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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

O café filosófico do quotidiano – filosofia induz ateísmo?

(Será que a filosofia é um caminho que te tira a fé?)

“Como é possível que hoje muitas minorias religiosas sofram discriminação ou perseguição? Como permitimos que nesta sociedade altamente civilizada existam pessoas que são perseguidas simplesmente por professar publicamente sua fé? Isso não só é inaceitável, é desumano, é insano”.

Jorge Maria Bergoglio, aka Papa Francisco I

Olá!

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Métodos de extração de café assemelham-se à pesquisa científica, tanto em sua forma, quanto em seu propósito. Isso acontece porque certos métodos parecem ter saído de um laboratório (quando de fato não tenham saído), enquanto há um espírito de experimentação para se descobrir maneiras cada vez melhores de obter seu objetivo, o líquido. 

Isso explica por que há tantos lançamentos, às vezes compostos por grandes parafernálias e maquinismos, outras por inovações simples e bem sacadas. Um dos principais problemas é deixar a água passar muito demoradamente, porque isso traz a tendência ao amargor. Claro que quem toma café já espera e aceita alguns IBU’s*, mas há um limite que te obriga a colocar açúcar, e isso não é desejável. Normalmente isso é resolvido engrossando a moagem, porque a solução concorrente seria acelerar a gravidade, o que não é tão fácil assim.

A empresa japonesa Kalita, célebre em pesquisa desse tipo de problema, construiu uma opção muito simples de resolver o problema, com um produtinho chamado Syphon.

Olhando por fora, é um porta-filtro como outro qualquer, que usa filtros trapezoidais, iguais àqueles da Melitta link, feitas com a mesma numeração e as mesmas dobras.


O segredo se vê por dentro. Uma pequena válvula faz com que ocorra um efeito sifão, o que “puxa” a água para baixo com mais velocidade e impede o excesso de compostos amargos.

Sou obrigado a confessar que duvidei da promessa, mas ela se cumpriu. Um simples caminho colocado na posição certa fez com que todo o líquido passasse mais rápido, e o resultado de fato ficou de acordo, minimizando a extração do amargor.

  

Nome do utensílio: Kalita Syphon

Tipo de técnica:  Percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: média

Dinâmica: Aloca-se um filtro trapezoidal no porta-filtro com as dobras de costume. Após a saturação, o pó é depositado e a água pode ser despejada aos poucos ou toda de uma vez, sempre após uma pré-infusão. Aguarda-se um tempo de escoamento e é tudo.

Resíduos: Baixos 

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: médio

Uma prova da correlação habitual que faço dos métodos de café com os métodos de laboratório é a quantidade de textos de natureza da filosofia da ciência que surge nesta série. E os motivos são óbvios, conforme colocado acima.

A pergunta subsequente diz respeito à minha “saída de armário”, feita ainda em 2016, mas assumida somente três anos depois. No que seus estudos de filosofia influenciaram sua posição atual com relação à religião?

A pergunta ocorre porque assumi minha falta de religião, e tem gente que relaciona isso ao fato de eu ter estudado filosofia. E já escutei falar muitas e muitas vezes que o ambiente acadêmico, seja voltado para a filosofia, seja para a ciência, favorece uma visão onde o fenômeno deus é excluído. Isso não é nem verdade, nem mentira. Há pesos e contrapesos na relação.

A primeira questão é a diversidade de visões. É verdade que vários dos filósofos de ponta posteriores à Revolução Francesa pensaram em um universo sem divindades, mas pontas de lança como Kant e Hegel não descartavam Deus nos seus sistemas, muito pelo contrário. Outro exemplo vem dos primórdios, quando todos os filósofos da physis, de uma forma ou de outra, colocavam a chancela divina em seus tratados, coisa que somente Leucipo e Demócrito colocaram em um desvio puramente materialista, o atomismo. Tales, Anaximandro, Xenófanes, Empédocles e todos os outros colocavam os deuses como arché da arché ou como os artífices que as moldavam, mesmo que o substrato da realidade fosse um elemento material.

Então não é pela ausência de deuses que estudar filosofia leva alguém a se tornar ateu. O que eu declaro ser realmente assertivo nessa ideia é o pensar aberto, pensar diverso, pensar criticamente. Quando nós vemos, no transcurso da história da filosofia, o seu andar dialético, então aprendemos que as posições em antagonismo são igualmente válidas, e a questão fica no valor de verdade que cada uma pode ter. Ou seja, sim, houve influência, mas ela não foi decisiva. E a filosofia induz ateísmo em que já está propenso a isso.

Como eu disse anteriormente, minha desconversão não se deu através de um fenômeno pontual, mas de um longo trajeto em que eu passei, onde a cada dia eu me confrontava com uma nova explicação melhor do que a religião me dava, fazendo ela ser colocada mais e mais no âmbito do mito. Inicialmente, quando você não obtém mais respostas na religião que você professa, a tendência é manter a estrutura e substituir a divindade, e é aí que temos as conversões. Isso é fácil de explicar: não se muda a maneira de pensar, apenas os objetos da fé. É como quando o técnico quer dar mais velocidade no ataque - ele tira o centroavante pesadão e coloca um ponteiro lépido. Mudam-se as peças, mas mantém-se a lógica de se ter um mesmo modo de fazer o jogo. O alicerce dessa estrutura é a fé, que não é nem um pouco fácil de ser removida. É por isso que eu falo de processos lentos.

Quando observamos outras ideias (sem se levar em conta outras religiões), começamos a trazer possibilidades novas para nosso arcabouço intelectual. Elas podem ser aceitas e confrontadas com derrota, ou simplesmente rechaçadas, e a fé vence. Não há nada de mal nisso, reforço. Para os religiosos, é um teste de fé; para os não religiosos, é mais uma hipótese que se coloca.

Entretanto, um olhar que encaminhe para a realidade palpável, para a materialidade tangível, para o universo observável, inevitavelmente conduz à ciência. E aí a porca torce o rabo.

Não se trata de colocar a ciência como oposição à religião, como tantos gostam de fazer. Há duas questões: a ciência explica o mundo de maneira muito melhor que a religião, a não ser que você acredite que não são bactérias que causem as infecções, e sim a revolta divina. Por conta disso, muitos religiosos veem a ciência como fumaça nos olhos, que tiram a função de Deus no universo, e que isso é ação diabólica e etc. Eu acho isso um erro, porque vem da ideia de inerrância e de literalidade dos escritos, do contrário bastaria imaginar um deus que movimenta todos os aspectos científicos. Há religiões que fazem isso, inclusive. Sabiamente.

