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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Sobre labirintite e a falseabilidade como demarcadora das Ciências (ou: um texto mais elaborado sobre Popper)

(Por que a Ciência traz resultados discrepantes entre si? O que faz com que uma atividade possa ser considerada científica?)

Olá!

"Vamos iniciar. Entre na cabine, feche a porta e coloque os fones. Você ouvirá alguns ruídos de frequência que variarão de intensidade e tom. Avise apenas se ficar insuportável".

"Agora, você ouvirá diversos sinais de intensidade diferente, primeiro no ouvido direito, depois no esquerdo. A cada vez que ouvir um destes sinais, aperte o botão do aparelho, mesmo que seja bem baixinho".

"Vamos agora fazer algo semelhante, só que com palavras. Eu direi uma palavra e o senhor a repetirá, a não ser que não a entenda. Não arrisque acertar; se não compreender, simplesmente não responda. Criança… tijolo… papel… (inaudível)... laranja… quadro… (inaudível)... ovelha… Somente monossilábicas agora: cão… giz… luz… mãe… sol… flor… lei. Tudo bem, pode sair da cabine e sentar na poltrona. Vou colar eletrodos em seu rosto”.

"Observe esta barra. O senhor acompanhará as luzes vermelhas que acenderão diversas vezes, às vezes à direita, às vezes à esquerda. Faça isso apenas com os olhos, sem mover a cabeça. Depois, faremos o mesmo para cima e para baixo".

"Neste momento, perceba que há um ponto vermelho na parede. Vou reclinar a poltrona e rotacionar sua cabeça para a direita. Em seguida, vamos voltar para a posição original e o senhor fixará seu olhar naquele ponto, evitando piscar por trinta segundos. Em seguida, faremos a mesma manobra para a esquerda".

"Vou agora fazer estímulos calóricos nos seus labirintos. Primeiro, faremos soprar ar frio em ambos os ouvidos. Depois faremos o mesmo com ar quente. Relate qualquer incômodo que sentir".

"Está concluído. Seu laudo estará disponível em trinta minutos. Passar bem".

Impedanciometria, audiometria tonal e vocal, nistagmo optocinético e pendular e o palavrão vectoeletronistagmografia, mais facilmente chamado de VENG. Essa é a batelada de exames que me passaram para tentar diagnosticar labirintite, que ameaçou me alcançar no episódio que relatei para vocês neste texto.

Peguei esse pacote todo e fui numa especialista em vertigens, que vaticinou: "você tem uma perda auditiva moderada no ouvido esquerdo. E com relação à labirintite, o resultado é inconclusivo. Passar bem".

Apesar da surdez ser o ápice de um processo degenerativo irreversível, é com uma ponta de altivez que recebo o diagnóstico. É como se fosse uma cicatriz de guerra, que mostramos aos nossos netos como prova de nossa coragem. Mas a minha batalha não envolvia fuzis e bazucas, mas guitarras e baterias. Eu já contei minha história musical, então não vou repisar tudo de novo, bastando que os prezados leitores leiam os seguintes textos (se quiserem): um, dois, três e quatro. A banda na qual eu passei mais tempo e produzi mais e melhor foi o Exílio, típico comboio de duas guitarras, baixo e bateria, com os vocais sendo exercidos em revezamento. Embora as ideias pululassem na cabeça e nas mãos, não tínhamos orçamento que prestasse, mas, como nem tudo é desgraça, o guitarrista-base era eletrônico, então conseguíamos fazer renascer velhos equipamentos que os fregueses deixavam de lado. Com isso, tínhamos instrumentos abaixo da crítica, mas os amplificadores e caixas não iam mal.

Formamos uma parede sonora bastante respeitável no auge. Um amplificador a transistor de 500 watts de potência real alimentava um woofer e duas cornetas próprios, que eram bons para baixo e vozes, e mais uma caixa acústica daquelas com base de concreto, pesadíssima, um inferno para carregar. Ela era alimentada por um amplificador valvulado, daqueles que só dão aquele delicioso fuzz típico dos hardões que tanto amávamos quando seu volume está devidamente arregaçado. O resultado é que qualquer passagenzinha de som fazia as paredes tremerem, para nosso gáudio e desespero da vizinhança. Se um artefato de tijolo e cimento é abalado, o que não se fará com as frágeis membranas de um tímpano perfurado já na infância.

Ah, sim, preciso contar essa também. Eu-menino, assim como qualquer guri da minha idade, imitávamos nossos pais no que eles tinham de pior. O meu velho gostava de limpar os ouvidos com o mesmo palito de fósforo com o qual acendia seus cigarros, para impaciência da minha mãe. Um dia resolvi fazer o mesmo, do alto dos meus quatro anos. Sabedor da censura certa, fui limpar meus ouvidos escondido atrás do tanque, só que com um palito de dentes. O resultado foi a perfuração, a correria para o médico e a posterior sova, tão expressiva de uma época.

Portanto, no final das contas, passa pela cabeça da gente aquele orgulho besta de quem tem uma história por trás da moléstia, uma história gloriosa, invejável até, que nos tira do lugar comum e nos dá uma distinção, e não um mero arrependimento de não ter feito exercícios regularmente.

Só que para além da proto-surdez havia a tal labirintite. Não fiquei feliz de não saber a causa exata das minhas tonteiras. Toda a narrativa que abre este texto demorou uns 40 minutos, e embora nem de longe tenha sido o pior exame que eu já fiz, não dá para dizer que virou um programa a ser repetido por prazer. E o que é pior: falta de diagnóstico representa tratamento claudicante, meio que na base da tentativa e erro. Por enquanto, só tenho a recomendação de evitar daqueles fones intra-auriculares e maneirar com volumes altos. Também devo ficar atento com alterações perceptivas com certas comidas e bebidas, e ça tout. Passe bem e volte se piorar.

Mas aqui cabe lembrar que a medicina está no campo da Ciência, e, por conta disso, os médicos, cientistas que são, não têm certezas. Quem tem certezas são curandeiros, pajés e outros ofertadores de curas milagrosas que multiplicam os dólares em programas de tevê. Com o resultado que tão bem conhecemos.

Mas se a Ciência se diz tão rigorosa com provas e experimentos, por que suas conclusões são tão imprecisas, por que seus resultados são tão variáveis, por que o que vale hoje não vale mais amanhã? Já notaram quantas vezes o ovo fazia mal, para depois fazer bem?

Para responder bem a esta pergunta, vou precisar retomar um antigo texto deste espaço (esse aqui) e formulá-lo melhor, com mais detalhes. Ele foi bom, mas todas as vezes que eu o releio, sinto falta de informações que o situam mais precisamente no tempo e na atual maneira de fazer Ciência. Chegou a hora, vamos nessa. Mas calma, não vou reescrever o projeto da roda.


Seria inviável resgatar historicamente toda a história das ideias científicas, porque eu teria que remontar à mais antiga das antiguidades do pensamento. Basta aqui relembrar as ligações do racionalismo com as deduções e do empirismo com as induções. No primeiro caso, temos a primazia do raciocínio na resolução dos desafios científicos. O Racionalismo prega que a Ciência é formulação, obtida a partir de um processo dedutivo que reduz a realidade a enunciados e axiomas capazes de estabelecer uma verdade universal e necessária. O Empirismo, por sua vez, estabelece que a Ciência tem como base a observação dos fatos através de experiências repetidas, produzindo abundante material observacional, porque se impacta pela maior oferta de experimentação, tornando-se mais firme a partir de mais casos analisados, em um processo francamente indutivo.

O grande problema é que ambas as concepções carregavam consigo dificuldades inerentes. O Racionalismo faz com que a Ciência nunca se descole da Metafísica, porque, embora a expressão matemática e a formulação lógica sejam úteis e necessárias, não se pode chegar a resultado algum sem que se olhe para o próprio cosmos. Já o Empirismo sofre de uma doença já detectada pelo próprio David Hume, um dos seus defensores: o problema da indução. Para que esta funcionasse a contento, precisaríamos de um universo estático e com visão da totalidade das coisas; do contrário, sempre poderemos ter um caso particular que divirja da generalização obtida. Uma indução é sempre incompleta.

O que há de comum em ambas as concepções? De uma forma ou de outra, ambas tentam retratar a realidade. Seja pela via da racionalização, seja pela via da observação, ambas buscam representações do cosmos que nos cerca, e entendem que seu objetivo é obtê-lo de maneira precisa.

Entretanto, desde Kant tornou-se consensual que a racionalidade existe, participa do processo cognitivo, mas que não é nada sem os conteúdos empíricos. Dessa forma, toda a Ciência que se praticou daí por diante deu grande ênfase ao processo indutivo, aquele que é extraído da experiência direta. Por esse motivo, a premissa básica da metodologia científica que imperou desde o Positivismo foi a verificabilidade. Proposta científica, portanto, é aquela que pode ser provada.

Isso andou nesses passos até o início do século XX. Eram épocas onde a Filosofia da Ciência era fortemente influenciada por três sendas: o Neopositivismo do Círculo de Viena (Wiener Kreis), a Filosofia Analítica e, um pouco mais tarde, a marxista Escola de Frankfurt. Karl Popper, pai do atual método científico, era contrário às três, embora seja vinculado pelos historiadores da Filosofia à primeira por questões de naturalidade. Dos frankfurtianos, dizia defenderem teorias sem cientificidade. Aos analíticos, reservava a crítica de que não somente as palavras são capazes de sustentar a Filosofia e, principalmente dos Neopositivistas de Viena, entendia que o critério de verificabilidade era insuficiente para tornar a metodologia científica de então algo que verdadeiramente traduzisse as reais possibilidades de conhecimento.

Estes filósofos eram assim chamados porque retomavam o princípio geral do Positivismo, que dizia ser apenas o conhecimento científico aquele verdadeiramente válido. Isso colocava qualquer outra forma de conhecimento, inclusive filosofias ligadas à Metafísica, no plano do pensamento inútil. Estabeleceram um critério para diferenciar as Ciências dos demais campos do conhecimento: Ciência era o conhecimento verificável. Tudo o mais eram conjecturas sem valor de verdade.

