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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Interrompendo a viagem: o adeus a Pelé

(Tem coisas que nos caem mal de verdade)

Olá!

De repente, a realidade cai como uma pedra na nossa cabeça.


Eu estava realizando os relatos de minha última viagem, que podem ser vistos e acompanhados a partir deste endereço. Não tinha nenhuma intenção de interrompê-la, porque quebra o fluxo que há no substrato dos pensamentos, além de deixar os textos pulverizados pelo blog, o que se provou ruim em outros momentos, mas não tem como evitar de fazê-lo desta vez.

No meu último texto, eu falava sobre mitos, e citei Pelé. Mencionei como foi construído o mito ao redor do seu nome, e como é difícil confrontar os mitos. Eu escrevia em dois momentos marcantes: o rei já estava no leito de morte, desenganado de um câncer que lhe consumiu nos últimos tempos, e eu estava enfrentando minha segunda covid (sobre a primeira, leia mais aqui). Eu queria sair digitando, como fiz na morte de Maradona, mas a febre e a diligência da patroa me impediram de prosseguir com a tarefa. Mas agora estou melhor, e vou levar minhas rápidas observações a cabo: a dor pela perda do ídolo.

Da maneira que descrevi as distorções da esfera mítica, este texto será uma dialética com cara de contradição. E é mesmo, filosofia é exatamente isso.

A morte de Pelé foi mais uma que me caiu mal. Outras aconteceram, e eu vou falar um pouco sobre elas. A morte de Garrincha, em 1983, ocorreu quando eu tinha 13 anos, e estava em viagem na terra dos meus parentes de Maringá. Ele morreu derrotado pelo consumo excessivo de álcool, o que me trouxe uma série de lembranças de parentes que vinham para São Paulo, tratar-se inutilmente de cirrose, uma família de bêbados. Acho que foi meu primeiro gatilho, porque passei a viagem toda da volta meio calado, pensando nos limites do corpo e da vida.

Outra foi pouco tempo depois, quando eu já tenteava uma carreira musical, a do baixista do Thin Lizzy, o irlandês Phil Lynnot. Um baixista que cantava, como eu. Sua morte me deixou meio que desencantado com o show biz pela primeira vez, pelo quanto que os excessos nos trazem prejuízos.

Outra, mais recente e muito semelhante, foi de Lee Kerslake, que, mais uma vez como eu, era um baterista que cantava, e cantava muito. Já aqui me coube uma aflição por aqueles projetos que temos para a aposentadoria, mas que na maioria das vezes não dão em nada.

Não são só os famosos que me trouxeram mais do que a inspiração filosófica ou o gatilho psicológico, uma espécie de véu de tristeza difusa. No meu piccolo mondo, talvez a maior tragédia que acompanhei foi do filho de um colega de trabalho, com quem, inclusive, não tinha muito contato. Ele tinha um filho com a mesma idade do meu, por volta de quinze anos, quando veio a papeleta do RH pedindo doadores de plaquetas. O sobrenome denunciou a filiação, e fui me inteirar um pouco melhor. Ele tinha uma doença sanguínea muito parecida com leucemia, que destruía por completo suas plaquetas e lhe sujeitava a sintomas horríveis, que nem tenho ânimo de digitar aqui. Fui buscar informações sobre como poderia ajudar, mas diabéticos são inúteis para esse tipo de coisa. Algum tempo depois veio a notícia da morte, e eu fiquei bem mal. Queria dar um abraço de solidariedade no colega, mas não consegui reunir coragem, limitando-me a deixar um bilhete sobre sua mesa.

Agora eu estou aqui, tentando controlar a febre da covid (juro que continuo me cuidando) e concertar os pensamentos sobre a perda para o país, para os admiradores e para mim mesmo. Não canso de falar sobre a necessidade de racionalidade, mas há momentos em que ela não consegue superar as emoções. Principalmente neste espaço, onde eu tanto falo sobre futebol quando preciso formar um exemplo ou estudo de caso, não posso deixar de expressar rápidas palavras sobre o fato.

Eu já conheci Pelé dentro da esfera mítica. Quando ele parou de jogar, eu tinha 7 anos de idade, e era muito raro que suas atuações pelo Cosmos fossem transmitidas no Brasil. Pensando bem, é uma bela alegoria: Pelé viro mito pelo Santos, cuja etimologia já denuncia seu ser apartado dos demais, e terminou sua carreira no Cosmos, no universo inteiro, e de lá se eternizou. Mas eu já o recebi com o filtro de Rei do Futebol, uma condição de herói de um país que, como sempre, vivia tempos difíceis e com poucos elementos para se orgulhar. No entanto, como valorizo os depoimentos como saborizadores da vida, relembro do que contavam os velhos corintianos, meu pai, meus tios, meus avós, presos nos longos jejuns de títulos e de vitórias sobre o Peixe, que contavam o sentimento de aflição ao verem subir a campo aquele time alvinegro no Pacaembu, tendo à frente Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe, ladeando ele, o Rei, o ataque mais temido de todos os tempos. Foram onze anos fracassando contra o time da Vila, assistindo atuações que não foram gravadas pelas câmeras de TV, mas a reverência superava o ódio, porque, segundo eles, era impossível não reconhecer a maestria, o futebol elevado à condição de arte, semelhante ao balé na execução e à arquitetura na construção. E, sim, à pintura na conclusão a gol.

O que faz com que uma pessoa se entregue para sofrer? Por que meus ascendentes se enfiavam nos ônibus lotados para ter uma garantia de que teriam de voltar desolados? Morávamos um bocado longe do Pacaembu, a casa mais habitual para os clássicos, e lá se iam os velhos perder o domingo, a quarta-feira. Mas o fato é que havia uma esperança e uma garantia: a de que o suplício acabaria e a de que se veria mais um espetáculo. Qualquer resultado seria enaltecedor, hoje eu compreendo.

Pois bem. Aquele tempo acabou, aquele time acabou e agora o homem que usava a coroa também acabou. Como é difícil ficar órfão, mesmo sabendo que o homem é finito, mas a obra não. Restarão as filmagens, as fotografias, os relatos, as reportagens, os troféus, as memórias, essas formas de nós manterem vivos pela eternidade. Mas não é possível negar um sentimento de impotência perante à morte.

Tantos e tantos filósofos falaram sobre ela, cada um de sua forma, mas nenhum com a resposta definitiva. Por mais que tentemos, não conseguimos naturalizá-la, seja pela incerteza do que vem depois, seja pela certeza de que não virá nada depois. Dessa forma, temos a eterna impressão de obra incompleta, de que poderíamos ter feito mais e melhor, e a morte do mito, aquele que se colocava diante de nós como uma resposta à eternidade, faz-nos nos reconhecer novamente como seres finitos, contingentes, acidentais, incompletos, completamente sem as rédeas do destino ou o timão do próprio tempo.

Isso explica boa parte do fenômeno religioso. O mito faz acreditar que há um lugar melhor, onde só a perfeição tem lugar, e que não é possível de existir em mundo tão cheio de defeitos. Ele não pode ser da própria vida, cheia de dores e desventuras, mas os heróis fazem pressentir uma dimensão onde isso tudo é possível. Eu chamo isso de talento, alguma mais palpável e realista, que nos faz sentir glorificados em nossa própria humanidade, que somos capazes de realizar por nós mesmos, como espécie.

