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segunda-feira, 15 de maio de 2023

Pequeno guia das grandes falácias – 69º tomo: a falsa proclamação de vitória (complexo do pombo enxadrista)

(Falácias não se fazem somente com palavras)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Eu juro para vocês que não tive estômago para acompanhar de perto as últimas eleições. Havia uma combinação de descrédito com a classe política, de cansaço com o turbilhão social dos últimos quatro anos e com a séria ameaça de que tudo iria se repetir. Sendo assim, fixei meus candidatos e desliguei o botãozinho, o que significa nem sonhar em acompanhar a propaganda eleitoral e desprezar de pleno efeito os debates televisivos, a grande vedete de todo o processo. Só não tive como evitar a apuração, tensa ao cubo, principalmente no segundo turno. O prédio em que habito normalmente é de calma redobrada nos domingos à noite, mas o desassossego estava vibrando em cada um dos velhos tijolos, para um lado ou para o outro.

Os debates que citei mudaram muito nos últimos tempos. Por conta dos quebra-paus das décadas de 80/90, foram estabelecidas tantas regras que dificilmente não se resulta em um negócio insosso, só marcado pela inverossimilhança das propostas (quando existem). Caras como Maluf, Brizola e Quércia podiam não ser melhores como portadores da verdade, mas ao menos garantiam a noite no quesito diversão. São bastantes os acontecimentos desses tempos que viraram memes até os dias de hoje. Só que no fundo, o resultado é o mesmo: todos eles, indefectivelmente, saíam dos debates com a cara amassada de quem vai ao corner do ringue, mas cantando vitória como se fossem galos de briga. Fiquei velho e cansei desse tipo de coisa.

Como bem sabemos, o intuito sempre é um só: sair vencedor de um debate. Esse conceito, entretanto, é muito maleável. O que é a vitória em si? É um compilado de argumentos devidamente sequenciados e com itens objetivos avaliados? Ou é aquilo que faz a audiência gritar mais? Ao menos para o voto, parece claro ser a segunda. E para muitos dos debates de YouTube também.

É dessa forma que agem aqueles que compreenderam que a guerra de argumentos também se vence sem eles. É fato que nem sempre e nem todos têm a correta compreensão do que se discute, então busca-se por certos sinais de que alguém está em posição favorável ou não. Se alguém gagueja, por exemplo, pode estar se demonstrando inseguro, e se isso acontece temos uma amostra de se estar acuado. Por isso a fala firme e as demonstrações de se estar por cima da carne seca enganam muito. Não importa o que se diz, mas a sensação de superioridade que se passa. E isso passa mais pela agudeza do emocional do que pela correção da lógica aplicada.

Quando falamos em falácias, normalmente estamos nos dirigindo a construções lógicas (ou nem tanto) que desvirtuam o objetivo de um argumento. São inúmeras as formas de fazer isso, como temos visto neste pequeno guia. Há os apelos, que buscam enfatizar o aspecto emocional em detrimento da lógica, há os erros categoriais, para misturar as bolas sobre o que estamos falando, os erros formais, que torcem a propositura dos silogismos e muitos outros. Mas não é só daquilo que está manifesto na linguagem que vivem as falhas argumentativas. Elas também residem em atitudes e gestuais, que tentam causar a mesma dispersão produzida pelas palavras. É nisso que consiste a falácia da falsa proclamação de vitória, um tanto semelhante ao argumentum ad lapidem, porque procura dar uma terminação ao debate, mas, ao invés de utilizar da peremptoriedade verbal, vai na mão da persuasão pela forma, e não pelo conteúdo.

Uma forma de se entender a falsa proclamação de vitória são as chamadas mitadas, termo do qual peguei um ranço desmedido, por motivos óbvios. Uma mitada (ou uma lacração, se vindo da esquerda) é uma frase de efeito que, supostamente, humilha um adversário e define o debate. Geralmente são frases feitas, algumas vezes desencaixadas do conceito que se discute, mas, exatamente por se apresentarem prontas, são de fácil absorção pela patuleia, que já concorda de pronto com aquela “verdade”. Não preciso trazer exemplos, eles existem aos borbotões.

Assim como acontece com outras falácias, a falsa proclamação de vitória também tem um apelido, e eu vou contar sua história. Tudo começa na enjoativa disputa entre evolucionistas e criacionistas (vide aqui). Como bem sabemos, a evolução é uma teoria científica, embora seu nome mais correto seria modificação da descendência por seleção natural, muito longo para aplicação comum. Sendo uma teoria, ela mesma, assim como os fenômenos que descreve, evolui. Isso é próprio e típico das ciências, que, lembremos, não pretendem SER a verdade, mas APROXIMAR-SE da verdade. O mesmo não se pode dizer do criacionismo, que é estanque. Afinal de contas, como se baseia nos livros sagrados, não pode flutuar ao sabor de novas descobertas. Fragmentos de pergaminhos que são localizados em sítios arqueológicos causam alvoroço nos meios históricos positivamente, justamente o contrário do que ocorre nos meios religiosos, que colocam uma pilha de parênteses em descobertas contraditórias com suas crenças*. Com isso, todo o seu fundamento é imutável. No que isso resulta? Eternas respostas iguais, sempre iguais. A constante evolução da Evolução vem sempre trazendo respostas cada vez melhores e mais fortemente embasadas, enquanto o ponto de vista criacionista se baseia em releituras de mais do mesmo. É a velha confusão que ocorre quando se acha que a teoria vem na frente da prática. Não, não é nada disso. A teoria nada mais é do que a prática observada, das leis e repetições que são possíveis de extrair através da atividade empírica (leia com mais detalhes aqui). Quando isso acontece, o que temos é uma realidade dada, e não uma teoria, e isso acontece com as religiões, não com a ciência. É o que acontece com o criacionismo, e não com o evolucionismo. Portanto, quando confrontado com uma realidade incômoda, tudo o que resta é se recolher ao próprio nicho e, eventualmente, cantar vitória.

