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terça-feira, 26 de abril de 2022

As proximidades de Sócrates e Jesus vão além das coincidências

(Sócrates e Jesus têm muitas semelhanças em suas trajetórias. Mas há uma questão que particularmente me fascina)

Olá!

O brasileiro é um eclético por natureza. Dois são os motivos: a intensa mescla de imigrantes, que produziu um evidente caldeirão cultural, e a pobreza crônica, que faz com que nos viremos com o que temos, sem muita chance de seleção. Mas esses são temas que custam dissertações muito extensas, e não é sobre isso que eu quero escrever hoje. A questão é que minha filha mais nova mora de frente para um centro espírita, que andou bem quietinho pelos tempos de pandemia, mas que vem voltando à atividade normal aos poucos. Ao contrário das modernas igrejas, com suas paredes sonoras que dão inveja a qualquer banda de heavy metal, aqui temos bastante tranquilidade, e somente a quantidade maior de carros na pacata rua faz antever que há algum evento em andamento.

Isso me faz lembrar de minha velha e desencarnada madrinha, que andava pelas fileiras de Kardec. O que ela tem a ver com o ecletismo de Terra Brasilis? É que ela era exatamente a maior entusiasta da regularidade católica dos petizes da casa, eu incluso, ao mesmo tempo em que frequentava uma casa de mesa branca lá pelos lados da Parada Inglesa, no tempo em que não havia metrô por lá, o que dava uma bela pernada para quem morava na Vila Diva. Ela fazia parte do corpo de médiuns da instituição, e eventualmente levava a mim e meus primos. Havia por lá um palestrante chamado Laerte, excelente, especialista em lidar com questões de fundamentos da doutrina, e ficávamos ouvindo suas aulas enquanto a madrinha cumpria suas funções.

Eu comparava o que me era ensinado na catequese católica e perguntava se não havia incoerência na prática dupla, para o que a madrinha explicava que não, que muitas das práticas das diversas religiões encontravam eco no Espiritismo, incluindo oriundas do próprio Catolicismo. No sentido contrário, bastava manter o silêncio para não se criar questões.

Os livros básicos do Espiritismo são aqueles redigidos pelo próprio Kardec, onde há inúmeras remissões a Jesus, mas não só. Lá há ensinamentos mosaicos e de várias fontes orientais, já que a doutrina da reencarnação já era prevista por religiões como o Budismo ou o Hinduísmo. Outra referência bastante constante está em Sócrates, o patrono da Filosofia ocidental, e uma espécie de jamegão da sabedoria universal. Eu tenho esses principais livros e de vez em quando volto a lê-los, principalmente quando quero fazer comparações doutrinárias. 

Desde que me desvinculei da religião, tenho ouvido os mais diferentes desagravos. O mais constante é que um dia vou resolver meus conflitos interiores (?!) e voltar para o rebanho. Mas quem é espírita, curiosamente, costuma perguntar um pouco mais sobre o caminho que tomei, e procuro fazê-lo pacientemente. O roteiro, podem crer, já se tornou bastante contumaz: ao mencionar os problemas na manutenção da fé em relação ao confronto com a realidade, vem a assertiva indefectível - você devia conhecer Kardec, seu pensamento é todo revestido de lógica, as causalidades são bem explicadas e obedecem a melhores critérios filosóficos e científicos. Bem, o Kardecismo é uma religião dentre outras, e mesmo que não seja propriamente apostólica, seus praticantes a assumem como expressão da verdade e gostariam que outras pessoas a seguissem. Nada demais, penso eu, desde que ouçam o que eu tenho a dizer e não me façam tentar engolir suas convicções. Para dizer bem a verdade, não acontece.

O Espiritismo kardecista se explica pelo contexto da época. Estamos no pós Revolução Francesa e há muito entusiasmo com o progresso. De fato, há uma preocupação muito maior em adequar a visão religiosa à Ciência, e velhos dogmas imutáveis vão sendo questionados, principalmente o velho Fla-Flu da salvação, que tenta decidir a fé correta e o caminho salvífico válido. Mas aqui também aplico os meus três critérios de manutenção da crença e não encontro eco, da mesma maneira que ocorreu com minha saída do Catolicismo.

Primeiro e principal: o confronto com a realidade. Embora o discurso taumatúrgico seja bem mais ameno que nos cristianismos pentecostais, o fato é que os efeitos práticos são muito semelhantes. Resolvem bem afecções psicológicas e somáticas, mas fracassam cada vez mais na medida em que problemas que não dependem da mente vão se afigurando. Quando uma doença não é curada, vem o ponto onde ele é demonstrado infalseável: às vezes é momento de partir, a missão já está cumprida. Como uma criança de um ano pode ter cumprido alguma missão é algo que jamais eu vou conseguir entender, mas nesse caso a questão é terceirizada - era um reencontro necessário entre os espíritos encarnados da criança e dos pais. É uma resposta melhor que dizer se tratar da vontade de Deus, mas, no meu entender, continua sendo mais lógico tirar deus e metafísica da relação, bastando reconhecer que a vida é frágil e perigosa, podendo ser perdida em qualquer momento.

Depois, temos o sentimento pessoal, as experiências que ocorrem na vida da gente e que acabam por ser a âncora de nossa crença, principalmente porque percebemos uma interação com o sagrado ou com o espiritual. Eu juro que me esforcei muito nas várias sessões que participei da mesa em perceber algum tipo de contato ou manifestação, sem nenhum sucesso. O que me dizem é que eu dou sustentação energética para a corrente, e essa é a minha característica mediúnica. Ah, ok. Mas continuo sem sentir nada de diferente. Vêm os testemunhos, e logo lembro daquele que seria meu menino mais velho, que morreu ao nascer. Eu e a patroa recebemos duas cartas psicografadas, em um intervalo de pouco mais de dois meses. Seus estilos são tão diferentes que não podem ter sido escritas pela mesma pessoa. A primeira é uma escrita muito mais madura, que falava muito da necessidade de reencontro com a mãe, e do quanto era necessário que as coisas ocorressem do modo que ocorreram. A segunda parecia uma criança falando, revelando uma certa incompreensão e inconformismo do espírito, mas ainda assim referindo-se e dirigindo-se à mãe. Além disso, não vejo luzes passeando pelos quartos escuros, não pressinto presenças, e com relação a sonhos... São sonhos, onde a liberdade de minha mente desenlaçada da realidade está a pleno vapor. Portanto, por essas e por outras, não tenho razões pessoais para crer.

Por fim, há a terceira e última fonte de fé, a visão comunitária, a noção de que a irmandade dos homens é uma autêntica manifestação divina. Tanto pelo que vivenciei por mim mesmo, quanto pelos testemunhos de outras pessoas, essa questão de compreender o funcionamento de qualquer fundo de altar é muito assemelhado a um bolo de casamento. Para quem chega à festa e olha para ele, fica maravilhado com a obra de arte, mas não imagina o quanto de calços, remendos e buracos estão recobertos e ocultos pela esplêndida cobertura de glacê. Como em qualquer agrupamento humano, há vaidade, orgulho, inveja e luta pelo poder, o que é broxante para aquele que procura paz e união, e isso eu vi com meus próprios olhos também nos centros espíritas, como vi nas quatro igrejas católicas em que fui assíduo, ou na evangélica do pai de meu padrinho, da qual se afastou em menos de um ano após ganhar o título de ancião, enojado por conhecer como as coisas se dão. Aqui, não se tratam de relatos acusatórios, mas de experiências que vivi e, com isso, não me enquadrar mais a fé nenhuma.

Parece que estou repisando o meu velho texto sobre minha "saída do armário", e é quase isso mesmo. Mas é que eu achei necessário demonstrar como a mesma lógica de uma religião se aplica a outras, e principalmente para deixar claro como seus pensamentos podem ser ouvidos e racionalizados mesmo por quem não crê neles. Achei muito interessante a coleção de referências existentes nos textos basilares dos espíritas, ecléticos como os brasileiros a quem me referi no começo, que buscam suas orientações mais baseadas no que é constituinte de seu corpo de conhecimento do que em tradições orais que vão perdendo sentido com o tempo. E é provocado pela visão espírita, que compartilha essas duas figuras em seus cânones, que eu vou fazer uma comparação entre Sócrates e Jesus Cristo. Acompanhem o raciocínio.

Embora ambos tenham levado vidas e propósitos bastante distintos, é possível enxergar uma boa parte de coincidências, que vão muito além da barba, das vestes e da aura de transcendência que costuma se aplicar às suas figuras.


Ambos utilizavam métodos bastante específicos de realizar a transmissão de conhecimentos, que deixaram bastante marcados seus estilos de ensinar. Sócrates utilizava a maiêutica, uma especialização da dialética que incluía fazer brotar do próprio interlocutor as contradições de seu pensamento inicial. Isso pode ser visto nos diálogos sobre virtudes éticas, onde Sócrates faz com que seus dialogantes reconheçam que ignoravam o real sentido dessas abstrações. Já Jesus usava profusamente a parábola, uma espécie de exemplo que visava dar compreensão terrena a conhecimento divino, como faz com o filho pródigo ou com o semeador. Nada obriga que tais personagens tenham tido existência real, mas explicam tanto a doutrina do perdão ilimitado, quanto da aplicação prática da palavra divina, de uma maneira em que a didática não se volta ao real palpável, mas aos princípios morais de quem a ouve.

Os dois tiveram uma espécie de espírito missionário em suas vidas. O de Sócrates foi demonstrar que a investigação do homem deveria se pautar pelo autoconhecimento, enquanto Jesus tinha uma missão salvífica. No final das contas, os dois tinham como pano de fundo de seu pensamento uma forte conotação ética, uma mudança de paradigma com relação ao que se praticava em cada uma de suas áreas.

Ambos representam uma quebra do pensamento corrente na época. Os primeiros filósofos tinham seu foco na natureza, tentando compreender o substrato último da própria realidade. Com a chegada do conceito grego de democracia, essa discussão ficou obsoleta, e surgem os sofistas, que trazem o homem ao centro da discussão. Todavia, embora muitos deles tratassem de assuntos verdadeiramente humanos, a base de seu ensinamento era mais voltada à retórica que à ética: em um ambiente onde as decisões eram tomadas no grito, era mais importante vencer o discurso do que ter razão de fato. Sócrates confronta essa posição, afirmando que o interesse dos sofistas em vencer debates tira da filosofia sua melhor característica, que é a de perseguir a verdade. Jesus tem um confronto semelhante com os fariseus, a quem tinha como seus principais adversários. Segundo ele, os fariseus viviam uma vida cujos princípios religiosos serviam unicamente para exercer uma posição de privilégio, atribuindo a outrem toda sorte de pecado formal, enquanto eles se valiam da lei judaica para cometer toda sorte de antiética. Hipócritas é o qualificativo mais usado contra eles. Óbvio que os dois criaram muito desconforto com esse modus operandi. Afinal de contas, o que caracteriza o valor formal tanto do discurso quanto da ritualística não é o conteúdo que ele carrega, mas o modo como se apresenta. O conteúdo, esse sim fica relegado a um plano secundário, mas ninguém gosta de ouvir que o faz com malícia.

