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quarta-feira, 7 de maio de 2025

O café filosófico do quotidiano – tudo o que sabemos vem do universo ao nosso redor

(Como aprendemos o que sabemos? Nascemos com algo ou pegamos tudo do mundo?)

“Suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem nenhuma ideia; como ela será suprida? (...) A isso respondo, numa palavra: da experiência. Todo nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento”

John Locke

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Eu não posso dizer que sou dos mais renomados utilizadores das benesses digitais disponibilizadas contemporaneamente. Mesmo sendo um cara de TI, faz muito tempo que não desenvolvo, e trabalho mais com a parte de requisitos, como já andei falando por aqui. Ah, eu não trabalho mais com ensino? Não, eu preciso comer.

Voltando ao assunto, se comparado a qualquer pessoa de menos de 40 anos, meu celular fica muito mais quieto do que os da rapaziada. Eles fazem tudo pelo celular, e eu até hoje não confio de ter a conta do banco, que está em um outro aparelho, quietinho em casa, por pura obrigação. Mas não sou tão dinossauro assim, e uso algumas coisas que a pandemia me ensinou/obrigou. São os aplicativos de compras, aqueles mais clássicos, vocês sabem quais.

É preciso resiliência para não sucumbir às ofertas. O que tem de badulaques interessantes é uma grandeza. Pesquisei por pratos de bateria e parecia que eu estava em uma forjaria de bronze. E aí você compra uma coisa, lembra que precisa trocar os feltros, aparece umas baquetas black fiber, e mais outra, e mais outra… quando você vê acontecem dois fenômenos: você compra um gongo que vai usar em uma única pancada de uma única música, e seu cartão vai para a caixa-prego. São maldições do capitalismo, contra os quais precisamos levantar todos os nossos sortilégios.

Mas há quinquilharias que não comprometem de forma tão radical o nosso orçamento. São porcarias que a gente compra meio que na base do “serviu, serviu; não serviu, lixo”. E às vezes se revelam verdadeira e surpreendentemente úteis, mesmo que não cumpram o que prometem.

Foi mais ou menos isso que aconteceu quando eu estava pesquisando por métodos de café, na esperança de achar alguma oportunidade boa e barata. Entre inúmeros repetecos, vi um objeto que em nada lembrava uma cafeteira, parecendo mais um infusor de chá, com a promessa de ser prática e eficiente para extrair doses individuais de café. Olhei com o bico retorcido típico das minhas desconfianças, mas estava tão barato e com frete grátis que resolvi encarar. É essa peça aqui:

A pecinha, autodenominada prensa manual para café, se chama Mimo Style e vaticina combinar três mundos: a praticidade de um infusor pequeno, o aproveitamento maximizado de uma prensa e a suavidade de um coador. A combinação vem do fato de possuir uma mola que espreme o café quando pronto, para arrancar o máximo do pó.

O esquema consiste em colocar pó no pequeno recipiente composto de telas filtrantes e depositá-lo na água fervente. A quantidade de pó que cabe nele só é suficiente para uma xícara pequena.


No final das contas, realmente funciona, mas há um problema: para cafés coados, eu prefiro quantidades maiores. Pequeninos assim, só os espressi, mas aí o pequeno utensílio não chega. Muito melhor quando usado para infundir cáscara, o saboroso subproduto do processo de descascamento do café, com suave sabor de amendoim.


 

Nome do utensílio: Prensa manual

Tipo de técnica: Infusão 

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: É inserido pó na cápsula do recipiente filtrante, para ser fechado o sistema e inserido em uma xícara contendo água fervente. Mantém-se até que a extração esteja satisfatória, quando então o método é retirado e prensado com o êmbolo

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: baixo/médio

Bom… não havia outra opção possível para saber se a bugiganga poderia surpreender. Eu poderia pressupor, mas saber, de fato, só tendo uma a meu alcance. Como não vejo esse método em cafeterias, dei meu jeito, apelando para a modernidade. É experimentando que conhecemos.

Essa é uma frase que os antigos empiristas fariam coro, fácil. No final das contas, é a perfeita síntese do que eles pensavam. Mas o que são eles? Já falei muitas vezes sobre o embate racionalistas vs empiristas neste espaço, mas não custa relembrar rapidinho. Os empiristas são pensadores que se opunham à ideia de que o conhecimento já estava internalizado no ser humano, esperando a ocasião de ser despertado, como queriam os racionalistas. Por entender que o conhecimento era algo inerente ao ser humano, forçosamente as ideias teriam de ser inatas, ou seja, nascidas junto com cada indivíduo.

Os empiristas se opunham radicalmente ao conhecimento preexistente. No fundo, entendiam que o princípio geral do inatismo tinha uma base religiosa, onde o conhecimento era uma doação de uma via externa, como o hiperurânio platônico ou o mundo das ideias divinas agostiniano. Para eles, a única fonte do conhecimento era oriunda dos sentidos, que, uma vez colocados à disposição do cérebro, podiam ser por ele processados. Muito se disse antes sobre o universo como a fonte do conhecimento e dos sentidos como sua via de entrada, mas o debate aberto sobre sua fonte vem mais tarde, e é aqui que vamos falar sobre um dos mais célebres membros do movimento empirista, John Locke.

É quase indissociável seu pensamento dos demais contratualistas*, tanto que é plenamente possível fazer comparações diretas com Hobbes e Rousseau, como fiz aqui. Dentre estes, é o que tem ideias mais sólidas sobre o processo de conhecimento oriundo da experiência.

Antes de estabelecer como é sua tese sobre o conhecimento, Locke tece pesadas críticas sobre a base racionalista. Seu questionamento já vem de sua própria linha empirista: pensavam os racionalistas que havia uma espécie de acordo universal a quem toda a humanidade assentia, como se fosse uma base epistêmica comum a todos os homens, e como se estivessem para o conhecimento como os axiomas estão para a ciência. Entretanto, se o conhecimento é inato, por qual motivo este acordo universal não está aparente nas crianças, nem em pessoas com algum tipo de transtorno mental? Ideias genéricas, como fome e frio, não estão impressas na alma, porque elas só surgem enquanto sensação, ou seja, um impulso advindo de um fator vindo de fora: a falta de comida ou de agasalho. É um aprendizado que pode ter um início ainda muito remoto, mesmo no ventre, mas não que esteja gravado na alma. Em qualquer circunstância, o feto conhece através dos seus sentidos; ele recebe alguma forma de estímulo e registra essa sensação, agradável ou não. Em resumo, crianças e tolos possuem alma, e, por conseguinte, possuem mente**. Se as impressões preexistentes pensadas pelos racionalistas fossem reais, não faz sentido que não existam neles, segundo Locke.

Outra questão que leva Locke a desconfiar do inatismo é a diversidade de respostas que os diferentes povos dão a um mesmo problema. Peguemos o exemplo deus. Em todos os lugares do mundo, existe uma forma de religiosidade. Ponto para o inatismo. Só que, entretanto, cada um desses povos traz uma resposta diferente para a mesma colocação. Há povos que adoram muitos deuses, outros possuem uma hierarquia divina, onde um deus está no alto de um séquito também divinizado, mas subalternos ao deus maior. Outra maneira de ver a religião inclui um deus único, e há ainda aqueles que não centralizam a transcendência em uma divindade, embora exista algo de metafísico***. Se o conhecimento de deus viesse inatamente, não haveria motivo para tantas concepções diferentes. Basicamente, cada povo tem ao menos uma forma de ver a divindade, totalmente própria, e isso depõe contra as ideias inatas****.

Locke vai além, utilizando os próprios princípios inatos para fazer contraposições. Se as ideias estão já presentes na mente de um ser humano, é preciso que ela preexista de alguma forma, senão não haveria como plasmá-las nas demais mentes. Será que temos algum lugar platônico onde as ideias estão todas armazenadas? É preciso lembrar que essa noção platônica não fazia parte nem dos postulados racionalistas, mas parece incoerente que haja verdades gravadas na mente que não são percebidas imediatamente como tal.

