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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O café filosófico do quotidiano – a lembrança dos velhos professores e a escala do conhecimento rumo ao amor

(Como podemos chegar ao significado do amor em si mesmo?)

“Ou não consideras que somente então, quando vir o belo com aquilo com que este pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir não sombras de virtude, porque não é em sombra que estará tocando, mas reais virtudes, porque é no real que estará tocando?”

Diotima de Mantineia

Olá!

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Sempre que se rememora o passado, costumamos fazer romantizações. Isso acontece por causa daquele velho filtro que nos faz trazer de volta preferencialmente as memórias boas, deixando de lado aquilo que nos incomoda. Eu, por exemplo, lembro com carinho dos dias de ver o sol nascendo por trás do morro da Rua Solidônio, que fazia as casinhas resplandecer seus telhados romanos e suas antenas de tevê, mas esqueço completamente do frio e do ódio que dava acordar às 06:00 para ir à escola, ou da correria de sair atrasado, ou do estresse de chegar à escola com uma tarefa atrasada. Tudo isso é meio sublimado, por mecanismos psíquicos que não cabem discutir aqui (mas que poderemos fazer em outro momento).

O mesmo se aplica, fartamente, ao café. Se você perguntar por aí, 99% das pessoas dirão, com voz embargada e lágrimas penduradas nos olhos, que a vozinha fazia o café em coadores de pano do tamanho de ceroulas, escoando o produto para dentro de bules de ágata já desgastados, e que ficavam fumegando e espalhando o aroma pela casa inteira. Isso pode ser verdade, mas fica escondido na gaveta da memória o fato do quão pouco prático era o método, e o quanto as boas velhinhas apreciariam se pudessem automatizar um mínimo esse processo todo.

Não deu tempo de aplicar à vecchia nonna mia, mas tanto minha mãe, quanto minha madrinha achavam essa história uma inútil caceteação, que incluía lavar sacos de pano cada vez mais fedidos, ocupar a boca do fogão com um bule pesado e quente, e ficar escoando aos poucos a água pelo pó enquanto os folgados homens da casa enchiam a cozinha com a fumaça de seus cigarros, muito menos poética que os vapores do café. E não ficaram nada tristes quando puderam ter uma bela cafeteira elétrica, equipada com filtros descartáveis e quantidade automática de água, caindo em um bule refratário de fácil asseio.

Apreciadores de café especial costumam olhar para esses aparelhos com desdém, dada a retirada de cuidados que só são possíveis com supervisão manual. Já expliquei um monte de vezes não se tratar de chatice ou pernosticismo puro e simples, mas de busca por um resultado final melhor. Eu não tenho cafeteira elétrica, por uma questão estética, mas o senhor meu sogro tem, e, nos dias em que vou na casa dele, é o método que tenho à disposição. Melhor com ele do que sem, vamos passar um cafezinho através da modernidade.

A cafeteira elétrica virou um daqueles eletrodomésticos obrigatórios, que constam na lista de qualquer casamento, em razão da facilidade no preparo. Não costuma combinar bem com cafés especiais, tendo em vista que seu funcionamento é todo automatizado: colocou o pó, colocou a água, colocou o bule e colocou o dedo no botão, o processo se inicia e presto. Aí as sutilezas dos bons grãos acabam indo para o vinagre.

Entretanto, há as suas vantagens, como já mencionei lá em cima. A facilidade de operação, a compactação do conjunto, a obtenção rápida do produto e o permanente aquecimento sempre podem ser alegados pelos consumidores que só querem ter um cafezinho à mão, ou, como meus falecidos parentes, precisam de litros prontos muitas vezes por dia.


Nome do utensílio: Cafeteira elétrica

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/fina

Dinâmica: Alimenta-se o depósito de água com a quantidade total indicada para o volume desejado. Insere-se o pó em um filtro de papel do modelo da máquina utilizada (há modelos com filtro de nylon). Deita-se o bule sob o escoadouro e liga-se o aparelho. Como em geral há um prato de aquecimento, mantem-se o utensílio ligado até o consumo total do líquido. 

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média/alta

Nível de ritual: Baixo

Cheguei a pegar a cafeteira da falecida dona Magdalena, mas ela ficou encostada e ocupando espaço. Então mandei o aparelho para uma igreja perto de casa, onde terá melhor proveito. E ela foi para o fundo do quintal do esquecimento.

Em alguma dessas vezes que esperava escoar o café do sogrão, ouvi a mãe da patroa lhe falando sobre a morte de uma das professoras que davam aula na escola de sua infância. O tom de lamentação me tirou do fluxo de atenção para me colocar no meu habitual “plethoverso”, e me pus a recordar de muitos dos meus professores, como quem recordava dos cafés escoados no pano: Amélia, a primeira, e que depois veio a ser minha vizinha. As do primário: Néli, Yolanda, Marina, Neusa. Alguns do ginasial: Rosalina, Luiza, Osvaldo, Vera Lúcia, Catarina favorita da galera por suas calças justas, a hippie Marina, Messias que jogava um truquinho com a gente. No colegial - Nadeo, Irineu, Lalau, Nelson, Teka… Na faculdade, o vecchio Grecco, o ex-padre Jairo, o gigante Ricardo, o sofisticado Fábio… E forcei a cabeça, lembrando de mais ninguém. Que coisa.

Se você fizer o mesmo exercício, provavelmente o mesmo te acontecerá, ocasional leitor, bissexta leitora. A não ser que você que me lê esteja em pleno exercício acadêmico, a memória vai se esvaindo e somente os mais significativos vão ficando, pelos melhores ou piores motivos. O velho Messias, por exemplo, ao invés de nos mandar para a diretoria pelo truco em hora de aula, sentava-se para soltar seus discretíssimos gritos de ladrão. Já a Heidi de Cobol me botou suspensão porque escrevi um palavrão no código fonte do teste de login, um exagero que me custou três provas (e o óbvio custo da segunda chamada). E quanto aos demais, necas.

Normalmente fazemos grandes dedicatórias aos professores quando nos formamos, dentre lágrimas e músicas do Milton Nascimento, porque sabemos do esforço que os mestres nos tributaram, mas, como disse, isso passa rápido. Porém, mesmo com o esquecimento, o conhecimento fica lá, ainda que na forma de discreto tijolinho na construção total.

O fenômeno do conhecimento não fica adstrito aos reles mortais, como nós. Também os grandes mestres tiveram os seus professores, porque o completo autodidatismo é muito raro. Claro que uma educação formal ampla é algo relativamente recente, e esse modelo de educação era bem distinto no passado, atingindo pouca gente e mais reservado a pequenos grupos, quando não a uma única pessoa, o tal do preceptor. Alguns chegaram a ficar famosos, como Aristóteles em relação a Alexandre Magno, ou Lêucipo com o fedelho Demócrito, mas a verdade é que a grande maioria teve seu nome perdido no tempo.

Isso pode provocar algumas injustiças, porque várias das intervenções desses professores têm influência significativa na formação do pensamento de grandes mestres, e hoje quero exemplificar com um caso célebre, mas que não resultou em relevo para seu emissor. Será que é porque se trata de uma mulher na antiguidade clássica? Talvez. Vamos falar de Diotima de Mantineia, professora de ninguém menos que Sócrates.

Essa sacerdotisa e pensadora aparece no Banquete (Simposium) de Platão, pela boca do próprio Sócrates, que se coloca no papel passivo de investigado que ele mesmo costuma aplicar no seu método maiêutico. Não se sabe ao certo se é uma figura real ou uma personagem metafórica, mas dado o caráter pouco favorável às mulheres da cultura grega de então, é de se supor que, ainda que o fato não tenha ocorrido ipsis litteris, tenha seu fundamento real.