O talento fica, e há uma montanha de gente que diz que quem morreu foi o homem, e não o herói, o mito, a lenda. Certo: a obra persiste ao artista, mas a obra não surgiria sem o artista. E é impossível não se sentir atingido como ser humano quando sabemos que, embora haja horas e horas de filmagens de seus feitos, toneladas de fotos, narrações e narrativas, não vamos mais ouvir da própria boca do homem o que é o feito do mito, como ele chegou à proeza, o que ele sentia quando fazia seu mister, e o consagrava como sendo o que é. A morte do Rei do Futebol já estava decantada e esperada, desde o momento em que foi tornada pública sua condição clínica. Mas a dissociação entre o homem e sua obra causa uma dor maior que a de um parto, porque inevitavelmente nos coloca diante da nossa fragilidade e finitude.

A morte do Pelé me pegou mal mais uma vez. Talvez a febre esteja me deixando um pouco menos criterioso, e a maldita rouquidão faz com que eu fale pouco, mas dessas dores nós nos livramos diariamente. O que me faz sentir fraco hoje não é o vírus chato que me afastou dos filhos na virada do ano, mas a consciência de que os mais poderosos símbolos da humanidade não são mais do que isso, símbolos. O que é coisa para caramba, mas que tem limite.

A morte do Pelé é morte da humanidade inteira.

Sem mais. Bons ventos a todos.

Recomendação de documentário:

Há vários materiais sobre o Rei espalhado por toda a parte, mas um dos mais bem produzidos é, sem dúvidas, aquele que recomendo abaixo:

MASSAINI NETO, Aníbal. Pelé Eterno. Filme. Brasil: United Artists, 2004. Cor e P&B. 120 min.

Os verdes mares de onde não há mar – 5ª parada: Tocos do Moji gerando pastéis míticos e discussões sobre o tema

(A esfera mítica está no nosso dia-a-dia, nas pessoas que admiramos. Mas muitas vezes polarizam interiormente nossa capacidade de absorver o mundo divergente).

Olá!

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Não sou muito chegado em compras, apesar de morar a menos de um quilômetro da 25 de Março, rua de quinquilharias de São Paulo conhecida em todo o Brasil. Principalmente quando a compra é inespecífica, aquela coisa de andar para um lado e para o outro procurando promoções, pechinchas e descontos. Nestes casos, costumo procurar ser ainda mais objetivo do que se fosse a passeio, e fico de bode quando forçosamente acompanho a patroa nesses empreendimentos. No entanto, se a busca é gastronômica, a coisa muda de figura.

Disse tudo isso porque minha parada anterior, em Borda da Mata, teve muito da barganha precitada, e achei por bem dar uma sequência mais enfiada na ruralidade, sem tantas "oportunidades" e, para isso, Tocos do Moji é uma belíssima pedida.


Tocos do Moji tem esse curioso nome com origem incerta, mas a verdade parece estar no mais óbvio: os pedaços de troncos de araucária que se depositavam nos fundos do Rio Moji-Guaçu, o que providenciava algumas passagens naturais pela água. É pequenininha de tudo, quase limitada ao que é possível ver do morro da igreja matriz.


Aliás, mesmo pequena, tem muita religiosidade espalhada pela cidade de 4000 habitantes, começando pela Igreja Nossa Senhora Aparecida, que fica no cimo do morro de onde tirei a foto anterior. Nos degraus da escadaria central, há uma oração semelhante a um rosário, conhecida como Terço da Alegria de Nossa Senhora.


Uma grande imagem da padroeira do Brasil pontua no lado da entrada da paróquia, como se estivesse na mesma posição que eu tomo ao tirar minha foto.


Logo na entrada da cidade, outra marca cristã está na igreja dedicada a Santa Luzia, tida como protetora da visão, dada a narrativa do seu martírio, onde os romanos, bonzinhos, arrancaram seus olhos para forçá-la à apostasia.


Pela área rural, tem uma porção de capelinhas, algumas delas muito bem cuidadas.


E, no alto do morro que faz caminho para Bom Repouso, tem um Cristo Redentor, um dos raros que está pintado em cores variadas.

Passamos pela área rural, em busca de cachoeiras para dar uma molhada nas costas. A primeira foi a cachoeira do Zé Rita, que, na verdade, é um salto no rio Moji Guaçu.


Depois, mais adiante, um pulinho na Cachoeira das Pedras.


No pequeno centrinho, quase como um daqueles botecos perdidos em qualquer cidadezinha que visitemos, tem uma portinha que esconde um grande tesouro: a pastelaria do Zé Bastião.


Neste minúsculo estabelecimento, produz-se uma iguaria que virou um símbolo de Tocos do Moji. Um pastel de angu, daqueles que é feito tradicionalmente em toda a região da Mantiqueira, dos quais já comi vários, alguns muito bons, como o do Mercadão de Paraibuna e os das porções do Mai Será o Binidito, de São Luiz do Paraitinga. Mas sabe aqueles casos em que há um não-sei-o-que que diferencia algo de tudo o mais parecido? É o caso que temos à nossa frente.

O patriarca, infelizmente, não vive mais. Morreu com outros familiares em um acidente automobilístico, mas deixou essa receita que virou patrimônio cultural da cidade.


Geralmente, um pastel de angu é mais macio do que um de feira. A diferença você vê no banco em que você se senta para comer, incólume no primeiro caso, pleno de migalhas no segundo. Por padrão, mesmo que esteja bem sequinho, o pastel de angu, dada sua porosidade, retém mais óleo do que seu congênere feirante. O milagre do Zé Bastião está no fato de que ele conseguiu manter a crocância de seu pastel sem multiplicar as casquinhas que se desprendem, chegando a uma espécie de mundo ideal da massa, que vem recheada na medida certa. Por isso ganhou o estatuto de mito nesta pequena região.

Por falar nisso, nos últimos tempos, as respostas rápidas que as redes sociais ofereceram fez nascer o termo "mitada", que consiste em dar contrarrespostas incisivas ou humilhantes a supostos interlocutores. Admiradores do presidente recém-saído desgastaram o termo ao máximo, porque qualquer respostinha atravessada que o cidadão dava, lá vinha sua camarilha: "mito, mito, mito". Mas há algo que faz sentido filosófico no termo, especialmente antes de sua corrosão.

Eu já falei sobre mitologia neste blog por várias vezes, especialmente neste aqui, e meu objetivo aqui não será repisá-lo, mas tentar entender como se dá o processo de mitificação, ou seja, de retirar um ser humano normal de seu lugar e colocá-lo em um campo sacralizado, e como de lá ele gera adeptos inamovíveis. Mas é impossível não passar pela origem do termo.

Mito, apesar de parecer estar relacionado a mentira, na verdade indica uma história contada. Os primeiros homens já criaram suas mitologias quando faziam sua busca por respostas às questões menos explícitas da natureza que os cercava. O surgimento do universo, a criação da vida, as aparições dos ciclos, o irrompimento dos fenômenos, tudo isso não tinha explicação clara e evidente como o nascimento de uma criança específica tem, por exemplo. Para esse caso, pode-se claramente descrever o passo-a-passo geracional de um parto, ainda que certas sutilezas não sejam conhecidas. No entanto, quanto eu mais recuar no tempo, menos elementos eu terei para explicar aquelas coisas mais distantes. Como sou humano e quero explicações, passo a fazer suposições, e delas nascerão narrativas que demandarão novas narrativas e assim por diante, formando um corpus que poderá ser coligido em um conjunto que forma uma mitologia.

Muitas das narrativas mitológicas incluem um componente heroico, e é simples de entender isso. Como os mitos incluem fenômenos que influenciam a vida de toda uma comunidade, podendo se estender à humanidade toda, é suposto que derivem de feitos extraordinários. Não é da ação prosaica de uma pessoa qualquer que brotará um acontecimento digno de ser repassado às gerações, mas de algum feito a que poucos é dada a capacidade de fazer. O ato heroico põe seu protagonista em risco, ou chegando em locais inimagináveis, ou ainda em números inconcebíveis, e o coloca em distinção aos demais homens.