Óbvio que os racionalistas rebatem as declarações de Locke, justificando que as ideias inatas não representam soluções unívocas, já que cada comunidade as adaptaria às suas necessidades em particular, ao que nosso intrépido inglês retruca dizendo não ser prova do inatismo, vez que as diferentes soluções dadas são somente as provas de que as necessidades existem e são resolvidas de formas diversas, principalmente porque cada comunidade tem justamente uma experiência distinta do problema enfrentado. Comprovação disso vem da variedade de princípios morais que são absolutamente distintos em diferentes partes do mundo. De fato, os sacrifícios são repelidos em lugares vizinhos de onde eles são de rigor. Se houvesse princípios inatos universais, não haveria motivo para tanto.

Locke concorda, entretanto, que há, sim, algo que é efetivamente inato: a capacidade de articular conteúdos em raciocínios. Essa característica é inerentemente humana, e nos constitui como tais. Mas essa capacidade de articulação não é, ela mesma, os conteúdos com os quais ela lida. Sem eles, o raciocínio não tem ingredientes para assar seu bolo.

Se não há nenhum conteúdo pré-impresso, então como se forma o conhecimento na mente humana? É aqui que Locke vai chegar à sua mais célebre doutrina: a tabula rasa. Sempre tratamos desse conceito quando falamos de empirismo, e ele se resume no seguinte: a mente é um papel em branco, que é preenchido pelas mãos dos sentidos através da observação do universo, como se burilasse uma placa de argila. Eles ficam lá, prontos para serem utilizados quando requeridos. Apesar disso, as fontes do conhecimento não se limitam aos sentidos, mas também às operações mentais. Isso é mais facilmente perceptível quando o processo abstrato se instaura. Vemos à nossa frente objetos que não tem existência real, mas que, na opinião dos empiristas, não tem como ser desenvolvido sem que haja uma sensação anterior. Isso acontece, para dar um exemplo, na ideia de aceleração. Não conseguiríamos abstrair uma fórmula que a descrevesse se não observarmos objetos em estado acelerado, porque nem mesmo formaríamos essa noção.

As primeiras coisas que são apreendidas são as ideias mais difusas, como as cores, as luminosidades, as dicotomias cheio-vazio, quente-frio, alto-baixo, que vão dar parâmetros básicos para a construção de ideias mais rebuscadas, mais sofisticadas. Afinal de contas, não há como dizer que fulano é mais alto que sicrano se não houver antes uma ideia mais fundamental do que seriam essas qualidades.

A complexidade das ideias aumenta, portanto, na medida em que ideias simples se conjugam de forma a darem novas funções a si mesmas. Ou seja, a ideia é como um átomo do pensamento. Os processos cognitivos se dão pela contemplação, que é quando o objeto está presente e há interação direta, ou pela memória, quando os conteúdos são resgatados do acervo mental. Esse trânsito de inúmeras sensações simples permite que ideias complexas se formem. Por exemplo, para se ter uma ideia de infinitude, é preciso primeiro passar por experiências de duração, que, por sua vez, são percebidas através das ideias mais simples de tempo, colhidas da experiência pela observação da velocidade das transformações.

O grande fundamento do empirismo como um todo, e de Locke em particular, está, portanto, no fato de que o conhecimento não é uma estrutura universal, aplicável igualmente a qualquer lugar e momento, mas dependente da percepção individual. Sendo assim, todas as vezes que observamos um objeto, extraímos dele informações que são parciais de sua essência. Essas são essências nominais, porque dizem respeito a ESSE cachorro, a ESSA planta, a ESSE texto, e não à universalidade desses mesmos objetos, embora contenham em si as características que sejam comuns a todos eles. A essência nominal é construída a partir das ideias formadas a partir das sensações que temos dos vários componentes do universo, enquanto a essência real seria a sua natureza intrínseca. Daí que, entre ambas, podem ser encontradas diferenças em função da experiência de quem os observa.

Desta forma, para universalizar os juízos, e reconhecendo que as essências reais das coisas não são perceptíveis ao intelecto, mas apenas as essências nominais extraídas de cada objeto individual, é necessário que haja o compartilhamento de ideias e conceitos, através da comunicação e da educação. O ser humano é caracterizado pelo compartilhamento de vários elementos, como os produtos do trabalho, dos espaços públicos, da terra, dentre outros. Deve compartilhar também os conhecimentos individuais para enriquecer o patrimônio intelectivo humano, porque é da depuração das experiências através dos pontos em comum que é possível obter algo que se aproxime o máximo possível do que seria essa tal de essência real. 

O que podemos concluir é que eu precisava de experiência individual para determinar se faz sentido usar este pequeno utensílio para extrair um café minimamente competente, bem mais do que se fiar unicamente na minha intuição. E, neste sentido, valeu a experiência. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não tenho como deixar de novamente indicar a obra em que Locke discorre sobre tudo o que foi discutido aqui.

LOCKE, John. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

 

*São os filósofos modernos que exploraram o conceito de contrato social, ou seja, o acordo de convívio entre os seres humanos.

**Locke era cristão e, portanto, fazia identificação entre mente e alma.

***Budistas, de certa forma, são enquadrados nesta categoria. Vide este texto.

****Obviamente Locke não conhecia os ateus pirahãs, dado ao fato de ser um povo praticamente oculto até pouco tempo atrás. Para saber mais, leiam este post.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A Teoria dos Ídolos de Francis Bacon e o quanto é importante perceber as influências de nossas ideologias no pensamento científico

(A ideologia vai muito além do que o entendimento raso que temos hoje em dia. Ela vem de tempos e era chamada de “ídolos” desde a Idade Moderna).


O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe – Francis Bacon

Olá!

E agora estou com labirintite. Descobri, evidentemente, da pior forma: tendo uma crise. Pensando bem, poderia ter sido bem pior, tipo dirigindo ou atravessando a Sé, mas foi sentado na cozinha, tomando um café. Fiquei cismado de que ele fosse o culpado, mas tenho um pouco de dimensão das coisas e sei que não é nada disso. É algum distúrbio no ouvido, causado diretamente por um descompasso nos líquidos dos canais semicirculares, o órgão do sentido de equilíbrio de nosso corpo. Pelo menos em tese é isso que tenho, até a realização de exames mais conclusivos.

Eu já tinha ouvido muitos relatos sobre as síndromes vestibulares, mas é só sentindo no couro que ganhamos representatividade. Vertigem e perda de direção são mais fáceis de lidar na teoria do que na prática, e ao levantar da banqueta dei um desvio na direção digno dos carros com suspensão avariada, o que me obrigou a apoiar nas paredes até chegar ao sofá, onde larguei o corpo até me sentir um pouco melhor. Só que junto com a zonzeira vem uma ânsia de vômito daquelas, que só o meu ódio ao ato ajudou a reter. É a mesma sensação de quem fica mareado após horas de balanço no barquinho do mar, daquelas cenas típicas de comédia, mas que não são nada engraçadas para o contribuinte que a suporta.

Enquanto a sala fica girando ao meu redor, fico tentando buscar supostas origens na cabeça confusa. Lembro de quando era bem pequeno e via meu pai limpando os ouvidos com um palito de dentes, o que fui repetir escondido, e me custou uma corrida no médico e um buraco no tímpano. Lembro também da música no talo partindo dos fones de ouvido e dos amplificadores arregaçados ao máximo para conseguir aquele delicioso ruído de válvula sobrecarregada, para desespero dos vizinhos e delírio dos otorrinos, sequiosos por ouvidos estuporados. Bom, na verdade, é um deles que vai me ajudar agora, então não sejamos injustos. Pode ser tudo isso ou nada disso, então vamos examinar o que for necessário.

