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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Navegações de cabotagem - o passeio público de Curitiba e o aprendizado que se faz caminhando

(Passear é lazer, mas em Aristóteles era também o conhecer)

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena

Fernando Pessoa, no heterônimo Alberto Caeiro 

Olá!

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O que nós fomos fazer mesmo? Ah, sim… comprar temperos. De vez em quando dou um pulo em Curitiba, como vocês, meus bissextos leitores, estão cansados de saber.  Aproveito o home office e vou passar uma semana na casa do moleque mais velho, especialmente porque, segundo ele, já está de saída de lá, devendo voltar a Sampa no começo do ano que vem. Acontece que tenho umas horas livres no começo do dia, e, com isso, vou com a patroa dar umas voltinhas. Desta vez, para fazer isso, comprar temperos exóticos em uma boa casa que existe por lá.

Só que comprar meia dúzia de pimentas extravagantes não é um programa que leve mais que vinte minutos. Sendo assim, tempo havia, e lembrei que passamos beirando o Passeio Público, um parque central da cidade e bastante próximo à mercearia que iríamos. Não custa dar um pulinho.

O Passeio Público de Curitiba é seu parque mais antigo, inaugurado em 1886 para sanear um alagado que existia por lá, e que só servia para fazer proliferar mosquitos e muriçocas. Em seu lugar, um pequeno conjunto de lagos, jardins e pontes para os cidadãos fazerem seus giros na hora de folga.

O projeto tem essa cara de europeu porque seu criador se baseou nos jardins franceses para produzir esse espaço relativamente pequeno, mas que tem um sabor parisiense em seu intimismo, passando por seus portões e continuando nas alamedas que ladeiam os lagos.

Originariamente, os lagos do parque eram utilizados por pequenos botes para dar uma voltinha molhada, alla Veneza, o que parou de ser feito com o tempo, restando unicamente os barquinhos de adereço.

Um dos contrapontos mais curiosos daqui foi a introdução de um coreto eletrônico, que deu modernidade ao velho equipamento tão típico dessas épocas, onde é possível usar e abusar de projeções, além da tradicional função de servir de palco e palanque.

Este aqui é um pedacinho da Ilha da Ilusão, uma ilhota que contém um busto do escritor Emiliano Perneta, considerado o príncipe dos poetas curitibanos, de verve simbolista e também atuante na área do Direito.

O desaguadouro do antigo Córrego do Belém, que produzia o antigo banhado, ainda se presta a alimentar de água todo o complexo, ainda produzindo tanques e cascatas artificiais.

Há muitos bichos dentro do passeio público, o que garante a alegria da criançada. Nos lagos, há as habituais carpas coloridas, sempre dispostas a deglutir vorazmente suas porções de ração.

E há diversos viveiros para aves, todos eles devidamente cercados e com recintos de repouso. Embora houvesse bastante sol, o ventinho frio típico dessas latitudes não fazia com que todas as aves se encorajassem, mas muitas delas procuravam os raios.

Há as aves nativas, especialmente da Mata Atlântica, da qual as matas de araucárias fazem parte…

… e há as aves estrangeiras, mas que também se adaptam bem ao subtrópico curitibano.


Enfim, um lugar aprazível para um passeio rápido, para namorar um pouco e até chupar um velho sorvetinho italiano, daqueles que vem com abelhas de brinde.

Bom... passeios podem nos ensinar bastante coisa, não é verdade? Depende, né? Quando lembro de minha época mais escolar de todas, não vislumbro grandes passagens que tenham ocorrido fora do interior da imensa escola estadual, que ocupava meio quarteirão de uma rua da Vila Diva, bairro operário da zona leste paulistana. Como prédio, era extraordinária: duas quadras, vários níveis de pátio, muitas e muitas salas, algumas especializadas, com laboratório e oficina, área de refeições e cantinas, e até uma pista de salto, tudo meio capenga, mas existente. Ocorre que ela adotava aquele modelo presídio tão típico da década de 70, onde uma cigarra anunciava os inícios e términos de aula, e o confinamento era garantido, a não ser para os aventureiros que se dispusessem a escapar por uma linha de águas pluviais no extremo sul da fortificação, o que nem era tão difícil em tempo seco. A segurança para sair era reforçada, mas a peia cantava lá dentro mesmo, e até briga de facas cheguei a presenciar. Nada mal para quem ama referenciar os saudosos tempos seguros de outrora.

As únicas saídas eram as excursões raríssimas, feitas para dizer que existiam, e que custavam aos bolsos proletários os caraminguás para pagar o fretamento e ingressos que por ventura existissem. Uma delas foi em 1982, para assistir o filme Gandhi. É um filme ótimo, didático, histórico, que fez sucesso na época tratando de um tema delicado, as lutas da Índia derivadas primeiro da dominação, depois da religião, mas quem o agendou não teve a sensibilidade de perceber que mais de três horas de filme para uma escola repleta de fedelhos descambaria para o pandemônio. Foi o que houve. Depois das duas primeiras horas, não havia mais quem conseguisse ouvir minimamente o que se dizia na tela, mesmo com os poderosos alto-falantes do Cine Marabá (acho que foi no Marabá) em plena potência.

Outra ocasião vergonhosa foi quando excursionamos ao teatro Sérgio Cardoso, para assistir a uma peça sobre um dos principais independentistas sul-americanos, Simón Bolívar. Encontrei uma obra sobre no acervo do Teatro de Arena, mas acho que não era a mesma. Se em um cinema com seu potente sistema de som o caos se instaurou, o que podemos pensar de uma sala onde o que se ouve é a voz pura dos atores? Com menos de cinco minutos o ator principal parou a atuação e deu um esporro proverbial na patuleia infanto-juvenil, de forma a corar de um escarlate profundo as faces dos docentes presentes, nossos professores.