Os mitos, nesse sentido, expressam o desejo do ser humano de ser algo mais sublime do que sua vida ordinária faz entrever. Como não é dado a qualquer um sair do círculo vicioso da vida quotidiana, os homens que realizam algum tipo de ato heroico representam o sonho de alcance da comunidade como um todo. Quando um herói realiza seu feito, este é de toda a sua comunidade, e não somente de si. Por outro lado, como ele tem todo o poder do símbolo desse conglomerado de pessoas, acaba se tornando um totem: seu valor simbólico acaba se tornando maior que o concreto.

Quando dizemos que um artista, esportista, religioso ou até mesmo político é um herói, colocamo-lo na condição de mito. As histórias dos seus feitos suplantarão, em muito, sua história geral, de modo a lhe colocar em pedestais que, aos olhos de seus admiradores, fazem com que sejam extraídos da humanidade comum. A esfera da racionalidade vai aos poucos sendo abandonada, com o nascedouro de contradições, como o abandono de sua condição humana. O mito é posto em lugar santificado, sacralizado. E aí acontece o estranho fenômeno do retrocesso à realidade: o de que os mitos também morrem, e, por extensão, não deixaram de ser humanos. E isso pode fazer a narrativa mítica se multiplicar ainda mais. Vou mencionar alguns exemplos.

O primeiro é Ayrton Senna. Eu já falei sobre ele sobre uma perspectiva bastante filosófica (aqui), mas não custa mencionar esse exemplo maior dos brasileiros. Senna é, fácil, um dos melhores pilotos de todos os tempos. Sua aura mítica se deve à colocação como herói nacional, já que trazia um orgulho ao brasileiro por desfilar ostensivamente com a bandeira a cada vitória. Em tempos difíceis, era a grande esperança concreta que empunhava o símbolo do brasileiro vitorioso, tão raro desde sempre. Dessa forma, tornou-se uns dos grandes totens do imaginário tupiniquim, tão significativo que não pode ser contestado, já equivalendo esse ato a uma ofensa. Se alguém coloca em dúvida a sua posição de melhor piloto de todos os tempos, ainda que o faça com números e dados sólidos, não é bem-visto. Isso ocorre sem dúvida porque afeta diretamente as convicções pessoais e indiretamente as identidades comunitárias.

Continuemos, agora falando do Pelé. Ele está à baila, por dois motivos: sua condição de saúde terminal* (pelo menos no momento em que digito este texto) e o final recente da Copa do Mundo, onde o conjunto de atuações do argentino Lionel Messi coroou sua vitoriosa carreira. Eu, pessoalmente, só vi o Pelé jogando pelas reprises da televisão. Isso traz dois problemas: o primeiro é que tanto meus avós, quanto meu pai em particular sempre me disseram que as verdadeiramente grandes atuações do Rei foram pelo Santos, que não estão registradas em sua totalidade. O segundo é que as coletas televisivas sempre se resumem aos melhores momentos, e o que temos é um estrato que desconsidera atuações apagadas e jogos ruins. Eles existiram, existem na vida de qualquer jogador. Mas suas atuações foram tão extraordinárias para sua época que ergueu o mito, especialmente no Brasil. Eu não posso dizer que vi o Pelé jogando futebol e, entre os que vi, Messi é o melhor. Ponto. Se alguém coloca o reinado do Pelé em questão, mesmo que o faça respeitosamente e com critérios os mais objetivos possíveis, vai levar pedrada. Porque a mitificação inclui esse elemento religioso: o fanatismo.

Mais um exemplinho, fora do âmbito esportivo: Michael Jackson. Ele foi, de fato, um sucesso estrondoso na década de 80. Efetivamente talentoso, transformou o modo como se faziam videoclipes, trazendo uma produção super apurada e enfatizando o duplo talento de cantar e dançar, ambos com a mesma importância. O transcurso de sua carreira, entretanto, foi permeado de polêmicas, a ponto de sua produção musical ficar obscurecida e deixada em segundo plano. Os movimentos negros acusavam-no de embranquecimento, no que eram respondidos evasivamente e com um mal explicado acometimento de vitiligo. Sobraram acusações de tentar se tornar uma eterna criança e, pior ainda, de crimes de pedofilia. Suas aparições passaram a ser cada vez mais bissextas, envolvendo sua vida com uma aura de mistério e, de certa forma, de esquecimento. No entanto, sua morte repentina reacendeu todos os seus atributos e sepultaram as polêmicas, alçando-o à condição de mito como nunca aconteceu antes. O título "rei do pop" foi para a crista da onda como nunca havia acontecido, e mesmo gente que não tinha idade para reverenciá-lo como tal passou a ser "testemunha ocular" de seu sucesso. Dizer que outros artistas na mesma época se aproximaram de seu patamar virou uma ofensa para fãs e neo-fãs, mas eles existiram, como a Madonna. Só que como ela nunca se afastou dos palcos e, principalmente, ainda está viva, a aura mítica não lhe é tão forte.

É até um pouco difícil de deduzir porque isso acontece. Chamar um fã de idiota não é uma boa resposta, porque há gente verdadeiramente inteligente que entra na defesa irracional do mito.

A resposta passa pela Psicologia, certamente. Parece existir alguma barreira que impeça a cognição de dados concretos e de informações conflitantes com nosso conteúdo conviccional. Não se trata de pura dissonância cognitiva, porque não é uma questão de coerência de informações. As contraposições aos mitos podem ser muito boas, e, mesmo assim, não serem aceitas. O caso parece mais o que o velho pensador alemão Johann Herbart chamava de estado de tendência.

O estado de tendência foi um conceito que, a partir de Freud, foi substituído pelo inconsciente, tendo ficado ainda válido no campo da Filosofia. Segundo Herbart, a apreensão de conteúdos na mente funciona pela experiência e contínuas associações, que criam representações de valor cognitivo. Essas associações funcionariam com um esquema de forças semelhantes ao magnetismo. Quando uma nova ideia é obtida no mundo exterior, penetra em nossa mente com uma determinada energia. Essa energia, como se fosse um ímã, possui uma polaridade, que pode ser positiva ou negativa. Quando é positiva, ela se une às ideias preexistentes e aumenta seu potencial energético, tornando o conjunto cognitivo mais forte. Por outro lado, se a polaridade da cognição nova é inversa em relação à anterior, ocorrerá uma mútua repulsa. Esse processo fará com que a ideia mais energética repila a menos potente, e seu destino é ser expulso da consciência. Seja a ideia nova ou a velha, no entanto, não será meramente esquecida, porque Herbart dizia que as ideias não podem ser destruídas. Ela ficará reclusa em um segundo plano, uma espécie de depósito mental. De lá, ela poderá ser resgatada em algum momento da vida, a não ser que esteja lá a tanto tempo que se torne esmaecida, mas reavivada por algum fator que a leve de volta a nível consciente. Esse é o estado de tendência.

Este parece ser o confronto que o pensamento mítico tem quando se vê confrontado com ideias que o desafiam. Sua polaridade e energia mental são muito fortes para simplesmente ser substituído pela nova proposta. É potente, especialmente, pela significação que adquire no imaginário pessoal e coletivo.

É algo que acontece em algum nível com todos. Ninguém vai jamais me convencer que o Corinthians não é o melhor time do mundo, porque é como Fernando Pessoa se referia ao rio de sua aldeia: é o mais belo do mundo porque é o rio de minha aldeia, mesmo que o Tejo seja maior e mais deslumbrante. O mesmo se aplica ao pastel do Zé Bastião, mito dos tocos-mojienses. Até porque eles podem ter razão. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A tradução da obra de Herbart em português é somente voltada para a pedagogia. É preciso buscar em outras línguas para pesquisar sobre sua filosofia.

