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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – o clinamen nos inspira a pensar sobre arbítrio e criatividade

(Um pequeno desvio pode explicar uma gigantesca mudança?)

“Não há nenhum lugar onde os corpos, quando estão reunidos, possam, perdida a força do peso, ficar imóveis no vazio, nem, por outro lado, aquilo que é vazio deve suster alguma coisa, mas, pelo contrário, como exige a sua natureza, apressar-se a dar-lhe passagem”

Lucrécio

Olá!

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Depois de tanto tempo indo e vindo, é natural que a gente fique meio cansado. Ainda que seja perto, um lugar aonde vamos muito acaba se tornando cansativo. Não o local em si, mas sua rota. Eu tenho um piloto automático tão acionado no caminho Ayrton Senna - Carvalho Pinto (antiga Trabalhadores) que nem reparo mais nos morros, nas plantações, nas casinhas, nas vacas, nos postes de luz, somente na faixa de asfalto que parece mais e mais infinita, a ponto de causar um certo “barato”, onde a alma parece abandonar o corpo e flanar por aí, enquanto a pobre massa física vai girando o volante para lá e para cá ao sabor da habitualidade, o que é perigoso.  Redundar em distração a 120 km/h não é exatamente o que mais querem os legisladores de trânsito, nem os mantenedores da saúde pública. Afinal de contas, o corpo que está presente ao volante precisa da alma* para lhe dar vigilância e atenção. Por isso, e como já falei por aqui, resolvi alugar uma casinha em Taubaté, ainda que não seja para ficar lá cem por cento do tempo. Afinal de contas, a modernidade permite trabalho remoto, mas o chefe não, e isso me obriga a manter a base SP, para ficar em formato híbrido.

Alugar uma casa significa estruturá-la, o que não é muito módico. Sorte que o espólio da Dona Madalena me disponibilizou um monte de móveis e utensílios, e isso possibilitou economizar uma grana e viabilizar a empreitada. Geladeira, fogão, armários, cômodas… tudo isso e outras coisas mais permitiram a este escriba alugar a casa e não dormir no chão, nem comer comida fria. Não fosse isso, na verdade, e eu não conseguiria aluguel algum. É casa pequena, parece um trenzinho, mas, para mim, está de ótimo tamanho.

Mas é óbvio que a macróbia defunta não tinha um kit mudança pronto, e, para complementar, precisei comprar um monte de miudezas. Uma das mais óbvias era um método para o santo cafezinho de toda manhã, do qual não abro mão. Para isso, juntei o leve ar interiorano do campo com a praticidade da cidade e comprei um método misto, manufaturado pela Fabrikafé, uma empresa pernambucana que atua com baristas para produzir objetos ecologicamente sensatos: coadores de pano que se assentam em porta-filtros de mercado.

São produzidos com tecido do tipo saco de farinha, em algodão grosso. Eles vêm em vários modelos, e eu comprei um cônico e um trapezoidal, para encaixar nos porta-filtros V60 e Melitta, respectivamente.

Aqui a ideia é dupla: a primeira é de dar um certo ar de nostalgia, para que os coadores de pano modernizados possam relembrar as velhas “calcinhas” que nossas avós usavam para escoar café nas manhãs agitadas e nos domingões modorrentos. A outra é mais ecológica. Ao utilizar um coador reaproveitável, economiza-se muito papel que seria descartado imediatamente após o uso nos métodos mais costumeiros.

Depois de alguns dias de uso, e usando as recomendações de limpeza, consegui concluir que, de fato, funciona muito parecido com as velhas mariquinhas, dando aquele saborzinho de nostalgia. O segredo é o enxágue pós uso e o escaldamento no momento da extração.

Muitas vezes o que temos de mais esperto a fazer é exatamente a juntada de características fortes, para sair lá na frente com um objeto melhor. Isso não se restringe a coisas, mas também a ideias, incluindo o combate entre elas. E isso também pode ter uma coloração de nostalgia, onde ideias há muito esquecidas retornam com força, demonstrando como a racionalidade é poderosa.

Claro que não me refiro a pensamentos estapafúrdios, como terraplanismos e geocentrismos, mas a questões que pareciam aposentadas, que são reavivadas pelas descobertas científicas mais recentes, e voltam à discussão na academia, para depois cair nas discussões de boteco. Algumas dessas conversas são milenares, e pareciam que fariam unicamente parte dos compêndios históricos. Um bom exemplo é a questão da não-linearidade dos eventos, coisa que já se discutiu há um bocado de tempo, mas que hoje é rediscutida em eventos que parecem trazer metafísica para o mundo palpável, como o efeito borboleta e outros. É assim que funciona a ciência. E a filosofia também.