Mas… se eu olho para o universo e vejo que ele se basta, para que preciso incluir uma divindade que lhe justifique? Certo: há muitas coisas que ainda não são possíveis de explicar pela via da ciência. E é assim mesmo que funcionam as coisas. Não é preciso criar um deus das lacunas a cada buraco no conhecimento. Por vezes, é só preciso esperar e se conformar. Isso é chato, mas é honesto.

E como isso influencia em minha vida, em minhas posições? Pouco, na verdade. Eu não mudei quase nada desde que saí do armário, provavelmente porque já tinha a cabeça meio dirigida para maneiras parecidas de ver a vida com as que tenho agora. Sempre usei para mim mesmo o subterfúgio do deus que guia o mundo e a natureza, então tudo o que ocorre tem sua explicação natural e sua explicação metafísica, uma em consonância com a outra. Então, não dói tirar a segunda. O universo permanece tal e qual, com ou sem deus, para quem o vê sob critérios científicos. Se te traz conforto a fé, pode mantê-la sem problema algum. Só não venha me dizer que há literalidade nos escritos. Aí, vamos discordar.

Eu sou absolutamente contra a caceteação de ateus que se parecem com os religiosos mais chatos fazendo seus proselitismos de dedo em riste. Vai contra o espírito de liberdade que povoa quem já não se prende mais a uma convicção religiosa, parecendo simplesmente ter trocado de sinal. Reconheço que há gente que tem um propósito em mostrar como há gente que abusa da fé alheia, mas isso é, na essência, contraproducente. 

Sendo assim, eu acho que a única mudança de fato está na visão que eu tinha sobre o estado laico, provavelmente a principal bandeira a ser levantada pelos sem-fé do mundo todo, porque temos dificuldades de olhar certos aspectos da falta de laicidade enquanto estamos dentro da casinha. É quase como o que acontece com o planeta Terra: só saindo dele sabemos de verdade como ele é, redondo, azul, cercado de nuvens. Não deveria ser difícil para um religioso respeitar convicções alheias. Mas é um viés de ponto cego achar que não somos influenciados pelas ideias que nos estão calcadas. 

Enxergar o mundo pelas vias do estado laico é a única maneira de assegurar não só o direito de não seguir a nenhuma religião, mas também e principalmente o direito de professar religiões. Quando se olha para a história, vê-se que se matou por causa de religiões. Quando há chancela do Estado, pior ainda é a situação. A essência da democracia está em se poder praticar todos os atos que queiramos, desde que não haja proibição para isso. O Estado, portanto, não pode tutelar a religião, seja lá qual for.

Quando vemos um rito qualquer em um órgão público, devemos ficar alerta. Missa, culto, cerimônia, nada disso deve ser permitido dentro de um contexto englobado pelo Estado. Ora, direis, mas agrupa-se fora do Congresso em uma igreja qualquer e o efeito é o mesmo. Sim, mas é preciso que o próprio Estado mantenha seus ritos: o de não permitir que uma religião prepondere sobre as demais. Ainda que se permita todo e qualquer culto, ainda assim há o direito de quem não professa fé alguma. É antipático? É, mas só assim todos tem seu direito respeitado.

Em um momento onde cada vez mais vemos o congresso sendo dominado por parlamentares com posição religiosa misturada aos temas sociais, tanto mais importante vai se tornando a separação entre o que as pessoas creem e o que as pessoas fazem em comum. Me dá rinite e artrite só de pensar em uma sociedade dominada pelo que quer uma determinada vertente religiosa, por mais que ela seja majoritária.

E é preciso ficar atento, porque a coisa está acontecendo debaixo de nossos olhos. Tenho ojeriza de que me digam o que fazer sem um propósito coletivo. A melhor maneira de me fazer voltar a ser cristão é me proibir de ser cristão.

Agora vou tomar meu café apressado por belos fenômenos físicos aplicados à arte. Bons ventos a todos! Um ótimo 2025.

Recomendação de leitura:

É um livro que carrega meio forte nas cores, mas não deixa de trazer muitas informações importantes sobre a formação de uma bancada religiosa no Congresso Nacional. Em tempo: o tamanho está ainda maior hoje.

DIP, Andrea. Em Nome de Quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

 

*IBU - International Bitterness Unit é uma padronização para se medir o quão amarga é uma bebida, e é muito utilizada para dar ideia sensorial de cervejas.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

O café filosófico do quotidiano - o niilismo e o niilismo de Nietzsche

(O que é o niilismo? É justa sua associação com o ateísmo e o ceticismo? E por que ele vira de cabeça para baixo com Nietzsche?)

Olá!

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Eu nunca tive grandes problemas para pegar no sono com café, mas ele me ajuda a acordar. Como tenho procurado fazer tudo o mais cedo possível nesses tempos pandêmicos, às vezes a coisa chega às raias da maluquice. A maior delas foi quando precisei ir ao dentista. O doutor não tem muita noção de cronogramas e aceitou o desafio: “te atendo às seis da manhã, se você quiser”. Eu quis, por amor à saúde e arrepio do sono. Coloquei o despertador para as quatro e meia da madrugada, e levantei zumbizando, mas com lógica suficiente para preparar um café turco, o mais potente de todos no quesito estímulo.

O ibrik é o recipiente canônico para o preparo do café turco, um dos métodos mais antigos e que extrai um dos cafés mais fortes, e que é cheio dos rituais na preparação. Inclusive, é desse modo de usar que é feita a célebre leitura de borra, ou cafeomancia – nome mais feio do mundo. A coisa toda começa com o café sendo moído em uma espessura finíssima, o mais próximo possível de uma farinha. Ele é colocado no cadinho em água fria para ebulir junto, para obter um processo de transferência de essências. Caso se queira, é admissível a mistura de especiarias, como cravo, cardamomo e anis. Eu fiz uma vez com pimenta em grão e ficou bom prá caramba.

A parte mais cerimonial já começa aqui. Quando ocorrerem os primeiros sinais de fervura, o caldo vai subir, como se fosse leite, e é preciso tirar rapidamente da chama. Esse rito é feito por três vezes. Ao fim, já com o fogo desligado, o pó ficará boiando encharcado sobre a água. Para iniciar o processo de decantação, é preciso despejar água fria sobre a borra, em um fio bem fininho, de preferência com um pescoço de ganso.

Feito isso, o café é colocado sem filtragem para descansar na xícara. Fica forte à beça, e cheio de pó. Por isso, é um café de nicho, feito para ser enfrentado por quem gosta de níveis petrolíferos de cafeína. Se o objetivo é fazer o ritual de leitura de borra, faça sua vida ter mais graça e leve a coisa a sério. Pegue uma xícara sem alças e tome cuidado para não engolir todo pó do fundo. Mentalize o questionamento que você quer fazer aos deuses rubiáceos e ingira aos poucos. Vire-a então sobre um pires e espere escorrer.