O contexto em que Sócrates recorda dos ensinamentos recebidos de Diotima é o questionamento sobre o amor ocorrido durante o célebre banquete. Mas, antes de ir a ele, vou dar uma passeada rápida pela teoria das formas de Platão, porque uma está intimamente ligada a outra.

Observe o mundo ao seu redor. Eu, por exemplo, estou na minha cozinha agora, e olho para a mesa, e vejo que seu tampo é retangular. Olho para um copo e percebo que ele é cilíndrico, assim como a caixa de bombons que não posso comer é cúbica. Ora, essas características tornam alguns objetos semelhantes a outros, mas sempre é possível verificar que, entre eles, essa coisa em comum é redutível à perfeição. Por exemplo: a barra de manteiga, a caixa de chá e o sabão em pó têm o mesmo formato de paralelepípedo de uma peça de macadame. Só que, olhados na lupa, é só uma semelhança, já que nenhum passa por um mero teste de régua. Eles têm essa forma, mas o paralelepípedo perfeito só há geometria, ramo da matemática destinada às medidas. E a matemática não é algo que desfila nas ruas em suas fórmulas, mas na concreção dos objetos, todos eles imperfeitos, mesmo a melhor de suas representações, como um traçado técnico em uma prancheta – trouxe para o mundo sensível, trouxe defeito. Sendo assim, concluímos que a perfeição não existe no plano perceptível pela sensibilidade, mas neste espaço racional administrado pelo intelecto.

A questão é que é mais simples de se entender a teoria das formas pela via de objetos palpáveis, mas ela é bem mais profunda, tendo como premissa que abstrações também partem de um modelo de perfeição para aplicações da vida prática. Por exemplo, temos uma forma de justiça perfeita, que, uma vez colocada nas situações mundanas, não se aplica por inteiro. Coragem, altivez, rapidez de raciocínio, misericórdia e tantos outros significados abstratos são como cilindros e esferas: também possuem formas perfeitas que se plasmam imperfeitamente no mundo concreto. Assim é com toda gama de sentimentos e emoções, incluindo o amor.

Nossa limitação em perceber as coisas em si mesmas tem relação com a famosa alegoria da caverna, onde Platão compara nossa capacidade de perceber as ideias imutáveis como sombras projetadas na parede: imperfeitas, indefinidas, obnubiladas, sujeitas à mutabilidade própria de uma visão distorcida. Entretanto, essas sombras são o início do contato que temos com a perfeição das ideias, porque, mesmo assim sendo, elas contêm em si algo do seria o objeto perfeito, e participam das formas reconhecíveis pela razão.

Esse processo de associação dos objetos com suas formas se dá na forma de reminiscência. No entendimento de Platão, sabemos reconhecer um objeto como sendo o que é porque temos suas formas essenciais registradas em nosso intelecto, e isso acontece porque resgatamos essa forma original e a moldamos no objeto coletado pelos sentidos. Ainda que de forma imperfeita, os sentidos captam a essência gravada no mundo das ideias, ou seja, a forma perfeita.

O ensinamento de Diotima está relacionado a isso. A premissa fundamental é que temos a sensibilidade para adquirir o mundo, e a intelecção, embora possa atingir maiores níveis de conhecimento, precisa do arcabouço sensível para iniciar a escalada racional, e isso se faz através dos impulsos mais basilares, mais próximos da animalidade. Fundamentalmente, Diotima entende que a busca do amor se identifica com a busca pelo belo, e que isso não se faz com uma conexão direta, mas em um caminho que se sobe por degraus, a cada passo se conectando um pouco mais com a forma perfeita. Por isso, essa tese ficou conhecida como scala amoris, ou seja, escada do amor.

É um nome bonitinho, e parece aqueles filmes da Sessão da Tarde, onde uma turma do barulho causa as maiores confusões para ajudar o jovenzinho apaixonado a conquistar a namorada que não liga para ele, mas a realidade nada tem a ver com isso, pertencendo ao peculiar olhar epistemológico platônico. O mundo da sensibilidade é a porta de entrada para o universo intelectivo, então é através dele que pegamos o degrau mais baixo da escala do conhecimento.

No caso do amor, esse primeiro patamar se dá quando observamos um corpo e dele percebemos a sua beleza. O exemplo mais raso que eu posso dar é do rapazinho que acompanha o molejo sensual da garota que passa pela rua. Esse é um olhar erótico mesmo, mais basilar, cheio de segundas, terceiras e quartas intenções, porque, embora todo distante da perfeição do amor, está prenhe de sua semeadura, e, como se atribui a Confúcio, a maior de todas as caminhadas começou pelo primeiro passo. Ao estender seu olhar para um segundo corpo, também ali será encontrada a beleza e assim por diante, de forma a se compreender que ela não é exclusividade de um só corpo, mas que aquela que está em um é irmã da que está em outro, tem sua mesma natureza. Já aqui é possível abandonar as paixões implacáveis e possessivas por um único corpo belo. O próximo degrau está no reconhecimento de que, para além dos corpos, a beleza se encontra de forma ainda mais aperfeiçoada nas almas.  E por quê? Porque, ao contrário dos corpos, as almas são eternas e, desta forma, estão mais próximas à perfeição do que estes últimos. Sendo assim, reconhecer a beleza contida nas almas significa ter contato com a beleza perene, e não com a transitória existente nos corpos.

Sobe-se um pouco mais para contemplar o principal produto das almas: as suas ideias. O laboratório humano e seus ofícios, as suas leis e, finalmente, sua capacidade de obter ciência derivam diretamente da beleza que há na intrincada realidade que rodeiam corpos e almas. Isso conduz a outra instância da beleza: as reflexões e os discursos consequentes. O que produz a beleza da sabedoria é o amor que se tem por ela. Esse é o ponto em que se verá que a beleza que se vê no intelectual é muito superior que a beleza que se vê no físico, e, aparentada do amor, estar em seus fundamentos.

Por fim, passadas todas essas etapas, o sábio poderia se defrontar com aquela beleza divina, do belo pelo belo, do belo em si mesmo, o Belo com letra maiúscula, despido de todas as circunstâncias da sensibilidade, partilhado com o próprio divino. Esse é o belo de quem subiu a ladeira da caverna e não vê mais sombras, mas que conhece de fato uma perfeita da beleza contida no mundo das ideias, assim como alcança o círculo perfeito da matemática. Está no topo da scala amoris, e conhece o amor em si mesmo.

Como eu já disse, a existência de Diotima de Mantineia é incerta. Se o próprio Sócrates já é objeto de discussão, uma sacerdotisa cuja única fonte histórica é o Simposium fica ainda mais com os parênteses em aberto. Torna-se importante na medida em que se procura, hoje em dia, trazer a claro a importância nunca dada às mulheres na Filosofia, mas obviamente se ela é uma pessoa de carne e osso, se é uma personagem criada para servir de escada a uma tese, se ela existiu, mas não o diálogo em si, pouco importa. Já aqui temos um exemplo do que Platão dizia quando a busca pelas essências deve prescindir do corpóreo: o que importa é, neste caso, a ideia em si mesma.