Com relação aos princípios científicos em voga, já havia uma série de críticas ao mecanismo indutivo tão caro ao círculo de Viena. Popper relembra do exercício mental do peru indutivista de Bertrand Russell, que usa do sarcasmo para demonstrar a deficiência do método. Ele é mais ou menos assim: imaginem que um jovem peru tenha chegado no começo do ano a uma granja. Ao receber seu alimento, percebe que ele foi dado às nove horas da manhã. Todos os dias a mesma experiência se repetia - nove horas, ração colocada. O acúmulo de repetições por dias e meses fez com que o peru indutivista conseguisse estabelecer uma regra, e que poderia esperar sua quota de alimentação todos os dias no mesmo horário. Pena que ele percebeu isso no dia 24 de dezembro, véspera de quando ele deixaria de ser alimentado para virar alimento.

A ironia de Russell não é gratuita, porque de fato estamos diante de uma base frágil demais se a pretensão é calcar a verdade, como queriam os positivistas lógicos. Basta uma única ocorrência discrepante para que toda uma teoria seja derrubada. Acompanhando esse raciocínio, Popper ensina que a indução simplesmente não existe, ao menos como geradora de certezas. Ele dá dois exemplos que se tornaram clássicos: sempre se poderá dizer que todos os cisnes são brancos, até se encontrar um que seja negro, e também que todas as moléculas de água serão compostas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, o que não pode ser uma certeza fechada até que se consiga verificar TODAS as moléculas de água do universo.

Outra crítica dizia respeito à suposta neutralidade do pesquisador. Segundo os vienenses, o cientista deveria se despir de todo juízo prévio antes de realizar suas observações, como na tabula rasa de John Locke. Popper chama essa atitude de observativismo, e dizia que a neutralidade almejada era um mito. A mente de qualquer pessoa não é um papel em branco, mas um quadro-negro, repleto de sinais deixados pelos usos anteriores. Percebem como ficam as lousas apagadas das aulas anteriores? Mesmo sem os riscos de giz, há tantos traços e resíduos que podem mesmo atrapalhar a compreensão da próxima lição que será escrita. Essa metáfora indica que estamos plenos de traços culturais, concepções já absorvidas, informações adquiridas desde o nascimento e, obviamente, preconceitos, em qualquer sentido que se pense. Não há como impedir que toda esse patrimônio preexistente se imbrique com o novo conhecimento pretendido.

Como há toda essa carga cognitiva e cultural já embutida não somente no pesquisador, mas em qualquer ser humano, toda observação nasce não como uma mera atividade, mas como um problema, no seu contexto negativo mesmo: uma perturbação a uma ordem preestabelecida que precisa ser resolvida. Sempre teorizamos as resoluções dos problemas, não há algo como uma mente pura que observa um fenômeno como se fosse uma criança.

Mas então, Popper pensa que a ciência é impossível? Não, apenas que precisa mudar seus próprios paradigmas, o que implica em ajustar sua metodologia e seu objetivo final.

Popper dá a letra de sua filosofia: qualquer quantidade de observações que confirme uma teoria não servirá para prová-la verdadeira, mas uma única observação que a contradiga torná-la-á falsa. Então é isso que um procedimento científico deve procurar - meios de falsificar uma teoria, de provar que ela está errada, e não de confirmá-la.

Como uma experiência de cunho científico nasce de um problema, a sua resolução envolve sempre uma proposta que precisa ser averiguada, uma concatenação lógica de ideias que pressupõe ser uma resposta ou, em uma só palavra, uma hipótese. Hipótese é um termo de origem grega que significa algo como "estar abaixo de uma posição". A hipótese não é uma solução definitiva, mas o nascedouro de uma tese.

Quando um cientista estabelece um objeto de observação, não abrirá mão do processo indutivo. Ele vai utilizá-lo até chegar a um ponto em que o estudo de casos particulares permita estabelecer uma hipótese. É neste ponto, no entanto, que o processo investigativo se estabelecerá. Ele já tem uma premissa universal estabelecida pela hipótese, e seu objetivo será não mais criar uma coleção de casos particulares, prosseguindo assim com o caminho indutivo, mas procurará pontos em que essa sua hipótese será provada falsa. Ele não procurará novos cisnes brancos, mas os cisnes negros. Ele vai combater a própria hipótese, e a cada vez que ela resistir, mais e mais consolidada se tornará. Esse é o seu novo método científico, conhecido como hipotético-dedutivo.

Mas e se a hipótese for falseada? Neste caso, será descartada e uma nova hipótese deverá ser criada. Em casos menos decisivos, no mínimo a hipótese deverá ser corrigida. E isso dá o tom geral na nova Ciência: ela precisa ter a pretensão da verdade, bem como a consciência de sua inatingibilidade, de seu caráter provisório, de sua incerteza. Uma hipótese nunca é provada – o que ocorre é que uma experiência que a coloque a prova pode confirmá-la ou refutá-la. Se a confirma, pode fortalecê-la, mas jamais dar-lhe estatuto de verdade definitiva. Isso acontece porque há uma assimetria lógica entre a verificabilidade e o falseamento. É tipo assim: enquanto o time da verificação vai fazendo gols, ele vai ganhando o jogo; assim que o time da falsificação faz o seu primeiro tento, já ganha o jogo, mesmo que esteja 25 a 1. Para um time, o objetivo é fazer o máximo de gols possível e não tomar nenhum; para o outro, é só fazer unzinho, uma espécie de morte súbita.

Esse é o motivo pelo qual muda-se a demarcação da Ciência. Uma teoria somente pode ganhar o estatuto de científica quando receber o selo de falseabilidade. É um processo que garante claramente o alcance da ciência, bem como onde ela não pode chegar. Não tenta retratar a realidade como queriam tanto racionalistas quanto empiristas, mas aproximar-se dela, o mais possível e pelo maior tempo que der, mas sempre sujeita a ser revista no dia seguinte. O conhecimento gerado por ela não é verdade absoluta, mas verossímil. Nunca teremos teorias definitivas, mas precisamos desafiá-las. É por isso que conhecimentos metafísicos e religiosos costumam se dar mal com o princípio da falseabilidade. Quem prova Deus? Quem demonstra os anjos e as almas? Todas as vezes em que se tentar achar pontos de falseabilidade para teorias envolvendo disposições metafísicas, falhar-se-á. Mas ainda aqui há um certo respeito pela parte de Popper. Pior para ele são as pseudociências (mencionadas aqui), que se travestem de carapaça científica sem o serem. Ele coloca nesse balaio o Historicismo de Marx, a Psicanálise de Freud e a Psicologia Individual de Adler, porque sempre que são mostradas falsas, encontram modos de tergiversar. A Revolução Proletária não ocorreu porque ainda os camponeses e operários estão na alienação, os processos psíquicos sempre são passíveis de ser explicados pela neurose e pela sublimação, e o sentimento de inferioridade possui uma plástica que permite adaptá-lo a qualquer circunstância. As coisas que são apresentadas como contraprovas a essas teorias são todas absorvidas pela sua maleabilidade, como se fossem mistérios divinos. Tudo isso impossibilita pontos de falseamento. E gera inimigos.

Sendo assim, se não há resultado definitivo para meus exames de labirintite, nada mais me resta a não ser se conformar ou procurar outros especialistas que possam se pronunciar no assunto, como um neurologista, por exemplo. Não adianta esperar por um espírito que venha me rastrear os males da alma. Não no âmbito da Ciência.

É claro que, apesar de todo consenso que atingiu nas academias científicas de todo o mundo, as teorias de Popper não são imunes às críticas. Alguns outros filósofos da Ciência, como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn, já teceram outras teorias para explicar como pode se dar o desenvolvimento da Ciência. Além disso, as Ciências Humanas tem dificuldades em apresentar pontos de falseabilidade, não porque eles sejam impossíveis, mas porque são difíceis de atingir, como eu já havia dito neste texto. E há uma última questão: qual é o ponto de falseabilidade da teoria da falseabilidade? Onde ela pode ser provada errada?

Para este último ponto, a resposta é simples. Por mais que envolva diretamente a Ciência e seus métodos, trata-se de uma questão filosófica, e não científica. Ela tem um nascedouro especulativo, propõe-se a tratar do fenômeno em sua essência e é todo coberto pela lógica, sem que se precise provar nada a seu respeito. É por isso que Filosofia e Ciência não são a mesma coisa e precisam ter escopos distintos. E há quem diga que a Filosofia não sirva para nada... Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Impossível não fazer novamente remissão à magnum opus de Popper:

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1993.

Mas também é possível adicionar outras leituras, como a coletânea de artigos que segue abaixo:

POPPER, Karl. O Mito do Contexto. Em Defesa da Ciência e da Racionalidade. Coimbra: Edições 70, 2016.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (35 - Ecologia)

(O que é Ecologia? O que é esse ramo da Ciência que tantos confundem com ativismo?)

Olá!

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Vamos falar de viagens frequentes. Eu não moro mais com meus filhos, e isso faz com que eu trafegue muito para lá e para cá. A filha mais nova mora em Taubaté, e saindo da capital, a paisagem é composta por longos morros usados para pastagens e plantações, principalmente. Em alguns deles, é possível verificar a presença de bosques, na maioria das vezes com árvores de tronco fino, o que indica que aquela terra era usada para bovinos, ficando exaurida. Com o passar do tempo, foi se recuperando e deixada sem mexer, fazendo crescer as manchas verdes*. Já o filho mais velho mora em Curitiba, e indo por terra corta-se uma boa parte da Serra do Mar, no Vale do Ribeira. Isso faz com que possamos ver trechos de floresta muito mais fechada, efetivamente intocada, especialmente pelas encostas íngremes que lhe são características. Em uma fina faixa mais próxima ao litoral, pode-se ver a cultura humana nos bananais e palmitais.

Então temos duas maneiras bastante distintas de como a humanidade lida com o meio natural. A leste, mesmo estando em área rural, a mão do homem está em toda parte: desde os cercados de arame, até a presença de animais estranhos à área geográfica. A oeste, ainda que a própria estrada seja uma obra humana, percebe-se um pouco mais de manutenção no meio original. E, no meio disso tudo, a Pauliceia Desvairada, onde praticamente nada dos recursos originais podem ser encontrados.

