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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – como a existência precede a essência no ser humano

(Ser livre pode não ser tão encantador quanto parece)

“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”.

Sartre

Olá!

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Meus poderes proféticos costumam ter o mesmo valor de uma receita de bêbado. Mas tem vezes que eu acerto algum palpite. Menos na loteria, onde seria de fato útil, mais na antevisão da vida. Digo isso porque previ, embora minha casa fosse sempre povoada de gente, que a debandada seria geral em algum momento, e não deu outra (vejam este texto). Hoje em dia, eu e a patroa, se quisermos, vivemos em perfeito isolamento, sem as interações incessantes que havia antigamente. Nada de chororô, no entanto.

Claro que não falo dos filhos, e acontece que, mesmo no atual estado, ocorre de vez em quando uma invasão no meu apê. Para estas horas, é cabível que eu sirva café. Afinal de contas, eu mesmo me autodeclaro um amante deste consumo, e não faria sentido não oferecer o mesmo para as pessoas que insistem em me ser caras. Só que, paradoxalmente, os métodos que eu tenho são todos para extrair três ou quatro xícaras por vez, no máximo. Isso dá um déficit meio sem graça, porque é preciso dividir o pessoal em turmas.

Para resolver o problema, a solução não é tão complicada: um método que permita extrações maiores, ora pois. Como estava bem barata, comprei uma cafeteira de dois compartimentos, que é apelidada de “econômica”.


Seu funcionamento é um misto de cafeteira italiana link e de cafeteira de sifão, sendo que seu processo é o de ferver a água no recipiente de baixo para que ela suba para o recipiente de cima, em um processo de sucção ocorrido por diferença de pressão, onde estará inserido o pó moído em ponto médio.

Uma vez tendo subido a água, basta que se desligue o fogo, para que o processo de filtragem inicie, sendo levado a cabo por uma tela metálica soldada no meio do trajeto.





Nome do utensílio: Cafeteira econômica

Tipo de técnica: percolação com subida a vácuo

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/grossa

Dinâmica: A água é colocada para ferver no recipiente de baixo, enquanto o pó fica alocado no recipiente de cima, que receberá a água fervente por um processo de sucção. Após a cessação do processo de aquecimento, o café será percolado pela mesma via por onde a água ascendeu, com a filtragem ocorrendo por elemento metálico.  

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Alta

Nível de ritual: Médio


Eu fico observando aquele engenho simples e me deslumbro com a criatividade humana. Não é o método mais complexo que eu já vi, mas uma solução elementar obtida a partir de pequenas observações dos fenômenos físicos, que incluem a dinâmica da temperatura, da expansão dos corpos, da vedação e diferença de pressão e, no final das contas, da própria gravidade. E isso tudo para cumprir um propósito: obter café. As medidas são precisas. A base precisa de uma dimensão X para completar Y litros, e a vedação necessita de uma borracha específica, para suportar determinada temperatura. A gramatura do elemento filtrante tem que ter espaçamento justo para reter a borra sem impedir o fluxo, e così via.

Desde o momento em que o fabricante comprou a chapa de alumínio para forjar o corpo, as gaxetas de vedação, a baquelite do cabo, tudo já tinha um propósito, um destino, uma finalidade. A cafeteira nasceu para ser uma cafeteira. Filosoficamente, ela tem uma teleologia: um sentido existencial, um servir para algo. Evidentemente, se algo nasceu para um propósito, houve alguém que lhe desse esse sentido.

Mas e o homem? Para que serve um homem? Qual a finalidade de um homem, se ele não tem um artífice, como tem a cafeteira?

A primeira coisa que precisamos balizar diz respeito ao tal artífice. Em termos aristotélicos, ele não é a finalidade em si, mas a sua causa eficiente, a mente pela qual se engendrou um objeto, e a resposta mais óbvia e consagrada seria Deus. Só que essa é uma afirmação cheia de dificuldades.

A primeira de todas seria: qual deus? Dentre todos os panteões possíveis, podemos encontrar aqueles em que a criação é um mero fenômeno quase fisiológico, como se os deuses fizessem homens sem justificativas e os deixassem à própria sorte, como pensavam os estoicos. Nesse caso, não há de se falar em finalidade, já que ela necessita de alguma forma de intenção. Por outro lado, qualquer explicação para a intenção de um artífice, como o deus abraâmico, esbarra nos “para quês” subsequentes. Se Deus criou os homens para louvá-lo, parece a nós uma falta de autossuficiência. Se os criou para povoar o mundo, a pergunta retrocede - para que o mundo? Idem quando se diz que o objetivo era uma criatura que lhe administrasse as outras criaturas - para que as criaturas? E ainda que admitamos a interferência de uma divindade, de qual delas? Qual dos inúmeros mitos de criação seria o verdadeiro, se não temos nenhum tipo de condição de os trazermos novamente à atualidade? Sendo assim, vamos patinar e patinar, sem nenhum tipo de resposta satisfatória. 

Precisamos partir de uma premissa fundamental, portanto: somos fenômenos naturais, que não tem uma causa eficiente que passe dos nossos ascendentes e que delineie nosso destino, haja vista que uma finalidade pressupõe ações em uma direção específica. É possível que pensemos que o propósito reprodutivo é para os nossos pais, mas não para nós mesmos. Um dia eles irão, e, seguindo uma lógica natural, antes de nós (os meus já foram), daí que o propósito precisa estar em nós mesmos. E eis o problema que o existencialismo se propôs a enfrentar.

Se é verdade que não temos uma causa eficiente, também é possível inferir que não temos uma finalidade específica, como é o caso da tesoura usada por Sartre ou da cafeteira usada por mim. Uma cafeteira é uma cafeteira desde o momento em que esteve na mente do engenheiro que a projetou. É perfeitamente possível que ela deixe de ser uma cafeteira e vire um vaso, mas, neste caso, temos o mesmíssimo processo de engenho que cria um uso: há um propósito em lhe colocar terra e planta e, neste momento, há uma teleologia diversificada - um trânsito entre propósitos. Idem com uma tesoura usada como arma branca. Ainda que por insignificantes segundos, alguém vislumbrou um novo propósito para o utensílio, fazendo-o passar pelo crivo do engenho. Sendo assim, podemos inferir que tudo isso já tinha uma essência que, a partir do momento em que ganha concretude, passa a complementá-la, tendo agora uma existência. É perfeitamente possível que essa essência nunca se concretize e, nesses termos, a precedência dela sobre a existência ganha lógica.

