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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

A realidade como um grande algoritmo

(A realidade pode ter alguma sequência de passos determinados por trás dela? Ou somos frutos de um grande acaso?)

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Me sacode às seis horas da manhã

Me sorri um sorriso pontual

E me beija com a boca de hortelã 

(Chico Buarque)

Olá!

Agora a moda é o ChatGPT. É praticamente impossível que você, meu escasso leitor, nunca tenha ouvido falar disso, mas vai lá: é um aplicativo do tipo chatbot, ou seja, um robozinho que interage com você como se fosse outra pessoa de carne e osso. Os mais famosos são aqueles assistentes de sites, para quem você faz perguntas e é respondido com orientações de onde achar as coisas. Ocorre que o alcance deles, até hoje, era bem delimitado pelo escopo do site que você visita. Já o ChatGPT ultrapassa MUITO esse diálogo limitado, porque suas respostas são mais completas e originais, a ponto de compor músicas e poemas. Ainda há muitas críticas com relação aos resultados, mas o salto é realmente admirável. Não temos mais aqueles sisteminhas em que claramente era possível reconhecer a programação por trás: perguntado isso, responda aquilo, com a terceira via muito clara – não há resposta, diga para se reformular a pergunta. No ChatGPT, efetivamente temos aquilo que parece um pensamento, uma rede intrincada de alternativas sendo desenrolada ao mesmo tempo, que dá a clara impressão de que há uma efetiva inteligência por trás, como se um humano interagisse com você. É a tal da inteligência artificial no formato mais próximo com o qual podemos compreendê-la.

Brinquei uns quinze minutos com a ferramenta, e é, de fato, surpreendente. Poesias com métricas muito próximas do estilo que se pede, definições ricas que fogem do óbvio e do enciclopédico, utilização de citações direcionadas, articulação com conteúdos abstratos… Está muito longe de uma mera pesquisa rápida, especialmente na busca e na costura do texto.

Não se pense, contudo, que por trás desses sistemas exista algum tipo de milagre. O que temos são algoritmos, que ficaram famosos depois que o YouTube estabeleceu uma relação de céu e inferno com os seus produtores de conteúdo. Isso porque os algoritmos do YT não param quietos, ora priorizando curtidas, ora engajamento, ora visualização de publicidade, dificultando a montagem de estratégias para manter os ganhos. Quem vive de renda variável sabe bem do que eu estou falando.

Mas o que são esses tais algoritmos, tão caros para o pessoal que vive de informática? Na verdade, seu conceito não tem nada de complexo. São sequências de passos para realizar uma determinada tarefa. Nós fazemos isso fora do mundo computacional, nas mais prosaicas tarefas, como, por exemplo, arrumar a cama. Alguns desses passos envolvem decisões e desvios de rota. Uma decisão, por exemplo, ocorre quando você precisa verificar se é necessário trocar os lençóis, e, para isso, é estabelecida uma condição: caso as peças não apresentem mau cheiro ou manchas, ou não tenham atingido um determinado tempo de uso, poderão ser repetidas, e o fluxo seguirá para a arrumação da cama em si. Se for necessário trocar as peças, os passos a serem seguidos são descritos em um sub-roteiro, onde constarão as instruções para utilizar peças limpas. Não havendo peças disponíveis para a troca, o processo é interrompido, para que se possa lavar uma peça, mandar para o tintureiro ou, vá lá que seja, comprar um nova. Vamos colocar no papel:

Esse caminho composto por figuras geométricas e setas (já citei ele aqui) é uma notação padronizada para desenvolvimento de fluxogramas, uma forma de descrição de algoritmos. Cada figura geométrica descreve, por si só, uma tipificação de ação que está sendo adotada. No exemplo acima, temos os seguintes significados:

Terminais: servem para indicar o início e o fim de um processo, seja ele o fluxo principal ou algum dos secundários, como a rotina de trazer lençóis limpos.

Entrada/saída: são os pontos onde os dados do processo atuam, seja como entrada ou como saída. No exemplo, temos como entrada de dados a constatação da limpeza dos lençóis no fluxo principal e da existência de lençóis limpos na sub-rotina.

Decisão: quando é preciso optar por um de dois caminhos. Percebam que aqui nós temos o mais "inteligente" dos processos do fluxo, porque será preciso exercer uma escolha que dará uma nova realidade ao processo. Pelas regras gerais dos fluxogramas, esses processos de escolha serão do tipo Sim/Não.

Processamento: é a realização do trabalho em si: uma conta, uma ordenação, o esticamento de um lençol.

Subprocesso: é a remissão de um fluxograma para outro fluxograma, que tem seu conjunto próprio de instruções. É muito usado quando um mesmo conjunto de passos pode ser utilizado para mais de uma tarefa. A troca do lençol, no caso, pode se aplicar a qualquer cama da casa ou a um sofá usado como cama.

Interrupção: é utilizada quando alguma ocorrência leva à parada do fluxo normal, tornando impossível a sua continuação, como é o caso da falta de lençóis limpos para fazer a troca. 

Uma demonstração banal, sem dúvida, mas é sempre assim que as coisas começam. Há outras maneiras de representar algoritmos, mas o fluxograma é, sem dúvida, uma das mais elegantes e inteligíveis. Nós podemos aplicar a cada tipo de tarefa uma estrutura parecida, variando de acordo com a sua complexidade, e não somente para aplicações computacionais, mas a toda e qualquer coisa que envolva processo.

Só que nós começamos a observar, e se o fizermos cuidadosamente, que todas as nossas ações podem ser quebradas em partes menores, cartesianamente. Cada um desses pedacinhos pode ser reduzido a conjuntos de representações que denotam a existência de modelos algorítmicos, ou seja, ações semelhantes que podem ser aplicadas a várias circunstâncias. Olhamos para nossa própria realidade e constatamos a mesma coisa: uma tarefa inteira é desmembrável em inúmeras pequenas tarefas. E aí temos a pergunta que não quer calar: será que a realidade é um grande algoritmo?

Para tentarmos responder esse pergunta, precisaremos primeiro assumir que nossa ideia não é desenhar um algoritmo de uma ação qualquer, mas pressupor que ele pode ser aplicado sempre que dermos de frente com uma situação semelhante, ou seja, para cada fenômeno que se descortinar à nossa frente, haverá sempre uma sequência de passos predeterminados que serão seguidos. Claro, com a variação das decisões possíveis, mas ainda assim prefiguráveis.

Há ainda um duplo critério a ser observado. Qual a importância da escolha que devemos adotar? Se assumirmos que a realidade é um grande algoritmo, cada uma das escolhas deverá ser bem definida para que a coisa funcione: dadas tais e tais condições, a escolha sempre penderá para o mesmo lado, caso contrário, a tese do algoritmo vai por terra.

Isso é tremendamente discutível, o que personalizaria um algoritmo a tal ponto de ser, no mínimo, inútil dizer que há uma lógica fixa por trás das ações. Dou um exemplo partindo de mim mesmo. Se vocês observarem vários dos meus textos, verão que eu aplico muitos termos oriundos do italiano, como "punto e finito", "via discorrendo", "così via" e por aí vai. Isso acontece porque, além de uma mal disfarçada empáfia e de um orgulho da ascendência, há todo um móbile cultural que me conduz a mão. Idem com quem me lê. Pode ser que alguém ache que o modo como escrevo um tanto pernóstico, pode ser que precise de um dicionário, pode ser que ache um colorido especial nessas inserções, pode ser tanta coisa. Então um algoritmo para fazer uma leitura do meu texto exigiria levar em conta não somente os habituais passos, mas considerar toda a carga cultural de quem lê e de quem escreve, os tais pré-requisitos que podem mudar toda a lógica do que vem posteriormente a eles. O algoritmo não depende somente de uma, mas de todas as partes envolvidas. Percebem como isso pode levar a um conjunto de possibilidades quase infinito?

Por outro lado, se houvessem escolhas efetivas, a aleatoriedade estaria estabelecida e não faria sentido falar em realidade como algoritmos, já que seria indefinível até mesmo os pontos onde ocorreriam decisões. Pensem que estou sentado vendo TV. A cada instante posso decidir parar de assisti-la e ir fazer outra coisa. Ler, dormir, comer um rabanete, sair para a rua, tamborilar um pandeiro, acender uma vela ou tirar ouro do nariz são opções cabíveis. Pior: uma necessidade fisiológica pode me levar de bate-pronto a sair do meu estado atual. É muito difícil estabelecer pontos lógicos tão fixos assim. Mas sempre podemos tentar.