Impressiona um pouco como podemos ter desvios de percepção. Claramente isso ocorre com mais profundidade na medida em que você está acometido por uma doença ou turvado pelo consumo de certas substâncias, como remédios, álcool ou drogas ilícitas. Sentimos os objetos maiores ou menores, as portas mais próximas ou mais distantes, as paredes tortas. Mas olhando bem, mesmo agora que já estou bem recuperado, noto que a parede realmente não é reta. Pego um fio de prumo e vou tirar a prova dos nove, e, ainda que por poucos milímetros, a parede realmente é torta. Outras paredes, de empreendimentos mais sérios, provavelmente estarão mais bem aprumadas, mas nunca estarão cem por cento ajustadas às métricas. Mas eu assumo que elas estão retas porque, no final das contas, só uma distorção muito grande trará efeitos práticos na minha vida, como uma parede de apartamento cedendo ao peso da laje.

Isso é um problema para quem deriva todo seu pensamento a partir da experiência. Sempre teremos algum grau de distorção que, se no miúdo não faz diferença, no todo é transmitido para a teoria geral. Francis Bacon era desses, e reconhecia o quanto era problemático extrair dados da experiência, e por isso fundou um método todo cheio de nuances. Ele surge no Renascimento e se opõe a três inspirações epistemológicas. Primeiramente, coloca-se radicalmente contra qualquer conhecimento de fundo metafísico, especialmente à escolástica de São Tomás de Aquino, que usava como critério de desempate em um confronto entre Religião e Ciência a primazia da fé sobre a razão. Para Bacon, o valor dos argumentos de autoridade só é válido no campo da fé. Depois, via com desconfiança o racionalismo de René Descartes, que dava mais valor ao raciocínio intrínseco do que aos dados colhidos da realidade. Por fim, não aderia a Galileu Galilei e seu mundo visto sob o prisma das formulações matemáticas, que buscava leis gerais e, delas, fazer deduções sobre o funcionamento do mundo. Bacon, ao contrário de todos, entendia que a ciência deveria ser empírica, baseada na experimentação e na observação de casos particulares, que se acumulam e são registrados para formar conclusões e reforçá-las. Quem procurar ler o livro que recomendei neste link, verá que sua segunda parte é toda composta pela descrição exaustiva de métodos de registro de coletas de informações. Aproveitem para notar o quanto a indução está em utilização em todo o seu esplendor: a anotação de inúmeras e inúmeras ocorrências dos mesmos fenômenos é a base de todo o conhecimento, e, para isso, o registro ad nauseam deve ser rigorosamente realizado.


Há questões: tudo bem que Hume é posterior a Bacon, mas a constatação do problema da indução não quer dizer que magicamente ela passou a ter limitações somente a partir de sua problematização. Isso significa que, grosso modo, uma indução sugere uma aproximação com a realidade, mas não assina o certificado. Tudo por uma constatação simples: só podemos afirmar que todo pênalti mal marcado é perdido até acontecer de um pênalti mal marcado resultar em gol. Ou que todos os cisnes serão brancos até que se ache um cisne preto. Uma conclusão extraída de uma indução nunca é definitiva, e essa constatação é tão importante que a localização de um fenômeno que a desminta virou a principal premissa do método científico atualmente: a falseabilidade.

Acontece que Bacon percebia que não eram somente as encrencas inerentes à indução que eram obstáculos à produção do conhecimento. Segundo ele, os seres humanos em geral possuíam predisposições psicológicas que acabavam por causar distorções na realidade que iam para além dos desvios dos sentidos. É como se o conhecimento precisasse driblar barreiras intelectuais para se fixar o menos distorcido possível. É o que ficou conhecido como teoria dos ídolos.


Bom... o que é um ídolo e porque Bacon usou esse termo para fundamentar sua tese? A palavra vem do grego eidolon, que significa “simulacro”. Digamos que você goste muito de um time, ou de um jogador específico, ou de um artista, coisa que o valha. Você procurará andar próximo deles, mas nem sempre isso será possível, porque o time joga na casa do adversário, o jogador vai junto, o músico sai em turnê e assim vai. Mais ainda: por mais que se queria fazer a tietagem, não há logística possível de você estar perto cem por cento do tempo do seu time favorito. O que você faz então? Compra uma camiseta, coloca um quadro na parede, um fundo de tela no celular, entoa hinos e canções. Você faz questão de espalhar sua preferência para todo mundo através de um objeto que substitua a presença física do objeto da adoração. A camiseta não é o time, o retrato não é o jogador, a canção não é o cantor, mas são simulacros que se colocam nos seus lugares, e é exatamente isso que chamamos de eidolon. Quando chamamos o objeto representado de ídolo, como “o meu ídolo é Fulano”, nada mais estamos fazendo do que criar uma metonímia. O ídolo mesmo é a representação, e não o representado. Mas nós nos dispomos a proteger o ídolo da mesma forma que faríamos com o time em si, com o jogador em si, com o artista em si. Ofender o ídolo é ofender o representado e, como aquilo em que acreditamos diz boa parte do que nós mesmos somos, é ofender a nós mesmos.

Quando Bacon chama de ídolos os desvios psicológicos humanos na pesquisa do conhecimento, está se referindo aos conteúdos prévios da mente como verdades absolutas das quais não estamos dispostos a abrir mão, e que nos fazem ver as coisas como elas não são na realidade. São ídolos porque são caros a nós, que defendemos nossas crenças da mesma forma que defendemos nossas cidadelas.

São quatro os gêneros de ídolos contidos na teoria baconiana, e nós vamos tratar de cada um deles individualmente: ídolos da tribo, da caverna, do fórum e do teatro.

Ídolos da tribo

Quando nós falamos de percepções pelos sentidos, temos em mente as vias de acesso do mundo exterior para o nosso intelecto. Dos cinco sentidos, temos como o mais apurado a visão, seguidos pela audição. Achamos muito bonita nossa capacidade de enxergar, mas às vezes esquecemos do quanto temos limitações nessa faculdade. Quando alguém quer dizer que uma pessoa tem boa capacidade visual, diz que tem visão de águia, ou olhos de lince. Nunca dizemos que alguém tem visão de homem, ou olhos de gente. Isso porque, embora tenhamos uma acuidade visual melhor do que a da maioria dos mamíferos, há inúmeras outras limitações (inclusive na forma de doenças) que tornam nosso aparato muito inferiorizado em relação a outras espécies. Falcões enxergam a mais de 3 km de distância, polvos possuem dezesseis cones de cores (temos humildes três), camaleões possuem visão bilateral independente, aranhas contêm milhares de ocelos em seus olhos múltiplos. Temos nossos dois olhinhos frontais, bons para vigiar leões nos horizontes das savanas, que são suficientes para nossa sobrevivência, mas que produzem muitas distorções. Isso se espraia para os outros sentidos e é inerente à espécie humana.

Bacon chama de ídolos da tribo a predisposição da própria espécie em confiar demasiadamente nos próprios sentidos. Ganha esse nome porque a humanidade como um todo pode ser considerada uma tribo, com suas características peculiares no grande bioma denominado biosfera. E tribo é uma designação primária que damos para agrupamentos com alguma distinção, como a origem e a genealogia comum. Dessa forma, temos a tendência de achar que todo o universo segue a mesma lógica de nossa espécie. Por exemplo: damos imenso valor à nossa liberdade, e sempre que vemos algum bicho aprisionado tendemos a achá-los tristes, não é mesmo? Só que ser livre é importante para nós. Para o bicho, a segurança de estar em uma casa, mesmo que seja um humilde apartamento, pode trazer muito mais conforto do que a pretensa liberdade, muito mais perigosa. Outro exemplo: quando está sol, dizemos que o tempo está bom. Bom para quem? Para nós, que podemos pegar as mochilas e passear, dar um pulo no estádio sem se encharcar, dar um rolê de carro sem riscos de alagamentos e etc. Mas o tempo seco e quente não é bom em si mesmo: ele é neutro, é o que é. Ele é bom para mim, e, com isso, eu antropomorfizo uma qualidade que o clima, na verdade, não tem.