Com o ser humano, não podemos dizer a mesma coisa. Uma pessoa nasce sem uma causa específica, e somente pela aquisição de sua subjetividade vai se tornar aquilo que ele é. Nada há a priori na constituição de um ser humano. Nele, a lógica se inverte e a existência precede a essência. Um ser humano se constrói a partir do seu mundo e dos propósitos que visa seguir. Os antigos metafísicos procuravam um tal de natureza humana, algo que preexistisse ao homem, exatamente aquilo que a concepção existencialista nega até a raiz da medula.

Pense no seguinte: por que consideramos qualquer escritor importante? Porque ele escreveu, vendeu seus livros, auferiu seus ganhos, obteve consagração. Isso somente é possível quando vinculado ao ato de escrever, à realidade do escritor, à existência do ato de escrever. Na essência, o escritor simplesmente não existe. É possível falar de conceitos que caracterizam um escritor, mas não o há sem a escrita concreta, existente. Essa lógica se aplica a qualquer atividade humana: professores, operários, jogadores de futebol, médicos. Eles não são nada disso na essência se não estão na concretude da existência. Cada um, a partir da própria subjetividade, realiza e concretiza, o que só é possível estando no mundo. É na vida que se molda o ser.

O sentido mais extenso dessa subjetividade está na projeção de um ser humano para toda a humanidade. Ao se fazer tal como é, uma pessoa não constrói apenas mais uma vida dentre outras, mas a sua própria visão de como a humanidade deve ser. É uma escolha que passa da individualidade, porque dizemos: isso que eu escolhi ser é aquilo que, dadas as condições em que estou, é o que há de melhor para a humanidade toda, e, nesse sentido, a formação da subjetividade é essencialmente ética. Por exemplo, quando eu opto por casar com uma pessoa do mesmo sexo, eu estou assumindo que essa é uma das possibilidades para toda a humanidade, e não somente para mim mesmo. É um belíssimo ponto de contato com o imperativo categórico kantiano. Leiam aqui para entender melhor.

Percebem o tamanho da responsabilidade que isso traz? Não só você é o artífice de si mesmo, como também é um legislador universal. E isso tudo se dá por um único motivo. O ser humano, ao contrário de qualquer ser cuja essência preceda a sua existência, é capaz de escolhas. Sua essência, ou seja, seus elementos constitutivos e característicos só vão se dar depois de sua livre construção. Não há como adquirir sua essência se ele não tem existência. Não adianta eu achar que meu filho será médico se ele não fizer a sua escolha; ao menos, de me obedecer.

Daí que temos o tão clássico desamparo dos existencialistas. Sem uma divindade a que possamos nos agarrar, sem uma moral preestabelecida para guiar nossos passos, sem uma metafísica que nos desenhe, mas possuidores da capacidade de escolha, somos plenos de liberdade. Não uma liberdade absoluta, física, porque isso é impossível, mas uma liberdade de opção, de formar o próprio futuro. Ora (direis), existe algo mais incerto do que o futuro? Pois é… é exatamente esse o motivo de tanta geração de angústia. Sartre diz que até ao procurarmos um aconselhamento sobre o rumo a seguir já constitui uma escolha: se você colocar sua situação a um padre, por exemplo, já escolheu o tipo de conselho que quer ouvir. Mais ainda: aceitar ou não o conselho é opção de quem o ouve. Portanto, cada passo que damos constitui uma escolha livre, e somos incertos do que teremos pela frente. “Ah, mas posso transgredir uma lei”, dirás. É uma escolha. “Ah, mas posso cometer um pecado”. É outra escolha. Vivemos fazendo escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher.

E o que isso tem a ver com a angústia? Só tudo. Desde o momento em que nos vemos defronte a uma escolha qualquer, somos obrigados a adotar uma responsabilidade. Obrigados, eu disse, e isso já é doloroso em muitas das vezes. Não precisa ser em grandes questões: escolher entre a picanha e a alface pode fazer toda a diferença para o prazer e para a saúde, respectivamente - a velha questão da vida breve e intensa confrontada com a vida longa e simplificada. Tudo, absolutamente tudo é fruto de decisões, e a angústia nada mais é do que um grito contra o desconforto que isso nos gera, porque ele acontece sempre, sem possibilidade de ser diferente.

É bem verdade que o ambiente onde vivemos interfere em muito nas nossas decisões, mas elas não deixam de ser decisões por causa disso. Elas podem nos levar para qualquer lugar e, avistando o paradigma de validade universal, é uma assunção única de responsabilidade. E isso é a companheira inseparável da liberdade: somos condenados a ser livres.

Bem pesado e bem medido, parece uma filosofia tão pessimista quanto a de Schopenhauer. Essa sensação se radicaliza quando Sartre afirma que “o inferno são os outros”, algo que, na casca, parece uma ode à solidão. A verdade é que, embora a subjetividade seja a característica humana mais marcante, é a interação entre a minha e a do outro que limita o exercício concomitante das liberdades, e é essa a forma com a qual se dá a existência da vida e das sociedades. É claro que, de uma perspectiva otimista de afirmar a liberdade como valor mais fundamental, deriva-se para uma liberdade obrigatória, punitiva, com peso de condenação, o arremate só poderia ser frustrante: todos têm liberdade e este é meu maior impedimento. Mas essa é a vida, com um sentido que precisa ser doado por nós mesmos, por mais absurdo que isso possa parecer.

Um bom café coado no vácuo bolado pelo engenho humano e bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Rápido e bem explicado, sem os rodeios tão típicos dos franceses do século XX.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Vozes, 2014.



quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O café filosófico do quotidiano – a tatuagem fala mais para si ou para os outros?

(Fazer uma tatuagem é parte da moda, não há dúvida. Mas é só isso? Quando bem pensada, a quem ela fala?)

“Não se tornam as vidas humanas mais legíveis quando são interpretadas em função das histórias que as pessoas contam a seu respeito?”

Ricoeur

Olá!

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Experimentar significa caminhar de um extremo para o outro. Muitas vezes insistimos em um ponto que visivelmente não funciona, e mal percebemos que é no outro canto que está a resposta. Plantas apodrecidas pedem que se coloque menos água. Pressão alta demanda menos sal, e vamos caminhando da salmoura para o insosso, com todas as escalas no meio da via. Sendo assim, nossos passos são dialéticos, não porque todas as vezes que eu tenha um fracasso eu precise ir para o lado de lá mais extremo possível, mas eu aponto meu nariz para ele. Se sou gastão, preciso ser econômico; se sou guloso, procuro pela temperança e, se sou doido, procuro pela sanidade, seja lá o que isso for. É isso o que quero dizer.

