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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Navegações de cabotagem – o Museu Egípcio de Curitiba e as fronteiras iniciais da Filosofia

(Sempre soubemos que a Filosofia ocidental se originou dos gregos. Mas será que não há princípios ainda mais antigos?)

Olá!

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Preparem-se porque vai ter muita coisa de Curitiba por aqui, assim como de Taubaté. Quem me segue há tempos, sabe que tenho dois filhos, e os dois saíram de São Paulo em busca de melhores oportunidades. A mais nova foi para o Vale do Paraíba, o mais velho para o Paraná. Por isso, fico trafegando para lá e para cá. E isso vai dar muitos textos.

Curitiba é uma cidade reconhecidamente funcional, e que possui muitos atrativos. Todas as vezes em que eu venho para cá, o moleque mais velho se encarrega de me mostrar um lugar novo, sendo que o da vez é o Museu Egípcio e Rosacruz, que fica no complexo pertencente à sociedade de mesmo nome.


Cumpre dar algumas palavras sobre a mantenedora deste espaço. A Rosacruz é uma daquelas sociedades sobre as quais se apontam olhares de mistério e lenda, grupamentos fechados cujos princípios somente seriam franqueados para iniciados, e cujos exemplos próximos seriam a Maçonaria e os quase fictícios Illuminati. Essa aura mistagógica surgiu porque suas reuniões se davam a portas fechadas e tratando de temas de fundo esotérico, coisa que, se por um lado não era bem vista pela cristandade oficial, por outro criava uma aura do desconhecido que é sedutora para muita gente. Formaram confrarias que fundiam o Hermetismo greco-egípcio com o Cristianismo.


Esta ordem está muito relacionada ao Corpus Hermeticum e outros textos atribuídos a Hermes Trismegisto, análogo ao deus egípcio Toth, a quem se confere a criação do alfabeto e o primado sobre a sabedoria. São obras que versam sobre uma visão holística do cosmos e que o colocam como permeado por uma divindade muito semelhante ao nous que é referido por Anaxágoras.

Isso explica duas coisas. A primeira é sua preferência por coisas do Egito antigo, local de onde se origina o pensamento que desembocará no Corpus.

A segunda é o aspecto de sociedade secreta da Rosacruz. Ela surge em um momento onde ainda era perigoso apresentar divergências com o cristianismo então reinante, e, por isso, não era saudável apresentar-se desabridamente como pertencente a campos de pensamento distintos.


Mesmo com origem incerta, os historiadores atribuem a fundação da ordem Rosacruz a Christian Rozenkreutz, que sistematizou alguns manifestos escritos por volta dos inícios do século XVII, e que acabou por emprestar seu nome ao grupo. Já a AMORC, que gere este espaço, foi fundada por Harvey Spencer Lewis e tem seus princípios gerais resumidos na frase abaixo:


O museu trabalha com aspectos históricos, artísticos e culturais advindos do Egito. Um dos itens de entrada é uma reprodução da célebre Pedra de Roseta, um fragmento de rocha que continha escrita hieroglífica. A grande sacada era que o mesmo texto estava também escrito em grego, uma língua conhecida. Sendo assim, foi possível, por comparação, deduzir os significados dos hieróglifos, o que pode ser aproveitado para muitos outros textos que permaneciam envoltos em mistério.


Este artefato foi descoberto nas invasões napoleônicas, que o fizeram chegar a Jean-François Champollion, o autor de sua tradução.


Há duas múmias lá dentro, não egípcias, e colocadas como exemplo do processo de mumificação. Respeitei o aviso de não as fotografar, limitando-me ao modelo situado do lado de fora da câmara onde estavam.


Além disso, inúmeros outros artigos de natureza egípcia estão espalhados pelas salas e nichos do museu, cada um com suas devidas descrições.


No pátio exterior, há o Complexo Luxor, onde fica a Alameda das Esfinges, reprodução do caminho que ligava os templos de Karnak e Luxor.


As esfinges eram seres míticos que combinavam seres humanos e leões, e simbolizavam a proteção inteligente, e por isso era comum vê-las ladeando os templos.


O Pátio do Obelisco contém uma homenagem ao faraó Tothmés III. Estes monumentos eram representações da eterna permanência. O fato de serem encimados por piramidhiuns que apontam para o sol fazia com que sempre resplandecessem durante o dia, reforçando a representação que pretendiam.


O Atrium Romano contém uma estátua do imperador Augusto César, que iniciou a Pax Romana, período em que o Império Romano, apesar do domínio político, procurou manter a cultura e a identidade dos povos conquistados, de forma a ser obtido um intercâmbio cultural sem precedentes na história.


Por fim, o Memorial Rosacruz é uma réplica do existente na Califórnia, e contém inúmeros elementos da cultura egípcia antiga. Em seu interior, há espaços meditativos e uma maquete de todo o complexo.


Fiquei devendo o Museu Tutankhamon, parte do complexo, dado o tempo que fiquei nos dois equipamentos mencionados, mas não faltarão oportunidades. Quando nos deparamos com uma cultura tão avançada e ainda mais antiga que a grega, perguntamo-nos porque os inícios da Filosofia Ocidental estão no Peloponeso, e não no norte da África. Mais ainda: há os povos orientais, tão antigos quanto, e que também possuem um conjunto intelectivo tão sofisticado quanto o grego. Desta forma, precisamos entender os critérios que os historiadores da Filosofia adotam para classificarem sua origem, e concordar com eles ou não. Vamos lá.

Quando observamos o surgimento do pensamento filosófico entre os antigos gregos, nós vamos perceber que o principal ponto estava em trazer uma nova tradução do cosmos. Por que nova? Porque já tínhamos uma interpretação, que vinha da mitologia. As religiões, tanto a pública quanto a mistagógica, faziam uma leitura dos fenômenos que, embora carregasse sentido, baseava-se muito no misticismo, onde uma grande parte era uma "explicação inexplicada". O que quero dizer com isso? Quando eu antropomorfizo um fenômeno natural, atribuindo-o a um deus, como os raios de Zeus, os oceanos de Netuno ou a sexualidade de Afrodite, estou dando uma explicação do porquê eles ocorrem no cosmos e na humanidade. Entretanto, toda a explicação dos originadores destes fenômenos está no campo poético da livre criação humana. Suas gêneses são histórias contadas entre as gerações, sem que possuam lastro no universo observável. Acreditar nessas histórias é matéria de fé, porque não conseguimos observá-las, nem as reproduzir.

Os primeiros filósofos não puseram o pensamento mítico simplesmente de lado, mas iniciaram nele uma transmutação progressiva. Não bastava unicamente as histórias contadas pelos antepassados, mas aquelas que estivessem vinculadas a uma amarração lógica. E nesse caso eles começaram pelo começo: se a explicação mítica é insuficiente para deslindar o princípio de tudo, onde poderemos buscar alternativas? Ora, no mesmo lugar onde está depositada a nossa capacidade de desconfiar das narrativas tradicionais: na razão e em sua ferramenta, a lógica. A água de Tales, que inaugurou esse modelo de pensamento filosófico, não é um mero chute. Ele a indicou porque fez observações e delas tirou deduções que fazem sentido. Se ainda atribuiu aos deuses seu surgimento e funcionamento, é porque nos encontrávamos em uma fase de transição, porque nada se modifica por decreto.

Seus sucedâneos aperfeiçoaram o pensamento, questionando a própria origem da água e propondo outros paradigmas de arché, mas sempre mantendo a nova característica: todo discurso tem agora a necessidade de um encadeamento de raciocínios. Se incluiremos divindades, elas deverão fazer parte da lógica, e não se enfiarem na conversa de modo ad hoc.

Percebam que, por trás das articulações lógicas e da observação do cosmos, há um substrato para a formação de teorias. Fazemos um uso coloquial desse termo confundindo-o com hipóteses, mas ele significa, literalmente, a explicação de um fenômeno concreto. As teorias que estes filósofos propunham vão no sentido de se formar a Ciência, em um tempo onde havia muito pouco instrumental além do cérebro para diferenciá-la da Filosofia. Filosofia e Ciência eram praticamente sinônimos, e a filosofia grega dos primeiros tempos tinha essa magnífica característica: ela já apontava para a Ciência.

Bom… e o que temos do pensamento oriental e norte-africano? Vai no mesmo sentido? Já aqui precisamos balizar que não temos a menor pretensão de classificar validades e hierarquizar importâncias dentre os diferentes paradigmas. Pensando nos povos orientais, não nos referimos a chineses, muito longínquos ainda, ou a japoneses e coreanos, de onde emanaram filosofias ricas, mas com as quais os gregos ainda não haviam estabelecido contato. Pensamos em babilônios, caldeus, hebreus, persas e, mais remotamente, hindus e bengalis. O corpo de sabedoria oriundo desses povos continha o mesmo alicerce sobre o qual os gregos iniciaram sua aventura intelectual: a mitologia religiosa. Entretanto, a guinada grega, como se pode perceber, deixou de levar em consideração um plano puramente espiritual, talvez pelo fato de que a cultura helênica não estivesse tão fortemente influenciada pela religião, ao contrário do que ocorria com as culturas orientais. Enquanto o grego tinha a religião como uma prática secundária, onde os principais encargos eram deixados nas mãos dos sacerdotes, esses outros povos não podiam, como faziam os gregos, relativizar as funções de suas divindades. Uma comparação meio besta: o grego era como os católicos de estatística, enquanto o oriental era como os crentes. Quem tem sua vida mais preenchida pela religião, tem mais dificuldade em escapar de seus ditames. Por isso, vemos uma imensa maioria de católicos que não estão em plena conformidade com o que determinam seus mandatários: camisinha, anticoncepcionais, carnaval e tantos outros. Já o evangélico é mais radical, e é difícil que fuja das predisposições de seus pastores, sob pena da punição eterna. O raciocínio entre as etnias helênicas e orientais é mais ou menos a mesma. Os gregos confortavelmente colocariam de lado Zeus em detrimento de uma boa explicação observável para os trovões, enquanto os hebreus jamais excluiriam Javé de qualquer fenômeno que ocorresse no mundo. Com isso, a filosofia oriental estava muito permeada da religiosidade para que fosse possível afastar a explicação mítica de seus mecanismos, e isso a afasta do paradigma aproximativo da Ciência e do uso puro e simples da razão.