Há argumentos que podem indicar a direção contrária. Uma das melhores proposituras de quem defende a obediência da realidade a alguma espécie de algoritmo é a maneira como a seleção natural se processa. Isso porque, embora a seleção do melhor adaptado venha sendo estudada há tempos quando observamos a constituição das espécies, é perceptível que a mesma lógica opera em qualquer circunstância onde haja disputa. Há uma espécie de "seleção natural" no mundo do futebol, por exemplo. O Santos é ainda hoje tido como um dos clubes mais importantes nesse esporte porque um dia teve um time tecnicamente impecável. Fosse hoje, aquele escrete estaria todo espalhado por times do mundo inteiro, porque o fator financeiro se tornou mais definidor do critério seletivo. Houve época em que clubes com potencial monetário menor, como a Portuguesa ou o América, conseguiam sobreviver por critérios outros. Modernamente, tendem ao fim, a não ser que se apresentem como novos proponentes de alternativas mais bem adaptadas à nova realidade.

Esse modelo se aplica a incontáveis fenômenos. Tente entender por que o inglês é a língua franca hoje em dia e você perceberá que ele superou etapas por ser melhor adaptado ao mundo. Tente entender por que o dólar, e não o real, ou o peso, ou o dinar. Tente entender por que todos esses dominadores de hoje eram menos preponderantes no passado e como podem deixar de ser no futuro, e veremos o algoritmo da evolução sempre funcionando: quem se adapta melhor, permanece. Ok, ok… Pode ser que chamar esse fenômeno de “seleção natural” seja um erro, porque não há nada de natural nas línguas e dinheiros, mas todos compartilham o mesmo mecanismo de favorecimento àqueles que se adaptam melhor a um dado ambiente, e é nisso que está seu sentido natural. O mundo estava prenhe de condições ideais para que puritanos britânicos deixassem sua ilha e se transferissem para um território imenso, fértil e povoado por uma população mais frágil. De lá, o aumento das riquezas internas foi sendo um lastro para que, surgidas as guerras, emergisse uma nação poderosa, cheia de recursos para se manter e fazer manter os demais países, que lhe passaram a ser tributários. Esse é o substrato que arrastou o inglês e a cultura ianque pelo mundo.

Outros exemplos de fenômenos algorítmicos são a gravidade, o magnetismo e inúmeros outros fenômenos físico-químicos. Dadas tais e tais condições e a "magia" acontece. A própria previsibilidade do método científico dá a ideia de que há passos fixos para cada situação.

É óbvio que fica meio complicado subordinar toda a realidade a mecanismos peremptórios, novamente pela questão das escolhas. Só se esta for meramente ilusória, e cada vez que o fizermos, for inevitável que ocorresse como ocorreu. Novamente precisamos voltar para a definição de algoritmo: uma série de passos predefinidos que é utilizada para resolver alguma tarefa. Isso para evitarmos aquela romântica afirmação de que nada é por acaso, como se uma espécie de lei da atração operasse por trás dos nossos passos. Isso é muito bonito quando as coisas dão certo, mas, do contrário, vamos atrás de algum ad hoc que motive o destino infeliz, não é mesmo?

No final das contas, o ponto chave está nos losangos, ou seja, nos processos decisórios. Os outros podem ser atribuídos à velhíssima e aristotélica conjunção de causas e consequências, que, ainda que se considere a opinião de contestadores como Hume e Guilherme de Ockham, costuma funcionar belissimamente. E aí vamos pensar na proposta de Leonard Mlodinov, imaginando-nos em uma rua noturna, onde, de longe, vemos um bêbado andar à nossa frente. Cada passo que ele dá, ainda que involuntariamente, envolve uma decisão: embora tente seguir reto, ele pende ora para a esquerda, ora para a direita (como faz o Centrão). É até possível estabelecer um pensamento estatístico, mas teríamos facilidade em cair na falácia da mão quente. Do nosso ponto de vista, o fenômeno é absolutamente aleatório, podendo haver tantos passos para um lado ou para o outro, sem nenhuma previsibilidade aparente. Se ela existir, de todo modo é influenciada por fatores que independem da claudicante vontade do nosso ébrio amigo: irregularidade do terreno, umidade do asfalto, condições dos calçados, ventinho maroto a estibordo, tendência labiríntica, peso nos bolsos, joelho com artrose. Há todo um conjunto de fatores que conduz essa caminhada, cada um com um conjunto ambiental que tem suas próprias regras físicas, as quais, uma vez atendidas, farão com que o próximo passo se desenrole de uma maneira perfeitamente previsível, porque descritíveis em algoritmos. Só que essas são tantas e tantas que se torna impossível de fazer tais previsões, a não ser através do bom e velho chute.

Diante de um universo caótico, a minha conclusão pode ser um pouco decepcionante, mas está na esteira do pragmatismo: é irrelevante se a realidade é ou não um grande algoritmo. Isso se baseia na impossibilidade de perceber a quantidade de nuances que compõem a realidade. O que temos em nosso aparelho cognitivo são nossas intuições, e, ao mesmo tempo que elas podem nos conduzir a enganos, é também a maneira como chegamos até aqui na nossa aventura terrestre, e lutar contra isso não faz sentido. Se há algoritmos que regem cada um de nossos passos, eles são tantos que são indistinguíveis de uma aleatoriedade real. 

Minha (in)conclusão é essa. A não ser que eu reflita mais e mude de ideia... será que há algoritmo para isso?

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Um livro leve, sem grandes aprofundamentos, mas que demonstra como podemos nos enganar com relação ao acaso com vários exemplos.

MLODINOV, Leonard. O andar do bêbado. Como o acaso determina nossas vidas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

O café filosófico do quotidiano – o que a ciência deve buscar para seguir seu progresso?

(Passar apertos faz com que cresçamos, é o que se diz por aí. E com a ciência, é a mesma coisa?)

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Os paulistanos já estão acostumados há tempos com as novidades orientais. Primeiro, os pastéis, seguidos pelos sushis e depois por toda sorte de quinquilharia, como aquelas em que encontramos em lojas como a renomada Daiso. Não se trata de propaganda (até porque não ganho um centavo com isso), mas do reconhecimento de um comércio que se tornou um sinônimo do que, há poucos anos, chamávamos de 1,99. Como nem bala se compra mais a esse preço, mudou o apelido. Mas há coisas realmente interessantes por lá, e vou incluir dois métodos de extração que encontrei, um de cada vez. O de agora será o Konos, que se parece muito com um porta-filtro Melitta, mas que tem uma particularidade que lhe torna único.

O grande problema do porta-filtro trapezoidal é que ele tem um fundo plano, o que faz com que parte da água tenda a se acumular em seus cantos. Isso pode dificultar o percurso do líquido e realizar a tão temida superextração pelos gostadores de café, resultado em um sabor menos agradável. O Konos soluciona a questão de maneira simples: multiplicando o número de furos.


Quando se dá o despejo, a água e os solutos extraídos do pó passam pelos difíceis meandros do meio sólido que será a futura borra, e isso tem um tempo certo para acontecer, sob pena de não se conseguir o melhor sabor, embora não haja o consenso estabelecido de que isso seja ruim (sempre haverá quem prefira um café mais amargo). Para quem gosta de café sem açúcar, é mandatório que não seja necessário nenhum aditivo além da própria água.


Nome do utensílio: porta-filtro trapezoidal Konos

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: introduz-se um filtro de papel de tamanho apropriado no porta-filtro, com dobra cruzada nas costuras, para depois realizar-se um escaldamento no mesmo. Deposita-se café moído em ponto médio no filtro. Despeja-se água suficiente apenas para umedecer todo o pó (blooming). Após cerca de trinta segundos, realizam-se ataques de modo a não ultrapassar o limite do filtro.

Resíduos: nenhum

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio/baixo

Isso mostra como nós, seres humanos, queremos ser gênios, e às vezes somos. Em momentos, com constructos complexos como foguetes ou computadores; em outros com a adição de alguns furos em um porta-filtros de café. Mas as coisas, por vezes, precisam passar espremidas pelos veios onde forem possíveis.

Isso me faz puxar pela memória uma história de juventude inusitada. Eu estudava no Colégio Anchieta, que tinha um certo renome entre aqueles da ZL paulistana, e o pessoal do Diretório Acadêmico promovia anualmente um festival de música. Com minha banda no auge do período criativo, inscrevi três canções próprias, e, chegado o dia, lá fomos atrás da logística para conseguir fazer as coisas darem certo. Eu saí direto do meu emprego, porque seria muito mais rápido de chegar, e levei meu baixo comigo, chacoalhando no trem da Santos-Jundiaí. O guitarrista Moacir, que vinha de longe, deu um pelé no trabalho, detentor de horas que era, enquanto o outro guitarrista, o Maurão, foi de carro mesmo. O Edson, baterista, estava na confortável posição de não precisar carregar seu instrumento, embora passasse pela desconfortável missão de tocar em bateria alheia, mas, no quesito transporte, a vida dele estava mais fácil. Era pegar o busão e desembarcar na Vila Prudente, meia hora de viagem. 

Eu achava que seria evento para poucos gatos pingados, com a turma que iria tocar compondo a maior parte do público. Ao contrário, o pátio da escola estava fervilhando de gente, com camisetas e faixas, parecendo uma miniatura dos FICO’s da vida. No setlist, éramos a penúltima banda a tocar, o que significava que tínhamos um bom tempo para repassar afinação, arrumar cabelo (o que não fazíamos), essas coisas, e, naturalmente, passar angústia. Isso permitia também dar umas voltas, tomar uma cerveja, levar a namorada no ponto de ônibus. Foi exatamente isso o que nosso emérito batera resolveu fazer, mas quase em cima da hora da nossa entrada, lá pelas dez.