Mas ainda tinham as saídas que fazíamos para disputar os campeonatos interescolares. Aí, sim, nós aprendíamos… aprendíamos que tinham menininhas observando e nos desdobrávamos nas acrobacias, mais para parecermos pavões do que para demonstrar alguma consciência tática e tentar conseguir alguma medalha.

Não sei exatamente a idade de quem me lê. Talvez as coisas tenham melhorado.

O fato é que, nessas simples lembranças, coloquei na mesa que fomos à República em um cinema e ao Bixiga em um teatro, mas nunca demos trinta passos dentro da nossa própria freguesia, para conhecer minimamente sua estrutura e funcionamento. A impressão geral é que a vida acontecia lá fora, e que nada ocorria no nosso mundo real, mas o fato é que sim, havia uma sociedade que povoava aquelas casas de tijolos aparentes pela queda dos rebocos, e onde se fazia mais do que beber em companhia nas tardes de domingo. Poderíamos ter ido à Sociedade de Amigos do Bairro, ao “bailarico” português, à Escola de Samba Príncipe Negro ou a tantos outros lugares que existiam e que chegaríamos em meia hora a pé, no máximo, entender por que estavam ali, o que faziam, o que representavam para a coletividade. Parece bobagem, mas a visão que uma escola dá é mais despida de camadas irracionais, um ângulo mais sistêmico da realidade que nos cerca, justamente por seu propósito didático. Quando conhecemos esses pequenos espaços por nós mesmos, o que é perfeitamente possível, podemos ter um ponto de vista obliterado pelos preconceitos que nascem em nossas próprias casas, devemos admitir. Assim, ao invés de ser uma entidade representativa do interesse dos moradores, a Sociedade do Bairro vira um lugar para os velhos jogar bocha; o espaço de manifestação cultural se torna o salão onde as mulheres bigodudas se travestem de camponesas e a escola de samba deixa de ser o amálgama de uma coletividade para virar o lugar onde os pretos vão fazer seus batuques. Entendem onde quero chegar?

Por isso, o simples andar pelas ruas da cidade pode ter propósito educacional e civilizatório. Encarar a realidade significa vivê-la, e isso é mais fácil quando não estamos reclusos, meramente conjecturando o que é a vida e seus desdobramentos. Para saber a vida, é preciso perceber a vida.

Aristóteles claramente tem essa visão e a coloca em seu projeto educacional. Eram épocas em que os grandes letrados fundavam escolas, e nelas impunham seus próprios estilos e métodos. Algumas delas ficaram extremamente conhecidas, começando pela de seu mestre Platão, conhecida como Academia. Esse nome foi dado em homenagem ao herói Academo, que tinha seu túmulo nas imediações da área onde o filósofo instalou sua escola. Esse nome virou sinônimo tanto de local de estudos, quanto de prática de esportes, que Platão também prezava. Por isso, meu caro musculito, minha prezada monstrinha, não é uma apropriação tão indébita chamar seu lugar de ginástica de academia.

Aristóteles, conquanto fosse o discípulo mais brilhante de Platão, não foi escolhido seu sucessor por ocasião de sua morte, certamente pelas suas divergências fundamentais com o mestre. Por esse motivo, resolveu fundar seu próprio gymnasium, a quem o nome de Liceu, cujo bosque era dedicado ao deus Likeon, uma das personificações de Apolo. Também hoje esse nome continua a ser utilizado, não tão aberto como a academia, que acabou virando sinônimo de produção de conhecimento, mas como estabelecimento de ensino secundário (vide o Liceu de Artes e Ofícios, célebre aqui em Terra da Garoa). Entre as duas instituições, há importantes diferenças metodológicas derivantes da forma de cada um pensar.

Quando nós observamos a esplêndida obra de Rafael Sanzio denominada “Escola de Atenas”, vemos no seu centro justamente nossos dois heróis, Platão e Aristóteles. 

Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rafael#/media/Ficheiro:Escola_de_Atenas_-_Vaticano_2.jpg

Como toda boa obra de arte, a carga abstrata é tão ou mais importante do que a habilidade técnica, e o que vemos aqui é justamente o debate entre ambos os morubixabas gregos. Para o mais velho, o conhecimento era uma propriedade exclusiva do intelecto, que seria o mecanismo disponível para se atingir as formas perfeitas que plasmaram toda a realidade. Prova disso era seu grande interesse pela matemática, área do conhecimento que fornece parâmetros exatos do que seria essa tal realidade. Por esse motivo, Platão é representado com a face de Leonardo da Vinci, seu correspondente da ocasião, e com um dedo apontando para cima, onde estaria o Hiperurânio, ou o tal do Mundo das Ideias. Para Aristóteles, no entanto, a questão não se dá unicamente no campo das ideias, mas na realidade em si própria, ou seja, no mundo captável, de uma maneira muito mais orgânica do que ocorria com seu mestre. Sendo assim, é a partir da observação do universo circunstante que se extraem dados para se aproximar da verdade, em um processo claramente empírico. Aristóteles dava muita importância à coleta de dados e às ciências que necessitam de dinamismo empírico, principalmente a biologia, dando menor importância às formas hard code do Mundo das Ideias platônico. É representado, portanto, como seu representante Michelângelo e aponta para baixo com a palma da mão e para todas as direções com os dedos, indicando que a realidade está no aqui e no agora. 

Essa divisão ideal já deu, muitos séculos antes do grande embate moderno, as bases para o confronto entre racionalistas e empiristas que, no final das contas, provaram-se complementares. Para os primeiros, o conhecimento é, antes de mais nada, um exercício mental, que é capaz de extrair a realidade mediante o raciocínio puro. Já os outros não abriam mão de experienciar suas teorias para dar fundamento calcado na realidade. A coisa já nasceu aí.