Por outro lado, podemos perguntar sobre qual seria o objetivo grego com a Filosofia. É bem verdade que já mencionei o direcionamento rumo à Ciência que foi dado pelo conhecimento dos primeiros filósofos, mas o que se pretendia com isso? A princípio, o conhecimento por si só, o conhecimento pelo conhecimento. Sabe aquelas fofocas de rua, onde dona Corina quer saber porque a filha de dona Xepa anda chegando todo dia tarde em casa? Nada vai mudar nem na enjoativa vida de dona Corina, nem na desditosa vida de dona Xepa, nem na danada vida de sua filha, mas a gana de saber é quase irresistível. O mesmo acontece para objetivos mais elevados do que a mera futricação, com o ponto em comum de que não se busca uma utilidade que vá mudar o preço do dólar, mas um alimento intelectual, um saber por saber, que abra as portas de cognições cada vez mais aprofundadas.

É bem verdade que os egípcios constituíam um povo com uma elite intelectual muito bem desenvolvida para a época, exemplificados pelo Mouseion de Alexandria e sua célebre biblioteca, que eram mais do que depósitos de papiros, mas locais de intensa atividade intelectual e didática, sede de debates e de produção de conhecimento. Mas o conhecimento egípcio tinha uma especificidade em relação ao grego. Aqui, o teor prático do saber estava muito mais em evidência do que junto aos helenos.

Os egípcios e outros povos africanos tinham um conhecimento matemático notável. Desenvolveram noções de cálculo extremamente precisas, que usavam largamente em suas celebérrimas obras de engenharia, como as pirâmides, as esfinges e represas aproveitando a água do rio Nilo. Todo esse conhecimento, ao contrário do que ocorria com a vertente grega, tinha propósitos eminentemente práticos, que, se por um lado ajudavam a desvendar os fundamentos do cosmos, por outro dava menos importância àquilo que pode ser chamado essencialmente de filosófico. Eles priorização os "comos", e não os “porquês". Poderíamos dizer que os egípcios tinham bases ainda mais científicas que os gregos, mas sem subir aquele degrau do conhecimento pelo conhecimento, aquela coisa de ter todas as cadeias de causas e efeitos à sua frente. Os gregos chegam ao esplendor da matematização filosófica com a escola pitagórica, onde todo o funcionamento universal pode ser reduzidos a números, uma proposta à qual os egípcios não se interessaram a chegar.

Desta forma, podemos chegar a uma estrutura do pensamento grego que o diferencia das demais correntes cognitivas contemporâneas. Enquanto aos orientais a explicação mítico-religiosa era suficiente e até mesmo necessária para que se possa compreender o universo, e aos egípcios e outros povos africanos o objetivo prático era autossuficiente e bastante para justificar a atividade intelectual, para o grego era preciso ter o todo: a origem, o desenrolar e a conclusão.

Daí para frente, minhas caras pessoas, é definir o que é Filosofia e verificar se toda a discussão acima tem cabimento ou não. Pode ser que, ainda assim, possa-se debater se os outros elementos intelectuais sejam imprescindíveis para a formação do pensamento grego e ainda mais originais que eles, mas a formatação da Filosofia como vemos ainda hoje no ocidente segue o esqueleto inaugurado no momento em que se decidiu entender não só o que eram as coisas, mas o que estava por trás das coisas, com a mesma razão que usamos para medir nossos campos e situar nossas colheitas. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Mencionei o Corpus Hermeticum, então vou recomendá-lo. Eu utilizei um áudio livro, para aproveitar em momentos de trabalhos manuais, mas o ideal é sempre ter uma versão escrita. Como é difícil conseguir uma versão comentada imparcial, o ideal é pegar o texto seco e um livro de história. Localizei a edição abaixo, que me parece bastante boa.

Trismegisto, Hermes (atrib.). Corpus hermeticum. São Paulo: Polar, s.d.

O Museu Egípcio e o Complexo Luxor, embora não sejam daqueles mais mencionados quando se pensa em Curitiba, são de visita essencial. Segue seu endereço.

Museu Egípcio e Rosacruz

Rua Nicarágua, 2641 - Bacacheri

Curitiba/PR

Aproximadamente 400 km a partir do centro de São Paulo

terça-feira, 3 de maio de 2022

Sobre vestimentas e a autenticidade do eu

(Quanto que uma roupa diz sobre o que nós somos? Seria uma mera questão de moda ou um conflito da verdadeira identidade?)

Olá!

A pandemia ainda não acabou, e demanda cuidados, mas é fato que as coisas vão lentamente voltando ao seu eixo, muito por conta da eficiência das vacinas, aquelas que foram tão combatidas por certas trupes de malucos. Esse tão propalado "novo normal" carrega consigo uma boa parte de sustos e traumas. Como exemplo, cito as várias pessoas que trabalham comigo e persistem no uso da máscara (eu incluso), embora não seja mais obrigatória.

Para além disso, há novos costumes de natureza ainda mais pessoal. No meu caso específico, adotei uma política diferente de indumentária. Antes, recobria-me de infernais ternos e gravatas, mesmo para dias senegaleses. Agora, só o faço de acordo com a pauta: tem reunião com graúdo, tem paletó; do contrário, há camisetas e o bom e velho brim. Ah, mas tem reunião de emergência… emergências não são para desfiles de moda, e vamos com o que temos. Até agora, a chefia não reclamou, então vamos mantendo o hábito até a censura.

Para desgosto da minha defunta mãe, eu nunca primei pela elegância, mas pelo conforto. A coisa piorou significativamente quando passei a ostentar abdômen proeminente, que deixam a roupa com a alegre, porém desengonçada aparência de dono de circo. Embora tenha estudado Filosofia, trabalho com informática, que, infelizmente, paga melhor. E isso me coloca em uma condição estranha. Embora haja certa flexibilidade no vestuário dos desenvolvedores em geral, na área de requisitos temos inumeráveis reuniões, o que nos coloca com o duvidoso título de "representantes da instituição". E aí pega mal estar fora do padrão bem aceito, como se um pano amarrado no pescoço certificasse virtudes em seu portador.


Mas o que a maneira com a qual me visto diz de mim?

Pode-se dizer que é bem pouca coisa, mas há um conjunto de olhos sociais que buscam desesperadamente alguns tipos, digamos, de selo de certificação de que aquela pessoa assim vestida tem algum grau de fiabilidade, de conhecimento, de habilidade, de recursos ou de seja lá o que for. A roupa não diz o que temos por dentro, mas, para quem é de fora, interessa o que é de fora. No caso, exatamente a roupa, o tal selo. Pode parecer maluquice? Pode, mas é assim que se bate o tambor e não tenho muito o que fazer.

Há outros componentes que montam nosso visual. Meu perfil geral é o seguinte: cabelos amarrados em rabo de cavalo, barba sem bigode, roupas preferencialmente folgadas e tênis. Tem gente com cabelo pintado, cabelo raspado, cabelo moicano, cabelo branco e assim por diante, cada um moldando sua moldura de acordo com a dicotomia vontade-possibilidade. Dão a isso o nome de estilo, e, embora cada um diga que tem o seu, a verdade é que o nosso velho ambiente desenha tudo. Se eu fosse ter meu verdadeiro estilo, andaria pelado como um índio. Mas não se preocupem: sou obediente à lei e às normas, e somente serei o mais legítimo possível no seio de meu lar, prometo.

Mas essa questão de estilo. Dizem que a maneira como nos expomos fala muito sobre nós, mas o fato é que diz sobre como queremos ser vistos, e não como somos de verdade. Isso é mais perceptível quando vemos como os tais estilos são massificados, a tal da moda (para ler um pouco sobre isso, tenho estes textos – aqui e aqui). Evidentemente, não existem tantas pessoas iguais, como não existem ambientes iguais, mas temos uma tendência à uniformização, isso não chega a ser surpreendente. Percebam como as casas também são frutos de modas: temos sua aparência pública, e embora possam trazer algum tipo de ideia de época ou do tal do estilo, nada dizem do que ela é por dentro - uma casa rota pode ocultar uma vida harmoniosa, enquanto em casas eruditas podemos ter violência de todo tipo. O mesmo se passa com corpos. A aparência exterior diz pouco, diz aquilo que queremos transmitir, e a paz dos tons azuis pode esconder intensos conflitos. Mas o fato é esse: variamos de aspecto por conveniências, e não por dar reflexo ao que se passa por dentro de nós. Porque quando tentamos fazê-lo, a chance de dar errado é grande.

