Marcadores

terça-feira, 4 de julho de 2023

O galo de Asclépio não é tão prosaico quanto parece

(Contexto é tudo na interpretação de fatos e fenômenos. Quer dizer… conhecimento também é) 

Olá!

Eu ia descendo pelos lados da praça Clóvis para almoçar quando vi a cena, das mais prosaicas, comezinhas, consuetas, corriqueiras, quotidianas, chãs, vulgares, banais. Uma mocinha, bastante jovem, chegou para um grupo de policiais e perguntou onde ficava o Sesc* do Carmo. A cena me rememorou imediatamente a infância. Sempre que eu ia à "cidade" com minha mãe, ela recomendava que eu procurasse um guarda, caso me perdesse. Meu avô, acidíssimo, dizia que era mais seguro procurar um ladrão, talvez movido pelo sabor das borrachadas nas costas. Tirante os maus bofes do velho, estava certa a genitora. Mas a cena da menina me chamou a atenção pela resposta. Um dos homens lhe disse que deveria pegar o metrô da linha vermelha, ir até a estação Itaquera e de lá pegar o ônibus tal. A mocinha em tela olhou o grupo com uma cara de interrogação flagrante, como se dissesse que tinha acabado de chegar de lá. Tivesse perguntado a mim, eu lhe diria para entrar na segunda rua à direita, andar por uns duzentos metros até chegar perto de uma igrejinha, e o Sesc é praticamente em frente. Mas outro guarda lhe disse para entrar na segunda rua à direita, andar por uns duzentos metros até chegar perto de uma igrejinha, e o Sesc é praticamente em frente. O primeiro policial confundiu os Sesc's: o Carmo é na rua do Carmo, rua histórica do centro de Sampa, e o Itaquera é, ora, em Itaquera, parte integrante do Parque do Carmo, o mais conhecido da região e um dos maiores da cidade.

De uma cena tão comum, vem o vírus filosófico causar-me os espasmos. Como somos facilmente confundidos, de modo até mesmo inocente... É óbvio que o policial não queria sacanear a guria, mas o teria feito, caso estivesse só. E eu mesmo já me peguei fazendo coisas semelhantes. No meu pedaço, há duas ruas chamadas Conde, a de Sarzedas e a do Pinhal. Como a primeira é uma meca dos artigos evangélicos, muita gente me admoesta perguntando por ela. "Sabe dizer onde fica a Conde?", é a pergunta frequente. Eu respondo pelo óbvio, mas não posso assegurar qual Conde o transeunte procura. Menomale que são muito próximas, mas hoje pergunto qual delas, para não obrigar o contribuinte a atravessar o complicado miolinho da Conselheiro Furtado.

Mas não é bem sobre isso que eu queria dizer. Antes de estudar filosofia, eu já gostava de filosofia, e lia bastante coisa sobre o assunto. Uma delas era a obra de Platão, especialmente os diálogos socráticos. Um deles, o Fédon, descreve os últimos instantes do mártir grego, e tem uma conclusão que eu, antes do período acadêmico, achava insólita. Acompanhem o trecho final:

“Sócrates declarou que começava a sentir suas pernas pesarem e se deitou com o rosto para cima, como lhe haviam ordenado. O homem que lhe dera o veneno se aproximou e, após ter examinado por um momento seus pés e pernas, apertou-lhe com força um pé e perguntou-lhe se o sentia. Sócrates respondeu que não. O homem apertou-lhe os tornozelos e foi subindo as mãos, mostrando-nos assim que Sócrates começava a esfriar e tornar-se rígido. Quando o tocou de novo, disse-nos que no instante em que aquilo chegasse ao coração, Sócrates nos deixaria. Seu baixo-ventre já se encontrava rijo e frio quando, ao descobrir o rosto que havia coberto, proferiu as seguintes palavras:

- Críton, devo um galo a Asclépio. Por favor, paga minha dívida, não te esqueças.

- Farei isso - respondeu Críton - Tens mais alguma coisa para me pedir?

Sócrates não respondeu a Críton. Um momento depois, teve um tremor. O homem do veneno deixou-lhe o rosto a descoberto: os olhos estavam fixos. Críton aproximou-se e fechou-lhe a boca e os olhos.

Foi desta forma, ó Equécrates, que nosso grande amigo faleceu. Podemos afirmar que foi o melhor homem entre todos que conhecemos, o mais sábio e o mais íntegro”.

Eu fiquei um pouco desconcertado com essa conclusão. Que coisa estranha para se pensar na porta do forno. Há várias últimas palavras célebres: "Pai, em tuas mãos entrego meu espírito" teriam sido as últimas palavras de Jesus. "Eu saio da vida para entrar na história" é o pré-suicídio de Getúlio Vargas. "Espero a saída com alegria, e espero nunca mais voltar", seriam as últimas palavras do diário de Frida Kahlo. E Sócrates, o grande sábio, o fundador do pensamento ocidental, ao invés de uma lição moral definitiva, fala de um galo. Coloquei duas hipóteses: ou Sócrates já se encontrava em delírio, e com isso estava se incomodando com coisas de relevo zero; ou ele era tão ético, mas tão ético, que nem queria deixar a conta da avícola sem pagar, mesmo sabendo que estaria morto em instantes. É algo como acontecia nos tempos de eu-menino. Quem vê os grandes mercados e os inúmeros postos 24 horas não imagina que lá pela década de 70 tudo fechava no domingo, até mesmo em Terra da Garoa. Deu meio-dia do sábado, só na segunda. Isso acabava por formar uma cadeia de solidariedade entre vizinhos quando se precisava de uma coisa qualquer no domingo. Minha madrinha pedia e lá ia eu: "Dona Elza, tem uma lata de leite moça?", "Dona Nair, tem um copo de óleo?", "Dona Lúcia, tem uns três ovos?", com o complemento já decorado - a gente devolve na segunda. Ninguém era prevenido o suficiente, e ocorria de donas Elza, Nair e Lúcia virem pedir leite moça, óleo ou ovos lá em casa também, com a mesma promessa de devolução na segunda. Cumprir o combinado era importante por dois motivos: manter a honra (e não ficar falada) e o crédito. Fico imaginando Sócrates recebendo uma visita inesperada no domingo e indo à casa do seo Asclépio pedir um galo para o almoço. Só que, pelo jeito, ele não devolveu na segunda.

Mas essa foi só aquela anedótica impressão inicial. Há muito mais por trás dessa história, incluindo uma prova adicional da inocência de Sócrates. Vamos dissertar sobre.

Como bem sabemos, a cultura grega era predominante no mundo ocidental nos tempos socráticos. Ela era tão bem costurada que até mesmo um império dominante como o romano recebeu influências preponderantes sobre sua própria cultura, incluindo aí a religião. O paganismo romano era uma cópia quase fiel da religião pública grega, que incluía um amplo panteão de divindades, onde cada deus regia algum aspecto do cosmos. Normalmente, temos uma correspondência entre os deuses gregos e romanos que se materializa quase que somente na tradução dos nomes. Alguns desses nomes ficaram mais marcados no original grego; outros na língua românica e há ainda aqueles que se dividem. Assim, o Zeus grego é correspondente ao Júpiter romano, que é mais conhecido como planeta do que como deus - no plano das deidades, o grego é bem mais conhecido. Já a Vênus romana é um pouco mais falada que a Afrodite grega, em parte por suas famosas esculturas e pinturas, enquanto Eros e Cupido tem um equilíbrio, dependendo do sentido que se quiser aplicar - se o assunto é psicologia, só dá Eros; se for representação do enamoramento, aí é com Cupido. O seo Asclépio não é um chacareiro que empresta galos, mas um semideus, filho do deus Apolo e da humana Coronis, e que é um protetor dos médicos. Segundo o mito, sua mãe foi morta pelo seu próprio pai, que, arrependido, colocou o menino sob os cuidados do centauro Quiron, que lhe ensinou todas as artes de cura disponíveis no conhecimento de então. Asclépio superou o seu mestre, de modo a tornar sua atividade incômoda, já que salvava todos aqueles que lhe chegavam às mãos. Isso estava despovoando o reino de Hades, o deus dos mortos, que foi reclamar com Zeus, o deus maior. Como era costume naqueles tempos antigos, Zeus passou a faca no pobre Asclépio (melhor dizendo, deu-lhe com um raio na cabeça), fazendo-o virar uma constelação**.

Seu nome romano é Esculápio, o que elucida muita coisa. Nome muito mais famoso que Asclépio, seu nome está no símbolo da medicina, o Bordão de Esculápio, um bastão envolvido por uma serpente. Nele, o bastão tem o sentido de domínio, como os cajados dos pastores, que os utilizam para controlar suas ovelhas. Sabe de onde vem a palavra "bordoada"? Vem disso. Já o réptil representa a cura, pela renovação de pele que faz de tempos em tempos. A cobra sai de sua pele antiga como se estivesse renascendo, e é bem comum o pessoal confundir o couro abandonado com uma cobra viva, tamanho o medo que o bicho causa. Além disso, rememora-se que o veneno, uma vez atenuado, torna-se fármaco. Um bom exemplo moderno é o Captopril, extraído como uma cópia do veneno da bothrops jararaca, cuja principal ação é derrubar a pressão arterial da vítima. Bem dosado, o medicamento controla a hipertensão. Desta forma, fica representado o controle sobre o dualismo doença e cura, que era a arte do semideus em questão.