Fomos chamados e cadê ele? Subimos enrolando, cumprimentando o público, falando umas merdas políticas que eu nem lembro mais, já que as eleições eram no fim de semana que se seguia, e já começávamos a nos preparar a tocar assim mesmo quando o gajo aparece ao longe, como se tentasse atravessar o metrô às seis, seja da tarde ou da manhã. Ele se esforçava vindo de trás, e ninguém sabia que se tratava do baterista que deveria estar lá em cima do palco, atrasando uma apresentação e dando princípios de enfarte nos seus três companheiros.

Bom, ele chegou e ganhamos o festival, esse foi o final feliz de filme da Sessão da Tarde. Modéstia à parte, a música vencedora era realmente boa, um hardão clássico, pesado e envolvente, e estávamos em plena forma, e, portanto, foi merecido. Mas o mote para este texto foi a aflição do baterista, tentando passar pela apertada plateia que não o via, que não sabia porque aquele maluco estava com tanta pressa e, assim, não lhe facilitava a vida, como se fosse a água passando pelo filtro trapezoidal.

Da mesma forma que meu namorador e distraído amigo, a água que escoa para o fundo de um porta-filtros pode passar com maior ou menor dificuldade. Quando passa rápido demais, extrai pouco do pó, e o que temos é um café chocho. Quando passa mui lentamente, ocorre o contrário, e temos chance de ter um desagradável amargor. Os entraves no caminho rumo ao decanter dizem muito do que o produto final será, e isso faz toda a diferença.

Se pararmos para pensar, tudo é assim na vida, não só no prosaico cafezinho, mas até mesmo na mais intrincada das teorias científicas. É preciso se desvencilhar das dificuldades que se apresentam no caminho, passar pelos buracos espremidos, procurar pela passagem mais justa, que se justifique mais, e desconfiar de que nem sempre se está certo.

Só que os apertos do caminho são simbolizados pelas nossas discussões. Mesmo em uma mesa de bar, os assuntos rendem porque o consenso nunca é fácil. A Ciência não está livre disso, e todas as vezes em que temos discussões sobre seu real alcance, ou sobre o que é ou não científico, estamos passando pelos meandros apertados da conformidade. E os primeiros ombros que precisam ser vencidos na multidão são os próprios critérios da metodologia.

É óbvio que mesmo os métodos científicos devem passar por evoluções, em uma espécie de metateoria. Temos bem consolidado hoje que a falseabilidade de Karl Popper é o principal ponto metodológico para fazer a delimitação da Ciência, mas isso não significa que o mesmo seja imune a críticas e, mais ainda, que não deva sofrer correções. Houve contestadores, como Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, houve complementadores, como Imre Lakatos, houve quem procurasse extensões do contexto científico, como Sven Hansson e há quem busque um ciência mais pragmática, como é o caso de Larry Laudan, a quem direcionaremos nosso foco hoje.

Antes, porém, é preciso dar uma passadinha rápida sobre o conceito de pragmatismo. Esta é uma escola filosófica que surgiu nos fins do século XIX, mas que se espraiou por toda a filosofia ianque subsequente, de modo que quase a totalidade dos pensadores estadunidenses passam pelo seu crivo: John Dewey, John Rawls, Richard Rorty e tantos outros pelo menos tangenciaram com a escola, e na Filosofia da Ciência não seria diferente. Seu princípio geral está ligado à utilidade. Pouco importa para o pragmático o que está nas camadas mais subjacentes da realidade se nada trará ao resultado palpável. Ou seja, o pragmático não é muito dado a aspectos metafísicos, mas em como a realidade se dá praticamente. É mais ou menos assim: pouco importam os processos químicos que se dão para que a banana seja doce, mas sim o fato de ela ser doce, entenderam? Nesse sentido, toda a metafísica é secundária para o pragmático, valendo muito mais aquilo que se tem às mãos.

O melhor exemplo que ouvi perdeu sua autoria na minha memória, mas vamos lá assim mesmo. Hoje é consenso que o diamante é uma das mais duras de todas as substâncias. Digamos, no entanto, que se descubra que ele só atinge esse grau de rigidez quando ele é tocado. Enquanto está lá, inerte, é molinho como um travesseiro de plumas. Basta que se toque um dedo ou um instrumento, o estranho efeito se dá e ele se torna referência dos graus de dureza. Pode parecer um fenômeno tremendamente interessante para qualquer pessoa, mas o pragmático raciocina da seguinte forma: se é impossível aferir esta característica, ela simplesmente não importa. Nada vale, é inútil e eu não me preocuparei com ela.

É com esse espírito que surge a Filosofia da Ciência de Laudan. Enquanto outros pensadores estavam preocupados com um progresso da ciência baseado em sua capacidade de se comparar entre si, ou seja, de produzir mecanismos que se permitam fazer métricas, Laudan partia para a noção de que uma teoria precisa, antes de qualquer coisa, solucionar problemas, e quanto mais eles forem, melhor será. De acordo com esse modelo de pensamento, os popperianos trabalham em um campo que beira o idealismo, porque, à semelhança do exemplo do diamante, nunca atinge a verdade. Ainda que a ideia de verossimilhança seja uma grande conquista para o progresso da ciência, é fato de que, uma vez não existindo um efetivo critério para a verdade, é possível que todas as teorias existentes sobre uma determinada matéria estejam erradas. Essa é a indução pessimista, a conclusão de que, se todas as teorias consagradas no passado foram provadas falsas, não há nenhum motivo para se crer que o corpus atual de teorias seja verdadeiro.

A questão de Laudan é que as metodologias têm uma preocupação muito grande com verdades aproximadas, enquanto a ênfase deveria ser na resolução de problemas empíricos. Quer algo mais pragmático que isso? Se você pensar nas teses de Popper, verá que cada ponto falseado de uma teoria é uma anomalia, que, por fim, pode invalidá-la inteira. Laudan não gosta dessa maneira de encarar o progresso científico, porque faz com que teorias muito específicas invalidem grandes feixes de teorias mais gerais. Não é, portanto, uma anomalia que fará com que se descarte toda uma tradição de pesquisas, porque aquilo que está vacante em uma, poderá ser explicado em outra, e esse é o principal ponto de dissonância com as ideias de Lakatos: embora os conceitos de tradição de pesquisas laudanianos e de programas de pesquisas lakatosianos sejam próximos, há uma diferença vital entre ambos: enquanto Lakatos foca na predição, Laudan mira na explicação. Isso significa que Lakatos é mais rigoroso com o aspecto formal, de se ter um caminho estabelecido a ser seguido passo a passo, enquanto Laudan olha lá para o fim da estrada: as respostas que a teoria traz.

A rigidez proposta como os paradigmas de Kuhn ou os programas de pesquisa de Lakatos não permitem evoluções nas teorias científicas, e esse é o principal ponto de Laudan. Os paradigmas kuhnianos preveem uma inflexibilidade das teorias que não são de fato encontradas na história da ciência. Como exemplo, ainda que não sendo a teoria principal acerca da dinâmica celestial, já havia cientistas que propugnavam o sol no centro de seu sistema muito antes de Copérnico derrubar as ideias de Ptolomeu. Com relação a Lakatos, que tem bastante semelhança com a questão das tradições laudanianas, a crítica se relaciona ao fato de que o acúmulo de anomalias em um programa de pesquisas não deveria ser o suficiente para torná-lo inválido.

Sendo assim, como poderemos estabelecer qual linha de pesquisas deveríamos seguir? Qual critério utilizar para investir nossos esforços? Laudan entende que, pragmaticamente, é aquele de se perseguir as que trazem mais respostas sobre um determinado problema. Isso é dado não por teorias únicas, mas por tradições de pesquisas que, ainda que com diversas discrepâncias entre si, possuam pressupostos comuns que lhe são essenciais. Não se tratam de pontos de tangência, mas do eixo em torno do qual gira uma teoria. Citando alguns exemplos, as teorias evolutivas partem do princípio de que existe uma ascendência comum entre as diferentes espécies. Isso pode passar pelo distante persa Al Tusi, pela lei do uso de Lamarck, pela seleção natural darwiniana ou pela teoria sintética da evolução. Se retirado o núcleo da descendência com modificações, nenhuma dessas teorias subsiste. Isso é a substância que amarra um feixe de tradições. E percebam: os mecanismos evolutivos propostos por Darwin e Wallace tinham anomalias que somente foram resolvidas pela teoria sintética, através da compreensão do funcionamento genético. Não se compreendia como era transmitida entre as gerações os caracteres modificados, e somente os genes, que foram conhecidos através de outra tradição de pesquisas, vieram trazer clareza sobre o assunto. Isso demonstra porque anomalias não podem invalidar teorias de plano. O próprio Laudan dá outro exemplo: a tradição da teoria atômica sempre parte da premissa de que a matéria é descontínua. Desde os velhos Leucipo e Demócrito, passando pela partícula indivisível de Dalton, o pudim de passas de Thomson, o modelo planetário de Rutherford e os saltos quânticos de Bohr, todos dependem da ideia de composição entre partículas e vazios. Retirando-se este eixo, todas essas teorias perdem seu sentido. Esse conceito de tradição faz com que diversas teorias sejam enfeixadas em um mesmo grande componente, de modo que elas se fortaleçam mutuamente, pelo motivo de que uma tradição traz mais respostas em seu conjunto do que cada uma das teorias específicas isoladas.