Bom, vamos lá. A ideia de atomismo nasceu a partir do pensamento de Lêucipo e seu aluno mais famoso Demócrito, que descreveram a hipótese da formação do universo a partir das interações entre as partículas fundamentais da matéria, os átomos, e o vazio, espaço onde absolutamente nada existia. Anteriormente, na pesquisa racional para a descoberta de um princípio geral da formação do universo e do que se mantinha no seu substrato, sempre tínhamos alguma espécie de vetor físico definido, como água, ar, terra, fogo e da combinação de todos eles, ou de elementos menos figurativos e mais abstratos e moldáveis, como o ápeiron e as homeomerias, ou até mesmo matemáticos, a tal da arché. No entanto, em consórcio com todos eles, havia alguma espécie de moção metafísica, como a ação divina ou impulso volitivo, porque se entendia que era necessária alguma forma de impulso para a coisa funcionar. Faltava a aposta em um fundamento puramente material, e é nisso que reside o atomismo, já que não há nada que gire o universo a não ser ele mesmo.

O que seria então esse tal de átomo? Seriam partículas mínimas puramente materiais e a combinação entre elas, de modo que cada uma delas fosse indivisível. É uma ideia parcialmente intuitiva, já que podemos partir um bolo em pedaços cada vez menores, inclusive no âmbito micrométrico, até o ponto em que essa divisão se torne impossível, e essa seria um “átomo” de bolo. Sempre lembrando que Demócrito anteviu que a tipagem de átomos era bastante limitada, e a imensidão de substâncias se dava pela combinação entre eles, o que poderíamos atualizar para as moléculas.

Mas como se dava o processo de construção dos corpos? Os atomistas entendiam que, observada a existência da gravidade, os átomos caíam no vazio em queda livre, até que um acabasse colidindo com o outro, porque os mais pesados terminariam encontrando os mais leves pelo caminho, o que poderia causar uma agregação (do tipo enganche) e isso ocasionaria sucessivas formações maiores, desde poeirinhas até planetas.

A estruturação dessa ideia parecia poderosa, mas Aristóteles resolveu jogar água nesse chope. Em primeiro lugar, ele não concordava que havia alguma coisa trafegando no vazio, porque não existia vazio. Aquilo que assim parecia, na verdade, era algum dos quatro elementos em estado desvanecido, mas não em algo rigorosamente sem nada, como o vácuo absoluto. E segundo, ainda que assim fosse, pelo funcionamento da própria racionalidade, Aristóteles concluiu acertadamente que, não havendo nenhum material a interpor resistência, não havia por que uma partícula mais pesada cair mais rapidamente do que uma mais leve. Estando em caminhos rigorosamente verticais e paralelos, jamais uma partícula atingiria outra, e o fenômeno da agregação atômica nunca se daria, e essa explicação sobre o funcionamento do universo era furada. Outra coisa: uma perspectiva puramente material desafiava a tese teleológica aristotélica. Dentre as famosas quatro causas, uma era a causa final, um motivo para que todas as coisas existam. No universo puramente material de Demócrito, não haveria propósitos, nem causas, nem finalidades, e isso contradizia o pensamento aristotélico que, como demonstrei, não gostou nada dessa explicação. 

É neste contexto que aparece o romano Lucrécio. Fundado no Epicurismo, e observados os inúmeros fenômenos do acaso que ocorrem incessantemente no mundo e no universo, teorizou que, sem nenhum tipo de determinação, ocorriam minúsculos desvios na trajetória de certos átomos, o que levaria à colisão pensada por Demócrito. Seria essa, e não o peso dos átomos, a responsável pelas colisões que realizaram as agregações necessárias à construção dos corpos. É daí que surge o termo clinamen, ou inclinação, em latim.

Aparentemente, temos aqui um argumento ad hoc dos mais clássicos: se não tem explicação, eu arrumo uma. Mas também Lucrécio não tira sua hipótese do nada. O princípio geral da ideia é que, caso a teoria dos atomistas estivesse completamente correta, teríamos um mundo determinístico, completamente previsível e imutável. Mas não é o que temos na prática. Nem somente as coisas mudam ao menor sabor de variáveis, bem como também as próprias linhas de pensamento não seguem um caminho reto. Como os materialistas dos átomos achavam que tudo era composto por estes, também os pensamentos e abstrações seriam, e isso vai incluir livre arbítrio e criatividade. Vamos cuidar dessa questão.