Isso é aplicável a café? Sim, sem dúvidas. Toda experimentação é válida na busca do café perfeito, que sabemos ser impossível, mas, tal qual deve fazer qualquer ciência, não se deve desistir de tentar a perfeição. Se eu uso temperaturas baixas, dou uma guinada para sua elevação e vou modificar essa variável. Se o líquido está fraco, apertamos a moagem. Se há pouco corpo, vamos partir para mais contato, através de uma infusão. São tantos e tantos fatores que justificam esse pequeno universo como modelo de pesquisa científica. Os detalhes, por vezes, fazem a diferença.

Um deles está na aderência do papel ao porta-filtro. Há escolas que preferem o contato mínimo entre ambos, para melhorar a circulação de ar no sistema e, consequentemente, acelerar o fluxo, enquanto há outras que preferem o contrário: aproximar ambos para tornar mais regulares as superfícies de contato, com o mesmo objetivo. Quem trabalha com os dois lados é a japonesa Hario, que tem no V60 sua joia da coroa, e que trabalha com a primeira perspectiva. Para a segunda, há o irmão menos famoso, que compartilha muitas de suas características, mas oferece uma opção na questão do contato – o Mugen.

Enquanto o V60 tem ranhuras que isolam filtro e porta-filtro, o Mugen procura canalizar o escoamento para as poucas ranhuras em forma de estrela de seu interior. A promessa é que essa arquitetura permite que a água seja passada em um ataque único, sem necessidade de blooming ou de parcelamento de despejos.

O objetivo é exatamente diminuir o fluxo de água e combinar características de métodos percolados e infundidos, produzindo bebida com mais corpo, sem, no entanto, extrair mais amargor.

O suporte excêntrico e a cor cinza escuro dão uma elegância ímpar ao método, mas sua característica mais inconfundível é o conjunto de ranhuras interno, que coleta a água dos diferentes pontos e a centraliza para o escoamento.



Nome do utensílio: Porta-filtro Mugen

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: Insere-se um filtro no porta-filtro e despeja-se água antes de se colocar o pó, para uma boa adesão do mesmo às paredes do filtro. Fazer o ataque todo de uma só vez, para que o efeito desejado seja produzido.

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

Olho para aquele formato de estrela bonito e lembro de uma tatuagem muito comum, que eu gostaria de ter feito, quem sabe ainda? Eu queria tatuar uma rosa dos ventos, espécie de símbolo consensual dos viajantes, mas, embora eu tenha feito várias séries de textos versando sobre meus rolês, o fato é que eu não posso afirmar que minha vida se pauta nas idas e vindas para lugares variados, por um motivo muito simples: falta de recursos. Conheço um monte de gente que faz maluquices financeiras para ir à Europa, Caribe, Estados Unidos, Japão. Eu, por exemplo, nunca saí do país, e não tenho grandes sainhas disso, já que há muuuuuuuito o que ver em Pindorama. Mas, mesmo aqui, não sou o que se pode chamar de viajante contumaz. Por isso, não percebo muito sentido em eternizar uma imagem no corpo que, apesar de esteticamente bela, não diz muito sobre mim para mim mesmo. Meu baixo e minha bateria sim, evocam meu passado e nelas vislumbro meu futuro, então olho para elas e percebo que tem significado para mim.

Poucas coisas mais poderiam caber na minha pele no sentido de ter sentido. Alguma coisa sobre café seria óbvio, como fez a patroa, com seu ramo no antebraço e xícara no braço:

Mas ainda não cheguei a concluir o que eu poderia colocar. Um dos meus métodos favoritos estilizado é uma hipótese, como uma Chemex ou Clever. As ligações iônicas da cafeína são muito manjadas. Talvez sua fórmula química, não sei. Outra hipótese estaria ligada ao trabalho, mas eu o detesto, então deixa para lá. Filosofia? Pode ser, ainda não pensei a fundo. Corujas são muito batidas, então precisaria pensar em alguma coisa, talvez a página de fundo deste blog… acho que ficaria bom. Então, por enquanto, vou ficando com meus artigos musicais, minhas pautas, meus trechinhos de canções.

Nossa, esse papo já está parecendo de maluco. Vou centrar as ideias em uma única pergunta: por que as pessoas se tatuam?

Não é um único fator. Quando você olha as poucas estatísticas disponíveis, e levando em conta que se trata de pouco confiáveis levantamentos de internet, percebe-se que os brasileiros são um dos povos mais tatuados do mundo. Algo em torno de 35% das pessoas possui ao menos uma tatuagem gravada no corpo, e isso é um negócio realmente empírico, bastando sair na rua para constatar. A coisa muda radicalmente de acordo com a idade. Excetuando-se os menores de idade, quanto mais baixa a faixa etária, maior é essa proporção, invertendo-se a lógica quando os cabelos rareiam e a barba embranquece. Na minha faixa, provavelmente algo em torno de 10% é o número mais imaginável. Ou menos.

Mas as regras não são tão estritas. Minhas irmãs, por exemplo, têm apenas um ano de diferença entre elas, mas a mais nova tem umas vinte espalhadas pelo corpo, enquanto a mais velha tem uma só. Por isso, tentar delinear regras não é simples, então pensar nos supostos 77 milhões de brasileiros rabiscados é um exercício mais fácil do que ficar delineando séries e classes. De qualquer forma, é um mar de gente, há de se convir. E não há como deixar de se discorrer sobre o óbvio: é moda. Resta saber se é modinha.

Uma maneira de entender isso é olhando as próprias tatuagens. Certos desenhos se repetem em determinadas épocas, como os atuais leões realistas e as mandalas. Houve o momento das estilizações, dos motivos tribais, das explosões de cores, dos motivos afro. Essa variedade demonstra que talvez as tatuagens tenham vindo para ficar, como um adorno de pele semelhante aos brincos, usados há séculos por mulheres e há décadas por homens modernos. Como temos ao menos trinta anos de crescimento das tatuagens, parece que vieram para ficar, com as devidas flutuações. Por isso, é moda, no seu sentido mais permanente de ter sido absorvida pelos costumes. Modinha são os desenhos do momento, já sendo modificados, para o desespero de quem entrou na onda.