Eu já falei sobre os motivos pelos quais entendo que as pessoas têm multiplicidade de apresentações e até justifico isso, em um dos textos que entendo ser um dos melhores deste espaço. Mas quero aqui abordar a temática por outro ângulo, desta vez mais psicológico. Isso porque, embora sejamos um e muitos ao mesmo tempo, há aqueles que mais bem se adequam à nossa realidade mental, e outros que parecem ir ao exato contraponto. É algo como alguém que suporta engolir uma amarga cerveja que detesta para ter aceitação de um grupo que aprecia, adorador dessa mesma cerveja. Vou falar em primeira pessoa, mas usando profusamente Kierkegaard na análise.

Embora sejamos menos do que uma minúscula partícula de areia em um imenso universo, quando olhamos para nosso particular percebemos que, no final das contas, somos, para nós mesmos, mais importantes do que todo o restante deste mesmo universo. Pode parecer se tratar de ato de magno egoísmo, mas não é isso. Basta que pensemos o seguinte para compreender: o que seria do universo sem mentes que o absorvam? Ele poderia continuar a existir, mas a poeira e os gases que estão por toda parte não têm em si uma compreensão de sua existência. Ou seja, dar importância a alguma coisa é uma prerrogativa de seres viventes, o que, pelo que sabemos até agora, limita-se ao planetinha azul, essa esferinha cada vez mais judiada. E quem, dentre todos estes, é aquele que percebe o mundo e sabe que percebe? O ser humano. Essa percepção, ainda que possamos pensar em uma espécie de ação coletiva, é feita individualmente. Quem ganha o jogo é o time, é bem verdade, mas o goleiro que defende é um indivíduo, o zagueiro que entra no meio da canela é um indivíduo, o centroavante que goleia é um indivíduo. Nesse escrete chamado de humanidade, a história é escrita por todos, mas vivida individualmente. Cada um de nós adquire o universo para si através dos sentidos, de maneira única e irrepetível. Por essa razão, o indivíduo é, para si mesmo, o centro do universo.

Aí então eu pergunto: o que vale mais para uma pessoa? Seriam os sistemas que explicam no atacado e no varejo as verdades tidas como universais e necessárias, válidas a todo lugar e a todo momento, ou seria a busca individual, que reflita uma realidade que esteja em consonância com o que ela é? Sendo assim, é no detalhe que residem as questões mais importantes para cada um de nós - quem sou, por que sou como sou e quais são os fatores que me afastam de meu verdadeiro eu, a minha essência.

Mas, para além da consciência que temos do universo e de certas noções próprias, como a finitude e a intencionalidade, o que nos caracteriza como humanos? Qualquer que seja a essência de cada um, ela precisa ser materializada de alguma forma. Mesmo que consideremos que há almas, e que elas sejam igualmente intrínsecas ao homem como é o corpo, elas nada seriam sem estar concretas no mundo. Ou seja, nós existimos. E nessa existência está nossa materialidade, a realização de nossa essência, tida aqui como nosso modo autêntico de ser.

Nós existimos não porque respiramos ou enxergamos, mas porque exercemos arbítrios. Em outras palavras, nós fazemos escolhas. O fato de que eu esteja digitando este texto nesse exato momento é um critério meu: eu poderia estar cochilando, escutando a fofoca alheia, especulando sobre a rodada do Brasileirão ou fumando maconha um charuto, e cada uma dessas seria uma escolha, mas eu, dentro das possibilidades, optei por escrever. Se o fiz com liberdade, é uma manifestação da minha essência.

Ocorre que, se eu estou escrevendo, não posso estar cochilando, nem escutando fofoca alheia, nem nada mais. Por isso, a minha escolha implica na renúncia de todas as demais possibilidades. Existe na economia um termo chamado de custo de oportunidade, que é representado por todas as oportunidades que deixei de lado para investir na área de negócio que escolhi, e que representará um encargo eterno na minha mente: não teria sido melhor investir em ações do que ter aberto uma tabacaria? Há uma característica na escolha ampla – ela impossibilita paralelos. Eu não consigo ser careca e cabeludo ao mesmo tempo... que exemplo bobo... Vamos melhorar. Ao optar por não ter filhos, eu trago comigo tudo o que isso representa. Serei livre dos encargos da criação, terei mais dinheiro, minha responsabilidade se limitará a mim e poderei fazer coisas que um pai não faz. Por outro lado, todo o lado positivo de ser pai fará parte da escolha tida na forma de renúncia: a um descendente, a um sucessor, a alguém que cuide de mim na velhice, a alguém que possa receber minhas histórias, etc. Essas questões não são nada óbvias e viram um peso, especialmente nos momentos em que sentimos o barco adernar.

A liberdade de escolher entre a infinidade de possibilidades é uma geradora inesgotável de angústia. E é principalmente dolorosa para quando pensamos em retransformar quem somos para algo diferente. Parece coisa frívola, e pode ser mesmo, mas há duas implicâncias possíveis, tanto no sucesso quanto no fracasso. Pode ser que queiramos virar monstrões, com músculos capazes de esmagar pulgas. Faríamos isso para atender uma necessidade de destaque visual, sob a desculpa de estarmos cuidando da saúde. Se der certo, o cara gordinho, meio suarento e disponível a qualquer instante dará lugar ao marombado que será temido por homens e admirado por mulheres, que, entretanto, não será mais o cidadão boa praça de antes, sempre presente nas rodas de amigos. O novo eu pode se ressentir de tudo o que o antigo perdeu, mas a escolha já se deu e carrega todo o peso das perdas. Se fracassar, contudo, vem o desespero. Esse desespero não está no simples fato de que o gordinho continua ostentando a pança, mas porque ele quis se afastar de si mesmo e não conseguiu. O indivíduo já não suporta a si mesmo, mas não consegue deixar de sê-lo.   

É um beco sem saída, uma aporia? Sem dúvida. Vivemos em confronto com nossa realidade dupla - nosso temporal e nosso eterno, nossa liberdade e nossa necessidade. A cada instante o homem precisa decidir e exercer sua síntese - uma pessoa é um ser sintético. Somos livres para escolher, mas sempre dentro de um leque de possibilidades. Isso indica que a liberdade não é absoluta: temos o arbítrio, mas ele não pode nos levar a qualquer lugar. Menos do que impossibilidades óbvias, como voar ou viver sem ar, a angústia está na imprevisibilidade da possibilidade. Talvez eu resolvesse tingir meus poucos cabelos de rosa, para criar uma imagem de ousadia, mas o efeito seria de tolice. Mas a coisa ainda não seria grave, ainda. Bastaria raspar os cabelos. A questão vai muito mais para o quando temos de corda para nos afastar da âncora que nos prende à nossa própria personalidade. Renegá-la significa expressar uma insatisfação consigo mesmo, mas nós somos o que somos - sou destro e não adianta tentar ser canhoto, sou baixo e não adianta tentar ser alto, tudo o que terei são garranchos ou calos nos pés.

Quantas vezes não nos vemos desesperados? Não o desespero fático de nos vermos ameaçados pela morte, mas por nos vermos desiludidos, especialmente nos momentos em que algo dá errado com nossas escolhas? Ainda que não esteja em sua consciência, o homem luta em desespero para ser a si mesmo, porque toda construção que ele faça para si é um afastamento de si, da sua própria essência. Isso é contínuo e este presente todos os dias de nossa vida. É uma doença da própria vida.

A solução kierkegaardiana é uma aproximação com Deus - ele é cristão. Esse empuxo do espírito vai sempre em direção aos céus, pensa ele, e a angústia é uma decorrência do medo da morte, de quem o cristão, com sua expectativa pela vida eterna, está livre. Nietzsche, por outro lado, diria que a solução para a angústia está em beber a vida de um gole só, ainda que o gole lhe custe a vida*. Ou seja, as contingências da vida carregam a angústia no conjunto, e o negócio não é se paralisar, mas soltar-se na torrente do destino. Na minha humilde, talvez devamos ter um meio termo. Ser cristão e imaginar que a cura do desespero está na religião leva a uma ilusão, porque ninguém consegue assegurar qual seria o caminho certo para chegar a Deus (vejam o número infindável de correntes dentro do Cristianismo) e é mais um elemento de angústia, afinal pecados são julgados e nem sempre conseguimos mensurar o tamanho da gravidade de nossos atos. Por outro lado, o largar-se de Nietzsche é meio radical demais, e podemos quebrar a cara na primeira esquina. Sendo assim, um pouco de prudência, mesmo a nível psicológico, não faz mal, como o caldo de galinha dado ao doente, que não cura, mas alimenta. Isso serve para tudo, inclusive para roupas. Ternos são detestáveis e inexplicáveis, mas ir de sunga para o trabalho não diz quem eu sou, a não ser que limites não são uma noção muito clara para mim.

Portanto, a maneira com a qual me visto diz que sou um ser que experimenta possibilidades, que exerce escolhas, um eu-público que tenta demonstrar uma faceta que tem mais a ver com meu desejo do que com meu eu autêntico, porque muitas vezes estamos apenas forçando uma barra para ser o que não somos. Se conseguimos, maravilha, não importa se causa escândalo ou ironia; se não, estamos apenas continuando a ser humanos. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Como em toda sua obra, Kierkegaard é um bocado difícil de ler, mas sempre precisamos tentar. Segue a indicação.