Se fizermos uma rápida reflexão, constataremos que ambas as correntes se imiscuem, se imbricam, se abraçam. Grandes conclusões universais, como as distâncias astronômicas, são obtidas através de cálculos complexos, que praticamente prescindem de observações. É que quanto menos as sensações participarem da relação cognitiva, menos darão desvio às conclusões. Mas o diabo é que um telescópio poderoso foi colocado em pleno espaço sideral, para funcionar melhor do que se estivesse aqui na Terra. As máquinas, vejam vocês, também tem sensibilidade, e um equipamento desses funciona melhor fora porque tem menos refrações de luz. E isso ficou conhecido porque foi observado. Um não foge do outro.

Nos primórdios dessa linha de pensamento, Aristóteles dividia seu Liceu em dois períodos distintos. Na parte da manhã, chamado de esotérico, tratava de temas mais profundamente filosóficos, e tinha um número mais reduzido de alunos. Já na parte da tarde, tinha-se o período exotérico, com temas mais próximos ao dia-a-dia dos discípulos, voltados para a política, literatura e retórica. De toda forma, era seu hábito circular pelos jardins do Liceu ou mesmo pelas ruas da cidade enquanto dava suas aulas e preleções, justamente para trazer caráter mais empírico e menos especulativo com relação à Academia.

Esse método de ensino fez história, a ponto de se tornar sinônimo de aristotelismo. Eram os peripatéticos, o que, em uma tradução meio forçada, significa “aqueles que andam ao redor”. Sempre tendi a achar que esse nome teria a ver com o termo pathos, já que a própria palavra patético, que significa aquele que provoca compaixão ou tristeza, em decorrência do sofrimento que apresenta, tem o termo na sua raiz. Mas não. Esse pathos é sinônimo de caminho (path um inglês quer dizer exatamente isso), e o pensador ambulante é o símbolo da escola.

O Liceu ainda sobreviveu ao seu criador, por mais um bom tempo. Seus sucessores mais conhecidos foram Teofrasto, Estratão de Lâmpsaco, Alexandre de Afrodísias e Andrônico de Rodes, a quem coube fazer a organização das obras aristotélicas. O caráter empírico de seus estudos lhe deu o ar mais prático que é adotado no ensino profissionalizante, e, por esse motivo, os liceus espalhados pelo mundo estão voltados a essa parcela do mundo educacional, como na França, em Portugal e mesmo no Brasil.

Voltando ao presente, depois do passeio e do sorvetinho, ainda deu tempo para mais coisas, mas isso vai ficar para o próximo texto. Até lá e bons ventos a todos!

Recomendações:

Já que eu mencionei o filme, vai a indicação dele, que é muito bom mesmo.

ATTENBOROUGH, Richard. Gandhi. Filme. Columbia: EUA, índia, Reino Unido, 1982. Cor/PB. 188 min.


E o endereço do parque:

Passeio público 

Rua Presidente Carlos Cavalcanti, S/N

Centro Cívico

Curitiba/PR

A aproximadamente 405 km do centro de São Paulo 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Navegações de cabotagem – o Memorial Paranista de Curitiba e a divergência entre mestre e discípulo sobre o papel da arte

(Divergências são ensinamentos. Dois dos maiores pensadores de todos os tempos não tinham consenso sobre a estética, e isso não é ruim)

“O escultor guiado pelas sombras e luz valoriza desde os maiores planos e formas até as mínimas saliências de um músculo. A escultura exige como todas as artes: proporções, ritmo e elegância no seu conjunto, harmonia de planos e de forma, justeza de planos, pureza de linhas e um modelar quente, pastoso e forte dentro de uma gama harmoniosa e sensível”.

João Turin

Olá!

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Eu sempre tive cachorro em casa, mas, como cada um dos filhos foi para um lado, também os bichos foram com eles. O emérito Homem-Cueca está em Taubaté, com a menina mais nova, enquanto a pequena Nala está em Curitiba, com o moleque mais velho. É uma gloriosa descendente de dachshund, agitada e fofoqueira por natureza, o que demanda movimentação para cansá-la, senão ninguém dorme. Ocorre que ela mora em condomínio, o que limita bastante suas possibilidades, e, para solucionar, nada como um bom parque. Há, entretanto, entraves. Seus “pais” se preocupam com o modesto tamanho e imensa empertigação da cadela sem completa noção de perigo, o que lhes tira o sossego perante as hordas de cachorros soltos*. Por outro lado, alguns parques não admitem cachorros, seja lá por qual motivo for. Sendo assim, há restrições que demandam alguma pesquisa. Vejam só, temos o Parque São Lourenço, que, ainda por cima, abriga o Memorial Paranista, com seu anexo jardim de esculturas. Parece interessante, vamos lá conhecer.

O parque em si corresponde à antiga área de uma fábrica de cola (Boutin), da qual estão mantidas a chaminé de tijolinhos e um dos galpões, devidamente convertido em espaço para educação artística e manutenção de ativos culturais.

Um estouro de represa ajudou essa empresa a encerrar suas atividades, o que demonstrou, de certa forma, que não era prudente manter atividades econômicas de peso naquele lugar. Com isso, a área acabou por se tornar um espaço de lazer, que foi sendo reforçada com o tempo. O resultado é um conjunto de trilhas cercando uma lagoa, por onde se pode andar de bicicleta, skate e, dadas suas elevações, de carrinho de rolimã.

E este é um dos lugares onde a pequena bisbilhoteira vem fazer os seus passeios desde então.