Do pó assentado no fundo que escorreu pelas paredes da xícara é feita a leitura do futuro de quem tomou o café. Eu, por exemplo, previ que uma xícara seria lavada, sob pena das altercações com a patroa. Percebem como está escrito exatamente isso?

Nome do utensílio: Ibrik

Tipo de técnica: fervura em recipiente de cerâmica (decantação)

Dificuldade: Média

Espessura do pó: Muito fino

Dinâmica: água e pó muito fino são levados à fervura até o líquido subir. É arrefecido com água fria para o pó descer, e mantido em decantação para que o líquido possa ser extraído com o mínimo de pó possível.

Resíduos: Muitos

Temperatura de saída: Média-alta

Nível de ritual: Altíssimo

Brincadeiras a parte, a cafeomancia tem oposições perfeitas em seus valores culturais e epistemológicos. Ela carrega alto valor tradicional, em proporção inversa à sua carga de verdade, mas isso é coisa para chatos como eu reparar. Astrologia, numerologia, biorritmo, profecias e meteorologia paulistana têm valores preditivos parecidos: nenhum. Tudo isso para este escriba, não precisam brigar comigo.

Mas daí que eu fiz um café no ibrik neste dia específico e fiquei lá raciocinando antes de, pela centésima vez, virar a xícara só de brincadeira, enquanto esperava a cara consorte. O que é um ritual desses para quem não acredita em rituais? Bem, como eu acabei de dizer, os ritos têm valor antropológico e, além disso, nós vivemos, mesmo o mais arraigado dos ateus, algumas formas de celebrações e de rituais. Mas em termos práticos, não se vê onde as artes divinatórias vão dar. E com isso lembrei que esqueci de falar no meu texto sobre ateísmo de uma vinculação muito comum que se faz entre ele e o niilismo. Ora, nunca é tarde, façamos isso agora.

Niilismo é um termo meio esquisitinho, que vem da palavra latina nihil, que, ora vejam, significa nada. Seu sentido mais estrito é uma descrença absoluta em tudo, pelos mais diferentes motivos. Como a descrença em deus faz parte do conjunto de descrenças, está bem explicada a amarração que se faz entre niilismo e ateísmo. Como regra geral, todo niilista é ateísta, mas nem todo ateísta e niilista. O ateu pode ter vários propósitos que não são a total negação a que os niilistas se propõe. Na mão inversa, se o niilista não vê sentido em nada, pareceria um pouco antagônico se ele acreditasse em um deus. Portanto, o vínculo possível seria uma espécie de encapsulamento, onde o conjunto “ateus” englobaria o subconjunto “niilistas”, sem guardar uma relação necessária de sinonímia.

Essa história de niilismo já vem de muito tempo atrás, desde o sofista Górgias, que dizia que "nada existe; se existe, não pode ser conhecido; se pode ser conhecido, não pode ser expresso". Como os socráticos não viam com bons olhos os sofistas, especialmente pelo uso comercial do conhecimento que estes faziam, esse tipo de niilismo ficou um pouco obscurecido, mas não inexistente. Isso porque, ainda que nos carreguemos de profundos estudos metafísicos e existenciais, por mais que busquemos conhecer as divindades e suas teologias, e mesmo que tenhamos um desejo profundo de acreditar firmemente nessas disposições presentes e futuras, há apenas dois fatos dos quais temos experiência direta: os enganos dos sentidos e a certeza da morte. Tudo o mais vai no campo da expectativa, e não do empirismo.

Neste ponto, podemos diferenciar o niilismo do ceticismo. O cético é aquele que duvida, e não aquele que desacredita. Grosso modo, o cético aceitará provas incontestes, só não aceitará engolir argumentos puramente apoiados no ar. Já o niilista passou dessa fase da suspensão do juízo: ele pauta toda sua cognição na negação da possibilidade de saber. O ceticismo, por exemplo, duvida dos valores de uma sociedade, enquanto um niilista os nega. O cético não se importa em dar um sentido à vida, o niilista os exclui.

De uma forma ou de outra, o niilismo esteve no horizonte de muitos filósofos no transcurso da história. Teve seu auge com o voluntarismo de Schopenhauer, que deu contornos de conformismo e pessimismo à visão metafísica da existência, ao estabelecer uma total submissão à vontade e às suas representações; e com o existencialismo de Sartre e tantos outros, que deu prioridade à existência concreta, em detrimento a uma suposta essência.

Mas é com Nietzsche que ele deixa de ser uma tendência para virar objeto de estudo. Quer dizer, daquele jeitão sui generis dele, né? Tanto que precisamos recorrer à metanálise feita pelo filósofo francês Gilles Deleuze para que isso fique bastante claro.

Na interpretação de Deleuze, o nada para o qual Nietzsche volta seu foco tem correlação com a vida. Portanto, sempre que se falar em negação, é nisso que Nietzsche está pensando - negação à vida, em uma crítica contundente à civilização da modernidade. Ele constrói em diferentes textos quatro maneiras de ver o niilismo, sendo que eles seguem uma espécie de roteiro histórico, que, mais do que se seguirem linearmente, vão se acumulando.

O primeiro deles é o niilismo negativo, e aqui as bazucas nietzscheanas se voltam contra a Metafísica e a Religião, notadamente o Platonismo e o Cristianismo. Quando observada a antiguidade clássica, podemos notar que as ideias de Platão falam de um mundo além do sensível. Todas as essências e modelos estariam em uma dimensão apartada, perfeita, detectável unicamente pelo intelecto. Sendo inacessível pelo corpo e pelos sentidos que, no fundo, são a nossa forma de fluxo pela vida, temos já aqui sua primeira negação. O mundo sensível é imperfeito, uma mera cópia do que seria o mundo inteligível, cambaio, torto, inadequado. O mesmo se aplica ao modo de vida cristã. Para seus praticantes, a vida terrena é somente uma passagem para a eternidade. Pior ainda, é um condicionante para essa eternidade, que pode se tornar terrível se o destino for o inferno. Essa dor eterna se dará justamente se instintos forem liberados e se os sentidos forem colocados em um primeiro plano, gerador infinito de pecados. Vejam como os maiores impulsos são condenados pelo Cristianismo, sendo que a solução, igualmente, é negar a vida que nos é estranhamente dada pelo deus, na expectativa de que se possa obtê-las em outro lugar. Esse é o niilismo negativo, porque se baseia fundamentalmente em negar virtudes existenciais presentes para projetá-las para fora, em um outro plano.