Agora vou trazer um exemplo mais concreto de como funciona a hipótese das tradições de pesquisa em Laudan. É sabido que a psicanálise, pelo ponto de vista da metodologia popperiana, tem sérios problemas, especialmente no quesito falseabilidade. Isso faz com que seus adeptos a tratem como uma espécie de ciência à parte, enquanto seus detratores a tratam como uma pseudociência. Se levarmos em consideração as linhas de raciocínio de Laudan, não teremos problemas de levar em consideração as teorias da psicanálise, primeiro porque constituem uma tradição de pesquisa, depois porque trazem muitas respostas.

Vejamos. Todo o corpus da psicanálise parte da premissa de que a razão não é o todo da psiquê, e que boa parte das nossas ações são inconscientes. Sendo assim, a teoria psicanalítica de Freud, o inconsciente coletivo e os arquétipos de Jung, o inconsciente social de Fromm, o complexo de inferioridade de Adler, o self de Horney, a posição depressiva de Melanie Klein e outras teorias correlatas formam toda uma tradição de pesquisa que se complementam em torno da resposta ao questionamento "como funciona a mente". E, independentemente de serem ou não refutáveis, o fato é que são construídas para trazerem essas respostas. Nesse quesito, fazem-no muito bem. Enquanto outras escolas da psicologia respondem apenas parcialmente os fenômenos psíquicos, a psicanálise tem praticamente respostas para tudo. Isso é correto? No parecer de Laudan, não há problemas. Segundo ele, as anomalias das teorias não podem ser o fator único que vai invalidar toda uma tradição. E aqui seus métodos casam perfeitamente com os programas de Lakatos - haverá um ponto em que as conclusões de cada tradição trará mais perguntas do que respostas, e é aí que ela deixará de ser levada em consideração. Mas enquanto trouxer boas respostas, terá o motor que fará com que a ciência evolua.

Percebem como os caminhos de uma hipótese trazem mais apertos do que aqueles que meu amigo teve para chegar ao palco, ou como faz a água para virar café? Ela precisa ser falseável para Popper, paradigma para Kuhn, programa para Lakatos e tradição para Laudan, além de passar por alguns outros obstáculos que não estão citados aqui. É por essas e por outras que o conhecimento científico deve ser levado mais a sério - porque tem os músculos de quem precisou pular barreiras. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

LAUDAN, Larry. O progresso e seus problemas. Rumo a uma teoria do crescimento científico. São Paulo: Unesp, 2011.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Pequeno guia das grandes falácias – 70º tomo: o non causae ut causae (falsa causa)

(Sequências que fazem sentido nem sempre são expressão da verdade)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Eu falo muito sobre café, e tenho até mesmo uma série que fala sobre o tema, mas aqui não teremos o saboroso líquido como foco. Na verdade, eu quero usá-lo apenas como mote para desenvolver assunto de outra série. Vocês entenderão.

Há um confronto de baixo impacto entre os bebedores de café, sintetizado pela discussão “com ou sem açúcar”. Isso se dá de poucos anos para cá, quando uma camada da população resolveu pagar mais caro para ter café de melhor qualidade. Explica-se. O Brasil é o maior produtor mundial deste produto, mas o que havia de melhor sempre seguia para a Gringolândia. Quer dizer… ainda segue, mas o pessoal resolveu tentar entender o que estávamos perdendo, mesmo que com custo pouco convidativo, e desviou alguns pacotes para o mercado interno. E começou-se, com isso, a falar de termos que não se usavam nas padarias, como café especial, pontuação, grão X, grão Y, BSCA, número de moagem. E daí vem um universo novo, que fala sobre os cafés que não bebíamos, seus linguajares e cuidados: blooming, baristas, tempo de escoamento, bouquet, cupping, terroir, retrogosto, notas, notas e mais notas.

Aí vem o embate. Para aqueles que gostam do café tradicional, os novos apreciadores são arrogantes que gostam de “chafé”, um liquidozinho insípido que disfarça o alto custo nas pequenas quantidades. Que os “bons tempos” marcaram sua vida com um aroma forte, presente, que se espalhava pelas casas e pelos comércios, e o cafezinho de madame só é caro e fraco. Para os rivais, os cafezeiros da antiga se assemelham a porcos que pisam sobre pérolas. Extraem uma zurrapa cujo gosto amargo somente é resolvido com colheradas industriais de açúcar ou jatos ciclópicos de adoçante. E daí o que temos é uma espécie de melaço borrento, que já faz arder o estômago só de pensar. Deem um pincel a um macaco e ele produzirá macaquices, ainda que se usem pelos de marta e tintas renomadas, é o parecer dos esnobes.

Quando as coisas chegam neste ponto, a ninguém assiste razão. Eu me coloco no lugar neutro de quem observa da arquibancada, principalmente porque nunca deixei de tomar o café tradicional, eis que a sociabilidade exige, e radicalismos são para fanáticos. Mas, sim, sou entusiasta dos cafés especiais e acho que há uma torrente de argumentos para preferi-lo. A primeira razão vem de uma alegoria dos churrascos: a melhor picanha é indistinguível da mais ordinária pelanca quando ambas estão calcinadas. O mesmo vale para o grão de café. Excessivamente torrados, não se diferenciam uns dos outros, e tudo cai na mesma vala comum do sabor de carbono. Entre os cafés especiais, é possível perceber aquilo que se costuma chamar de "notas" - compostos orgânicos que sugerem certos sabores e que dão colorido único a um grão específico: sabores puxados para frutos, flores, castanhas, especiarias, chocolates, o que torna cada café bebido uma experiência única*. Preparar um café em prensa, infusão ou filtro faz com que se sintam nuances distintas de um mesmo grão. Nada disso se consegue com os cafés tradicionais, cuja variação só se dá na intensidade do amargor, o que fará exigir mais ou menos edulcorantes, seja açúcar ou adoçante. Aliás, neste ponto, vem o muro de Berlim dos bebedores de café, e dele brota um dos principais argumentos para que os apreciadores de café especial pisem na turma tradicional: café é um fruto, que não precisa de açúcar porque, sendo um fruto, já é doce. Aí, não é verdade. Aí, é falácia.

Vamos lá justificar por quê. O que é um fruto? Tecnicamente, é o desenvolvimento do ovário de uma flor, uma estrutura algo semelhante ao que temos em mamíferos, com a diferença de que, nas fêmeas, o ovário permanece, enquanto nas plantas o mesmo acaba virando uma proteção para as sementes, e se vai junto com elas para a terra, de onde brotarão novos exemplares. Aquilo que chamamos de frutos nem sempre os são, na real. Maçãs são um exemplo clássico - o verdadeiro fruto da macieira é aquela parte cascuda próxima das sementes. A parte polpuda que comemos, na verdade, é a expansão do receptáculo da flor, e não do ovário.

Já “fruta” é um nome genérico para aquilo que vemos nas bancas das feiras. Não faz diferença para Dona Maria e seo Zeca se abacaxis são infrutescências, se morangos são acessórios agregados ou se pêssegos são drupas, ou até mesmo se cocos são sementes. Ali, tudo é fruta, uma coisa muito mais coloquial. Entretanto, para o que queremos aqui, vamos tratar frutas e frutos como sinônimos. Isso porque o café, aquele coquinho vermelho ou amarelo, é uma fruta. Vem de uma florzinha branca muito bonita, que deriva para uma pequena esfera que contém uma semente normalmente bipartida. Se você pegar uma dessas madura, verá que realmente é doce, sem nenhuma remissão ao sabor ao qual estamos acostumados.

Dito tudo isso, vamos ponderar. O fato de ser um fruto não faz com que o tal se torne automaticamente doce. Um limão já é exemplo bastante - não há que se falar em doçura neste caso. Jiló é fruto, e é amargo; berinjela é fruto, e seu teor de doçura é baixo. Portanto, o primeiro aspecto desta conversa já fica vencido: ser fruto não é significado de dulçor.

Mas ainda podemos parecer perniciosos, alegando que o café é, sim, uma fruta doce, desde que esteja madura e etc. Sim, meu amigo, é verdade. Há até o costume de se preparar chás com sua cáscara, que, aliás, são bem gostosos. Só que o que é torrado e moído não é a polpa do fruto, a parte doce, mas a semente, e esta, se formos prosseguir com a analogia, costuma puxar para o amargo, vide caroços de maçã, laranja ou limão.

