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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – como a existência precede a essência no ser humano

(Ser livre pode não ser tão encantador quanto parece)

“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”.

Sartre

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Meus poderes proféticos costumam ter o mesmo valor de uma receita de bêbado. Mas tem vezes que eu acerto algum palpite. Menos na loteria, onde seria de fato útil, mais na antevisão da vida. Digo isso porque previ, embora minha casa fosse sempre povoada de gente, que a debandada seria geral em algum momento, e não deu outra (vejam este texto). Hoje em dia, eu e a patroa, se quisermos, vivemos em perfeito isolamento, sem as interações incessantes que havia antigamente. Nada de chororô, no entanto.

Claro que não falo dos filhos, e acontece que, mesmo no atual estado, ocorre de vez em quando uma invasão no meu apê. Para estas horas, é cabível que eu sirva café. Afinal de contas, eu mesmo me autodeclaro um amante deste consumo, e não faria sentido não oferecer o mesmo para as pessoas que insistem em me ser caras. Só que, paradoxalmente, os métodos que eu tenho são todos para extrair três ou quatro xícaras por vez, no máximo. Isso dá um déficit meio sem graça, porque é preciso dividir o pessoal em turmas.

Para resolver o problema, a solução não é tão complicada: um método que permita extrações maiores, ora pois. Como estava bem barata, comprei uma cafeteira de dois compartimentos, que é apelidada de “econômica”.


Seu funcionamento é um misto de cafeteira italiana link e de cafeteira de sifão, sendo que seu processo é o de ferver a água no recipiente de baixo para que ela suba para o recipiente de cima, em um processo de sucção ocorrido por diferença de pressão, onde estará inserido o pó moído em ponto médio.

Uma vez tendo subido a água, basta que se desligue o fogo, para que o processo de filtragem inicie, sendo levado a cabo por uma tela metálica soldada no meio do trajeto.





Nome do utensílio: Cafeteira econômica

Tipo de técnica: percolação com subida a vácuo

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/grossa

Dinâmica: A água é colocada para ferver no recipiente de baixo, enquanto o pó fica alocado no recipiente de cima, que receberá a água fervente por um processo de sucção. Após a cessação do processo de aquecimento, o café será percolado pela mesma via por onde a água ascendeu, com a filtragem ocorrendo por elemento metálico.  

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Alta

Nível de ritual: Médio


Eu fico observando aquele engenho simples e me deslumbro com a criatividade humana. Não é o método mais complexo que eu já vi, mas uma solução elementar obtida a partir de pequenas observações dos fenômenos físicos, que incluem a dinâmica da temperatura, da expansão dos corpos, da vedação e diferença de pressão e, no final das contas, da própria gravidade. E isso tudo para cumprir um propósito: obter café. As medidas são precisas. A base precisa de uma dimensão X para completar Y litros, e a vedação necessita de uma borracha específica, para suportar determinada temperatura. A gramatura do elemento filtrante tem que ter espaçamento justo para reter a borra sem impedir o fluxo, e così via.

Desde o momento em que o fabricante comprou a chapa de alumínio para forjar o corpo, as gaxetas de vedação, a baquelite do cabo, tudo já tinha um propósito, um destino, uma finalidade. A cafeteira nasceu para ser uma cafeteira. Filosoficamente, ela tem uma teleologia: um sentido existencial, um servir para algo. Evidentemente, se algo nasceu para um propósito, houve alguém que lhe desse esse sentido.

Mas e o homem? Para que serve um homem? Qual a finalidade de um homem, se ele não tem um artífice, como tem a cafeteira?

A primeira coisa que precisamos balizar diz respeito ao tal artífice. Em termos aristotélicos, ele não é a finalidade em si, mas a sua causa eficiente, a mente pela qual se engendrou um objeto, e a resposta mais óbvia e consagrada seria Deus. Só que essa é uma afirmação cheia de dificuldades.