Com a chegada do Renascimento e do Iluminismo, todo esse aspecto metafísico citado anteriormente deixa de existir. É o século da Ciência e do olhar voltado para o próprio homem, que passa a enxergar sentido para a vida novamente, através dos avanços no conhecimento e na tecnologia. É aqui que surge a morte de Deus, e os homens, livres do peso que lhes oprimia, buscam seus propósitos no próprio mundo. Mas esse avanço não é para agora, e Nietzsche passa a martelar a própria Ciência. As descobertas e invenções são boas, é fato, mas ainda custará tempo para que produza um mundo onde verdadeiramente valha a pena viver. Então a negação muda seu foco: o mundo onde o sentido existe é este mesmo, mas o que está sendo negado é o presente, o momento atual. É o futuro que reserva significação plena para o ser humano. Hoje, ele é mera expectativa. Por ser produzido a partir de uma reação à impossibilidade de se afirmar a vida do niilismo negativo, este é chamado de niilismo reativo.

Acontece que o futuro chegou e o que tivemos foram guerras e pestes. O homem não criou um paraíso através da técnica, somente obteve mais miséria para si mesmo. Aumentar a tecnologia para facilitar a vida somente fez com que seu desejo se tornasse incontrolável. Órfão de deus e desiludido com a ciência, já não se tem o lenitivo da expectativa, e o homem se vê metaforicamente pelado debaixo das pontes, sem nenhuma solução de sentido. É a hora de torpedear a própria Filosofia. A ascese sugerida por Schopenhauer não é solução, é um disfarce, e a negação de significado passa a ser total, doentia, dolorosa, imobilizante, o que dá a ela toda a carga de pessimismo que lhe é peculiar. É um deixar-se levar exaurido, de corpo solto, por isso chamado de niilismo passivo.

Por fim, temos a efetiva proposta de Nietzsche. Ele concorda com a carência de sentido da vida. Realmente, não se está aqui para buscar um lugar melhor, nem um tempo melhor, mas para transvalorar todos os valores. O homem fica preso ao próprio desespero porque não consegue ir para além de si mesmo, de reconhecer que a vida tal qual se apresenta a nós é tudo o que temos, em um pacote completo que inclui alegria e tristeza, prazer e dor, animosidade e paz, força e fraqueza. É como se saltássemos de para-quedas e este falhasse. Se é irremediável meu fim, o que melhor me cumpre fazer? Rezar desesperadamente, gritar em pleno céu ou aproveitar os últimos segundos que tenho para me regozijar com a sensação única do colchão de ar que me sustenta no nada? A dificuldade do exercício está exatamente no cerne do novo valor: apreciar ao máximo a força do agora, livre de qualquer amarra metafísica, seja ela qual for. A vida é para ser vivida em derramamento, já que não há nada para detê-la, com todos os seus percalços e recompensas. Afinal, em qual dos dois nós vamos assentar nossa oportunidade única? Esse é o niilismo ativo, o mais caro de todos para Nietszche.

A humanidade não tem clareza sobre essas distinções porque está em trâmite nas suas três metamorfoses, que Nietszche trata em seu Zaratustra. Na sua fase de camelo, carrega em suas costas todo o peso de suas convicções e preconceitos; na fase do leão, ela se verá sozinha e perdida na selva, e rugirá pela obtenção de seus novos valores, enquanto na fase da criança terá tudo para ser criado, tudo para ser inventado, deixando para trás e esquecendo tudo o que lhe amarrava. Desta forma, o significado da vida será a própria vida, o sentido de existir estará no próprio ato de existir.

É uma puta visão legal, vai... Principalmente após uma boa dose de cafeína. Bons ventos a todos!!!

Recomendação de leitura:

Deleuze não foi um mero analista de textos de outrem, mas um pensador importante do pós-estruturalismo. Voltarei a ele oportunamente.

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. São Paulo: N-1, 2018.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Ateísmo: o que ele é e o que ele não é

Olá!

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Vou dizer para vocês que eu gostei da brincadeira. Publiquei um texto sobre erros e acertos sobre o comunismo e achei bem informativo, mesmo que não tenha tomado tantos xingos quanto esperava. Por conta disso, vou repetir a tarefa outras vezes, só que não de forma sistematizada. Pintou, farei.

O tema de agora é o ateísmo. É um assunto que surpreende quando nos damos conta da quantidade de desinformação que gira em torno do mesmo. Isso porque, quando falamos em comunismo, há de fato um bom tanto de teoria que fica no pano de fundo, e é muito fácil de se fazer confusão, propositadamente ou não. Agora, com relação ao ateísmo, não há nada de misterioso, a não ser que haja uma má vontade de esclarecer e uma boa vontade de manipular. Então vamos a ele, porque não vai ser demorado.


Vamos iniciar pelo fundamental: o que é um ateu?

Um ateu é uma pessoa que não acredita deuses. Só isso. Dá até para discutir que o fato de que um ateu acredite em coisas que não são palpáveis aproximam-no de alguma forma religiosa, como já falei aqui, ou que ritualizem da mesma forma que um religioso, como já discorri neste post, mas a definição que a palavra dá é tremendamente fácil de compreender: a+theos, prefixo de negação A junto à palavra THEOS, que, em grego, significa deus. Ça tout.

Ateus são imorais?

Esta é, de longe, a principal atribuição que se faz a um ateu qualquer. E aqui seria necessário discorrer longamente sobre o que é moral e suas derivações, mas não vamos dar todo esse circunlóquio. Basta dizer que moral, do latim mores, diz respeito aos usos, costumes e valores que ocorrem dentro de uma determinada sociedade, independentemente de quem deriva essa espécie de poder coercitivo de estabelecer o que é bom e o que não é. Para um religioso, a fonte da moral, ou seja, aquele que estabelece o que é certo e o que é errado, é uma divindade, que define a moral arbitrariamente*. Para o ateu, quem estabelece esses mesmos princípios é o contrato social, o acordo tácito entre os indivíduos de uma sociedade para a manutenção da mesma. Por exemplo, a disposição “não matar” ou “não roubar” é, para o religioso, um arbítrio divino; para o ateu, um acordo social para proteger a vida e o patrimônio, os seus e os dos outros. O grande problema é que chega um ponto em que a moralidade religiosa e a “cola” social a quem os ateus se pegam viram duas placas tectônicas em constante colisão, especialmente em termos de moral sexual. Aí, as divergências crescem muito, e o fato de um ateu se preocupar menos com o que alguém faz na cama do que um religioso joga esses primeiros no campo da imoralidade.