Em toda essa transição, nós vamos perceber diferentes níveis de intervenção do bicho homem na paisagem, ora de maneira mais predatória, ora mais integrada. Isso tudo faz com que o nosso território tenha uma cara muito diferente daquela que havia sob a guarda dos indígenas, quando seo Cabral ainda não havia aportado com os usos e costumes ditos civilizatórios, e daqui se fez uma nova morada aos europeus. Talvez um dos maiores símbolos da presença humana no planeta seja a casa, o lugar que marca onde alguém se estabelece e que lhe dá abrigo. Pensando concretamente, uma casa no horizonte demonstra a presença de um bípede implume nas cercanias, ainda que seja uma tapera perdida numa vastidão verde amazônica. A casa é a sede de onde nos relacionamos com o restante do meio ambiente, e por isso ela foi metaforizada para uma área do conhecimento bastante recente, que combina Geografia com Biologia, cujo nome é composto pela junção dos termos gregos oikos (casa) e logos (estudo). Estou falando da Ecologia.


Eu disse que a Ecologia é uma ciência recente, e isso não é de se admirar. Se levarmos em conta que sua definição é a “Ciência que estuda a interação entre os seres vivos e o ambiente onde eles vivem”, perceberemos que o elemento de desarmonia inserido nessa relação, a ação humana, começa a ser sentida mais fortemente a partir da Revolução Industrial, que ocorreu na Europa a partir dos fins do século XVIII. A aceleração exponencial dos métodos de produção fez com que os meios naturais fossem explorados a níveis altíssimos, suplantando sua capacidade de regeneração por si próprios. Essa mudança tão expressiva na paisagem habitual fez com que a atenção dos pesquisadores fosse voltada a ela pela primeira vez com uma visão especializada.

Nem é preciso ir tão longe. Eu tenho cinquenta e poucos anos, e me lembro bem que as prioridades governamentais nos tempos de eu-menino envolviam muito impacto na paisagem original. Eram tempos da usina de Itaipu, que submergiu Sete Quedas, da usina de Paraibuna que extinguiu os núcleos originais de Redenção da Serra e Natividade da Serra, do colosso da inutilidade chamado Transamazônica, das termonucleares de Angra dos Reis e outros desafios à capacidade de regeneração de nossa natureza. A resposta veio na forma de índices de poluição jamais vistos, resultando em desembocaduras nos humanos, como foi o caso das crianças anencéfalas de Cubatão. Já dizia uma daquelas frases que adoramos atribuir falsamente: a natureza não se defende, apenas se vinga. A atribuição pode ser falsa, mas diz uma verdade.

Há um pouco de confusão quando se fala de Ecologia. Muitas pessoas acham que é uma atitude, mais ou menos intransigente, de defesa da natureza. Não. Ecologia é estudo, é Ciência, e, como tal, procura ser o mais neutra possível. O que ocorre é que, ao se compreender as relações entre seres vivos e o meio, alguns dos estudiosos podem encontrar motivos para realizar a defesa dos meios naturais. Se não, a Ecologia continua sendo o que é: uma ciência que tem um objeto de estudo bem claro, uma metodologia de pesquisa delineada e tem condições de fazer previsões e receber falseamentos. Sobre ambientalismo, falarei melhor em outro momento.

Mas como o ecologista faz seus estudos? De que maneira ele observa seu objeto de investigação? Geralmente, a cadeia observacional do pesquisador é de formato piramidal na quantidade e concêntrico na abrangência, passando de uma abrangência mínima para outra que englobe toda a vida do planetinha azul tão judiadinho. Estes são os níveis clássicos de abrangência:

Organismo: sabemos que as espécies são o agrupamento de seres vivos que compartilham características comuns. Cada indivíduo dessa espécie é um organismo, o objeto mais atômico do estudo ecológico.

População: é o conjunto de organismos de uma mesma espécie que coexistem em um mesmo espaço físico, geralmente delimitados pela possibilidade de se realizarem entrecruzamentos reprodutivos, propiciando a troca de material genético entre estes indivíduos.

Comunidade: como sabemos, uma população não vive sozinha em um espaço físico. Pelo contrário, há muitas outras populações que concorrem e condividem os mesmos recursos, gerando interações que podem ser colaborativas ou predatórias. Esse conjunto de populações é o que chamamos de comunidade.

Ecossistema: até aqui, podemos notar que o olhar está voltado para a parte viva dos sistemas ecológicos. Mas eles não atuam por si só. Quando passamos a observar a porção abiótica e a maneira como se dá a troca de energia entre as duas esferas, passamos a chamar o objeto de ecossistema.

Bioesfera: esse é o conjunto de todos os ecossistemas existentes no planeta, de interação menos direta entre si, mas que ainda assim exercem influência holística.


Algumas classificações incluem o bioma como uma unidade intermediária entre o ecossistema e a biosfera. Entretanto, esse conceito é um pouco mais ligado à Geografia do que propriamente à Ecologia, porque está interessado mais em uma área que contém uma predominância de determinado tipo de vegetação do que nas relações sistêmicas ocorridas em seu interior. Por exemplo, no bioma brasileiro conhecido como Mata Atlântica, caracterizado por grandes recursos hidrográficos, presença de umidade costeira e intensa variação climática, devido à sua grande extensão, pode-se verificar uma heterogeneidade de ecossistemas que também lhe caracterizam, porque o conjunto físico é muito variável. Dessa forma, temos ecossistemas litorâneos, de manguezais, de restingas e de campos de altitude. Um caranguejo, tão típicos do mangue, fazem parte de um ecossistema que está completamente ausente nos planaltos, embora pertençam ao mesmo bioma Mata Atlântica.

Mais uma pequena confusão que se faz com termos é entre bioma e biota, aqui mais ligado à proximidade ortográfica entre ambos. Bioma já vimos o que é, e biota é a parte viva de um ecossistema, enquanto abiota é o conjunto de componentes não vivos do mesmo. Por exemplo: em um meio aquático, onde há água, pedras, areia, oxigênio dissolvido e sais, temos a porção abiótica; já as algas, peixes e moluscos formam a biota, os caras que são usuários deste mesmo meio.

As linhas gerais da ecologia dependem da abordagem que se queira dar ao estudo. Normalmente, os especialistas dividem-na em três grandes áreas, sempre tendo em vista a quantidade de seres vivos envolvida na relação com o ambiente.

A primeira delas é a autoecologia. À primeira vista, parece ser a relação que eu mesmo tenho com o ambiente que me cerca, mas não é nada disso. Auto, neste caso, significa aquele que funciona por si mesmo, e isso significa que a necessidade de estudo é mais restritiva. Nesta área, o pesquisador aponta o foco para uma espécie específica, seja ela vegetal ou animal, e investiga sua interação com o meio. Como nos tempos atuais as correntes mais holísticas costumam preponderar, a autoecologia tem perdido espaço acadêmico. Entretanto, em alguns momentos é ainda muito importante. O melhor exemplo que me ocorre agora é nas espécies em risco de extinção. Nem sempre os fatores que levam à diminuição de uma espécie são óbvios, e, nestes casos, é preciso estudar a espécie em si para que se possa determinar como o ambiente a tem desfavorecido.

Em seguida, temos a demoecologia, que, semelhantemente à primeira, também estuda a interação de uma espécie com o meio ambiente. No entanto, o que interessa aqui é a maneira como uma determinada população como um todo reage com o meio. É uma maneira de estudar a Ecologia de maneira muito mais estatística, porque o que interessa aqui é a dinâmica de uma população com o passar do tempo e através do espaço: porque elas crescem, que fatores fazem com que se distribuam, qual sua taxa de concentração e outros tantos fatores que podem ser traduzidos por números. Por exemplo: temos uma população de coelhos que vive nos prados e outra nas regiões serranas, ambas da mesma espécie. A demoecologia se preocupa em observar como cada uma das populações procura dar manutenção à sua existência, através de estratégias específicas para cada ambiente envolvido. É uma área importante porque pode, a longo prazo, ser componente nos mecanismos de diferenciação que darão origem a novas espécies.

Por fim, a sinecologia é a área da ecologia mais abrangente, que não observa as espécies isoladamente ou em suas populações, mas na interação entre as diferentes espécies que ocupam um mesmo lugar ambiental, que agem em sinergia para dar organicidade ao meio. É aqui que temos as descrições das cadeias alimentares, da riqueza das espécies em um determinado bioma, organizações comunitárias, transferência de recursos no interior dos ecossistemas. Em última instância, o maior ponto de estudo da sinecologia é a própria biosfera, o maior de todos os ecossistemas.

Eu estou falando a todo momento entre interações, interações, interações… Como se dá a interação das espécies entre si e com o meio? Fundamentalmente, há uma expressão que sintetiza esse fenômeno: troca de energia, o que aproxima este ramo da Ciência de outro, a Física. Vejamos isso.

Há um termo da termodinâmica chamado de entropia, que podemos muito mal e parcamente traduzir como a tendência à bagunça. Essa “bagunça” em um sistema fechado qualquer tende a aumentar com o passar do tempo. Isso acontece porque o que mantém as coisas nos seus devidos lugares é a transferência de energia entre seus componentes. Note que o reboco da sua casa nunca tende a ficar mais sólido, mas a rachar e cair. Para que isso não aconteça, é preciso algum dispêndio de energia: produtos contra a umidade, camadas de massa fina, pinturas.

Ocorre que os sistemas biológicos não são sistemas fechados. Eles recebem energia de fora, energia solar no mais das vezes, e com isso podemos observar o mecanismo fotossintético dos vegetais, que produzem seu próprio alimento. Daí para frente, as trocas de energia se dão pelo consumo e pela reposição. Um passarinho, por exemplo, obtém energia dos insetos e das plantas de quem se alimenta. Ao excretar suas sujeiras, ele propicia alimentos para outros insetos e distribuição de sementes pelas plantas, retroalimentando o sistema através da disponibilização de energia. É com esse start que a Ecologia conduz seus estudos: tudo no universo é trânsito de energia, até mesmo a mais simples interação entre uma minhoca e seus resíduos favoritos.

Em rápidas pinceladas, era esse meu breve relato sobre o tema. Bons ventos a todos!