Este é um dos muitos parques de Curitiba que foram pensados para fazer a contenção de alagamentos. A lógica é simples: eles ficam em lugares baixos, aproveitando a existência de lagoas naturais. Com isso, em caso de chuvas torrenciais, o parque inunda, mas só ele. Lição para ser aprendida nesses tempos de mudança climática e de piscinões horrorosos, como existem na Terra da Garoa.

Com relação ao memorial, ele é dividido essencialmente em duas partes: um jardim de esculturas e um espaço expositivo, enriquecido por um teatro e uma lojinha, que ninguém é de ferro. Tudo aqui recende à obra do escultor João Turin, um dos principais cabeças do Movimento Paranista, uma corrente artístico-intelectual que procurou trazer a classe cultural paranaense ao universo do modernismo da década de 20, e colocar um horizonte próprio em ambiente cujo propósito era trazer brasilidade à arte brasileira. Temos aqui a fachada da casa de João Turin, que ele também usava de ateliê.

Espalhadas pela área verde, há quinze reproduções de suas esculturas, todas de grande porte e feitas em bronze.

Elas reproduzem a natureza e o homem que vivia nesse ambiente, em especial aqueles que compunham a história original do estado.

O Memorial em si é a composição de três edifícios, pelo vão dos quais há um grande corredor que serve como galeria.

Este corredor está repleto de baixos-relevos do autor, que retratam cenas do quotidiano e da vida simples de uma região que ainda tinha muito de aspectos campestres.

É aqui que fica o principal recinto de exposições das obras de Turin, além de conter uma série de informações biográficas. Você é recebido por esta estupenda Pietá.

Outras obras dignas de nota incorporam a cultura indígena e a mesclam com o grande distintivo paranaense, as araucárias, o que dá ao autor seu principal diferencial.


Uma obra expressa em um acervo rico, preponderantemente figurativa sem perder em abstração. É um artista que eu realmente não conhecia, e que me fez lembrar um pouco das tardes que eu passava no MUBE com as crianças.

Eu acabei por lembrar de um fato de quando tinha aulas de educação artística no ginásio. Embora fosse um bom aluno, meu desempenho era pouco mais que sofrível na disciplina, dada minha inabilidade natural no traço, denunciada desde logo pela minha letra desditosa. Para uma determinada aula, a professora Luiza mandou que levássemos gizes e agulhas para a aula, além dos guaches que já carregávamos na mochila. O objetivo era esculpir um gatafunho qualquer, e os melhores seriam expostos na escola. Se bem me lembro, era para fazer a “obra de arte” em classe e colorir como lição de casa. Se eu já tinha autocrítica suficiente para me desqualificar como desenhista e pintor, que faria com um teco de calcário e uma agulha enferrujada?

O resultado acabou surpreendendo a mim mesmo. Do alto de meus onze anos (acho), eu fui talhando duas peças decentes, onde estavam bem definidas a cabeça, corpo e membros de dois personagens ainda em processo de nascimento, mas já estruturados como deviam, incluindo os esboços dos rostos. Ainda não sabia muito bem o que ia sair dali, mas já estava definido que seriam duas figuras humanas. Em uma delas, os olhos ficaram implantados um pouco baixos, o que lhe deu um ar antigo, e viria a ser uma velhinha. Na outra, um defeito do próprio giz fez com que houvesse uma falha na região da boca, parecida com um dente, e lá foi virar um vampiro. Levadas para casa, as pecinhas receberam um acabamento com lixa de fósforo e pintadas, com uma mão de goma laca por baixo e outra de verniz por cima. Ficou realmente bonito, para alguém da minha idade e conjunto de interesses.

A questão é que não fui só eu quem gostou. Minha mãe mesma ficou admirada, e ela não era muito de dar mole na avaliação do que eu fazia (“É pra ele não se achar a última batatinha do pacote”, dizia, entre cruel e divertida). Coloquei em uma embalagem de bala e as levei para a escola. Se eu fiquei contente com o resultado e minha mãe foi condescendente, quem gostou mais, vejam vocês, foi a professora. O trabalhinho era para ficar exposto e voltar para seu dono, mas ela pediu para ficar com a dupla. Era um elogio para mim, e concedi. Sabem quando eu fiz outra? Nunca mais.

Contei essa história toda unicamente para introduzir uma questão de consciência do que se pode e do que se está disposto a fazer para alcançar objetivos maiores. Uma qualidade conseguida na produção de uma obra de arte envolve uma disposição em se aperfeiçoar até um ponto em que nos perguntamos se vale a pena tanto esforço. Eu tenho uma prima que aprendeu na marra a tocar piano, ficando não sei quantos anos na academia e outros tantos no conservatório. Se eu disser a vi tocar na casa dela poucas vezes, seria uma mentira: eu NUNCA a vi tocar. E ela sabe, ela tem a técnica e o diploma. Mas o tempo gasto se tornou obrigação e matou a vontade que ela tinha. Simples assim.

Então acabamos encarando a arte como algo meio subalterno, com uma importância secundária? Depende um pouco. Claro que, em um país onde se vende o almoço para comprar a janta, tudo que não é essencial para a sobrevivência acaba mesmo ficando em um plano acessório, que se volta mais ao prazer do que às necessidades, e isso limita muito nossas expectativas. Mas é possível encarar a arte por outro viés, porque ela traz respostas que a mera cientificidade ou olhar filosófico não conseguem dar. Traspassa a capacidade das mesmas de devolver a verdade a quem lança questões. O que podemos pensar disso?

É preciso pôr na balança a assertiva da arte como forma de conhecimento. Quem fez isso pela primeira vez, colocando entre parênteses a validade da estética foi Platão, através da boca de Sócrates. Mas é preciso compreender bem o que ele pensava.