A primeira de todas seria: qual deus? Dentre todos os panteões possíveis, podemos encontrar aqueles em que a criação é um mero fenômeno quase fisiológico, como se os deuses fizessem homens sem justificativas e os deixassem à própria sorte, como pensavam os estoicos. Nesse caso, não há de se falar em finalidade, já que ela necessita de alguma forma de intenção. Por outro lado, qualquer explicação para a intenção de um artífice, como o deus abraâmico, esbarra nos “para quês” subsequentes. Se Deus criou os homens para louvá-lo, parece a nós uma falta de autossuficiência. Se os criou para povoar o mundo, a pergunta retrocede - para que o mundo? Idem quando se diz que o objetivo era uma criatura que lhe administrasse as outras criaturas - para que as criaturas? E ainda que admitamos a interferência de uma divindade, de qual delas? Qual dos inúmeros mitos de criação seria o verdadeiro, se não temos nenhum tipo de condição de os trazermos novamente à atualidade? Sendo assim, vamos patinar e patinar, sem nenhum tipo de resposta satisfatória. 

Precisamos partir de uma premissa fundamental, portanto: somos fenômenos naturais, que não tem uma causa eficiente que passe dos nossos ascendentes e que delineie nosso destino, haja vista que uma finalidade pressupõe ações em uma direção específica. É possível que pensemos que o propósito reprodutivo é para os nossos pais, mas não para nós mesmos. Um dia eles irão, e, seguindo uma lógica natural, antes de nós (os meus já foram), daí que o propósito precisa estar em nós mesmos. E eis o problema que o existencialismo se propôs a enfrentar.

Se é verdade que não temos uma causa eficiente, também é possível inferir que não temos uma finalidade específica, como é o caso da tesoura usada por Sartre ou da cafeteira usada por mim. Uma cafeteira é uma cafeteira desde o momento em que esteve na mente do engenheiro que a projetou. É perfeitamente possível que ela deixe de ser uma cafeteira e vire um vaso, mas, neste caso, temos o mesmíssimo processo de engenho que cria um uso: há um propósito em lhe colocar terra e planta e, neste momento, há uma teleologia diversificada - um trânsito entre propósitos. Idem com uma tesoura usada como arma branca. Ainda que por insignificantes segundos, alguém vislumbrou um novo propósito para o utensílio, fazendo-o passar pelo crivo do engenho. Sendo assim, podemos inferir que tudo isso já tinha uma essência que, a partir do momento em que ganha concretude, passa a complementá-la, tendo agora uma existência. É perfeitamente possível que essa essência nunca se concretize e, nesses termos, a precedência dela sobre a existência ganha lógica.

Com o ser humano, não podemos dizer a mesma coisa. Uma pessoa nasce sem uma causa específica, e somente pela aquisição de sua subjetividade vai se tornar aquilo que ele é. Nada há a priori na constituição de um ser humano. Nele, a lógica se inverte e a existência precede a essência. Um ser humano se constrói a partir do seu mundo e dos propósitos que visa seguir. Os antigos metafísicos procuravam um tal de natureza humana, algo que preexistisse ao homem, exatamente aquilo que a concepção existencialista nega até a raiz da medula.

Pense no seguinte: por que consideramos qualquer escritor importante? Porque ele escreveu, vendeu seus livros, auferiu seus ganhos, obteve consagração. Isso somente é possível quando vinculado ao ato de escrever, à realidade do escritor, à existência do ato de escrever. Na essência, o escritor simplesmente não existe. É possível falar de conceitos que caracterizam um escritor, mas não o há sem a escrita concreta, existente. Essa lógica se aplica a qualquer atividade humana: professores, operários, jogadores de futebol, médicos. Eles não são nada disso na essência se não estão na concretude da existência. Cada um, a partir da própria subjetividade, realiza e concretiza, o que só é possível estando no mundo. É na vida que se molda o ser.

O sentido mais extenso dessa subjetividade está na projeção de um ser humano para toda a humanidade. Ao se fazer tal como é, uma pessoa não constrói apenas mais uma vida dentre outras, mas a sua própria visão de como a humanidade deve ser. É uma escolha que passa da individualidade, porque dizemos: isso que eu escolhi ser é aquilo que, dadas as condições em que estou, é o que há de melhor para a humanidade toda, e, nesse sentido, a formação da subjetividade é essencialmente ética. Por exemplo, quando eu opto por casar com uma pessoa do mesmo sexo, eu estou assumindo que essa é uma das possibilidades para toda a humanidade, e não somente para mim mesmo. É um belíssimo ponto de contato com o imperativo categórico kantiano. Leiam aqui para entender melhor.