Recomendação de audiência:

É uma indicação meio nostálgica, porque assistia muito ao programa Repórter Eco quando as crianças eram pequenas. É um dos poucos, senão o único, programa jornalístico destinado ao assunto nos moldes de um telejornal convencional. Segue sua página na internet:

https://cultura.uol.com.br/programas/reportereco/

* Os agrupamentos de flora são comuns no caminho de São Paulo a Taubaté, cortando o começo do Vale do Paraíba. Contudo, se levarmos em conta a extensão de 130 Km até lá, dá para perceber como são erráticos. A foto abaixo dá ideia de um dos tantos bosques não originais espalhados pelo meio do caminho:

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Já estive neste lugar: o déjá-vu e o curto-circuito na assembleia neuronal

(Você já se viu em uma situação que parece igual a outra vivida no passado? Isso é um déjù-vu. Vamos filosofar sobre) 

Olá!

Eu nunca tive galinhas na vida. É bem verdade que sempre tive passarinhos, mas o máximo que eu cheguei perto de ter galinhas foi com codornas. Só que minha filha trabalha com gente que mora em bairros rurais, e apareceu em casa com quatro penosas. As galinhas não são minhas, mas o encargo de lhes preparar um galinheiro é meu.

Não vou dizer que foi muito trabalhoso, nem que ficou um primor de engenharia. Pelo contrário, ficou com o estilo de uma favela, malgrado a insistência da patroa em recobri-la de telas de plástico, ao invés de fechá-las com ripas. Melhor ainda, ficou mais fácil. Para tanto, fui atrás de caibros, ripas e duas telhas de brasilite, que não teve escapatória, precisei comprar.

Acontece que choveu e choveu e choveu, impossibilitando por alguns dias a feitura da casinha. Deixei tudo encostado no muro e fui tomar um café, porque não restava muito a fazer. Mais tarde, fui recolher os neodinossauros para dormir, mas quando olhei no quintal não vi nenhuma delas. Entrei assustado e fui procurá-las, até ver que estavam lá, embaixo das telhas que formavam uma cabaninha, para se proteger dos pingos que ainda caíam.

A cena não teria nada demais, não fosse um detalhe. Como eu abri o texto dizendo, nunca tive galinhas, mas todo o transcurso se deu à minha frente como se já houvesse ocorrido em algum momento atrás, e que eu estava novamente o vivenciando.

Não se trata de nenhum fenômeno raro, que somente alguns iniciados têm acesso e que colocam como alguma virtude entregue pelos céus. Na verdade, é bem frequente até. Chama-se déjà-vu, termo francês que significa algo como “já visto”, e corresponde a algum tipo de falha cerebral em que se tem a nítida impressão de que algum evento ocorrido no presente é uma reprodução do mesmo evento ocorrido no passado. Seu nível de realismo é variável, mas por vezes chega a ser assustador, durando inclusive um tempo considerável.

Eu já vivi essa experiência não sei quantas vezes. Sempre em períodos curtos, sem nenhum tipo de gatilho notável, causou-me impressão apenas quando criança. Para ser bem franco, percebo que eles vêm rareando, a ponto de não me lembrar da última vez em que tive outra viagem dessas.

 Mas não deixa de ser interessante esse tipo de curto-circuito cerebral, que não é irrealista como uma alucinação, nem fantasioso como uma história inventada. Achei por bem dar uma pesquisada no assunto, mas – frustração – há pouquíssima coisa esclarecida, sendo que as principais explicações continuam no campo de hipotético.

O grande problema de se estabelecer programas científicos para investigar o déjà-vu está na inconstância do fenômeno. Não dá para selecionar um tanto de participantes, juntá-los em uma sala e dizer: tenham déjà-vus. Também não é possível colocar eletrodos na cabeça dos experimentandos e falar para eles saírem por aí, aguardando ocorrências que podem demorar anos para acontecer. Por esta razão, o conhecimento efetivo que se tem sobre o tema não é tão seguro quanto gostaríamos que fosse. Mas existe a Filosofia, e eu gostaria de tentar alguns palpites sobre o tema.

Algumas das explicações mais comuns trazem um componente metafísico ao fenômeno. Certas correntes esotéricas entendem que o déjà-vu é um modelo de premonição inconsciente, na qual a sensação de repetição se dá porque a descrição do fato não fica na flor da consciência, mas escondida no âmago da mente. Quando o vaticínio se concretiza, a sensação é de que ele já tinha sido vivido. Os espíritas, por sua vez, entendem que o déjà-vu nada mais é do que a repetição de uma experiência em vida passada. Um espírito que vai reencarnar tem o livre-arbítrio de escolher as provas que enfrentará para fazer sua purificação. Algumas delas incluem reviver experiências de vidas passadas para aperfeiçoar sua conduta diante delas. Como há vários marcos temporais que obrigatoriamente precisarão ser revividos (lei do carma), o déjà-vu nada mais é do que uma leve recordação ainda guardada no subconsciente dos fatos que ocorreram em um momento desses.

Mas eu quero traçar hipóteses sobre coisas mais próximas da concretude. E apesar de não ter encontrado uma explicação direta pela área da Psicologia, ainda é nela que eu vou me socorrer. Mais especificamente na teoria de cognição de Donald Hebb, psicólogo canadense, que militou fortemente na área do behaviorismo, o estudo psicológico pelo viés comportamental.

Desde nossa infância, recebemos estímulos que vêm do ambiente que nos cerca. O caminho é sempre o mesmo: algum sentido é excitado e as fibras nervosas encaminham a informação obtida para ser processada pelo sistema nervoso central. De acordo com o que se recebe, certos neurônios são acionados e formar uma rede sináptica, e conforme a mesma experiência se repete, mais e mais reforçados ficam esses conjuntos de neurônios que atuam em conjunto. Digamos que todas as vezes em que nossas mães iriam nos alimentar, elas amarrassem um babador em nosso pescoço. Isso faria com que os neurônios que comandam nosso ato de sucção e do prazer do alimento já fossem escalados no seu conjunto. É esse tipo de agregação de neurônios para realização de uma tarefa que Hebb chamava de assembleia neuronal.

Os neurônios são células que se comportam de maneira peculiar no corpo humano. Enquanto as demais células se multiplicam aos borbotões e morrem com a mesma volúpia, os neurônios somente se desenvolvem até o término do desenvolvimento cerebral. Daí para frente, quando eles morrem, não há reposição, e isso explica muitas das doenças da velhice*. Mas cada um deles não se restringe a uma única tarefa. As assembleias se desfazem assim que o estímulo cessa, e os seus participantes ficam livres para ser incluídos em outras assembleias e em outras sinapses.

Essa formação das assembleias neuronais, portanto, fica inscrita em algum lugar do SNC, e é resgatada assim que recebe o estímulo específico, tratando de acionar toda a cadeia própria daquela tarefa. Quem conhece informática, fica surpreso como esse tipo de funcionamento é semelhante ao que ocorre nos componentes de um computador, e é fazendo essa comparação que me vem à mente uma possibilidade de funcionamento do déjà-vu. Vamos ver se consigo expressá-la.

Um computador precisa de memória, do contrário não teria onde armazenar seus dados. A maior parte destes fica gravada no disco rígido (hard disk em inglês), carinhosamente conhecido como HD, onde lá ficam através do uso de pontos magnéticos. Mas não basta jogar a informação lá e deixá-la grudada. Há toda uma sistematização por trás disso. Vou falar como funciona o armazenamento em um HD de forma extremamente simples. Todo o espaço físico de um disco é separado em milhões de pequenos compartimentos onde as informações são gravadas. Digamos que você tenha uma unidade zerada, e comece a armazenar suas músicas, textos, fotos, vídeos e documentos em geral. Essas informações todas ficarão lá guardadas pelo tempo que você achar necessário. Os dados serão gravados e sobrará uma boa porção de disco para futuros armazenamentos.


Ocorre que existirão certas informações que você quererá descartar um dia. Neste caso, ao apagá-las, ficará no disco um buraco onde antes havia informações.

Este buraco, caso não fosse reaproveitado, tornar-se-ia inútil pelo restante da vida do HD. O que o computador faz é aproveitar esses buracos com informações novas. Entretanto, seria coincidência demais se o arquivo novo tiver o mesmíssimo tamanho que aquele que foi apagado. O que ocorrerá na estúpida maioria das vezes é que tenhamos tamanhos menores ou maiores. Sendo menor, a informação nova preencherá uma parte do espaço e ainda restará um tanto para outras informações.


Se a informação nova for maior, ocupará mais de um buraco, ficando pulverizada por vários pontos do disco rígido.


Ora, se a informação não é armazenada de forma contínua no disco, como o computador sabe qual a sequência certa para poder recuperá-la? É que existe um outro setor no próprio disco que armazena o mapa de gravações de todos os dados nele existentes. É um registro que funciona mais ou menos assim: o documento texto.txt começa no endereço A e vai até o endereço B, daí reinicia no endereço C e vai até o endereço D, daí vai até o endereço E e termina no endereço F, por fim vai ao endereço G e termina no endereço H. Na hora em que a informação é requerida, o controlador do HD pega o seu mapeamento e retorna a informação completa para o computador.


Percebam que este mapeamento é parte integrante da informação, e sem ele o dado gravado é morto. Está lá, mas não serve para nada. Se você pegar o esqueleto desse mapeamento e der um salto de um endereço para qualquer lado, a informação remontada será totalmente desconexa e a central não saberá processá-la. Já tentou abrir um arquivo e deu uma mensagem de erro? Essa é uma das causas possíveis.

Da maneira que estou pensando, algo semelhante ocorre no cérebro quando acontece um déjà-vu. As assembleias neuronais são semelhantes ao mapeamento das informações contido no HD, que serve muito bem quando a informação é coerente, mas que se perde quando há ruídos. Certas situações vão fazer com que um determinado esquema de assembleia seja acionado, seja por semelhança, seja por contiguidade, seja por unidade, seja por pregnância ou por qualquer outro motivo que a evoque. Acontece que a assembleia acionada não corresponde à realidade, apenas possui algum fator em comum análogo a ambas - a situação real e a situação recordada. Ela foi chamada por engano, só que está agora na memória de trabalho e precisa dar uma solução para o fenômeno que tem à sua frente. É como se o mapeamento houvesse sido chamado e sido aplicado para outros dados. Em um sistema de informática, os erros são tratados em uma mensagem amigável, para o usuário compreender que algo está errado, e no cérebro o erro é tratado como se fosse uma situação já ocorrida, justamente porque já existe uma estrutura (a assembleia) preparada para reconhecer o evento preexistente.