No seu livro A República, Platão pondera sobre o papel do artista sob o prisma de seu sistema epistemológico. A teoria central platônica diz que existe entre todos os entes existentes no universo uma espécie de divindade a quem dá o nome de demiurgo, que seria o responsável não por criar as coisas tangíveis, mas por lhes criar a forma. Esse demiurgo extrai material do caos original e aplica a uma ideia que permeia todos os objetos da mesma categoria, o que acaba, por, de uma forma ou de outra, irmaná-los. Ele usa como exemplo um móvel, e nós faremos o mesmo. Imagine uma mesa. Ela pode ser uma mesa de cozinha, daquelas que serve de apoio para quem tem as panelas no fogo; pode ser uma mesa de jantar, com seu respectivo tampo de vidro, ou uma mesinha de canto, que segura um antigo telefone; ou uma mesa de escritório, cheia de gavetas, ou até mesmo uma mesa mortuária, cercada de velas e cruzes. O fundamental é que todas elas guardam consigo a essência da mesa, algo que faz com que ela ganhe esse designativo. É exatamente essa essência que o demiurgo ordenou a partir do caos e a tornou uma forma, que habita o mundo das ideias. 

É preciso clarificar isso um pouco. O demiurgo não extrai as coisas do nada, como faz, por exemplo, o deus cristão. Na concepção platônica, este demiurgo encontra o universo em estado de caos, ou seja, na mais absoluta desordem, porém preexistente. Para que esse caos se transforme em cosmos, ou seja, o universo ordenado, com seus ciclos, suas repetições e suas leis, é preciso que o demiurgo modele as formas, de modo a que tudo passe a ter uma constituição, sem a qual nada possuiria uma essência. Sendo assim, conhecemos a essência da mesa porque nosso intelecto consegue realizar um processo chamado de methexis, que é o reconhecimento da participação de uma mesa em particular com a ideia originária e universal de mesa.

O que acontece quando um marceneiro resolve então construir uma mesa? Ele busca com seu intelecto a forma essencial da mesa que está no campo das ideias e, dessa forma, traduz em material algo que estava unicamente naquele mundo intelectivo criado pelo demiurgo. Novamente aqui podemos pensar em um monte de modelos de mesas disponíveis, mas os critérios atendidos são de sua especificidade, ou seja, a mesa em sua singularidade, daquela mesa em particular, uma concreção da mesa intelectiva. Ocorre que essa mesa fabricada pelo artífice plasma a mesa ideal, mas não é igual a ela, não tem a sua perfeição. Sempre haverá na execução algo que destoe do que é o plano intelectual. Lá, conseguimos o círculo perfeito, o triângulo perfeito, a reta sem nenhum milímetro de desvio, e só lá. O mundo sensível tem um pacote de desvios que fazem com que tenhamos, diante de nós, as aparências. Usando o melhor dos compassos, temos a aparência do círculo perfeito, mas se visto em olhar microscópico, acharem um monte de defeitos.

Entretanto, se o que captamos pelos nossos sentidos nos permite reconhecer o que é o objeto, temos então a tal da methexis acontecendo. Há uma coparticipação entre o novo objeto e seu paradigma fundamental, de forma a colocar a peça no rol de determinações ontológicas da ideia em si, e o artesão foi, com maior ou menor precisão, trazer a essência do mundo das ideias para seu artefato, e, nesse sentido, ele é um criador, ele também uma cópia, mas desta vez do demiurgo, com a diferença de que não extrai sua matéria do caos, mas da própria natureza. Ele não cria o objeto em si, mas uma cópia do mesmo.

Agora imagine que dê na cabeça de um escultor como João Turin de fazer uma obra em pedra que represente uma mesa. Ele pode fazer uma mesa majestosa, que serviria para um gigante. Bem, gigantes não existem, então a mesa não serve para seu propósito. Poderia fazer uma mesa minúscula, daquelas que cabem em uma casa de bonecas. Ora, bonecas são simulacros de pessoas, portanto são imperfeitas. E mesmo que fizesse uma de tamanho normal, a ela faltaria o objetivo: a obra de arte não como artigo de uso, além de que, convenhamos, não é a coisa mais prática do mundo uma mesa de pedra, embora seja possível. Pior ainda se for uma pintura, que não guarda com a peça original nem ao menos a tridimensionalidade. O artista não faz methexis com o demiurgo, assim como o artífice faz. E isso é alvo de desprezo para Platão, porque a mimética é uma farsa, neste caso.

Pois então a conclusão é que não temos a methexis, ao contrário da mesa urdida pelo marceneiro. O escultor ou o pintor exercem seu ofício através de uma sensibilidade que já se baseia no mundo sensível. É uma cópia da cópia, já distante do mundo intelectivo em dois graus. Poderia ser ainda pior, se o pintor fizesse sua tela a partir de um relato, o que daria três níveis de distanciamento do mundo das ideias: o marceneiro que fez o móvel, o observador que o descreveu e o artista que lhe levou à tela. Se o conhecimento se dá por aproximação racional ao mundo das ideias, no plano estético, ou seja, no âmbito do sensível, cada vez mais nos distanciamos da verdade, e nos colocamos em uma situação de falsificação.

Desta forma, podemos concluir que a arte, na cosmovisão platônica, é antes uma inutilidade quando associada ao conhecimento. No entanto, seu discípulo Aristóteles é-lhe quase um opositor em muitos aspectos, e este é mais um. A importância que o moço de Estagira dá à arte e à estética por extensão é de dar completude educacional e de dar propósito ao conjunto teológico grego.

Começando a conversa, e embora não negue uma espiritualidade da construção do cosmos, Aristóteles não cria no mundo das ideias e no demiurgo, por consequência. O que ele tem é algo mais voltado para a ética do que para a epistemologia.