Socialmente não é bom que haja uma religião para colocar freios nos indivíduos?

É uma questão meio capciosa, e é feita em função de uma cultura que é moldada pela presença da religião. A psicologia nos fala em freios morais, que são o medo, a vergonha e a culpa, e, da mesma forma que explicado no item anterior, esse conjunto de sentimentos existe tanto para quem é religioso quanto para quem não é. Em uma sociedade com a presença do componente religioso muito forte, a ideia da ausência de deus embute a impressão de que não há mais quem retenha as violências e imoralidades de seus membros. Mas os freios morais estão lá, de qualquer forma. Porém, se em última instância uma pessoa só deixa de cometer crimes porque acredita na punição pelo seu pecado, vá lá que seja. Melhor assim.

Qual é a perspectiva de vida futura de um ateu?

De um ateu convicto, nenhuma. A vida se realiza neste plano e somente aqui. É angustiante? Sim, mas não dá para fazer nada. A fórmula geral é não ficar se debatendo com isso. Já para um agnóstico, há a dúvida, tipo esperar para ver. Talvez haja ateus que esperam errar, não sei.

Ateus e céticos são a mesma coisa?

Um ateu de fato é um cético, mas estritamente com relação à religião. É perfeitamente possível que um ateu acredite em qualquer outra história da carochinha, inclusive de cunho pseudocientífico, como as recentes conspirações da fosfoetanolamina ou da cloroquina. Ceticismo significa dúvida, desconfiança, um não acreditar em alguma coisa sem passar por crivos da razão, é um descrer consciente. Este é o motivo pelo qual essa confusão é costumeira.

Qual a diferença entre ateísmo e agnosticismo?

É raro um ateu cem por cento puro, pela simples razão de que o principal motivo para não se crer em um deus é a ausência de uma predisposição lógico-material dessa divindade. Isso não exclui uma possibilidade de existência, mas reduz muito sua cognoscibilidade. Sempre que um religioso fala em sentir seu deus, dá mais cara de poesia à sua convicção do que qualquer outra coisa, e é disso que o ateu se afasta. Entretanto, é muito difícil, pela própria estrutura humana, não se aceitar a hipótese de que há algo lá fora.

Ateísmo e materialismo são a mesma coisa?

Não, embora seja verdade que, em sentido lato, os ateus sejam materialistas. Essa palavra às vezes tem uma conotação errada, de que tudo o que importa é o mundo material, e que isso seria um sinônimo de mesquinhez.

O ateísmo é uma crença?

É preciso ser bem concessivo para admitir que sim. Há uma diferença fundamental entre o ateu e o agnóstico (e até entre outras posições diante da crença, conforme descrito aqui), que se sintetiza no seguinte: o ateu acredita que deus não exista, enquanto o agnóstico não assume nenhum lado. O ateu tem uma resposta ativa, uma colocação contra o que não pode ser demonstrado, um posicionamento no que diz respeito à transcendência: ela não há. Como não há provas da existência, também não há da inexistência, embora em termos de argumentos haja uma diferença bastante clara no ônus da prova. Sendo assim, temos uma forma de crença que não ocorre na agnose, que simplesmente vaticina que, havendo deuses, eles são incognoscíveis, e isso motiva não uma descrença, mas uma suspensão do juízo sobre o tema.

O ateísmo é uma forma disfarçada de religião?

É uma afirmação frequente, e, apesar de parecer absurda, não é totalmente desprovida de sentido. Isso porque há muitos ateus militantes, que se comportam como se tivessem as mesmas armas das religiões: o proselitismo, os argumentos em forma de desafio, a inconveniência. É o tipo de gente que é mais um raivoso contra a religião do que alguém que não crê e pronto. Para esses, o ateísmo funciona de maneira muito similar a uma religião. É claro que a existência de associações de ateus não responde adequadamente a essa pergunta, porque qualquer grupo de pessoas pode se juntar para a defesa de seus interesses. Um sindicato não é uma igreja, por exemplo, mas tem símbolo próprio, tem condições para a associação, incentiva a manutenção da união entre os seus membros e lutam por suas pautas. É a mesma coisa com as poucas associações de ateus que existem por aí.

O ateu não tem medo do diabo?

É impressionante a quantidade de gente que diz ser o ateísmo uma obra de Satanás. Miseravelmente, se o ateu não acredita em deus, também não acredita no diabo. Do contrário, não seria ateu, mas satanista. Parem com esse tipo de bobagem.

É possível ser ateu e religioso ao mesmo tempo?

Discutível e estranho. De fato, se levarmos em conta estritamente a etimologia da palavra, não faz muito sentido. Entretanto, se não colocarmos a religião unicamente no plano da existência de um deus, mas de uma transcendência, uma instância metafísica que vai para além do alcance humano, neste caso sim, é possível que esse fenômeno aconteça, como é o caso dos budistas (leia mais aqui). Portanto, temos o caso da necessidade de uma definição do que é religião para responder essa pergunta.

Por que existem tantos ateus não declarados?

Como acontece com qualquer grupo minoritário em uma sociedade, ateus são alvo de preconceito. Sabe aquela história de não ter deus no coração? Isso é atribuído não para aqueles que não acreditam em deus, mas para aqueles que são maus. Dessa forma, muita gente acha melhor ficar na miúda a se mostrar como é de fato, como acontece com tanta gente.

Estado laico é uma expressão do ateísmo?

Erro crasso, soturno e desditoso, de quem não compreende mesmo o que é Estado laico. A laicidade não diz respeito à descrença na existência de um deus ou do valor das religiões, mas mui simplesmente a algo que não se mistura com religião. Um estado laico é a garantia de que ninguém será objeto de perseguição por conta de suas crenças ou, vejam só, pela ausência dela. Os mártires do Cristianismo existiram em profusão até o século IV justamente porque o estado romano não era laico. Se o Estado laico não proíbe o exercício de qualquer religião, como pode ser acusado de ser uma expressão do ateísmo? A ideia já era um dos pilares da Revolução Francesa, mas sua assunção mais conhecida vem dos Estados Unidos, um país fortemente ligado à religião cristã. Veja o que diz a primeira emenda da Constituição ianque, com meu grifo ao que mais importa para nós neste texto:

"O congresso não deverá fazer qualquer lei a respeito do estabelecimento de uma religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringindo a liberdade de expressão ou imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem petições ao governo para que sejam feitas reparações de queixas".

Se deus não existe, porque está em todas as culturas do mundo?