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

*Na bela figura do trecho de Snegs de Biufrais, música da banda Som Nosso de Cada Dia.

terça-feira, 26 de abril de 2022

As proximidades de Sócrates e Jesus vão além das coincidências

(Sócrates e Jesus têm muitas semelhanças em suas trajetórias. Mas há uma questão que particularmente me fascina)

Olá!

O brasileiro é um eclético por natureza. Dois são os motivos: a intensa mescla de imigrantes, que produziu um evidente caldeirão cultural, e a pobreza crônica, que faz com que nos viremos com o que temos, sem muita chance de seleção. Mas esses são temas que custam dissertações muito extensas, e não é sobre isso que eu quero escrever hoje. A questão é que minha filha mais nova mora de frente para um centro espírita, que andou bem quietinho pelos tempos de pandemia, mas que vem voltando à atividade normal aos poucos. Ao contrário das modernas igrejas, com suas paredes sonoras que dão inveja a qualquer banda de heavy metal, aqui temos bastante tranquilidade, e somente a quantidade maior de carros na pacata rua faz antever que há algum evento em andamento.

Isso me faz lembrar de minha velha e desencarnada madrinha, que andava pelas fileiras de Kardec. O que ela tem a ver com o ecletismo de Terra Brasilis? É que ela era exatamente a maior entusiasta da regularidade católica dos petizes da casa, eu incluso, ao mesmo tempo em que frequentava uma casa de mesa branca lá pelos lados da Parada Inglesa, no tempo em que não havia metrô por lá, o que dava uma bela pernada para quem morava na Vila Diva. Ela fazia parte do corpo de médiuns da instituição, e eventualmente levava a mim e meus primos. Havia por lá um palestrante chamado Laerte, excelente, especialista em lidar com questões de fundamentos da doutrina, e ficávamos ouvindo suas aulas enquanto a madrinha cumpria suas funções.

Eu comparava o que me era ensinado na catequese católica e perguntava se não havia incoerência na prática dupla, para o que a madrinha explicava que não, que muitas das práticas das diversas religiões encontravam eco no Espiritismo, incluindo oriundas do próprio Catolicismo. No sentido contrário, bastava manter o silêncio para não se criar questões.

Os livros básicos do Espiritismo são aqueles redigidos pelo próprio Kardec, onde há inúmeras remissões a Jesus, mas não só. Lá há ensinamentos mosaicos e de várias fontes orientais, já que a doutrina da reencarnação já era prevista por religiões como o Budismo ou o Hinduísmo. Outra referência bastante constante está em Sócrates, o patrono da Filosofia ocidental, e uma espécie de jamegão da sabedoria universal. Eu tenho esses principais livros e de vez em quando volto a lê-los, principalmente quando quero fazer comparações doutrinárias. 

Desde que me desvinculei da religião, tenho ouvido os mais diferentes desagravos. O mais constante é que um dia vou resolver meus conflitos interiores (?!) e voltar para o rebanho. Mas quem é espírita, curiosamente, costuma perguntar um pouco mais sobre o caminho que tomei, e procuro fazê-lo pacientemente. O roteiro, podem crer, já se tornou bastante contumaz: ao mencionar os problemas na manutenção da fé em relação ao confronto com a realidade, vem a assertiva indefectível - você devia conhecer Kardec, seu pensamento é todo revestido de lógica, as causalidades são bem explicadas e obedecem a melhores critérios filosóficos e científicos. Bem, o Kardecismo é uma religião dentre outras, e mesmo que não seja propriamente apostólica, seus praticantes a assumem como expressão da verdade e gostariam que outras pessoas a seguissem. Nada demais, penso eu, desde que ouçam o que eu tenho a dizer e não me façam tentar engolir suas convicções. Para dizer bem a verdade, não acontece.

O Espiritismo kardecista se explica pelo contexto da época. Estamos no pós Revolução Francesa e há muito entusiasmo com o progresso. De fato, há uma preocupação muito maior em adequar a visão religiosa à Ciência, e velhos dogmas imutáveis vão sendo questionados, principalmente o velho Fla-Flu da salvação, que tenta decidir a fé correta e o caminho salvífico válido. Mas aqui também aplico os meus três critérios de manutenção da crença e não encontro eco, da mesma maneira que ocorreu com minha saída do Catolicismo.

Primeiro e principal: o confronto com a realidade. Embora o discurso taumatúrgico seja bem mais ameno que nos cristianismos pentecostais, o fato é que os efeitos práticos são muito semelhantes. Resolvem bem afecções psicológicas e somáticas, mas fracassam cada vez mais na medida em que problemas que não dependem da mente vão se afigurando. Quando uma doença não é curada, vem o ponto onde ele é demonstrado infalseável: às vezes é momento de partir, a missão já está cumprida. Como uma criança de um ano pode ter cumprido alguma missão é algo que jamais eu vou conseguir entender, mas nesse caso a questão é terceirizada - era um reencontro necessário entre os espíritos encarnados da criança e dos pais. É uma resposta melhor que dizer se tratar da vontade de Deus, mas, no meu entender, continua sendo mais lógico tirar deus e metafísica da relação, bastando reconhecer que a vida é frágil e perigosa, podendo ser perdida em qualquer momento.

Depois, temos o sentimento pessoal, as experiências que ocorrem na vida da gente e que acabam por ser a âncora de nossa crença, principalmente porque percebemos uma interação com o sagrado ou com o espiritual. Eu juro que me esforcei muito nas várias sessões que participei da mesa em perceber algum tipo de contato ou manifestação, sem nenhum sucesso. O que me dizem é que eu dou sustentação energética para a corrente, e essa é a minha característica mediúnica. Ah, ok. Mas continuo sem sentir nada de diferente. Vêm os testemunhos, e logo lembro daquele que seria meu menino mais velho, que morreu ao nascer. Eu e a patroa recebemos duas cartas psicografadas, em um intervalo de pouco mais de dois meses. Seus estilos são tão diferentes que não podem ter sido escritas pela mesma pessoa. A primeira é uma escrita muito mais madura, que falava muito da necessidade de reencontro com a mãe, e do quanto era necessário que as coisas ocorressem do modo que ocorreram. A segunda parecia uma criança falando, revelando uma certa incompreensão e inconformismo do espírito, mas ainda assim referindo-se e dirigindo-se à mãe. Além disso, não vejo luzes passeando pelos quartos escuros, não pressinto presenças, e com relação a sonhos... São sonhos, onde a liberdade de minha mente desenlaçada da realidade está a pleno vapor. Portanto, por essas e por outras, não tenho razões pessoais para crer.

Por fim, há a terceira e última fonte de fé, a visão comunitária, a noção de que a irmandade dos homens é uma autêntica manifestação divina. Tanto pelo que vivenciei por mim mesmo, quanto pelos testemunhos de outras pessoas, essa questão de compreender o funcionamento de qualquer fundo de altar é muito assemelhado a um bolo de casamento. Para quem chega à festa e olha para ele, fica maravilhado com a obra de arte, mas não imagina o quanto de calços, remendos e buracos estão recobertos e ocultos pela esplêndida cobertura de glacê. Como em qualquer agrupamento humano, há vaidade, orgulho, inveja e luta pelo poder, o que é broxante para aquele que procura paz e união, e isso eu vi com meus próprios olhos também nos centros espíritas, como vi nas quatro igrejas católicas em que fui assíduo, ou na evangélica do pai de meu padrinho, da qual se afastou em menos de um ano após ganhar o título de ancião, enojado por conhecer como as coisas se dão. Aqui, não se tratam de relatos acusatórios, mas de experiências que vivi e, com isso, não me enquadrar mais a fé nenhuma.

Parece que estou repisando o meu velho texto sobre minha "saída do armário", e é quase isso mesmo. Mas é que eu achei necessário demonstrar como a mesma lógica de uma religião se aplica a outras, e principalmente para deixar claro como seus pensamentos podem ser ouvidos e racionalizados mesmo por quem não crê neles. Achei muito interessante a coleção de referências existentes nos textos basilares dos espíritas, ecléticos como os brasileiros a quem me referi no começo, que buscam suas orientações mais baseadas no que é constituinte de seu corpo de conhecimento do que em tradições orais que vão perdendo sentido com o tempo. E é provocado pela visão espírita, que compartilha essas duas figuras em seus cânones, que eu vou fazer uma comparação entre Sócrates e Jesus Cristo. Acompanhem o raciocínio.

Embora ambos tenham levado vidas e propósitos bastante distintos, é possível enxergar uma boa parte de coincidências, que vão muito além da barba, das vestes e da aura de transcendência que costuma se aplicar às suas figuras.


Ambos utilizavam métodos bastante específicos de realizar a transmissão de conhecimentos, que deixaram bastante marcados seus estilos de ensinar. Sócrates utilizava a maiêutica, uma especialização da dialética que incluía fazer brotar do próprio interlocutor as contradições de seu pensamento inicial. Isso pode ser visto nos diálogos sobre virtudes éticas, onde Sócrates faz com que seus dialogantes reconheçam que ignoravam o real sentido dessas abstrações. Já Jesus usava profusamente a parábola, uma espécie de exemplo que visava dar compreensão terrena a conhecimento divino, como faz com o filho pródigo ou com o semeador. Nada obriga que tais personagens tenham tido existência real, mas explicam tanto a doutrina do perdão ilimitado, quanto da aplicação prática da palavra divina, de uma maneira em que a didática não se volta ao real palpável, mas aos princípios morais de quem a ouve.