Aristóteles fala muito sobre a eudaimonia, a felicidade como causa final para o ser humano. Nesse sistema de causas, a causa final é o propósito para que algum objeto tenha vindo a existir. Por exemplo, uma mesa tem como causa final servir como um plano elevado que se aplique a facilitar a vida de quem desenvolve alguma atividade, seja ela qual for: trabalhar, comer, escrever e etc. A busca pela felicidade é o grande propósito do ser humano, a sua causa final. E, ato contínuo, o prazer está envolvido nessa relação.

Na primeira parte de sua obra A Poética, Aristóteles fala sobre a tragédia (a segunda, sobre a comédia, infelizmente foi perdida e até hoje não recuperada). Entre tragédia e comédia, a principal diferença não está em que a primeira é triste e a segunda alegre, mas que a tragédia é uma reprodução da vida como ela é, enquanto a comédia é a sua pura transgressão. Tristeza e alegria são meros reflexos, porque, conforme reportava Aristóteles, a vida é repleta de pathos, ou seja, de sentimentos fortes, pesados, muitas vezes acompanhados de intenso sofrimento.

O principal objetivo da tragédia é exatamente obter o que Platão mais queria evitar: a mimesis. Através da imitação, a arte traz aprendizado para o ser humano, porque lhe permite tanto vislumbrar uma trajetória semelhante à sua própria vida, quanto se integrar a essa espécie de destino comum da humanidade que é o pathos. Dessa forma, quando um artista traduz uma existência trágica, ele quer propiciar uma oportunidade para seus espectadores de reconhecer seu sentimento puro com relação ao seu papel como ser humano, em um processo chamado de catarse.

Mas não era uma questão de prazer? Onde a catarse é prazerosa, se prefigura o sofrimento? A catarse não é o prazer do regozijo, como pode fazer parecer um ideal estético de beleza, mas do reconhecimento de si mesmo como parte do destino humano, do pertencimento comum próprio da espécie, cujo sofrimento é inevitável. Quando observa que os mesmos sentimentos que lhe povoam ocorrem com outros humanos e até com deuses, o ser que presencia o fenômeno da catarse se liberta da repressão de seus próprios medos e encargos, que passam a ser encarados com maior naturalidade.

Esse é um processo que faz parte do aprendizado do cidadão, a quem Aristóteles dava sobeja importância, e entra em seu conceito de Paideia, a educação integral do ser humano, que lança mão de diversos expedientes para prepará-lo em todos os seus aspectos, inclusive utilizados aparatos estéticos. Deslindarei esse termo melhor, em momento adequado.

Por este motivo, os dois filósofos basilares da Grécia Antiga possuíam divergências tão sérias em sua maneira de encarar a arte: o propósito desta para um não coincide com que o outro via na sua principal utilidade. E com isso seria provável que ambos estariam aqui neste Memorial com feições bastante distintas - um carrancudo e outro deslumbrado, e, entre eles, a pequena Nala dando seus puxavantes para caçar suas lagartixas. Bons ventos a todos!


Recomendações:

As principais anotações platônicas estão na mais que recomendada A República, que já utilizei bastante por aqui, mas indico mais uma vez;

PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2000.


Com relação a Aristóteles, vai para a obra já mencionada no texto presente:

ARISTÓTELES. Poética. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2008.

*Um franco exagero.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Navegações de cabotagem - o Parque Tanguá de Curitiba e a Alegoria da Caverna colocada em contexto

(Vamos jogar a preguiça fora e contextualizar melhor a Alegoria da Caverna).

"A definição mais precisa que temos da Filosofia ocidental é a de que ela não passa de uma sucessão de notas de rodapé da obra de Platão " - Alfred Whitehead

Olá!

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Conforme falei no meu último texto sobre Curitiba, ela é uma cidade que se caracteriza pela presença do verde. Isso significa que, para dar presença diária na vida das pessoas, um parque tem que estar integrado ao bairro onde se localiza, sem a necessidade de ser grande e mirabolante. Mas não há necessidade que não existam espaços maiores, mais exuberantes, e estes também existem nesta casa, e são bastante interessantes e inspiradores. É o caso do Parque Tanguá, e vou pincelar um pouco sobre ele hoje.

Localizado originalmente em uma área degradada da cidade, onde existiam pedreiras, o Tanguá é um projeto que funde recuperação da flora original e diversidade paisagística, na melhor tradição dos jardins botânicos, desde a sua entrada.

Um mero detalhe curioso: bem na entrada do parque havia um lindo carrossel veneziano, daqueles à moda antiga, com música circense e repleto de espelhos e gravuras.


Um jardim de estilo francês é a principal marca da parte superior do conjunto arquitetônico. Ele homenageia um artista curitibano de renome internacional, Napoleon Potyguara Lazzarotto, mais conhecido simplesmente por Poty, cujas principais obras foram as gravuras dos livros de Dalton Trevisan, outro curitibano ilustre.

Como ainda era época de Natal, havia uma grande árvore cônica após a passagem do espelho d’água, e o tempo fechado permitiu que ela fosse acesa mais cedo do que o normal. Esta árvore fazia parte do circuito da Prefeitura local, que as espalhou por toda a cidade.


O parque é caracterizado por um grande desnível geográfico. Do belvedére, emergem plataformas que permitem avançar sobre o abismo que há entre a parte alta e o baixio.


Mais alto ainda ficam as torres do mirante, de onde é possível ver não somente todo o parque, mas uma boa parte da cidade de Curitiba.


Na medida do possível, o reflorestamento com a flora original permitiu que a bacia norte do rio Barigui fosse novamente protegida, além de resguardar alguns dos exemplares mais intrínsecos do Paraná, as araucárias.


Embora o cuidado paisagístico envolva a manutenção das formas originais, muita coisa está banhada pela mão humana, que tem um duplo viés: a negatividade da destruição imponderada e a vontade de recuperá-la. Há bastante coisa que saiu do eixo pela ação humana, e que só voltou por ela também.