Sendo assim, bom é que apuremos nossas recordações, porque isso faz dar importância real aos nossos professores, ao lugar das mulheres no conhecimento e que românticos sacos de coar são agradáveis para quem bebe o café, e não para quem o faz. Uma maquininha, às vezes, não é um mal negócio quando gostamos de nossas avós. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Já citei o Simposium outras vezes, mas vale fazer de novo:

PLATÃO. O Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2015.



terça-feira, 4 de julho de 2023

O galo de Asclépio não é tão prosaico quanto parece

(Contexto é tudo na interpretação de fatos e fenômenos. Quer dizer… conhecimento também é) 

Olá!

Eu ia descendo pelos lados da praça Clóvis para almoçar quando vi a cena, das mais prosaicas, comezinhas, consuetas, corriqueiras, quotidianas, chãs, vulgares, banais. Uma mocinha, bastante jovem, chegou para um grupo de policiais e perguntou onde ficava o Sesc* do Carmo. A cena me rememorou imediatamente a infância. Sempre que eu ia à "cidade" com minha mãe, ela recomendava que eu procurasse um guarda, caso me perdesse. Meu avô, acidíssimo, dizia que era mais seguro procurar um ladrão, talvez movido pelo sabor das borrachadas nas costas. Tirante os maus bofes do velho, estava certa a genitora. Mas a cena da menina me chamou a atenção pela resposta. Um dos homens lhe disse que deveria pegar o metrô da linha vermelha, ir até a estação Itaquera e de lá pegar o ônibus tal. A mocinha em tela olhou o grupo com uma cara de interrogação flagrante, como se dissesse que tinha acabado de chegar de lá. Tivesse perguntado a mim, eu lhe diria para entrar na segunda rua à direita, andar por uns duzentos metros até chegar perto de uma igrejinha, e o Sesc é praticamente em frente. Mas outro guarda lhe disse para entrar na segunda rua à direita, andar por uns duzentos metros até chegar perto de uma igrejinha, e o Sesc é praticamente em frente. O primeiro policial confundiu os Sesc's: o Carmo é na rua do Carmo, rua histórica do centro de Sampa, e o Itaquera é, ora, em Itaquera, parte integrante do Parque do Carmo, o mais conhecido da região e um dos maiores da cidade.

De uma cena tão comum, vem o vírus filosófico causar-me os espasmos. Como somos facilmente confundidos, de modo até mesmo inocente... É óbvio que o policial não queria sacanear a guria, mas o teria feito, caso estivesse só. E eu mesmo já me peguei fazendo coisas semelhantes. No meu pedaço, há duas ruas chamadas Conde, a de Sarzedas e a do Pinhal. Como a primeira é uma meca dos artigos evangélicos, muita gente me admoesta perguntando por ela. "Sabe dizer onde fica a Conde?", é a pergunta frequente. Eu respondo pelo óbvio, mas não posso assegurar qual Conde o transeunte procura. Menomale que são muito próximas, mas hoje pergunto qual delas, para não obrigar o contribuinte a atravessar o complicado miolinho da Conselheiro Furtado.

Mas não é bem sobre isso que eu queria dizer. Antes de estudar filosofia, eu já gostava de filosofia, e lia bastante coisa sobre o assunto. Uma delas era a obra de Platão, especialmente os diálogos socráticos. Um deles, o Fédon, descreve os últimos instantes do mártir grego, e tem uma conclusão que eu, antes do período acadêmico, achava insólita. Acompanhem o trecho final:

“Sócrates declarou que começava a sentir suas pernas pesarem e se deitou com o rosto para cima, como lhe haviam ordenado. O homem que lhe dera o veneno se aproximou e, após ter examinado por um momento seus pés e pernas, apertou-lhe com força um pé e perguntou-lhe se o sentia. Sócrates respondeu que não. O homem apertou-lhe os tornozelos e foi subindo as mãos, mostrando-nos assim que Sócrates começava a esfriar e tornar-se rígido. Quando o tocou de novo, disse-nos que no instante em que aquilo chegasse ao coração, Sócrates nos deixaria. Seu baixo-ventre já se encontrava rijo e frio quando, ao descobrir o rosto que havia coberto, proferiu as seguintes palavras:

- Críton, devo um galo a Asclépio. Por favor, paga minha dívida, não te esqueças.

- Farei isso - respondeu Críton - Tens mais alguma coisa para me pedir?

Sócrates não respondeu a Críton. Um momento depois, teve um tremor. O homem do veneno deixou-lhe o rosto a descoberto: os olhos estavam fixos. Críton aproximou-se e fechou-lhe a boca e os olhos.

Foi desta forma, ó Equécrates, que nosso grande amigo faleceu. Podemos afirmar que foi o melhor homem entre todos que conhecemos, o mais sábio e o mais íntegro”.

Eu fiquei um pouco desconcertado com essa conclusão. Que coisa estranha para se pensar na porta do forno. Há várias últimas palavras célebres: "Pai, em tuas mãos entrego meu espírito" teriam sido as últimas palavras de Jesus. "Eu saio da vida para entrar na história" é o pré-suicídio de Getúlio Vargas. "Espero a saída com alegria, e espero nunca mais voltar", seriam as últimas palavras do diário de Frida Kahlo. E Sócrates, o grande sábio, o fundador do pensamento ocidental, ao invés de uma lição moral definitiva, fala de um galo. Coloquei duas hipóteses: ou Sócrates já se encontrava em delírio, e com isso estava se incomodando com coisas de relevo zero; ou ele era tão ético, mas tão ético, que nem queria deixar a conta da avícola sem pagar, mesmo sabendo que estaria morto em instantes. É algo como acontecia nos tempos de eu-menino. Quem vê os grandes mercados e os inúmeros postos 24 horas não imagina que lá pela década de 70 tudo fechava no domingo, até mesmo em Terra da Garoa. Deu meio-dia do sábado, só na segunda. Isso acabava por formar uma cadeia de solidariedade entre vizinhos quando se precisava de uma coisa qualquer no domingo. Minha madrinha pedia e lá ia eu: "Dona Elza, tem uma lata de leite moça?", "Dona Nair, tem um copo de óleo?", "Dona Lúcia, tem uns três ovos?", com o complemento já decorado - a gente devolve na segunda. Ninguém era prevenido o suficiente, e ocorria de donas Elza, Nair e Lúcia virem pedir leite moça, óleo ou ovos lá em casa também, com a mesma promessa de devolução na segunda. Cumprir o combinado era importante por dois motivos: manter a honra (e não ficar falada) e o crédito. Fico imaginando Sócrates recebendo uma visita inesperada no domingo e indo à casa do seo Asclépio pedir um galo para o almoço. Só que, pelo jeito, ele não devolveu na segunda.

Mas essa foi só aquela anedótica impressão inicial. Há muito mais por trás dessa história, incluindo uma prova adicional da inocência de Sócrates. Vamos dissertar sobre.