HERBART, Johann. Manuale di Psicologia. Roma: Armando Editore, 1982.

*Antes de publicar este texto, a morte do Pelé ocorreu. Resolvi manter a íntegra para dar ideia de continuidade, porque publiquei um texto sobre o assunto logo em seguida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Os verdes mares de onde não há mar – 4ª parada: Borda da Mata e as discussões sobre o erotismo

(O erotismo é uma semvergonhice ou uma inerência humana?)

Olá!

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Depois de um dia mais enfiado no meio do mato, na sequência dessa viagem pelas Serras Verdes do Sul de Minas fomos à ponta de um outro circuito, o das malhas. É um lugar onde se concentram várias especialidades têxteis, sendo que já estive aqui em outros tempos, mais especificamente na terra do tricô, Monte Sião (aqui e aqui). Desta vez, a passagem é por Borda da Mata, que gosta de malhas e lingeries.


A cidade com autonomia não é muito antiga, mas é povoada desde o século XVIII. Está na mesma linha de cidades como Itajubá, Piranguinho e Brazópolis, o que significa que o trem passava por aqui. Sua estação de trem hoje é uma bela casa de artesanato.


No centro da cidade, pontua uma bonita igreja, a Basílica de Nossa Senhora do Carmo. Originalmente uma capela, foi crescendo cada vez mais à medida que o arraial ao qual pertencia foi também se expandindo, especialmente após seu desmembramento da cidade de ouro fino.


À sua frente, a praça que ocupa a área original do arraial, em um tempo onde nem se sonhava na atual ocupação comercial.

É com o Monsenhor Pedro Cintra que a igreja chegou à sua condição atual. Durante os 38 anos de seu vicariato, chega a sua arquitetura definitiva e ganha a condição de basílica.


No campo comercial é que Borda da Mata fez sua fama. Com pequenas confecções espalhada por toda a cidade, podemos dividir os artigos em três áreas principais. Os pijamas…


… as tapeçarias…


… e, em grande número, as lingeries.

São diversas lojas que se propõe a realizar um comércio semelhante ao que se vê no Brás ou na José Paulino: um preço para a venda a retalho, outro para o atacado. De toda forma, ambos são convidativos o suficiente para fazer uma sacolagem.

As lojas desta especialidade já fazem publicidade em cartazes logo ao longo da rodovia, explorando a sensualidade de suas modelos.


Embora haja também cuecas e ceroulas para os moçoilos, o fato é que a maior parte dos produtos e a totalidade da publicidade se faz com as fotos sensuais das meninas. Eu poderia falar sobre objetificação feminina e outras coisas, mas é tema para ser tratado com cuidado, e o farei em outro momento. No mesmo sentido, poderia falar da moralização tão decantada da família tradicional brasileira, com seus amantes e puladas de cerca, mas, nesse caso, não estou com paciência, porque se trata de hipocrisia, mais que qualquer outra coisa. Corpos são belos, e ponto. O paradigma dessa beleza é cultural, mas somos constituídos da capacidade de apreciar a beleza, seja discutível como for o modelo. Isso tudo fica para depois. No momento, quero discutir o erotismo e o papel da sensualidade.

Está fora de dúvidas que a publicidade lança mão de artifícios mais ligados à emoção do que à razão para realizar o seu trabalho. Em tese, caveat emptor*, e que cada um cuide de não se sentir seduzido. Sedução… esse é o material de trabalho dos cartazes e letreiros. Embora palavras e músicas carreguem uma boa dose dela, é com os corpos que ela chega ao seu paroxismo.

Certamente você já se perguntou porque se compram roupas pré-rasgadas nos dias de hoje, pelo mesmo preço que se pagaria em uma peça íntegra. Claro que a moda explica muita coisa, mas não se pode descartar um certo sabor de sedução no seu uso. Uma roupa, primordialmente, serve para esconder. Se a princípio era para esconder do frio, dizem as religiões e a moral que as mesmas impõem que é para "esconder as vergonhas", seja lá o que isso quer dizer (reprimir a sexualidade, é isso o que quer dizer. A grande pergunta é: para quê?). A calça rasgada abre uma pequena janela que permite entrever um pequeno pedaço do que está lá por dentro, e isso já é ferramenta para atiçar a libido.

Já a lingerie esconde o mínimo, deixa ver tudo, menos a quintessência da sexualidade, e esse é, na verdade, o clímax do jogo. É como se fosse a casamata de um rei que se oculta do ataque inimigo que já transpôs todas as barreiras possíveis, com a diferença que esse rei sorri ao ser atacado. Essa contradição só é possível por conta do erotismo.

Eros é o deus grego do amor. Aqui no Brasil, como figura mitológica, é mais conhecido por Cupido, representado por aquele anjo gordinho de arco e flecha, mas que nada tem de angelical. Filho de Ares, o deus da guerra, com Afrodite, deusa do amor, Eros é a representação do amor erótico, das paixões e do desejo. Junta a permanente combatividade de seu pai com a força dos sentidos de sua mãe para reger o amor inconsequente, aquele que tem por principal objetivo a satisfação orgânica dos corpos, mas que nunca se sacia. Deu nome, dessa forma, àquela modalidade de amor mais carnal, de toque e estímulos físicos, que expus com mais detalhe neste texto. No que essa porção atrativa se imiscui em nossa espécie?

Não vou aqui me descuidar e tentar opinar sobre o papel dos hormônios ou das conexões sinápticas no fenômeno erótico, mas me ater ao meu mundo, o da Filosofia, exatamente como fez o controverso literato e filósofo francês Georges Bataille, uma espécie de pensador do corpo de nossa era contemporânea, no sentido filosofal, sem se preocupar com verdades científicas. Sua polêmica gira em torno de seus livros repletos de sexualidade desabrida, um Marquês de Sade do século XX. Mas suas observações intelectuais sobre o tema são interessantes, vez que completamente desvinculadas de uma visão moralizante.

Bataille vai buscar suas ideias na psicanálise freudiana, mais pontualmente nas pulsões de vida e morte, o Eros e o Tânatos. Mais remotamente (até porque, mesmo que sem declarar, Freud também o faz), resgata de Nietzsche os fundamentos da vontade de potência e os aplica nas suas hipóteses do erotismo.

Flertando com o Existencialismo, nosso intelectual coloca a imanência do corpo como princípio do Ser. Embora possamos pensar coletivamente na humanidade, é no indivíduo que a mesma se realiza, se concretiza, se transforma em existência. Sendo assim, entre um ser humano e outro existe um abismo que o torna eternamente solitário. A própria existência do outro já é a marca de uma individualidade, e de uma separação, e de um abismo, e de uma solidão.

A solidão é oriunda do próprio surgimento da vida, que se propagou por meio das divisões celulares. Quando ela provém de um ser assexuado, a sua reprodução resulta na morte do organismo originário, que se autodestrói para que a vida se eternize em novos seres. No humano, sexuado, também a destruição se dá, só que agora na fusão das células que dão origem ao zigoto. A morte está lá em profusão: milhões de espermatozoides rumam para o fim em busca de um único óvulo que os vá acolher. O único que se safa também não se mantém - doa sua substância para o surgimento da nova vida, o que também ocorre com o óvulo. Para o surgimento de um, dois se sacrificam. A vida é banhada de mortes, e é sua própria natureza.