O que isso nos ajusta para a cena final de Sócrates? Que não estamos diante de uma simples restituição de um objeto tomado em empréstimo, mas de um sacrifício. Essa palavra significa "tornar algo sagrado", e, no sentido mais apurado, de tomar um galo comum dentre todos os outros e torná-lo exclusivo da divindade a quem se oferece. O porquê do surgimento desta tradição é muito difícil de obter, eis que envolvem práticas antiquíssimas e multifatoriais. Algumas das explicações envolvem a privação de algo com valor para quem faz a oferta, a doação de uma espécie de força intrínseca da vida que se oferece e uma forma de partilhar alimento entre os deuses e os homens. No sentido prático, entretanto, quem dança é o bicho.



Todavia, o fato de que Sócrates demanda ao amigo Críton que lhe ofereça um sacrifício, muda em muito a justiça da penalidade que lhe foi aplicada. Temos dois itens em sua acusação: desvirtuamento dos jovens, a quem imputa ideias transgressoras; e impiedade, consistida nos desvios à religião oficial.

Ora, a oferenda de sacrifícios não foi uma invenção socrática. Ela é, como eu disse, uma prática imemorial, de complicado desvelamento das origens, e que era prescrita através de ritos bem elaborados no antigo paganismo grego, não consistindo em um rito particular que podia ser levado a cabo a bel-prazer de quem se dispusesse a realizá-lo. Uma oferenda a Esculápio pode ter dois significados. O mais óbvio deles é um agradecimento por uma cura. Não temos notícias sobre padecimentos físicos relevantes, mas era um costume semelhante aos que têm os cristãos, que fazem promessas a santos dedicados a doenças. Sendo um especialista em curas, Esculápio poderia ter sido procurado para mitigar eventuais dores, e, em troca, Sócrates teria oferecido o tal do galo. Mas há uma possibilidade mais profunda, que coaduna com os dizeres de Nietzsche sobre Sócrates. Acompanhem.

Como bem sabemos, Nietzsche não gostava nadinha de Sócrates. Segundo o alemão, é com a ética socrática que a vida instintiva dos trágicos gregos foi abandonada em troca do racionalismo, uma forma de ver e pensar o mundo sob o ponto de vista dos fracos, dos fracassados e dos menos adaptados. A obrigação que Sócrates repassa para Críton é um epitáfio de toda a lógica que se inicia com o socratismo. Vejamos o que ele diz na Gaia Ciência:

“Eu gostaria que também no último instante da vida ele ficasse calado - talvez pertencesse então ainda a uma ordem mais alta de espíritos. Mas, se foi a morte ou o veneno ou a devoção ou a maldade, algo lhe soltou a língua naquele instante e ele disse: ‘Ó, Críton, devo um galo a Asclépio’. Essa ridícula e terrível última palavra significa, para quem tem ouvidos: ‘Ó, Críton, a vida é uma doença’".

Com seu estilo peculiar, Nietzsche nos dá uma boa dica e pode estar certo. Se pensarmos que Sócrates vivia um momento de extrema injustiça, e que ele sentia na pele algo que via pelo mundo, e que, pior ainda, via o desconhecimento daqueles que deveriam conhecer o que é a justiça, é muito lícito pensar que a sua condenação era parte de uma imensa doença, e que a morte era a sua cura almejada. É bem verdade que Nietzsche via tudo isso sob um ângulo absolutamente crítico, um desperdício de energia e de vida, mas não há como não reconhecer que, independentemente de quem tem razão, o fim de Sócrates denota, no mínimo, um erro daquela sociedade, do seu sistema de coisas e, partindo da premissa de que os homens são estruturalmente iguais, repetível em qualquer lugar. A vida é uma doença, diz Nietzsche sobre Sócrates, e, se assim o é, faz bem o grego em render sacrifícios ao deus que o liberta do mal.

Essa é uma das provas de que a acusação contra Sócrates não pára em pé, e como sua morte rompe com qualquer justiça. Isso o aproxima de outros mártires, como discorri neste texto, e falseia a tese de que ele não rendia culto aos deuses da cidade. Talvez tenha sido, nesse sentido, um ato mais de didatismo do que verdadeira devoção, e, com isso, obtendo um sentido mais autêntico do que a restituição de uma mera lata de leite moça, como eu cheguei, tolamente, a pensar. Isso porque contexto e conhecimento precisam se combinar para que não pensemos baboseiras. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

PLATÃO. Fédon. In: Platão. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Col. Os Pensadores.

*Para quem não sabe, o SESC é o Serviço Social do Comércio, uma entidade mantida pela iniciativa privada com dinheiro público para manter ações educativas e culturais.

** A constelação de Ofiúco, da qual faz parte Esculápio, é pedra no sapato dos astrólogos, porque, estando entre as constelações de Escorpião e Sagitário, deveria ser um 13º signo do zodíaco.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

O café filosófico do quotidiano – existe uma pseudofilosofia?

(Não é tão fácil de demonstrar como a pseudociência, mas... é fácil, sim)

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Venho conversando com vocês com base em minhas matinas cafeeiras já há algum tempinho. Para fazer um breve recuerdo, costumo levantar, todos os dias, e já preparar um cafezinho, para cumprir o rito e dar uma acordada melhor. É uma tarefa prosaica? Sim, mas que ganha detalhe e relevância na medida em que você concede importância a ela. Quem pede um café no boteco quer mais é tomar um susto para acordar, mas em casa o processo pode ser bem mais lento e cuidadoso. Por isso, aqueles que tem o café como objeto de pesquisa, costuma testar alternativas para obter o melhor de cada grão.

Parece papo de entendido, mas não é. É um hobby, coisa de quem gosta de alguma coisa e quer saber mais sobre ela. E isso pode te trazer surpresas. Uma vez, um fornecedor que me abastece com frequência me presenteou com um brinde: um filtro metálico. 

Embora fosse uma gentileza bacana, achei que deveria estar vinculada a um excesso de estoque ou a uma baixa qualidade. Mas ele é interessante, porque dispensa filtros de papel, o que, logo de cara, representa economia e ecologia. Confesso, contudo, que me despertou suspeitas - deve passar um trambolhão de pó. Não.

Só pareceu, mas não foi. Na verdade, o filtro metálico, feito de aço inoxidável (promete o fabricante) possui uma microfuração que é a pedra de toque do método. Com a água sendo despejada com parcimônia, a retenção de pó é bastante satisfatória, gerando borra aceitável no fundo nos copos. Mesmo assim, a uma primeira vista, parece se tratar de um método secundário, menos eficaz.


Parece, mas não é. O filtro metálico pode parecer menos eficiente, mas o fato é que ele permite algo que os filtros de pano e de papel não deixam acontecer. Como ambos são mais rigorosos, retém uma porção muito maior dos óleos existentes no café, e, por este motivo, o processo no filtro metálico permite um café bem mais encorpado, sem a quantidade de resíduos obtida em uma prensa francesa. Não é o melhor dos mundos para quem gosta de líquido límpido, mas é plenamente válido e funciona bem com certos grãos e moagens.


Nome do utensílio: Filtro metálico

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: um filtro de aço inox, sem necessidade de qualquer outro elemento filtrante, é inserido no bocal de um decanter de boca larga. A água deve ser despejada lentamente, sempre em cima do pó, para não fazer by-pass indesejado pela área não coberta

Resíduos: quantidade razoável

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio/baixo

Parece, mas não é (alguém lembra do shampoo Denorex?). É exatamente sobre isso que eu falei nos meus dois últimos textos: um misticismo que quer parecer ciência, mas não é, e uma filosofia que luta para ser ciência, mas é difícil de provar meramente no discurso. A grande característica da pseudociência é querer parecer ciência, porque esta última goza, apesar dos ataques, de grande prestígio e consideração. Por isso, o distintivo colado no peito é uma credencial para que as pessoas as olhem com bons olhos, mesmo nestes tempos de pós-verdade em que tentam a relativizar.

O mesmo acontece com a filosofia acadêmica. Também é do mundo das universidades que vem a pesquisa séria, a revisão dos pares, a palavra com maior credibilidade. E também ela sofre as mesmas intempéries. Por isso, eu pergunto: com a Filosofia acontece a mesma coisa que com a Ciência? Existe uma pseudofilosofia como existe a pseudociência?