Os dois tiveram uma espécie de espírito missionário em suas vidas. O de Sócrates foi demonstrar que a investigação do homem deveria se pautar pelo autoconhecimento, enquanto Jesus tinha uma missão salvífica. No final das contas, os dois tinham como pano de fundo de seu pensamento uma forte conotação ética, uma mudança de paradigma com relação ao que se praticava em cada uma de suas áreas.

Ambos representam uma quebra do pensamento corrente na época. Os primeiros filósofos tinham seu foco na natureza, tentando compreender o substrato último da própria realidade. Com a chegada do conceito grego de democracia, essa discussão ficou obsoleta, e surgem os sofistas, que trazem o homem ao centro da discussão. Todavia, embora muitos deles tratassem de assuntos verdadeiramente humanos, a base de seu ensinamento era mais voltada à retórica que à ética: em um ambiente onde as decisões eram tomadas no grito, era mais importante vencer o discurso do que ter razão de fato. Sócrates confronta essa posição, afirmando que o interesse dos sofistas em vencer debates tira da filosofia sua melhor característica, que é a de perseguir a verdade. Jesus tem um confronto semelhante com os fariseus, a quem tinha como seus principais adversários. Segundo ele, os fariseus viviam uma vida cujos princípios religiosos serviam unicamente para exercer uma posição de privilégio, atribuindo a outrem toda sorte de pecado formal, enquanto eles se valiam da lei judaica para cometer toda sorte de antiética. Hipócritas é o qualificativo mais usado contra eles. Óbvio que os dois criaram muito desconforto com esse modus operandi. Afinal de contas, o que caracteriza o valor formal tanto do discurso quanto da ritualística não é o conteúdo que ele carrega, mas o modo como se apresenta. O conteúdo, esse sim fica relegado a um plano secundário, mas ninguém gosta de ouvir que o faz com malícia.

Que mais? Ambos são oriundos de famílias pobres, e, como tal, estariam fora do círculo intelectual típico de cada época e cada lugar, já que isso, desde sempre, foi privilégio das classes mais abastadas. Sócrates era filho de um escultor e de uma parteira, e não se imiscuía na Ágora como faria algum político clássico, enquanto Jesus era filho de carpinteiro, cuja pobreza é comprovada pelo sacrifício mais barato que foi oferecido pelo seu nascimento. Os judeus tinham por regra a oferta em holocausto pelo nascimento de qualquer filho homem, independentemente de sua situação social, sendo que os mais abastados ofereciam os caros cordeiros, enquanto a patuleia se virava com pombos, o que foi o caso do belemita. Essa característica tirava ambos do meio de onde se exercia o poder, e fazia com que eles vissem o mecanismo social pelo lado de fora.

Outra característica comum muito marcante é a ausência de obras escritas, o que lhes dá dois aspectos: suas vidas não são contadas por si mesmos e a importância que davam para as questões práticas da vida, dando aos seus ensinamentos a força do exemplo, para além da mera oralidade (que, no entanto, era fortemente presente). Por esse motivo, ambos têm algumas discussões com relação à sua historicidade, embora a crítica seja favorável à existência física dos dois, sem grandes contestadores. Jesus teve sua vida e filosofia descritas por seus discípulos evangelistas, além de vários outros escritos tidos como apócrifos. Há algumas poucas referências externas ao meio judaico, com relatos bastante distantes da questão religiosa. Quanto a Sócrates, há autores apologéticos, principalmente Platão e Xenofonte, mas há críticos contumazes, como Aristófanes

De toda forma, os relatos instruem sobre semelhanças na vida pública dos nossos epigrafados. Eles ensinavam nas ruas e nas praças, com grande base no mundo que os rodeava. Os dois, de maneira bastante resumida, falavam do cuidado com as virtudes, sendo que esse seria o fim último do homem: para Jesus, seria a plena realização da lei judaica e o caminho da salvação para o crente; para Sócrates, o cumprimento do propósito humano; sua teleologia, como diria mais tarde Aristóteles.

O mais importante: ambos morrem pela causa que defendem, de maneira injusta, porque foram colocados na conta de criminosos. Mais ainda, têm a oportunidade de fugir de seu destino e dar novo caminho a si no plano do indivíduo. Entretanto, ambos recusam a escapatória e transformam seu fim no seu propósito mais significativo. Eles não se defendem porque negar sua morte significa recusar a concluir de seu sentido no mundo. Jesus tem que morrer para, segundo a doutrina cristã, tornar-se o último sacrifício expiatório, e, com isso, oferecer um caminho salvífico em definitivo. Já Sócrates aceita sua sina para comprovar que a sociedade é maior que o indivíduo, e a obediência às leis é a melhor expressão do cidadão que se reconhece como tal, ainda que seja para produzir sua própria morte.

É claro, como eu disse, que há mais diferenças do que semelhanças entre ambos. Jesus, por exemplo, está encaixado em um conceito religioso que é meramente lateral em Sócrates (embora tenha sido um dos motes para sua condenação). Além disso, diz-se de Jesus que sua morte era necessária porque ele precisava ressuscitar, o que nem de longe se vê em Sócrates. O processo de desencarnação para o ateniense é essencial para a reaproximação com a verdade, que se turva pelos sentidos e opiniões terrenas. Sócrates não necessitava de uma visão libertária como Jesus, porque a Grécia de seu tempo ainda era autossuficiente, enquanto a Palestina tinha um longo rosário de dominadores em sua história.

Mas, se bem medidas e bem pesadas, veremos que o que existe de mais próximo entre essas duas figuras é a estrutura das narrativas sobre suas vidas, e daí eu vou para minha lavra, abordando uma questão que o Evangelho de Kardec não toca. Vejam: os personagens marginais que se colocam em um meio corrompido dão a própria vida como exemplo a ser seguido, e por conta disso são contrapostos pelos detentores do poder, que os encaminham para a condenação. Jesus é o inverso do que se espera do Messias prometido: ele não é o senhor da guerra, capaz de conduzir seu povo na afirmação contra os dominadores romanos, mas um pacifista que prega o desprendimento do mundo. Sócrates não é o político afiado, cujo grande objetivo do discurso é ter seus propósitos acolhidos pela Ágora, mas o homem feioso que admite a própria ignorância. O momento condenatório de ambos é a apoteose de sua história: nem a morte é capaz de fazê-los arredar de sua missão, porque, no final das contas, esse é o sentido de suas vidas. Notem como esse esqueleto é frequente em qualquer história que se queira contar sobre uma vida heroica, seja ela real ou fictícia. Não quero aqui desmentir o que se disse sobre Sócrates ou Jesus, porque não tenho estofo histórico para fazê-lo, mas posso perceber como é um enredo que funciona bem, a ponto de ele derivar toda a Religião e a Filosofia ocidentais. Como essas, outras narrativas se contaram com uma linha semelhante, e elas funcionam bem, justamente porque agregam ao ato de heroísmo uma certa fraqueza dos protagonistas, e é daí que vem sua força: tornam o homem comum mais próximo do ato heroico. Nietzsche diria que é uma exaltação do fracasso, uma negação da natureza humana, no que eu até concordo, mas não se pode negar que a história contada com tal aspecto emocional  é altamente eficiente e, saindo do âmbito meramente pragmático, rica e bela, ainda que não creiamos nela. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Em termos de amarração lógica, a literatura kardecista é muito mais consistente do que os escritos religiosos em geral, seja porque está mais próximo de nós temporalmente, seja porque já foi escrito em uma realidade ocidental mais consolidada. Até mesmo por isso, é uma leitura aprazível e recomendável.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

As sementes de todas as coisas e as tintas que as inspiram - uma viagem pelo mundo de Anaxágoras

(A procura pelo elemento primordial que constitui todas as coisas foi o primeiro motivador do pensamento filosófico. Hoje vamos falar sobre um dos mais originais)

Olá!

Estou em Curitiba mais uma vez. Não a passeio, nem a visita, mas a trabalho. E um trabalho pouco convencional, ao menos para um escriba informata, como é meu caso. Estou fazendo as vezes de pintor, carregador, faxineiro e até içador de móveis, dado que camas-boxes tem pouca flexibilidade e dimensões pouco amigáveis com escadas estreitas. Sim, estou fazendo uma mudança, mas não é para mim; também não é serviço pago, é para o meu filho mais velho, que está saindo de um apartamento para uma casa, uma velha intenção que o garoto nutria, saudoso dos tempos de criança no célebre Jardim Elba, no arrabalde paulistano. Eu não sei recusar as coisas quando estão ao meu alcance, então enforquei dois dias para ajudá-lo a cumprir as cláusulas contratuais: paredes pintadas, chão limpo, essas coisas necessárias à entrega do imóvel. No final das contas, entregamos o apartamento melhor do que foi pego. Isso porque certos escorridos e determinadas manchas que foram consignados ao filho-inquilino foram devidamente corrigidos nessa nova versão que repassamos à imobiliária. São coisas da herança materna: minha mãe reviraria na cova caso visse um serviço porco. Em tempo: ela tinha baixíssima tolerância a imperfeições, e parecia falar no meu ouvido a cada risquinho que eu deixava passar batido.