Daí, o que temos é uma contínua descontinuidade, o que caracteriza a eterna solidão. Um Ser nunca é completo por si só. Acontece que o ser humano tem o impulso da totalidade, uma espécie de nostalgia pela continuidade que tinha em sua unicidade celular, e esse impulso é materializado e constituído pela mesma unificação que se dá na cadeia reprodutiva, ou seja, no sexo. E eis que nós vamos em busca de reintegração, ainda que provisória. Ela vai acontecer no ato sexual, que reconstrói a fusão originária do óvulo e do espermatozoide, agora na forma de amantes, e é exatamente aí que nós nos diferenciamos dos demais animais. Estes são seres que exercem sua sexualidade de maneira orgânica, puramente carnal. Ou seja, satisfazem uma necessidade como outra qualquer. Já nós possuímos o tal do erotismo.

O que difere o erotismo da pura sexualidade é que o primeiro não é meramente carnal como o segundo, mas está relacionado a processos mentais. Todo o circuito erótico faz girar a roda da fabulação, representando todo um contexto do qual o ato em si é só um dos componentes, a sua apoteose. No erotismo, a sexualidade é toda uma história contada, que inclui um pré-ato, um ato imaginário, um ato que é disparado por sutilezas, como um olhar, um gesto, uma cruzada de pernas, um movimento suave, uma palavra lubrica, uma peça de roupa que deixa entrever a pele, que deixa delinear o corpo, que oculta apenas o essencial, uma lingerie.

Sendo assim, podemos reconhecer em nós mesmos a imaginação agindo, quando temos ativados nossos dispositivos eróticos. A fantasia leva a libido para antes da necessidade carnal, e não depois. Sim, é perfeitamente possível que a libido venha pela visão do corpo nu, já preparado para o ato, mas o erotismo torna possível que tudo isso aconteça mesmo na ausência de um parceiro.

O erotismo é fundamentalmente transgressivo, porque o retorno à totalidade que ele almeja foge daquilo que nos é natural: a pré-mencionada solidão. Isso explica porque ele é excessivo, por vezes violento, por vezes exótico, permanentemente em luta com o que a razão conduz. Ele se choca com tabus e vetos, e se alimenta deles, sacralizando o objeto do desejo ao qual se interpõem tantos obstáculos. Por conta disso, o erotismo chega a transcender o mero ato sexual (até mesmo porque o precede). Dentro da religião, existe uma condição chamada de êxtase místico, e que foi descrita por vários religiosos, sendo provavelmente a mais famosa de todas Santa Teresa de Ávila. Segundo suas descrições, Gianlorenzo Bernini esculpiu uma estátua magistral, cujo semblante faz entrever toda a carga erótica contida na experiência extática:


É preciso lembrar que tal escultura foi aprovada pela Igreja Católica. Ela exprime toda a corporeidade do êxtase místico, que é absolutamente semelhante à expressão do clímax sexual, uma espécie de desfalecimento posterior ao orgasmo, a pequena morte mencionada pelos poetas. Mesmo o êxtase místico é uma expressão corpórea. Bataille tenta demonstrar que o erotismo vem de qualquer experiência de integração, e não somente da relação sexual. A religião é um dos mecanismos em que uma pessoa busca se unificar a um todo, no caso, à totalidade divina. Poderia acontecer com o uso de drogas, ou com as catarses gregas. O importante é perceber que é uma experiência transgressora porque, como já dito, a continuidade representa destruição - dois seres unidos já não são mais dois, mas um só. Parece coisa de casamento. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Bataille é um autor muito polêmico, porque escreveu desabridamente sobre sexo e sexualidade, e tem gente que não gosta disso. Como o princípio básico da Filosofia é tratar de qualquer assunto, não tenho essas amarras. Segue a indicação de seu principal livro sobre o tema:

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Belo Horizonte: autêntica, 2020.

* Caveat emptor, traduzido por “cuidado, comprador”, significa que a prerrogativa do cuidado na atividade comercial está em quem compra, não em quem vende. Legislações como o Código de Defesa do Consumidor vem dar proteção à esta lei meio desigual do mercado.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Os verdes mares de onde não há mar – 3ª parada: Congonhal e as duas realidades das duas cachoeiras

(Duas cachoeiras, duas realidades)

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Se a esperança urbana se esvaiu em Santa Rita do Sapucaí (leia aqui para entender), o jeito é pensar em coisas mais óbvias. É bem verdade que o capitalismo permite coisas do tipo meter uma cerca ao redor de uma cachoeira, para gáudio e proveito de poucos, mas também é verdade que há gente de boa vontade e espaços públicos, então o negócio é se enfiar no meio do mato, porque sempre haverá a chance de encontrar coisas legais. Daí que eu fui para Congonhal, pequena cidade do circuito ao qual me propus a palmilhar nesta viagem.


Esta cidade era originalmente composta por sesmarias de posse do comendador José Ferreira de Mattos, que as doou para o poder público. Até então, as povoações eram compostas de pequenos grupamentos remanescentes da procura por ouro na região.

Como costuma acontecer nessas cidades do interior, há uma marca profunda da religiosidade, com a tradicional igrejona da praça, cujo padroeiro é São José Operário.

Esta praça é uma das passagens de uma das principais manifestações religiosas da região, o Caminho da Obediência.


Essa romaria tem origem nas relatadas aparições de Nossa Senhora da Obediência em uma capela na área rural, mais especificamente na Serra das Tronqueiras, onde há um bairro de nome São Domingos. Consta que um fiel teve a visão de Nossa Senhora em meio ao acende-e-apaga de uma lâmpada na tal capela, o que foi reputado por milagre entre os frequentadores, o que fez com que a pequena ermida começasse a receber grande número de visitantes.

O que tem de mais legal na cidade são as suas cachoeiras, cuja diferença entre elas dará o mote filosófico deste texto. Na mesma serra citada anteriormente, fica a Cachoeira das Quinze Quedas, formada majoritariamente por um conjunto de nascentes que desce para a planície na forma de cascatas.


São quinze quedas de fato. A cada degrau, a formação de poções e remansos dá boa balneabilidade ao local, que tem água mui limpa e fresca.


O acesso aos pontos mais altos se dá por trilhas e escadas que os proprietários, seo Simão e filhos, foram montando nas laterais da cachoeira. Embora facilite muito a vida, alguns pontos são bastante íngremes e escorregadios.


A subida completa traz como brinde uma visão de mirante, a 1600 metros de altitude, e os efeitos da rarefação do ar, aliados ao esforço da subida, de fato fazem com que precisemos puxar mais fôlego do que o normal.

Já nas margens do Rio Cervo, na outra ponta da cidade, fica uma cachoeira bem mais simples, do estilo escorregador, chamada de Cachoeira das Almas.


É um lugar bem mais próximo do núcleo urbano, onde há uma ducha que aproveita a água do rio e uma série de pedras para tomar sol.


Há mais diferenças entre as duas cachoeiras que a mera variedade geográfica pode fazer supor. O começo está no acesso. A Quinze Quedas custa 25 genocidas-de-saída a entrada, o que, convenhamos, não é pouco. Já a das Almas tem entrada franca. Quando estávamos na primeira, cruzamos com um casal e nós, latinissimamente, começamos a conversar como se vizinhos fôssemos. Pelo meio do papo, falei da minha intenção de ir às Almas, que foi contraindicada pelo par. Diziam ser bem mais feiosinha e, principalmente, mal frequentada. Acontece que eu, macaco velho da Sé e imediações, não iria me assustar com uma cidade que ficou mais de dez anos sem homicídios. Portanto, vamos até lá também, como não?