Como bem sabemos, a cultura grega era predominante no mundo ocidental nos tempos socráticos. Ela era tão bem costurada que até mesmo um império dominante como o romano recebeu influências preponderantes sobre sua própria cultura, incluindo aí a religião. O paganismo romano era uma cópia quase fiel da religião pública grega, que incluía um amplo panteão de divindades, onde cada deus regia algum aspecto do cosmos. Normalmente, temos uma correspondência entre os deuses gregos e romanos que se materializa quase que somente na tradução dos nomes. Alguns desses nomes ficaram mais marcados no original grego; outros na língua românica e há ainda aqueles que se dividem. Assim, o Zeus grego é correspondente ao Júpiter romano, que é mais conhecido como planeta do que como deus - no plano das deidades, o grego é bem mais conhecido. Já a Vênus romana é um pouco mais falada que a Afrodite grega, em parte por suas famosas esculturas e pinturas, enquanto Eros e Cupido tem um equilíbrio, dependendo do sentido que se quiser aplicar - se o assunto é psicologia, só dá Eros; se for representação do enamoramento, aí é com Cupido. O seo Asclépio não é um chacareiro que empresta galos, mas um semideus, filho do deus Apolo e da humana Coronis, e que é um protetor dos médicos. Segundo o mito, sua mãe foi morta pelo seu próprio pai, que, arrependido, colocou o menino sob os cuidados do centauro Quiron, que lhe ensinou todas as artes de cura disponíveis no conhecimento de então. Asclépio superou o seu mestre, de modo a tornar sua atividade incômoda, já que salvava todos aqueles que lhe chegavam às mãos. Isso estava despovoando o reino de Hades, o deus dos mortos, que foi reclamar com Zeus, o deus maior. Como era costume naqueles tempos antigos, Zeus passou a faca no pobre Asclépio (melhor dizendo, deu-lhe com um raio na cabeça), fazendo-o virar uma constelação**.

Seu nome romano é Esculápio, o que elucida muita coisa. Nome muito mais famoso que Asclépio, seu nome está no símbolo da medicina, o Bordão de Esculápio, um bastão envolvido por uma serpente. Nele, o bastão tem o sentido de domínio, como os cajados dos pastores, que os utilizam para controlar suas ovelhas. Sabe de onde vem a palavra "bordoada"? Vem disso. Já o réptil representa a cura, pela renovação de pele que faz de tempos em tempos. A cobra sai de sua pele antiga como se estivesse renascendo, e é bem comum o pessoal confundir o couro abandonado com uma cobra viva, tamanho o medo que o bicho causa. Além disso, rememora-se que o veneno, uma vez atenuado, torna-se fármaco. Um bom exemplo moderno é o Captopril, extraído como uma cópia do veneno da bothrops jararaca, cuja principal ação é derrubar a pressão arterial da vítima. Bem dosado, o medicamento controla a hipertensão. Desta forma, fica representado o controle sobre o dualismo doença e cura, que era a arte do semideus em questão.

O que isso nos ajusta para a cena final de Sócrates? Que não estamos diante de uma simples restituição de um objeto tomado em empréstimo, mas de um sacrifício. Essa palavra significa "tornar algo sagrado", e, no sentido mais apurado, de tomar um galo comum dentre todos os outros e torná-lo exclusivo da divindade a quem se oferece. O porquê do surgimento desta tradição é muito difícil de obter, eis que envolvem práticas antiquíssimas e multifatoriais. Algumas das explicações envolvem a privação de algo com valor para quem faz a oferta, a doação de uma espécie de força intrínseca da vida que se oferece e uma forma de partilhar alimento entre os deuses e os homens. No sentido prático, entretanto, quem dança é o bicho.



Todavia, o fato de que Sócrates demanda ao amigo Críton que lhe ofereça um sacrifício, muda em muito a justiça da penalidade que lhe foi aplicada. Temos dois itens em sua acusação: desvirtuamento dos jovens, a quem imputa ideias transgressoras; e impiedade, consistida nos desvios à religião oficial.

Ora, a oferenda de sacrifícios não foi uma invenção socrática. Ela é, como eu disse, uma prática imemorial, de complicado desvelamento das origens, e que era prescrita através de ritos bem elaborados no antigo paganismo grego, não consistindo em um rito particular que podia ser levado a cabo a bel-prazer de quem se dispusesse a realizá-lo. Uma oferenda a Esculápio pode ter dois significados. O mais óbvio deles é um agradecimento por uma cura. Não temos notícias sobre padecimentos físicos relevantes, mas era um costume semelhante aos que têm os cristãos, que fazem promessas a santos dedicados a doenças. Sendo um especialista em curas, Esculápio poderia ter sido procurado para mitigar eventuais dores, e, em troca, Sócrates teria oferecido o tal do galo. Mas há uma possibilidade mais profunda, que coaduna com os dizeres de Nietzsche sobre Sócrates. Acompanhem.

Como bem sabemos, Nietzsche não gostava nadinha de Sócrates. Segundo o alemão, é com a ética socrática que a vida instintiva dos trágicos gregos foi abandonada em troca do racionalismo, uma forma de ver e pensar o mundo sob o ponto de vista dos fracos, dos fracassados e dos menos adaptados. A obrigação que Sócrates repassa para Críton é um epitáfio de toda a lógica que se inicia com o socratismo. Vejamos o que ele diz na Gaia Ciência:

“Eu gostaria que também no último instante da vida ele ficasse calado - talvez pertencesse então ainda a uma ordem mais alta de espíritos. Mas, se foi a morte ou o veneno ou a devoção ou a maldade, algo lhe soltou a língua naquele instante e ele disse: ‘Ó, Críton, devo um galo a Asclépio’. Essa ridícula e terrível última palavra significa, para quem tem ouvidos: ‘Ó, Críton, a vida é uma doença’".

Com seu estilo peculiar, Nietzsche nos dá uma boa dica e pode estar certo. Se pensarmos que Sócrates vivia um momento de extrema injustiça, e que ele sentia na pele algo que via pelo mundo, e que, pior ainda, via o desconhecimento daqueles que deveriam conhecer o que é a justiça, é muito lícito pensar que a sua condenação era parte de uma imensa doença, e que a morte era a sua cura almejada. É bem verdade que Nietzsche via tudo isso sob um ângulo absolutamente crítico, um desperdício de energia e de vida, mas não há como não reconhecer que, independentemente de quem tem razão, o fim de Sócrates denota, no mínimo, um erro daquela sociedade, do seu sistema de coisas e, partindo da premissa de que os homens são estruturalmente iguais, repetível em qualquer lugar. A vida é uma doença, diz Nietzsche sobre Sócrates, e, se assim o é, faz bem o grego em render sacrifícios ao deus que o liberta do mal.

Essa é uma das provas de que a acusação contra Sócrates não pára em pé, e como sua morte rompe com qualquer justiça. Isso o aproxima de outros mártires, como discorri neste texto, e falseia a tese de que ele não rendia culto aos deuses da cidade. Talvez tenha sido, nesse sentido, um ato mais de didatismo do que verdadeira devoção, e, com isso, obtendo um sentido mais autêntico do que a restituição de uma mera lata de leite moça, como eu cheguei, tolamente, a pensar. Isso porque contexto e conhecimento precisam se combinar para que não pensemos baboseiras. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

PLATÃO. Fédon. In: Platão. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Col. Os Pensadores.

*Para quem não sabe, o SESC é o Serviço Social do Comércio, uma entidade mantida pela iniciativa privada com dinheiro público para manter ações educativas e culturais.

** A constelação de Ofiúco, da qual faz parte Esculápio, é pedra no sapato dos astrólogos, porque, estando entre as constelações de Escorpião e Sagitário, deveria ser um 13º signo do zodíaco.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Navegações de cabotagem - o Parque Tanguá de Curitiba e a Alegoria da Caverna colocada em contexto

(Vamos jogar a preguiça fora e contextualizar melhor a Alegoria da Caverna).

"A definição mais precisa que temos da Filosofia ocidental é a de que ela não passa de uma sucessão de notas de rodapé da obra de Platão " - Alfred Whitehead

Olá!

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Conforme falei no meu último texto sobre Curitiba, ela é uma cidade que se caracteriza pela presença do verde. Isso significa que, para dar presença diária na vida das pessoas, um parque tem que estar integrado ao bairro onde se localiza, sem a necessidade de ser grande e mirabolante. Mas não há necessidade que não existam espaços maiores, mais exuberantes, e estes também existem nesta casa, e são bastante interessantes e inspiradores. É o caso do Parque Tanguá, e vou pincelar um pouco sobre ele hoje.