Então de onde vem o alegado dulçor do café? Ocorre que o sabor da semente crua do café é bastante adstringente, com aquela sensação de apertoso da cica do caju ou da banana verde. Isso não significa, entretanto, que não haja nenhum açúcar lá. Quando se faz o processo da torra, entra em ação um fenômeno químico conhecido como “reação de Maillard”. Esta foi descrita pelo químico francês Louis Camille Maillard, e se trata, muito superficialmente, do escurecimento de alimentos contendo açúcares e proteínas submetidos a uma elevação de temperatura. Deriva de complexas interações químicas que não competem ser esmiuçadas aqui, bastando que se saiba que produz aquela casquinha amarronzada do pão já assado, ou da superfície de um belo bife, ou ainda do doce de leite, para citar três exemplos. O grão de café também sofre a reação de Maillard, e, aplicada até uma certa faixa de temperatura, faz a condensação dos açúcares existentes no grão, e é daí que vem o sabor adocicado da bebida, o que a permite ser ingerida sem a adição de açúcar ou adoçantes.

Só que há um limite para que a reação de Maillard deixe de funcionar. Após uma determinada temperatura, os açúcares despertados pela reação passam por uma pirólise que resulta na separação de um composto carbônico, que significa, em nome mais acessível, uma carbonização. Em uma tradução para lá de livre, isso é “transformar em carvão”. Quem já foi criança e colocou um pedaço de carvão na boca sabe o quanto seu gosto é desagradável. Os açúcares carbonizados são intensamente amargos, e é exatamente isso que acontece com o pão que vira torrão, com a carne que vira sola, o doce de leite que vira bolacha e com o café de torra escura. Ele não é amargo por uma natureza do grão, mas porque foi torrado em excesso, e carbonizado. Junte-se a isso o fato de que a cafeína é, de fato, um composto amargo, mas uma torra feita no ponto certo supera esse “defeito”. Portanto, o ponto certo da torra é essencial para extrair de um café todo o seu potencial; nem tão claro que não interrompa sua adstringência, nem tão escuro que faça destacar o amargor. 

Os cafés ditos tradicionais são torrados em um ponto que já se atingiu a carbonização, e isso tem um motivo: qualquer café pode entrar lá, porque a carbonização é democrática, fazendo tudo ficar amargo, desde o grão nobre, até as patifarias das palhas e gravetos. O fato é que, no sabor, pouca diferença faz. Passamos anos e mais anos nos conformando com isso, como se fosse uma verdade absoluta, um destino inevitável. Isso tudo já são motivos suficientes para ao menos experimentarmos o que há no café que está nas xícaras dos estrangeiros, mas, voltando ao tema em si, não nos autoriza a usar argumentos errôneos. A historinha de que o café é doce porque é fruto, já devidamente desmistificada, é uma falácia de garboso nome em latim, non causae ut causae, que significa “tomar como causa o que não é causa”. Mais facilmente, é a falácia da falsa causa.

A falsa causa é uma falácia informal onde é atribuída uma origem errônea para um fenômeno qualquer. É super comum de acontecer e tem a ver com aquela velha necessidade de explicar tudo, ou de se levar vantagem em um discurso. No primeiro caso, pode ser feita sem malícia, apenas pela força das intenções. Já no segundo, a atribuição da falsa causa torna-se uma técnica para direcionar o debate de acordo com o interesse da parte que a profere.

É muito semelhante à falácia da correlação de coincidência, com a vital diferença de que o fator temporal não é significativo na primeira. Reputa-se uma fruta como doce independentemente de que fenômeno acontece primeiro, enquanto na correlação é necessário que exista uma sequência.

Os exemplos são inúmeros, porque se trata de falácia comum, como se pode perceber de sua dinâmica, que é muito maleável. Vou dar mais uma história, para ficar bem claro. Cemitérios eram locais tão sagrados quanto as igrejas, pelo menos até a década de 80, e profanar o corpo de um morto equivalia a cometer uma heresia do tipo blasfêmia medieval. Acontece que, de lá para cá, os cemitérios viraram locais perigosos, propícios a roubos não só dos mortos, mas dos vivos também. Já motivos para isso. São lugares ermos, principalmente aqueles de capelinhas, com muitos objetos de algum valor (alguns de bastante). Os mortos podem carregar joias, peças de estimação que custam uns bons cobres, alianças, e até dentes de ouro, coisa que só os mais velhos ainda têm. Fiscalizar toda a área de grandes necrópoles é uma questão complicada, porque a área é extensa e os esconderijos são muitos. Então o negócio de furto aos defuntos tem suas vantagens, adicionando-se outros negócios paralelos que foram se juntando, como o tráfico de drogas, novamente favorecido pela estrutura própria de um cemitério. Além disso, virou também uma moradia semelhante à que temos nas ruas, com a vantagem de se colocar em proteção contra intempéries. O principal ingrediente é o sangue frio de se viver à noite no campo dos mortos e o estômago de invadir suas covas.

Bem, os motivos. Por que os cemitérios chegaram nesse estado de coisas? Em toda reportagem que leio/ouço/assisto, há uma variedade de causas, e sempre tem uma que aponta para a "falta de Deus no coração". Como as pessoas não tem mais, passam a desrespeitar tudo, até os mortos.

Não consegui achar nenhuma estatística que fale da religiosidade dos meliantes de cemitérios, então dei uma comparada entre os religiosos nos presídios e na população em geral, e a discrepância não é tão destacada entre ambas a ponto de justificar a hipótese. A quantidade de ocorrência zero até a década de 80 para os boletins quase diários de hoje em dia não pode ser explicada por essa causa. No caso, a queda no nível de religiosidade das pessoas seria um componente ínfimo de um conjunto complexo de causas, que inclui impunidade, insensibilidade à miséria, queda de investimentos públicos, aumento global da criminalidade, deficiência no sistema de moradias e um pacote completo de outras coisas mais. Sempre que se tenta dar uma causa única a problemas complexos, recair-se-á na falácia da falsa causa. Por isso é bom ter cuidado com respostas fáceis. Isso inclui os sabores complexos do café especial. Bons ventos a todos!

Recomendações de cafés!

Vou por um caminho alternativo hoje, sem nenhuma verba de patrocínio (que seriam bem vindas). Vou indicar marcas de café que eu adquiro no meu dia-a-dia, e que podem ser compradas pela internet. Das duas primeiras, eu inclusive tenho assinatura, que consiste no envio mensal já programado de determinada quantidade de grãos. Todas elas eu assino embaixo:

Unique: https://uniquecafes.com.br/clube-u/

Crio: https://www.crio.cafe/assinatura-crio

Veroo: https://veroo.com.br/#assine

Kawá/Jotacê: https://www.cafekawa.com.br/cadastro

Casa 134 cafés: https://www.casa134cafes.com.br/nossos-cafezoes

Seleção do Mário: https://cafeselecaodomario.com.br/collections/all

Netcafés: https://loja.netcafes.com.br/

Aceito sugestões nos comentários.

* Não confundir notas com sabores. Notas são muito sutis, que não provém de nenhuma adição ao café, e não é possível dizer que há um gosto de maracujá, por exemplo, mas algumas características que lembram maracujá, como acidez cítrica e presente, além de um corpo levemente espesso. Existe no mercado cafés saborizados, e aí sim, temos adições de elementos para dar algum sabor. São bem comuns a associação com essência de baunilha ou uísque.  

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Sobre a torre de marfim e porque ela deveria se dar a entender

(A torre de marfim está aí para ser decifrada, e para se dar a compreender) 

Como são graciosos teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe. A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artistas. Teu umbigo é uma taça redonda, cheio de vinho perfumado. Teu corpo é um monte de trigo cercado de lírios. Teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela. Teu pescoço é uma torre de marfim. Teus olhos são a fonte de Hesebon junto à porta de Bat-Rabin…

Olá!

O trechinho acima, com o qual abro mais este texto, é um excerto de um dos livros bíblicos de mais difícil encaixe no contexto teológico que domina toda a sua escrita, embora haja uma multiplicidade reconhecida de ingredientes em sua composição, de cunho profético, histórico, sapiencial, social e político. O próprio trechinho nos fala em fonte de Hesebon e porta de Bat-Rabin, referências geográficas sobre o Oriente Médio dos tempos da era do Bronze.

São os versículos que vão de 1 a 4 do capítulo 7 do Cântico dos Cânticos, livro poético do antigo testamento bíblico. As descrições do Cântico dos Cânticos, todas cheias de referências fortemente sexualizadas (embora os religiosos mais reacionários neguem e reneguem), são estranhas dentre as exigências de pureza irrestrita no universo bíblico. Fosse a simples composição poética de um amante apaixonado, não teríamos a extravagância necessária para fornecer explicações. Nós até poderíamos tratar do tema, mas vai ficar para outro momento. Agora, quero chamar atenção para um designativo perdido no meio de tantos elogios dados a tão formosa guria: torre de marfim.