Bom, "feiosa'' é uma qualificação relativa. Para mim, é só uma questão de saber aproveitar o que cada uma tem de bom. Se por um lado a Quinze Quedas é mais deslumbrante aos olhos, a das Almas é mais divertida e segura, o que é ótimo para concentrações maiores e crianças. Mas a parte problemática está na segunda afirmação. Vamos por partes.

Quando eu fui à Cachoeira das Quinze Quedas, encontrei uma estrutura verdadeiramente melhor que nas Almas. Um bom vestiário, bons banheiros e áreas próprias para refeições, incluindo churrasqueiras de alvenaria. Na outra, dois banheiros e ça tout. As churrasqueiras vêm no porta-malas do Corsinha, bem como a farofa, a galinha e a vitrolinha, esta última substituída por malditas bazucas que valem mais que o combalido veículo. Notem como já vou forçando a mão nas tintas para chegar onde quero.

Hoje em dia eu tenho condições de ir à cachoeira de 25 moedas, mas juntar a patroa e os dois filhos já faria o orçamento saltar para cem pilas. Ainda é pagável no "de vez em quando", mas vai se tornando um programa para menos pessoas, já que o custo do ingresso concorre com o do piquenique.

Aí eu vou buscar algumas experiências do passado. Meu tio Salvador tinha uma Kombi, daquelas com cara de coruja, bem desgastada por sinal. De quando em quando, ele forrava a kombosa de gente e pegava a Estrada Velha de Santos, eu incluso no chiqueirinho que atendia por porta-malas. Uma Kombi comporta nove pessoas e, sem exagero, fazíamos com alguma frequência essa farofa com o dobro de pessoas: só lá de casa, já encheríamos o balouçante veículo. Escolhida a praia, meu tio enfiava o utilitário na areia que, tal qual um motorhome, servia de vestiário, de refeitório, de lavabo, de dormitório e de ambulatório, para quando houvesse algum enjoo a resolver. Isso era o máximo que se dava para fazer, algo impensável para os dias de hoje.

E agora eu me ponho a pensar em como as pessoas que moravam na baixada ou podiam alugar casas viam aquela turba na areia. É muito pouco provável que pensassem: "é só uma família tentando se divertir um pouco". Pelo contrário, deveriam se incomodar um bocado, querer que fôssemos para longe, sem sujar sua praia, sem fazer barulho.

Há um muro que nos divide, e ele é alto e sólido. Há uma barreira mais larga que faz entrever a divisão política que pousou entre nós e ameaça assentar perenidade. Mas esse é o aspecto mais recente e, até certo ponto, mais fácil de contornar. Muito mais complexo é o que está arraigado, e muito menos perceptível. O muro passa pelo abismo financeiro, segue pelo racial e étnico, anda pelo psicológico e desemboca até mesmo na linguagem, na maneira como os lados percebem o mundo. Nessas horas, vou pensar em um autor que tenho lido ultimamente, o norte-americano Willard Quine, e servirá de base para o que eu quero dizer.

Em um primeiro momento, pode parecer que falar outra língua se resume a trocar as palavras. Isso é alguma coisa semelhante a colocar etiquetas debaixo dos objetos a que queremos traduzir, e assim andaremos. O importante é intercambiar a referência, ou seja, o que eu chamo de alhos e bugalhos, um inglês chama de garlics and nut-galls, e um italiano de agli e ghiande, qualquer coisa assim.

"Tradutore, traditore", diziam nessa mesma Itália já há um bom tempo. O efeito dessa teoria do rótulo é a tremenda dificuldade de obter fidelidade nas traduções, mesmo quando feita por linguistas gabaritados. Não é preciso ir longe: a tradução de O Morro dos Ventos Uivantes feita por nada menos que Rachel de Queiroz é até hoje objeto de críticas, não porque lhe falte talento ou capacidade, mas pela dificuldade inerente. E por que isso acontece?

Para além da ausência de certas correspondências linguísticas, é preciso entender que existe uma intersubjetividade que subjaz no funcionamento de qualquer linguagem. Ninguém fala somente para si mesmo, e, mesmo que tente fazê-lo, estará fadado ao fracasso. Primeiro, porque ainda que eu queira falar sozinho, minha linguagem é fruto da comunicação que eu faço com meus circunstantes. Depois, a linguagem não tem serventia outra do que estabelecer contatos. Se a utilizamos na estruturação de nosso pensamento, é por derivação. A linguagem é a minha subjetividade se comunicando com a subjetividade do outro, e, por isso, Quine a classifica como arte social.

O problema da etiquetagem é que ele é uma passagem meramente fonética. De fato, é um aspecto importante, mas que não dá conta de resolver a questão semântica, central em uma relação intersubjetiva. Mais importante do que correlacionar palavras e objetos é encaixar a linguagem no seu contexto, porque há uma mobilidade de significado conforme a relação que se dá entre duas ou mais pessoas. E as chaves de leitura entre uma cultura e outra precisam estar tão claras quanto a vivência de cada um é para si mesmo… o que é praticamente impossível. Por isso, traduzir é um problema. É o que Quine chama de inescrutabilidade da referência.

Ele monta um exercício mental para fornecer um exemplo. Estando em uma terra com estranhos que não falam sua língua, surge um coelho e um dos nativos exclama "gavagai". A reação imediata é compreender que esse termo corresponde a coelho, mas temos aqui uma incerteza: qual é a função semântica de um coelho naquela cultura local? Pode ser apenas o bicho, mas pode corresponder a um alimento, a uma espécie de companhia, a uma raridade, a uma divindade, a um exemplo de ternura ou até mesmo a uma praga que dizima as lavouras. Mais ainda, o nativo pode estar se referindo não ao coelho como um todo, mas a uma parte dele, e, nesse caso, gavagai corresponderia a orelhudo ou dentuço. Percebam, portanto, que uma associação entre a palavra gavagai e o objeto coelho não dá conta do total de significados que essa relação pode ter. Imagine você indo à noite na casa de um desses nativos e perguntando se teremos fofura para o jantar. Ou que queira enaltecer um devastador bichinho peludo, dizendo como ele é lindinho, para alguém que tenha perdido sua horta para um desses.

Eis que a linguagem depende de um meio social para existir, e o mero referencialismo não é suficiente para produzir traduções. Se não possuirmos as chaves contextuais de uma linguagem, podemos ser um dicionário ambulante dela, mas, mesmo assim, não traduziremos nada.

Quine está se referindo, naturalmente, a aspectos muito mais profundos das diferenças das linguagens, mas eu notei uma coisa aqui. É bastante possível perceber como há diferenças referenciais dentro de um próprio idioma. Notem a diferença de significação que entre a cachoeira para a elite e para o proletário.

Quando se troca a língua, troca-se a visão de mundo, porque todo o seu pensamento é estruturado a partir da linguagem que você vive, mesmo que seja exatamente a mesma de outros estratos populacionais. Por exemplo: quando alguém de nível social mais elevado (não gosto dessa expressão) diz que vai à cachoeira, você pergunta: "qual?". Isso acontece porque está no espectro dessa pessoa uma variedade de destinos em função de seus ganhos. Então é possível que seja a cachoeira de 25 reais, ou alguma que eu pegue o carro para ir a outro estado, ou ir às Niagara Falls ou, até mesmo, ir à Cachoeira das Almas. Se não vai até esta última, é porque há um incômodo, e não uma impossibilidade. Já para os que estão além do muro, a possibilidade é única. Dizer que se vai até à cachoeira já faz subentender que o rumo é o possível, a Cachoeira das Almas. Neste círculo, falar em “ir à cachoeira”, já significa ir à cachoeira pobre.