Mesmo com a dedicação empregada, a incorruptível iniciativa privada ainda achou defeitos imperceptíveis, como manchas de rolo invisíveis a olho nu, com a oferta de serviços parceiros a baixo custo. Sorte ser o primogênito formado em Direito, e imobiliárias não gostam de tirar farinha com advogados.

No final das contas, ficou o dito pelo não dito. Foi uma trabalheira imensa, incluindo tudo aquilo que consta do checklist de uma entrega: pintar paredes, teto, portas e detalhes, inúmeros detalhes. Fiquei longas horas sentado de indiozinho, cuidando da junção dos rodapés, ou de ponta-cabeça fazendo sancas e luminárias, tudo com pinceizinhos de ponta finíssima, lutando contra minha falta de coordenação motora, enquanto a patroa mandava brasa nas partes grandes. Nos momentos em que ficava sozinho, sem plano de dados nem wi-fi disponível, restava a mim filosofar, observando como dos grandes rolos de lã às pequenas cerdas de cerdas eu espalhava a mesma substância, em menor ou maior quantidade, conforme a conveniência da tarefa. E lá vou eu para a Grécia antiga. 

Conforme eu já falei um monte de vezes neste espaço, os filósofos pré-socráticos se dividiam essencialmente em duas correntes: os discípulos de Heráclito, que viam no dinamismo das transformações a própria essência das coisas, um eterno devir que faz passar de um estado para o seu contrário; e os eleatas, seguidores de Parmênides, que viam o universo como um todo imutável, cujas transformações são meras ilusões das opiniões e desvios dos sentidos. 

As teses de Heráclito tinham a seu favor a intuição, já que, de fato, vemos o mundo em impermanência. “Não se toma banho duas vezes no mesmo rio”, dizia o sábio que entendia ser tanto o homem quanto o rio seres em constante transformação, e é isso que o universo tem de permanente: a mudança. A favor de Parmênides, pesa o olhar profundo da ontologia, que vê o Ser para além dos sentidos e da apreensão imediata. Era uma tese com uma lógica tão bem construída que foi a partir dela que começaram a brotar as regras fundamentais do pensamento bem construído, especialmente o princípio da não-contradição (para saber mais, leiam este texto). Mas tudo o que havia de intuitivo em Heráclito ia ao seu oposto em Parmênides. Imutabilidade e imobilismo, as principais característica do Ser, contrapunham completamente a nossa apreensão direta da realidade. Era muito difícil explicar a fixidez para olhos que só viam a alternância de estados universais: dia e noite, calor e frio, vida e morte. Era como o antagonismo entre as teses acadêmicas e o senso comum, onde somente um pequeno grupo de iniciados se põe em confronto com a percepção popular - embora o pensamento de Heráclito em nada estava no âmbito do acriticismo. Por isso, era essencial obter explicações para as mudanças e o devir.

Aliado a tudo isso, havia uma questão ainda mais antiga: a arché. Essa ideia, que já mencionei muitas vezes por aqui e já fiz uma espécie de texto consolidado, foi a primeira temática verdadeiramente filosófica, e buscava saber o que está no substrato da realidade sem o auxílio de divindades e atividades demiúrgicas. Os filósofos posteriores a Parmênides e Heráclito começaram a vincular este elemento primordial com a questão do Ser, buscando elucidar ambas as problemáticas de um só turno.

Várias foram as tentativas, cada uma mais engenhosa do que a outra. Uma das que mais fez sucesso foi a de Empédocles de Agrigento, a quem apresentei aqui. Em apertadíssima síntese, sua tese falava das rizomatas, as raízes compostas pelos quatro elementos, que, misturados nas devidas proporções, davam origem a todas as coisas.

Embora possuísse sua lógica, o pensamento de Empédocles não alcançou unanimidade, como se pode supor. Um dos que achava essa explicação insuficiente era Anaxágoras de Clazômenas, cidade grega que hoje pertence à Turquia, cuja principal crítica estava na ampla variedade de elementos existentes no universo, que dificultavam a visão de que somente a mistura de terra, fogo, água e ar eram o bastante para constituir todo e qualquer elemento. Para ele, deveria existir uma substância que antecede os quatro elementos e os compõe. Já vamos chegar nisso.

Mesmo que com contraposições, o princípio geral estava dado. Se não era na visão macro que conseguiríamos perceber a imutabilidade das essências, de algum outro modo seria possível explicar a aparente transitoriedade e a permanência eterna do Ser. As tentativas mais simples, como a água de Tales ou o ar de Anaxímenes eram ainda mais difíceis de aceitar que a rizomata de Empédocles. A antiga visão do ápeiron de Anaximandro era insuficiente, porque o todo imaginado, sempre preenchido pela substância etérea, não dava espaço para o não-Ser. Anaxágoras pensa então na redução da possibilidade do Ser a tamanhos infinitesimais. A coisa tem mais ou menos o seguinte sentido: nascer e morrer são ilusórios, já que ambos pressupõem que algo exista a partir do nada ou que deixe de existir - o não-Ser, o que é impossível. Estes termos devem, em um sentido mais estrito, ser substituídos por “compor” e “decompor”, na medida em que o agrupar e desagrupar não representam o surgimento e a extinção de uma determinada existência, mas um mero rearranjo de algo que já existe.

E o que seria essa coisa que já existe?

Segundo Anaxágoras, os elementos constituintes da realidade podem ser reduzidos a tamanhos minúsculos, porque esse formato explica tanto o universo em seu menor tamanho imaginável, quanto em seu tamanho macro, pela agregação das pequenas partículas. Esses componentes mínimos de todas as coisas tem o nome de spermata, que podemos traduzir como “sementes”.

E como seriam essas sementes? Bem, vamos com calma nessa hora. Anaxágoras utiliza esse nome por uma alegoria ao se observar como funciona a semeadura em um campo. A cada pequenina semente que for, brotará uma planta completa, que poderá ser um pequeno musgo ou um gigantesco baobá. Nesta semente está contida toda a informação necessária para o desenvolvimento da planta, e daí vemos neste campo como cada semente específica desenvolve uma planta igualmente específica, sem que cada uma vá para um canto. Assim é com o fogo, cuja labareda é composta por inúmeras sementes de fogo, ou com a terra, ou com qualquer elemento. Ou seja, cada substância existente no universo deriva de uma semente específica, que lhe caracteriza e já carrega consigo não somente seu estado atual, mas o todo que virá a constituir. Não se trata de misturas de elementos agregados através de uma espécie de "sentimento", como diria Empédocles, mas por qualidades infinitas de sementes: para cada substância localizada no cosmos, há uma semente determinada que a compõe. Por mais que o mundo seja grande e a diversidade de elementos seria finita, o fato é que todo o cosmos, na visão de Anaxágoras, é infinito. Sendo assim, as sementes como originadoras de substâncias também são infinitas. A mesma coisa se aplica à quantidade de sementes. Não basta que suas qualidades sejam infinitas, é preciso que infinita também seja sua quantidade, partindo da premissa fundamental de que o universo todo é composto por elas.

A spermata de Anaxágoras ajusta-se bem ao eleatismo porque ele aposta em outra categoria que lhe seria particular. As sementes não são apenas infinitas e eternas, mas também são imutáveis. Se é fato que o mundo se notabiliza pela imobilidade travestida de devir pelas ilusões dos sentidos e pela ignorância de como tudo funciona, só há sentido nas sementes se elas forem eternamente iguais.

Mas como isso seria possível se basta que cortemos uma árvore para que ela passe a ser um sarrafo de madeira? Aqui nós vamos ver como Anaxágoras prefigurou a moderna biologia. Ele entende que a divisão quantitativa de qualquer substância não lhe tira a identidade qualitativa. Ou seja, por menor que seja o pedaço da árvore, ele conterá em si a árvore inteira. Essa assertiva pode parecer estranha, mas as atuais descobertas no ramo da genética demonstram que muito do que está em nosso organismo como um todo fica descrito em cada uma das partes. Ou seja, Anaxágoras dizia que tudo o que existe é constituído por partes qualitativamente iguais, o que mais tarde foi nominado como homeomeria.

A grande sacada da homeomeria está no seguinte fato, novamente exemplificando com a vida real: todo o capim que está em um pasto nasceu de um tipo específico de spermata. Esse capim serve para que os bois e as vacas se alimentem, e é dele que se constituem seus corpos, seu crescimento e desenvolvimento. Não há, na semente do capim, nenhum osso, nenhuma carne, nenhum pelo, nenhum chifre. Entretanto, sem o capim nada disso subsiste no bovino. Mais ainda: o que o gado expele no campo durante sua vida (ou com seu próprio corpo após a morte) vai alimentar o mesmo capim que o alimenta. Anaxágoras conclui, portanto, que embora cada semente seja de um determinado modelo, em qualquer uma delas há informações sobre tudo o que existe no universo, e dessa forma o mundo se transforma, como quereria Heráclito, mas sem que deixe de ser uma única substância, como concordaria Parmênides. Tudo está em tudo, e tudo contém tudo. Esse é o grande fundamento da homeomeria.

Resta entender, por fim, qual seria o mecanismo que faria com que as homeomerias se organizam no espaço para dar origem a tudo o que existe, especialmente no que diz respeito ao “saber” se moldar a cada realidade.