Como é impossível prever o futuro, desloco o foco para uma questão mais filosófica. O que queremos dizer com uma tatuagem? A quem queremos dizer? A nós ou aos outros?

Talvez seja uma questão de identidade. Sem cair no âmbito da insatisfação consigo mesmo, há uma casca exterior que nos é característica e há uma quota de formatações internas que podem ser facilmente detectáveis, e outras são mais difíceis de externar, são autenticamente interiores. Por exemplo, sabemos de imediato que uma pessoa é negra, alta, peso em dia, olhos grandes só de ter um contato visual. Para saber seu jeitão de ser, precisamos de algumas horas de conversa, e aí teremos seus graus de eloquência, timidez, vaidade e così via. Já para puxar algo que lhe seja verdadeiramente íntimo, talvez jamais saibamos. Ocorre que, por vezes, há uma necessidade interior de se por isso para fora, mas que não se encontra bom meio para tanto. Há maneiras de fazer isso: escrever um poema, cantar uma música, fazer uma tatuagem - eternizações e exteriorizações de interioridades.

O ato da tatuagem inclui uma dose de sofrimento. É caro, é doloroso e é permanente, a não ser que se queira enfrentar reversões igualmente caras e dolorosas. Então temos certa porção sacrificial, o que dá uma ideia de rito de passagem. Isso acaba me lembrando aquele momento da juventude em que começamos a fumar, uma mostra (tola) de que estamos nos descolando de nossos pais e tomando decisões próprias, o que caracteriza a formação de uma nova identidade. Ter uma tatuagem externa isso, demonstra algo de nosso caráter, primeiro pela coragem de fazê-la, depois por expor um símbolo. Modinhas saem um pouco desse contexto, mas uma imagem bem pensada conta um pouco de nós aos outros e, quem sabe, a nós mesmos.

Só que o que nos identifica não é único. Existe uma camada mais externa e evidente, que está ligada a nossas aparências e características permanentes, aquilo que sempre temos, independentemente do tempo. Alguns fatos meus nunca vão mudar, como eu ser brasileiro, ser da espécie humana, e, portanto, ser bípede implume das unhas chatas, dentre outras coisas que nunca mudam com o decorrer do tempo. É o que chamamos de mesmidade, ou a identidade que resiste ao tempo.

Mas não somos sempre os mesmos. Crescemos, envelhecemos, caminhamos para a morte, e, nisto, muito muda. Aquele velhinho que está subindo duramente a ladeira com sua bengala já foi um gurizinho que perturbava seus pais mesmo de madrugada. O que faz com que ambos sejam o mesmo ser?

Mais ainda: mesmo que todas as histórias dos seres humanos sejam, na média, mais ou menos semelhantes, cada um de nós é único. Cada um de nós deixa um legado de sua própria história. O que é isso que nos deixa iguais a nós mesmos dentre o mundo todo e no decorrer do tempo?

Vejam bem. Quando queremos falar a palavra “mesmo” em latim, podemos usar duas formas. A mais comum é “idem”, de onde retiramos uma palavra muito significativa do que estamos expondo aqui: identidade, a qualidade de ser igual a si mesmo, a se tornar único. Mas, como acontece em tantas outras línguas, também no latim temos um sinônimo: ipse. Ela está em termos como ipsis litteris ou ipsis verbis, respectivamente para representar literalidade escrita ou falada. Mas a sinonímia entre idem e ipse não é absoluta, como acontece com mandioca e aipim. Enquanto o idem é aquilo que é igual ao longo do tempo, o ipse representa aquilo que é igual em nós APESAR do tempo. Sabemos que não seremos sempre iguais no físico, nem no psicológico, mas teremos sempre algo que nos diferenciará no mundo, algo só nosso. A ipseidade nos particulariza e nos mantém iguais a nós mesmos.

Segundo um dos seus maiores defensores, Paul Ricoeur, a ipseidade se sintetiza nas narrativas. Um exemplo que eu posso dar está em um jornal. A mesmidade estaria na notícia – imaginando ser possível que a mesma seja desenviezada. O relato seria um fato contado como ele foi: onde, quando, como, porque e para que. Já a ipseidade seria a análise do fato, que já vem banhada pelo conhecimento e opinião de quem a profere. Notem que uma vem como uma marca indelével clara, um fato descrito, quase um axioma sobre um determinado fenômeno. Já o segundo vem carregado de cultura e subjetividade, mas que também é uma marca pessoal, uma visão de mundo que fica estampada na história daquele indivíduo. A ipseidade é, em boa parte, isso: as narrativas surgem da história de cada contribuinte, dos aspectos que lhe construíram e que não se apagam mais, ainda que mudem com o decorrer do tempo. Ambas, identidade e ipseidade perduram no tempo, uma no aspecto tangível, outra no aspecto narrativo. De fato, não somos somente nossos corpos, mas também nossas histórias. E, com isso, temos que admitir que somos tripartites, sendo formados por mesmidade, ipseidade e alteridade, sendo que a do meio está aí por ser meio que “ensanduichada” entre nossa realidade própria e pelo que os outros nos formatam. Em miúdos: já temos coisas que somos (idem) e somos moldados pelo que queremos colocar aos outros (alter), e isso constrói o que somos em si mesmos (ipse). Colocamos isso para fora na forma de narrativas, que não são somente falas, mas em tudo aquilo que nos expressa. Somos para os outros e para nós mesmos.

Percebam, em vista de tudo isso, como podemos imaginar que, ainda que inconscientemente, uma tatuagem pode ser interpretada como uma fusão de identidades. O que é permanente no caráter passa a ser também permanente no tempo, através da impressão de um simbolismo abstrato representativo de um conteúdo da consciência. Trazemos para a pele algo que faz parte de nossa identidade intangível, e a tornamos permanente. Por isso, eu sempre digo que uma tatuagem não precisa ser evitada, mas bem pensada. Aquele leãozinho da moda pode perder o sentido se você mudar sua perspectiva religiosa, e a não ser que você não tenha dificuldades em assumir sua própria história, pode acabar se tornando um estorvo. Nomes são um eterno perigo, rostos também, a não ser que haja muita resiliência com o tempo passado.

Pode ser que eu acabe colocando a rosa dos ventos na pele não somente para expressar uma realidade tangível, mas uma realidade do desejo, o que vai dar mais substância a ela do que um aspecto meramente estético. O mundo gira e vamos ver onde vai dar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não é leitura fácil, mas é interessante, especialmente pela abordagem a inúmeros aspetos psicológicos.