Dessa forma, o fenômeno teria a ver com o processo de aprendizagem que cada um de nós passou, e que tem reflexos quando seu acionamento é dissonante com relação ao seu propósito inicial. Não constatamos isso logo de cara porque a formação da assembleia é muito difusa. Essa rede não acontece por nosso próprio impulso. Eu não digo: tenho uma situação X e vou chamar a cadeia de neurônios que respondem a ela, porque isso vai sendo fixado aos poucos, especialmente na infância. Mas, da mesma forma que ocorre com as falsas memórias, com a dissonância cognitiva, com a pareidolia, com a descontinuidade mental e tantos outros, aqui também temos um descompasso cerebral, que lança mão de experiências já passadas para colocar no lugar da cognição não completada.

Não sei se faz sentido o que eu disse. Os comentários estão disponíveis para quem quiser achincalhar (sem xingar), mas é que minha cabeça não é só filosofia, mas informática também. Afinal de contas, foi nessa área que eu encontrei o ganha-pão, já que o salário de professor não é digno em Ilha de Vera Cruz.

Por fim, eu sei que Donald Hebb tem seu lado polêmico, com os estudos e experimentos de privação sensorial que acabaram por redundar em cometimento de ilegalidades pelos órgãos de segurança estadunidenses. São duas coisas: a primeira, é que Hebb não pretendia submeter ninguém a sofrimento psicológico, e a segunda é que o uso de seus estudos ocorreu à revelia dele. Entretanto, o fato é que os abusos ocorreram, e, por isso, faço questão de frisar que tudo o que usei aqui não tem relação com essa parte de suas teorias, mas apenas com sua parte mais relacionada ao funcionamento neuronal.

Vou aproveitar que a chuva deu uma amenizada para terminar minha obra prima de engenharia. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Em italiano.

HEBB, Donald. L’organizzazione del  comportamento. Uma teoria neuropsicologica. Milão: Franco Angeli, 1975.

* Embora existam pesquisas que vem demonstrando que há, sim, uma reprodução contínua nos neurônios cerebrais, mas adotarei o consenso atual para não criar confusões no meu texto.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Pequeno guia das grandes falácias – 64º tomo: o if by whiskey

(Há dois lados na questão da vacina? Vamos analisar pelo viés das falácias)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Eu tomei todas as doses da vacina. Não tomei forçado, mesmo com meu medo de agulhas. Tomei porque é um caminho consolidado, mesmo com toda a urgência com as quais estes fármacos foram produzidos. Cumpri a rigor meu calendário, as duas doses prescritas e a de reforço, todas nos primeiros dias da janela para minha idade e comorbidade. Coloquei um avatar de Wally Gator no Skype e fiz campanha com os meus parcos recursos.

Eu usei máscaras com todo o rigor possível, até mesmo na porta do apartamento, para colocar o lixo no latão. Usei máscaras de pano no começo, duas quando necessário, progredindo para as cirúrgicas e posteriormente para as PFF2, raspando o bigode de décadas para melhor acomodá-las e resistindo bravamente ao incômodo nas orelhas e a vontade de arrancá-las nos momentos de maior esforço, quando você puxa o ar e não vem. Mantive-as cem por cento do tempo em que pus o focinho para fora de casa, evitando a custo de colocar as mãos nelas, mesmo com o nariz coçando a ponto de ficar vermelho. Não fiz estética – sempre procurei usar máxima eficiência, fazendo inclusive o risonho teste do palito de fósforo, para verificar possíveis vazamentos. Usei fita adesiva para mantê-las no lugar e evitar os escapes, fáceis de notar quanto se usa óculos. Enfiei a mão no bolso com gosto, e, mesmo com uma tristeza profunda vinda da conta, dei pouquíssimo descanso aos artefatos usados, como se fossem descartáveis.

Eu mantive o afastamento social, vivendo uma vida quase eremítica até tomar as primeiras duas doses da vacina. Após isso, poucas idas a lugares essenciais, sem festas de fim de ano, sem receber ninguém em casa, sem aceitar nenhum convite e, quando saísse, cumprindo todas as normas de segurança até com excesso.

Eu usei sabão para as mãos, álcool para esterilizar qualquer produto vindo de fora, usei Lysoform© nas roupas, cloro nos vegetais, revi todas as condutas de higiene que eu tinha até hoje, criando calçados exclusivos para sair e para ficar em casa, tomei banho imediatamente após qualquer saidinha que fosse para buscar uma Aspirina© na farmácia.

Eu cheguei ao descuido em nome do cuidado. Desmarquei todas as consultas que eu tinha, inclusive as periódicas, utilizando serviços remotos em qualquer lugar onde ele fosse possível. Afinal de contas, os serviços médicos, os laboratórios e os hospitais eram onde a coisa mais fervia. Fiquei com gastrite e otite até se curarem sozinhos. Não é a melhor forma, mas sempre que eu punha as coisas na balança, pendia para o risco de uma doença sem cura, com resultados inesperados.

Eu acompanhei a evolução da pandemia pela TV e pela internet, aprendi termos novos e velhos, morri de raiva com a atitude dos mandatários e suas poções mágicas, acompanhei a evolução gráfica dos casos e das mortes, mesmo com as sabotagens públicas.

Cuidei por mim, pelos filhos, pela patroa. Pelos velhinhos deste prédio de gente doida. Pelos parentes e amigos, pelos sogros já idosos e por gente que eu nunca vi na vida, porque ser responsável é isso: cuidar de quem se gosta é fácil. Se dizemos que amamos país, estado e cidade, é preciso cuidar do povo destes mesmos lugares.

No entanto, ela veio. No domingo passado acordei com a rouquidão típica dos fumantes exagerados, só que eu não fumo há décadas. "Deve ser refluxo", disse a patroa. Devia ser mesmo, pensei eu, diante da ausência de qualquer outra moléstia, e segui meu dia normalmente. Segunda e terça amanheci da mesma forma, o que foi me deixando bolado, e fui atrás de fazer um teste, já que a semana seguinte estava sujeita a ser de açodada escala presencial. Só consegui fazê-lo na quarta à noite, diante da explosão de consumo dos kits. O cotonete me fez morrer de coceira, uma sensação de desconforto pior que uma picada. Fiquei do lado de fora da farmácia, ainda cioso das minhas responsabilidades e dos meus cuidados. A patroa e a filha mais nova confessadamente achavam que era manha minha, e ficaram mais surpresas que eu com o diagnóstico.


Como um todo, meu grande sintoma foi a tal rouquidão, que ainda persiste, mesmo com um novo exame já declarando o término do perrengue. É bem verdade que na sexta-feira eu passei bem mal, com enjoo o dia inteiro, culminando no vômito que eu tanto odeio. Depois disso, fiquei com uma febrinha baixa que durou pela madrugada, com a cara-metade pacientemente me velando, sem querer saber de isolamento, a louca. A coisa terminou no clássico suador. E ça tout.

A questão, portanto, é sobre vacinas. Se você pegou a doença, você acha que valeu a pena se ocupar tanto de tomá-las conforme o prescrito?

Bem, se por valer a pena você quiser dizer que eu deveria estar protegido conforme me foi assegurado pela imprensa e pelos órgãos governamentais, e que eu poderia viver comumente, como se a pandemia tivesse acabado tão logo passassem as duas semanas de preceito após as doses recomendadas, e que eu poderia prescindir de vida tão regrada quanto a que eu descrevi logo acima, eu diria que não, não valeu a pena. Afinal de contas, a doença se instalou em mim em qualquer vacilo ainda desconhecido.

Agora, se por valer a pena você quiser dizer que obtive uma proteção maior do que teria pelos meus anticorpos pegos de surpresa, com sintomas muito mais graves e sequelas bem mais pesadas, que meus familiares mais próximos não foram contaminados por estarem igualmente vacinados, que as pessoas com as quais tive contato involuntário estando vacinadas igualmente continuam no planetinha azul, que meu tempo de recuperação foi muito mais curto e permitiu tornar indetectável a contaminação em poucos dias, neste caso podemos dizer que valeu a pena, porque a promessa da vacina não vai somente no bloqueio à doença, mas também na amenização dos efeitos.

Não preciso nem dizer que estamos diante de um novo tópico do Pequeno Guia das Grandes Falácias, a coleção de argumentos capengas que eu mantenho neste humilde espaço já por um bom tempo. Estamos diante de um tipo especial do falso dilema e da falácia relativista, de descrição bastante recente, conhecida pelo irônico nome de If by Whiskey, ao que caberá uma bela explicação.

Sua origem está em um discurso do deputado norte-americano Noah “Soggy” Sweat Jr., diante da continuidade ou extinção ao veto a bebidas alcoólicas no estado de Mississipi. Como bem se sabe, os EUA tiveram momentos no século XX onde foi implantada a Lei Seca, uma ideia furada para mitigar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Em uma das mais célebres inversões de causa e efeito de que temos notícia, acreditava-se naquele país que o álcool era motivador de miséria e violência, como se a primeira não visse nas bebidas uma válvula de escape e a segunda não fosse agravada pela atividade do comércio ilegal. Mesmo após o término das restrições pelo governo federal, e levando em conta que os EUA formam uma federação de verdade, alguns estados mantiveram por mais algum tempo suas restrições particulares. Como se vê, é matéria polêmica, com visões antagônicas dos moralistas antibebida e dos liberais antiproibição, o que fazia ser delicadíssima de se lidar para quem tinha contínuas pretensões eleitorais. Tal qual vemos hoje em dia, os ânimos estavam acirrados e qualquer posição adotada poderia representar munição para os lados contrários.