Ídolos da caverna

Embora nós tenhamos reservadas em nós muito das coisas gerais da humanidade enquanto tribo, também é verdade que nós continuamos sendo indivíduos, aos quais se atrelam histórias e experiências próprias, diferentes de qualquer outro ser humano. Nós somos bombardeados diariamente por informações que vêm de nossa família, da religião que praticamos, dos locais de trabalho e da escola, de pessoas de nosso convívio social que, no final das contas, formam aquilo que chamamos de senso comum. São conjuntos de crenças acríticas que, no final das contas, formam no nosso íntimo não o conhecimento, mas a opinião.

Essa é a caverna de Bacon – o mundo interior que se esconde da luz da natureza em si mesma. O resultado é que cada um de nós enxerga em perspectiva própria, sempre “puxando a sardinha” cognitiva para os fatos que nos favorecem. Imagine que você coloque uma camisa do Corinthians à frente de um palmeirense, vice-versa valendo também. Pode colocar o dado que você quiser, o outro time será sempre melhor. Se quisermos melhorar o exemplo, pense na visão que um judeu terá sobre estudos do Holocausto. Ele precisará isolar muito mais sentimentos do que qualquer outra etnia, porque há afetos sendo disparados a todo instante, porque se trata de um fato histórico onde seus ascendentes foram atingidos, em maior ou menor proporção.

Ídolos do fórum

Os ídolos do fórum, também chamados de ídolos do mercado em algumas traduções, dizem respeito aos problemas da linguagem. Todos nós sabemos da dificuldade que temos de traduzir em palavras exatas, ou melhor dizendo, de transformar o mundo que nos cerca em linguagem, embora não nos reste fazer outra coisa, porque esta mexe inclusive com nossa forma de pensar. Tente pensar sem palavras, por exemplo. Não dá, né? Existem formas não verbais de expressão, mas elas sempre vão desembocar nas tais palavras e, se não temos como certificar cem por cento de sua precisão, temos um problema imenso nas mãos: a barreira linguística.

Prestem atenção no problema das polissemias: uma palavra pode assumir inúmeros significados, bem como podemos ter inúmeros sinônimos para o mesmo objeto. No primeiro caso, pensemos na palavra “peça”. Pode significar um ato teatral, um componente de uma máquina, uma parte de uma coleção, um armamento, a divisão de uma casa, uma enganação, uma pessoa com atitudes curiosas, um documento processual, uma pedra do jogo de tabuleiro, um elemento de campanha publicitária, um pedaço de tecido, a primeira pessoa do presente do subjuntivo do verbo pedir e mais algumas coisas. No segundo, podemos pensar em um cigarro de maconha, que recebe inúmeros nomes: ganja, baseado, marijuana, diamba, erva, bagulho, verdinha, beck, canabis, bangue, cigarrinho de artista, pantera, da lata, marola, charuleta et al.

Toda essa confusão na linguagem permite que se faça uso indevido ou malicioso dela, inconscientemente ou não. Tanto no fórum, onde promotores e advogados desencadeiam seus combates jurídicos através da palavra, quanto no mercado, com a concorrência entre os feirantes e no embate de descontos e pechinchas entre mercadores e compradores, a linguagem é usada para dissuadir e convencer, não importando, na prática, onde reside a verdade sobre causas e valores, e por isso o fórum/mercado é metáfora para o espaço de disputa da linguagem.

Ídolos do teatro

O que costumamos assistir no teatro? Um grupo de atores sobre um palco desempenhando algum papel previamente escrito. E o que vemos é a realidade? Não! Vemos uma história sendo contada sem nenhuma necessidade de ter reflexo no mundo real, ainda que ela possa transpor para o concreto uma ideia. Por via das convicções, trazemos todo o pano de fundo que reveste nossos pensamentos: sistemas filosóficos, disposições religiosas, tradições, princípios científicos. Entretanto, essas convicções podem constituir fábulas que resistem à absorção de conhecimento que divirja de seus ditames.

Bacon diz que estes ídolos são incutidos nas mentes dos seres humanos, já que, ao contrário dos demais, não são inerência pura da espécie, da individualidade e da linguagem. Sendo assim, eles representam aquilo que hoje em dia conhecemos por ideologia. Ele apontava seus canhões retóricos contra os três grupos de ideias que mencionei mais acima, mas era contra o seu contemporâneo Racionalismo, que apresentava uma nova forma de encarar a Epistemologia, e que havia convencido muita gente com relação à primazia do intelecto sobre a experiência, que tinha seu alvo mais aguçado.

A teoria dos ídolos de Bacon, mesmo com toda idade que já tem, é um índice interessante para que ainda hoje se tome cuidado com a questão da preexistência de convicções. A Fenomenologia, por exemplo, tem como método que o pesquisador se dispa de todas as suas capas de cultura, que acabam por nublar sua consciência ao estudar um determinado objeto, e isso é exatamente o que queria Bacon quando nos advertia de nossos ídolos. Especialmente para reconhecer nossos próprios preconceitos.

Bons ventos a todos!

Recomendações:

Preciso indicar novamente o magnum opus de Bacon, não tem como fugir:

BACON, Francis. Novum organum: Verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. São Paulo: Nova Cultural, 1999.


Queria indicar também um canal que me ajudou na confecção deste texto, do casal Vitor e Evelyn Lima, chamado Isso Não É Filosofia. É muito bom e claro:

https://www.youtube.com/c/Iston%C3%A3o%C3%A9Filosofia/featured

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Sobre o problema da indução e a tangência com o ceticismo de Hume

(“Faça isso e acontecerá aquilo” é uma lógica que nos parece tão natural que nem questionamos se essa regra é real).

Olá!

“É o costume do pito que entorta o beiço", dizia um dos vizinhos dos meus avós, que não fumava cachimbo. Aplicava-se este dito a pessoas com manias reiteradas, que acabava por marcá-las e até apelidá-las. Acontece que todos nós temos nossos costumes, que acabam por ficar automatizados. Eu tenho vários, e um deles é o de encher a talha todos os dias de manhã, para não faltar água filtrada durante o dia. Aqui cabe uma rápida explicação.

Eu tenho uma daquelas talhas de barro, comuníssimas. Esse tipo de artefato normalmente é enchido com um jarro, pegando água do sistema público diretamente da torneira. Minha talha fica em uma cantoneira, deixando-a bem acima do nível da pia. Como era uma chatice ter que subir no banquinho para encher o utensílio, bolei um esqueminha que consiste em uma torneirinha secundária, de onde sai uma fina mangueira diretamente no reservatório, entrando através de um orifício que eu fiz na tampa com arame quente. Dessa forma, consigo encher o filtro sem a necessidade do sobe-e-desce. O sistema não é perfeito, porque não consigo ver o nível em que a água se encontra, e por vezes ela transborda, mas, com a prática, peguei uma noção de tempo que se demonstra suficiente para suprir a necessidade diária. Logo depois do café, abro o registro da talha e vou abrir a janela dos passarinhos, ajeitando as plantas que ficam na varanda. No retorno, já posso fechar a torneirinha. Esse é o tempo certo que mencionei logo atrás.