Ô. E como existe. Poder-se-ia dizer que a filosofia prescinde da prova, o que validaria qualquer forma de pensamento, mas isso seria uma falácia, porque filosofia é o pensamento rigoroso, bem encadeado, lógico e especulativo, mesmo que esteja voltado para a mais inexistente de todas as imaginações. Também pode-se dizer que o filosofar é tangível por todas as pessoas, que não existe um filósofo, mas uma atitude filosófica, o que torna a filosofia um campo muito mais aberto do que a ciência. Só que, embora haja uma carga de verdade nessas afirmações, normalmente são utilizadas para fins de desmerecimento ou de equiparação, justamente para obter a mesma confiabilidade, e, com isso, há frequente autointitulação de filosofia para áreas que não são filosóficas. Mas para identificar alguns dos maiores exemplos, primeiro precisamos fazer uma rápida distinção entre o vulgo e o fato.

Muitas pessoas afirmam possuir filosofias de vida. Este é um termo perfeitamente aceitável quando estamos no colóquio nosso do quotidiano, mas que, no fundo, nada tem a ver com filosofia de fato. Certo: já falei mais de uma vez neste espaço que é possível filosofar sobre qualquer coisa, mas isso não significa que qualquer coisa é filosofia. Quando falamos em “filosofia de vida”, na verdade estamos pensando na visão que formamos do mundo e na maneira como nos conduzimos dentro desse universo. A maneira com a qual nos relacionamos com a nossa realidade, como ela mexe com nossos anseios e o que esperamos dar e receber dela é influenciada por nossa sociedade e nossa cultura, e isso não é filosofia. Visão de mundo não é filosofia.

Até aqui, nada de falso, apenas um certo desvirtuamento aceitável da palavra. Mas isso serve para demonstrar como é maleável o mundo linguístico, a ponto de tornar difíceis as distinções objetivas do que se quer dizer. E isso concede uma certa licença no uso de termos que fazem torcer as tripas daqueles que professam uma fé. No meu caso, chamar certas coisas de filosofia me dá uma cãibra no cérebro.

Um dos casos eu já tratei há muito tempo atrás. Rememorando, não é incomum encontrar nas prateleiras das livrarias um compartilhamento de espaço entre livros de filosofia e de autoajuda. Isso está errado, muito errado. Filosofia, para receber o F maiúsculo, precisa encarar seu objeto de estudo da maneira mais desapaixonada possível, como se fosse uma Ciência. Embora os filósofos da práxis tenham a tendência a produzir efeitos práticos naquilo que preconizam, o fato é que, mesmo dentre eles, a prática já é uma conclusão filosófica, feita com idêntica neutralidade possível. Esse espírito é incompatível com a autoajuda, que, mesmo nas mais isentas das análises, não colocaria o pacote completo na frente de seu consulente, pelo simples motivo de que não vai ajudá-lo em nada.

Os autores da autoajuda, sem colocar o mérito de serem sérios ou não, faliriam seus negócios em cinco minutos se se munissem de geist filosófico autêntico. Ninguém espera comprar um livro de autoajuda para ler que a tendência do homem é retornar ao seu estado animal, como diria Hobbes, ou que o caminho para a felicidade é desprezar a cultura e as posses, como quereria Diógenes. Esses pensadores chegaram a essas conclusões sem se importar com a palatabilidade de seus escritos, o que é incompatível com quem quer fazer com que as pessoas olhem para dentro de si mesmas e extraiam coisas boas. A autoajuda não pode se dissociar de um otimismo que não é encontrável em qualquer filosofia. Aliás, em quase nenhuma.

É certo que há alguns sustentáculos que a autoajuda lança mão desde sempre. O “conhece-te a ti mesmo” socrático é usado à exaustão em obras como essa, mas com pouco conhecimento do seu significado real. Para começo, é de fato uma atribuição frequente feita de Platão para Sócrates, mas que vem da sabedoria antiga da mitologia grega, mais especificamente da entrada do templo de Delphos, onde os sacerdotes e sacerdotisas praticavam vaticínios, como era costume na época. Foi lá que Querefonte, um dos amigos mais achegados de Sócrates, perguntou à pitonisa de plantão quem era o homem mais sábio de toda a Grécia, obtendo o nome de seu amigo como resposta. Isso levou o patrono a imergir em intensas elucubrações, questionando-se como era possível tal atribuição. Afinal de contas, o filho da parteira não se achava mais sábio que um juiz ou poeta, e foi a partir dessa constatação que ele começou a sua investigação. O que ele encontrou o surpreendeu: os doutos, embora de fato fossem mestres em suas artes, eram absolutos ignorantes fora de seus ofícios, com o agravante de se acharem entendedores de todo e qualquer tema, como conseguiu comprovar seu parto de ideias, a maiêutica. Diante disso, Sócrates conclui que sua maior força está naquilo que ele pensava ser a pior fraqueza - tudo o que sei é que nada sei. Ao se confessar ignorante, Sócrates reconhece seu lugar no mundo e sua real dimensão - o verdadeiro sábio é aquele que reconhece sua necessidade de buscar eternamente o conhecimento.

O autoconhecimento de Sócrates é uma declaração de ignorância. Conhecer-se a si mesmo representa a assunção de que não se conhece nada. Isso lhes parece aderente à autoajuda? O fato é que esse tipo de livro, em geral, tem o mesmo efeito afetivo de um chá de camomila. Uma espécie de placebo mental, e, nesse sentido, pode fazer alguém se sentir melhor e viver melhor, principalmente quando derrubar algum tipo de bloqueio psíquico ou coisa parecida. Mas chamem pão de pão e pedra de pedra… Autoajuda não é filosofia.

As coisas podem ir além e ser piores, ao menos na minha visão. Existem pessoas que querem dar conformidade terapêutica à filosofia, e isso é temerário. Falo especialmente da assim chamada filosofia clínica.

Desde os tempos da faculdade minha cabeça dá nó quando eu tento fazer um casamento entre filosofia e clínica. Já se falava muito nessa pretensa aplicação, mais até do que hoje em dia, e eu pensava no que a filosofia clínica poderia ser diferente da psicologia. A resposta é fácil - preparação inespecífica. E estamos falando da área da saúde.

O que propõe a filosofia clínica? Grosso modo, que se utilize a base do conhecimento filosófico existente para resolver problemas de indivíduos, mormente aqueles de natureza psíquica. Caso alguém se apresente diante do terapeuta com questionamentos sobre o sentido da vida, serão coligidos conhecimentos de filósofos existenciais; se versarem sobre o caminho para a felicidade, talvez se recorram aos helenistas. Não há muitas regras nesse exercício.

Dizem que o principal diferencial da filosofia clínica é o foco no indivíduo, no sujeito que comparece à frente do terapeuta, que não se guia por manuais. Que cada história contada gera um atendimento personalizado, adequado para suas circunstâncias e especificidades. Isso para um psicólogo é uma ofensa, porque reduz sua atividade a um roteiro predeterminado, como se bastasse verificar qual melhor encaixe a uma prescrição e pronto, passar bem. A psicologia, meus amigos, quando o profissional é sério e seja qual for sua corrente, escuta seus pacientes e verifica qual o melhor procedimento a ser adotado, especificamente para uma pessoa que lhe procura, igualzinho promete a filosofia clínica, sem, no entanto, querer apresentar carta de exclusividade. 

Os assim autodenominados filósofos clínicos dizem que um dos seus grandes diferenciais é a não existência de pacientes, mas de partilhantes, aqueles que compartilham experiências e problemáticas com o terapeuta. Isso me lembra a virada administrativa do milênio, quando os funcionários de qualquer empresa passaram a ser chamados de colaboradores. Pessoas, em ambos os casos temos uma mera questão linguística. Tanto o colaborador quanto o funcionário trabalham em troca de um salário, podendo ser demitidos a critério de quem o denomina de um jeito ou de outro. Idem com a dicotomia paciente-partilhante. Se quem te procura quer ajuda, pode-se chamar de paciente, partilhante, consulente, confidente ou seja lá o que for, é apenas e tão somente uma palavra que designa exatamente a mesma coisa, talvez com o efeito placebo mental novamente funcionando, pelo fato de que a pessoa não se apresenta como um doente. Aliás, é uma técnica que veio da própria psicologia, já que os psicólogos humanistas já usavam o foco fora do acometimento.

Por essas e por outras, estou aqui a espera de que me demovam da minha posição, mas, para mim, filosofia clínica é mais uma empulhação, no naipe da radiestesia, aromaterapia, ozonioterapia e outros menos votados. Tem cheiro, cor, aspecto, formato e jeitão de pseudociência, seja por um caminho popperiano, seja pela moderna extensão de Hansson. A filosofia nunca teve propósito terapêutico, porque ela é uma análise sobre a realidade em si mesma, sem se importar em produzir curas. A filosofia NÃO PODE fazer isso. A filosofia de verdade está preocupada em demonstrar a coisa como ela é, independentemente de causar alegria ou depressão em quem a ouvir. Platão fala da morte de Sócrates, Heidegger fala do ser como ser-para-a-morte, Levinas fala da morte do outro como ferramenta de observação para a própria morte… a filosofia não tem esse conforto que uma terapia espera. A filosofia nunca foi terapêutica. Filosofia clínica não é filosofia.