Que mais? Ambos são oriundos de famílias pobres, e, como tal, estariam fora do círculo intelectual típico de cada época e cada lugar, já que isso, desde sempre, foi privilégio das classes mais abastadas. Sócrates era filho de um escultor e de uma parteira, e não se imiscuía na Ágora como faria algum político clássico, enquanto Jesus era filho de carpinteiro, cuja pobreza é comprovada pelo sacrifício mais barato que foi oferecido pelo seu nascimento. Os judeus tinham por regra a oferta em holocausto pelo nascimento de qualquer filho homem, independentemente de sua situação social, sendo que os mais abastados ofereciam os caros cordeiros, enquanto a patuleia se virava com pombos, o que foi o caso do belemita. Essa característica tirava ambos do meio de onde se exercia o poder, e fazia com que eles vissem o mecanismo social pelo lado de fora.

Outra característica comum muito marcante é a ausência de obras escritas, o que lhes dá dois aspectos: suas vidas não são contadas por si mesmos e a importância que davam para as questões práticas da vida, dando aos seus ensinamentos a força do exemplo, para além da mera oralidade (que, no entanto, era fortemente presente). Por esse motivo, ambos têm algumas discussões com relação à sua historicidade, embora a crítica seja favorável à existência física dos dois, sem grandes contestadores. Jesus teve sua vida e filosofia descritas por seus discípulos evangelistas, além de vários outros escritos tidos como apócrifos. Há algumas poucas referências externas ao meio judaico, com relatos bastante distantes da questão religiosa. Quanto a Sócrates, há autores apologéticos, principalmente Platão e Xenofonte, mas há críticos contumazes, como Aristófanes

De toda forma, os relatos instruem sobre semelhanças na vida pública dos nossos epigrafados. Eles ensinavam nas ruas e nas praças, com grande base no mundo que os rodeava. Os dois, de maneira bastante resumida, falavam do cuidado com as virtudes, sendo que esse seria o fim último do homem: para Jesus, seria a plena realização da lei judaica e o caminho da salvação para o crente; para Sócrates, o cumprimento do propósito humano; sua teleologia, como diria mais tarde Aristóteles.

O mais importante: ambos morrem pela causa que defendem, de maneira injusta, porque foram colocados na conta de criminosos. Mais ainda, têm a oportunidade de fugir de seu destino e dar novo caminho a si no plano do indivíduo. Entretanto, ambos recusam a escapatória e transformam seu fim no seu propósito mais significativo. Eles não se defendem porque negar sua morte significa recusar a concluir de seu sentido no mundo. Jesus tem que morrer para, segundo a doutrina cristã, tornar-se o último sacrifício expiatório, e, com isso, oferecer um caminho salvífico em definitivo. Já Sócrates aceita sua sina para comprovar que a sociedade é maior que o indivíduo, e a obediência às leis é a melhor expressão do cidadão que se reconhece como tal, ainda que seja para produzir sua própria morte.

É claro, como eu disse, que há mais diferenças do que semelhanças entre ambos. Jesus, por exemplo, está encaixado em um conceito religioso que é meramente lateral em Sócrates (embora tenha sido um dos motes para sua condenação). Além disso, diz-se de Jesus que sua morte era necessária porque ele precisava ressuscitar, o que nem de longe se vê em Sócrates. O processo de desencarnação para o ateniense é essencial para a reaproximação com a verdade, que se turva pelos sentidos e opiniões terrenas. Sócrates não necessitava de uma visão libertária como Jesus, porque a Grécia de seu tempo ainda era autossuficiente, enquanto a Palestina tinha um longo rosário de dominadores em sua história.

Mas, se bem medidas e bem pesadas, veremos que o que existe de mais próximo entre essas duas figuras é a estrutura das narrativas sobre suas vidas, e daí eu vou para minha lavra, abordando uma questão que o Evangelho de Kardec não toca. Vejam: os personagens marginais que se colocam em um meio corrompido dão a própria vida como exemplo a ser seguido, e por conta disso são contrapostos pelos detentores do poder, que os encaminham para a condenação. Jesus é o inverso do que se espera do Messias prometido: ele não é o senhor da guerra, capaz de conduzir seu povo na afirmação contra os dominadores romanos, mas um pacifista que prega o desprendimento do mundo. Sócrates não é o político afiado, cujo grande objetivo do discurso é ter seus propósitos acolhidos pela Ágora, mas o homem feioso que admite a própria ignorância. O momento condenatório de ambos é a apoteose de sua história: nem a morte é capaz de fazê-los arredar de sua missão, porque, no final das contas, esse é o sentido de suas vidas. Notem como esse esqueleto é frequente em qualquer história que se queira contar sobre uma vida heroica, seja ela real ou fictícia. Não quero aqui desmentir o que se disse sobre Sócrates ou Jesus, porque não tenho estofo histórico para fazê-lo, mas posso perceber como é um enredo que funciona bem, a ponto de ele derivar toda a Religião e a Filosofia ocidentais. Como essas, outras narrativas se contaram com uma linha semelhante, e elas funcionam bem, justamente porque agregam ao ato de heroísmo uma certa fraqueza dos protagonistas, e é daí que vem sua força: tornam o homem comum mais próximo do ato heroico. Nietzsche diria que é uma exaltação do fracasso, uma negação da natureza humana, no que eu até concordo, mas não se pode negar que a história contada com tal aspecto emocional  é altamente eficiente e, saindo do âmbito meramente pragmático, rica e bela, ainda que não creiamos nela. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Em termos de amarração lógica, a literatura kardecista é muito mais consistente do que os escritos religiosos em geral, seja porque está mais próximo de nós temporalmente, seja porque já foi escrito em uma realidade ocidental mais consolidada. Até mesmo por isso, é uma leitura aprazível e recomendável.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

As sementes de todas as coisas e as tintas que as inspiram - uma viagem pelo mundo de Anaxágoras

(A procura pelo elemento primordial que constitui todas as coisas foi o primeiro motivador do pensamento filosófico. Hoje vamos falar sobre um dos mais originais)

Olá!

Estou em Curitiba mais uma vez. Não a passeio, nem a visita, mas a trabalho. E um trabalho pouco convencional, ao menos para um escriba informata, como é meu caso. Estou fazendo as vezes de pintor, carregador, faxineiro e até içador de móveis, dado que camas-boxes tem pouca flexibilidade e dimensões pouco amigáveis com escadas estreitas. Sim, estou fazendo uma mudança, mas não é para mim; também não é serviço pago, é para o meu filho mais velho, que está saindo de um apartamento para uma casa, uma velha intenção que o garoto nutria, saudoso dos tempos de criança no célebre Jardim Elba, no arrabalde paulistano. Eu não sei recusar as coisas quando estão ao meu alcance, então enforquei dois dias para ajudá-lo a cumprir as cláusulas contratuais: paredes pintadas, chão limpo, essas coisas necessárias à entrega do imóvel. No final das contas, entregamos o apartamento melhor do que foi pego. Isso porque certos escorridos e determinadas manchas que foram consignados ao filho-inquilino foram devidamente corrigidos nessa nova versão que repassamos à imobiliária. São coisas da herança materna: minha mãe reviraria na cova caso visse um serviço porco. Em tempo: ela tinha baixíssima tolerância a imperfeições, e parecia falar no meu ouvido a cada risquinho que eu deixava passar batido.


Mesmo com a dedicação empregada, a incorruptível iniciativa privada ainda achou defeitos imperceptíveis, como manchas de rolo invisíveis a olho nu, com a oferta de serviços parceiros a baixo custo. Sorte ser o primogênito formado em Direito, e imobiliárias não gostam de tirar farinha com advogados.

No final das contas, ficou o dito pelo não dito. Foi uma trabalheira imensa, incluindo tudo aquilo que consta do checklist de uma entrega: pintar paredes, teto, portas e detalhes, inúmeros detalhes. Fiquei longas horas sentado de indiozinho, cuidando da junção dos rodapés, ou de ponta-cabeça fazendo sancas e luminárias, tudo com pinceizinhos de ponta finíssima, lutando contra minha falta de coordenação motora, enquanto a patroa mandava brasa nas partes grandes. Nos momentos em que ficava sozinho, sem plano de dados nem wi-fi disponível, restava a mim filosofar, observando como dos grandes rolos de lã às pequenas cerdas de cerdas eu espalhava a mesma substância, em menor ou maior quantidade, conforme a conveniência da tarefa. E lá vou eu para a Grécia antiga. 

Conforme eu já falei um monte de vezes neste espaço, os filósofos pré-socráticos se dividiam essencialmente em duas correntes: os discípulos de Heráclito, que viam no dinamismo das transformações a própria essência das coisas, um eterno devir que faz passar de um estado para o seu contrário; e os eleatas, seguidores de Parmênides, que viam o universo como um todo imutável, cujas transformações são meras ilusões das opiniões e desvios dos sentidos. 

As teses de Heráclito tinham a seu favor a intuição, já que, de fato, vemos o mundo em impermanência. “Não se toma banho duas vezes no mesmo rio”, dizia o sábio que entendia ser tanto o homem quanto o rio seres em constante transformação, e é isso que o universo tem de permanente: a mudança. A favor de Parmênides, pesa o olhar profundo da ontologia, que vê o Ser para além dos sentidos e da apreensão imediata. Era uma tese com uma lógica tão bem construída que foi a partir dela que começaram a brotar as regras fundamentais do pensamento bem construído, especialmente o princípio da não-contradição (para saber mais, leiam este texto). Mas tudo o que havia de intuitivo em Heráclito ia ao seu oposto em Parmênides. Imutabilidade e imobilismo, as principais característica do Ser, contrapunham completamente a nossa apreensão direta da realidade. Era muito difícil explicar a fixidez para olhos que só viam a alternância de estados universais: dia e noite, calor e frio, vida e morte. Era como o antagonismo entre as teses acadêmicas e o senso comum, onde somente um pequeno grupo de iniciados se põe em confronto com a percepção popular - embora o pensamento de Heráclito em nada estava no âmbito do acriticismo. Por isso, era essencial obter explicações para as mudanças e o devir.

Aliado a tudo isso, havia uma questão ainda mais antiga: a arché. Essa ideia, que já mencionei muitas vezes por aqui e já fiz uma espécie de texto consolidado, foi a primeira temática verdadeiramente filosófica, e buscava saber o que está no substrato da realidade sem o auxílio de divindades e atividades demiúrgicas. Os filósofos posteriores a Parmênides e Heráclito começaram a vincular este elemento primordial com a questão do Ser, buscando elucidar ambas as problemáticas de um só turno.

Várias foram as tentativas, cada uma mais engenhosa do que a outra. Uma das que mais fez sucesso foi a de Empédocles de Agrigento, a quem apresentei aqui. Em apertadíssima síntese, sua tese falava das rizomatas, as raízes compostas pelos quatro elementos, que, misturados nas devidas proporções, davam origem a todas as coisas.

Embora possuísse sua lógica, o pensamento de Empédocles não alcançou unanimidade, como se pode supor. Um dos que achava essa explicação insuficiente era Anaxágoras de Clazômenas, cidade grega que hoje pertence à Turquia, cuja principal crítica estava na ampla variedade de elementos existentes no universo, que dificultavam a visão de que somente a mistura de terra, fogo, água e ar eram o bastante para constituir todo e qualquer elemento. Para ele, deveria existir uma substância que antecede os quatro elementos e os compõe. Já vamos chegar nisso.