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1991.



segunda-feira, 29 de setembro de 2025

O café filosófico do quotidiano – fios que fazem café e livros que guardam vidas

(Livros são formas compactas da vida. Por isso, também são bons para não esquecermos de lições)

“Assim é, por exemplo, que, a partir das primeiras semanas, um sentimento tão individual quanto o da separação de um ente querido se tornou, subitamente, o de todo um povo e, juntamente com o medo, o principal sofrimento desse longo tempo de exílio”.

Camus 

Olá!

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Certas conveniências da vida moderna não estão nos grandes tamanhos, mas justamente no contrário. Um carrinho compacto evita problemas para estacionar, studios (as antigas kitchenettes) nasceram para acomodar pequenas famílias e baixos orçamentos, computadores foram ficando cada vez menores, até caberem na palma das mãos – um celular é muito mais poderoso do que os monstrões com os quais eu trabalhava na década de 80, com tela de fundo preto e drives para disquetes de 5” ¼, e que geravam filas e mais filas de esteiras de papel destacável em impressoras barulhentas. Aliás, imprimir hoje é coisa vetusta: gera-se um PDF e manda-se por zap. A natureza agradece um pouco.

Minorar tamanhos otimiza espaços, e isso é essencial no nosso mundo cada vez mais compactado. A cozinha da madrinha Tia Nena era o maior cômodo da casa, e lá cabia uma mesa do estilo taberna, onde todos os familiares se reuniam, em uma balbúrdia admirável, como já descrevi neste texto. Já no moderníssimo apartamento da prima Simone, que visitei na semana passada, este compartimento é quase simbólico, objeto de uma engenharia de condensação digna de aplausos, tamanha a criatividade para conseguir arranjar todas as benesses contemporâneas naqueles exíguos centímetros quadrados: fogão de indução, geladeira, micro-ondas e air fryer (tem copyright envolvido?) estão todos presentes, mesmo que em versões utilizáveis em casas de bonecas.

Se todos esses dispositivos grandes, que ocupam espaços consideráveis, vão ficando cada vez menores e flexíveis, os utensílios que já eram pequenos se tornam diminutos, a ponto de serem carregáveis no bolso. Como é o caso do porta-filtro espiral.

Ele não nasceu para ser bonito, não nasceu para encantar. Ele é um método que nasceu para ser compacto, para caber em qualquer cantinho e ser útil em uma viagem ou em momento no qual se precise montar um porta-filtro que abrigue um V60, mais comum em terras estrangeiras do que em Pindorama.


E funciona, mesmo que seja meio chatinho de chegar em um formato adequado. Não se espere que ele sustente o conjunto com elegância, mas com eficiência.

Ele é um fio de aço que tem esse formato de mola justamente para esticar e encolher, bastando travar sua ponta para que fique com a espessura de uma bolacha para deitar copos, e lá se vai ele para uma mochila, para uma maleta ou algibeira do paletó.

Nome do utensílio: Porta-filtro espiral portátil

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: Desdobra-se o porta-filtros pelo desenlace da ponta de aço inicial e alonga-se até obter a extensão necessária para acomodar um filtro V60. Os demais passos são iguais ao de uma percolação padrão. Após o uso, recolher novamente as espirais e travar a ponta de aço na primeira espira.

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

Reduzir tamanhos, portanto, melhora a adaptação à vida moderna, e pode ser extensível a coisas mais abstratas. Olho para minha estante de livros e imagino que tudo aquilo cabe em ínfimos arquivos dentro do mesmíssimo celular, o que me liberaria um bom espaço para meu sonhado painel de chaveiros, ou para colocar um quadro surrealista, sei lá. Mas paro para pensar que mesmo esses livros físicos são também compactadores. Resumem histórias de nações, biografias de uma vida inteira, filosofias e pensamentos que demorariam anos para serem ditos, resumem pandemias. Há pouco mais de cinco anos nós fomos trancados dentro de casa por um “bichinho” invisível, ainda mais perigoso do que um homem com um porrete na mão, que pelo menos vemos e de quem podemos correr. Há livros que falavam sobre isso, e que não estavam nos compêndios médicos, mas no romanceiro, em obras que misturam filosofia e poesia, a abstração a serviço da realidade.

Já falei sobre um deles lá no momento do isolamento, este texto, em que citei “O Amor nos Tempos do Cólera”, chupinhando até mesmo o título da obra de García Márquez. Lá, temos o desenrolar de uma trama que mescla amor e infecção, relacionamento tóxico, objetivos mal resolvidos, e, por fim, concluímos que o tempo não para mesmo quando não há movimentos. Mas há outra obra que é ainda mais próxima da realidade em que vivemos naqueles dias, mais filosófica ainda, de um autor único na fusão entre filosofia e literatura, que já visitei aqui e aqui: Albert Camus. E o livro é “A Peste”.

Camus é a cara mais editorial da vertente contemporânea do Existencialismo, que desloca a análise filosófica das essências para a existência. Quando queremos compreender a realidade e suas justificativas, sempre tentamos chegar ao âmago das coisas, para estabelecer o que há de comum a todas elas, ou seja, capturar a essência que explica tudo o que existe. Os existencialistas chegaram à conclusão de que não há explicações essenciais para a vida, e que é ela mesma, a existência, a sua própria essência. Procurar explicações para perguntas do tipo “por que sofremos?”, “somos livres ou condicionados?” ou “de quem é a responsabilidade por minhas escolhas?” passa pela assunção do sujeito humano como centro da especulação. Certas conclusões são angustiantes, principalmente pela perda de sentido fixo na existência, que, por outro prisma, ao menos é reconfortante: o homem é uma construção de si mesmo, e fazer da vida o que se quiser é, antes de mais nada, uma incumbência assustadora, especialmente quando se conclui o absurdo que é existir. O existencialismo não é só isso, mas gira em torno.

O argelino Camus é um dos principais nomes da corrente, em especial pelo seu modo sui generis de filosofar pela via da ficção. Sua mão é suave como a do cirurgião que cinde uma pústula, e que põe todo o conteúdo para fora sem chocar. O livro que abordo aqui coloca a cidade de Oran no centro dos acontecimentos de um surto de peste bubônica, doença transmitida pelas pulgas de ratos contaminadas pela bactéria Yersinia Pestis, e que tem esse nome por sua característica mais distinta: a formação de bubões, inchaço nos gânglios linfáticos próximos aos locais de entrada das bactérias. Acompanham febre, náuseas, febre e, muitas vezes, êxito letal, a tal de morte. É uma doença que assolou várias vezes a humanidade, especialmente na Peste Negra do século XIV, onde se pensa que pelo menos metade da Europa foi para a caixa-prego.