Além disso, saúde mental é saúde como a corporal, e brincar com essas coisas costuma degringolar em catástrofes. A falta de método é flagrante e fico curioso em observar como um filósofo clínico trataria de casos urgentes, como uma séria ameaça de violência ou um pretenso suicida. Se a conduta nesses casos é indicar outro profissional, de que vale a filosofia clínica? Analisar comportamentos de um indivíduo e localizar suas causas e aplicar ajustes é psicologia, não filosofia. Neste caso, por que não consultar um psicólogo, que estudou quatro anos específicos de clínica? Por que vou perguntar a um literato sobre funilaria?

Este texto nasceu na esteira das discussões que quis levantar nos últimos dois posts desta série. Pseudofilosofia existe da mesma forma que pseudociência, e seu escopo mais aberto torna mais difícil sua detecção, mas há coisas tão flagrantes que permitem a nós aprender a tomar cuidado com coisas que parecem, mas não são. Bons ventos a todos!!!

Recomendação de canal:

Eu ia recomendar alguma literatura a respeito de autoajuda e filosofia clínica, mas perdi totalmente a vontade. Dessa forma, achei melhor recomendar o canal do professor Filício Mulinari, que é bem bom e aborda esses temas com boas opiniões.

https://www.youtube.com/@AFilosofiaExplica

segunda-feira, 12 de junho de 2023

O café filosófico do quotidiano – psicanálise e cientificidade

(A psicanálise é uma pseudociência? Não sei bem, mas como filosofia, é ótima) 

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Para dar continuidade nas ideias, é preciso dar continuidade na vida, não é mesmo? E na minha pequena esfera, ela sempre passa pelo cafezinho da manhã, aquele que te sintoniza com essa outra esfera, maior pouquinha coisa, a que chamamos de universo. E, como o texto que deu origem a este falava sobre um método saído dos laboratórios químicos, começo minhas reflexões por outro semelhante, conhecido pela sua marca, o Kalita.

Existem vários modelos desta fabricante japonesa, sendo o mais clássico um que se assemelha a uma xícara, feito de metal. O que eu tenho é um pouco mais metido a besta sofisticado, feito de vidro. O conjunto todo é composto por um decanter bem parecido com uma Chemex, o porta-filtro, o seu suporte e o filtro wave.

Este filtro é bastante semelhante a uma forminha de cupcake, e o objetivo é manter espaço para aeração entre a superfície lisa do porta-filtros e as ranhuras do filtro.

A base do porta-filtros contém o pulo do gato do método. Sendo uma base chata, em tese a água percolada faria um acúmulo que favoreceria a superextração, o que significa amargor. Para que a vazão seja adequadamente regulada, a Kalita possui um furo tríplice, permitindo que a velocidade do fluxo fique mais em função da moagem do que da retenção gerada.

Como há pouco contato entre a parede de vidro e o filtro wave, a intensa aeração permite um blooming muito bonito, não escondendo a idade do café que estamos utilizando. Para quem não sabe, uma boa pré-infusão faz liberar o carbono presente no café, e quanto maior o borbulhar, mais nova é a torra do grão, e mais aromas são desprendidos.

O resultado final é um método elegante e funcional, embora haja necessidade de cuidados pelo fato de estarmos lidando com materiais frágeis.

Nome do utensílio: Kalita wave (porta-filtro de vidro)

Tipo de técnica: percolação em filtro de fundo plano

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: um filtro de papel ondulado e de base chata é inserido no suporte metálico que se encaixa ao decanter. Após escaldamento, o pó é despejado no fundo do filtro e a água é despejada aos poucos, de forma a formar uma cama de borra o mais homogênea possível.

Resíduos: Mínimos.

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

O proverbiozinho de boteco com que abri este texto tem motivo. Se vocês, diligentes e episódicos leitores, atentarem à sequência que estabeleci neste humílimo espaço, verão que, por vezes, restam esclarecimentos que são maiores do que a questão que lhes deu origem. Juntando utilidades e agradabilidades, vou admitir que eu estava me segurando para abordar o tema de agora, mas não posso mais deixar passar. No último texto que redigi, falei sobre a questão dos arquétipos, e fiz uma observação maliciosa: a de que se nem a própria psicanálise dá completo fundamento à questão, que fará blogueiros que estão ou preocupados em vender seus produtos, ou em ganhar ibope. Isso porque a própria psicanálise, como disciplina científica, é discutível. Chegou o momento de enfrentar esse assunto.

“Enfrentar” é um termo apropriado, porque eu gosto de psicologia como um todo, e da psicanálise em especial, porque, se não se apresentasse como ciência, seria filosofia de altíssima monta. É por isso que eu nutro grande simpatia pela psicanálise. Se Freud não se proclamasse cientista, mas filósofo, estaria entre os maiores, porque suas especulações e de seus seguidores são fantásticas do ponto de vista da concatenação lógica e da especulação por caminhos sedutores para resolver os mistérios da mente.

Mas dizer se psicanálise é ou não pseudociência implica em entender o que caracteriza uma ciência. Não foram poucas vezes em que abordei o tema aqui, mas preciso dar uma pincelada nem tão pequena para balizar este texto e não os obrigar, meus quase extintos leitores, a ficar lendo e mais lendo. Já considero animador se este aqui já servir para marcar meu ponto.

Em primeiro lugar, o que diferencia a ciência da filosofia? É simples. Ambas são acionadas quando temos um problema que precisamos resolver, só que isso o senso comum também faz. Mas é que ambas são frutos de concatenações lógicas, que são desnecessárias para esse pensamento mais intuitivo e desregrado do acriticismo. Só que a lógica é suficiente para a filosofia. Se os encadeamentos fizerem sentido, ok*.

Isso não basta para a ciência. Para discernir sobre esta última, é indispensável pensar no conceito de método. Todos eles possuem premissas básicas, que servem exatamente para balizar sua proposta: dar um caminho e um conjunto de regras para a execução de procedimentos. Vamos fazer um comparativo profano, para ficar fácil de entender: uma metodologia para lavar louça. Primeiro, vou esvaziar o escorredor de qualquer remanescente da lavagem anterior, vou verificar sua limpeza e remover eventuais resíduos. Depois, organizo as peças sujas de acordo com o critério de ordenação. Começo lavando as peças miúdas, como talheres. Depois, parto para os copos e xícaras, colocando-os emborcados para que escorram sem retenções, e sigo com pires e pratos, que são colocados na vertical. Encerro com potes e panelas, colocados sobre todos os demais elementos. Após escorrer por X tempo, seco todas as peças com um pano limpo, na ordem inversa da colocação. Esse é o método, que tem, por trás de si, uma premissa: higiene é item primordial para manter uma boa saúde. Idem com o método científico - a premissa geral é proporcionar repetibilidade, que torna possível a grande pedra de toque da ciência, a verificabilidade. Todo o caminho para lavar a louça científica**, ou seja, as descrições e os protocolos na realização de pesquisas e experimentos, representam um caminho para obter essa premissa. Ou seja, a ciência não exige somente uma chave para solucionar um problema; exige ainda que se diga como fazer suas verificações.

Eu já falei muito sobre a falseabilidade neste meu blog, e pode passar a impressão de que ela é o grande critério científico. Só que ela está em função da verificabilidade, e não o contrário. É para dar robustez ao aspecto verificável da ciência que a falseabilidade existe, porque, se você pensar bem, é a inversão da abordagem da verificação: não vou verificar o que corrobora a tese, mas o que a invalida. De toda forma, é verificação. Ciência é verificação.

Sendo este o critério zero, é preciso verificar se os princípios gerais da psicanálise são, ora, verificáveis. Como sói acontecer com as ciências humanas em geral, é compreensível que o critério seja mais difícil de se aplicar. Afinal de contas, ciências como a sociologia ou a antropologia transitam entre objetos muito mais amplos do que as ciências hardcore, como já especulei neste texto. Quando você fala em grandes contingentes populacionais, que abrangem idiossincrasias e percepções próprias, haverá desvios muito mais significativos do que nas medidas objetivas da física e da química. Isso é óbvio: não temos como colocar pessoas em tubos de ensaios (e ainda que o fizéssemos, tirar um contribuinte de seu meio natural desvirtua o seu estudo). 

Mas isso não é desculpa para que a psicanálise desenvolva métodos que não sigam aquela mesma premissa fundamental que eu falava há parágrafos atrás - uma ciência inclui verificações. É possível que se faça isso?

A mim, por todos os debates que vi por aí, percebo duas grandes dificuldades. A primeira é uma espécie de apelo à autoridade freudiana, de modo a haver um eterno regresso à base direta dos seus pensamentos. Vamos discorrer sobre isso.