Mesmo que com contraposições, o princípio geral estava dado. Se não era na visão macro que conseguiríamos perceber a imutabilidade das essências, de algum outro modo seria possível explicar a aparente transitoriedade e a permanência eterna do Ser. As tentativas mais simples, como a água de Tales ou o ar de Anaxímenes eram ainda mais difíceis de aceitar que a rizomata de Empédocles. A antiga visão do ápeiron de Anaximandro era insuficiente, porque o todo imaginado, sempre preenchido pela substância etérea, não dava espaço para o não-Ser. Anaxágoras pensa então na redução da possibilidade do Ser a tamanhos infinitesimais. A coisa tem mais ou menos o seguinte sentido: nascer e morrer são ilusórios, já que ambos pressupõem que algo exista a partir do nada ou que deixe de existir - o não-Ser, o que é impossível. Estes termos devem, em um sentido mais estrito, ser substituídos por “compor” e “decompor”, na medida em que o agrupar e desagrupar não representam o surgimento e a extinção de uma determinada existência, mas um mero rearranjo de algo que já existe.

E o que seria essa coisa que já existe?

Segundo Anaxágoras, os elementos constituintes da realidade podem ser reduzidos a tamanhos minúsculos, porque esse formato explica tanto o universo em seu menor tamanho imaginável, quanto em seu tamanho macro, pela agregação das pequenas partículas. Esses componentes mínimos de todas as coisas tem o nome de spermata, que podemos traduzir como “sementes”.

E como seriam essas sementes? Bem, vamos com calma nessa hora. Anaxágoras utiliza esse nome por uma alegoria ao se observar como funciona a semeadura em um campo. A cada pequenina semente que for, brotará uma planta completa, que poderá ser um pequeno musgo ou um gigantesco baobá. Nesta semente está contida toda a informação necessária para o desenvolvimento da planta, e daí vemos neste campo como cada semente específica desenvolve uma planta igualmente específica, sem que cada uma vá para um canto. Assim é com o fogo, cuja labareda é composta por inúmeras sementes de fogo, ou com a terra, ou com qualquer elemento. Ou seja, cada substância existente no universo deriva de uma semente específica, que lhe caracteriza e já carrega consigo não somente seu estado atual, mas o todo que virá a constituir. Não se trata de misturas de elementos agregados através de uma espécie de "sentimento", como diria Empédocles, mas por qualidades infinitas de sementes: para cada substância localizada no cosmos, há uma semente determinada que a compõe. Por mais que o mundo seja grande e a diversidade de elementos seria finita, o fato é que todo o cosmos, na visão de Anaxágoras, é infinito. Sendo assim, as sementes como originadoras de substâncias também são infinitas. A mesma coisa se aplica à quantidade de sementes. Não basta que suas qualidades sejam infinitas, é preciso que infinita também seja sua quantidade, partindo da premissa fundamental de que o universo todo é composto por elas.

A spermata de Anaxágoras ajusta-se bem ao eleatismo porque ele aposta em outra categoria que lhe seria particular. As sementes não são apenas infinitas e eternas, mas também são imutáveis. Se é fato que o mundo se notabiliza pela imobilidade travestida de devir pelas ilusões dos sentidos e pela ignorância de como tudo funciona, só há sentido nas sementes se elas forem eternamente iguais.

Mas como isso seria possível se basta que cortemos uma árvore para que ela passe a ser um sarrafo de madeira? Aqui nós vamos ver como Anaxágoras prefigurou a moderna biologia. Ele entende que a divisão quantitativa de qualquer substância não lhe tira a identidade qualitativa. Ou seja, por menor que seja o pedaço da árvore, ele conterá em si a árvore inteira. Essa assertiva pode parecer estranha, mas as atuais descobertas no ramo da genética demonstram que muito do que está em nosso organismo como um todo fica descrito em cada uma das partes. Ou seja, Anaxágoras dizia que tudo o que existe é constituído por partes qualitativamente iguais, o que mais tarde foi nominado como homeomeria.

A grande sacada da homeomeria está no seguinte fato, novamente exemplificando com a vida real: todo o capim que está em um pasto nasceu de um tipo específico de spermata. Esse capim serve para que os bois e as vacas se alimentem, e é dele que se constituem seus corpos, seu crescimento e desenvolvimento. Não há, na semente do capim, nenhum osso, nenhuma carne, nenhum pelo, nenhum chifre. Entretanto, sem o capim nada disso subsiste no bovino. Mais ainda: o que o gado expele no campo durante sua vida (ou com seu próprio corpo após a morte) vai alimentar o mesmo capim que o alimenta. Anaxágoras conclui, portanto, que embora cada semente seja de um determinado modelo, em qualquer uma delas há informações sobre tudo o que existe no universo, e dessa forma o mundo se transforma, como quereria Heráclito, mas sem que deixe de ser uma única substância, como concordaria Parmênides. Tudo está em tudo, e tudo contém tudo. Esse é o grande fundamento da homeomeria.

Resta entender, por fim, qual seria o mecanismo que faria com que as homeomerias se organizam no espaço para dar origem a tudo o que existe, especialmente no que diz respeito ao “saber” se moldar a cada realidade.

A coisa é mais ou menos assim. Quando deitamos os olhos no mundo que nos circunda, vemos que, embora haja um quê de incerteza para confundir as coisas, existem certas regularidades que conduzem a previsibilidades. Mantendo a alegoria da semente, sabemos que, se colocamos uma na terra, ela encontrará nutrientes e brotará, aflorando no solo e crescendo cada vez mais, até frutificar certa quantidade de vezes e espalhar novas sementes pelo mundo, até declinar e morrer. Isso se repete por inúmeros outros fenômenos, como o surgir e o pôr do sol, as estações do ano e até mesmo as relações humanas. Como seria fácil intuir, esses scripts não parecem frutos do mero acaso, mas de uma certa forma de organizar o universo que parte de uma inteligência, porque tudo está no lugar certo e na hora certa, colocado como deve para funcionar da devida forma universal, mesmo que no varejo pareça por certas vezes não dar certo: uma semente pode não brotar, mas ainda servirá como composto orgânico. Anaxágoras se refere a este princípio como nous, palavra de difícil tradução para o português. Seria uma espécie de princípio universal ordenador que age pela pura racionalidade, algo como um espírito universal não necessariamente vinculado a uma divindade, mas ainda metafísico, na medida em que é puramente racional e prescinde da matéria, a quem tem a capacidade de ordenar. Para ter um exemplo levemente aproximado, seria como aqueles momentos em que nos concentramos em uma linha de pensamentos e que nos desvinculamos da realidade circunstante, como se desligássemos o botãozinho que nos conecta ao mundo exterior. Sendo que tudo isso tem como substrato material as homeomerias, é ele, o nous, que faz com que tudo seja do jeito que é.

Mas se o nous é um princípio ordenador do universo, ele também está nas coisas criadas? Sim, conforme pensa Anaxágoras. A cada vez que algo se materializa, uma parte do princípio inteligente se mantém agregada a ele, e essa " quantidade" de nous que permanece em um ente determina sua capacidade de percepção cósmica. O ser humano é o que de máximo existe em termos de nous "acumulado", por isso dizemos que somos animais racionais. Esse teor vai se reduzindo na medida em que se percebe o embrutecimento da matéria, mas mesmo assim ainda há a presença da inteligência universal mesmo nos minúsculos fragmentos de areia.

Por tudo isso, é possível notar como o pluralismo de Anaxágoras já aponta para algo muito próximo ao que vieram predizer Lêucipo e Demócrito de Abdera, com a diferença que estes últimos eram um pouco mais rígidos com a plasticidade do átomo em relação à homeomeria e não colocavam nenhuma instância metafísica na forma como as substâncias se agregavam e desuniam, de maneira muito mais materialista, no que veio desembocar, séculos depois, na moderna química que impera até os dias atuais.

Toda essa sofisticação de pensamento foi refletir muito séculos depois na monadologia de Leibniz, que, grosso modo, retoma uma grande parte dos princípios das homeomerias e do nous para explicar as semelhanças de características entre elementos muito distintos entre si. Isso é prova de que a ideia em si é bastante poderosa e contém elementos que enriquecem a intelectualidade.

Sendo assim, despeço-me cordialmente da antiga morada do piá mais velho e também de vocês, convidando-os a seguir acompanhando este pequeno espaço. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Vai em italiano. Uma boa coletânea dos fragmentos que chegaram até nós da obra de natura de Anaxágoras.

D’IPPOLITO, Armando (Org.). Anassagora, Il Miscuglio Originario. Milão: Albo Versorio, 2015.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Ambientalismo: o que ele é e o que ele não é

(Nesses tempos de polarização, nada passa batido à sanha das dicotomias. Por isso, sempre é bom procurar ficar a par do que defendemos ou combatemos)

Olá!

Clique aqui para ver mais itens desta série…

“Porque haverá guerras e rumores de guerras, mas não se assustem, porque tudo isso deve acontecer, mas ainda não é o fim”. Essa é a assustadora profecia de São Marcos, transcrevendo as supostas palavras saídas da boca do Jesus dos cristãos, prevendo os fins dos tempos. Há tempos não nos víamos em meio a grandes chacoalhões políticos e bélicos, e os acontecimentos na Europa Oriental tem nos trazido de volta àquele desanimador clima da Guerra Fria. Mas fria é a guerra: há outras sombras se projetando nesta esferinha azul que tantos pretendem lisa como uma mesa de bilhar. Muito mais quentes.

É que recorrentemente temos ouvido falar de temas que, se por um lado carregam o mesmo peso da ameaça do parágrafo anterior, por outro têm se tornado tabus, como o aquecimento global ou o buraco na camada de ozônio. E isso tem feito com que o mundo se divida em dois, como tem sido comum nestes dias de dicotomia permanentes. De um lado temos a defesa arraigada do meio ambiente, e do outro os que entendem ser os indicadores de mudanças climáticas meros fenômenos de passagem, como os circos que erram aqui e ali nesses rincões do Brasil profundo. No meio disso tudo, nós, mortais como Sócrates.

Essa situação de guerra psicológica deflagrada faz com que muita coisa seja dita de lado a lado sem que haja sempre base na realidade. E isso leva a confusões. Quando falamos de ambientalismo, por exemplo, temos pouca nitidez consensual. Tem gente que o julga prenhe de atitudes de heroísmo, tem gente que o ache empulhação de catastrofistas. O grande problema é que o fazem sem ter um panorama mais efetivo do que ele realmente é, e, com isso, sentimo-nos na obrigação de lançar as luzes possíveis à causa, para que ao menos nos lembremos de que uma das funções do cérebro é questionar. Então vamos lá.

O que é ambientalismo?

Ambientalismo é um amplo leque de pensamentos que têm em comum algum grau de defesa da conservação do meio natural e de seus componentes. Sim, é um termo guarda-chuva que abrange desde o reaproveitamento de latinhas e potinhos para colocar plantinhas até a defesa de enormes projetos de reflorestamento e corredores ecológicos, o que dificulta uma definição clara e favorece posições antagônicas. Mas podemos dizer que é preciso existir uma intenção para se colocar alguma atitude no âmbito do ambientalismo. Minha sogra, por exemplo, adora juntar toda sorte de potinhos plásticos. Isso é bom para o ambiente, porque o reaproveitamento diminui a necessidade de produção, mas ela não o faz por uma atitude ambientalista, e sim por compulsividade acumulativa. Por isso, ambientalismo é muito aberto para que se feche uma definição inconteste, mas podemos defini-lo como toda e qualquer ação consciente que vise um mínimo de preservação do meio ambiente.

O ambientalismo é uma Ciência?