Tudo muito bonito, mas já aconteceu de haver grandes transbordamentos, fazendo perder o serviço da louça escorrida que fica logo abaixo, e assemelhando a pia a um dos tantos bairros que se alagam nesta metrópole da solidão. Em uma dessas manhãs, eu percorri todo o trajeto que mencionei para vocês, mas já ao chegar de volta à sala foi possível ouvir o ruído de uma miniatura de cachoeira. A patroa diz que é desleixo, e eu fico encafifado: por que funciona todo santo dia, mas há momentos em que a lógica falha?


É através de uma cena tão quotidiana como esta que tivemos um dos maiores desafios ao racionalismo cartesiano, com um forte reforço no empirismo e quase beirando o ceticismo. É uma questão tão importante que eu nem sei como ficou de fora até hoje no meu espaço. Antes, porém, seria importante se dar conta das propostas do tal racionalismo, que podem ser lidas neste texto, e do embate que o mesmo teve com o empirismo*. Falei muitas vezes sobre isso, mas podem tomar conhecimento aqui. Isso feito, vamos falar sobre as ideias de David Hume.

Hume foi um filósofo escocês, bastante precoce, mas que demorou um pouco a emplacar notoriedade. É considerado o empirista que mais radicalmente carregou seu projeto epistemológico, a ponto de quase retomar o antigo ceticismo pirrônico, que entendia ser impossível conhecer.

Mas vamos passo a passo. Os empiristas seguiam a linha geral da tabula rasa, expressão latina que significa algo como “papel em branco”. Essa é uma metáfora que indica que todos os operandos para o funcionamento da razão humana são obtidos de fora, ou seja, dos objetos aos quais somos apresentados. Não há, segundo eles, nenhuma coisa que venha a priori, como tanto defendiam os racionalistas. Portanto, todo o conhecimento é obtido a partir da experiência e por intermédio dos nossos sentidos, que são a ponte entre nossa razão e o mundo.  É necessária uma experiência** para que tenhamos em nós conteúdo cognitivo novo, e vem daí o nome da corrente (empeiria=experiência em grego).

Mas como essa coleta de informações vinda do ambiente e de outros sujeitos é processada em nossas mentes? Enfim, como as percepções absorvidas pelos sentidos ganham estatuto de conhecimento? Segundo Hume, os dados obtidos do meio externo ficam gravados na forma de impressões e de ideias. As impressões são os meios primários com os quais nosso cérebro é atingido, e se dá pelo contato direto com o objeto da cognição. Por exemplo, digamos que eu tenha uma bola de futebol em minhas mãos. Percebo nela uma série de características simples: suas cores, seu peso, sua esfericidade, seu material. Nenhuma delas representa uma bola isoladamente, mas é necessário que todos esses componentes de impressões simples estejam lá para que eu tenha uma impressão complexa: o objeto bola. Enquanto a tenho comigo, ela imprime uma forte percepção em minha mente, já que todos os meus sentidos estão atuando para recolher informações sobre ela. A impressão, portanto, é extremamente vívida, presente e correspondente ao real.

O que acontecerá, entretanto, se eu pegar essa mesma bola e jogá-la em um canto do quintal, afastando-a dos meus sentidos? Bem, ainda assim eu serei capaz de articular mentalmente com o objeto, só que agora na forma de ideia. Ocorrerá que o objeto ficará cada vez menos nítido, empalidecido, mas com uma vantagem em relação à impressão. Imaginemos um técnico que vê seu time jogando uma partida sofrível. Os lances, passes e tática estão ali em campo, visíveis, e estão sendo escritos na sua mente na forma de impressão. A partir do momento em que nosso pobre treinador começa a imaginar formas de corrigir o posicionamento de sua equipe, ele não está mais coletando dados da realidade presente, mas utilizando informações vindas de suas experiências anteriores, até que consiga pensar em formas de transpô-las para as quatro linhas. Essa é a vantagem das ideias: como o objeto não estará mais tomando toda a minha atenção, terei mais facilidade para articulá-lo com outras ideias, no que resultará em nosso processo de abstração. Com a impressão, temos o que sentimos; com a ideia, o que pensamos.

Segundo o empirismo, o inatismo é impossível, e ele é imprescindível para a lógica racionalista. Hume explica como o inatismo é falacioso por conta dos mecanismos de associações que produzimos em nossas mentes. Entidades abstratas são reconhecidas por conta de conhecimentos preexistentes vindos dos sentidos. Um deus, por exemplo, é uma continuação dos homens que são efetivamente conhecidos: através da ideia de humanidade, maximizam-se seus valores e temos o deus infinitamente misericordioso. Através do domínio da natureza que o próprio homem tem, chega-se à onipotência divina, e assim sucessivamente. Aliás, falando em infinito, outra concepção abstrata tida como inata, é através do aprendizado dos tempos cada vez maiores e dos espaços cada vez mais distantes, que se associam uns aos outros, que se chega à ideia abstrata de infinitude. Ou seja, mesmo o mais abstrato dos devaneios não é feito por criação exclusiva da mente humana. Antes disso, é com elementos já existentes nas ideias que a abstração se cria.

Apesar deste golpe no racionalismo, Hume também chuta a canela do próprio empirismo, e o faz de maneira dolorida. Segundo ele, a mente opera através de três processos de associação de ideias: semelhança, contiguidade e causação. O primeiro é dado pelo óbvio mecanismo de remissão de uma coisa para a outra. Uma bola de futebol se assemelha a uma de basquete, que se assemelha a uma de vôlei e assim por diante. Até mesmo algum esporte não inventado, que esteja somente em minha imaginação, pode ter uma bola envolvida se eu associá-la a este ambiente por semelhança. Já a contiguidade se forma pelo reconhecimento de que as coisas andam habitualmente juntas. Seguindo o exemplo do futebol, uma bola já faz pressupor campo, jogadores, torcida, árbitro, partida, campeonato e via discorrendo. Por fim, o processo de causação é a clássica relação de causa e efeito, onde tudo o que acontece é consequência de um fenômeno que lhes deu origem. O chute é a causa do gol, o gol é a consequência do chute; a falta é a consequência da jogada violenta, a jogada violenta é a causa da falta, seguindo ad nauseam por quantos exemplos se queiram. Acontece que o processo empírico se serve profusamente das associações de causação, e é aí que está todo o problema. Tenham um pouco de paciência que a gente já chega lá.

Hume entende que há dois gêneros de objetos que são processados em nossos cérebros. Temos relações de ideias, que são desdobramentos de pensamentos inferidos unicamente pelo próprio raciocínio, e que ficam circunscritos à definição de conceitos lógicos e matemáticos. Não se trata dos mesmos pensamentos inatos que Hume tanto combate, mas de derivações daquelas ideias que já perderam o vínculo com a concretude que lhes originou. Aqui ficam os conceitos, os entes matemáticos, os desenvolvimentos lógicos formais, as descrições geométricas e tantas outras relações que se assemelham muito aos juízos apriorísticos kantianos. É uma relação de ideias, por exemplo, afirmar que duas retas paralelas são aquelas que não possuem nenhum ponto em comum, ou que um cubo é um sólido de seis faces, ou ainda que a décima potência de 2 é igual a 1024. As relações de ideias são baseadas no princípio da não-contradição, o que significa que uma inversão lógica a torna completamente inválida. Não é possível afirmar que um círculo é quadrado, ou que eu vou e não vou ao jogo de futebol ao mesmo tempo.

O outro gênero são os dados de fatos. São estes que são colhidos diretamente da experiência, iniciando como uma impressão e posteriormente indo para o campo das ideias. São exatamente eles que retratam o ato empírico, e é por eles que disparamos as associações de ideias. Ou seja, não há aqui nada que seja apriorístico, porque só conseguimos atinar qualquer fenômeno a partir do seu acontecimento. Quando eu usei o exemplo da bola para falar sobre a aquisição de uma impressão, era um dado de fato que eu tinha em minhas mãos. Então eu poderia fazer um sem-número de associações a partir daquele objeto: a similaridade com qualquer outra bola e a contiguidade do seu uso em um campo ou quadra. Naturalmente, eu também podia fazer associações de causa e efeito com ela. A bola é consequência do couro, que é consequência do boi, que é consequência da grama, que é consequência da terra e qualquer outro tipo de bobagem meramente ilustrativo. Enfim, o princípio da causalidade diz que qualquer objeto ou fenômeno tem uma causa que lhe dê origem. Só que é aí que tem uma pegadinha. Para demonstrar isso, vamos ao exemplo do próprio Hume.