Quando pensamos nos fundamentos da filosofia, vamos observar que, uma vez estabelecidos Platão e Aristóteles, toda a história subsequente derivou do pensamento de ambos. Isso não é um defeito, mas a percepção de que eles foram complementares em sua oposição, o que deu um alcance enorme para o pensamento ocidental. Aristóteles foi mais do que um discípulo de Platão; foi-lhe também um contestador. Ao fazer isso, Aristóteles não só criou outro caminho, mas o enriqueceu. Onde Platão tratava do céu, Aristóteles tratava da terra; onde um falava dos modelos, outro aplicava as categorias; onde um olhava para o ideal, outro via a realidade. Daí, veio a base toda (ou quase toda) da filosofia. Aos adeptos da psicanálise, entretanto, não restou uma oposição enriquecedora. Jung discordava da sexualização freudiana, Lacan da linearidade das sessões de terapia, e assim sucessivamente. Há vários complementares, mas poucos realmente divergiam nos fundamentos mais profundos e dessem caminhos opcionais. Isso foi acontecer somente fora da psicanálise, na forma de behaviorismo ou cognitivismo, e.g. O que isso originou? Uma espécie de dogmatismo na palavra de Freud. A ciência não é e não pode ser dogmática. Ela é cética, na melhor concepção da palavra, a de duvidar sempre, inclusive e principalmente de si mesma. A psicanálise deveria, e muito, duvidar de si mesma.

A segunda é uma grande dificuldade em se estabelecer pontos de falseabilidade verdadeiramente efetivos, o que significa ter-se dificuldades em verificar. Vamos começar fazendo a comparação polêmica. Religiosos dizem que é preciso orar para obter benesses divinas, notadamente os evangélicos de orientação neopentecostal, mas cristãos em geral tem esse mesmo pensamento. Dizem que é preciso pedir para obter, conforme disposição bíblica. O fato, incontestável, é que as orações falham. Se a todo mundo que se dirigisse uma oração fosse garantida uma cura, ninguém morreria, não é mesmo? Mas as pessoas morrem, por mais religiosas que sejam e por mais orações que façam. Daí, temos justificativas: Deus sabe o que é melhor para nós, não sabemos o que pedimos ou, pior ainda, faltou-nos fé. Essa última é especialmente perniciosa porque desloca a culpa no não atendimento do apelo para quem o faz, que carrega agora não só o peso de sua desgraça particular, mas da culpa de não ter fé suficiente. Desta forma, o atendimento de orações nunca dá errado. Se é atendida, é por piedade divina; se não é, é por falta de méritos do demandante. Pensando em uma doença, ou a cura vem, ou quem suplica não o fez corretamente. Mas não se diz que Deus não gosta de amputados? Não é preciso ir tão longe. Ore por aquela cárie que tem no seu dente do fundo, com a maior fé do mundo, a sua e a dos outros, incluindo a do pastor. Mas aí temos a livre vontade divina, e Deus não pode ser desafiado, conforme outra disposição bíblica. Pois é… percebem como algo se torna infalseável?

Pois com a psicanálise acontece a mesma coisa. O próprio pai da falseabilidade, Karl Popper, coloca a psicanálise no âmbito das pseudociências, não pela insistência em argumentos já refutados (ele coloca o marxismo nesse campo), mas como articulação de proposições de forma a não terem como ser refutadas, como falamos no exemplo da cárie. Um exemplo está nas pulsões. Uma pulsão é uma forma de energia, uma energia psíquica, que, ao contrário das energias potenciais, cinéticas, elásticas, térmicas e congêneres, não pode ser medida em joules, quilocalorias, watts ou BTUs. Se não há uma medida padronizada, não há como ser mensurável, e, por conseguinte, ser comparável.

Ainda que se alegue que o princípio da falseabilidade venha ganhando concorrência pesada, ou que está ficando obsoleto, ainda assim aquele velho fundamento da ciência continua o mesmo, impávido e colosso. Ciências precisam ser verificáveis, e ponto. Qual é o problema da psicanálise? É a extrema dificuldade que ela tem em estabelecer para si mesma critérios de base. É preciso que se delineie suas causas, seus efeitos e verificar se eles formam uma previsão.

Como oposição ao princípio da falseabilidade, podemos mencionar um epistemólogo sueco ainda vivo, Sven Ove Hansson. Ele coloca o ideário de Popper como efetivo enquanto se postular princípios para a ciência mais matematizada, mas um tanto problemático quando aplicado para humanidades. Ele lança mão de um conceito de delimitadores estendidos para as ciências, basicamente pelo atendimento de critérios de confiabilidade. O demarcador para a ciência está embasado, segundo este pensador, na capacidade de se praticar afirmações mais confiáveis sobre um determinado objeto, seja lá qual ele for. Da mesma forma que pratica ciência quem fala sobre estrelas e átomos, também o faz quem fala sobre pessoas e suas mentes.

Só que onde teremos a pseudociência, aquele discurso que se apresenta como científico sem o ser de fato? Hansson estabelece uma lista de critérios para que se detecte uma delas. Segundo nosso caro nórdico, oito são os indicativos de que uma determinada doutrina é, na verdade, uma pseudociência:

1.       Crença na autoridade

2.       Experiências não repetíveis

3.       Exemplos selecionados

4.       Resistência ao teste

5.       Desdém com oposições

6.       Base em subterfúgios

7.       Abandono de explicações sem substituições

8.       Obscurantismo

Não vou aqui ficar me alongando sobre onde a psicanálise poderia se encaixar no conceito de demarcação de Hansson, mas é fácil de perceber que, ao menos os itens 1, 2 e 4 são muito evidentes, porque Freud é ainda abordado como se fosse um autor imutável, com estudos fortemente baseados em casos e que desmentem a validade dos experimentos realizados que se lhe oponham. Há estudiosos que, inclusive, enquadram-na em todos os critérios, o que é um componente de difícil contestação.

Mas é preciso olhar para o lado de lá. Embora várias das teses da psicanálise representem evidentes furos n'água, há reais avanços que foram feitos quando vista como uma filosofia da mente. Parece incontestável que o inconsciente ocupe uma porção muito mais importante da psiquê humana do que se podia fazer parecer até o começo do século XX. Ainda que seja difícil de mensurar, parece se assemelhar ao caso das ciências humanas, das quais, inclusive, a psicologia faz parte, em que o método científico precisa ser adaptado de maneira a reconhecer que lá existe um conhecimento, mas que não pode ser medido pelas réguas fixas das ciências naturais.

Mas o grande problema é que a psicanálise não quer. Aparentemente, há uma relutância grande em até mesmo se aplicar os métodos das ciências humanas, que não se ocupa apenas de estudos qualitativos, mas quantitativos também. Casos de sucesso da terapia pela escuta nada mais são do que isso: casos. Se eles não estão sistematizados de maneira metódica, nada mais são do que uma longa coleção de evidências anedóticas, por maior que seja sua quantidade. Isso porque são precisos parâmetros, toda pesquisa nasce de um escopo que precisa ser seguido para fornecer respostas. É isso que tem faltado historicamente à psicanálise, mesmo levando em conta as especificidades das ciências humanas.

Eu vou aqui, para a decepção de poucos (porque são poucos leitores mesmo), informar que vou aplicar ao caso a famosa tucanada. Primeiro, porque não tenho aporte cultural suficiente para fechar uma posição como manda o figurino, e não como a galera da treta gosta. Depois, porque, ainda que milite na filosofia, não se consegue ter uma posição acabada. Eu até fecho questão com um dos mais renomados neurocientistas da atualidade, Michael Gazzaniga, que crava ser questão de tempo para não só a psicanálise, mas toda a psicologia cair na pseudocientificidade, não no aspecto intencional, mas na obsolescência das propostas. A leitura e interpretação dos processos neurológicos tendem a ficar tão precisas que a tangência metafísica que mesmo a mais experimental das psicologias possui vai cair na vala filosófica da especulação. Dessa forma, hormônios tomarão o lugar de recalques, pulsos elétricos o de pulsões e interações sinápticas o de repressões.

Mas também é preciso pensar no que faremos até chegar neste ponto. Não adianta ficar esperando o dia em que teremos a perfeita composição físico-química que me levará a explicar a paura que sinto na véspera da final de um campeonato. É possível e é preciso entender os fenômenos mentais antes de ter respostas definitivas sobre eles, e isso a psicologia e, sim, a psicanálise tentam fazer. Por isso, parece a mim ser a psicanálise uma protociência que reluta em sair do lugar, especialmente porque parece uma resposta muito boa para que possa ser provada falsa na canetada. É exatamente isso o que ela deveria fazer, encerrando o debate. Na pior das hipóteses, poderia migrar da ciência para a filosofia, onde ela se encaixa perfeitamente. Imagine que compêndio sobre filosofia da mente não se referiria a Freud e seus Blue Caps como alguns dos maiores?

Tudo isso ao aroma intenso de um bom café coado em um dos melhores métodos que possuo em casa. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É em inglês, mas não é longo, nem tão complexo de se ler.

HANSSON, Sven Ove. Defining Pseudoscience and Science. In: PIGLIUCCI, Massimo & BOUDRY, Maarten. Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem. Chicago: The University of Chicago Press, 2013.