Você que é paulistano como eu pode notar como nos orgulhamos do sotaque fortemente puxado do italiano, como acontece na Mooca, bairro em que nasci e do qual me orgulho, mas onde perceptivelmente se força a barra para ter uma fala mais cantada do que já se tem naturalmente, e esquecemos que há outro sotaque na própria cidade, um sotaque da periferia, duro, até mesmo soturno, a quem damos caráter pejorativo, e que é retratado nos raps do Racionais, do Emicida, do Xis. Esse é um sotaque autêntico e legítimo que só colocamos a claro quando queremos representar o banditismo, a favela, a pobreza. É duro, mas é isso: nosso salto social é tão grande que pode ser percebido até no modo como falamos, ou nas cachoeiras que frequentamos, especialmente quando não conseguimos nos comunicar com quem está em classe distinta.

Voltamos à noite para o hotel, já plenamente molhados e sem toalha, o que deu uma bela zoada no carro, matando um pouco de saudades daquele tempo da Kombi que subia a serra forrada de areia e sal em todos os bancos. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Esse é só o comecinho de Quine. Tenho lido e gostado bastante.

QUINE, Willard. Palavra e Objeto. São Paulo: Vozes, 2010.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Os verdes mares de onde não há mar – 2ª parada: Santa Rita do Sapucaí e o debate sobre o melhor regime para o país

(Às vezes as coisas dão tão errado no país que dá vontade de virar tudo de cabeça para baixo. Não sei se daria certo)

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No segundo dia deste curto périplo, eu estava em pleno feriado de 15 de novembro. Há algumas maneiras de encarar datas cívicas sem nenhum civismo, de acordo com a localidade onde nos encontramos. Nas cidades turísticas, é momento de bombar: fazer o comércio encher seus cofres, as atrações virarem formigueiros e disputar as vaguinhas possíveis em praias, cachoeiras, o que for. Nas maiores, como é a Terra da Garoa, sem vocação turística, o negócio é pegar um parque ou uma das inúmeras atrações culturais, que redobram seu movimento nesses dias. Em São Paulo, verdadeiramente há equipamentos culturais suficientes para preencher semanas de visitação, e, por menos que se goste da Capital da Solidão, é de uma felicidade incomparável pegar um dia morto e poder ir aos inúmeros museus e centros culturais da cidade, o que é sua maior virtude (ao lado da gastronomia).

Foi neste espírito que reservei esse dia para conhecer Santa Rita do Sapucaí, cidade desta região que possui o simpático título de Vale do Silício Brasileiro. Mas algo não funcionou.

É que os museus e áreas culturais da cidade não abrem fora de dias da semana, e eu dei com a cara na porta delas. Para não perder a viagem, fomos dar uma volta por aqui e ali, para conhecer a pequena urbe e comer alguma coisa.

Santa Rita é banhada pelo Rio Sapucaí -Mirim, o que explica tantos nomes que o tem na composição, como São Gonçalo do Sapucaí, São Bento do Sapucaí, Sapucaí-Mirim e outras. Apesar das águas barrentas, tem muita gente que fica pescando nas suas margens.

O restante do nome é explicado pela padroeira do município, Santa Rita de Cássia, uma freira do século XVII popularizada por ser considerada a santa das causas impossíveis.

A igreja tem a condição de santuário, dado o número de peregrinos que aqui acorrem por conta dos milagres atribuídos à santa, pelo motivo óbvio de haver muitos desesperados que buscam seus favores.

Como se trata de uma cidade meio antiguinha, há distribuição de uma certa quantidade de construções históricas espalhadas pela mancha urbana.

A fama de cidade tecnológica vem das entidades de ensino lá localizadas, dedicadas à área de eletrônica fina e telefonia. A principal delas é a Inatel, cujo campus, à moda do que ocorre com a Cidade Universitária de SP, é área de visitação pública. Ao contrário dessa, porém, não abre em dias que não sejam úteis. Lá, há vários espaços de visitação, como o Museu da Eletrônica e o Espaço Memória. Há também o campus da ETE, também fechado.

Igualmente fechado estava o Museu Delfim Moreira, que tem seu nome em homenagem ao oitavo presidente da história do Florão da América.

Apesar de haver nascido em Cristina, é reverenciado aqui por ter sido seu local de falecimento, além de ter sido também governador do estado de Minas Gerais.

Como a família era bastante influente no sul mineiro, também seu irmão Francisco Moreira da Costa tem sua recordação na cidade. Foi prefeito de Santa Rita por mais de 20 anos, e sua filha, Sinhá Moreira, foi a grande incentivadora da instalação do polo tecnológico nestas terras.

Além disso, foi o fundador do Banco Santarritense, que financiou todo esse processo de modernização, ao lado do Coronel Joaquim Ignácio, outro político local.


Toda essa região do sul de Minas, como já pudemos ver neste texto, esteve no centro do comando político brasileiro nos tempos da política do café com leite, e esse é um bom motivo para tantas homenagens. Afonso Penna, Wenceslau Braz e Delfim Moreira são apenas três exemplos extremos, daqueles que chegaram à presidência, o posto máximo do exercício do poder no Brasil até os dias de hoje. Bom… não preciso dizer que volta e meia temos problemas políticos em Terra Brasilis que nos fazem questionar o que estamos fazendo de errado, e não é de agora. No começo do século XX, uma boa quota de discussão se dava na então novel forma de governo, recém saída da monarquia para a república. Hoje em dia, tirando alguns eméritos malucos, ninguém mais cogita reis e suas cortes, mas o regime governamental é posto muitas vezes em discussão. Falo do confronto presidencialismo versus parlamentarismo.

Primeiro precisamos formar a boa e velha contextualização. Tanto um quanto o outro só fazem sentido quando colocados sob o foco do Iluminismo. Com honorabilíssimas exceções, os governos nacionais sempre se pautaram em uma figura central, chamada de rei ou imperador, dentre outras variantes menos votadas. A grande característica de um reinado é a acumulação de poderes decisórios em um estrato muito pequeno de uma sociedade, quando não de uma só pessoa. Problemas essenciais: a formação de uma elite improdutiva e imutável, a submissão às idiossincrasias de um soberano que pode não governar no interesse público, o envelhecimento das cabeças governamentais, que nem sempre trazem soluções boas, a falta de vocação administrativa de alguns herdeiros e por aí vai. Esses problemas não eram ocasionais, especialmente no que diz respeito à discricionariedade do exercício do poder.

Os ares do Iluminismo vieram tornar claro que o Absolutismo era eivado de injustiça social e imutabilidade na gestão, tendendo a eternizar a questão. Pensadores do período, com destaque para Montesquieu, detectaram o excesso de poder concentrado nas mãos de uma só pessoa como principal objeto a ser desmantelado para uma sociedade mais estruturada. Isso acontece porque a sociedade não nasceu para ser fruto de uma vontade única, que legisle de acordo com seu arbítrio para a população inteira, e sim para que reflita as necessidades de seus diferentes estratos. A população, ao menos em tese, deve ser representada como um todo, e o Absolutismo vai na mão oposta. Por mais que um monarca procure governar no interesse da população, a longa duração de seu reinado obrigatoriamente o carrega para uma marca pessoal, e sabemos que a sociedade não é unívoca e não pode ser conduzida por paradigmas únicos.