Vamos imaginar uma mesa de bilhar onde estão duas bolas colocadas livremente, sem que nenhuma delas esteja encostada nos limites do móvel. Quando você der a tacada de uma na direção da outra, o que esperará? Ora, que o choque impulsione a bola que estiver parada. Isso acontece porque vemos isso acontecer uma vez, duas vezes, três vezes, todas as vezes em que se repetir o movimento. Acontece que ver o choque entre duas bolas de bilhar é um dado de fato, e aqui o princípio da não-contradição é inaplicável. Ao contrário de afirmar que um triângulo tem dois lados, não há nenhuma espécie de contradição lógica em dizer que uma bola não se moverá com o impacto da outra. Isso pode se dar por qualquer motivo: que uma das bolas seja imprevisivelmente pesada, que esteja imantada na mesa, que possua uma trava sob ela, não importa. Não há nada que assegure a repetição da causa e do efeito.

Mas por que diabos vemos as coisas se repetirem? Por que o sol nasce todos os dias e se põe todas as noites? Porque as coisas caem quando as soltamos no ar? É que nós possuímos um esquema mental que está preparado para a habitualidade. A repetição dos fenômenos faz com que tomemos por verdade lógica uma determinada sequência de causa e consequência que, in extremis, não existe. Isso porque os dados de fatos não precisam seguir o princípio da não-contradição. O sol nasce todos os dias, mas é possível dizer que ele não nascerá sem que se caia em uma contradição. Diga-o a alguém que esteja na noite de seis meses dos polos ou no lado escuro da lua. Também não há contradição em dizer que algo não vai cair por ação da gravidade, bastando estar no espaço sideral. E, por fim, um dia o sol vai se apagar, e o efeito da gravidade pode ter uma condição tal em que seja anulado de uma hora para outra, quem pode dizer?

O fato, para Hume, é que o hábito ilude. Nós não nos damos conta de que a repetição dos fenômenos não é uma questão de conhecimento, mas de crença. Nós não sabemos que algo vai acontecer em consequência de uma causa, mas cremos que vai acontecer. Isso arremessa de cabeça a indução para a Metafísica, porque não é possível inferir necessidade*** a priori. Se fosse, por qual motivo precisaríamos observar empiricamente o resultado de uma ação? A causa e efeito retirados de uma relação lógica se tornam algo como uma fé, que não está no escopo do empírico. As relações de ideias estão a salvo disso tudo, porque definições não são derivadas de causação, e estão submetidas ao princípio da não-contradição, como eu disse anteriormente.

E por que isso é um grande problema? Porque toda a Ciência se baseia em indução. Os antigos silogismos aristotélicos eram muito elegantes, mas se prestavam a inferir logicamente as coisas que já possuíam predicação em si mesmas, enquanto o que trazia novidades de fato eram os encadeamentos indutivos, que buscavam exatamente a repetição dos fenômenos para trazer cada vez mais força aos seus argumentos. O problema da indução levantado por Hume nos faz questionar se de fato a Ciência é capaz de produzir conhecimento, já que se baseia na observação de fenômenos que, reduzidos a inferências, não tem poderio lógico de se sustentar.

O desconforto, mais uma vez, vem do desconhecimento sobre a maneira com a qual a Ciência se apoia na observação dos fenômenos para obter seu combustível. Os cientistas sabem disso, e trabalham no sentido de uma aproximação com a verdade, e não com a verdade em si, que é coisa difícil de atingir. É por isso que os métodos buscam cada vez maior aperfeiçoamento, e o critério da falseabilidade é a melhor prova de que a indução pode ser trabalhada de forma mais inteligente, e mesmo o método popperiano já foi levado mais além, de modo que os corolários de uma teoria sejam atacados antes do seu cerne. Além disso, o próprio Hume afirmava que as relações de causa e efeito podiam não ser logicamente consistentes, mas eram úteis. Embora a indução seja contingente, ela fornece graus competentes de probabilidade quando levantada com rigor. Isso porque o objetivo de Hume não é imobilizar o processo de busca do conhecimento, como fariam os antigos céticos, mas o de descortinar qualquer procedimento que não fosse baseado na realidade e nas verdadeiras possibilidades cognitivas.

Evidentemente, as propostas de Hume são desafiadoras, mas ele mesmo diria que não são definitivas. Pouco tempo depois, Kant faria a genial conciliação entre as duas correntes, descrevendo o que é apriorístico e o que é empírico na cognição, e dando um limite muito mais preciso da participação da consciência individual nessas relações, mas ele mesmo atribui a Hume seu despertar do sono dogmático, o que por si só já é um elogio de inflar o balão. Espero que tenha ficado bem claro. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Hume é altamente crítico neste seu tratado, e é uma das obras mais pedidas nas faculdades de Filosofia. Para quem se interessa pelo tema, é um prato cheio.

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Unesp, 2009.


* Para quem estiver com preguiça de ler os links: o racionalismo entende que a razão é prioritária no desenvolvimento do conhecimento, porque certas relações cognitivas já vêm de fábrica no ser humano. Já o empirismo acha que todo o conhecimento é externo ao contribuinte, sendo adquirido através dos sentidos e, aí sim, processado pela mente.

** Não no sentido propriamente científico, como as experiências realizadas em laboratório, mas na vivência dos fenômenos que nos cercam.

*** Em Filosofia, necessário é aquilo que é de uma forma e não poderia ser de outra.

domingo, 25 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 6ª estação: Brazópolis observando o universo e as armadilhas da realidade e do senso comum

Olá!


O dia em que fui para Piranguinho estava muito, mas muito quente, em completa oposição aos demais dias desta até então úmida aventura. É aquela famosa anedota dos extremos: tá reclamando? Vai prá Cuba! Mas eu acho que Cuba é ainda mais quente do que o Sul de Minas, então me dou por satisfeito. Meu carro não tem um ar condicionado dos mais ferozes, embora beba um combustível lascado. Mas, ainda assim, é um ar condicionado, que vence em frialdade o scirocco tupiniquim que vem das meras janelas abertas. Portanto, vamos fechá-las para amplificar o aroma das paçocas e pés-de-moleque e pegar estrada novamente. Para quem está com fome (estamos próximos do meio-dia), é meio torturante, ainda mais sabendo que a quantidade de açúcar que transporto nesses acepipes é suficiente para levar ao coma qualquer diabético de minha nacionalidade, eu incluso. É o meio caminho entre a ironia e a contradição.

O rumo já é conhecido de vocês, caso tenham lido meu texto anterior. Como eu já expliquei em outros textos, mais notadamente naquele que relato minha viagem a Monte Alegre do Sul, eu gosto de bebericar uma branquinha, bem de leve. Nem em sonho eu bebo antes de dirigir, e, para isso, tenho na patroa uma sommelier competente, para depois curtir de boa na lagoa. Estou na rota de Brazópolis, terra de morros e vales que parecem infinitos, terra natal do meu colega João Francisco, que sempre traz um queijinho para nosso deleite. O conceito de “plano” parece inexistir por aqui.


Substituindo o nome anterior do lugarejo, que era São Caetano da Vargem Grande, o topônimo é homenagem ao Coronel Francisco Braz, o mesmo que nomeia a praça da matriz de Piranguinho, pai do presidente Wenceslau, um dos políticos que fez parte da dobradinha café-com-leite, a alternância combinada no poder entre paulistas e mineiros. Bom, acho que estou me repetindo, mas preciso deixar este texto minimamente autônomo. O busto que lhe faz memória está situado na praça da igreja matriz.