*A simplificação extrema é meramente didática, perfeito?

** Existem protocolos e metodologias para higienizar a vidraria de laboratórios, viu? Vide este link: https://www.ufpe.br/documents/951030/981240/2012-05-r1.pdf/1b91fdbc-f69d-4e32-aee4-2388526ab470

 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

O café filosófico do quotidiano – sobre o que são arquétipos (de fato)

(Não... arquétipos não são isso que aparece no YouTube) 

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Métodos de escoar um bom café não são apenas uma experiência estética de aromas, sabores e visuais, mas também da percepção de como a mente humana pode ser engenhosa e oferecer soluções simples para dificuldades aparentes. Tenho um desses exemplos na minha frente, um belíssimo artefato conhecido como Chemex.


A origem desse método é das mais interessantes, e tem uma boa parte de fábula. Diz-se que era hábito entre os laboratoristas a utilização de instrumentos de seu trabalho para obter café nos momentos em que não havia melhores oportunidades para fazê-lo. Com isso, um balão de ensaio era utilizado como recipiente…


… enquanto era aproveitado um filtro de laboratório para passar o café, o que era feito através da sua dobra dupla e montagem com uma folha para um lado, e três folhas para o outro.

Conhecendo esse costume, um químico alemão resolveu patentear a ideia e produzi-la em escala, adicionando uma pega de bambu para facilitar a utilização pela patuleia. Esta pega é unida ao conjunto através de um cordão de couro, que lhe dá estilo e ajuda (segundo o fabricante) a evitar acidentes por quedas.


Para os dias sem filtro de papel, é sempre possível apelar para o filtro metálico que costuma ser oferecido com o conjunto.



Nome do utensílio: Chemex

Tipo de técnica: percolação em filtro de laboratório

Dificuldade: Média

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: um filtro de papel quadrado é redobrado e inserido no bocal do utensílio, com o lado triplo sobre o sulco de serviço. Após escaldamento, o pó é despejado no fundo do cone formado e a água é despejada aos poucos, com cuidado para não afundar o conjunto para o interior do recipiente.

Resíduos: Mínimos.

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio/alto

O Chemex tem essa história legal, de transformar um determinado uso em outro, sem perder sua referência anterior, mas já demonstrando como nós, humanos, somos criativos e fazemos a roda girar. E eis que eu me vejo diante de uma situação semelhante, de transformação de usos, mas que aponta para o lado inverso: o uso inapropriado de termos que foram cuidadosamente burilados, de modo a desvirtuá-lo por completo. Vou dar mais detalhes.

Não me interesso unicamente por Filosofia, mas por coisas igualmente importantes e por bobagens variadas também. Por isso, os algoritmos do YouTube me indicam coisas dos mesmos níveis: tem palestras as mais crânio possíveis e as mais rematadas fanfarras, às vezes coligadas entre si pelo finíssimo fio de um termo. Eu volta e meia pesquiso sobre Psicologia, e isso me leva a alguns jargões específicos. Sendo assim, algumas outras sugestões me são dadas, quase sem nenhum vínculo à real intenção. A mais recente diz respeito a arquétipos, que é um dos termos mais importantes da psicanálise junguiana, e que já tive a oportunidade de tratar, mas há uma autêntica torrente de blogueiros e blogueiras falando sobre um tal de arquétipo de Cleópatra, arquétipo disso, daquilo e do outro, com uma significação completamente errônea. Seria algo como assumir pontos de uma personalidade que, em tese, já estaria gravada em nossa mente, sendo necessário uma ativação para que essas características passassem a fazer parte de nossa própria personalidade. Essa ativação seria feita através da observação de imagens, da recitação de palavras e coisas semelhantes. Uma incorporação, enfim. Como muitos dos propagadores anunciam objetivos financeiros, não diria que estão meramente enganados, mas sendo enganosos. É meu dever letivo tentar trazer o trem de volta para os trilhos, embora seja risível minha tentativa.

Vamos lá, vou tentar ser o mais didático possível. A ideia de que nossa mente não é completamente controlável pela consciência não é nada nova, mas começou a tomar corpo filosófico a partir de Arthur Schopenhauer, que, na contramão dos racionalistas, pensava que a razão estava muito aquém do que se imaginava em termos de condução dos pensamentos. Para ele, o verdadeiro motor estava na vontade; não aquela vontadinha que temos de tomar uma cerveja gelada em um dia saarauí, mas em um sentimento inesgotável e indominável absolutamente inespecífico, que é preenchido sucessivamente por algum objeto. Isso pode ter a conotação que se quiser: sexo, posse, poder, e até mesmo a tal cervejinha. O ser humano não tem nenhum controle sobre isso - tão logo um desejo seja satisfeito, outro ocupa seu lugar, do nascimento até a morte. Em resumo, desejamos sempre, mesmo que não queiramos, mesmo que isso seja uma autêntica perturbação, mesmo que tenhamos meios materiais suficientes para obter qualquer coisa.

Na esteira desse pensamento, vem Nietzsche, que se alinha com o desejo infinito, mas por um viés mais positivo (do seu jeito peculiar). Para ele, de fato a vontade estava no comando, mas na forma de vontade de potência, um conceito nietzscheano que se refere a uma força motriz existente em todo o universo. A vontade de potência consiste na energia residente em todo ser, e que deveria, ao menos em tese, fazer com que se desejasse não apenas sobreviver, mas viver bem, viver como em uma explosão de energia, repletos de experiências intensas. Nietzsche, ao contrário de Schopenhauer, não vê o desejo incessante como uma corrente a ser arrastada, mas como parte do pacote que a vida traz, e realizar seu objetivo seria justamente largar-se ao seu fluxo. Ficou claro que ambos concordam que é a vontade que impulsiona o mundo, ainda que um ache isso o pior fardo da humanidade, enquanto o outra pense ser exatamente o melhor que o universo nos dá? É por isso que são chamados de filósofos voluntaristas.

Freud surge sustentado por esse mesmo pilar, procurando levar para a ciência o substrato que estava no âmbito da filosofia. Ele desenvolve uma teoria de funcionamento psíquico que se fundamenta na mesma ideia de que parte do desempenho da mente não está subordinado ao controle do indivíduo. Ele compreende que o psiquismo se move por uma porção consciente, a quem ele chama de ego, e duas inconscientes, denominadas id e superego. O ego corresponde ao pensamento claro que temos em todo nosso momento de vigília, como nossas decisões, nossos cálculos e demais coisas. Já o id é o nosso elemento derivado do fato de sermos animais, puramente instintivo e manifesto na forma de impulso. É nele que reside o desejo, sendo a libido seu principal motor, na concepção de Freud. Por outro lado, o superego representa a porção mental que absorve o ambiente em que se vive, e, com isso, internaliza os seus conteúdos morais e culturais, que são externos ao indivíduo, mas que, de uma forma ou de outra, pautam a sua conduta. Um exemplinho porco: quando você é criança, seu id te impulsiona a enfiar o dedo em qualquer buraquinho de tomada, e seus atentos pais procuram impedi-lo. Dependendo da urgência ou da agressividade deles, essa experiência pode ser um tanto traumática, e o limitante superego pode receber reforços dolorosos, fazendo que seu inconsciente exerça o papel de seus pais daí por diante. Assim, o ego está constantemente em situação de pressão. Ele recebe o impulso do id e busca materializá-lo, mas ao fazer isso dá de frente com os freios do superego, que lhe determina o comportamento oposto. A mente humana funciona assim e está bem que assim seja, porque um id sem amarras torna o comportamento ilimitado, e um superego exacerbado preenche um ser humano de culpas e medos e o imobiliza. Quando há desequilíbrio nesse jogo, vem as crises psíquicas, como as neuroses.

Jung foi aluno e discípulo de Freud. Concordou com as bases gerais da psicanálise, mas teve vários pontos dissonantes e complementares em relação ao ideário do mestre. No ponto que nos interessa, Jung entendia que havia mais tarefas a serem segregadas no inconsciente. Ele entendia que Freud, ao dividir a psique em ego, id e superego, estava levando em consideração unicamente o plano individual, sendo que faltava algo que se referisse à espécie humana expressa coletivamente.