Localizado originalmente em uma área degradada da cidade, onde existiam pedreiras, o Tanguá é um projeto que funde recuperação da flora original e diversidade paisagística, na melhor tradição dos jardins botânicos, desde a sua entrada.

Um mero detalhe curioso: bem na entrada do parque havia um lindo carrossel veneziano, daqueles à moda antiga, com música circense e repleto de espelhos e gravuras.


Um jardim de estilo francês é a principal marca da parte superior do conjunto arquitetônico. Ele homenageia um artista curitibano de renome internacional, Napoleon Potyguara Lazzarotto, mais conhecido simplesmente por Poty, cujas principais obras foram as gravuras dos livros de Dalton Trevisan, outro curitibano ilustre.

Como ainda era época de Natal, havia uma grande árvore cônica após a passagem do espelho d’água, e o tempo fechado permitiu que ela fosse acesa mais cedo do que o normal. Esta árvore fazia parte do circuito da Prefeitura local, que as espalhou por toda a cidade.


O parque é caracterizado por um grande desnível geográfico. Do belvedére, emergem plataformas que permitem avançar sobre o abismo que há entre a parte alta e o baixio.


Mais alto ainda ficam as torres do mirante, de onde é possível ver não somente todo o parque, mas uma boa parte da cidade de Curitiba.


Na medida do possível, o reflorestamento com a flora original permitiu que a bacia norte do rio Barigui fosse novamente protegida, além de resguardar alguns dos exemplares mais intrínsecos do Paraná, as araucárias.


Embora o cuidado paisagístico envolva a manutenção das formas originais, muita coisa está banhada pela mão humana, que tem um duplo viés: a negatividade da destruição imponderada e a vontade de recuperá-la. Há bastante coisa que saiu do eixo pela ação humana, e que só voltou por ela também.


O resultado é belíssimo, com uma cascata de quase setenta metros que parte do belvedére, melhor observada pelo bistrô que serve a carne de onça, prato típico de Curitiba.


Na flor da água, há um túnel escavado na rocha, que liga os dois flancos da lagoa.

Ele tem algo em torno de 50 metros e dá uma virada visual no parque, podendo ser acessado através de um deck de madeira que parte das proximidades do estacionamento.


Túnel e caverna são coisas semelhantes, com a diferença nada sutil de que um tem saída, enquanto o outro, não necessariamente. E como um remete ao outro, é difícil não lembrar de um vendo o outro. Por conta disso, quem milita na área de filosofia vê um retrato desses e imediatamente se sente remetido à Alegoria da Caverna de Platão.

Ora, essa é, na verdade, uma dívida da dívida que eu tenho com vocês, meus bissextos leitores. Tempos atrás, havia admitido que eu estava em falta com a audiência por tardar em falar sobre a alegoria da caverna, e acabei redigindo a peça que vocês podem ler aqui, e recomendo que o façam, por amor à concatenação lógica. O grande problema é que, embora o texto baste em si mesmo, fica no ar uma pergunta importante de ser respondida: o que Platão queria responder com essa metáfora? A alegoria da caverna prima muito por seu aspecto epistemológico, que é o mais usado por professores para fazer ilustrações aos seus estudantes, mas há todo um conjunto de circunstâncias que leva Platão a construí-la e que passa pela Filosofia da Educação e, especialmente, pela Política. Vamos destrinchar.

A alegoria da caverna está inscrita na obra “A República”. Embora o tal mito seja sua passagem mais célebre, há um pano de fundo mais abrangente a lhe costear, que é o conceito de justiça. De acordo com o hábito platônico, ele coloca o protagonista Sócrates a desfiar sua maiêutica, o método dialético que consiste em colocar em xeque um conhecimento preestabelecido e fazer surgir dele uma nova ideia (falo mais sobre o tema neste texto).

A obra está na conhecidíssima forma de diálogo*, onde um dos interlocutores sempre é Sócrates, e que debate com jovens, velhos, doutos e simples. A fórmula é aquela da maiêutica: uma pessoa possui uma firme opinião formada, e atribui a ela valor de verdade. Quando defrontada pelas oposições socráticas, começa a claudicar - será expressão de conhecimento, ou não passa de doxa, a boa e velha opinião, tão sujeita a erros? No caso da justiça, entre os diversos interlocutores, vários argumentos são apresentados para lhe dar fundamento:

·         Dar a cada um o que lhe pertence;

·         Fazer bem aos amigos e mal aos inimigos;

·         A conveniência do mais forte;

·         Ser injusto, mas parecer justo (utilidade).

Sócrates refuta cada uma dessas definições colocando-as em condição absurda, como tanto gostava de fazer. Ao fazê-lo, conduz o roteiro para a extensão da justiça do homem para a sociedade, porque é nela que está em ponto maior, e aí começa a construção de sua teoria sobre o estado ideal. Fundamentalmente, este seria dividido em três classes, articuladas entre si para o perfeito funcionamento do todo: os artesãos, os guerreiros e os guardiães. Aos primeiros, caberia o trabalho mais básico: a obtenção de alimentos, confecção de vestimentas, construção de habitações e tudo o mais que demandasse um ofício com um mínimo de especialização, obtido por aprendizado e vivência; aos guerreiros, obviamente, caberia a proteção do território, brando no trato interior, animoso contra o inimigo. Aos guardiães, caberá o governo da cidade, incluindo, naturalmente, a distribuição da justiça em um plano mais alongado, menos baseado nos indivíduos, mais no benefício à sociedade como um todo. É de se notar como a noção de justiça como virtude do indivíduo vai se estendendo a um ponto mais institucional, assemelhado à função judiciária como conhecemos em um estado constituído.

Essa extensão do conceito de justiça como virtude leva a uma comparação entre o funcionamento do estado e da alma. Cada cidadão deverá ser guiado por sua aptidão para exercer sua função social, da mesma forma que há diferentes funções no espírito : há uma porção racional que tem a função de conduzir e equilibrar as ações do indivíduo, um aspecto volitivo que impulsiona os apetites e desejos, e uma parte do ímpeto, que leva à ação em si. Quando essas três partes atuam harmonicamente, todo o organismo ganha, porque nem será incontroladamente impetuoso, nem se resguardará de qualquer ação, nem se dominará unicamente pelas vontades. Aplicada à sociedade, essa regra traz o melhor conceito de justiça: a harmonia entre as diferentes classes da cidade.

Daí, surgem dificuldades. Para que o guardião exerça efetivamente a justiça, é preciso que receba educação apropriada e que não possua bens próprios, maior corruptor de virtudes conhecido. Toda a classe dirigente deve comungar de bens comuns de acordo com a necessidade da classe, e não do indivíduo. Nesse condão, também não deve constituir família, para que não aja no interesse de seus descendentes. Plasmando para a atualidade, vejam como os governantes ocupam uma residência oficial unicamente pelo período em que exercerem seus mandatos, e como há leis impedindo a prática do nepotismo**. Além disso, tanto no corpo dirigente, quanto mesmo no exército, não deverá haver distinção entre homens e mulheres. Na guerra e na política, não há argumentos sustentáveis para estabelecer qualquer tipo de distinção que coloque um ou outro gênero como mais capacitado. E, por último, mas não em último, Platão estabelece que a virtude da justiça somente poderá ser distribuída na pólis quando os reis se tornarem filósofos, e os filósofos se tornarem reis.