É a velha questão dos antropólogos estruturalistas. O homem é fundamentalmente igual em qualquer lugar que esteja. Da mesma forma que fisicamente todos os seres humanos têm cabeça, tronco e membros, também possuem estruturas culturais muito semelhantes. Todas as culturas possuem diversos elementos que divergem na aplicação, mas que se igualam na existência intrínseca: todas as culturas têm regras, têm símbolos, têm valores, têm organização social e política, têm usos e costumes e têm crenças. Ocorre que o nascimento de uma cultura sempre pressupõe uma ancestralidade, que vem de tempos imemoriais. Dessa forma, como o desenho da cultura humana não difere muito de povo para povo, não é de se surpreender que o começo de uma crença se baseie na oralidade, onde qualquer coisa pode ser considerada, menos a origem empírica do conhecimento. É a velha história do Deus das lacunas: estruturalmente um ser humano sempre busca uma explicação para um fenômeno qualquer, e, na falta desta, busca-se elementos do lado de fora, como um alienígena, um deus.

Ateísmo é opção?

Olha... talvez de tanto insistir alguma pessoa possa acabar se convencendo de que deus não existe, como faz para achar que coentro é bom, por exemplo. Na maioria dos casos, chamo isso de autoengano. Normalmente as pessoas não optam por serem ateias, assim como não detesto coentro porque acho feia a planta. Simplesmente acontece, seja porque já se nasce no meio descrente, seja porque se passa por um processo de desencantamento.

Por que o ateísmo é mais forte entre os jovens?

Não sei não, tenho minhas dúvidas. Mas penso em dois motivos. O primeiro é aquela sensação de independência que se tem ao ir contra a corrente. Eu me lembro bem disso quando comecei a fumar, aos doze anos de idade. Era aquela coisa que os mais velhos viviam dizendo para não fazer, então era uma bela maneira de se mostrar aos colegas. O problema é que depois do vício a brincadeira perde a graça. E o outro, que imagino mais real, é que a religião não traz mais boas respostas para as maiores aflições da rapaziada. Eu já disse por aí que um antibiótico funciona melhor que uma reza, e fica difícil de confrontar a realidade como ela é.

Por que ateus falam “graças a deus”?

Por habitualidade. Eu sempre gostei muito de andar descalço (estou descalço nesse exato momento). Isso provavelmente se deve à habitualidade da infância. Como não éramos ricos, nem ao menos remediados, nós, pequenos petizes do meu bairro, ficávamos descalços para economizar tênis quando íamos brincar na rua. Acontece que esse costume, deixando os pés desprotegidos, fazia as topadas nas pedras ser inevitável. Quando isso acontecia, eu não gritava “puuuuuuuuxa vida, que coisa mais chata”, e sim o famoso e sonoro PQP. Eu não estava testemunhando o parto de nenhuma moça de má fama, apenas soltando a explosão à que estava acostumado, sem a busca de um sentido intrínseco das palavras. Quando alguém fala graças a deus, minha nossa senhora, meu pai do céu ou coisa que o valha, faz exatamente a mesma coisa: o uso da função expressiva da linguagem, sem que a literalidade do que se diz seja fundamental para a sua compreensão.

Você é ateu?

Já discorri sobre o tema neste texto. Leia porque foi escrito com muito cuidado.

E é isso, mais uma vez. Espero que gostem e adicionem outras perguntas que vocês gostariam de fazer ou que escutam por aí, de maneira meio esparsa. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Certamente não é um livro que eu recomendaria para um religioso convicto, que só ficaria com raiva ao lê-lo. Também é desnecessário para aqueles que já são ateus: seria pregar para convertidos. Este livro pode ser um ponto de viragem justamente para quem se encontra na linha que divide ambas as situações. É meio agressivo, até um pouco mal-educado, mas que coloca muitos dedos na ferida. E é bem escrito.

DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

* Estou fugindo do sentido negativo desta palavra, de imposição; estou pensando aqui na função de exercer arbítrio, ou seja, de decidir.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Em trezentos textos, a sutil história da transformação do pensamento e da fé

Olá!

Trezentos, que não são de Esparta. Este é o número deste texto que você, herói da resistência deste humilde espaço, que ainda insiste em aqui comparecer, lê agora. A você, só resta o meu sincero agradecimento.

Conforme eu estipulei em uma dessas efemérides, números redondos e aniversários serão destinados à Metafilosofia, evidentemente no meu âmbito particular. O problema, no caso, é: o quê? Com tanta coisa para escrever, dá uma tentaçãozinha de passar batido e vamos-que-vamos, mas eu sou queixo-duro, e achei por bem manter minha palavra.


Estando as coisas nesse status, comecei a "folhear" o blog em busca de um tema. E comecei a perceber melhor as transformações que foram ocorrendo na maneira com a qual o compunha. A mudança mais notável foi no tamanho dos posts. Como minha proposta inicial era soltar reflexões rápidas para discussão em classe, eu escrevia coisas absolutamente concisas, havendo algumas coisas de meia lauda*, o que, convenhamos, é bem curtinho. O passar do tempo foi atiçando meu perfeccionismo e os textos se alongaram muito, de forma quase viciosa. Sim, textos longos nestes tempos de despachos presidenciais em 140 caracteres viraram uma incômoda caceteação, mas o fato é que quando eu deixo a pena correr solta, ela não para mais, gerando jamantas de até doze laudas.

Para dar uma dimensão do tamanho das escritas deste escriba, vou colocar um quadro anual da minha produção. Como eu fiz isso? Para quem não sabe (acho que ninguém), tenho agremiado toda a minha produção em um único volume, como se fosse um livro de crônicas. Separando os tomos por anos, teremos o seguinte resultado:

Ano
Total de posts
Total de páginas
Média de páginas
2011
36
74
2,1
2012
28
88
3,1
2013
19
78
4,1
2014
28
133
4,8
2015
40
207
5,2
2016
28
150
5,4
2017
37
311
8,4
2018
37
212
5,7
2019
35
258
7,4
2020
11
119
10,8

Isso demonstra a curva ascendente com relação aos primórdios, com um pico em 2017, e que estou em grande forma, com uma média quase inaceitável atualmente. Com isso, tenho claramente uma mudança de propósito, mas espero estar atingindo ainda o mesmo público, enquanto angario outros interessados. Nenhum dos meus textos tem intenção acadêmica, o que eu queria mesmo é acender a chama de meus leitores por temas relacionados à área de humanas em geral, já que há muito eu desencostei meramente da Filosofia.