Não. Está mais associado à Filosofia, porque prescinde de um método baseado em verificabilidade e falseabilidade, embora as correntes mais sérias sempre procurem se associar a estudos confiáveis. No entanto, os motores para o ambientalismo não são unicamente a proteção ambiental com caráter pragmático, mas, muitas vezes, pelo simples fato de existir uma empatia com os outros componentes do meio, ou uma suposta sinergia de fundo esotérico. O ambientalismo transpõe a barreira da ciência e vai a outros aspectos existenciais.

Ambientalismo coincide com Ecologia?

É quase óbvia a correlação que se faz entre Ecologia e ambientalismo. Mas há muitas diferenças entre ambos. A Ecologia é uma Ciência, que pretende que suas observações sejam as mais neutras possíveis, enquanto o ambientalismo é uma atitude. Um ecologista, por princípio, deve se socorrer em dados e, a partir do momento que coloca termos éticos em seu discurso, torna-se um ambientalista. Ou seja, o que ocorre é que, por dois caminhos, um acabe se vinculando ao outro. Podemos ter gente com propensões de defesa à natureza que se interesse por saber mais e melhor, e com isso siga os passos da Ecologia. Por outro lado, pode ser que alguém que comece estudando a Ecologia acabe por se apaixonar pelos objetos que estuda, e tome o rumo do ambientalismo 

Por que ambientalistas são chatos?

É preciso ser cuidadoso com prejulgamentos. Chato é tudo aquilo que vai contra nossas convicções. Mas é óbvio que existem pessoas tão engajadas que acabam por jogar contra, não há dúvidas. Fanatismo existe em qualquer área onde haja posições bem marcadas. Quem nunca encarou um crente chato, um vegano chato, um comunista chato, um corintiano chato… Todos defendem com unhas e dentes sua posição, a ponto de perder a racionalidade. Mas isso não significa que TODOS os demais crentes, veganos, comunistas e corintianos sejam chatos, que não tenham suas ideias sensatas, que não troquem a lógica pela pura defesa apaixonada. Tudo isso acontece com os ambientalistas também. Há aqueles que se arrogam um conhecimento superior, que não ouvem teses contrárias, que metem o dedo na cara de pessoas que não têm más intenções, apenas desconhecem os problemas que os ambientalistas abordam. Isso sim dá uma conotação de chatice, mas aqui trocamos o berimbau pela gaita, jogando tudo na generalização apressada: não é pelo fato de existirem fanáticos que todos aqueles que defendem causas ambientais são fanáticos. Enfim, chatos são os fanáticos, e não os ambientalistas.

Por que se fala tanto em sustentabilidade? O que é essa tal de sustentabilidade?

Sustentabilidade é uma filosofia de uso do meio ambiente em que sempre se pensa na preservação vinculada ao desenvolvimento. É mais que uma disciplina, mas um modo de vida que procura conjugar bem-estar com manutenção ambiental. Em resumo, é a tentativa de manter o máximo de preservação ambiental sem abrir mão do desenvolvimento econômico, porque não se quer que as cidades não possam evoluir. Obviamente é um jogo de ganha-perde, porque sempre se terá de abrir mão de algo para sair do outro lado e conseguir um mínimo de qualidade de vida para além de nossos próprios quintais. Tem sido muito perseguida nos dias atuais porque é muito difícil não aproveitar um recurso que está lá, que nós precisamos, mas não podemos esgotá-lo.

Quando as empresas agem, os ambientalistas as acusam de “greenwashing”. Que diabos é isso?

O greenwashing (literalmente "lavagem verde", em inglês) é uma prática empresarial que visa dar uma roupagem ecológica a atitudes que não são exatamente amigáveis ao meio ambiente, sendo mais uma prática publicitária do que propriamente a aplicação de políticas ecológicas. Como nos tempos atuais as pessoas têm se preocupado mais com questões ambientais, ter uma espécie de "selo verde" traz dividendos para a empresa que o possui. Por exemplo: uma fábrica pode produzir equipamentos eletrônicos que realmente possuem eficiência energética, e explorar essa característica como uma vantagem verde, mas o custo disso pode ser a extração de minérios de maneira predatória ao meio ambiente. Outro exemplo: uma fazenda se dedica a produzir alimentos orgânicos, que evitam a poluição do solo e dos mananciais, mas o faz à custa de desmatar matas ciliares. A empresa se aproveita unicamente do aspecto positivo de seu produto, "esquecendo" o lado de lá, que, bem medido e bem pesado, pode até ser mais prejudicial no conjunto.

Por que ambientalistas são vistos como hippies que ficam fumando maconha e aplaudindo o sol?

Estereótipos. Normalmente, uma pessoa que aprecia a natureza quer estar próximo a ela, e isso pode ser feito das mais diversas formas: optando por destinos intocados nas férias, tendo hortas orgânicas em casa, estudando sobre o assunto e outras maneiras. Isso nada tem a ver com hippies, nem com maconheiros, que existem em centros urbanos da mesma forma que em retiros ecológicos. Como se criou uma imagem de desvinculação desta tribo ao mundo tipicamente capitalista, coloca-se todo mundo no mesmo pote. Um estereótipo (“impressão sólida”, em grego) é exatamente isso.

Então tudo o que é dito por ambientalistas é sinônimo de verdade?

Longe disso. Há uma linha divisória que nem sempre é muito clara, mas que faz toda diferença em qualquer discurso: quando se deixa de basear em fatos para se basear em crenças. As regras do bom pensamento dizem que devemos sempre nos ater à realidade, e isso não ocorre pelo puro e simples motivo de apreciarmos paragens verdes e os animais que lá vivem. Isso se assemelha aos ambientes idealizados de desenhos animados, e crer nisso é infantilizado em alguns casos, delirantes em outros, desonesto em mais alguns. Mesmo que o ambientalismo não seja uma Ciência, deve se pautar ao mínimo na lógica para emanar suas propostas.

Se a causa ambiental é uma ação digna, por que há tanta gente contrária a ela?

Vamos progressivamente. O fato não é que muitas pessoas são contra a defesa da natureza, mas que simplesmente não se importam com a questão. Em um país de povo pobre como o Brasil, a dona de casa luta contra os preços do mercado, e fica difícil pensar no meio ambiente quando o cobertor é curto demais. Pode ser um mero desinteresse, falta de preparo em encarar problemas incômodos, falta de conhecimento para compreender esses mesmos problemas. Quem se posiciona contrariamente à causa ambiental de verdade, geralmente tem muito a perder com o controle que é imposto, e aqui é impossível não pensar na ação empresarial. Já aqui é preciso desfazer a ideia de que toda empresa se guia pelo lucro a qualquer custo, e que não haja empresários verdadeiramente preocupados com a questão ambiental, mas é inevitável que se esbarre no modo de produção capitalista. Vou falar mais sobre isso logo adiante. 

Mas esse controle não é uma questão de tolher liberdades?

Tolher liberdades… Sempre que alguém lhe falar em defesa de causas libertárias, pergunte como ele se posiciona com relação a outras liberdades, como a de casar com alguém do mesmo sexo e ter os mesmos direitos de qualquer outro casal, ou de decidir pela eutanásia. Caso a resposta para estes pontos não seja tão alinhada à causa da liberdade, então você terá à sua frente um leitor de cartilhas, de onde será difícil de tirar algo diferente do posicionamento conservador disfarçado de liberal. Se, por outro lado, admitir-se liberdades para qualquer caso, é preciso pensar se há sentido em se possuir liberdades plenas em casos onde o prejuízo se arrasta para populações inteiras. Populações de pessoas mesmo, não é nem uma questão de piedade ou de empatia com comunidades da fauna. Neste caso, é uma questão de decidir o que importa mais: o indivíduo ou a sociedade, e, com isso, determinar até onde é possível chegar com as liberdades.

Por que o ambientalismo só ganhou força há menos de 50 anos?

Não sou comunista, mas preciso falar sobre como o capitalismo opera, portanto não me prejulguem. Embora o modo de produção deste sistema venha transformando a paisagem da Terra desde meados do século XVIII, é a partir do pós-Guerra que fica evidenciado seu máximo esplendor, com todos os seus avanços tecnológicos por um lado, e toda sua ação predatória por outro. É a partir de então que as grandes cidades passam a registrar casos e mais casos de doenças relacionadas às mudanças na composição do ar e o povo como um todo passa a sentir os reflexos na própria pele, literalmente. Causas antes difusas agora passam a ganhar a mídia, e a ganhar relevo, como a extinção de espécies, mudanças no regime de inundação dos rios e outros mais; alguns, com estatuto de ameaça planetária, como o buraco na camada de ozônio e o tão recentemente debatido aumento da temperatura global. Isso deu uma certa chacoalhada nas pessoas como um todo e é natural que haja maior engajamento na mesma medida. 

Por que o ambientalismo sempre se encontra nas pautas de esquerda?

(Comecem lendo este texto, para compreender minha dificuldade com posições políticas inamovíveis). Com extrema simplificação, via de regra a direita prioriza liberdade, que é exercida por indivíduos; já a esquerda tem seu foco na igualdade, que se volta para comunidades. Quando estamos falando em causas ambientais, naturalmente não estamos falando de um fazendeiro específico ter o direito de possuir reservas florestais em suas propriedades, mas em seu dever de mantê-las. Isso porque a manutenção do meio favorece não aquele tal fazendeiro, mas toda a coletividade, que fruirá dos benefícios da manutenção daquele espaço. Mas não há nenhum tipo de limitação filosófica para que cidadãos ditos de direita defendam de verdade causas ambientais. Só é bem raro de acontecer, porque não faz parte do pacote.

Mas se o Brasil se especializou em commodities, tolher a expansão agrícola não nos conduzirá ao empobrecimento?

O Brasil caiu na armadilha da divisão internacional do trabalho, uma política já antiga que preconiza uma especialização dos países nos mercados internacionais. Cabe a nós fornecer produtos agrícolas, devido ao território privilegiado. O problema das commodities agrícolas é o seu baixíssimo valor agregado. Quem tem um espectro maior de ofertas para o mercado internacional costuma ser menos abalado por crises setoriais, porque é a velha história de guardar todos os ovos em uma cesta só: quando ela cai, já sabe. A questão recai novamente sobre o individualismo. É muito atrativo para um fazendeiro expandir suas propriedades em alguns hectares sobre a floresta, mas o interesse coletivo não vai no mesmo sentido, porque a oferta que virá normalmente não se voltará a uma diminuição de preço para o mercado interno, além de reduzir a área verde original cada vez mais. A questão é saber se a área já disponível para o agronegócio não é grande o bastante e se pode ser otimizada para produzir melhor, sem recorrer ao recurso fácil da expansão contínua. Dificilmente todo esse território não pode ser melhor aproveitado para render o suficiente. Mas eu não sou da área e vou passar a pergunta.

Em um momento de economia incerta, não é um problema aumentar os gastos com preocupações ambientais?

Reutilização, reciclagem e diminuição de consumo não representam incremento, mas diminuição de gastos. Portanto, são três coisas em que se precisa pensar: visão de longo prazo, sociedade como um todo e atitudes simples. Esses são os alicerces da gestão ambiental.