Ser filósofo, no caso, não é uma tentativa de privilégio de classe que Sócrates sugere, mas que os basileus tenham a capacidade de ser virtuosos no sentido mais necessário: para ser justo no mais perfeito grau, é preciso saber reconhecer a máxima virtude - o Bem. O Bem, agora com inicial maiúscula, é uma espécie de gabarito que guia todas as demais virtudes: só é virtuosa a justiça calcada no bem; só é virtuosa a caridade calcada no bem; só é virtuosa a beleza calcada no bem. Ou seja, não há como fugir do conhecimento. Para se compreender o que é o Bem, é preciso escalar das experiências obtidas no mundo até que se chegue ao perfeito conceito de Bem.

Precisamos aqui discorrer rapidamente sobre a teoria epistemológica platônica, embora eu já tenho falado sobre ela diversas vezes neste espaço. Platão fala em uma divisão entre mundo sensível e mundo inteligível, sendo que o primeiro é captado pelos sentidos, enquanto o outro é acessado unicamente pelo intelecto. Em um exemplo, nossos olhos percebem o Sol como uma bolinha que cabe entre os dedos. Entretanto, ainda que sem grandes instrumentações, é possível fazer associações com outras fontes luminosas e perceber que ele é muito maior. Tomemos uma vela, por exemplo. Embora seja ínfima, consegue iluminar um cômodo de modo que não tropecemos nos móveis. Sua chama também cabe no espaço entre os dedos, e quanto mais longe, menos eficaz é. Ela ilumina muito menos que o Sol, que traz luz para meia Terra pelo dia inteiro. A inferência é simples: o Sol é muito maior do que meus sentidos captam. E isso eu deduzi utilizando apenas processos mentais.

Se eu faço isso para reconhecer que o Sol não é o que aparenta ser, o filósofo-rei precisa ter o mesmo discernimento para reconhecer o bem, que deve ser seu principal objeto de saber. É preciso escapar das aparências dos sentidos e das convenções sociais, para escalar dialeticamente pela cadeia intelectual que leva a um governo justo. 

Para que seja possível trazer ilustrações à sua tese, Sócrates/Platão tecem três símiles, hipóteses ilustrativas que se tornaram célebres. O primeiro é a Analogia do Sol, que é usada para ilustrar como o bem possui uma hierarquia superior às demais ideias e lhes dá sustentação. O sol é primordial para que se permita ao homem ver e ser visto. Como o nosso sensório visual é o mais expressivo de todos, ao menos para a espécie humana, sem que o Sol exista não há uma fonte para que se percebam todas as coisas do mundo. Assim como é o Sol para o universo sensível, é também o Bem para o universo inteligível. O Bem é a condição que dá virtudes ao conhecimento, porque faz parte do Bem que o conhecimento seja verdadeiro, que a ação seja ética ou que a sensação seja bela. 

Caminhando mais um pouco, vamos chegar ao exercício mental da Linha Dividida. Sócrates propõe que se imagine uma linha reta, e que esta seja dividida em duas partes desiguais, sendo que a primeira seria menor que a segunda. Depois, repetir-se-ia a mesma operação em cada uma das seções, de modo a se obter quatro pedaços, do menor para o maior. Esse tamanho progressivo corresponderia à capacidade de cada um carregar verdade. Os dois primeiros segmentos estariam no campo do sensível, enquanto os dois últimos estariam na senda do inteligível.  Do mundo visível, teríamos as imagens das coisas e as próprias coisas. Já na esfera inteligível, teríamos o discurso que traduz a natureza e a inteléquia pura. Imagem, opinião, razão discursiva e intelecção. Em grego, eikasia, pistis, dianoia e noesis.


O terceiro símile é a Alegoria da Caverna, que traz a fusão das duas construções anteriores e ainda acrescenta uma espécie de conduta ao filósofo-rei. O prisioneiro que se liberta não é somente aquele que procura a verdade, mas aquele que a usa para trazer o Bem em retorno à polis, mesmo que isso possa custar sua integridade física, e aqui tudo está unido: a metafísica do mundo das ideias, a gnosiologia do descompasso entre aparência e essência, a ética da distinção do bem e de sua distribuição à polis, tudo amarrado pela estética da metáfora, para desembocar em uma conclusão política.

Mais adiante, Platão comentará sobre a degeneração das formas de governo e sobre o mito de Er, mas, como eu já tenho outros textos engatilhados para tratar desses dois temas, vou deixar para esse momento. Até mesmo porque entendo que, desta vez, consegui cumprir a missão de contextualizar a Alegoria da Caverna devidamente, como deve ser feito, sem indolência, nem incompletude.

E o Parque Tanguá com tudo isso? Ele dá o exemplo de que um túnel dá aparência de caverna, e dessa imagem, tão nos primórdios do conceito platônico de conhecimento, é que obtemos um caminho sistêmico para a chegada ao saber que até hoje traz influências no pensamento geral. Bons ventos a todos!

Recomendações:

A República é uma obra tão fundante da Filosofia como um todo que não posso deixar de repetir sua recomendação. Procurem pelas indicações que fiz nos meus posts indicados, mas também vou deixar aqui uma versão online pesquisável, para fica ainda mais fácil:

PLATÃO. A República. Da Justiça. Disponível em http://www.eniopadilha.com.br/documentos/Platao_A_Republica.pdf .  Acesso em 22.10.2022.

E este é o endereço do Parque Tanguá:

Parque Municipal Tanguá
Rua Oswaldo Maciel
Taboão
Curitiba/PR
A aproximadamente 400km do centro de São Paulo

*Conhecidíssima hoje, bem entendido. Na época, a abordagem, apesar de comum, era uma criação razoavelmente original.

** Se funcionam ou não, são outros quinhentos.

terça-feira, 26 de abril de 2022

As proximidades de Sócrates e Jesus vão além das coincidências

(Sócrates e Jesus têm muitas semelhanças em suas trajetórias. Mas há uma questão que particularmente me fascina)

Olá!

O brasileiro é um eclético por natureza. Dois são os motivos: a intensa mescla de imigrantes, que produziu um evidente caldeirão cultural, e a pobreza crônica, que faz com que nos viremos com o que temos, sem muita chance de seleção. Mas esses são temas que custam dissertações muito extensas, e não é sobre isso que eu quero escrever hoje. A questão é que minha filha mais nova mora de frente para um centro espírita, que andou bem quietinho pelos tempos de pandemia, mas que vem voltando à atividade normal aos poucos. Ao contrário das modernas igrejas, com suas paredes sonoras que dão inveja a qualquer banda de heavy metal, aqui temos bastante tranquilidade, e somente a quantidade maior de carros na pacata rua faz antever que há algum evento em andamento.

Isso me faz lembrar de minha velha e desencarnada madrinha, que andava pelas fileiras de Kardec. O que ela tem a ver com o ecletismo de Terra Brasilis? É que ela era exatamente a maior entusiasta da regularidade católica dos petizes da casa, eu incluso, ao mesmo tempo em que frequentava uma casa de mesa branca lá pelos lados da Parada Inglesa, no tempo em que não havia metrô por lá, o que dava uma bela pernada para quem morava na Vila Diva. Ela fazia parte do corpo de médiuns da instituição, e eventualmente levava a mim e meus primos. Havia por lá um palestrante chamado Laerte, excelente, especialista em lidar com questões de fundamentos da doutrina, e ficávamos ouvindo suas aulas enquanto a madrinha cumpria suas funções.