É evidente que as causas para a praga não foram as mesmas na Idade Média e na hipotética contemporaneidade. A do passado distante tinha caráter de castigo divino, uma censura extrema pela vida pecaminosa, enquanto a recente teria como base fatores de higiene pública. Mesmo estando mais distante da realidade, a primeira tem um sentido: a ira divina, a conduta mundana, uma perspectiva salvífica. Na segunda, a hipotética epidemia baseada na real cólera da cidade argelina, nada mais do que o mundo girando, o universo indiferente e sem motivações. O sermão do padre Paneloux traz de volta à mente das pessoas a culpa pelo pecado e, principalmente, uma razão pela qual a desgraça se abate, assim como faziam os pregadores apocalípticos dos tempos da peste negra. A culpa está em nós mesmos, é o que se pode traduzir da homilia escatológica do ameaçador sacerdote. A peste como benção, para reconduzir as ovelhas ao redil. Por mais que seja assustadora a suposição de que há um Deus iracundo que aplica um castigo às suas ovelhas, ainda isso dá sentido ao sofrimento. Eu peco e nem percebo, então, se eu sobrevivo, preciso rever minhas atitudes, redirecionar minha vida. Agora, se eu dependo do acaso que é a proliferação de bilhões de seres que não vejo, mas me matam, fica desfeito qualquer sentido que a existência possa ter. Sonhos e planos não são nada diante do micróbio. Até mesmo a cura não depende de nenhuma vontade, humana ou divina. Depende de estreptomicina. Se há escolha, ela é minha, não do Deus. A vida não só é absurda; é sem graça.

Deveria ser obrigatória a leitura deste livro. Não por um decreto governamental, que impõe deveres às pessoas, mas uma obrigação dada pela ética de nós mesmos. Todas as perguntas que nos fizemos durante a pandemia de COVID já estavam contidas nesse livro de 1947, setenta e três anos à época do início dos acontecimentos. Ainda que haja evidentes diferenças temporais e situacionais, já que o confinamento é da cidade, e não dos indivíduos, é inevitável que não nos identifiquemos com todos os acontecimentos fictícios ma non troppo narrados com perícia pelo escritor-filósofo. Estão lá os negócios que claudicam, as pessoas que se isolam, as restrições que ninguém gosta e aqueles que querem furá-la a qualquer custo. E está lá a morte, crescente e incontrolável.

A relutância na assunção da epidemia tem a ver com os nomes malditos. “Peste” tem o sentido de fúria divina contra os pecados que não sabemos bem como (e se) cometemos. É uma palavra que causa arrepios, porque está vinculada a grande sofrimento, como o câncer que os nossos avós apelidavam de “doença ruim” – a doença sofrida e a morte inevitável. Lembro da finada dona Madalena, que todas as vezes que a zeladoria relaxava com a limpeza, dizia que “a peste viria entre nós (sic)”. A palavra peste, então, remete a morte terrível, suja, que se espalha e que gera abandono. Mais do que isso, é uma marca na testa de toda uma região – que se a ganha, está carregando uma condenação. Senão à morte, ao menos ao isolamento. Por isso, é evitada até o momento em que é impossível chamá-la por um nome que não lhe signifique.

Eu lembro que na pandemia de COVID o primeiro decreto de recolhimento foi de uma quinzena. Quinze dias, quem me dera… Foram dois anos colecionando tédios e defuntos. No livro de Camus acontece o mesmo: as pessoas procuram nos jornais notícias sobre um recrudescimento da peste, mas só veem o aumento das desgraças. As mortes de uma semana passam a ser diárias, e a expectativa de fim rápido vai desvanecendo. O verão que chega só intensifica a tragédia, favorecendo a sua transmissão. Um misto de impaciência e distanciamento vai tornando as pessoas menos compreensivas com o caos que se instala. Entretanto, há uma diferença substancial entre a Oran de Camus e o Patropi surreal em que vivemos. Enquanto os sobreviventes da crônica, à medida que vão sendo transformados em um único coletivo que segue o mesmo destino, e, sem opção, vão se entregando à solidariedade, aqui enxergamos uma forte cisão: quem tinha uma atitude, já vinha com todas as outras do pacote ideológico: quem era contrário ao uso de máscaras já vinha com o comportamento antivacina, com os elogios à cloroquina, ao fim dos lockdowns, o exato oposto da turma do lado de lá. Seria de se imaginar, em um país com 700 mil mortes, que as pessoas procurassem se unir mais, mas nisso, fracassamos mais do que na ficção. E continuamos assim.

As semelhanças não são meras coincidências porque nos mostram que a excepcionalidade também está presente na história humana, e demonstra a fragilidade da nossa situação. Assim como um belo dia um porteiro encontrou alguns ratos mortos, alguém no interior da Ásia acordou meio gripado, e, com dificuldades de respirar, foi a um hospital para a desconfiada constatação dos médicos que aquela “gripezinha” era um tanto estranha. Às vezes as calamidades vêm em camadas – nem sempre o tsunami vem de uma só vez.

O livro não é profético, como pode parecer. É uma crônica simbólica dos totalitarismos que impõe prisões a populações inteiras, o que estava em pleno andamento nos tempos em que é narrado, a plena atmosfera da Segunda Guerra, mas eu o vejo hoje pelo seu aspecto mais direto. Ele nada mais é do que um relato de um fenômeno recorrente, que as evoluções científicas faziam crer estar mais distantes, mas que estão sempre à nossa espreita, porque ainda não compreendemos completamente os mecanismos de surgimento de novos seres, e esse é o problema que ele nos faz relembrar: nunca estamos livres de acordar com a notícia de uma doença estranha surgindo em algum lugar do mundo e se espalhando rapidamente, pronta para romper laços, transformar modos de vida, aprisionar pessoas. A peste de Oran já ocorreu tantas vezes, na forma de outras epidemias da própria peste, ou como a Aids dos anos 80, o Ebola dos 90 e a recente COVID que nos faz pensar se essa não é a pedra de Sísifo que nós mesmos precisamos empurrar morro acima. A peste termina sem acabar, e cada um recebe sua própria influência, alguns felizes pelo fim da desgraça (e esperando pela próxima) outros com as cicatrizes inapagáveis, porque, como está lá pelo final do livro…

“Para esses - mães, esposos, amantes que tinham perdido toda a alegria com o ser agora abandonado numa cova anônima ou fundido num monte de cinza – era ainda a peste”.