Instado a se posicionar, Soggy proferiu o seguinte discurso, do qual faço livre tradução:

“Meus amigos, eu não pretendia discutir esta controvérsia neste momento. Entretanto, eu quero que vocês saibam que eu não irei evitá-la. Pelo contrário, eu tomarei uma posição sobre qualquer assunto em qualquer momento, por mais controversa que possa ser. Vocês me perguntam o que eu penso sobre whiskey. Pois bem, aqui está o que eu penso sobre whiskey.

Se quando vocês falam whiskey, querem dizer a poção do diabo, o flagelo envenenado, o sangue do monstro, que profana a inocência, destrona a razão, destrói os lares, cria miséria e pobreza, literalmente tira o pão da boca de muitas criancinhas; se vocês querem dizer a bebida maligna que derruba os homens e mulheres cristãos do topo da vida justa e cheia de graças no poço sem fundo da degradação, e do desespero, e da vergonha, e do desamparo, e da desesperança, então certamente eu sou contra.

Porém, se quando vocês falam whiskey, querem dizer sobre o óleo da conversação, o vinho filosófico, a cerveja que é consumida quando bons amigos estão juntos, que coloca uma canção em seus corações e sorriso em seus lábios, e o brilho quente do contentamento em seus olhos; se vocês querem dizer a alegria natalina; se vocês querem dizer a bebida estimulante que coloca a primavera nos passos dos velhos cavalheiros nas manhãs gélidas; se vocês querem dizer a bebida que permite a um homem ampliar sua alegria, e sua felicidade, e a esquecer, mesmo que por um instante, as grandes tragédias da vida, as mágoas e as tristezas; se vocês querem dizer aquela bebida cuja venda traz ao nosso tesouro milhões de dólares, que são utilizados para providenciar cuidados carinhosos para nossas pequenas crianças deficientes, nossos cegos, nossos surdos, nossos tolos, nossos pobres idosos e enfermos; para construir estradas, hospitais e escolas, eu certamente sou a favor.

Essa é a minha posição. Não vou me retratar dela. É o meu compromisso.”

Dá para perceber todo o sabor de sabão neste pequeno discurso. Tomam-se duas posições para não se tomar posição nenhuma, e, dessa forma, tentar passar-se incólume por qualquer lado que venha a se por em questionamento. É atitude típica de políticos, que buscam não marcar tão fortemente suas posições a ponto de inviabilizar a recepção de votos por grupos concorrentes.

Por conseguinte, o grande propósito desta falácia é contingenciar um determinado argumento à opinião do seu interlocutor. Com o meneio retórico, o argumentador coloca uma bifurcação à sua proposição, como se fosse possível responder com “sim” e “não” à mesma pergunta objetiva. Isso claramente fere o princípio da não-contradição, que enuncia não ser possível a uma sentença ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Por outro lado, e derivado do fato de se tratar de questionamentos objetivos (você é a favor ou contra a venda de bebidas alcoólicas), não se pode dizer impunemente que “a beleza está nos olhos de quem vê”. Sim, é verdade que cada um pode ter uma opinião sobre qualquer assunto, mas nessa falácia temos uma inversão. O danadinho, ao invés de se situar e dar uma posição, relativiza as possibilidades de resposta e se põe em situação neutra a todas elas, justamente atendendo a todas elas, notaram?

Claramente há possibilidade de se aventarem duas posições sem que tenhamos uma falácia. O que faz com que este argumento seja falacioso é sua objetividade. Se a causa em questão é carregada de subjetivismo, então poderemos não ter um erro. Em um exemplo para lá de boçal, posso dizer que gosto de azul desde que não esteja sobre um campo verde, quando aí não gostarei do azul. É juízo de gosto, e não uma declaração objetiva sobre um assunto objetivo. Também a declaração de ausência de opinião formada tira a falta de lógica da declaração. Outro ponto é onde se coloca a situação temporalmente. Um argumento como o abaixo não é falacioso:

“Se houver disposição orçamentária, sou favorável à implantação de praças esportivas na cidade; entretanto, não é razoável que se desloquem recursos de áreas mais urgentes caso não haja recursos suficientes”.

Notem que aqui não há tergiversação, mas um condicional. Isso não é um ensaboamento, como na forma canônica do whiskey, e sim um contingenciamento para que se delibere a favor ou contra uma causa, o que me parece mais justo.

Com relação a mim e à minha posição com relação às vacinas, não vou me colocar tucanamente em cima do muro. Eu já dei meu parecer sobre a loucura que se criou em cima das vacinas e continuo achando que há muito de fundo moral na atual discussão, só que a coisa acabou por se pulverizar tanto que acabou ficando invisível. Para quem não tiver paciência de ler, vou resumir aqui. O Brasil sempre teve uma cultura de vacinação. Lá no começo, a coisa ia goela abaixo da população, que mesmo por vias tortas acabou tomando consciência da importância que tinha para sua saúde. Acontece que uma das campanhas foi para vacinação contra HPV em meninas pré-adolescentes. A principal via de introdução deste vírus no corpo é através do ato sexual (mas não só), e os moralistas de plantão vieram com suas habituais maluquices, do tipo “estão estimulando as meninas a uma sexualidade precoce”. Foi a primeira grita de real impacto que eu percebi na sociedade brasileira dos tais antivax, toda permeada do tal discurso catastrofista contra os bons costumes – ora, como se uma vacina fosse estimular ou impedir os impulsos de uma sociedade cada vez mais sexualizada a partir das elites.

Desde então, a doideira se disseminou, mas meio que se perdeu essa origem. Agora, fala-se em coisas como invasão ao direito ao próprio corpo, impedimento à liberdade de escolha, transformação de humanos em cobaias e, claro, implantação de chips para que governos, milionários, illuminatis ou marcianos controlem seu cérebro ou te matem quando bem entenderem.

Vacinas são boas para todos e foram boas para mim também. A desgraça só não está maior porque a grande maioria dos brasileiros está fazendo valer sua tradição de se vacinar, sem dar tanto ouvido para as bazófias da galera maluca, só que esse é o tipo da coisa que tende a crescer. Tem gente que absorve essas coisas porque não conhece a dinâmica social que tem uma campanha, e se deixa levar pelos casos que vê mais de perto, ou pelo o que ouve dos barulhentos, que se tem essa ferramenta para contradizer o bom senso. Só que é uma ferramenta muito eficaz.

A variante atual é muito contaminante, e pega de bobeira. A vacina é boa, mas não é milagrosa. Milagres não existem.

Cuidem-se bem. Bons ventos a todos.

Recomendação de audição:

O endereço abaixo contém a gravação de uma reprodução do famoso discurso do whiskey de Soggy Sweat:

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Whiskey.ogg

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Sobre as peculiaridades da visão de Xenófanes sobre o cosmos e a arché

(Sempre que falamos sobre os primeiros filósofos, esquecemos de Xenófanes, mas sua visão era bastante própria e interessante)

Olá!

Os campinhos do Disparada e dos Veteranos, o quarteirão da Doces Santa Fé, as chácaras nas margens do Córrego da Moóca, as bordas da ferrovia Santos-Jundiaí, o caminho que acompanhava a adutora do Rio Claro, o quintal da Dona Lúcia, a rua da minha casa. Estes eram os lugares onde eu-menino respectivamente jogava bola, empinava pipas, roubava amoras, cortava caminho, ia para a escola, buscava ovos e, claro, saía de casa. De comum, todos estes lugares tinham o piso: terra, a terra batida típica das cidades que transitam de um ar ainda rural para a definitiva metropolização. Aquela terra já pobre, dura, cheia de formigueiros, e que criam uma espécie de camada saponificada quando cai a garoa, dando a ilusão de rinque de patinação indesejado a quem sai por compromisso.

Minha casa ‘inda tinha daqueles raspa-barros no portão, peça encontrável nos bairros mais antigos até hoje como um monumento aos incidentes de outrora, e minha mãe mantinha um pano de chão bem ao lado da torneira, para eu dar uma “tirada no excesso” assim que chegasse da rua com terra além dos sapatos. Fazia isso para evitar o rastro que chegava até o banheiro, e também não ter que me aplicar um dos seus inúmeros corretivos.

Naquelas pegadas, havia histórias de vida, como essas que eu conto agora. Era a terra que veio sendo cada vez mais afastada de nossos pés imundos, sempre sujeitos a cortes e vermes, mas que hoje estão protegidos por camadas de impermeabilização e tênis de marca. A mesma terra socada está embaixo do asfalto e do cimento, isolada das calçadas por muros tão altos que nem conseguimos supor se ainda há alguma flor que se plante nela, fora dos vasos que ficam nos parapeitos das janelas.

Esse é o painel que já meus filhos tinham para se relacionar com a terra, embora ainda na infância deles houvessem alguns poucos terrenos que hoje estão com prédios em cima. Essa terra que ainda é muito visível nas cidades do interior virou quase um artigo de exposição em Terra da Garoa e outras capitais, e é óbvio que esta relação tão telúrica em outros tempos está completamente diferente hoje em dia.

Sinto falta da terra? Olha, sinto falta é da minha infância, mas não posso deixar de sopesar custos e benefícios. Por um lado, era o inferno quando chovia e precisávamos chegar de aventais brancos na escola, porque os respingos eram inevitáveis, mas isso garantia matéria-prima para as boas guerras de lama no retorno. Asfalto representa piso decente para colocar o carro, assim como aumenta o perigo de atropelamentos de nós-crianças brincando nas ruas. Era garantia de espaço para brincar, assim como das doenças de barriga, que nos obrigavam ao dia do “salamargo”, uma mistura de ritual com higiene, quando nossas avós deixavam o medicamento exposto ao sereno, para no dia seguinte fazer a purgação. Não estão entendendo? Tinha um dia todo santo ano em que éramos vermifugados, com sal amargo, licor de cacau ou limonada purgativa, qualquer um dos três, que funcionavam de maneira similar: o purgante dava uma caganeira daquelas, o que fazia com que os intestinos ficassem “depurados”, ou seja, tudo se esvaísse das tripas, incluindo os vermes. Acho que funcionava, porque eu estou vivo até hoje.

Então é muito complexo dizer se era melhor ou não o tempo da terra nas barras das calças. Tudo vai depender de se achar isso uma sujeira indesejável ou um romântico distintivo dos tempos. Tendo a acompanhar o tempo que passa, e prefiro as coisas como estão, desde que preservados os devidos espaços para o equilíbrio pluvial de nossas cidades.