Eu comparava o que me era ensinado na catequese católica e perguntava se não havia incoerência na prática dupla, para o que a madrinha explicava que não, que muitas das práticas das diversas religiões encontravam eco no Espiritismo, incluindo oriundas do próprio Catolicismo. No sentido contrário, bastava manter o silêncio para não se criar questões.

Os livros básicos do Espiritismo são aqueles redigidos pelo próprio Kardec, onde há inúmeras remissões a Jesus, mas não só. Lá há ensinamentos mosaicos e de várias fontes orientais, já que a doutrina da reencarnação já era prevista por religiões como o Budismo ou o Hinduísmo. Outra referência bastante constante está em Sócrates, o patrono da Filosofia ocidental, e uma espécie de jamegão da sabedoria universal. Eu tenho esses principais livros e de vez em quando volto a lê-los, principalmente quando quero fazer comparações doutrinárias. 

Desde que me desvinculei da religião, tenho ouvido os mais diferentes desagravos. O mais constante é que um dia vou resolver meus conflitos interiores (?!) e voltar para o rebanho. Mas quem é espírita, curiosamente, costuma perguntar um pouco mais sobre o caminho que tomei, e procuro fazê-lo pacientemente. O roteiro, podem crer, já se tornou bastante contumaz: ao mencionar os problemas na manutenção da fé em relação ao confronto com a realidade, vem a assertiva indefectível - você devia conhecer Kardec, seu pensamento é todo revestido de lógica, as causalidades são bem explicadas e obedecem a melhores critérios filosóficos e científicos. Bem, o Kardecismo é uma religião dentre outras, e mesmo que não seja propriamente apostólica, seus praticantes a assumem como expressão da verdade e gostariam que outras pessoas a seguissem. Nada demais, penso eu, desde que ouçam o que eu tenho a dizer e não me façam tentar engolir suas convicções. Para dizer bem a verdade, não acontece.

O Espiritismo kardecista se explica pelo contexto da época. Estamos no pós Revolução Francesa e há muito entusiasmo com o progresso. De fato, há uma preocupação muito maior em adequar a visão religiosa à Ciência, e velhos dogmas imutáveis vão sendo questionados, principalmente o velho Fla-Flu da salvação, que tenta decidir a fé correta e o caminho salvífico válido. Mas aqui também aplico os meus três critérios de manutenção da crença e não encontro eco, da mesma maneira que ocorreu com minha saída do Catolicismo.

Primeiro e principal: o confronto com a realidade. Embora o discurso taumatúrgico seja bem mais ameno que nos cristianismos pentecostais, o fato é que os efeitos práticos são muito semelhantes. Resolvem bem afecções psicológicas e somáticas, mas fracassam cada vez mais na medida em que problemas que não dependem da mente vão se afigurando. Quando uma doença não é curada, vem o ponto onde ele é demonstrado infalseável: às vezes é momento de partir, a missão já está cumprida. Como uma criança de um ano pode ter cumprido alguma missão é algo que jamais eu vou conseguir entender, mas nesse caso a questão é terceirizada - era um reencontro necessário entre os espíritos encarnados da criança e dos pais. É uma resposta melhor que dizer se tratar da vontade de Deus, mas, no meu entender, continua sendo mais lógico tirar deus e metafísica da relação, bastando reconhecer que a vida é frágil e perigosa, podendo ser perdida em qualquer momento.

Depois, temos o sentimento pessoal, as experiências que ocorrem na vida da gente e que acabam por ser a âncora de nossa crença, principalmente porque percebemos uma interação com o sagrado ou com o espiritual. Eu juro que me esforcei muito nas várias sessões que participei da mesa em perceber algum tipo de contato ou manifestação, sem nenhum sucesso. O que me dizem é que eu dou sustentação energética para a corrente, e essa é a minha característica mediúnica. Ah, ok. Mas continuo sem sentir nada de diferente. Vêm os testemunhos, e logo lembro daquele que seria meu menino mais velho, que morreu ao nascer. Eu e a patroa recebemos duas cartas psicografadas, em um intervalo de pouco mais de dois meses. Seus estilos são tão diferentes que não podem ter sido escritas pela mesma pessoa. A primeira é uma escrita muito mais madura, que falava muito da necessidade de reencontro com a mãe, e do quanto era necessário que as coisas ocorressem do modo que ocorreram. A segunda parecia uma criança falando, revelando uma certa incompreensão e inconformismo do espírito, mas ainda assim referindo-se e dirigindo-se à mãe. Além disso, não vejo luzes passeando pelos quartos escuros, não pressinto presenças, e com relação a sonhos... São sonhos, onde a liberdade de minha mente desenlaçada da realidade está a pleno vapor. Portanto, por essas e por outras, não tenho razões pessoais para crer.

Por fim, há a terceira e última fonte de fé, a visão comunitária, a noção de que a irmandade dos homens é uma autêntica manifestação divina. Tanto pelo que vivenciei por mim mesmo, quanto pelos testemunhos de outras pessoas, essa questão de compreender o funcionamento de qualquer fundo de altar é muito assemelhado a um bolo de casamento. Para quem chega à festa e olha para ele, fica maravilhado com a obra de arte, mas não imagina o quanto de calços, remendos e buracos estão recobertos e ocultos pela esplêndida cobertura de glacê. Como em qualquer agrupamento humano, há vaidade, orgulho, inveja e luta pelo poder, o que é broxante para aquele que procura paz e união, e isso eu vi com meus próprios olhos também nos centros espíritas, como vi nas quatro igrejas católicas em que fui assíduo, ou na evangélica do pai de meu padrinho, da qual se afastou em menos de um ano após ganhar o título de ancião, enojado por conhecer como as coisas se dão. Aqui, não se tratam de relatos acusatórios, mas de experiências que vivi e, com isso, não me enquadrar mais a fé nenhuma.

Parece que estou repisando o meu velho texto sobre minha "saída do armário", e é quase isso mesmo. Mas é que eu achei necessário demonstrar como a mesma lógica de uma religião se aplica a outras, e principalmente para deixar claro como seus pensamentos podem ser ouvidos e racionalizados mesmo por quem não crê neles. Achei muito interessante a coleção de referências existentes nos textos basilares dos espíritas, ecléticos como os brasileiros a quem me referi no começo, que buscam suas orientações mais baseadas no que é constituinte de seu corpo de conhecimento do que em tradições orais que vão perdendo sentido com o tempo. E é provocado pela visão espírita, que compartilha essas duas figuras em seus cânones, que eu vou fazer uma comparação entre Sócrates e Jesus Cristo. Acompanhem o raciocínio.

Embora ambos tenham levado vidas e propósitos bastante distintos, é possível enxergar uma boa parte de coincidências, que vão muito além da barba, das vestes e da aura de transcendência que costuma se aplicar às suas figuras.


Ambos utilizavam métodos bastante específicos de realizar a transmissão de conhecimentos, que deixaram bastante marcados seus estilos de ensinar. Sócrates utilizava a maiêutica, uma especialização da dialética que incluía fazer brotar do próprio interlocutor as contradições de seu pensamento inicial. Isso pode ser visto nos diálogos sobre virtudes éticas, onde Sócrates faz com que seus dialogantes reconheçam que ignoravam o real sentido dessas abstrações. Já Jesus usava profusamente a parábola, uma espécie de exemplo que visava dar compreensão terrena a conhecimento divino, como faz com o filho pródigo ou com o semeador. Nada obriga que tais personagens tenham tido existência real, mas explicam tanto a doutrina do perdão ilimitado, quanto da aplicação prática da palavra divina, de uma maneira em que a didática não se volta ao real palpável, mas aos princípios morais de quem a ouve.