É por isso que a nova forma republicana pressupõe uma divisão entre a responsabilidade do exercício do poder. Desde a antiga Grécia já se tinha sedimentação da função do governo: executar as ações do Estado, criar e aperfeiçoar a legislação e distribuir justiça. A grande sacada de Montesquieu e demais iluministas é que exatamente aí deveria se dar a separação entre os poderes, que trabalhariam independente e harmonicamente entre si, sem uma hierarquia e sem distinção entre a relevância de suas funções, um limitando o outro, de modo a, mesmo separados, constituírem uma unidade governamental. E aí temos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Vamos para o futebol. O técnico estabelece a forma como o time vai jogar, os jogadores a executa e o analista de desempenho vai verificar se tudo foi colocado em prática. Legislativo, executivo e judiciário. Misturar funções faria com que o técnico tentasse chutar a gol, jogadores cuidassem da performance uns dos outros e o analista desse pitacos na formação das linhas. Não, não pode ser assim. O time é feito de todos eles, cada um em sua função e com sua importância. Os jogadores limitam o técnico pela própria característica de cada um e o analista pela demonstração de que certa tática não funcionou, e assim por diante.

O problema seguinte é como compor cada um dos poderes. Nas democracias representativas modernas, o mais comum é que a população seja representada por membros eleitos pelo voto, de forma a reproduzir, em ponto menor, a composição social. Pode ser feito em uma única instituição (o congresso) ou duas (câmara e senado). A estrutura bicameral do Brasil visa dar representativa popular (deputados) e estadual (senadores), e, também entre si, há divisão de poderes e tarefas. Já o judiciário é exercido por especialistas reconhecidos em Direito, que, em tese, exercem seu mister com o máximo de isenção, havendo vários dispositivos legais que buscam assegurá-la, como a competência territorial, as suspeições e impedimentos, a ampla defesa, e, principalmente, o duplo grau de jurisdição: sempre será assegurado o direito ao recurso para aqueles que não se sentirem conformados com uma decisão do juízo singular, e sua causa será reapreciada pelos órgãos colegiados de segunda instância.

Bem balizados os poderes legislativo e judiciário, resta o executivo. Basicamente, o mundo se divide entre monarquias e repúblicas e, nestas, há dois regimes de exercício: o presidencialismo e o parlamentarismo. Este último teve uma curtíssima experiência no país, e, por isso, quase não dá para avaliar o quanto funcionou ou não, até porque já vai longe. Por isso, podemos considerar que, desde a proclamação da República, sempre estivemos sob regime presidencialista, e este acaba por receber bastantes críticas em momentos de crise. Mas vamos dissecar melhor.

O chefe do poder executivo é encarregado de colocar em prática as políticas públicas e executar o orçamento e as disposições legais que são elaboradas pelo poder legislativo. Se, por exemplo, o legislativo elaborar uma lei que obrigue a concessão de ingressos gratuitos em jogos do campeonato nacional, caberá ao chefe do executivo providenciar seu cumprimento. Lembrem-se: o legislativo legisla, o executivo executa. Sedimentado isso, resta saber a quem cabe escolher o comandante do governo.

A diferença primordial entre um e outro está na relação existente com o poder legislativo na escolha do chefe do executivo. Quando temos uma monarquia constitucional, que não possui presidente, a escolha sempre será do legislativo, mas o mesmo não acontece nas repúblicas. Em um sistema parlamentarista, considera-se que, ao serem escolhidos os representantes populares, já está compreendida sua incumbência de selecionar a chefia do governo, exercida por um primeiro-ministro ou chanceler, conforme se queira denominá-lo. Já no presidencialismo, é sabido que essa é uma atribuição popular direta. O presidente é titular e chefe de outro poder, exercendo as chefias de Estado e de governo, e não é responsável perante o Congresso, na medida em que não está vinculado ao mesmo poder. Cuidado para não confundir isso com os crimes de responsabilidade: o Parlamento pode e deve fiscalizar a conduta presidencial, mas não pode cometer ingerência em sua gestão, como ocorre nos regimes parlamentaristas (na prática, o mundo é outro, bem menos cor-de-rosa).

Uma das pedras de toque do sistema parlamentarista reside na maior facilidade em se trocar o gabinete, contornando crises com maior facilidade do que quando a escolha do chefe do governo é de atribuição popular.

Minhas opiniões. Como um todo, o sistema parlamentarista me parece mais moderno e com atributos que o torna mais impessoal que o presidencialismo, e isso é uma virtude que, por si só, já o coloca irremediavelmente à frente deste outro regime. Mas há fatores que o tornam inadequado ao país que ainda temos.

Percebam que, quando alguém contrário ao parlamentarismo diz que teríamos governantes como Arthur Lira, Severino Cavalcanti, Eduardo Cunha, David Alcolumbre e outros nomes polêmicos, comete um erro considerável em sua crítica. Estes são líderes que se valeram de sua capacidade de articular com o governo, e não SER o governo. Não há nenhuma indicação que essas figuras seriam escolhidas para governar, caso fosse outro o regime por estas bandas. Portanto, não caiamos na fácil tentação de colocar isso como um demérito do regime. Então, vamos por partes.

Em primeiro lugar, o parlamentarismo pressupõe uma divisão ideológica que nosso congresso não tem. Em um país com mais de vinte partidos políticos, com três quartos deles apostando no fisiologismo e na conveniência, é impossível desenharem-se nomes com perfil administrativo que consigam carregar, por si mesmos, uma direção governamental. Em um regime destes, é preciso que os partidos possuam uma personalidade forte e bem marcada, com ideologias identificáveis já em sua denominação.

Outro caso é a falta de estabilidade política que grassa o impávido colosso. Se tivéssemos bem delineadas as correntes políticas que dividem espaço no congresso, teríamos como prever o tipo de governo que teríamos. Novamente. Com mais de vinte partidos no espectro, essa tarefa se torna impossível. Além disso, a instabilidade faz com que decisões rápidas tenham de ser tomadas. Embora o chanceler ou primeiro-ministro tenham um raio de ação bastante amplo, há situações em que longas negociações se tornam necessárias, e é preciso uma oposição muito consciente para não empacar atitudes urgentes. Se mesmo em democracias maduras esse atravancamento não é impossível, que fará no Brasil e seus hábitos cartorários?

Por fim, e principalmente. O brasileiro costuma escolher muito mal seus representantes no Parlamento. O que ocasiona isso é objeto para longas discussões, e não farei isso aqui, mas o fato é que ter um Tiririca eleito por três mandatos consecutivos é algo inexplicável, embora seja apenas a ponta de um iceberg imensurável. Há coisas ainda mais graves, como a absoluta impermanência dos parlamentares em seus partidos. Isso faz com que a composição do congresso mude do dia para a noite, e a representatividade obtida das eleições seja completamente subvertida. Em uma situação assim, ao menos o presidente é uma representação que traduz melhor a vontade popular, e, em um mundo ideal, teria a legitimidade para ser um interlocutor válido. Vai demorar muito tempo, mas o Parlamentarismo depende de uma transformação na consciência política do brasileiro. Vejam como, na última eleição, a presidência foi para uma mão, e a maioria do congresso foi para outra. Em um sistema parlamentarista, o rumo iria para o lado oposto da vontade popular. E, embora adotemos um presidencialismo de coalisão, onde o governo central depende de muito toma-lá-dá-cá nas negociações com os partidos fisiológicos, o fato é que ainda há como sintetizar uma espécie de vontade popular nessa figura. Em um Parlamento, o governo ficaria ainda mais distante do povo.

Enfim, é uma questão de maturidade política do país. Ela deverá chegar algum dia, mas ainda não está no nosso espectro visível, e a primeira coisa a fazer é ter mais consciência no voto legislativo. A partir daí, podemos começar a pensar em migrar de regime. Por enquanto, já será um bom começo se lembrarmos do nome do candidato em que votamos na última eleição. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É o escrito iluminista por excelência, que definiu a maior parte das democracias representativas até hoje em dia.

MONTESQUIEU, Barão de. O Espírito das Leis. São Paulo: Martins Fontes, 1996.