Acho que está bom por enquanto. É um assunto tão amplo quanto sua própria definição, e, sendo assim, podemos voltar ao assunto a qualquer momento. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Embora nos últimos tempos tenhamos tido dificuldades nas políticas públicas no quesito ambiental, é importantíssimo que se conheçam ao menos rudimentos do que a legislação reza sobre o tema, já que é ela que disciplina as condutas disponíveis legalmente, concordando com ela ou não. As mais importantes são as seguintes:

Código Florestal: disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm

Lei dos Recursos Hídricos: disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9433.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%209.433%2C%20DE%208%20DE%20JANEIRO%20DE%201997.&text=Institui%20a%20Pol%C3%ADtica%20Nacional%20de,Federal%2C%20e%20altera%20o%20art

Lei dos Crimes Ambientais: disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm

Política Nacional do Meio Ambiente: disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6938.htm

A imagem utilizada neste post é oriunda do Ministério do Meio Ambiente, disponível em: http://a3p.mma.gov.br/9-premio-melhores-praticas-de-sustentabilidade-premio-a3p/

quinta-feira, 31 de março de 2022

Imprinting, a tatuagem mental que nos modela o comportamento

(Existem padrões mentais que podem ser comparados a tatuagens? Existem, e nós os chamamos de imprinting)

Olá!

E a patroa criou coragem, fazendo a tatuagem que tanto queria. Ela vinha namorando as agulhadas já há um bom tempo, mas a coisa parecia que não ia desatar nunca. Para incentivá-la, arranquei um escorpião do bolso e a presenteei, no seu aniversário do ano passado. Após pesquisa e fila, fomos parar em um estúdio de Taubaté, pequeno e bem organizado. Um pouco de incômodo no começo, para duas horas depois ter as duas flores lilases pareadas, uma mais para o ombro, outra mais para as costas.


Nossa juventude foi em um tempo em que tatuagens eram MUITO mal vistas, basicamente feitas por surfistas ou bandidos, o que, na época, nem eram considerados tão distantes assim. Explico. Surfistas eram caras que, no estereótipo, não se davam a estudo e trabalho, além de gostarem de "consumos alternativos" (vejam os materiais do grupo Sobrinhos do Ataíde, impagáveis, especialmente no personagem Peterson Foca). Como resultado da baixa dedicação laboral, eram considerados párias sociais como os fora-da-lei. Estúdios de tatuagem como vemos hoje, cheios de cervejas e ares condicionados, basicamente não existiam, e a arte era exercida em valhacoutos realmente medonhos. Mas os desenhos eram muito diferentes dos de hoje, mais rústicos e com aquela coloração esverdeada típica. Agora, as peles parecem telas de pintura.

Eu, já nos meus quinze anos, era louco para fazer uma tatuagem. Mas acontece que, salvo raríssimas e honorabilíssimas exceções, empresas simplesmente não contratavam tatuados, pelos motivos já expostos acima. Duas eram as alternativas, então: fazer uma tatuagem escondida (e não a revelar) ou trabalhar por conta. Como a primeira não faz sentido e a segunda era bem difícil para quem vem do proletariado, o jeito foi por a viola no saco e deixar o projeto tatuagem para quando ela fosse mais aceita socialmente.

E esse tempo chegou, não é incrível? O medo da patroa não era com a dor das agulhadas. Isso ela cansou de tirar de letra, com aplicações de enzima no couro cabeludo e de glicose nas capilares das pernas, em episódio que já contei aqui. A questão maior era mesmo de aceitação social, porque ela própria tinha essa visão ruim que acabei de mencionar, e só um longo período fez com que sua ideia primeiramente mudasse, para depois ter vontade de ter uma tatuagem e, por fim, resolvesse encarar as reações de terceiros.


Claro que uma tatuagem exige alguma certeza, porque, ao contrário do que acontecia com aquelas de chiclete, a de agulha não sai. Ela tatuou uma flor de maracujá, que tem toda uma história na vida dela. É algo que filosofei para ela: tatuagens de moda logo perdem o sentido, e é uma nota pretíssima para remover, nem sempre com bons resultados. Por isso, entendo que é preciso que haja significado na vida da pessoa, mesmo que a forma fique datada, porque o conteúdo sempre trará alguma recordação, alguma essência, alguma história. E será mais difícil bater um arrependimento.

Agora, pensando de forma um pouco mais abstrata, tento raciocinar se há alguma forma de tatuagem mental. Afinal de contas, toda forma de disposição social (incluindo preconceitos) é deveras arraigada, e só um tempo muito longo e uma oposição muito insistente pode fazer com que seja passado um laser nos consensos deliberados. O pensamento pode ser tão marcado quanto as agulhadas de uma tatuagem. Mais até, porque as tatuagens não são transmitidas entre as gerações. Os juízos preconcebidos, esses sim.

Mas não é exatamente isso que eu quero dizer. Eu lembro que nas aulas de Psicologia da Educação, especialmente nos capítulos de mecanismos da cognição, falava-se de fenômenos mentais em que se dava uma gravação permanente de conteúdos no cérebro, desde a mais tenra infância. É óbvio que é possível pensar no medo irracional que temos de insetos do tipo barata, ou de ratos, ou de lagartixas. Esse tipo de coisa é incutido em nossas mentes por nossas mães (e pais) e lá ficam gravados pelo resto da vida, mesmo que tomemos plena consciência de que o risco até ocorre na forma de doenças, mas não é nisso que pensamos quando encaramos a cascuda. Temos um medo na sua forma pura, um medo tão desvinculado da realidade que chega a perder o próprio objeto. Por que, hein?

Bom… embora o medo não seja como o conteúdo de um livro, é algo que se aprende. E é muito útil na nossa vida. Nascemos com certos medos porque eles nos ajudam a sobreviver. Só que, se eles precisam ser aprendidos, é preciso que este processo seja rápido. Uma criança normalmente não distingue muito bem o que pode ser perigoso para ela, e coloca toda sorte de porcaria na boca, por onde ela faz alguns reconhecimentos, mas também quebra a cara. Quando ele pega uma barata e vai levá-la à boca, sua mãe (se não chegar a desmaiar) terá uma reação contundente, que vai assustar o bebê e ensiná-lo, independente da forma, de que há algo errado nesse seu ato ou no objeto a que se dedica. Para todo o sempre, esse “modelo” de reação persistirá.

Poderíamos pensar, sendo assim, que o processo de aprendizado mais primitivo vem dessa reação a reações, mas há coisas que são ainda mais instintivas do que esse modelo de interação. Não dizemos que os filhos reconhecem suas mães só de olhar? Parece poético, mas tem sua dose de realidade.

Como compreender esse processo? Se você for daqueles criacionistas arraigados, terá que olhar apenas para a espécie abençoada e será um pouco mais difícil de entender esse fenômeno. No entanto, se você achar a evolução convincente, poderá olhar para outras espécies e tirar algumas informações a partir do comportamento delas. E é o que o zoólogo e psicólogo Konrad Lorenz fez.

Este austríaco criou uma variação da Biologia chamada de etologia, partindo do princípio que seria necessário estudar os padrões de comportamentos para explicar como se dá a cognição de certas ações. Ele observou em aves que certos comportamentos absorvidos ainda nos primeiros momentos de vida são gravados de tal forma na mente dos filhotes que são carregados pelo resto de suas vidas. Parece existir algum espaço mental que precisa ser preenchido de imediato, tão logo vejam a luz. Logo que eclodem de seus ovos, os patinhos procuram qualquer coisa maior do que eles e que se mova por perto. Na imensa maioria das vezes, essa coisa será sua mãe, e o código instintivo diz que é seguro estar próximo a ela. Com isso, a lacuna estará preenchida e eles viverão da melhor forma possível. Todavia, é plenamente possível acontecer um erro nesse processo, porque o código mental dos patinhos diz assim: "siga a primeira coisa que você ver se movimentando". Essa coisa pode não ser sua mãe, mas outra ave, uma pessoa, ou até mesmo um objeto experimental inanimado, como testou Lorenz. Os bichinhos que usou em experiências andavam atrás dele como se fosse sua mãe, com aquele gingado típico dos patos. E ele deu a esse fenômeno o nome de imprinting, ou estampagem, em português. É uma alegoria para o processo de “carimbo” que um papel recebe para não mais ser apagado, ao menos sem deixar uma série de esfolamentos (o que não deixa de ser um testemunho de que por ali passou uma impressão permanente).

O imprinting seria, então, um fenômeno adquirido instintivamente, que será carregado pelo restante da vida do indivíduo. Quem cria canários está acostumado com o imprinting sem nem mesmo se dar conta do termo técnico. O que faz com que os filhotes comecem a cantar é a imitação dos pais, já que as mães somente e ocasionalmente piam. Se um canarinho não for exposto a cantos, ele não aprenderá a cantar, ficando limitado a piados parecidos com os das meninas. Mais ainda: embora haja um espectro razoável de melodias, somente àquelas que o filhote for exposto farão parte de seu repertório. Os criadores têm um truque para fazer com que isso aconteça, que é colocar um “esquentador” para puxar o canto dos meninos, outro canário que já tem as faculdades de canto desenvolvidas. Ou seja, se quisermos que o novo cantor tenha um repertório mais amplo, deveremos colocá-lo, desde bem jovem, a várias fontes canoras. É um fenômeno que eu presenciei em casa. Eu tinha um canário salsa reprodutor que teve seus filhos de primeira ninhada, e repassou a eles seu canto campainha, aquele de vibratos muito rápidos, como se fosse um guitarrista de heavy metal. Ganhei um belguinha amarelinho, amarelinho, que tinha um canto muito mais modulado, com uma gradação bem mais suave, à moda dos músicos de jazz. A segunda leva de canarinhos sabia misturar muito bem os trinados ligeiros do pai com a costura melódica do “tio”. Ou seja, tendo dois canários adultos cantando, não adianta fazer guerra: um não aprende com o outro. Entretanto, os filhotes, independentemente da filiação, aprendem cantos mistos. Passada uma determinada idade, o canto não muda mais, e essa padronagem permanecerá pelo restante de sua vida artística. Não é um belo exemplo de imprinting? 

Percebam, portanto, meus queridos, que o imprinting tem uma importante porção instintiva, mas que não pode prescindir do ambiente. Ou seja, imprinting e instinto são coisas distintas. A parte do instinto está na predisposição a preencher uma informação necessária aos elos mentais de uma criatura, mas que não tem como existir sem a parte ambiental, de onde vem a informação que o instinto tanto espera. O organismo do ser espera que a modelagem seja mantida por toda a existência do indivíduo e, de certa forma, é isso mesmo o que acontece. É óbvio que alguns comportamentos são sazonais, e, com isso, abandonados após algum tempo utilitário. O patinho não perseguirá a falsa mãe para sempre, mas certamente influenciará na maneira como ele atuará como adulto, apresentando-se como mãe (se for fêmea).

O ser humano entra na mesma lógica, ainda que sua capacidade de raciocínio permita com que certas estampagens possam ser remodeladas. O instinto também em nós existe, bastando pensar na defesa inútil que faríamos com as mãos se percebêssemos um piano caindo sobre nossa cabeça. Também em nós o instinto é uma reação imediata a uma situação que exige resposta rápida. E também em nós essa é uma janela para a gravação de impressões. Mas não é só. Temos cunhagens sempre que nos é apresentado conteúdo novo e desconhecido. A lacuna que se abre para o imprinting é exatamente esse vazio em que se faz necessário um preenchimento. O primeiro conteúdo que lá entrar ficará fixado, mesmo que venha a ser reelaborado futuramente.

Um dos comportamentos mais fáceis de se observar de estampagem no ser humano vem do exemplinho da boca que mencionei logo agora. Essa tendência a levar tudo para a boca vem pelo imprinting causado pelo ato de mamar. Um recém-nascido, quando vai mamar pela primeira vez, não sabe que seu sofrimento pode ser amenizado pela ingestão de alimento. Quem sabe disso é sua mãe, e a chave do instinto somente entra no ato da sucção. Isso grava no bebê um fato novo: colocar um seio na boca causa a satisfação do arrefecimento de um incômodo; no caso, a fome. E tudo vai para a boca após isso como consequência do imprinting.