Falo tudo isso porque estou inspirado pela terra e pelo irrigador de plástico que instalei no meu quintal. É a prova maior de que coisas baratas não são sinônimos de coisas ruins. Gastei exatos vinte reais em um treco desses, que fica espetado na terra e girando de acordo com as regulagens, o que é uma autêntica mão na roda. É ligar a mangueira e contar dez minutos para que todo o projeto de horta fique devidamente molhado, sem qualquer tipo de esforço.


Vendo que deu certo, vou colocar mais uma dessas na diagonal oposta do quintal e cobrir o terreno com mais precisão e menos força necessária, economizando água. Aproveitei o calorão infernal do Vale e tomei um banho de aspersão, como não fazia há muito tempo.

Ficar na chuva simulada, enchendo os pés do antigo barro da minha infância me fez passar pela cabeça pensamentos igualmente infantis, como aquela velha assertiva bíblica – tu és pó e ao pó tornarás. Como seria se desmanchássemos ao contato com a água? Fiquei pensando nos filósofos da physis, aqueles cujo grande propósito era encontrar a arché, o fundamento de toda a realidade, conforme esmiucei aqui. É sempre fácil lembrar de Tales, Empédocles, Anaximandro, Demócrito e outros, mas poucos mandam de cara Xenófanes de Cólofon, talvez porque ele tenha eleito a terra como elemento primordial, o mais simples de todos, o mais ordinário, o mais, digamos, sem graça. Só que seu pensamento foi muito mais sofisticado do que essa constatação pode fazer crer, a ponto de ser uma espécie de pioneiro do monoteísmo. Vamos falar sobre ele.

A questão da arché em nosso herói ficará para o final. Seu principal pensamento tem a ver com a concepção que os antigos gregos tinham sobre suas divindades. A religião pública grega era caracterizada por deuses idênticos aos humanos, com duas diferenças fundamentais: a imortalidade e o poderio. De resto, tudo igualzinho, seja no físico, seja nos temperamentos, seja nos costumes e por aí vai. O deus grego é tal e qual um grego. Xenófanes observa que os deuses etíopes são negros e com os narizes largos, assim como os deuses trácios são ruivos e de olhos azuis, repetindo o mesmo fenômeno que ocorria na Grécia: os deuses locais são reproduções dos homens locais. Ele chegou à conclusão de que, se os animais possuíssem discernimento suficiente para moldar seus deuses, também o fariam à sua imagem e semelhança, com poucos diferenciais.

Isso tudo levou Xenófanes a se contrapor às teogonias de Hesíodo e de Homero, que nada mais faziam do que sistematizar o pensamento teológico do grego comum: os deuses nada mais são do que homens privilegiados, e que assim são porque cada cultura molda seu deus, como sintetizaria muitos séculos mais tarde o alemão Ludwig Feuerbach, que afirmava ser a Teologia uma forma de Antropologia, onde os deuses de uma cultura dizem muito sobre a consistência dos homens desta mesma cultura. Sendo que este último influenciou decisivamente na tese marxista da alienação, poderíamos dizer que Xenófanes era um pré-comunistão?

É forçar muito a barra, né? Até mesmo porque, se Xenófanes era contrário ao pensamento teológico helênico, isso não queria dizer que ele mesmo não tivesse suas próprias ideias com relação ao assunto. É um pensamento bastante inovador para a época, que abandonava a antropomorfização dos fenômenos e descarregava das divindades as paixões humanas e seus consequentes defeitos, dando rumo a uma forma de monoteísmo por um lado, de panteísmo por outro.

As réguas humanas são ineficazes para mensurar os deuses. Uma coletânea de deuses feitas a partir dos fenômenos que observamos no cosmos, como era de rigor no paganismo grego, era uma simples forma de suprimir a falta de reconhecimento que a divindade está em outra espécie de dimensão. Isso acontece porque, segundo Xenófanes, o universo é uno e deus é uno, identificando-se um com o outro. Não uma magna comitante caterva olímpica, como diriam os gregos, ou uma Asgard nórdica, ou qualquer outra forma de residência divina, porque a deidade não está aqui ou ali, ela se espraia pelo universo inteiro e é o próprio universo inteiro, ideia que mais tarde veio trazer problemas a gente como Giordano Bruno e Espinoza.

Notem que a proposta de Xenófanes é ao mesmo tempo monoteísta, porque preconiza que apenas um deus existe, e não vários; e panteísta, porque sendo deus o universo inteiro, tudo é deus, imutável porque pleno, irremovível porque alocado nos fundamentos. Esse é o principal ponto do frágil vínculo que os historiadores da Filosofia fazem com os demais eleatas, Parmênides à frente. Entretanto, os filósofos de Eleia eram fundamentalmente ontológicos, enquanto Xenófanes busca uma resposta cosmológica, como veremos adiante.

Diferenciar o monoteísmo do panteísmo parece simples, mas não é. Pelo ordinário estudo etimológico, um seria significado de “deus único”, enquanto o outro seria "tudo é deus", mas é plenamente possível fazer coincidir ambas as visões. Se esse tudo que significa o pan grego se referir a um único deus que se revela em vários aspectos e de múltiplas formas, então teremos uma coincidência de significados. Isso pode parecer estranho porque estamos acostumados a monoteísmos com um deus que se aparta – ele cria o universo e os homens, mas não se identifica com nenhum deles. Já esse panteísmo de um deus só é uma inovação clara, na medida em que a própria substância divina é a arché: tudo emana dela e permanece nela. Esse é o modelo de deidade tremendamente mais sofisticado que os deuses antropomórficos dos gregos, fortemente vinculados às características físicas e psicológicas dos humanos.

O que não está explícito atrás dessa maneira de pensar é uma epistemologia. Não é dado ao homem compreender toda a dimensão do universo, e por este motivo ele tem necessidade de fazer adaptações. A majoração das propriedades humanas para emular deuses é uma mostra de que temos um impulso em cobrir buracos cognitivos, o que fazemos até hoje (vide aqui e aqui). Essas teses que criamos tem a aparência de verdade, mas são apenas opiniões. O universo como algo imóvel e imutável é impossível de perceber, e somente pode ser deduzido através do intelecto. Olhando através dos sentidos sempre se terá a sensação de mudança e transformação, no que é o principal ponto de contato de Xenófanes com os eleatas.

Xenófanes ainda tinha uma concepção original com relação à arché. Diferentemente dos demais filósofos-físicos, o elemento que ele entendia ser a essência primordial limitava-se ao próprio planeta, distinguindo-se do uno no sentido de que, dentro de sua esfera, era o princípio originador. Nisso não há contradição, porque o uno dá origem a essa arché, que, por sua vez, é basilar na constituição de tudo o que existe nesta combalida bola azul. Esse elemento era a terra.

E por que ela? Xenófanes faz observações muito interessantes para chegar a esta conclusão. Primeiramente, observa que, apesar da imensa área marítima que circundava o mundo conhecido, sempre ela era fundeada por terra, por mais profunda que se encontrasse. O fundo de um rio era terra, de um lago, de um poço, do oceano. A água se fazia misturar com a terra, até o limite onde somente ela existia. Além disso, e o que é mais astuto, nosso amigo de Cólofon observava que era possível encontrar conchas e fósseis de peixes em lugares muito distantes das margens oceânicas. Isso o fazia concluir que esses lugares um dia estivessem cobertos de água, e por isso esses fragmentos se encontravam lá. A presença destes restos de seres vivos era uma maneira de antever seu retorno para o elemento fundamental, o que reforçava sua tese.

E é isso. Vou aproveitar o calorão e relembrar um pouco mais dos tempos de criança. Agora no cair da noite é o momento ideal para regar o quintal e tomar um banhão com essa nova mangueira coxinha que eu arrumei. Bons ventos a todos!

Recomendação de canal:

Vou recomendar o canal Parabólica, do professor Pedro Rennó, que contém boas séries sobre Filosofia, incluindo os pré-socráticos que costumo abordar neste blog.

https://www.youtube.com/c/Parab%C3%B3lica

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O café filosófico do quotidiano – a fácil moldagem do ápeiron de Anaximandro como essência de todas as coisas

Olá!

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Então ficou combinado assim: eu passo a virada de ano em Taubaté e logo em seguida vou para Curitiba. Fiz isso logo cedo, para aproveitar a aparente trégua da chuva, o que se revelou uma ilusão logo na Serra do Cafezal, primeira serra do caminho na Régis Bittencourt, onde o céu caiu por entre árvores e caminhões. Por falar nela, estreei uma metodologia nova de preparar café exatamente nesta viagem. Eu tenho uma garrafa térmica que possui um filtro metálico, e isso resolveu um belo de um problema.

Na verdade, o problema vem da frescura dos critérios mais rigorosos que eu tenho imposto a mim mesmo desde que passei a pesquisar mais a fundo os diferentes métodos de extração de café. Normalmente, eu pararia no caminho e tomaria um café coado no posto, mas vislumbrei uma maneira de tomar um líquido melhor sem ter que parar.


A solução mais simples de todas seria preparar o café e colocá-lo na garrafa para ir tomando na viagem. Só que isso desnatura o sabor em questão de uma hora, e o objetivo não era queimar a largada, mas ter o produto lá pela terceira hora de viagem, quando o tédio começasse a bater. A melhor maneira, portanto, seria utilizar os poderes térmicos da garrafa e levar nela apenas a água quente.


Quando estivesse lá por Cajati, bastaria pegar o moinho manual e triturar uma quantidade de grãos suficiente para o tanto de água contido na garrafa. É neste momento em que o elemento filtrante de metal entra em ação, fazendo com que obtivéssemos uma infusão fresca, de sabor quase tão agradável quanto se água tivesse sido aquecida na hora.


O ideal seria ter uma daquelas cafeteiras portáteis que fazem de tudo, moendo o grão e aquecendo a água eletricamente, utilizando o plugue do isqueiro do carro, mas elas custam o olho da cara e eu não estou podendo, como todos os demais assalariados deste país, então posso considerar que o método é, no mínimo, eficaz para este propósito. Ainda deu uma sobrinha para tomar mais à frente, já quase na divisa com o estado do Paraná.