Quando falamos em arbítrio, automaticamente pensamos em julgamentos e escolhas. Isso pode incluir opções simples, como resolver a janta, ou decisões delicadas, como planejar a economia de um país, o que, naturalmente, implica em uma série de consequências, algumas mensuráveis, outras nem tanto, outras ainda absolutamente imprevisíveis. O que temos de certo é que o arbítrio é uma decisão diante de uma questão. Ele tem uma anterioridade: nosso conhecimento, nossas condições psicológicas, nossas necessidades materiais. Uma vez colocados diante de uma questão, todas essas condições são fatores que vão influenciar nas escolhas. A discussão é se todos esses fatores são capazes de fixar uma escolha - se aquilo que eu optar poderia ser de outra forma ou se eu de fato opto livremente. Se entendermos que há determinação na escolha, ou seja, ela está escrita nas estrelas, então não há que se falar em liberdade. Mas, se ela houver, o que faz o desvio das condições que, em tese, faria algo ser decidido como foi? O que é essa vontade própria que contraria o curso natural dos acontecimentos?

Outra questão: um mundo determinístico pressupõe uma ordenação muito menos mutável que a que enxergamos ao nosso redor. A teoria da evolução, por exemplo, preconiza que as espécies surgem através de descendência com modificação. Isso não quer dizer que um pelo dia nascerá um humano com asas, mas com sutilíssimas, porém vantajosas mudanças com relação aos seus ascendentes. Um membro minimamente mais flexível, um osso um pouquinho mais resistente, um olho que enxergue em níveis de luminosidade um trisco mais baixos podem trazer vantagens que, oferecidos no atacado, parecem de pouca monta, mas no varejo fazem toda a diferença. A própria palavra mutação carrega consigo uma aura de desvantagem, resultando em perdas, não em ganhos. Quando eles ocorrem, são esse pequeno desvio, essa minúscula inclinação que tornam a sobrevivência ligeiramente mais apta.

Mais uma coisa ainda. Como se explica a criatividade? Artistas traçam um mundo que não veem, que vai além do alcance do mero ato empírico. Sim, é perfeitamente possível reproduzir situações em uma tela ou uma pedra, mas, mesmo estas, são frutos de abstrações, e da sensação inicial surge algo novo, modificado com relação à natureza, criado. Se não houver alguma forma de desvio, não há como surgir o novo, porque só teremos a eterna reprodução daquilo que já tínhamos antes, e de novo, de novo, de novo. 

O clinamen de Lucrécio, portanto, surge como contraponto à tendência cada vez maior de se estabelecer um determinismo tão marcante que parece impossibilitar o livre arbítrio. Se um pequeníssimo desvio é capaz de gerar novos mundos, novas espécies, fazer furacões através de movimentos de asa de uma borboleta, então não parece ser plausível que não seja possível optar sem chance de que a escolha fosse outra.

Em resumo, a grande questão se transforma no seguinte: se o universo é determinístico, por que raios ele varia de modo imprevisível? Talvez nosso grande problema seja a dificuldade de enxergar processos, e, quando os enxergamos, pensemos neles como estruturas lineares, que seguem roteiros invariáveis e caminhem em uma só direção, ainda que tremendamente complexos. Pode até ser que os deterministas estejam certos, e por detrás do liame irresolvível dos fatos tenhamos eventos que são como são e não poderiam ser de outra forma, mas não é assim que a realidade se apresenta a nós, e essa linearidade se mostra inconsistente. Saltos quânticos, mutações e outros desvios são percebidos como acaso de difícil encadeamento lógico, ainda que haja uma ordem em seu substrato.

Duas observações finais, para além do próprio assunto em si. Notamos como a mente é uma ferramenta poderosa, que, mesmo sem possuir instrumentos técnicos, consegue dispor os fatos de maneira lógica a ponto de se aproximar muito da realidade em si mesma de maneira muito sofisticada. Demócrito, Leucipo, Aristóteles e Lucrécio, para ficar apenas nos citados neste texto, falaram sobre coisas difíceis com grande percentual de acerto. Não são risíveis suas deduções. Levaram a lógica ao esplendor por se tratar da única ferramenta disponível para compreender o mundo naquela época, e é invejável o modo como conseguiram ao menos tangenciar coisas que hoje a ciência explica com sofisticadíssimos equipamentos.

Mais ainda: isso tudo demonstra como o pensamento científico deixou de andar desde os sofistas até mais ou menos o tempo dos Bacons, Roger e, especialmente, Francis, quando novamente se passou a olhar para o universo em si com um espírito de descoberta. Sabe-se lá como estaríamos hoje sem esta interrupção milenar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Lucrécio faz parte daquela leva de pensadores romanos que trouxe a base grega ao centro decisório do mundo de então. Seus escritos são curtinhos e rápidos de ler.

LUCRÉCIO. Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.

 

*Antes que algum chato me pergunte, “alma”, aqui, tem o sentido de consciência.


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