Camus havia colocado esse caminho como o absurdo da existência e o faz novamente aqui, para refletirmos menos no âmbito da filosofia e mais da nossa própria realidade. A vida toda cabe em um livro, assim como todo um rito do café cabe em uma molinha. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Tenho uma coleção antiquíssima conseguida em um bazar, que inclui esta e outras preciosidades. A patroa vive querendo dar um fim, mas eu resisto bravamente, porque não tem livro ruim. Mas é fácil de conseguir versões bem mais recentes.

CAMUS, Albert. A Peste. Col. Prêmios Nobel da Literatura. Rio de Janeiro: Delta, s.d.

terça-feira, 19 de março de 2024

Para lá da serra que eu vejo na janela – 7º episódio: Jaguary de Cima e a peregrinação que vale para fora da religião

(Vejo peregrinos e me pergunto se ainda é possível que exista sentido delas para mim) 

A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Camus

 

Olá!

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Depois de dois dias alocados no distrito do Vale do Bom Jardim, acabamos pegando amizade com a dona do chalé. Eu sou um cara que normalmente falo menos do que escrevo, que é o inverso da patroa. É com isso que nós conseguimos pegar muitas referências dos lugares que visitamos, e, para isso, nada melhor do que trocar ideias com os locais. Neste caso, a charla valeu uma visita para outro distrito do município de Camanducaia, onde poderíamos contemplar a natureza de um bairro ainda mais alto, e com bastante história e boa comida. É Jaguary de Cima, e vamos para lá.

O nome do bairro é devido ao rio que tem parte de suas nascentes lá no alto, e que vai serpenteando por entre as montanhas até desembocar no estado de São Paulo, não tão longe dali. Ele forma várias prainhas e tem muitos saltos no trajeto, bons para dar uma molhada nas costas.

Apesar das culturas rurais espalhadas pela região, as formações montanhosas fazem com que ainda haja um bom tanto de mata nativa, já que não é tão simples de praticar agricultura em desníveis tão expressivos. Isso faz com que ainda seja possível encontrar muitos recantos de mata densa e dá uma pequena ideia de como a Mantiqueira era recoberta originalmente.

O principal ponto turístico é a Fazenda Esperança, uma antiga herdade de meados do século XIX que ainda guarda muitas de suas características originais.

Para dar mais guarida ao seu aspecto histórico, a fazenda possui alguns equipamentos que demonstram como foi sua vida no decorrer dos tempos. Um deles é um museu, que mantém sua estrutura elevada de época e uma série de objetos e utensílios utilizados pelos moradores em tempos passados.

Muitos desses objetos são artigos corriqueiros, da vida de ofício e de afazeres domésticos, dando uma dimensão de deslocamento no tempo para um momento histórico onde os trabalhos eram realmente mais manuais.

Outros fazem remissão discreta ao contexto histórico que levou ao povoamento não só daquela região, mas de todo o estado de Minas Gerais: os tropeiros que partiam do litoral e que para lá levavam víveres e de lá traziam produtos agrícolas.

Do lado de fora, há uma parafernália que chamamos de trapizonga. Trata-se de um conjunto de monjolos que são acionados alternadamente por um conjunto de chavetas dispostas em um eixo que, por sua vez, é movimentado através de uma roda d'água. Da próxima vez que alguém chamar algo por esse nome, saiba que a sua origem não é sinônimo de coisa desconjuntada, mas de mecanismo complexo.

Também há plantações e pomares espalhados pela área, sendo que as figueiras estavam em plena produtividade. Muito do que se serve no restaurante – ótimo – é produzido na própria fazenda.

A estrada que leva ao distrito tem uma característica toda própria. Ela faz parte do Caminho da Divina Providência, uma rota de peregrinação criada por um grupo de jovens da paróquia de São José, da cidade de Limeira/SP, no meio da década de 80. Faz a linha a mais reta possível até a cidade de Aparecida, no Vale do Paraíba, destino final de diversas romarias.

Todo o caminho é marcado pelo propósito da peregrinação mencionada. Logo no começo da estradinha que leva a Jaguary, uma pequena capelinha já é ponto de parada para os devotos que se preparam para encarar aquele trecho de subida.

E é exatamente uma igreja dedicada à mesma santa que informa ao caminheiro que ele chegou ao povoado.

Estamos praticamente no meio do caminho que vai à terra da padroeira desta Pindorama. Daqui, são mais 127 quilômetros em meio a vales, matas e muita terra nos calçados.

Disponível em https://tvjaguari.com.br/caminho-da-divina-providencia-38096/

Eu cruzei com dois grupos de romeiros pelo caminho. Fiquei com vergonha de fotografá-los, como se fossem curiosidades de circo. Um deles era bem grande, com umas cinquenta pessoas e um guia. Já o outro era bem menor, mais motorizado e com bastante idosos, mas igualmente bem organizado. São caminhadas que levam dias, e demandam muitos pontos de parada e apoio, geralmente conseguidos com membros das comunidades religiosas que se distribuem pelo caminho.

As peregrinações são importantes nas religiões porque carregam uma boa dose de conteúdo sacrifical. A ideia é que ninguém faz nada, se faz fácil. Se eu sair de casa para peregrinar até a Catedral da Sé, peregrinarei por trezentos metros, o que é uma tapeação contra a divindade, ou seja, eu posso até ir à catedral, mas sem esse teor de sacrifício que é a longa caminhada. Elas fazem muito sentido quando se relembra das grandes caminhadas que eram necessárias no passado para ir de um lugar a outro, que atravessavam os campos (per agro, ou através dos campos, em grego) quando evidentemente não existiam aviões para se deslocar fisicamente, nem internet para fazê-lo virtualmente.

Houve momentos em que eu quis fazer alguma peregrinação desse tipo, principalmente a famosa rota de Santiago de Compostela, na Espanha. Mas aí tem a grana e eu me contentaria com Trindade, Bonfim ou Aparecida mesmo. Confesso que não se tratava exatamente de uma questão de fé, de alcance de graça ou de coisa parecida, mas porque o espírito de romaria me parecia muito atraente, aquela coisa de se percorrer uma estrada como se fosse uma metáfora para a vida. Hoje esse sentido não existe mais.