Eu achei bom também dar uma olhada nas visualizações mais bem cotadas, para tentar entender o que interessa mais à galera. Só que há uma armadilha aqui. Textos mais antigos tendem a ter mais visualizações pelo simples fato de existirem a mais tempo, então o ideal seria calcular a média diária de visualizações, fazendo uma continha simples: total de visualizações dividido pelo número de dias da publicação. Mas aí temos outra cilada, Bino. Imagine que eu tenha publicado algum texto ontem, e ele tenha tido dez visualizações. Sua média será, ora pois, de dez visualizações ao dia, o que distorcerá a métrica. Para sanar a questão, adotei um critério simples: somente levar em conta postagens com mais de cem visualizações, o que garante uma certa pulverização temporal. O hit parade demonstra uma certa correspondência entre números absolutos e médios, com poucas exceções. As vinte melhores médias são as que seguem:

1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20

A destacar que o post mais visitado é o único com média de visualizações superior a uma por dia, o que é pouco, muito pouco**. Não estabeleci um ranking na parte de baixo da tabela, mas os dois últimos, este e este, são textos que eu gosto muito e não entendi porque não decolaram. A temática triste não se explica, já que há alguns outros muito dramáticos que mandaram bem, e vamos combinar que não dá para rejeitar um artigo apenas pelo título. Bom… dá, sim. Entretanto, não é possível acertar sempre.

Mas eu falava em transformações, e passados esses dados mais administrativos, percebi que um determinado pano de fundo de fato pode ser notado no transcorrer da obra deste escriba: a minha relação com a Religião. Quem ler, vá lá, meus primeiros trinta textos, entenderá que eu sou uma pessoa com boa quota de religiosidades; quem ler os trinta últimos, ter-me-á como um ateu não declarado. E é isso mesmo.

Aqui, é preciso discorrer calmamente. Eu nasci em uma família cuja prática religiosa não era uma regra acentuada. Todos os sacramentos eram aplicados e comemorados, como batizados e casamentos, e as crianças eram enviadas à igreja para fazer a primeira comunhão. Meu avô por parte de mãe era ateu, mas daqueles que discutiam política com o padre tomando cerveja, e, de fato, nunca deixou de ir à igreja em uma celebração qualquer só para fazer birrinha, ou recusou um convite para ser padrinho de alguém. Tem valor religioso? Creio que não, mas o que interessava para o velho era fazer o compadrio feliz e, mais uma vez, discutir política ao redor de uma garrafa de cerveja. Deu para entender a situação, né?

Isso tudo para dizer que, se eu não era alijado da vida cristã, também não era um dos frequentadores mais assíduos. Isso somente foi acontecer na década de 90, quando minha beatitude chegou ao máximo. Era uma época em que eu me importava de verdade com preceitos católicos, e, mesmo continuando a não ser chegado a uma reza, guardava jejuns quaresmais, levava a sério o recolhimento da Sexta-feira Santa e assim sucessivamente. Aprendi muito sobre a vida dos santos e li a Bíblia de cabo a rabo, mais de uma vez. Foi também a primeira vez que tive um encontro com Santo Agostinho e outros escritores da mesma estirpe, donos de uma Filosofia ligada ao funcionamento do universo sob a batuta de Deus.

Quando chegaram os anos 2000, deixei o espiritual um pouco de lado e parti para a ação. Trabalhei com catequese, toquei e cantei nas missas e, principalmente, aprendi tudo de liturgia para instruir coroinhas, e essa foi de longe minha principal função por mais de dez anos.

Entretanto, foi exatamente nessa época que o fenômeno começou a acontecer. Aos poucos, bem aos poucos, porém ininterruptamente, a fé foi minguando. O processo foi lento, durou pelo menos vinte anos, e dos paradoxos foram surgindo as dúvidas, das dúvidas foi surgindo o esmorecimento, e do esmorecimento foi surgindo o mecanismo de autoengano que me segurou ainda por tempos vinculado à igreja. Daí, somente a posição de conforto e da companhia de meus confrades ainda me segurava. Aqueles meninos e meninas tinham em mim uma espécie de paizão, um cara com quem eles tinham até mesmo uma relação de confiança, e me contavam coisas que não tinham coragem de contar a seus pais. Eles cresceram e continuavam comigo pelo simples prazer de estarmos juntos, e por isso eu ainda me mantive por tanto tempo ainda com algum laço à comunidade. Quando eu encerrei as atividades do grupo, os mais velhos foram aos poucos se dispersando, e não havia mais crianças novas para renovar os claros deixados e reciclar a turma. Nesse ponto da minha vida, eu já não tinha fé alguma, e continuei tocando nas missas apenas por uma questão de gratidão à pessoa física do padre. Ouvir um culto passou a ser um suplício, uma série de malabarismo para explicar coisas inexplicáveis, com uma imobilidade de pensamento que já não coadunava com meu momento. Quando o padre em questão se mandou para o Amazonas, por ordem de sua ordem, decretei a mim mesmo que era hora de parar. E isso foi bem recentemente, acreditem.

Como se pode perceber, o processo é muito longo, e, especialmente, involuntário. Eu nunca acordei belo dia e disse a mim mesmo que não cria mais em um deus, embora vários insights fossem colaborando na guinada. E por isso eu não posso fazer nada. Não tenho medo do inferno porque, se não acredito em Deus, não acredito também no diabo, ora pois. Também entendo perfeitamente que ser ateu significa única e exclusivamente não acreditar em uma divindade, punto e finito. Não significa ser mau, não significa ser imoral, não significa ser depressivo. Ser mau é prerrogativa humana, grupo natural dos quais fazem parte os sacerdotes da Inquisição ou os stalinistas ateus, acreditem se quiser. A moral não necessita de uma divindade para proclamá-la, bastando a força do contrato social e do elo humano para estabelecer o que se pode e o que não se pode. E a perspectiva do post mortem pode até mesmo ser mais angustiante para o religioso, dependendo do peso que seus pecados carregam em seu inconsciente. Para o ateu, a morte é uma extinção, sem prêmios, mas também sem punições. Se há angústia, paciência, as coisas são assim e é melhor não pensar muito nisso.