A coisa é mais ou menos assim. Quando deitamos os olhos no mundo que nos circunda, vemos que, embora haja um quê de incerteza para confundir as coisas, existem certas regularidades que conduzem a previsibilidades. Mantendo a alegoria da semente, sabemos que, se colocamos uma na terra, ela encontrará nutrientes e brotará, aflorando no solo e crescendo cada vez mais, até frutificar certa quantidade de vezes e espalhar novas sementes pelo mundo, até declinar e morrer. Isso se repete por inúmeros outros fenômenos, como o surgir e o pôr do sol, as estações do ano e até mesmo as relações humanas. Como seria fácil intuir, esses scripts não parecem frutos do mero acaso, mas de uma certa forma de organizar o universo que parte de uma inteligência, porque tudo está no lugar certo e na hora certa, colocado como deve para funcionar da devida forma universal, mesmo que no varejo pareça por certas vezes não dar certo: uma semente pode não brotar, mas ainda servirá como composto orgânico. Anaxágoras se refere a este princípio como nous, palavra de difícil tradução para o português. Seria uma espécie de princípio universal ordenador que age pela pura racionalidade, algo como um espírito universal não necessariamente vinculado a uma divindade, mas ainda metafísico, na medida em que é puramente racional e prescinde da matéria, a quem tem a capacidade de ordenar. Para ter um exemplo levemente aproximado, seria como aqueles momentos em que nos concentramos em uma linha de pensamentos e que nos desvinculamos da realidade circunstante, como se desligássemos o botãozinho que nos conecta ao mundo exterior. Sendo que tudo isso tem como substrato material as homeomerias, é ele, o nous, que faz com que tudo seja do jeito que é.

Mas se o nous é um princípio ordenador do universo, ele também está nas coisas criadas? Sim, conforme pensa Anaxágoras. A cada vez que algo se materializa, uma parte do princípio inteligente se mantém agregada a ele, e essa " quantidade" de nous que permanece em um ente determina sua capacidade de percepção cósmica. O ser humano é o que de máximo existe em termos de nous "acumulado", por isso dizemos que somos animais racionais. Esse teor vai se reduzindo na medida em que se percebe o embrutecimento da matéria, mas mesmo assim ainda há a presença da inteligência universal mesmo nos minúsculos fragmentos de areia.

Por tudo isso, é possível notar como o pluralismo de Anaxágoras já aponta para algo muito próximo ao que vieram predizer Lêucipo e Demócrito de Abdera, com a diferença que estes últimos eram um pouco mais rígidos com a plasticidade do átomo em relação à homeomeria e não colocavam nenhuma instância metafísica na forma como as substâncias se agregavam e desuniam, de maneira muito mais materialista, no que veio desembocar, séculos depois, na moderna química que impera até os dias atuais.

Toda essa sofisticação de pensamento foi refletir muito séculos depois na monadologia de Leibniz, que, grosso modo, retoma uma grande parte dos princípios das homeomerias e do nous para explicar as semelhanças de características entre elementos muito distintos entre si. Isso é prova de que a ideia em si é bastante poderosa e contém elementos que enriquecem a intelectualidade.

Sendo assim, despeço-me cordialmente da antiga morada do piá mais velho e também de vocês, convidando-os a seguir acompanhando este pequeno espaço. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Vai em italiano. Uma boa coletânea dos fragmentos que chegaram até nós da obra de natura de Anaxágoras.

D’IPPOLITO, Armando (Org.). Anassagora, Il Miscuglio Originario. Milão: Albo Versorio, 2015.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Ambientalismo: o que ele é e o que ele não é

(Nesses tempos de polarização, nada passa batido à sanha das dicotomias. Por isso, sempre é bom procurar ficar a par do que defendemos ou combatemos)

Olá!

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“Porque haverá guerras e rumores de guerras, mas não se assustem, porque tudo isso deve acontecer, mas ainda não é o fim”. Essa é a assustadora profecia de São Marcos, transcrevendo as supostas palavras saídas da boca do Jesus dos cristãos, prevendo os fins dos tempos. Há tempos não nos víamos em meio a grandes chacoalhões políticos e bélicos, e os acontecimentos na Europa Oriental tem nos trazido de volta àquele desanimador clima da Guerra Fria. Mas fria é a guerra: há outras sombras se projetando nesta esferinha azul que tantos pretendem lisa como uma mesa de bilhar. Muito mais quentes.

É que recorrentemente temos ouvido falar de temas que, se por um lado carregam o mesmo peso da ameaça do parágrafo anterior, por outro têm se tornado tabus, como o aquecimento global ou o buraco na camada de ozônio. E isso tem feito com que o mundo se divida em dois, como tem sido comum nestes dias de dicotomia permanentes. De um lado temos a defesa arraigada do meio ambiente, e do outro os que entendem ser os indicadores de mudanças climáticas meros fenômenos de passagem, como os circos que erram aqui e ali nesses rincões do Brasil profundo. No meio disso tudo, nós, mortais como Sócrates.

Essa situação de guerra psicológica deflagrada faz com que muita coisa seja dita de lado a lado sem que haja sempre base na realidade. E isso leva a confusões. Quando falamos de ambientalismo, por exemplo, temos pouca nitidez consensual. Tem gente que o julga prenhe de atitudes de heroísmo, tem gente que o ache empulhação de catastrofistas. O grande problema é que o fazem sem ter um panorama mais efetivo do que ele realmente é, e, com isso, sentimo-nos na obrigação de lançar as luzes possíveis à causa, para que ao menos nos lembremos de que uma das funções do cérebro é questionar. Então vamos lá.

O que é ambientalismo?

Ambientalismo é um amplo leque de pensamentos que têm em comum algum grau de defesa da conservação do meio natural e de seus componentes. Sim, é um termo guarda-chuva que abrange desde o reaproveitamento de latinhas e potinhos para colocar plantinhas até a defesa de enormes projetos de reflorestamento e corredores ecológicos, o que dificulta uma definição clara e favorece posições antagônicas. Mas podemos dizer que é preciso existir uma intenção para se colocar alguma atitude no âmbito do ambientalismo. Minha sogra, por exemplo, adora juntar toda sorte de potinhos plásticos. Isso é bom para o ambiente, porque o reaproveitamento diminui a necessidade de produção, mas ela não o faz por uma atitude ambientalista, e sim por compulsividade acumulativa. Por isso, ambientalismo é muito aberto para que se feche uma definição inconteste, mas podemos defini-lo como toda e qualquer ação consciente que vise um mínimo de preservação do meio ambiente.

O ambientalismo é uma Ciência?

Não. Está mais associado à Filosofia, porque prescinde de um método baseado em verificabilidade e falseabilidade, embora as correntes mais sérias sempre procurem se associar a estudos confiáveis. No entanto, os motores para o ambientalismo não são unicamente a proteção ambiental com caráter pragmático, mas, muitas vezes, pelo simples fato de existir uma empatia com os outros componentes do meio, ou uma suposta sinergia de fundo esotérico. O ambientalismo transpõe a barreira da ciência e vai a outros aspectos existenciais.

Ambientalismo coincide com Ecologia?

É quase óbvia a correlação que se faz entre Ecologia e ambientalismo. Mas há muitas diferenças entre ambos. A Ecologia é uma Ciência, que pretende que suas observações sejam as mais neutras possíveis, enquanto o ambientalismo é uma atitude. Um ecologista, por princípio, deve se socorrer em dados e, a partir do momento que coloca termos éticos em seu discurso, torna-se um ambientalista. Ou seja, o que ocorre é que, por dois caminhos, um acabe se vinculando ao outro. Podemos ter gente com propensões de defesa à natureza que se interesse por saber mais e melhor, e com isso siga os passos da Ecologia. Por outro lado, pode ser que alguém que comece estudando a Ecologia acabe por se apaixonar pelos objetos que estuda, e tome o rumo do ambientalismo 

Por que ambientalistas são chatos?

É preciso ser cuidadoso com prejulgamentos. Chato é tudo aquilo que vai contra nossas convicções. Mas é óbvio que existem pessoas tão engajadas que acabam por jogar contra, não há dúvidas. Fanatismo existe em qualquer área onde haja posições bem marcadas. Quem nunca encarou um crente chato, um vegano chato, um comunista chato, um corintiano chato… Todos defendem com unhas e dentes sua posição, a ponto de perder a racionalidade. Mas isso não significa que TODOS os demais crentes, veganos, comunistas e corintianos sejam chatos, que não tenham suas ideias sensatas, que não troquem a lógica pela pura defesa apaixonada. Tudo isso acontece com os ambientalistas também. Há aqueles que se arrogam um conhecimento superior, que não ouvem teses contrárias, que metem o dedo na cara de pessoas que não têm más intenções, apenas desconhecem os problemas que os ambientalistas abordam. Isso sim dá uma conotação de chatice, mas aqui trocamos o berimbau pela gaita, jogando tudo na generalização apressada: não é pelo fato de existirem fanáticos que todos aqueles que defendem causas ambientais são fanáticos. Enfim, chatos são os fanáticos, e não os ambientalistas.

Por que se fala tanto em sustentabilidade? O que é essa tal de sustentabilidade?