Esta última, cujo padroeiro é São Caetano di Thiene, originalmente era uma capela de fazenda, que abarcava a região em que hoje está instalada a praça. Infelizmente, estávamos em pleno dia de Nossa Senhora Aparecida, motivadora do feriado, e as atenções estavam voltadas para outro ponto da cidade, que veremos mais tarde. Por aqui, a matriz encontrava-se fechada, mas a bela feitura de seu exterior faz imaginar que sua parte interna também seja agradável de se ver.


Pude perceber que a cidade tem muitas construções antigas, algumas delas datadas do século XIX. Em um exemplo, há o prédio do Grêmio Operário 1º de Novembro, que congrega algumas atividades sociais, como time de futebol e concursos de misses. Pelo que conseguir levantar a custo, pelo menos até 2013 ainda estava ativo.


Ainda na categoria “edifícios”, o prédio mais curioso de todos é, sem dúvidas, o castelinho em cujo frontispício estão os dizeres Vila Dona Benedita de Faria Pioli. Diz-se que o proprietário desejava morar em um castelo, e resolveu homenagear a senhora sua mãe. Hoje em dia, após muitas considerações sobre espectros e assombrações, o espaço é aproveitado como arquivo municipal.


Em outro ponto da cidade, já quase no caminho do distrito de Luminosa, há os restos mortais do que um dia foram os depósitos da ferrovia da cidade.


Bom... A partir deste ponto, pegamos a estradinha de terra que leva ao nosso objetivo primaz neste périplo a Brazópolis: caçar a boa bebida que provamos em Delfim Moreira. Luminosa é um patrimônio de dois ou três quarteirões, perdido no meio de morros e plantações.


O lugarejo é muito próximo à divisa com o estado de São Paulo. Do lado de lá das montanhas abaixo, está situada a cidade paulista de São Bento do Sapucaí, produtora de mosaicos e azeite à qual já visitei e mencionei em meu blog.


A construção mais notável é a igreja de Nossa Senhora das Candeias, que é o centro espiritual da rota chamada Caminho da Fé, que se inicia em Águas da Prata e desemboca no santuário nacional de Aparecida. Trata-se de uma gigantesca trilha que corta montes e vales para ser feita a pé ou, no máximo, de bicicleta, serpenteando 322 Km em seu eixo principal por altitudes que chegam a mais de 1800 metros.


Na entrada do pequeno núcleo urbano fica o sítio que abriga o alambique Luminosa, onde também é servida comida de fogão a lenha e outras bebidas. Seu acervo de cachaças é vasto, com misturas de todo tipo.


A produção é feita de forma quase que totalmente artesanal, com os destiladores, fornos e tanques expostos para visitação, além de toda a infinidade de garrafas colocadas no próprio armazém, com amostras de degustação de todos os produtos, feita orgulhosamente pelo seu dono, o Guido. Haja fígado.


A grande atração, além das puras, é a cachaça de banana, mas há muita variedade disponível, com algumas um tanto exóticas. Na rosa-sol, por exemplo, vai cravo, canela e mais alguma coisa que eu esqueci. Boa.


De volta para o centro do município, fomos dar um rolê pela região do santuário de Nossa Senhora Aparecida, com o objetivo de descolar uns acepipes nas barracas típicas. É um ponto muito alto e bonito de Brazópolis, onde não pontua apenas o templo, mas os belos e grandes prédios da Escola Técnica.


A igreja, como sói acontecer nessas datas comemorativas, estava plena e absoluta, enfeitada de ponta a ponta e preparada para receber fieis e nem tanto, alguns interessados em render culto, santificar ex-votos, outros para pedir e agradecer, e outros ainda para satisfazer a curiosidade e comer alguma boa pamonha.


A réplica da imagem da santa, que, à moda do santuário nacional, possui uma passagem por detrás do altar, também estava preparada para receber seus visitantes. No momento em que passei por esse lugar, imperava uma certa modorra, dado o imenso calor e o período pós-prandial (hora da siesta, em espanhol rudimentar, com acento aberto no “e”), mas o segundo turno de visitações estava previsto para a fresca do fim de tarde/começo da noite.


A marca principal de Brazópolis, no entanto, está no campo das Ciências, em especial da Astronomia. Aqui fica sediado o Observatório do Pico dos Dias, onde estão instalados os maiores telescópios do território tupiniquim. O precitado pico fica localizado a quase 1900 metros de altitude, e é gerido pelo LNA – Laboratório Nacional de Astrofísica. Para chegar lá, percorre-se uma estrada de terra com 12 km de extensão, que inicia no portal abaixo, no bairro de Bonsucesso.


O caminho para o observatório, por si só, já vale a caminhada. Lá está, por exemplo, a Falésia dos Olhos, um paredão que é ponto de escalada. Para os menos ousados, dá para chegar ao sopé da pedra através de trilhas pela área rural à sua frente ou pela vertente superior.


O lugar também é chamado de Pedra da Cruz por conta do cruzeiro que guarnece o paredão.


Minha intenção era brasileiríssima. Eu sabia que a subida ao Pico dos Dias somente pode ser feita em dias de tempo firme e com agendamento prévio, mas a expectativa de tirar umas boas fotos era tentadora. Achava que, se utilizasse as palavras corretas e me propusesse a vencer os últimos cinco quilômetros a pé, talvez me deixassem chegar até o ponto mais alto, mesmo que nem me aproximasse dos prédios de pesquisa. O problema é que não havia viv’alma para que eu gastasse meu português, e tentar entrar pelo meio do mato era, no meu entender, transgressão demais. Paciência, fica para a próxima.


Só a vista daquela altitude toda, no final das contas, já valeu o ingresso. Daqui, é possível ter uma ideia da extensão do vale que fica aos pés do observatório, e da grande quantidade de bananeiras que o pessoal planta no local.


O que é possível fazer é mirar os laboratórios à distância, com os típicos formatos arredondados de suas cúpulas. Todo mês de setembro, aproveitando o estio, o LNA promove um festival durante uma semana para visitação monitorada, além de alguns dias em que a presença noturna de visitantes é admitida, mediante inscrição e sorteio. Já está na minha agenda.


Quando nos deparamos com tamanha parafernália, é quase inevitável que pensemos naqueles estereótipos dos malucos de jaleco, que parecem viver absortos em seus pensamentos e que não tem outra diversão a não ser procurar minúsculas agulhas nos palheiros celestes. Esse tipo de desconhecimento ajuda a sedimentar a dificuldade que as pessoas têm em compreender o que efetivamente é a Ciência. Já tratei muito do tema por aqui, inclusive combatendo uma certa prepotência que os cientistas têm em se considerar mais possuidores de conhecimento do que outros meios de saber, mas o fato é que, por muitas vezes, essa antipatia nasce justamente a partir do senso comum ou de uma certa “impiedade”. A Ciência lida com problemas muito sérios, coisas que versam sobre vida e morte, e decretar que fosfoetanolamina e pinga-com-banana tem o mesmo efeito sobre as células cancerosas faz com que tentemos, muitas vezes, nos enganar para manter esperanças.

É pena não ter podido subir aos telescópios. Eu já estava escrevendo este texto na cabeça exatamente no momento em que apertava em vão o botão do interfone. Eu sou da área de Filosofia, mas sempre temos em nós um misto de curiosidade e sede de conhecimento que forma uma espécie de espírito científico, que, aliás, é a mola propulsora de metodologias, inclusive. Ainda que pareçam coisas herméticas, restritas a ambientes como este.