Este é um termo que está em voga hoje em dia, mas por motivos desvinculados da religião. Entretanto, em seu nascedouro, ainda antes de Cristo, nota-se que seu uso era elogioso e consagrado, já que a mocinha do texto do cântico certamente aplicaria uma bolacha no mandrião se o aplique não fosse encomiástico, laudatório, panegírico, benquerente, lisonjeiro, apologético, elegíaco. Uma torre já era um símbolo, então, de um lugar fortificado, apartado do mundo comum. Feita de material raro, conseguido aos poucos à custa do sacrifício de inúmeros elefantes, de um branco perolado e bastante resistente, é um símbolo de pureza e resiliência, com sua dignidade guardada pelo material precioso. Ser considerada uma torre de marfim representava o ideal da castidade tão almejado em tempos pretéritos. Esta imagem foi transposta pelos católicos para uma das representações de Nossa Senhora, dentre tantas outras na coleção de designativos de suas ladainhas, identificada com a amada do Cântico como fortaleza da igreja.

Mas se colocado de lado o aspecto religioso, modifica-se a ideia da torre de marfim, embora seja mantida a concepção de fortaleza e isolamento. Com o passar do tempo, começa -se a construir a alegoria de um lugar que está desprendido do mundo, alijado dos interesses palpáveis em nome de uma pretensa esfera própria. Lembram-se da expressão "sexo dos anjos"? Ela vem de uma polêmica medieval referente à existência ou não de uma sexualidade das entidades espirituais. Isso tudo acontecia enquanto o pau torava feio, no linguajar dos dias de hoje. Era o momento em que os turcos invadiam Constantinopla, pondo fim definitivo ao Império Romano, e os teólogos se mantinham reunidos discutindo se podia-se falar em anjos masculinos ou femininos. Ou seja, uma total desvinculação com a realidade circunstante. Embora essas reuniões não se dessem em torres de marfim, elas dão a exata ideia do que ela representa nos dias de hoje. Passa a ser o local onde se busca um exílio confortável, reservado para aqueles que detém uma espécie de chave dos portões do conhecimento, que somente aos seus portadores é dado o direito de adentrá-lo. Um lugar afastado, desvinculado dos acontecimentos mundanos e colocado em privilégio, ainda que isso não signifique fama e fortuna, necessariamente, mas um lugar especial e para poucos, uma espécie de elite bastante em si mesma, cuja palavra tanto é autoridade quanto autoritarismo. Isso é altamente aderente à academia científica. Para o povo, os cientistas se recolhem em um ambiente altamente hermético, cujo método e palavrório é incompreensível, de modo a impossibilitar a quem é de fora ter a menor noção do que se faz e do que se diz lá dentro. Tanto é verdade que o estereótipo do cientista inclui uma imagem esquisitona, de malucos que vivem encerrados em laboratórios e que escrevem poemas com símbolos matemáticos, divertem-se com cálculos e criam monstrinhos em balões de ensaio. Nada mais longe de um cientista real, muitas vezes envoltos em burocracias e busca de verbas, tendo que administrar egos de concorrentes e subordinados, mas isso já nos dá uma dimensão imagética, que, na verdade, não foi construída do nada.


É certo que o âmbito científico tem credibilidade, mesmo que acompanhado da incômoda pecha, haja vista a quantidade de atividades que tentam ter seu respaldo sem o ser, mas o distanciamento não ajuda em nada. Às vezes, passa a impressão de que há uma certa semelhança com os políticos em geral. Seja de direita ou de esquerda, há uma dependência em cima de um núcleo duro que chamamos, no Brasil, de Centrão. Esse é um grupo de políticos banhado de pragmatismo, e seus componentes estão essencialmente preocupados em manter-se como tutores do governante de plantão. Então a sensação final é a de que não adianta votar em Lula ou Bolsonaro, porque sempre haverá uma massa a ser satisfeita, que tem nas mãos os instrumentos para manter o estado de coisas, independente da tendência política que se busca instaurar. É uma forma de afastamento com o real interesse popular, que sempre se sente afastado da classe política. É uma comparação cruel e meio forçada, mas a falta de interlocução é o ponto de intersecção entre a torre de marfim acadêmica e a camarilha política, e um impulsionador da falta de se sentir representado.

A diferença maior da comparação que acabo de fazer está na linguagem. O que está escrito nos artigos é de suma importância, mas não pode ser compreendido pela população em geral, especialmente em um país de baixa escolaridade. Sendo assim, a recomendação para a sua leitura, que deveria ser o melhor a ser feito, é inócua. Diante daquele monte de números e falar hermético, sentimo-nos desguarnecidos. Eu mesmo confesso que já fiz por todo lado para entender um exercício mental como o gato de Schrödinger, mas não consigo alcançá-lo como devia. Isso não é burrice ou falta de instrução, é só o reconhecimento de que as coisas da ciência não são simples de compreender. Por isso, é plenamente louvável o aconselhamento por pesquisas em artigos, mas é preciso ponderar o quanto eles são compreensíveis.

O que os professores fazem quando um aluno não entende a lição? Dá um passo atrás e tenta explicar de novo, fazer paralelos, dar exemplos. Essa é a grande deficiência da academia. Justifica-se: se a cada pesquisa um cientista precisar trocar em miúdos para os mais diferentes tamanhos de compreensão, ele não fará outra coisa na vida, e seu próprio trabalho não andará. Mas é preciso um mínimo de comunicação entre as pontas.

Eu exemplifico com o que acontece no consultório dos médicos. O ortopedista olha para a chapa das minhas costas e diz que tenho uma protrusão discal. Eu olho para ele com cara de susto, quase perguntando quanto tempo me resta de vida. Antevendo tal cataclisma, ele pega o simulacro de coluna vertebral que tem em sua mesa e me explica, em rápidas palavras, que um dos discos entre minhas vértebras está fora do seu lugar correto, o que faz pressionar as terminações nervosas e causa dor. Uma explicação tão rápida já desfaz o abismo que existe entre o termo técnico e o conhecimento insipiente.

Ocorre que é difícil alguém fazer esse trabalho, porque o contato não é tão próximo quanto o que temos entre médico e paciente. Há uma noção melhor com o que acontece aos nossos corpos, por motivos simples: convivemos com eles todos os dias, e temos interesse por nossas saúdes. Mas a torre de marfim, aquela que detém o conhecimento, é autenticamente longínqua, e mesmo o tal médico já é um aplicador prático daquilo que se pensa e se pesquisa nas universidades. E há um problema adicional: ele atua no campo individual, no interesse que surge em uma pessoa específica que passa por um problema bem determinado. Não podemos falar em público amplo, nesse caso, como é o caso dos alunos de uma escola, ou as pessoas que tentam reagir a alguém que diz que as vacinas fazem mal. Explicar o processo de imunização é muito mais complicado do que dizer que são injetados milhares de chips na corrente sanguínea. A explicação é estapafúrdia? Sim, mas É uma explicação, e, na ausência de coisa melhor, adotada como boa e preciosa. E vai grassando pelos campos e pelas cidades. Isso precisa ser combatido, porque queremos explicações.

Mas por que essa necessidade peremptória de uma resposta para tudo? É uma boa pergunta, e que já partimos com uma má notícia: a ciência não dá resposta para tudo. Aliás, no limite, não dá resposta para nada, porque, como já expliquei neste texto, não faz parte do escopo ou do método dar respostas definitivas e inquestionáveis, o que é irritante para um ser cujas certezas melhoram suas chances de sobrevivência. O homem sempre quis saber como funcionam as coisas por uma questão de proteção. Saber se uma cobra é ou não venenosa sempre fez a diferença. Isso nos dá a nossa eterna característica da curiosidade, porque mesmo que um determinado conhecimento não sirva para agora, poderá servir depois.

O desenrolar da aventura humana fez com que houvesse confrontos entre versões. Por mais que as experiências pessoais e os relatos alheios pudessem fazer sentido muitas vezes, o fato é que as melhores versões sempre foram aquelas que derivavam de registros, de acúmulos empíricos e de correlações coincidentes. Essa é a base do que se convencionou chamar de Ciência. Curiosidade, portanto, não é só uma marca dos fofoqueiros, mas da espécie como um todo. Mas não se satisfaz uma curiosidade com palavras que não podem ser entendidas, e aqui nós temos o grande problema da torre de marfim. Embora não possa ser algo tão apressadamente generalizado, o fato é que se criou essa espécie de elite do conhecimento que torna as coisas tão difíceis. É preciso que exista uma ponte, mas ela é de mão única: precisa partir dos moradores da torre, porque do lado contrário estamos nós, população que não é burra, mas que não entende o maremoto de termos e de raciocínios sofisticados. Nós temos nossas ocupações: somos programadores, sapateiros, funcionários públicos, costureiros, metalúrgicos, advogados, cozinheiros e tantas outras ocupações que podem ser desenvolvidas com maestria, mas que tem seu linguajar próprio com poucos pontos de contato com a realidade dos laboratórios e observatórios, e, com isso, temos dificuldades em compreender fenômenos que fogem ao puro empirismo.