Os dois tiveram uma espécie de espírito missionário em suas vidas. O de Sócrates foi demonstrar que a investigação do homem deveria se pautar pelo autoconhecimento, enquanto Jesus tinha uma missão salvífica. No final das contas, os dois tinham como pano de fundo de seu pensamento uma forte conotação ética, uma mudança de paradigma com relação ao que se praticava em cada uma de suas áreas.

Ambos representam uma quebra do pensamento corrente na época. Os primeiros filósofos tinham seu foco na natureza, tentando compreender o substrato último da própria realidade. Com a chegada do conceito grego de democracia, essa discussão ficou obsoleta, e surgem os sofistas, que trazem o homem ao centro da discussão. Todavia, embora muitos deles tratassem de assuntos verdadeiramente humanos, a base de seu ensinamento era mais voltada à retórica que à ética: em um ambiente onde as decisões eram tomadas no grito, era mais importante vencer o discurso do que ter razão de fato. Sócrates confronta essa posição, afirmando que o interesse dos sofistas em vencer debates tira da filosofia sua melhor característica, que é a de perseguir a verdade. Jesus tem um confronto semelhante com os fariseus, a quem tinha como seus principais adversários. Segundo ele, os fariseus viviam uma vida cujos princípios religiosos serviam unicamente para exercer uma posição de privilégio, atribuindo a outrem toda sorte de pecado formal, enquanto eles se valiam da lei judaica para cometer toda sorte de antiética. Hipócritas é o qualificativo mais usado contra eles. Óbvio que os dois criaram muito desconforto com esse modus operandi. Afinal de contas, o que caracteriza o valor formal tanto do discurso quanto da ritualística não é o conteúdo que ele carrega, mas o modo como se apresenta. O conteúdo, esse sim fica relegado a um plano secundário, mas ninguém gosta de ouvir que o faz com malícia.

Que mais? Ambos são oriundos de famílias pobres, e, como tal, estariam fora do círculo intelectual típico de cada época e cada lugar, já que isso, desde sempre, foi privilégio das classes mais abastadas. Sócrates era filho de um escultor e de uma parteira, e não se imiscuía na Ágora como faria algum político clássico, enquanto Jesus era filho de carpinteiro, cuja pobreza é comprovada pelo sacrifício mais barato que foi oferecido pelo seu nascimento. Os judeus tinham por regra a oferta em holocausto pelo nascimento de qualquer filho homem, independentemente de sua situação social, sendo que os mais abastados ofereciam os caros cordeiros, enquanto a patuleia se virava com pombos, o que foi o caso do belemita. Essa característica tirava ambos do meio de onde se exercia o poder, e fazia com que eles vissem o mecanismo social pelo lado de fora.

Outra característica comum muito marcante é a ausência de obras escritas, o que lhes dá dois aspectos: suas vidas não são contadas por si mesmos e a importância que davam para as questões práticas da vida, dando aos seus ensinamentos a força do exemplo, para além da mera oralidade (que, no entanto, era fortemente presente). Por esse motivo, ambos têm algumas discussões com relação à sua historicidade, embora a crítica seja favorável à existência física dos dois, sem grandes contestadores. Jesus teve sua vida e filosofia descritas por seus discípulos evangelistas, além de vários outros escritos tidos como apócrifos. Há algumas poucas referências externas ao meio judaico, com relatos bastante distantes da questão religiosa. Quanto a Sócrates, há autores apologéticos, principalmente Platão e Xenofonte, mas há críticos contumazes, como Aristófanes

De toda forma, os relatos instruem sobre semelhanças na vida pública dos nossos epigrafados. Eles ensinavam nas ruas e nas praças, com grande base no mundo que os rodeava. Os dois, de maneira bastante resumida, falavam do cuidado com as virtudes, sendo que esse seria o fim último do homem: para Jesus, seria a plena realização da lei judaica e o caminho da salvação para o crente; para Sócrates, o cumprimento do propósito humano; sua teleologia, como diria mais tarde Aristóteles.

O mais importante: ambos morrem pela causa que defendem, de maneira injusta, porque foram colocados na conta de criminosos. Mais ainda, têm a oportunidade de fugir de seu destino e dar novo caminho a si no plano do indivíduo. Entretanto, ambos recusam a escapatória e transformam seu fim no seu propósito mais significativo. Eles não se defendem porque negar sua morte significa recusar a concluir de seu sentido no mundo. Jesus tem que morrer para, segundo a doutrina cristã, tornar-se o último sacrifício expiatório, e, com isso, oferecer um caminho salvífico em definitivo. Já Sócrates aceita sua sina para comprovar que a sociedade é maior que o indivíduo, e a obediência às leis é a melhor expressão do cidadão que se reconhece como tal, ainda que seja para produzir sua própria morte.

É claro, como eu disse, que há mais diferenças do que semelhanças entre ambos. Jesus, por exemplo, está encaixado em um conceito religioso que é meramente lateral em Sócrates (embora tenha sido um dos motes para sua condenação). Além disso, diz-se de Jesus que sua morte era necessária porque ele precisava ressuscitar, o que nem de longe se vê em Sócrates. O processo de desencarnação para o ateniense é essencial para a reaproximação com a verdade, que se turva pelos sentidos e opiniões terrenas. Sócrates não necessitava de uma visão libertária como Jesus, porque a Grécia de seu tempo ainda era autossuficiente, enquanto a Palestina tinha um longo rosário de dominadores em sua história.

Mas, se bem medidas e bem pesadas, veremos que o que existe de mais próximo entre essas duas figuras é a estrutura das narrativas sobre suas vidas, e daí eu vou para minha lavra, abordando uma questão que o Evangelho de Kardec não toca. Vejam: os personagens marginais que se colocam em um meio corrompido dão a própria vida como exemplo a ser seguido, e por conta disso são contrapostos pelos detentores do poder, que os encaminham para a condenação. Jesus é o inverso do que se espera do Messias prometido: ele não é o senhor da guerra, capaz de conduzir seu povo na afirmação contra os dominadores romanos, mas um pacifista que prega o desprendimento do mundo. Sócrates não é o político afiado, cujo grande objetivo do discurso é ter seus propósitos acolhidos pela Ágora, mas o homem feioso que admite a própria ignorância. O momento condenatório de ambos é a apoteose de sua história: nem a morte é capaz de fazê-los arredar de sua missão, porque, no final das contas, esse é o sentido de suas vidas. Notem como esse esqueleto é frequente em qualquer história que se queira contar sobre uma vida heroica, seja ela real ou fictícia. Não quero aqui desmentir o que se disse sobre Sócrates ou Jesus, porque não tenho estofo histórico para fazê-lo, mas posso perceber como é um enredo que funciona bem, a ponto de ele derivar toda a Religião e a Filosofia ocidentais. Como essas, outras narrativas se contaram com uma linha semelhante, e elas funcionam bem, justamente porque agregam ao ato de heroísmo uma certa fraqueza dos protagonistas, e é daí que vem sua força: tornam o homem comum mais próximo do ato heroico. Nietzsche diria que é uma exaltação do fracasso, uma negação da natureza humana, no que eu até concordo, mas não se pode negar que a história contada com tal aspecto emocional  é altamente eficiente e, saindo do âmbito meramente pragmático, rica e bela, ainda que não creiamos nela. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Em termos de amarração lógica, a literatura kardecista é muito mais consistente do que os escritos religiosos em geral, seja porque está mais próximo de nós temporalmente, seja porque já foi escrito em uma realidade ocidental mais consolidada. Até mesmo por isso, é uma leitura aprazível e recomendável.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.