Isso perdura pela vida inteira. Pense em qualquer coisa que lhe foi provada errada. Vou dar um exemplo meu. Sempre achei que uma boa dose de maizena ajudava a dar cabo dos desarranjos intestinais tão frequentes anos atrás. Provado e mais provado que isso não funciona, ainda hoje quando tenho espasmos fico tentado a tomar uma boa dose da adstringente solução, mesmo sabendo que nada faz a não ser dar uma bombardeada na quantidade de amido. Está lá gravado na minha cabeça, e a simples menção de um desconforto faz um restore dele para minha memória de trabalho. É inevitável.

Isso tudo está no substrato da espécie. Eu fiz aquela infame comparação entre um ser pronto e acabado e a aceitação à ideia de evolução porque não há como compreender estes fenômenos fora dos mecanismos evolutivos, a não ser que sejamos irrealisticamente concessivos com um pensamento sobrenatural. Já havia notado Lorenz que as homologias são indisputáveis, tanto no plano físico, como já observava desde Darwin, quanto no equipamento psíquico, que é tão hereditário quanto uma pinta ou um cabelo avermelhado. Se temos alguns comportamentos que se assemelham aos de macacos, de mamíferos ou de vertebrados, é porque lá atrás, há milhares e milhares de anos, tivemos ancestrais comuns. E nesses ancestrais já existiam mecanismos cognitivos que se baseavam no imprinting.

Essa é a nossa tatuagem mental. O imprinting é uma peça vital nos nossos processos de aprendizagem, porque uma cognição bem feita tende a se alastrar pelo tempo, e é muito mais difícil de ser rearranjada quando absorvida impropriamente. É algo que nossas escolas deveriam levar em conta na exposição de seus conteúdos, porque tudo o que vem depois não será tão simples de demover. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Bom livro para compreender as ideias de Lorenz e saber mais sobre etologia:

LORENZ, Konrad. Os Fundamentos da Etologia. São Paulo: UNESP, 1995.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (36 - Etimologia)

(As origens sempre são objeto de nossa curiosidade. A mesma coisa se aplica a palavras e expressões)

Olá!

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De onde você vem? Essa é uma daquelas perguntas que passam pela cabeça de todo mundo. Algumas vezes, quando ainda somos crianças, perguntamo-nos como chegamos ao mundo. Pessoas que creem em múltiplas encarnações gostariam de saber o que eram em vidas passadas. E há quem goste de traçar as origens familiares, tentando encontrar algum ramo de sua linhagem que pertença à nobreza. Isso gera as longas árvores genealógicas, muitas delas com forçadas de barra monumentais só para dar aparência insigne e augusta a alguém nem tão esplêndido assim.

De minha parte, menos metafísico, queria confirmar com mais certeza os relatos de meus ascendentes, que eram as únicas ferramentas disponíveis até bem pouco tempo atrás e, se por um lado traziam todo um colorido à nossa imaginação, por outro careciam, infelizmente, de precisão. Eu, por exemplo, sei que meus avós paternos eram italianos, e os maternos eram um da Itália, outro da Espanha. Mas e antes disso? De onde eram os avós dos meus avós? É sempre possível fazer suposições, mas sem cravar grandes prognósticos.

Daí que surgiram nos últimos tempos exames baseados em DNA para traçar as origens baseados na semelhança genômica. Isso me chamou bastante a atenção, de modo que me interessei por sapear um orçamento. Caro! Mas a magia da internet permite que tentemos conseguir promoções, e verifiquei que vários canais do YouTube oferecem cupons de desconto para quem fizesse um orçamento por sua indicação. Isso fez minha cabecinha mascateira girar suas engrenagens: é óbvio que eles não permitem cupons cumulativos via site, mas o que aconteceria se eu usasse a rapidez típica dos mercadores e um pouco de confusão mental no meu interlocutor? O jeito é tentar fechar um contato e conseguir falar com alguém de carne e osso. Em uma delas, fiz uma maçaroca de ofertas dadas por vários youtubers, introduzi a temática da vontade inenarrável, falei sobre os fregueses que se ganham e a quantidade de indicações que a gente consegue fazer e mais um monte de blá-blá-blá que minha suposta descendência judaica parecia ensinar. Sim, é verdade. Eu ando por Higienópolis e o pessoal me cumprimenta, como se pertencesse à comunidade. Quem me dera.

O resultado foi surpreendentemente bom, com um desconto de 40% para dois exames, o meu e o da patroa, o que já serve para os filhos também. Recebidos os kits e enviadas as babas, o resultado chegou em quinze dias. Com relação à patroa, deu mais ou menos o que se esperava: uma mistura de Europa Central e Américas, com pitadas de Itália e África Subsaariana. Quanto a mim, 93% de ascendência europeia, com ênfase nas Penínsulas Itálica e Ibérica e Europa Central, o que certamente vem da França, com um restinho do norte da África e do Oriente Médio. Duas surpresas, no entanto. Mesmo com a cara típica de judeuzinho do Bom Retiro, menos de dois por cento do meu DNA vem dessa etnia, e um bom pedaço dele, cerca de 10%, vem do Cáucaso, cujo representante mais comum em Terra Brasilis vem dos armênios.

Não tenho nenhuma notícia de parentes da Armênia. Tentei ainda puxar o restinho da memória dos parentes mais antigos para tentar achar alguma possível via, mas nada. A única coisa que eu sei é que meus avós moravam na Mooca e o seo Poladian, maldosamente chamado de turco da foto*, era um vizinho que tinha uma casa fotográfica. O resto é história, ainda mais porque não quero deposições contra a honra para nenhum dos meus familiares.

Todos nós gostamos de conhecer origens, porque nossa cabecinha carrega um telencéfalo extremamente desenvolvido e que é louco por estabelecer correlações de causa e efeito, mesmo que nem sempre elas sejam reais. E se procuramos saber de nossas origens, também nos apetece conhecer as origens de nossos países, de nossas religiões, de nossos sistemas sociais, de nosso conhecimento científico e até mesmo de nossos times. Fazemos isso porque uma história contada inteira dá encadeamento muito mais lógico ao estado atual do mundo, e mata uma espécie de fome de conhecimento. É como ocorre com as baratas que aterrorizam os verões brasileiros. Se sabemos por onde elas entram, podemos agir tapando buracos e instilando venenos, ao passo que uma mera presença misteriosa dá aquela sensação de braços amarrados. Ou então falando mais fácil: podemos passar a vida inteira sem perguntar de onde veio o bibelô que está na estante, mas é muito mais legal quando ele tem uma história e nós podemos transmiti-la, não é verdade?

A mesma coisa acontece com as palavras, essa espécie de átomo da linguagem, as primeiras a carregarem consigo algum sentido. E o estudo da origem das palavras e das expressões idiomáticas é conhecido como Etimologia.

Da mesma forma que ocorre com seres humanos e com coisas, sempre importa mais o sentido imediato das palavras. É quase uma coisa instintiva. Preocupamo-nos com seu uso e seu significado dentro de uma frase, no mais das vezes sem pensar em sua história, o que faz com que o estudo etimológico pareça secundário. Acontece que, se em um momento corriqueiro possa ser verdade que minúcias linguísticas nem passem pela nossa cabeça, em qualquer leitura mais aprofundada a correta interpretação da origem de uma palavra traz informações que enriquecem muito o sentido geral que se obtém.

Quando coletamos informações sobre uma cidade, como costumo fazer em meus textos de viagens, muitas vezes damos de frente com nomes indígenas, muito sonoros, mas que não sabemos de imediato o que querem dizer. Ao desvendá-los, ganhamos dados que não falam somente sobre a palavra em si, mas sobre a própria origem do lugar, e isso mostra a importância da Etimologia para além da curiosidade. No caso do estado de Pernambuco, por exemplo, uma das versões diz que este nome vem do tupi paranã-puka, que significa algo como "buraco no mar". Isso se deveria ao fato de que há um braço de mar dividindo a ilha de Itamaracá ao continente, que fica praticamente encaixada na costa, como se fosse uma peça de puzzle. Notem as informações extraídas somente da origem do nome: trata-se de uma região costeira, onde há ao menos uma ilha que contém importância geográfica. É mais ou menos o que eu já havia falado neste texto, sob outro viés, em que eu choramingava contra as mudanças de nomes significativos de ruas por sumidades absolutamente alheias à história daquele local. Outro exemplo, este vindo do português mesmo: Bahia. Sabe-se que seu nome completo era Bahia de Todos os Santos, o que já nos diz se tratar de região litorânea, com um acidente geográfico específico (a baía) e que foi descoberto no dia 1 de novembro, por ocasião da festividade católica de Todos os Santos, dia destinado, ora vejam, para homenagear todos os santos reverenciados por aquela igreja, inclusive os desconhecidos.

Bom… sejamos justos e verifiquemos a etimologia da palavra Etimologia. É uma palavra que vem do grego e é a fusão dos termos etimo e logos. Este último já é velho conhecido nosso, e, no contexto aplicado, significa estudo. Porém, como o tema é origem das palavras, vou dar uma caprichada. Logos é uma palavra polissêmica, ou seja, pode ter múltiplos sentidos. Sua raiz mais profunda está na capacidade humana de interligar o discurso com a estrutura do universo. Em outros termos, o logos é nossa razão, a transformação de realidade em conceitos e em linguagem, e seu consequente processamento. Por isso, quase sempre que queremos nos referir ao estudo sistemático de alguma área, acrescentamos a ele o termo "logia".

E o que é esse tal de étimo? É o significado mais profundo, a verdadeira acepção de um termo. Sempre que se faz um estudo aprofundado de uma palavra qualquer, é em busca do étimo que se vai.

Percebemos que a busca pelo étimo revela vias diversas de transmissão dos termos através da história. Como vivemos no Brasil e temos o português como língua base, a maior parte de nossa etimologia é de origem latina. Ocorre que nossa mestiçagem linguística é ainda maior que em Portugal. Tudo começa lá mesmo, porque o latim que origina a última flor do Lácio é cheio de misturas bárbaras, além do próprio latim já carregar consigo muitas etimologias indiretas. Eu falava sobre o étimo. Ele chegou a nós pelo latim etymon, que, por sua vez, é oriundo do grego étymos. O mesmo ocorreu por via das invasões ao império romano, que trouxeram palavras germânicas, árabes et cetera. A alface de sua salada, por exemplo, tão cara aos portugueses, veio do Magreb, que conheciam a folhagem por al khass.

Só que em Pindorama a coisa é ainda mais enriquecida com vitaminas e ferro. Esta é uma terra de imigrantes, de escravatura tardia e que era povoada de indígenas, o que fez com que sua língua se tornasse ainda mais preenchida de termos que o português de Portugal. Notem que alguns deles são vazios de sentido para os conterrâneos de Camões, mas que podem ser aproveitados por aqui sem perdas: “tocaia” e “esconderijo” são sinônimos no Brasil, sendo que o primeiro, sendo de origem tupi-guarani, inexiste em Portugal; no Brasil, a palavra “tchau” se tornou marca da despedida breve, vindo do italiano ciao, o que não ocorre em Portugal. “Moleque”, de origem africana, não faz grande sentido na ponta da península. E assim vai.