A mente humana evoluiu como todo e qualquer órgão do corpo humano. É evidente que nossos mais remotos ancestrais eram bem diferentes do que somos hoje, e isso porque o ambiente foi selecionando aquelas melhores características. Uma mão é como é hoje porque polegares opositores se mostraram mais eficientes para tarefas às quais nossa espécie precisava se dedicar. A posição ereta se mostrou mais adequada para a vigilância necessária às nossas vulnerabilidades e os olhos frontais para uma melhor visão do horizonte, e estas são características de toda a espécie. As exceções, quando ocorrem, demonstram claro prejuízo para a sobrevivência. No campo da mente, entende-se que ocorreu o mesmo, com funções mentais comuns e conformações de pensamento que são distribuídas por toda a humanidade. Vejam como nossas vidas guardam um pacote considerável de semelhanças: nascemos da mesma forma, atingimos a puberdade em um tempo semelhante, com alterações corporais igualmente semelhantes; recebemos, neste meio tempo, instruções de pessoas mais velhas, que vivem em grupos mais ou menos maiores e assim por diante. Tudo isso é acompanhado por uma mente que busca se adaptar a todos esses pacotes de mudanças ocorridos na vida e, estando o melhor adaptados possível, tanto melhores são suas chances de sobreviver. Se existe uma estrutura que me leva a reconhecer um perigo, por exemplo, melhores minhas chances de sobreviver. Portanto, mentalmente somos levados por uma evolução parecida com a corporal. Não pensamos em absoluto como essa mente se amolda ao cérebro, apenas vamos vivendo, assim no Brasil como na Austrália, na China, na Namíbia, na Finlândia. Isso é inconsciente, da mesma forma que ocorre com nosso impulso em pegar um doce e o refreamento de não o fazer para engordar. Só nos colocamos em raciocínio quando tudo isso já aconteceu. Como toda a humanidade costura a linha da sua vida de maneira similar, esses aspectos funcionais se amoldam e se transmitem por herança de geração a geração. Só que como não temos uma maneira de enxergar a psique, como enxergamos um coração ou um baço, não é tão simples de se compreender como se dá essa estruturação. Jung desenvolveu uma hipótese que explicaria como o inconsciente coletivo é formado a partir de compartimentos pré-formatados denominados arquétipos

A palavra arquétipo vem do grego e é a junção das palavras arché, que significa origem ou princípio, e typos, que significa marca, impressão. Dessa forma, o arquétipo é uma estrutura mental que já está "pré-gravada” na mente humana, dada pela herança coletiva que é transmitida para cada um dos indivíduos. Essas estruturas não são prontas, mas estão preparadas para receber imagens vindas do mundo exterior, que se articulam e preenchem o arquétipo. Ele é um “espaço vazio”, pronto para ser preenchido por dados do mundo exterior, de modo que a mente reconhece inconscientemente um conjunto de circunstâncias que se encaixam naquele arquétipo e lançam mão dele. Ativar um arquétipo, portanto, representa preencher uma forma vazia (o arquétipo) com um conteúdo (o fato ocorrido na vida).

Jung classificou alguns dos arquétipos, e aqui poderemos verificar como eles não têm nada a ver com o conceito recente de blogueiros e vendedores de amenidades místicas.

O arquétipo do self é o mais importante deles. Como eu já falei, na psicologia junguiana, o ego é a porção consciente do equipamento psíquico, e é preciso que ele se relacione com toda a parte inconsciente para que a personalidade seja constituída completamente. Afinal de contas, as divisões entre as instâncias psíquicas não são estanques e nem isoladas, e precisam “conversar” entre si. O self é o centro dessa personalidade integrada, da soma entre o consciente e o inconsciente, e, quando está funcionando adequadamente, produz um indivíduo equilibrado e sem neuroses. Do contrário, as instâncias não se relacionam harmonicamente entre si e temos as pessoas que possuem algum tipo de mal psicológico, especialmente naquele campo da preponderância da instintividade ou da passividade. O self é esse paradigma que modela onde está cada uma das partes da mente, para ser reducionista ao extremo.

Outro arquétipo muito importante é o da persona. Ele corresponde à nossa necessidade de nos diferenciar entre uma imagem pública e outra privada. Como bem sabemos, não vivemos eremiticamente, mas em sociedade, o que nos leva à necessidade de equilibrar entre aquilo que queremos como indivíduos e o que o meio social nos disponibiliza, o que gera, invariavelmente, um desalinhamento. Para conseguirmos viver nesse meio, é preciso que haja um meio termo entre o que somos entre quatro paredes e o que apresentamos em nossa rua, nossa família, enfim, em nossos grupos de convívio.

Há o arquétipo oposto ao anterior, a sombra. Representa tudo aquilo que não aceitamos em nós mesmos e que queremos ocultar de nossos meios de convívio, por entendermos se tratar de características ruins, vexatórias, impudicas, negativas. A tendência do ego é manter essas qualidades ocultas no inconsciente, e, desta forma, não as incluir na persona, a parte pública da personalidade.

Outros arquétipos são a dupla anima/animus. Eles são, respectivamente, a porção psíquica feminina que um homem possui e a masculina de uma mulher. Estes arquétipos estariam coligados à repressão de certas características em cada um dos sexos, sendo que no homem estaria reprimida a sensibilidade e, na mulher, a racionalidade. Estas conformações não seriam uma predisposição natural destes arquétipos, mas o que o processo evolutivo fez deles. Tanto isso é verdade que ambos se interpenetram: uma psique equilibrada depende de que a porção feminina de um homem interaja com o restante da personalidade, o mesmo se aplicando para o sexo oposto.

Embora haja outros arquétipos que apontam mais para papéis sociais, como é o caso do herói, do sábio e dos pais, não é possível notar como eles não tem nada a ver com essa nova ideia que está se propagando como um rastilho de pólvora? Os arquétipos não se direcionam para pessoas, como uma Cleópatra, e não são objetos místicos que podem ser utilizados como quando se diz abracadabra. Aliás, o próprio conceito junguiano de arquétipo é discutível, como toda a psicologia analítica, mas disso nós trataremos em breve. Se meu conselho serve, não caiam nesse tipo de embuste, simplesmente isso. E se informem.

Uma chemex muda o uso original tanto do filtro, quanto da garrafa, mas não o desvirtua. É exatamente o oposto que ocorre neste caso. Falar bobagem é uma das funções da linguagem, já vender mentiras é uma das doenças do capitalismo. É bom ser cuidadoso. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Neste caso, é uma repetição, coisa que não costumo fazer. Mas o ideal é buscar as fontes primárias.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Pequeno guia das grandes falácias – 69º tomo: a falsa proclamação de vitória (complexo do pombo enxadrista)

(Falácias não se fazem somente com palavras)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Eu juro para vocês que não tive estômago para acompanhar de perto as últimas eleições. Havia uma combinação de descrédito com a classe política, de cansaço com o turbilhão social dos últimos quatro anos e com a séria ameaça de que tudo iria se repetir. Sendo assim, fixei meus candidatos e desliguei o botãozinho, o que significa nem sonhar em acompanhar a propaganda eleitoral e desprezar de pleno efeito os debates televisivos, a grande vedete de todo o processo. Só não tive como evitar a apuração, tensa ao cubo, principalmente no segundo turno. O prédio em que habito normalmente é de calma redobrada nos domingos à noite, mas o desassossego estava vibrando em cada um dos velhos tijolos, para um lado ou para o outro.

Os debates que citei mudaram muito nos últimos tempos. Por conta dos quebra-paus das décadas de 80/90, foram estabelecidas tantas regras que dificilmente não se resulta em um negócio insosso, só marcado pela inverossimilhança das propostas (quando existem). Caras como Maluf, Brizola e Quércia podiam não ser melhores como portadores da verdade, mas ao menos garantiam a noite no quesito diversão. São bastantes os acontecimentos desses tempos que viraram memes até os dias de hoje. Só que no fundo, o resultado é o mesmo: todos eles, indefectivelmente, saíam dos debates com a cara amassada de quem vai ao corner do ringue, mas cantando vitória como se fossem galos de briga. Fiquei velho e cansei desse tipo de coisa.

Como bem sabemos, o intuito sempre é um só: sair vencedor de um debate. Esse conceito, entretanto, é muito maleável. O que é a vitória em si? É um compilado de argumentos devidamente sequenciados e com itens objetivos avaliados? Ou é aquilo que faz a audiência gritar mais? Ao menos para o voto, parece claro ser a segunda. E para muitos dos debates de YouTube também.

É dessa forma que agem aqueles que compreenderam que a guerra de argumentos também se vence sem eles. É fato que nem sempre e nem todos têm a correta compreensão do que se discute, então busca-se por certos sinais de que alguém está em posição favorável ou não. Se alguém gagueja, por exemplo, pode estar se demonstrando inseguro, e se isso acontece temos uma amostra de se estar acuado. Por isso a fala firme e as demonstrações de se estar por cima da carne seca enganam muito. Não importa o que se diz, mas a sensação de superioridade que se passa. E isso passa mais pela agudeza do emocional do que pela correção da lógica aplicada.

Quando falamos em falácias, normalmente estamos nos dirigindo a construções lógicas (ou nem tanto) que desvirtuam o objetivo de um argumento. São inúmeras as formas de fazer isso, como temos visto neste pequeno guia. Há os apelos, que buscam enfatizar o aspecto emocional em detrimento da lógica, há os erros categoriais, para misturar as bolas sobre o que estamos falando, os erros formais, que torcem a propositura dos silogismos e muitos outros. Mas não é só daquilo que está manifesto na linguagem que vivem as falhas argumentativas. Elas também residem em atitudes e gestuais, que tentam causar a mesma dispersão produzida pelas palavras. É nisso que consiste a falácia da falsa proclamação de vitória, um tanto semelhante ao argumentum ad lapidem, porque procura dar uma terminação ao debate, mas, ao invés de utilizar da peremptoriedade verbal, vai na mão da persuasão pela forma, e não pelo conteúdo.