O resultado é belíssimo, com uma cascata de quase setenta metros que parte do belvedére, melhor observada pelo bistrô que serve a carne de onça, prato típico de Curitiba.


Na flor da água, há um túnel escavado na rocha, que liga os dois flancos da lagoa.

Ele tem algo em torno de 50 metros e dá uma virada visual no parque, podendo ser acessado através de um deck de madeira que parte das proximidades do estacionamento.


Túnel e caverna são coisas semelhantes, com a diferença nada sutil de que um tem saída, enquanto o outro, não necessariamente. E como um remete ao outro, é difícil não lembrar de um vendo o outro. Por conta disso, quem milita na área de filosofia vê um retrato desses e imediatamente se sente remetido à Alegoria da Caverna de Platão.

Ora, essa é, na verdade, uma dívida da dívida que eu tenho com vocês, meus bissextos leitores. Tempos atrás, havia admitido que eu estava em falta com a audiência por tardar em falar sobre a alegoria da caverna, e acabei redigindo a peça que vocês podem ler aqui, e recomendo que o façam, por amor à concatenação lógica. O grande problema é que, embora o texto baste em si mesmo, fica no ar uma pergunta importante de ser respondida: o que Platão queria responder com essa metáfora? A alegoria da caverna prima muito por seu aspecto epistemológico, que é o mais usado por professores para fazer ilustrações aos seus estudantes, mas há todo um conjunto de circunstâncias que leva Platão a construí-la e que passa pela Filosofia da Educação e, especialmente, pela Política. Vamos destrinchar.

A alegoria da caverna está inscrita na obra “A República”. Embora o tal mito seja sua passagem mais célebre, há um pano de fundo mais abrangente a lhe costear, que é o conceito de justiça. De acordo com o hábito platônico, ele coloca o protagonista Sócrates a desfiar sua maiêutica, o método dialético que consiste em colocar em xeque um conhecimento preestabelecido e fazer surgir dele uma nova ideia (falo mais sobre o tema neste texto).

A obra está na conhecidíssima forma de diálogo*, onde um dos interlocutores sempre é Sócrates, e que debate com jovens, velhos, doutos e simples. A fórmula é aquela da maiêutica: uma pessoa possui uma firme opinião formada, e atribui a ela valor de verdade. Quando defrontada pelas oposições socráticas, começa a claudicar - será expressão de conhecimento, ou não passa de doxa, a boa e velha opinião, tão sujeita a erros? No caso da justiça, entre os diversos interlocutores, vários argumentos são apresentados para lhe dar fundamento:

·         Dar a cada um o que lhe pertence;

·         Fazer bem aos amigos e mal aos inimigos;

·         A conveniência do mais forte;

·         Ser injusto, mas parecer justo (utilidade).

Sócrates refuta cada uma dessas definições colocando-as em condição absurda, como tanto gostava de fazer. Ao fazê-lo, conduz o roteiro para a extensão da justiça do homem para a sociedade, porque é nela que está em ponto maior, e aí começa a construção de sua teoria sobre o estado ideal. Fundamentalmente, este seria dividido em três classes, articuladas entre si para o perfeito funcionamento do todo: os artesãos, os guerreiros e os guardiães. Aos primeiros, caberia o trabalho mais básico: a obtenção de alimentos, confecção de vestimentas, construção de habitações e tudo o mais que demandasse um ofício com um mínimo de especialização, obtido por aprendizado e vivência; aos guerreiros, obviamente, caberia a proteção do território, brando no trato interior, animoso contra o inimigo. Aos guardiães, caberá o governo da cidade, incluindo, naturalmente, a distribuição da justiça em um plano mais alongado, menos baseado nos indivíduos, mais no benefício à sociedade como um todo. É de se notar como a noção de justiça como virtude do indivíduo vai se estendendo a um ponto mais institucional, assemelhado à função judiciária como conhecemos em um estado constituído.

Essa extensão do conceito de justiça como virtude leva a uma comparação entre o funcionamento do estado e da alma. Cada cidadão deverá ser guiado por sua aptidão para exercer sua função social, da mesma forma que há diferentes funções no espírito : há uma porção racional que tem a função de conduzir e equilibrar as ações do indivíduo, um aspecto volitivo que impulsiona os apetites e desejos, e uma parte do ímpeto, que leva à ação em si. Quando essas três partes atuam harmonicamente, todo o organismo ganha, porque nem será incontroladamente impetuoso, nem se resguardará de qualquer ação, nem se dominará unicamente pelas vontades. Aplicada à sociedade, essa regra traz o melhor conceito de justiça: a harmonia entre as diferentes classes da cidade.

Daí, surgem dificuldades. Para que o guardião exerça efetivamente a justiça, é preciso que receba educação apropriada e que não possua bens próprios, maior corruptor de virtudes conhecido. Toda a classe dirigente deve comungar de bens comuns de acordo com a necessidade da classe, e não do indivíduo. Nesse condão, também não deve constituir família, para que não aja no interesse de seus descendentes. Plasmando para a atualidade, vejam como os governantes ocupam uma residência oficial unicamente pelo período em que exercerem seus mandatos, e como há leis impedindo a prática do nepotismo**. Além disso, tanto no corpo dirigente, quanto mesmo no exército, não deverá haver distinção entre homens e mulheres. Na guerra e na política, não há argumentos sustentáveis para estabelecer qualquer tipo de distinção que coloque um ou outro gênero como mais capacitado. E, por último, mas não em último, Platão estabelece que a virtude da justiça somente poderá ser distribuída na pólis quando os reis se tornarem filósofos, e os filósofos se tornarem reis.