Os etimólogos fazem trabalho de gente grande. Normalmente, temos o termo presente e consegue-se recuar no tempo com alguma tranquilidade até certo ponto. Daí para trás, os elementos vão ficando mais e mais nebulosos, até se perderem na poeira do tempo. Entretanto, a busca é fundamentalmente sempre a mesma: encontrar o radical de um termo. Essa palavra vem de raiz, que é uma alegoria para o que de mais profundo uma palavra pode ter. Para descobrir essa origem mais remota, é bastante normal a necessidade de uma espécie de engenharia reversa, atentando à maneira como a palavras se formam para fazer o processo invertido. Eles levam em consideração fatores como:

Afixação: um radical dificilmente é apresentado sozinho para dar significado completo a uma palavra. Notem, por exemplo, que os verbos contêm suas várias desinências para situar o tempo e as pessoas. O verbo “cruzar”, por exemplo, tem seu radical cruz-, que sempre estará presente em qualquer palavra que lhe seja derivada, além do sufixo -ar, que lhe dá a característica de ser um infinitivo, e daí por diante na conjugação: cruzei, cruzaste, cruzaria, cruzem, cruzando e via discorrendo. Também há prefixos que modificam o radical - entrecruzar, descruzar e por aí vai.

Apofonia: é a alteração de timbre de vogais em vocábulos que compartilham um mesmo radical. É muito comum observar este fenômeno nos plurais onde a letra “O” é fechada no singular e aberta no plural: porto/portos, novo/novos, gostoso/gostosos. Há casos, porém, em que a alteração é mais radical, com a substituição de uma vogal por outra. Um clássico vem da correlação podos em grego e pedis em latim. Ambas significam “pé” em português, mas a diferença no uso do radical faz com que palavras grafadas de maneira diferente tenham significado igual, como em podofilia e pedolatria, o ato de ter fetiche por pés. Não confundir com pedofilia, por gentileza, que é coisa muito mais séria.

Assimilação: a junção de certas letras no processo de afixação tem a tendência de fazer com que uma assimile a outra, modificando-a ou suprimindo-a. Comparando a palavra ajuntar e adjunto, podemos verificar que ambas possuem o mesmo radical e o mesmo prefixo. Entretanto, em ajuntar ocorreu a assimilação da letra “D” no prefixo ad, enquanto em adjunto isso não ocorreu.

Particípio: é o processo de adjetivação de um verbo. A questão aqui é que frequentemente vemos um particípio nascer de outro particípio. Desta forma, quando se acha o radical de uma palavra, encontraremos um particípio, e ele mesmo já será a derivação de outra.

Há ainda outros fenômenos de transformação, como a tendência em se trocar sistematicamente uma letra por outra, como demonstrei no texto deste link, ou a utilização de letras de ligação para acomodação fonética. Um bom exemplo é a palavra “chaleira”, cuja composição dispensaria a consoante “L”, mas fica muito esquisito falar chaeira, concordam? É muito mais acomodado linguisticamente a palavra com a adição da ligação, mas etimologicamente se torna um problema quando acontece em uma língua remota.

A etimologia não cuida unicamente das origens das palavras, mas também das expressões idiomáticas, que são muito mais particulares de cada língua, porque envolvem muito do viver popular próprio. Isso faz com que a tradução de uma expressão brasileira não faça sentido algum em Portugal ou em Angola, por exemplo. O termo “pedra noventa”, comum no século XX nas regiões de colonização italiana, é completamente estranha em Portugal. E por que? É que é uma expressão que vem do jogo de tombola, semelhante ao bingo, que é composto por cartelas com números que vão sendo sorteados de um saquinho, até que alguém as complete. A maior das pedras é a noventa, e, portanto, o pedra noventa é o amigo que não dá furo, aquele em que a gente pode confiar.

Por todo o exposto, é bem fácil de notar como a etimologia não é apenas um apanhado de curiosidades sobre a origem dos nomes (embora essa seja uma característica absolutamente legítima). É também um delineador das rotas por onde o conhecimento passa. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Um clássico das consultas etimológicas:

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lexicon, 2010,

* Chamar um armênio de turco é a mesma coisa que glorificar o assassino de seus pais, meu caro leitor. Para maiores detalhes, leiam este texto.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Sobre labirintite e a falseabilidade como demarcadora das Ciências (ou: um texto mais elaborado sobre Popper)

(Por que a Ciência traz resultados discrepantes entre si? O que faz com que uma atividade possa ser considerada científica?)

Olá!

"Vamos iniciar. Entre na cabine, feche a porta e coloque os fones. Você ouvirá alguns ruídos de frequência que variarão de intensidade e tom. Avise apenas se ficar insuportável".

"Agora, você ouvirá diversos sinais de intensidade diferente, primeiro no ouvido direito, depois no esquerdo. A cada vez que ouvir um destes sinais, aperte o botão do aparelho, mesmo que seja bem baixinho".

"Vamos agora fazer algo semelhante, só que com palavras. Eu direi uma palavra e o senhor a repetirá, a não ser que não a entenda. Não arrisque acertar; se não compreender, simplesmente não responda. Criança… tijolo… papel… (inaudível)... laranja… quadro… (inaudível)... ovelha… Somente monossilábicas agora: cão… giz… luz… mãe… sol… flor… lei. Tudo bem, pode sair da cabine e sentar na poltrona. Vou colar eletrodos em seu rosto”.

"Observe esta barra. O senhor acompanhará as luzes vermelhas que acenderão diversas vezes, às vezes à direita, às vezes à esquerda. Faça isso apenas com os olhos, sem mover a cabeça. Depois, faremos o mesmo para cima e para baixo".

"Neste momento, perceba que há um ponto vermelho na parede. Vou reclinar a poltrona e rotacionar sua cabeça para a direita. Em seguida, vamos voltar para a posição original e o senhor fixará seu olhar naquele ponto, evitando piscar por trinta segundos. Em seguida, faremos a mesma manobra para a esquerda".

"Vou agora fazer estímulos calóricos nos seus labirintos. Primeiro, faremos soprar ar frio em ambos os ouvidos. Depois faremos o mesmo com ar quente. Relate qualquer incômodo que sentir".

"Está concluído. Seu laudo estará disponível em trinta minutos. Passar bem".

Impedanciometria, audiometria tonal e vocal, nistagmo optocinético e pendular e o palavrão vectoeletronistagmografia, mais facilmente chamado de VENG. Essa é a batelada de exames que me passaram para tentar diagnosticar labirintite, que ameaçou me alcançar no episódio que relatei para vocês neste texto.

Peguei esse pacote todo e fui numa especialista em vertigens, que vaticinou: "você tem uma perda auditiva moderada no ouvido esquerdo. E com relação à labirintite, o resultado é inconclusivo. Passar bem".

Apesar da surdez ser o ápice de um processo degenerativo irreversível, é com uma ponta de altivez que recebo o diagnóstico. É como se fosse uma cicatriz de guerra, que mostramos aos nossos netos como prova de nossa coragem. Mas a minha batalha não envolvia fuzis e bazucas, mas guitarras e baterias. Eu já contei minha história musical, então não vou repisar tudo de novo, bastando que os prezados leitores leiam os seguintes textos (se quiserem): um, dois, três e quatro. A banda na qual eu passei mais tempo e produzi mais e melhor foi o Exílio, típico comboio de duas guitarras, baixo e bateria, com os vocais sendo exercidos em revezamento. Embora as ideias pululassem na cabeça e nas mãos, não tínhamos orçamento que prestasse, mas, como nem tudo é desgraça, o guitarrista-base era eletrônico, então conseguíamos fazer renascer velhos equipamentos que os fregueses deixavam de lado. Com isso, tínhamos instrumentos abaixo da crítica, mas os amplificadores e caixas não iam mal.

Formamos uma parede sonora bastante respeitável no auge. Um amplificador a transistor de 500 watts de potência real alimentava um woofer e duas cornetas próprios, que eram bons para baixo e vozes, e mais uma caixa acústica daquelas com base de concreto, pesadíssima, um inferno para carregar. Ela era alimentada por um amplificador valvulado, daqueles que só dão aquele delicioso fuzz típico dos hardões que tanto amávamos quando seu volume está devidamente arregaçado. O resultado é que qualquer passagenzinha de som fazia as paredes tremerem, para nosso gáudio e desespero da vizinhança. Se um artefato de tijolo e cimento é abalado, o que não se fará com as frágeis membranas de um tímpano perfurado já na infância.

Ah, sim, preciso contar essa também. Eu-menino, assim como qualquer guri da minha idade, imitávamos nossos pais no que eles tinham de pior. O meu velho gostava de limpar os ouvidos com o mesmo palito de fósforo com o qual acendia seus cigarros, para impaciência da minha mãe. Um dia resolvi fazer o mesmo, do alto dos meus quatro anos. Sabedor da censura certa, fui limpar meus ouvidos escondido atrás do tanque, só que com um palito de dentes. O resultado foi a perfuração, a correria para o médico e a posterior sova, tão expressiva de uma época.

Portanto, no final das contas, passa pela cabeça da gente aquele orgulho besta de quem tem uma história por trás da moléstia, uma história gloriosa, invejável até, que nos tira do lugar comum e nos dá uma distinção, e não um mero arrependimento de não ter feito exercícios regularmente.

Só que para além da proto-surdez havia a tal labirintite. Não fiquei feliz de não saber a causa exata das minhas tonteiras. Toda a narrativa que abre este texto demorou uns 40 minutos, e embora nem de longe tenha sido o pior exame que eu já fiz, não dá para dizer que virou um programa a ser repetido por prazer. E o que é pior: falta de diagnóstico representa tratamento claudicante, meio que na base da tentativa e erro. Por enquanto, só tenho a recomendação de evitar daqueles fones intra-auriculares e maneirar com volumes altos. Também devo ficar atento com alterações perceptivas com certas comidas e bebidas, e ça tout. Passe bem e volte se piorar.

Mas aqui cabe lembrar que a medicina está no campo da Ciência, e, por conta disso, os médicos, cientistas que são, não têm certezas. Quem tem certezas são curandeiros, pajés e outros ofertadores de curas milagrosas que multiplicam os dólares em programas de tevê. Com o resultado que tão bem conhecemos.

Mas se a Ciência se diz tão rigorosa com provas e experimentos, por que suas conclusões são tão imprecisas, por que seus resultados são tão variáveis, por que o que vale hoje não vale mais amanhã? Já notaram quantas vezes o ovo fazia mal, para depois fazer bem?

Para responder bem a esta pergunta, vou precisar retomar um antigo texto deste espaço (esse aqui) e formulá-lo melhor, com mais detalhes. Ele foi bom, mas todas as vezes que eu o releio, sinto falta de informações que o situam mais precisamente no tempo e na atual maneira de fazer Ciência. Chegou a hora, vamos nessa. Mas calma, não vou reescrever o projeto da roda.


Seria inviável resgatar historicamente toda a história das ideias científicas, porque eu teria que remontar à mais antiga das antiguidades do pensamento. Basta aqui relembrar as ligações do racionalismo com as deduções e do empirismo com as induções. No primeiro caso, temos a primazia do raciocínio na resolução dos desafios científicos. O Racionalismo prega que a Ciência é formulação, obtida a partir de um processo dedutivo que reduz a realidade a enunciados e axiomas capazes de estabelecer uma verdade universal e necessária. O Empirismo, por sua vez, estabelece que a Ciência tem como base a observação dos fatos através de experiências repetidas, produzindo abundante material observacional, porque se impacta pela maior oferta de experimentação, tornando-se mais firme a partir de mais casos analisados, em um processo francamente indutivo.