É só depois que as coisas acontecem que você consegue entendê-las melhor, incluindo aí a perda da motivação religiosa. De um modo geral, a coisa vai em uma linha descendente em que as couraças que retém sua fé vão sendo removidas. A primeira é o confronto com a realidade. Uma das maiores bobagens em um religioso é tentar encontrar provas: da existência de Deus, da separação entre corpo e alma, da eficácia das orações e assim por diante. Deus é infalseável - é muito comum os religiosos inverterem o ônus da prova, pedindo provas de que Deus não exista. Eu mesmo fiz isso muitas vezes, o que me ajudou a reconfortar. Mas você consegue demonstrar quantos fenômenos atribuídos a uma divindade na verdade são eventos naturais, e também como são irreprodutíveis tantas histórias contadas nos livros sagrados. Curas, que são o principal item do cardápio de quem quer demonstrar a bondade de Deus são, à vera, um argumento contrário, porque em toda e qualquer igreja há quem morra de câncer, do coração, jovem, de acidente e assim por diante, em mesma proporção do que ocorre na sociedade como um todo. E Deus parece injusto, restando apenas o argumento do mistério. Comparada com a realidade, a Religião perde sempre. Se tudo o que não encontra espelho no mundo que nos cerca, como supostas travessias no Mar Vermelho, arcas de Noé ou homens feitos de barro, for jogado no plano simbólico, temos diante de nós uma inutilidade; se continuarmos acreditando concretamente, temos um problema de fanatismo.

A partir daí, pergunta-se quais são os elementos de força para a manutenção da fé, e teremos provavelmente a experiência pessoal, seja lá qual for. Um transe místico, um sonho vivaz, um fato aparentemente extraordinário, uma demanda que se julgue atendida... Tudo isso são experiências que eu nunca tive. Exceção feita ao sentimento oceânico (aqui), que é uma sensação de espiritualidade, e não uma manifestação espiritual em si, nunca tive um sentido forte de comunicação com a transcendência, nem de que eu tinha alguma entidade ao meu lado. Nunca foi falta de experimentação - templos, terreiros, igrejas das mais variadas categorias já foram visitados por mim. Sem esse sentimento de conexão, eu sempre fiquei boiando nas incorporações dos cavalos, nos êxtases dos médiuns, nas glossolalias do Espírito Santo, e mesmo nas meditações orientais.

Restava a vivência comunitária, o último sustentáculo para você manter uma fé, se não na crença pura e simples, pelo menos no convívio de seus circunstantes. Deus parecia a cola que unia as pessoas de uma comunidade, aqueles que ficam nos bastidores preparando as celebrações, fazendo suas tarefas por amor ao seu deus e ao seu próximo. Tudo rui como um castelo de areia quando você passa a vivenciar os fundos do altar. Aquele trabalho que parece de intensa união é uma mera ilusão, com a mesma guerra de poder que existe onde qualquer humano se mete, independentemente da disponibilidade de recursos. Sem dúvida os maiores ódios que eu tenho na minha vida estão vinculados à igreja, de alguma forma. Coisas que influenciaram minha vida pessoal mesmo. Achei que seria um fenômeno localizado, mas mudar de ares somente demonstrou que se há universalidade é nesse aspecto triste. Nos meus últimos dias de igreja, já não lutava por nada, apenas tocava as músicas que me eram pedidas. Sem a dimensão da realidade, sem misticismo pessoal e sem o acolhimento comunitário, a Religião perdeu todo e qualquer sentido para mim.

Hoje, não posso afirmar que sou um ateu convicto. Melhor seria me qualificar como agnóstico, o assim chamado ateu cagão. Quando somos levados a certos limites, fica realmente difícil para nosso pobre telencéfalo extremamente desenvolvido admitir processos meramente naturais que justifiquem o universo e a vida. Embora não aposte na hipótese, eu conseguiria admitir um tipo de divindade mais difusa, que atuasse discretamente nas leis da Física. Agora, um deus como o abraâmico, com tantas incongruências e contradições, as chances de sua existência são irrisórias no meu entender. Para esse modelo, sim, sou ateu.

Será que chegará um ponto em que acontecerá com todo mundo aquilo que tem acontecido comigo? Não sei dizer. A patroa já veio comigo, em processo muito semelhante, no qual estranhamente não nos confessávamos, como se fosse vergonhoso. A secularização é um processo inevitável, mas tão lento quanto a minha "conversão". Em outros tempos, o sagrado ocupava um lugar de relevo porque ele oferecia boas respostas, mas ele fracassou em dois sentidos: explicar o mundo e fazer uma sociedade melhor. Com isso, ela perdeu a melhor forma de ser assumida com portadora da verdade: a sua credibilidade. Os papéis mais altos do estatuto social tendem a conservar a Religião em seu posto por um motivo muito simples - a coisa está boa para eles, e mexidas não são bem-vindas para essa trupe, mas à medida que a fragmentação da sociedade se dá, e a ordem social passa a ser contestada, as garantias de validade do organismo social precisam sair do velho ordenamento. Mesmo em sociedades cuja religiosidade ainda é muito presente, como no Brasil, é possível ver esse fenômeno. Nada explica melhor a proliferação de novas denominações pentecostais do que uma vontade implícita em se desestruturar uma hierarquia tão sedimentada quanto a que tínhamos até bem pouco tempo atrás. Só que a resposta que elas trarão é igualmente transitória e frágil, pelo simples fato de que antibióticos continuarão sendo mais eficientes do que orações.

Todas as impressões do parágrafo anterior eu extraí, com as devidas adaptações, do sociólogo britânico Bryan Wilson. Ele dedicou grande parte de sua obra ao estudo da Religião e como os novos movimentos religiosos se fundeiam em uma prática divergente dos métodos tradicionais, justamente para tentar renovar uma forma de atratividade, baseada especialmente na utopia do escape do mundo.

Fundamentalmente, era isso o que eu queria mostrar para vocês: o que mais veio influenciando a mudança no meu traço, embora eu continue respeitando a Religião como fonte de conhecimento e modo de ver o mundo. Eu sei que essa minha “saída do armário” pode me trazer problemas, sendo um assunto que eu não trato abertamente nem entre meus familiares, mas o fato é que não dá para segurar para sempre um assunto desses, principalmente quando eu vejo tanta gente, em nome de um suposto deus, metendo os pés pelas mãos na defesa da verdade e da vida, algo que deveria ser tão caro a todo mundo. E, principalmente, justificando nossa miséria em nome de um destino traçado por uma entidade que insistem em chamar de misericordiosa. Bons ventos a todos e até os 400!!!

Recomendação de leitura:

Wilson não foi um cara que se popularizou muito no Brasil, mas tem argumentos interessantes. Segue uma recomendação em língua espanhola.

WILSON, Bryan. Sociología de las sectas religiosas. Madrid: Guadarrama, 1970.

Extraí a imagem do cadeado do seguinte endereço:

Já a foto da parede de tijolos é minha mesmo.

* Para quem não sabe, a lauda é uma medida informal de tamanho de artigos que representa uma página completamente preenchida. Pelo padrão da ABNT, os textos acadêmicos devem ser confeccionados em papel A4. Para facilitar, imagine um lado de uma folha de papel sulfite.

** Mas foda-se