Percebem o tamanho da responsabilidade que isso traz? Não só você é o artífice de si mesmo, como também é um legislador universal. E isso tudo se dá por um único motivo. O ser humano, ao contrário de qualquer ser cuja essência preceda a sua existência, é capaz de escolhas. Sua essência, ou seja, seus elementos constitutivos e característicos só vão se dar depois de sua livre construção. Não há como adquirir sua essência se ele não tem existência. Não adianta eu achar que meu filho será médico se ele não fizer a sua escolha; ao menos, de me obedecer.

Daí que temos o tão clássico desamparo dos existencialistas. Sem uma divindade a que possamos nos agarrar, sem uma moral preestabelecida para guiar nossos passos, sem uma metafísica que nos desenhe, mas possuidores da capacidade de escolha, somos plenos de liberdade. Não uma liberdade absoluta, física, porque isso é impossível, mas uma liberdade de opção, de formar o próprio futuro. Ora (direis), existe algo mais incerto do que o futuro? Pois é… é exatamente esse o motivo de tanta geração de angústia. Sartre diz que até ao procurarmos um aconselhamento sobre o rumo a seguir já constitui uma escolha: se você colocar sua situação a um padre, por exemplo, já escolheu o tipo de conselho que quer ouvir. Mais ainda: aceitar ou não o conselho é opção de quem o ouve. Portanto, cada passo que damos constitui uma escolha livre, e somos incertos do que teremos pela frente. “Ah, mas posso transgredir uma lei”, dirás. É uma escolha. “Ah, mas posso cometer um pecado”. É outra escolha. Vivemos fazendo escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher.

E o que isso tem a ver com a angústia? Só tudo. Desde o momento em que nos vemos defronte a uma escolha qualquer, somos obrigados a adotar uma responsabilidade. Obrigados, eu disse, e isso já é doloroso em muitas das vezes. Não precisa ser em grandes questões: escolher entre a picanha e a alface pode fazer toda a diferença para o prazer e para a saúde, respectivamente - a velha questão da vida breve e intensa confrontada com a vida longa e simplificada. Tudo, absolutamente tudo é fruto de decisões, e a angústia nada mais é do que um grito contra o desconforto que isso nos gera, porque ele acontece sempre, sem possibilidade de ser diferente.

É bem verdade que o ambiente onde vivemos interfere em muito nas nossas decisões, mas elas não deixam de ser decisões por causa disso. Elas podem nos levar para qualquer lugar e, avistando o paradigma de validade universal, é uma assunção única de responsabilidade. E isso é a companheira inseparável da liberdade: somos condenados a ser livres.

Bem pesado e bem medido, parece uma filosofia tão pessimista quanto a de Schopenhauer. Essa sensação se radicaliza quando Sartre afirma que “o inferno são os outros”, algo que, na casca, parece uma ode à solidão. A verdade é que, embora a subjetividade seja a característica humana mais marcante, é a interação entre a minha e a do outro que limita o exercício concomitante das liberdades, e é essa a forma com a qual se dá a existência da vida e das sociedades. É claro que, de uma perspectiva otimista de afirmar a liberdade como valor mais fundamental, deriva-se para uma liberdade obrigatória, punitiva, com peso de condenação, o arremate só poderia ser frustrante: todos têm liberdade e este é meu maior impedimento. Mas essa é a vida, com um sentido que precisa ser doado por nós mesmos, por mais absurdo que isso possa parecer.

Um bom café coado no vácuo bolado pelo engenho humano e bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Rápido e bem explicado, sem os rodeios tão típicos dos franceses do século XX.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Vozes, 2014.



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre a angústia

Olá!

Em um dos meus escritos anteriores (este), mencionei que duas coisas são inevitáveis em nossas vidas: a morte e a angústia. Senti necessidade de falar um pouco melhor sobre isso, especialmente sobre a última. Então vamos lá.

A angústia é inevitável em qualquer ser humano, porque é inerente à espécie. A cada momento convivemos com a incerteza sobre o futuro. Claro, este é imprevisível, por mais que tentemos desenhá-lo. Das divisões do tempo, é a única intangível, porque o passado reside na memória e o presente pode ser compreendido como uma sucessão praticamente infinita de acontecimentos, como se fosse um rosário de "agoras". E quanto ao futuro? Passarei para a próxima conta? E como esta será? Maior, menor, mais próxima, mais distante? Essa incerteza produz em nosso equipamento psicológico um misto de medo pelo desconhecido e tristeza por nossa impossibilidade de intervenção. Todo sentimento vem acompanhado pela angústia, até mesmo a alegria. Não temos certeza alguma em sua continuidade.