Para quem é religioso (de fato) é bem isso: o caminho representa a vida terrena. Cada pedra que se tropeça pode ser entendida como as dificuldades para a manutenção da fé, e o destino final, aqui uma igreja ou outro lugar santo, é a vida eterna, onde se retornará à divindade à escolha.

E para um ateu? A experiência vale?

Não no mesmo sentido, é óbvio. Seguindo a mesma alegoria, há uma divergência muito grande: não há nada no fim do caminho, a não ser a morte. Se partirmos da premissa de que não há transcendência, o fim é o fim. O que resta, então? O caminho.

O caminho representa uma mudança de foco no que normalmente seria a peregrinação. Pode-se até enxergar que o trajeto é como um tapete vermelho de igreja, que leva do pórtico ao altar, e isso realmente faz muito sentido no âmbito religioso, mas, novamente, o que temos aqui é um plano secundário. Agora imagine uma estrada que leva para um barranco. O que importa é só ela, e não o que está no fim. 

Por esse motivo, a caminhada da peregrinação dos sem-fé é mais importante do que a chegada. E isso é prova do absurdo que é a existência.

Qual das duas é melhor? Sem dúvida, a do religioso, admito. Eu às vezes me pego pensando: qual não seria a decepção daquele que acreditou a vida inteira e, chegando no fim, não vê nada? Mas se tudo acaba, acabou, inclusive a chance da decepção. Acreditando, pelo menos não se teve a angústia.

Quer dizer… isso quando a crença é legítima, né? Eu vejo choro e desespero sob qualquer condição. Pela lógica religiosa, uma morte deveria ser comemorada, e não lamentada. É a passagem para a vida eterna, onde poderemos rever os pais, parentes e amigos que se foram. Em outra lógica, é o caminho completo, uma etapa que obrigatoriamente deveria ser cumprida. Mas choramos nos enterros, lamentamos de saudades. Acho que isso demonstra que somos todos agnósticos. É aquela velha história: não há ateu em avião caindo, não há religioso enfartando. Não temos certeza nem disso.

Só que a escolha não é possível. Quando se crê, se crê; o resto é autoengano. Só atingimos algum nível de reconforto quando cremos de verdade em alguma coisa. Crer da boca para fora é, digamos, ilusão para quem o faz e jogo sujo com a teórica divindade. Por assim dizer, está fora da regra do jogo, como tentou Pascal em sua aposta.

O ser humano é um ser dividido entre o sim e o não permanentemente. Há uma grande dificuldade em se enxergar as diversas nuances possíveis entre dois pontos distintos, e isso se reflete até mesmo em nossa argumentação, forçando dicotomias onde há multiplicidade. Sendo assim, se não há vida após a morte, só resta o desespero. Mas, se houver, não temos a justa medida do que nos fará ser agraciados pela vida eterna ou banidos ao fogo eterno. Ou seja, a angústia persiste. E se nada há, o que nos dá sentido? Desde Aristóteles acredita-se que a causa final do ser humano é a felicidade, mas como esta pode ser conciliada com a perspectiva da morte, com a ideia de que todo o castelo de cartas se desmancha com o vento? Sendo assim, só resta concluir que a vida é absurda.

Não é que o mundo e a natureza sejam absurdos em si, mas é a nossa necessidade de sentido que os tornam assim. Pelo contrário, as coisas se movem de acordo com a lei que lhes rege, e isso é para absolutamente tudo, menos para ela, a humanidade.

Por esta razão, a vida tem um aspecto trágico incontrolável. Por mais que se busque sentido na existência, ele não existe por si só. Agarramo-nos aos deuses por mais óbvia que seja a sua inexistência, criamos mundos futuros por não nos conformarmos com nossa finitude. O Calígula de Camus pede que se lhe traga a lua. Ele não a quer porque é louco, mas porque quer algo que não pertença a este mundo. Ele quer a lua, ou a felicidade, ou a imortalidade, qualquer coisa que se possa chamar de absurda, qualquer coisa de fora do mundo, justamente para justificar sua existência.

O absurdo é o aspecto trágico permanente e incontrolável da existência. O mundo desmente sozinho a religião, porque as respostas que elas dão são ainda mais absurdas que o próprio universo que se move por si mesmo. Kierkegaard lembra do exemplo de Abraão. Não é a execução de seu filho o absurdo, já que é uma exigência de deus para provar sua fidelidade canina, mas o fato de Abraão ter aceitado a incumbência, algo contraintuitivo até no universo dos animais ditos irracionais. Ela é uma prova tão inequívoca do absurdo que até mesmo é enviado um anjo para impedi-lo*.

A solução é mais simples, porém mais dolorosa a quem se prende somente à perspectiva da morte. Heidegger já dizia que a humanidade nasce para a morte, e esse era, de certa forma, o auge da sua existência. Tudo o que vai para frente é inatingível, exista ou não. Dessa forma, sendo irresoluta, a vida é absurda porque a consideramos assim. Camus, no mito de Sísifo, propõe algo que se assemelha aos que os antigos céticos já propunham: nunca chegarei ao conhecimento de nada, mas isso não significa que ficarei parado. Transmudado para a existência, esse pensamento se desloca para a tarefa infindável de Sísifo, sua pedra que sempre rolará morro abaixo. No que é diferente nossa vida? Ela é vivida no trânsito da montanha, para cima e para baixo, e é na revolta contra o destino inexorável que vivemos. Não adianta que os deuses tenham castigado Sísifo pela eternidade: ele reverte a vingança caso tenha achado um norte em seu próprio destino. De lá, na subida da montanha, sempre teremos uma vista bonita, uma paisagem curiosa, um céu que se alonga ao infinito e que nos traz perguntas mais edificantes do que o mero peso que se carrega. Imaginar Sísifo feliz corresponde a nos convencer de que a vida pode valer a pena, mesmo que não tenha desfecho, porque o seu propósito é dado diariamente, no momento e no lugar em que estamos, seja lá qual ponto da caminhada for.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Como já mencionei o mito de Sísifo anteriormente, vou recomendar a peça Calígula, onde Camus também fala do absurdo da existência sob um ponto de vista desvinculado da religião. Curto e fascinante.

CAMUS, Albert. Calígula. In: Calígula seguido de O Equívoco. Porto: Livros do Brasil, 2002.

* Embora um deus onisciente deveria saber que seria obedecido, tornando dispensável todo o evento. Mas o absurdo se manifesta estruturalmente, e não só episodicamente.