Uma forma de se entender a falsa proclamação de vitória são as chamadas mitadas, termo do qual peguei um ranço desmedido, por motivos óbvios. Uma mitada (ou uma lacração, se vindo da esquerda) é uma frase de efeito que, supostamente, humilha um adversário e define o debate. Geralmente são frases feitas, algumas vezes desencaixadas do conceito que se discute, mas, exatamente por se apresentarem prontas, são de fácil absorção pela patuleia, que já concorda de pronto com aquela “verdade”. Não preciso trazer exemplos, eles existem aos borbotões.

Assim como acontece com outras falácias, a falsa proclamação de vitória também tem um apelido, e eu vou contar sua história. Tudo começa na enjoativa disputa entre evolucionistas e criacionistas (vide aqui). Como bem sabemos, a evolução é uma teoria científica, embora seu nome mais correto seria modificação da descendência por seleção natural, muito longo para aplicação comum. Sendo uma teoria, ela mesma, assim como os fenômenos que descreve, evolui. Isso é próprio e típico das ciências, que, lembremos, não pretendem SER a verdade, mas APROXIMAR-SE da verdade. O mesmo não se pode dizer do criacionismo, que é estanque. Afinal de contas, como se baseia nos livros sagrados, não pode flutuar ao sabor de novas descobertas. Fragmentos de pergaminhos que são localizados em sítios arqueológicos causam alvoroço nos meios históricos positivamente, justamente o contrário do que ocorre nos meios religiosos, que colocam uma pilha de parênteses em descobertas contraditórias com suas crenças*. Com isso, todo o seu fundamento é imutável. No que isso resulta? Eternas respostas iguais, sempre iguais. A constante evolução da Evolução vem sempre trazendo respostas cada vez melhores e mais fortemente embasadas, enquanto o ponto de vista criacionista se baseia em releituras de mais do mesmo. É a velha confusão que ocorre quando se acha que a teoria vem na frente da prática. Não, não é nada disso. A teoria nada mais é do que a prática observada, das leis e repetições que são possíveis de extrair através da atividade empírica (leia com mais detalhes aqui). Quando isso acontece, o que temos é uma realidade dada, e não uma teoria, e isso acontece com as religiões, não com a ciência. É o que acontece com o criacionismo, e não com o evolucionismo. Portanto, quando confrontado com uma realidade incômoda, tudo o que resta é se recolher ao próprio nicho e, eventualmente, cantar vitória.

É no contexto dessa eterna briga que a falácia da falsa proclamação de vitória virou o complexo do pombo enxadrista. Isso brota através de um comentário ao livro Evolution vs Creacionism: an Introduction, de Eugenie C. Scott, no site de compras Amazon, que, acreditem, está lá disponível até hoje (vejam este link).


Eugenie é uma antropóloga estadunidense que trabalhou intensamente durante a controversa ideia de se ensinar criacionismo em aulas de ciências. Para trazer uma espécie de manual sobre o confronto e tornar mais claros certos pontos que traziam confusão no debate, resolveu escrever o livro acima. O comentador em questão, S. D. Weitzenhoffer, ao resenhar sobre a obra, diz o seguinte, em uma tradução livre:

"Discutir com criacionistas sobre evolução é como tentar jogar xadrez com um pombo. Ele derruba as peças, caga no tabuleiro e voa de volta aos outros pombos para cantar vitória".

A alegoria é simples de entender. O jogo de xadrez é bastante complexo, começando pelo fato de ser uma encenação de combate. Lá, um rei deve ser protegido pelo seu séquito, que, cada um tendo funções específicas, tem movimentos diferentes. Os peões são a linha de frente, de pouco poderio, mas em grande quantidade. Formam uma barreira e são os primeiros a dar proteção e a morrer. Na linha atrás, o rei é protegido pelos flancos pelas torres, bispos e cavalos, além da peça mais poderosa de todas, a rainha. Ao contrário de um jogo de damas, que acaba quando um dos oponentes "come" todas as peças do adversário, no xadrez basta que se capture o rei, e pode até terminar em empate. O jogo é, portanto, uma pequena reprodução de um painel político. Como se trata de uma disputa entre reinos, podemos antever sua antiguidade, que remonta tempos imemoriais. É um jogo de tabuleiro que envolve tática e estratégia, tornando-se verdadeiras tempestades mentais que podem durar dias. Os torneios internacionais consagraram enxadristas famosos, como Bob Fischer, Anatoly Karpov e Garry Kasparov, além dos brasileiros Jaime Sunye e Mequinho. Um dos maiores desafios do mundo da inteligência artificial era conseguir com que um computador conseguisse vencer um desses grandes mestres internacionais, o que somente foi acontecer em 1997, quando o computador Deep Blue venceu Kasparov, inaugurando a era em que a superação da mente humana pela inteligência artificial começou a se tornar palpável.

Nada disso tem significado algum para um pombo, nem a alegoria da guerra, nem o desenho tático, nem o aspecto histórico, nem a origem do jogo, nem a conquista da inteligência artificial, nada. Para ele, é um amontoado de peças em um tabuleiro que não compreende. A única coisa que ele depreende é que o conjunto não lhe serve para nada. Defecar em cima do tabuleiro é-lhe um ato natural, como faz sobre nossas cabeças quando encostamos inadvertidamente em um ponto de ônibus, sem perceber sua presença no fio elétrico correndo sobre nós. Não servindo de alimento ou pouso, afasta-se com estrépito para ir ao encontro de seus semelhantes, o que é, para ele, mais seguro e reconfortante do que ficar diante daquilo que não entende.

Esse formato de jogada para a torcida parece tola, mas é de uma eficiência surpreendente. Mas um pouco de raciocínio permite entender o porquê disso acontecer. Embora nós, seres humanos, sejamos muitos em aspectos e formações, o fato é que somos pouco originais. Seja pelo conforto de pegar coisas prontas, seja pela característica gregária da espécie, temos uma predisposição a nos acomodar a posições preexistentes e a ter conformidade com um grupo que nos identifiquemos (tratei do tema aqui). Essa identificação é multifatorial, geralmente associada ao ambiente onde se vive, e influencia diretamente nosso modo de pensar. Quando somos confrontados com uma posição antagônica, é tendência que procuremos a posição geral do grupo, e quanto mais forte for a sua reação, maior será a maneira com a qual nós mesmos reagiremos ao fenômeno. São raros os momentos em que prevalecerá uma posição pessoal. Se alguém o grupo está em discussão, é como se todo o grupo lhe passasse uma procuração para falar em seu nome, e a atitude desse representante é um sinalizador de bom sucesso, o que faz com que todo o grupo se impulsione em seu favor, independentemente da validade de seus argumentos.

Isso quer dizer que de nada vale o debate? Quase isso. Mas as palavras são sementes no vento. Metaforicamente, quando eu era pequeno, minha mãe insistia em me dar remédio quando eu tinha ânsia de vômito. "Eu vou botar prá fora, não adianta tomar isso", falava eu, já em desespero. "Um pouquinho sempre fica", dizia a genitora, na esperança de que as poucas gotas restantes fossem suficientes para dar uma amainada nos engulhos. A coisa é mais ou menos assim. Pode ser que, a custo, algum dos bons argumentos chegue a ouvidos um pouco menos moucos, e se instale em sua memória, de modo a fazer, em algum momento, brotar a linda flor da dúvida, a grande geratriz do questionamento. Ele nunca é ruim, porque qualquer argumento pode ser confirmado e sair mais forte do que era, por isso não há motivos para medos. Haverá pessoas que passarão a vida inteira atoladas em uma mesma dimensão da realidade, mas também haverá aquelas que estão somente esperando essa sementinha racional, uma proposição que lhe dê respostas melhores das que já tem, e é assim que funciona a transformação das cabeças.

Por fim, existe falsa proclamação de vitória não falaciosa? Bem, se é falsa, é falaciosa. Mas se o argumento bem defendido é acompanhado por boa concatenação lógica, as manifestações de agrado da camarilha não tornam o argumento falso. Só deixam o debate pobre e afastam quem gosta mais da lógica do que do espetáculo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É uma recomendação para ser seguida com cuidado. Com a proliferação dos debates de internet, surgiram alguns manuais que pretensamente ensinam a vencê-los, ainda que de modo pouco honesto, mais apelando a truques do que a técnicas reais de construção de argumentos. Nada melhor, neste caso, do que ter um nome consagrado para dar base a algumas barbaridades. Portanto, indico esta obra menor e inacabada de Schopenhauer mais como curiosidade, que hoje em dia é citada por um monte de gente como se fosse uma bíblia das discussões.

SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Ter Razão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

* É óbvio que existem teólogos sérios, que possuem um espírito de autêntico estudioso, e que ficam felizes quando surgem descobertas dessa natureza.