O filósofo francês Jean Paul Sartre, em sua obra O ser e o nada, faz uma investigação interessantíssima sobre a questão. Falando muuuuuuuuuito superficialmente, para ele, a angústia humana está vinculada à sua liberdade. Não parece estranho? Sua mais famosa frase é justamente "o homem está condenado a ser livre".

Segundo a filosofia existencialista, o homem não tem "liberdade de", mas "liberdade para". Que liberdade é essa? Ora, a liberdade para fazer escolhas.

Aparentemente, este tipo de liberdade é ótimo, e realmente o é, porque isso significa que o homem tem a possibilidade de guiar sua conduta, mas é exatamente aí que a angústia entra em ação. O homem escolhe porque tem a obrigação de fazer escolhas, e com isso carrega todo o peso da responsabilidade por elas. E sabe, também, que o menor ato praticado hoje trará reflexos pelo restante de sua existência.

Cada escolha representa um custo de oportunidade que pode jamais ser revertido. Se eu ofendo uma pessoa, por exemplo, não consigo dimensionar todo o alcance que terá esta minha ação. Poderei causar uma reação intempestiva, ocasionar uma vingança, forçar uma mágoa inesperada, ou até mesmo uma indiferença que me tornará perplexo. Da escolha que eu tomo, não tenho certeza alguma quanto aos seus efeitos. E o que é pior: não há nem mesmo como me recusar a escolher, já que a omissão é, por si só, uma escolha, com tantas consequências quanto as de uma decisão tomada.

É este o mecanismo que opera nos idosos quando eles sentem-se próximos da morte, ou pior: já aqui as contingências reduzem seus campos de escolha, e a angústia se amplifica. O mesmo se dá com os doentes, com os encarcerados, com os miseráveis. Mas isso não significa que o jovem, o saudável, o liberto e o rico não se angustiem, também. Como eu disse anteriormente, há o risco permanente de perda, e esta é a usina que produz a tristeza.

Se a vida é uma permanente angústia, e esta só é encerrada em plena certeza com a morte, por que continuamos achando que vale a pena viver? A ferramenta para continuarmos sobrevivendo chama-se fé.

Não me refiro aqui meramente à fé das religiões. Vários filósofos já discutiram a questão e chegaram à conclusão que, antes de ser um mero conforto, a religião sistematizada é um limitador da ação humana, não apenas no sentido moral, mas intelectivo, ao tentar guiar o pensamento aos seus ditames e regras. Meu foco, no caso, é um pouco diferente.

Crendo-se ou não em um Deus sistematizado, o fato é que sempre temos algo em que acreditamos, algo que está fora de nós, algo que nos transcende. Os ateus costumam dizer que só crêem naquilo que pode ser comprovado, que a religião é um simples lenitivo a quem não suporta a própria dor. Pois bem, que assim seja. Mas esses mesmos ateus acreditam que um novo dia surgirá a cada manhã, e que de uma forma ou de outra a vida vai continuar. Essa crença baseia-se em que? Em uma habitualidade que, segundo David Hume, é derrubada com um único ato que a contraponha. Basta que o sol não nasça para que bilhões de anos de experiência sejam jogados na lata de lixo.

Mas a crença de que o novo dia amanhecerá permanece, porque a ciência surge da hipótese, e esta não é palpável até que seja provada. Desta forma, transcende ela da própria realidade, da mesma forma que o futuro. Este é uma hipótese, está fora de qualquer campo empírico. Temos fé no futuro, ainda que não o vejamos.

Qual é, então, o nome do seu Deus? Jeová, Allah, ciência, futuro? De toda forma, nosso sustento vem da fé em algo que transcende a nós, algo impalpável, algo intangível, e se cremos na transcendência, não podemos nos considerar ateus ou, pelo menos, desprovidos de espiritualidade. Só os suicidas o são de fato e, mesmo assim, a perda da fé se dá por puro desespero. A ferramenta é a mesma, mudamos apenas o nome e a forma.


Recomendação de leitura:

O pensamento de Sartre é muito complexo, mas que vale a pena ser conhecido. Sua principal obra é:

SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. São Paulo: Vozes, 2005.