Os divulgadores científicos são imprescindíveis nessa tarefa, só que temos duas grandes forças em oposição ao trabalho bem-feito - os teóricos da conspiração e os pseudocientistas. Uns trabalham na linha de que a torre de marfim existe para obter vantagens para si, sem partilhar com mais ninguém. Essas vantagens podem ser institucionais - a indústria farmacêutica não apresenta medicamentos que curem o câncer porque este é lucrativo - ou governamentais - a tal história do chip. Já os outros querem porque querem ser inseridos na torre, mas não o são por não seguirem os critérios efetivamente científicos. Dizem, então, as mesmas coisas que os conspiracionistas: quem estipula o que é científico o faz na força de interesses. O grande problema está exatamente em fazer as devidas distinções, e isso é verdadeiramente difícil. Por esta razão, é preciso duas coisas dos divulgadores: persistência e a consciência de uma missão. Da primeira, porque devem saber que vão tomar porrada mesmo, à vera, e demora até pegar credibilidade. Da segunda, uma questão quase missionária, de dichavar as principais confusões que se fazem, de demonstrar onde as coisas estão erradas, de ter a sensibilidade para detectar quais assuntos podem ser os mais relevantes e os que mais podem ser mistificados. É um trabalho que mistura Hércules e formiga, mas é aquela velha história da entropia… fazer o suco de manga é fácil, se comparado a lavar a camiseta suja por ele.

É preciso lembrar ainda que a pesquisa científica no Brasil é praticamente inteira feita nas universidades públicas. Com isso, a participação governamental é indissociável dos financiamentos de pesquisa, e uma ideia seria fazer algum tipo de regulamentação para a liberação de verbas com a inclusão de um trabalho de tradução ao grande público sobre o que está escrito lá dentro. Não sei, pode ser que desse certo.

Mas completando. Se falamos de uma torre de marfim científica, poderíamos falar de uma torre de marfim filosófica? É claro que sim, e o interesse em divulgadores como Leandro Karnal, Clóvis de Barros e Mário Cortella explicam que existe interesse popular em filosofia. O grande problema é que progressivamente eles vão se rendendo a assuntos monotemáticos, muito ligados à ética e com forte sabor de autoajuda, e perdendo a chance de soltar aquilo que está aprisionado na torre. Poderiam aproveitar do gabarito e da credibilidade que conquistaram para conseguir aprofundar não somente sobre assuntos da ética, mas do que é a própria ética, suas diferenças e semelhanças com a moral e deixar que seus audientes reflitam por si mesmos sobre o que é a vida que vale a pena. Falar em frônesis, em ataraxia, em deontologia, em eidos, em solipsismo, em noema, em aporia é afastar a filosofia do povo, se estes termos forem usados indistintamente, com a suposição de que quem os ouve tem que se coçar para entender do que se está falando. Mas eles precisam operar com a lógica de mercado, já que vendem a bons valores suas palestras, e uma empresa que os contrate não está preocupada com designadores rígidos ou mônadas, sejamos francos.

Caras como Foucault, Derrida, Deleuze, Guattari e outros não só tratam de temas complicados, o que por si só já é um desafio, mas escrevem de forma complicada, o que piora muito as coisas. Eu lembro bem quando comecei a ler Kant. Pensei: que tradução ruim! Melhor caçar outra. Vejo outra e penso: ruim igual. E aí algum professor me fala: não é a tradução que é ruim, é o texto que é mal escrito. Não no sentido de usar alemão de quinta, mas de ser muito enrolado, mesmo. São ideias já muito difíceis por si só; se não são apoiadas por uma expressão muito clara, então lascou. Vira coisa de iniciados. E aí eu fico pensando: se eu, que fiquei todo o tempo que fiquei na faculdade, e já possuo um espaço de filosofia há doze anos, tenho tremenda dificuldade em entender algumas teses e raciocínios, que fará com quem nunca tangenciou com o tema nem de perto?

Eu tento, dentro das limitações que eu tenho, traduzir aquilo que consigo para vocês, meus rarefeitos leitores, mas eu não estou dentro da academia. Alguns divulgadores fazem, e bem, esse trabalho mais massivamente, mas a sensação que temos é sempre uma só: quem os busca está mais interessado em passar no ENEM do que aprender novidades das discussões da ágora filosófica. O que está sendo discutido neste momento em termos de metafísica, de epistemologia, de estética, até mesmo de ética, algo um pouco mais próximo do quotidiano das pessoas. A uma primeira vista, parece que é eternamente a mesma coisa, o que não é verdade. As ideias filosóficas provocam teses científicas, e estas, uma vez desenvolvidas, retornam novamente à filosofia, que vai começar a tatear novamente a realidade, para desafiá-la e repropô-la, fazendo com que a própria existência ganhe novas valorações. Se o mundo é hoje um lugar um tantinho melhor para viver, foi porque um dia algum filósofo se perguntou sobre o que era um mundo melhor. Mais ainda: perguntou o que era mundo e o que era melhor. Por isso, não podemos nos colocar nos confortáveis assentos da torre de marfim para um dia mais tarde ficar reclamando que as pessoas acham que a terra é redonda. Não é verdade?

Bons ventos a todos!

Recomendação de canal:

Comecei a acompanhar este canal a pouco tempo. Apesar do uso extensivo de click baits, seu conteúdo me parece bom e vale a pena ser acompanhado para se atualizar sobre as novidades no mundo científico.

Olá, Ciência: https://www.youtube.com/@olaciencia

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Sobre as conexões entre os quadros de nossos ambientes

(Caras e bocas traduzem uma cena como um todo? É possível ter uma expressão como componente de uma verdade local?)

Olá!

Tal qual a patroa, eu fiz minha primeira tatuagem em uma idade meio avançada para o padrão. Os motivos foram quase os mesmos: quando eu podia voltar o foco dos meus parcos tostões para fazer uma, tínhamos toda uma ojeriza social aos tatuados, trabalho incluso. Depois, a questão foi se tornando menos empregatícia e mais orçamentária mesmo, porque não se trata de serviço exatamente barato. Talvez a grande diferença entre nós foi o momento em que a vontade surgiu. Eu queria fazer uma ainda menor de idade, cuja aceitação nem passou em sonhos pela cabeça dos meus pais; já no caso dela a coisa veio bem mais tarde, já bem adulta, com os filhos já feitos.

Aconteceu de esses últimos tomarem seus rumos, e, embora ainda surja algum perrengue episódico, o fato é que eles vão se ajeitando e, com isso, algumas contas ficaram menos salgadas, permitindo projetar gastos dantes infactíveis. Além disso, a correlação entre tatuagem e mau-caratismo não faz mais o mesmo sentido, eu tenho emprego fixo e não sujeito a inspeções corporais e a ampla oferta fez com que os preços dessem uma razoável arrefecida. Taubaté, aliás, por trás da cara conservadora, tem uma proporção per capita de estúdios que aparenta a mim (sem nenhum critério estatístico) ser maior que a de São Paulo. É por lá que fiz os meus rabiscos.

Quando eu fiz minha tatuagem, a patroa estava lá, perguntando sarcasticamente se eu queria “dar a mãozinha”. Devo confessar que havia momentos que dava vontade mesmo. Eu fazia caras e bocas de colocar medo até em um lobo faminto, sempre segundo a consorte. Eu sei que eu sou meio careteiro mesmo, até porque as agulhadas atingem uns pontinhos de fato mais nevrálgicos, e aí o esgar é de rigor. Mas também não foi para tanto, a ponto de já ter feito uma segunda e estar a caminho da terceira. E acho que aí chega. Ou não.

Mas não é sempre que minhas expressões são exacerbadas. No próprio dia-a-dia, nós costumamos mudar de cara de acordo com as circunstâncias, até mesmo porque essa é uma forma involuntária (às vezes) de expressão. Acontece eventualmente de que tanto a patroa quanto a patroinha (o moleque mais velho nunca) olhem para minha cara e digam que algo não vai bem. Tem momentos em que é verdade. Como eu já disse por aqui, meu trabalho fundamentalmente consiste em tomar pressão no lombo, e, por vezes, isso é incômodo, ou aflitivo, ou provoca raiva, tédio, medo. Então é natural que a expressão mude. Mas tem vezes que não. Eu estou simplesmente na minha e vem a inquirição repentina. Segue um diálogo comum nessas ocasiões:

Patroa: “Você tá com a cara esquisita”

Eu: “Eu?”

Patroa: “É. Aconteceu alguma coisa?”

Eu: “Não… Eu tô com a cara esquisita?”

Patroinha: “Tá sim, eu também percebi”

Eu (começando a me incomodar): “Não. É coisa da cabeça de vocês”

Patroa: “Tá vendo?”

Patroinha: “É. O que aconteceu?”