O fato é que os métodos científicos sempre foram objetos de difícil consenso. Vou apresentar hoje as teorias do filósofo e literato francês Gaston Bachelard, que discutiu justamente o problema do senso comum diante do conhecimento científico. Mas é preciso puxar o fio da meada. Acompanhem, porque é interessante.

Até o fim da Idade Média, o saber científico estava situado em um patamar inferior aos ditames metafísicos da Religião. Afinal de contas, muita coisa de difícil explicação caía na caixinha fácil dos misteriosos desígnios divinos. A partir de René Descartes e Francis Bacon, no entanto, novas correntes de pensamento mudaram o estatuto da visão que temos sobre a realidade. O primeiro lança a ideia da dúvida metódica, em que nada pode ser assumido como verdadeiro se não passar pelo crivo da evidência, em um processo dirigido pelo próprio raciocínio humano. Já o segundo forma as bases do experimentalismo, de modo a se estabelecer a necessidade de um método que abarque e cerque todas as possibilidades necessárias de serem testadas em um determinado fenômeno. Descartes cria o que chamamos de racionalismo, e Bacon, por sua vez, o empirismo. A partir daí, surge uma longa discussão sobre o primado epistemológico de ambos. Será a razão a principal fonte de conhecimento, ou essa tarefa deve ser atribuída à experiência?

Quem resolve o enigma é Immanuel Kant. Tanto intelecto quanto observação tem seu valor no processo gnosiológico. Do primeiro, temos as estruturas mentais que permitem a absorção do conhecimento; do segundo, obtemos os objetos que formam seu conteúdo. É impossível um viver sem o outro. Desta forma, as filosofias seguintes já tinham uma base bem fixada para desenvolver outros temas. Uma delas, dado o desenvolvimento humano que levou as técnicas e as ciências ao ápice, dava ênfase total ao processo científico como conhecimento válido, de modo que áreas nunca dantes abarcadas pela teia científica passassem a ser incluídas no seu bojo, como o estudo das sociedades e da moral. Era o Positivismo, predominante no século XIX, que, se por um lado tinha a vantagem de seu otimismo com relação aos avanços, por outro reforçou a ênfase no método empírico, o que diminuiu o valor da razão para as Ciências.

O processo empírico das observações tinha como pano de fundo a indução. Tantas vezes um fenômeno ocorre da mesma forma, que supomos que sempre ele se repetirá. Como corolário, a Filosofia da Ciência que brotou do Positivismo adota um princípio de verificação que exclui qualquer valor de verdade de saberes não palpáveis. A coisa funcionava mais ou menos bem até surgirem teorias científicas de altíssima complexidade e abstração. É aí que entra Bachelard.

Nosso caro francês pensava que, estando as coisas dessa maneira, a Teoria da Relatividade de Einstein ou a Física Quântica de Max Planck seriam uma mera filosofia da physis, algo muito semelhante como as elucubrações sobre a arché dos velhos pré-socráticos. Estes cientistas foram criadores de modelos que fugiam da experimentação direta, com altíssimo índice de abstração, e que quebravam fortemente paradigmas anteriormente bastante sólidos. Para se ter um exemplo, as teses einsteinianas modificavam substancialmente as consagradas leis de gravidade de Newton, sem, no entanto, invalidá-las quando pensamos em termos empíricos. De fato, as leis de Newton conseguem corroboração experimental de maneira muito mais simples e intuitiva, mas não conseguem atingir grandes limites, como acontece quando a velocidade da luz é implicada em um cálculo. A física de Einstein resolve estes problemas de forma teórica, sem existirem recursos para desenvolver experimentos com as tecnologias disponíveis. Podemos perceber hoje em dia que suas descobertas vêm sendo progressivamente comprovadas, como é o caso recente das ondas gravitacionais, mas, de fato, para um modelo científico que exija a verificação, não há como considerá-las como tal.

Bachelard combate a vertente positivista e estabelece que a Filosofia da Ciência precisa atuar com um condão histórico, de modo a se atualizar da mesma forma que as próprias Ciências. São inúmeras as vezes que novas descobertas rompem com todo o conhecimento estabelecido até o momento em que ocorrem. Em seu pensamento, a verdade nada mais é do que a retificação de um erro anterior, que, por sua vez, também se tornará um erro que deverá ser corrigido por uma nova verdade, e assim sucessivamente, ad aeternum. A verdade é histórica, assim como a Ciência deve ser e a Filosofia da Ciência também. Isso inclui sua metodologia.

Antecipando-se a Thomas Kuhn, que vislumbrou uma metodologia da crise nas Ciências, Bachelard entende que a Epistemologia deve caminhar dentre rupturas. Sua resistência maior, chamada por ele de obstáculos epistemológicos, vem de uma espécie de continuidade entre o conhecimento científico e o senso comum: queremos que a Ciência nos forneça explicações de maneira tão palpável quanto nossa avó explica a receita de bolinho de chuva (está chovendo hoje). Quais são, portanto, esses obstáculos epistemológicos ao espírito científico?

O primeiro é a própria realidade. Como captamos intuitivamente o universo ao nosso redor, temos tremenda dificuldade em compreender uma explicação que fuja ao alcance dos nossos sentidos. Pensemos nas teorias sobre os átomos, por exemplo. Enquanto acompanhamos a realidade, a explicação de que qualquer material é divisível até o ponto em que isso não seja mais possível é bastante intuitiva. Afinal de contas, o processo de divisão pode chegar a um ponto em que não seja mais perceptível, mas basta dar continuidade na mesma lógica para que tal processo avance mentalmente: um átomo é uma minipartícula absolutamente sólida. Essa é a sensação que nos dá a realidade. Mas a ideia de que o átomo não é sólido, mas formado de subpartículas, algumas concentradas em um núcleo, outras circulando ao seu redor, com a imensa maioria de seu espaço ocupado por vácuo, que possuem diferentes órbitas e níveis, e que mesmo o que poderia ser considerado matéria em seu interior é, hipoteticamente, uma forma de energia, foge completamente à realidade circunstante.

O segundo é o senso comum, traduzido pela noção de que este é uma forma de conhecimento em continuidade com a Ciência, tendo apenas uma diferença de profundidade. Bachelard insiste que não há nenhum tipo de encadeamento entre senso comum e conhecimento científico. O senso comum existe para que vivamos nossa vida, encaremos nossa realidade; a Ciência guiada por ele é imbuída de um monte de penduricalhos que somente lhe atrapalham. Obviamente, esta ideia está relacionada à primeira, de que a realidade nos é dada para ser interpretada. Mas nossas opiniões e preconceitos se imiscuem silenciosamente por todos os aspectos de nossas vidas, de modo até mesmo a turvar nossas pesquisas mais rígidas metodologicamente. O mero empirismo, apesar de jamais poder ser descartado como ferramenta de pesquisa, induz-nos a nos convencer bovinamente e consolidar nosso senso comum, constituindo-se em bela armadilha epistemológica.

A regra de ouro bachelardiana é que o racional deve ter primazia sobre o real. Isso significa que Bachelard é um novo racionalista? Não. Seu objetivo é fixar que o cientista não é um mero receptáculo para dados empíricos, mas um sujeito na relação do conhecimento. A Ciência nunca é definitiva, necessita de constantes correções e é preciso ter consciência de que qualquer nova hipótese é uma tentativa de aproximação, mas que depende da abstração do pesquisador, para que não se crave no imobilismo.

É tentando dar alimento a esse espírito científico que eu subi as montanhas de Brazópolis e lá observei observatórios, não tão perto quanto gostaria, mas não tão longe que se fizesse cessar minha inspiração. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Bachelard não é exatamente um filósofo fácil, mas sua verve contestadora encanta. Vou recomendar seu livro que trata mais diretamente da questão aqui abordada.

BACHELARD, Gaston. O Novo Espírito Científico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000.