O grande problema é que ambas as concepções carregavam consigo dificuldades inerentes. O Racionalismo faz com que a Ciência nunca se descole da Metafísica, porque, embora a expressão matemática e a formulação lógica sejam úteis e necessárias, não se pode chegar a resultado algum sem que se olhe para o próprio cosmos. Já o Empirismo sofre de uma doença já detectada pelo próprio David Hume, um dos seus defensores: o problema da indução. Para que esta funcionasse a contento, precisaríamos de um universo estático e com visão da totalidade das coisas; do contrário, sempre poderemos ter um caso particular que divirja da generalização obtida. Uma indução é sempre incompleta.

O que há de comum em ambas as concepções? De uma forma ou de outra, ambas tentam retratar a realidade. Seja pela via da racionalização, seja pela via da observação, ambas buscam representações do cosmos que nos cerca, e entendem que seu objetivo é obtê-lo de maneira precisa.

Entretanto, desde Kant tornou-se consensual que a racionalidade existe, participa do processo cognitivo, mas que não é nada sem os conteúdos empíricos. Dessa forma, toda a Ciência que se praticou daí por diante deu grande ênfase ao processo indutivo, aquele que é extraído da experiência direta. Por esse motivo, a premissa básica da metodologia científica que imperou desde o Positivismo foi a verificabilidade. Proposta científica, portanto, é aquela que pode ser provada.

Isso andou nesses passos até o início do século XX. Eram épocas onde a Filosofia da Ciência era fortemente influenciada por três sendas: o Neopositivismo do Círculo de Viena (Wiener Kreis), a Filosofia Analítica e, um pouco mais tarde, a marxista Escola de Frankfurt. Karl Popper, pai do atual método científico, era contrário às três, embora seja vinculado pelos historiadores da Filosofia à primeira por questões de naturalidade. Dos frankfurtianos, dizia defenderem teorias sem cientificidade. Aos analíticos, reservava a crítica de que não somente as palavras são capazes de sustentar a Filosofia e, principalmente dos Neopositivistas de Viena, entendia que o critério de verificabilidade era insuficiente para tornar a metodologia científica de então algo que verdadeiramente traduzisse as reais possibilidades de conhecimento.

Estes filósofos eram assim chamados porque retomavam o princípio geral do Positivismo, que dizia ser apenas o conhecimento científico aquele verdadeiramente válido. Isso colocava qualquer outra forma de conhecimento, inclusive filosofias ligadas à Metafísica, no plano do pensamento inútil. Estabeleceram um critério para diferenciar as Ciências dos demais campos do conhecimento: Ciência era o conhecimento verificável. Tudo o mais eram conjecturas sem valor de verdade.

Com relação aos princípios científicos em voga, já havia uma série de críticas ao mecanismo indutivo tão caro ao círculo de Viena. Popper relembra do exercício mental do peru indutivista de Bertrand Russell, que usa do sarcasmo para demonstrar a deficiência do método. Ele é mais ou menos assim: imaginem que um jovem peru tenha chegado no começo do ano a uma granja. Ao receber seu alimento, percebe que ele foi dado às nove horas da manhã. Todos os dias a mesma experiência se repetia - nove horas, ração colocada. O acúmulo de repetições por dias e meses fez com que o peru indutivista conseguisse estabelecer uma regra, e que poderia esperar sua quota de alimentação todos os dias no mesmo horário. Pena que ele percebeu isso no dia 24 de dezembro, véspera de quando ele deixaria de ser alimentado para virar alimento.

A ironia de Russell não é gratuita, porque de fato estamos diante de uma base frágil demais se a pretensão é calcar a verdade, como queriam os positivistas lógicos. Basta uma única ocorrência discrepante para que toda uma teoria seja derrubada. Acompanhando esse raciocínio, Popper ensina que a indução simplesmente não existe, ao menos como geradora de certezas. Ele dá dois exemplos que se tornaram clássicos: sempre se poderá dizer que todos os cisnes são brancos, até se encontrar um que seja negro, e também que todas as moléculas de água serão compostas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, o que não pode ser uma certeza fechada até que se consiga verificar TODAS as moléculas de água do universo.

Outra crítica dizia respeito à suposta neutralidade do pesquisador. Segundo os vienenses, o cientista deveria se despir de todo juízo prévio antes de realizar suas observações, como na tabula rasa de John Locke. Popper chama essa atitude de observativismo, e dizia que a neutralidade almejada era um mito. A mente de qualquer pessoa não é um papel em branco, mas um quadro-negro, repleto de sinais deixados pelos usos anteriores. Percebem como ficam as lousas apagadas das aulas anteriores? Mesmo sem os riscos de giz, há tantos traços e resíduos que podem mesmo atrapalhar a compreensão da próxima lição que será escrita. Essa metáfora indica que estamos plenos de traços culturais, concepções já absorvidas, informações adquiridas desde o nascimento e, obviamente, preconceitos, em qualquer sentido que se pense. Não há como impedir que toda esse patrimônio preexistente se imbrique com o novo conhecimento pretendido.

Como há toda essa carga cognitiva e cultural já embutida não somente no pesquisador, mas em qualquer ser humano, toda observação nasce não como uma mera atividade, mas como um problema, no seu contexto negativo mesmo: uma perturbação a uma ordem preestabelecida que precisa ser resolvida. Sempre teorizamos as resoluções dos problemas, não há algo como uma mente pura que observa um fenômeno como se fosse uma criança.

Mas então, Popper pensa que a ciência é impossível? Não, apenas que precisa mudar seus próprios paradigmas, o que implica em ajustar sua metodologia e seu objetivo final.

Popper dá a letra de sua filosofia: qualquer quantidade de observações que confirme uma teoria não servirá para prová-la verdadeira, mas uma única observação que a contradiga torná-la-á falsa. Então é isso que um procedimento científico deve procurar - meios de falsificar uma teoria, de provar que ela está errada, e não de confirmá-la.

Como uma experiência de cunho científico nasce de um problema, a sua resolução envolve sempre uma proposta que precisa ser averiguada, uma concatenação lógica de ideias que pressupõe ser uma resposta ou, em uma só palavra, uma hipótese. Hipótese é um termo de origem grega que significa algo como "estar abaixo de uma posição". A hipótese não é uma solução definitiva, mas o nascedouro de uma tese.

Quando um cientista estabelece um objeto de observação, não abrirá mão do processo indutivo. Ele vai utilizá-lo até chegar a um ponto em que o estudo de casos particulares permita estabelecer uma hipótese. É neste ponto, no entanto, que o processo investigativo se estabelecerá. Ele já tem uma premissa universal estabelecida pela hipótese, e seu objetivo será não mais criar uma coleção de casos particulares, prosseguindo assim com o caminho indutivo, mas procurará pontos em que essa sua hipótese será provada falsa. Ele não procurará novos cisnes brancos, mas os cisnes negros. Ele vai combater a própria hipótese, e a cada vez que ela resistir, mais e mais consolidada se tornará. Esse é o seu novo método científico, conhecido como hipotético-dedutivo.

Mas e se a hipótese for falseada? Neste caso, será descartada e uma nova hipótese deverá ser criada. Em casos menos decisivos, no mínimo a hipótese deverá ser corrigida. E isso dá o tom geral na nova Ciência: ela precisa ter a pretensão da verdade, bem como a consciência de sua inatingibilidade, de seu caráter provisório, de sua incerteza. Uma hipótese nunca é provada – o que ocorre é que uma experiência que a coloque a prova pode confirmá-la ou refutá-la. Se a confirma, pode fortalecê-la, mas jamais dar-lhe estatuto de verdade definitiva. Isso acontece porque há uma assimetria lógica entre a verificabilidade e o falseamento. É tipo assim: enquanto o time da verificação vai fazendo gols, ele vai ganhando o jogo; assim que o time da falsificação faz o seu primeiro tento, já ganha o jogo, mesmo que esteja 25 a 1. Para um time, o objetivo é fazer o máximo de gols possível e não tomar nenhum; para o outro, é só fazer unzinho, uma espécie de morte súbita.

Esse é o motivo pelo qual muda-se a demarcação da Ciência. Uma teoria somente pode ganhar o estatuto de científica quando receber o selo de falseabilidade. É um processo que garante claramente o alcance da ciência, bem como onde ela não pode chegar. Não tenta retratar a realidade como queriam tanto racionalistas quanto empiristas, mas aproximar-se dela, o mais possível e pelo maior tempo que der, mas sempre sujeita a ser revista no dia seguinte. O conhecimento gerado por ela não é verdade absoluta, mas verossímil. Nunca teremos teorias definitivas, mas precisamos desafiá-las. É por isso que conhecimentos metafísicos e religiosos costumam se dar mal com o princípio da falseabilidade. Quem prova Deus? Quem demonstra os anjos e as almas? Todas as vezes em que se tentar achar pontos de falseabilidade para teorias envolvendo disposições metafísicas, falhar-se-á. Mas ainda aqui há um certo respeito pela parte de Popper. Pior para ele são as pseudociências (mencionadas aqui), que se travestem de carapaça científica sem o serem. Ele coloca nesse balaio o Historicismo de Marx, a Psicanálise de Freud e a Psicologia Individual de Adler, porque sempre que são mostradas falsas, encontram modos de tergiversar. A Revolução Proletária não ocorreu porque ainda os camponeses e operários estão na alienação, os processos psíquicos sempre são passíveis de ser explicados pela neurose e pela sublimação, e o sentimento de inferioridade possui uma plástica que permite adaptá-lo a qualquer circunstância. As coisas que são apresentadas como contraprovas a essas teorias são todas absorvidas pela sua maleabilidade, como se fossem mistérios divinos. Tudo isso impossibilita pontos de falseamento. E gera inimigos.

Sendo assim, se não há resultado definitivo para meus exames de labirintite, nada mais me resta a não ser se conformar ou procurar outros especialistas que possam se pronunciar no assunto, como um neurologista, por exemplo. Não adianta esperar por um espírito que venha me rastrear os males da alma. Não no âmbito da Ciência.

É claro que, apesar de todo consenso que atingiu nas academias científicas de todo o mundo, as teorias de Popper não são imunes às críticas. Alguns outros filósofos da Ciência, como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn, já teceram outras teorias para explicar como pode se dar o desenvolvimento da Ciência. Além disso, as Ciências Humanas tem dificuldades em apresentar pontos de falseabilidade, não porque eles sejam impossíveis, mas porque são difíceis de atingir, como eu já havia dito neste texto. E há uma última questão: qual é o ponto de falseabilidade da teoria da falseabilidade? Onde ela pode ser provada errada?

Para este último ponto, a resposta é simples. Por mais que envolva diretamente a Ciência e seus métodos, trata-se de uma questão filosófica, e não científica. Ela tem um nascedouro especulativo, propõe-se a tratar do fenômeno em sua essência e é todo coberto pela lógica, sem que se precise provar nada a seu respeito. É por isso que Filosofia e Ciência não são a mesma coisa e precisam ter escopos distintos. E há quem diga que a Filosofia não sirva para nada... Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Impossível não fazer novamente remissão à magnum opus de Popper:

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1993.

Mas também é possível adicionar outras leituras, como a coletânea de artigos que segue abaixo:

POPPER, Karl. O Mito do Contexto. Em Defesa da Ciência e da Racionalidade. Coimbra: Edições 70, 2016.