Nome do utensílio: garrafa térmica com filtro de metal

Tipo de técnica: infusão

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: preenche-se a garrafa com água fervente, deixando espaço suficiente para despejar o pó. No momento adequado, retira-se o filtro e coloca-se o café moído. O filtro é reposto e a garrafa é firmemente fechada, ficando o tempo suficiente para a infusão. Após, o café é escoado para consumo. É importante que a garrafa tenha boa vedação para evitar a perda de temperatura.

Resíduos: Pouco

Temperatura de saída: Média-baixa

Nível de ritual: Baixo

Em um exemplo tão banal, podemos ver como as coisas têm sua plasticidade. Essa garrafinha não é destinada exatamente para se fazer café, dando-se melhor com chá, que é menos caprichoso com sabores e oxidações. Só que, bem usada, se prestou a um ótimo serviço. Poderia também levar suco, um vinhozinho, ser um peso de papel, um porrete de dar na cabeça de bêbado ou coisas menos votadas, tudo depende da criatividade de quem inventa usos.

Vou dirigindo e tomando meu café (que a PRF não saiba), em um ordinário copinho de plástico. Que vacilo, podia ter trazido recipiente melhor. O material é meio mole, o que dificulta um pouco o manuseio em momento tão delicado. Ele deforma todo na mão e parece que vai desmanchar. É outra coisa que é facilmente moldável, como também é o banco em que sento. Tudo na vida é tão plástico, tão flexível, tão acomodável que parece ser essa a nossa própria essência, e não a história parmenidiana de que tudo é imutável. Nós mudamos e nos adaptamos, seres e coisas fabricadas pelos seres, como as nossas próprias cidades.

Ora, se nossa essência é ser mutante, como quereria Heráclito, não é, ela mesma, algo imutável? Será que não é isso nosso core, nosso algo comum, nossa característica intrínseca? Vou pensando nisso já meio inebriado pelas curvas e pelo pico de cafeína, a ponto de esquecer que a patroa está do lado e solta um pequeno grito quando o copinho de plástico, o tal moldável que deu origem à série, escapole de sua mão e cai milagrosamente de pé no chão do carro, sem causar prejuízos. Apesar do susto, mantenho minha adrenalina em níveis estáveis e retomo meu papo interior sobre essência e plasticidade.

Quando falamos nesse tipo de coisa, resgatamos o pensamento mais primordial da Filosofia grega, que queria chegar em uma essência da mesma forma meu pensamento quase descoordenado em meio às serras da Regis. Já falei muito sobre isso neste blog, chegando quase à saturação, mas é que o tema é central na história filosófica ocidental, e eu mesmo me pego por vezes fazendo algo bem semelhante, como estou narrando neste momento.

Acontece que os primeiros filósofos buscavam a arché em coisas plenamente físicas, como especifiquei neste texto, sendo que o pioneiro de todos foi Tales, que elegeu a água como elemento primordial, pela sua quase onipresença no universo observável. Mas meu foco será em seu sucessor.

Anaximandro era milésio, assim como Tales. Em sua obra De Natura (outra dentre tantas “Sobre a Natureza” que os primeiros gregos escreveram), da qual nos chegou apenas alguns fragmentos, abandonou a linguagem em verso típica dos gregos e passou a utilizar a prosa, mais adequada a quem queria fazer uma comunicação mais livre de elementos desvinculados da ideia em si. Ele desenvolve sua ideia de arché de maneira mais intrínseca que seu antecessor, que ainda incorporava um elemento físico para explicar a essência originária do cosmos. Anaximandro entende que a água, embora concorde que esteja presente em quase tudo o que nos rodeia, ela mesma é uma matéria secundária, e tem ainda antes de si outro princípio primitivo, assim como qualquer outro elemento que se possa captar pelos sentidos, como tentaram Anaxímenes com o ar e Xenófanes com a terra, para ficar em dois exemplos.

Se nós paramos para pensar, de fato é difícil aceitar que um único elemento molde toda a realidade, pelo menos com suas simples características próprias. Uma substância mais permeável a moldagens daria uma explicação melhor à questão. Anaximandro sofisticou o pensamento talesiano através do ápeiron, palavra grega que significa algo como “sem limites”. Ele tira a necessidade de um meio físico e coloca um princípio delineador à realidade, de modo a tudo ser possível através dele. Esse princípio, como o próprio nome prenuncia, não possui limites quantitativos e nem qualitativos, ou seja, pode-se estender espacialmente para qualquer dimensão e assumir toda e qualquer forma que exista no universo inteiro.

O ápeiron de Anaximandro sobrepõe a dimensão temporal que estamos acostumados a adotar. Quando pensamos nos mais extremos dos tempos, podemos falar de vidas eternas, das quais as divindades são as mais potentes representantes. Entretanto, os deuses gregos tinham um infinitude em sentido único, sendo que eles jamais morriam, mas tinham um nascimento, que eram explicados nas diferentes teogonias, como é o caso célebre da de Hesíodo, já comentada neste texto. O mesmo se aplica ao universo e ao próprio mundo. Contudo, Anaximandro identifica o ápeiron com os fundamentos divinos e retira dele o início, reputando-o como eterno em qualquer sentido temporal: o ápeiron não tem fim, e também não tem começo, senão ele teria um limite. Ele está divinizado e quebra um dos eixos da religião pública grega, dando um certo sabor órfico à sua filosofia.

Mas como se dá a moldagem do ápeiron? Apesar de ser uma substância única, ele toma a forma e a matéria de qualquer objeto que possamos observar, e desses fenômenos podemos perceber que há uma série de características que muitas vezes são opostas entre si, aquela velha história do quente-frio, grande-pequeno, seco-molhado, velho-novo e così via. Em cada uma das instâncias que o ápeiron se concretiza, há uma predominância de um contrário sobre o outro. Essa predominância indica que um ponto de equilíbrio se perdeu, como são os relacionamentos pessoais e sociais, e isso gera uma “injustiça”, onde essa preponderância "massacra" o lado oposto. Imagine, por exemplo, uma planta em uma terra completamente seca. Todos os líquidos que estão em seu interior vão se esvaindo até sua morte. Todavia, se ela receber água incessantemente, suas estruturas internas se encharcarão a ponto de perder sua funcionalidade, o que também representará seu fim. Ou seja, a predominância de um dos opostos vai se manter até um ponto de cisão, quando os contrários porão um fim em si mesmos e renascerão novamente, dando ao ápeiron um novo aspecto. Eu já mencionei várias vezes as visões cíclicas da realidade, como acontece com Empédocles, com o Budismo ou até mesmo com a provocação nietzscheana do eterno retorno, e aqui temos mais uma dessas representações: tudo parte do ápeiron e tudo volta ao ápeiron, em um ciclo sem fim, já que a própria substância é infinita.

Essa história de jogos de equilíbrio e de vida cíclica é uma ideia que vem do orfismo, como eu disse logo atrás, que influenciou muito diretamente a filosofia pré clássica e que me levou a redigir um texto recente. Se você tiver paciência de ler, perceberá que já naquele momento existia uma ideia de carga de culpas semelhante ao que acontece com o pecado original cristão, e que se repete em Anaximandro: a injustiça dos desequilíbrios é inerente à própria constituição do cosmos, já estando embutida em sua substância original, e é isso o que faz com que ele se mova.

Além disso, Anaximandro rompe com a ideia de universo único. A sua lógica consiste na ausência de limitação do ápeiron, que não pode se restringir apenas ao universo visível. Do contrário, ele teria os limites da nossa própria percepção. Desta forma, não apenas os mundos teriam existências cíclicas e sucessivas, mas concomitantes, como os proponentes do multiverso amariam adotar mais tarde. Portanto, a filosofia de Anaximandro tem um horizonte bem mais largo que a de Tales, sendo até mesmo possível correlacioná-la com a metafísica dos mundos possíveis imaginada contemporaneamente.

Por fim, podemos chamar a atenção dos conspiracionistas de plantão para uma nova teoria com a qual eles podem assustar a patuleia. Para Anaximandro, o planeta Terra não possuía o formato plano que se cria na época, mas também não era esférico como sabemos hoje em dia. Anaximandro entendia que a Terra era cilíndrica.

Como funciona isso? Para ele, o cosmos nasce de uma das inúmeras oposições possíveis, a do frio versus calor. No âmbito local, esse contraste era representado pelo Sol quente e a Lua fria, cada um inserido em sua própria roda que se situam concentricamente. A luta entre ambos os estados criava uma espécie de túnel, exatamente onde a Terra estaria encapsulada, bem ao centro. O Sol e a Lua seriam visíveis por conta de descontinuidades nessa cápsula, e isso tornava possível a entrada de sua luz. O formato cilíndrico era melhor que o plano para explicar o deslocamento dos astros através dos céus, sendo que o mundo conhecido se limitava à Europa, África e Ásia. Nem se sonhava com América, Oceania e Antártica. Sendo assim, a porção sólida do planeta seria circundada totalmente por água que, ao contrário do pensamento de Tales de que a terra boiava sobre esse elemento, se autossustentava no espaço por ação das oposições externas já mencionadas.

Aqui, Anaximandro fará uma concessão a Tales e reconhecer a importância da água nas relações do planeta. Para ele, e prenunciando um rudimento de evolução das espécies, a vida inicia-se nos mares e lentamente vai migrando para a porção sólida, através de progressivas adaptações do seres que de lá surgem.

Eu fiquei lá por entre as serras divagando sobre a genialidade deste modelo de pensamento, em época que não havia instrumentos disponíveis, apenas os cérebros humanos. Quando dou por mim, já passei a Barra do Turvo e entrei no Paraná, com a patroa dando seu reconfortante cochilo de um olho só, e aperto o passo para chegar logo de uma vez e recolher todos estes pensamentos no texto que vocês estão lendo agora. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É o livro de um dos principais físicos da atualidade, que rende suas louvaminhas (justas) àquele que é tido como um dos grandes precursores dos métodos científicos. Na ausência de escritos remanescentes do autor original, é uma boa dica para conhecer melhor este filósofo.

Rovelli, Carlo. Anaximandro de Mileto. O nascimento do pensamento científico. São Paulo: Loyola, 2013.