Ser filósofo, no caso, não é uma tentativa de privilégio de classe que Sócrates sugere, mas que os basileus tenham a capacidade de ser virtuosos no sentido mais necessário: para ser justo no mais perfeito grau, é preciso saber reconhecer a máxima virtude - o Bem. O Bem, agora com inicial maiúscula, é uma espécie de gabarito que guia todas as demais virtudes: só é virtuosa a justiça calcada no bem; só é virtuosa a caridade calcada no bem; só é virtuosa a beleza calcada no bem. Ou seja, não há como fugir do conhecimento. Para se compreender o que é o Bem, é preciso escalar das experiências obtidas no mundo até que se chegue ao perfeito conceito de Bem.

Precisamos aqui discorrer rapidamente sobre a teoria epistemológica platônica, embora eu já tenho falado sobre ela diversas vezes neste espaço. Platão fala em uma divisão entre mundo sensível e mundo inteligível, sendo que o primeiro é captado pelos sentidos, enquanto o outro é acessado unicamente pelo intelecto. Em um exemplo, nossos olhos percebem o Sol como uma bolinha que cabe entre os dedos. Entretanto, ainda que sem grandes instrumentações, é possível fazer associações com outras fontes luminosas e perceber que ele é muito maior. Tomemos uma vela, por exemplo. Embora seja ínfima, consegue iluminar um cômodo de modo que não tropecemos nos móveis. Sua chama também cabe no espaço entre os dedos, e quanto mais longe, menos eficaz é. Ela ilumina muito menos que o Sol, que traz luz para meia Terra pelo dia inteiro. A inferência é simples: o Sol é muito maior do que meus sentidos captam. E isso eu deduzi utilizando apenas processos mentais.

Se eu faço isso para reconhecer que o Sol não é o que aparenta ser, o filósofo-rei precisa ter o mesmo discernimento para reconhecer o bem, que deve ser seu principal objeto de saber. É preciso escapar das aparências dos sentidos e das convenções sociais, para escalar dialeticamente pela cadeia intelectual que leva a um governo justo. 

Para que seja possível trazer ilustrações à sua tese, Sócrates/Platão tecem três símiles, hipóteses ilustrativas que se tornaram célebres. O primeiro é a Analogia do Sol, que é usada para ilustrar como o bem possui uma hierarquia superior às demais ideias e lhes dá sustentação. O sol é primordial para que se permita ao homem ver e ser visto. Como o nosso sensório visual é o mais expressivo de todos, ao menos para a espécie humana, sem que o Sol exista não há uma fonte para que se percebam todas as coisas do mundo. Assim como é o Sol para o universo sensível, é também o Bem para o universo inteligível. O Bem é a condição que dá virtudes ao conhecimento, porque faz parte do Bem que o conhecimento seja verdadeiro, que a ação seja ética ou que a sensação seja bela. 

Caminhando mais um pouco, vamos chegar ao exercício mental da Linha Dividida. Sócrates propõe que se imagine uma linha reta, e que esta seja dividida em duas partes desiguais, sendo que a primeira seria menor que a segunda. Depois, repetir-se-ia a mesma operação em cada uma das seções, de modo a se obter quatro pedaços, do menor para o maior. Esse tamanho progressivo corresponderia à capacidade de cada um carregar verdade. Os dois primeiros segmentos estariam no campo do sensível, enquanto os dois últimos estariam na senda do inteligível.  Do mundo visível, teríamos as imagens das coisas e as próprias coisas. Já na esfera inteligível, teríamos o discurso que traduz a natureza e a inteléquia pura. Imagem, opinião, razão discursiva e intelecção. Em grego, eikasia, pistis, dianoia e noesis.


O terceiro símile é a Alegoria da Caverna, que traz a fusão das duas construções anteriores e ainda acrescenta uma espécie de conduta ao filósofo-rei. O prisioneiro que se liberta não é somente aquele que procura a verdade, mas aquele que a usa para trazer o Bem em retorno à polis, mesmo que isso possa custar sua integridade física, e aqui tudo está unido: a metafísica do mundo das ideias, a gnosiologia do descompasso entre aparência e essência, a ética da distinção do bem e de sua distribuição à polis, tudo amarrado pela estética da metáfora, para desembocar em uma conclusão política.

Mais adiante, Platão comentará sobre a degeneração das formas de governo e sobre o mito de Er, mas, como eu já tenho outros textos engatilhados para tratar desses dois temas, vou deixar para esse momento. Até mesmo porque entendo que, desta vez, consegui cumprir a missão de contextualizar a Alegoria da Caverna devidamente, como deve ser feito, sem indolência, nem incompletude.

E o Parque Tanguá com tudo isso? Ele dá o exemplo de que um túnel dá aparência de caverna, e dessa imagem, tão nos primórdios do conceito platônico de conhecimento, é que obtemos um caminho sistêmico para a chegada ao saber que até hoje traz influências no pensamento geral. Bons ventos a todos!

Recomendações:

A República é uma obra tão fundante da Filosofia como um todo que não posso deixar de repetir sua recomendação. Procurem pelas indicações que fiz nos meus posts indicados, mas também vou deixar aqui uma versão online pesquisável, para fica ainda mais fácil:

PLATÃO. A República. Da Justiça. Disponível em http://www.eniopadilha.com.br/documentos/Platao_A_Republica.pdf .  Acesso em 22.10.2022.

E este é o endereço do Parque Tanguá:

Parque Municipal Tanguá
Rua Oswaldo Maciel
Taboão
Curitiba/PR
A aproximadamente 400km do centro de São Paulo

*Conhecidíssima hoje, bem entendido. Na época, a abordagem, apesar de comum, era uma criação razoavelmente original.

** Se funcionam ou não, são outros quinhentos.