Sustentabilidade é uma filosofia de uso do meio ambiente em que sempre se pensa na preservação vinculada ao desenvolvimento. É mais que uma disciplina, mas um modo de vida que procura conjugar bem-estar com manutenção ambiental. Em resumo, é a tentativa de manter o máximo de preservação ambiental sem abrir mão do desenvolvimento econômico, porque não se quer que as cidades não possam evoluir. Obviamente é um jogo de ganha-perde, porque sempre se terá de abrir mão de algo para sair do outro lado e conseguir um mínimo de qualidade de vida para além de nossos próprios quintais. Tem sido muito perseguida nos dias atuais porque é muito difícil não aproveitar um recurso que está lá, que nós precisamos, mas não podemos esgotá-lo.

Quando as empresas agem, os ambientalistas as acusam de “greenwashing”. Que diabos é isso?

O greenwashing (literalmente "lavagem verde", em inglês) é uma prática empresarial que visa dar uma roupagem ecológica a atitudes que não são exatamente amigáveis ao meio ambiente, sendo mais uma prática publicitária do que propriamente a aplicação de políticas ecológicas. Como nos tempos atuais as pessoas têm se preocupado mais com questões ambientais, ter uma espécie de "selo verde" traz dividendos para a empresa que o possui. Por exemplo: uma fábrica pode produzir equipamentos eletrônicos que realmente possuem eficiência energética, e explorar essa característica como uma vantagem verde, mas o custo disso pode ser a extração de minérios de maneira predatória ao meio ambiente. Outro exemplo: uma fazenda se dedica a produzir alimentos orgânicos, que evitam a poluição do solo e dos mananciais, mas o faz à custa de desmatar matas ciliares. A empresa se aproveita unicamente do aspecto positivo de seu produto, "esquecendo" o lado de lá, que, bem medido e bem pesado, pode até ser mais prejudicial no conjunto.

Por que ambientalistas são vistos como hippies que ficam fumando maconha e aplaudindo o sol?

Estereótipos. Normalmente, uma pessoa que aprecia a natureza quer estar próximo a ela, e isso pode ser feito das mais diversas formas: optando por destinos intocados nas férias, tendo hortas orgânicas em casa, estudando sobre o assunto e outras maneiras. Isso nada tem a ver com hippies, nem com maconheiros, que existem em centros urbanos da mesma forma que em retiros ecológicos. Como se criou uma imagem de desvinculação desta tribo ao mundo tipicamente capitalista, coloca-se todo mundo no mesmo pote. Um estereótipo (“impressão sólida”, em grego) é exatamente isso.

Então tudo o que é dito por ambientalistas é sinônimo de verdade?

Longe disso. Há uma linha divisória que nem sempre é muito clara, mas que faz toda diferença em qualquer discurso: quando se deixa de basear em fatos para se basear em crenças. As regras do bom pensamento dizem que devemos sempre nos ater à realidade, e isso não ocorre pelo puro e simples motivo de apreciarmos paragens verdes e os animais que lá vivem. Isso se assemelha aos ambientes idealizados de desenhos animados, e crer nisso é infantilizado em alguns casos, delirantes em outros, desonesto em mais alguns. Mesmo que o ambientalismo não seja uma Ciência, deve se pautar ao mínimo na lógica para emanar suas propostas.

Se a causa ambiental é uma ação digna, por que há tanta gente contrária a ela?

Vamos progressivamente. O fato não é que muitas pessoas são contra a defesa da natureza, mas que simplesmente não se importam com a questão. Em um país de povo pobre como o Brasil, a dona de casa luta contra os preços do mercado, e fica difícil pensar no meio ambiente quando o cobertor é curto demais. Pode ser um mero desinteresse, falta de preparo em encarar problemas incômodos, falta de conhecimento para compreender esses mesmos problemas. Quem se posiciona contrariamente à causa ambiental de verdade, geralmente tem muito a perder com o controle que é imposto, e aqui é impossível não pensar na ação empresarial. Já aqui é preciso desfazer a ideia de que toda empresa se guia pelo lucro a qualquer custo, e que não haja empresários verdadeiramente preocupados com a questão ambiental, mas é inevitável que se esbarre no modo de produção capitalista. Vou falar mais sobre isso logo adiante. 

Mas esse controle não é uma questão de tolher liberdades?

Tolher liberdades… Sempre que alguém lhe falar em defesa de causas libertárias, pergunte como ele se posiciona com relação a outras liberdades, como a de casar com alguém do mesmo sexo e ter os mesmos direitos de qualquer outro casal, ou de decidir pela eutanásia. Caso a resposta para estes pontos não seja tão alinhada à causa da liberdade, então você terá à sua frente um leitor de cartilhas, de onde será difícil de tirar algo diferente do posicionamento conservador disfarçado de liberal. Se, por outro lado, admitir-se liberdades para qualquer caso, é preciso pensar se há sentido em se possuir liberdades plenas em casos onde o prejuízo se arrasta para populações inteiras. Populações de pessoas mesmo, não é nem uma questão de piedade ou de empatia com comunidades da fauna. Neste caso, é uma questão de decidir o que importa mais: o indivíduo ou a sociedade, e, com isso, determinar até onde é possível chegar com as liberdades.

Por que o ambientalismo só ganhou força há menos de 50 anos?

Não sou comunista, mas preciso falar sobre como o capitalismo opera, portanto não me prejulguem. Embora o modo de produção deste sistema venha transformando a paisagem da Terra desde meados do século XVIII, é a partir do pós-Guerra que fica evidenciado seu máximo esplendor, com todos os seus avanços tecnológicos por um lado, e toda sua ação predatória por outro. É a partir de então que as grandes cidades passam a registrar casos e mais casos de doenças relacionadas às mudanças na composição do ar e o povo como um todo passa a sentir os reflexos na própria pele, literalmente. Causas antes difusas agora passam a ganhar a mídia, e a ganhar relevo, como a extinção de espécies, mudanças no regime de inundação dos rios e outros mais; alguns, com estatuto de ameaça planetária, como o buraco na camada de ozônio e o tão recentemente debatido aumento da temperatura global. Isso deu uma certa chacoalhada nas pessoas como um todo e é natural que haja maior engajamento na mesma medida. 

Por que o ambientalismo sempre se encontra nas pautas de esquerda?

(Comecem lendo este texto, para compreender minha dificuldade com posições políticas inamovíveis). Com extrema simplificação, via de regra a direita prioriza liberdade, que é exercida por indivíduos; já a esquerda tem seu foco na igualdade, que se volta para comunidades. Quando estamos falando em causas ambientais, naturalmente não estamos falando de um fazendeiro específico ter o direito de possuir reservas florestais em suas propriedades, mas em seu dever de mantê-las. Isso porque a manutenção do meio favorece não aquele tal fazendeiro, mas toda a coletividade, que fruirá dos benefícios da manutenção daquele espaço. Mas não há nenhum tipo de limitação filosófica para que cidadãos ditos de direita defendam de verdade causas ambientais. Só é bem raro de acontecer, porque não faz parte do pacote.

Mas se o Brasil se especializou em commodities, tolher a expansão agrícola não nos conduzirá ao empobrecimento?

O Brasil caiu na armadilha da divisão internacional do trabalho, uma política já antiga que preconiza uma especialização dos países nos mercados internacionais. Cabe a nós fornecer produtos agrícolas, devido ao território privilegiado. O problema das commodities agrícolas é o seu baixíssimo valor agregado. Quem tem um espectro maior de ofertas para o mercado internacional costuma ser menos abalado por crises setoriais, porque é a velha história de guardar todos os ovos em uma cesta só: quando ela cai, já sabe. A questão recai novamente sobre o individualismo. É muito atrativo para um fazendeiro expandir suas propriedades em alguns hectares sobre a floresta, mas o interesse coletivo não vai no mesmo sentido, porque a oferta que virá normalmente não se voltará a uma diminuição de preço para o mercado interno, além de reduzir a área verde original cada vez mais. A questão é saber se a área já disponível para o agronegócio não é grande o bastante e se pode ser otimizada para produzir melhor, sem recorrer ao recurso fácil da expansão contínua. Dificilmente todo esse território não pode ser melhor aproveitado para render o suficiente. Mas eu não sou da área e vou passar a pergunta.

Em um momento de economia incerta, não é um problema aumentar os gastos com preocupações ambientais?

Reutilização, reciclagem e diminuição de consumo não representam incremento, mas diminuição de gastos. Portanto, são três coisas em que se precisa pensar: visão de longo prazo, sociedade como um todo e atitudes simples. Esses são os alicerces da gestão ambiental.

Acho que está bom por enquanto. É um assunto tão amplo quanto sua própria definição, e, sendo assim, podemos voltar ao assunto a qualquer momento. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Embora nos últimos tempos tenhamos tido dificuldades nas políticas públicas no quesito ambiental, é importantíssimo que se conheçam ao menos rudimentos do que a legislação reza sobre o tema, já que é ela que disciplina as condutas disponíveis legalmente, concordando com ela ou não. As mais importantes são as seguintes:

Código Florestal: disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm

Lei dos Recursos Hídricos: disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9433.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%209.433%2C%20DE%208%20DE%20JANEIRO%20DE%201997.&text=Institui%20a%20Pol%C3%ADtica%20Nacional%20de,Federal%2C%20e%20altera%20o%20art

Lei dos Crimes Ambientais: disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm

Política Nacional do Meio Ambiente: disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6938.htm

A imagem utilizada neste post é oriunda do Ministério do Meio Ambiente, disponível em: http://a3p.mma.gov.br/9-premio-melhores-praticas-de-sustentabilidade-premio-a3p/