Eu (já irritado): “Nada, gente. Tá tudo como sempre”

Patroa: “Bom, se você não quer falar, não tenho como ajudar”

(e assim por diante)

Mais do que irritado, eu fico bolado. Por que minha cara de judeu de todo santo dia causa espécie quando não há nenhum motivo para tanto? O que acontece para que as pessoas achem que você está calmo em plena borrasca ou nervoso quando está deitado na nuvem?

Eu reflito nessas coisas e, de repente, me pego olhando para a mesma patroa, que está cabisbaixa na poltrona da sala, e consigo vê-la daqui de minha bancada. Parece entristecida, como se estivesse nostálgica ou frustrada. Fico remexendo nos meus fantasmas e perguntando a mim mesmo se tenho cuidado bem dela, como me comprometi ao lhe tirar da casa do pai. Fico me questionando se tenho realmente sido um bom companheiro, se não sou mais estúpido do que o tolerável, se ela não tem frustrações com o amanhã sem perspectivas, se não se recorda dos bons tempos de juventude e não vê motivos para se alegrar com o que o futuro a reservou. Vou ficando meio depressivo, e estou a ponto de ir lá, conversar com ela, quase para pedir desculpas. No que me impulsiono, ela solta a gargalhada da piada que acabara de ler no celular, compenetrada. Sinto-me um pouco constrangido comigo mesmo, porque, mesmo que tenha tido um sentimento de compaixão, meu equívoco foi flagrante.  Ou seja, a brincadeira não acontece somente quando eu sou objeto contemplado, mas quando eu observo os outros também. E aprendo que o fenômeno não só ocorre comigo no polo passivo, mas também como uma pessoa que tem sua sensibilidade adulterada por um contexto que, muitas vezes, é somente imaginado.

Imaginado ou induzido? Essa é a grande questão. As coisas, como bem sabemos, não se encontram isoladas em um ambiente, como se estivessem enfiadas em um quartinho de cor neutra. São várias as interações que acontecem entre os objetos e o meio que os cercam, mesmo que todos os componentes estejam estáticos. Ora, vejam: nós somos objetos também, e, sendo assim, qualquer um que nos observe o fará com a influência das nossas cercanias. Uma expressão pode passar de serena a entediada pelo simples fundo em que está inserido – um campo florido ou um quarto semiescuro. Há um efeito teórico aplicado em cinematografia que explora muito desse conceito, o efeito Kuleshov.

O efeito Kuleshov foi sistematizado por Lev Kuleshov, um teórico de cinema e cineasta russo, que, fundamentalmente, dizia que a percepção das pessoas é influenciada pela sequência de imagens que lhe é apresentada em tela, o que pode mudar o sentido original do que é exibido anteriormente em função daquilo que é apresentado a posteriori. Em miúdos: eu só fecho um contexto quando tenho um conjunto de impressões maior do que uma imagem simples.

Tendo essa tese em mente, Kuleshov promoveu um experimento que se tornaria influente no cinema a partir de então. Como as imagens originais do experimento se perderam, há algumas versões correntes, todas com o mesmo suposto resultado, mas a mais clássica é a que segue: Kuleshov montou três sequências de três fotogramas, sendo que a sequência seria o close no rosto impassível de um ator, seguido por uma cena variável e pelo retorno ao close no ator. Na primeira sequência, o ator observa um prato de sopa; na segunda, um caixão com uma criança morta e, na terceira, uma mulher lúbrica. É importante reforçar que a expressão do close é sempre igual, nas três sequências. Perguntando a entrevistados que sentimentos eles achavam que o personagem tinha diante de cada uma das cenas, para a primeira falou-se em fome, para a segunda em luto e, para a terceira, em excitação.

Isso demonstra, segundo Kuleshov, a importância da montagem no universo do cinema. A maneira como as cenas se sequenciam são de vital importância para que o espectador construa mentalmente a narrativa, e o diretor precisa levar isso em conta se quiser participar desta formação ativamente. É possível brincar com o efeito. O que eu quero fazer com a faca que tenho em mãos? Cortar uma carne, ferir uma pobre transeunte ou colher um mamão?

A grande pergunta é: a expressão é sempre a mesma; como ela ganha o sentido que lhe é atribuído? Como ela faz “adivinhar” o que o protagonista pensa? Eu não sou da área de psicologia, mas sou curioso, e vou tentar uma resposta através de duas correntes. Quem quiser divergir e me ensinar alguma coisa, fique à vontade nos comentários.

A primeira é que fazemos associações por conta de estímulos que recebemos durante toda a nossa vida. Embora nossas reações imediatas sejam instintivas, o fato é que elas não são unívocas. Basta que se pense nas pessoas que caem na gargalhada nas situações mais dramáticas possíveis. É algo absolutamente inesperado, mas possível – o famoso rir de nervoso. Sendo assim, a expressão impassível fica dentro do escopo das possibilidades de reações. Afinal de contas, temos a sensação de que o ator está "travado" diante de qualquer uma das situações. Mas nós não fazemos essa associação porque a temos em nós espontaneamente, e sim porque as observamos nos outros. Então, a cada vez que vemos uma pessoa reagindo à fome, à morte ou à libido, registramos sua reação e a colocamos na nossa coletânea de possibilidades. Cada observação de reações é um estímulo para que reforcemos a maneira com a qual enxergamos o mundo. Como a impassividade está nesse rol, fazemos facilmente a associação do contexto, mesmo que seja a mera junção de recortes. Esse é o caminho que vem do behaviorismo.

O resumo então é muito simples. Julgamos as expressões das pessoas porque temos uma habitualidade que lhe dá base. Acostumamo-nos a ver as pessoas fazendo caras e bocas para determinadas situações, e, com isso, emprestamos esse sentido que temos guardados em nós para situações que, talvez, não sejam exatamente o que pensamos. Isso acontece porque podemos tentar prever comportamentos com base naquilo que constantemente observamos no mundo.

Por outro lado, temos que a realidade é toda constituída por um continuum. Os retratos são pinçados da realidade como quadros que fazem parte de uma cadeia de causas e consequências, um antes e um depois, em sucessão infinita. As fitas de cinema são um exemplo perfeito dessa continuidade - uma longa cadeia de fotogramas que se sucedem logicamente. Essa montagem lógica da realidade é esperada pelo cérebro, e, mais do que isso, é procurada por ele. Por isso, furos da realidade posta são desesperadamente supridos pela cabecinha oca para acomodá-los ao que ela aguarda. Isso possibilita que sejam vistas coisas que não existem de fato, como no desenho abaixo:

Quem bate o olho percebe que um ramo de grão está sobreposto por um banner. Só que, se você retirar este último, não verá a continuidade do galho, mas uma faixa de tinta amarela. Essa complementaridade mental que damos às coisas permitem fenômenos como as ilusões de ótica, a pareidolia e outros mais. Situacionalmente, temos o mesmo princípio. Em uma sucessão de imagens, procuramos formar um nexo causal entre elas, de modo a ter posta a tal continuidade. A expressão do ator pode ter sido extraída de qualquer uma das três situações, ou até de nenhuma, mas o fato é que pode ser associada a qualquer uma delas. Se estivesse fazendo uma pernacchia*, por exemplo, teríamos um alerta de estranheza ligado, justamente pelo desencaixe do contexto (o que exigiria de nós novas informações), mas sendo uma expressão neutra, facilmente dá continuidade às circunstâncias que lhe seguem, justamente por lhe dar sentido lógico. Esse engodo à mente através das percepções sensoriais, que traduzem um sentido que isoladamente não existiria é de estudo da psicologia da gestalt.

Novamente resumindo, temos que nosso cérebro procura fazer um link abstrato entre diferentes cenas e situações para estabelecer conexões causais entre elas, da mesma forma que tenta estender imaginariamente as imagens para conectá-las.

A conclusão é que, seja por uma via ou outra, ou até por ambas e até outras, é inevitável que haja um componente subjetivo na realidade. Há uma mente que faz as costuras entre os diferentes componentes que constroem um ambiente, e cada uma delas doa sentido próprio, formado pelo que há em seu interior. É por isso que o velho Kant ensinava que não há como se ter acesso à coisa-em-si: somos exclusivos no universo, e nós, somente nós, vemos a realidade da forma como vemos.

Como eu disse anteriormente, em matéria de psicologia sou um mero curioso, mas, como adepto da filosofia, gosto de especular, e estou aberto a explicações melhores sobre um fenômeno que é possível de perceber empiricamente, mesmo que não haja comprovações científicas definitivas sobre o mesmo. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Livro português que trata do efeito Kuleshov:

BERTHOLO, Joanna et al. Efeito Kuleshov. Lisboa: Dois Dias, 2014.

É muito fácil encontrar na internet exemplos do efeito Kuleshov. Segue um para quem quiser ver:

https://www.youtube.com/watch?v=_gGl3LJ7vHc&pp=ygUIa3VsZXNob3Y%3D

* é aquela brincadeira tipicamente italiana de imitar um flato colocando a língua entre os lábios e soprando fortemente.