de que a Filosofia é coisa inútil. Já me sinto melhor.

Portanto e finalmente, meus bons leitores, convido vocês a refletir sobre os indicativos que fazem decidir quais pesquisas devam ou não ser realizadas. O critério de utilidade é significativo, mas não pode ser definitivo, sob pena de ficarmos dando voltas e mais voltas ao redor do conhecimento disponível, sem grandes perspectivas de sair do lugar. Uma hora as ferramentas disponíveis se esgotam, e precisaremos novamente filosofar sobre as perguntas mais arquetípicas para encontrar soluções. Ou não?

Recomendações:

O canal do Pirula é excelente para quem gosta de discussões sobre Ciências. Suas séries sobre Criacionismo e suas explicações sobre temas como cladística e migração de espécies são primorosas. Vale a pena assistir (lembrando que vídeos longos não são um problema para mim).

https://www.youtube.com/user/Pirulla25

Feyerabend é, antes de tudo, um contestador. Seu livro parece pretender menos estabelecer uma metodologia (ou falta de) do que ser um libelo contra o cerceamento do livre pensamento científico. Afinal, tolher a liberdade do cientista significa impor alguns limites que podem dificultar o alcance da pesquisa.

FEYERABEND, Paul. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.

E, finalmente, a obra-prima de Thomas Kuhn, onde está exposta sua tese de vinculação da história ao progresso científico.


KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2006.