É no contexto dessa eterna briga que a falácia da falsa proclamação de vitória virou o complexo do pombo enxadrista. Isso brota através de um comentário ao livro Evolution vs Creacionism: an Introduction, de Eugenie C. Scott, no site de compras Amazon, que, acreditem, está lá disponível até hoje (vejam este link).


Eugenie é uma antropóloga estadunidense que trabalhou intensamente durante a controversa ideia de se ensinar criacionismo em aulas de ciências. Para trazer uma espécie de manual sobre o confronto e tornar mais claros certos pontos que traziam confusão no debate, resolveu escrever o livro acima. O comentador em questão, S. D. Weitzenhoffer, ao resenhar sobre a obra, diz o seguinte, em uma tradução livre:

"Discutir com criacionistas sobre evolução é como tentar jogar xadrez com um pombo. Ele derruba as peças, caga no tabuleiro e voa de volta aos outros pombos para cantar vitória".

A alegoria é simples de entender. O jogo de xadrez é bastante complexo, começando pelo fato de ser uma encenação de combate. Lá, um rei deve ser protegido pelo seu séquito, que, cada um tendo funções específicas, tem movimentos diferentes. Os peões são a linha de frente, de pouco poderio, mas em grande quantidade. Formam uma barreira e são os primeiros a dar proteção e a morrer. Na linha atrás, o rei é protegido pelos flancos pelas torres, bispos e cavalos, além da peça mais poderosa de todas, a rainha. Ao contrário de um jogo de damas, que acaba quando um dos oponentes "come" todas as peças do adversário, no xadrez basta que se capture o rei, e pode até terminar em empate. O jogo é, portanto, uma pequena reprodução de um painel político. Como se trata de uma disputa entre reinos, podemos antever sua antiguidade, que remonta tempos imemoriais. É um jogo de tabuleiro que envolve tática e estratégia, tornando-se verdadeiras tempestades mentais que podem durar dias. Os torneios internacionais consagraram enxadristas famosos, como Bob Fischer, Anatoly Karpov e Garry Kasparov, além dos brasileiros Jaime Sunye e Mequinho. Um dos maiores desafios do mundo da inteligência artificial era conseguir com que um computador conseguisse vencer um desses grandes mestres internacionais, o que somente foi acontecer em 1997, quando o computador Deep Blue venceu Kasparov, inaugurando a era em que a superação da mente humana pela inteligência artificial começou a se tornar palpável.

Nada disso tem significado algum para um pombo, nem a alegoria da guerra, nem o desenho tático, nem o aspecto histórico, nem a origem do jogo, nem a conquista da inteligência artificial, nada. Para ele, é um amontoado de peças em um tabuleiro que não compreende. A única coisa que ele depreende é que o conjunto não lhe serve para nada. Defecar em cima do tabuleiro é-lhe um ato natural, como faz sobre nossas cabeças quando encostamos inadvertidamente em um ponto de ônibus, sem perceber sua presença no fio elétrico correndo sobre nós. Não servindo de alimento ou pouso, afasta-se com estrépito para ir ao encontro de seus semelhantes, o que é, para ele, mais seguro e reconfortante do que ficar diante daquilo que não entende.

Esse formato de jogada para a torcida parece tola, mas é de uma eficiência surpreendente. Mas um pouco de raciocínio permite entender o porquê disso acontecer. Embora nós, seres humanos, sejamos muitos em aspectos e formações, o fato é que somos pouco originais. Seja pelo conforto de pegar coisas prontas, seja pela característica gregária da espécie, temos uma predisposição a nos acomodar a posições preexistentes e a ter conformidade com um grupo que nos identifiquemos (tratei do tema aqui). Essa identificação é multifatorial, geralmente associada ao ambiente onde se vive, e influencia diretamente nosso modo de pensar. Quando somos confrontados com uma posição antagônica, é tendência que procuremos a posição geral do grupo, e quanto mais forte for a sua reação, maior será a maneira com a qual nós mesmos reagiremos ao fenômeno. São raros os momentos em que prevalecerá uma posição pessoal. Se alguém o grupo está em discussão, é como se todo o grupo lhe passasse uma procuração para falar em seu nome, e a atitude desse representante é um sinalizador de bom sucesso, o que faz com que todo o grupo se impulsione em seu favor, independentemente da validade de seus argumentos.

Isso quer dizer que de nada vale o debate? Quase isso. Mas as palavras são sementes no vento. Metaforicamente, quando eu era pequeno, minha mãe insistia em me dar remédio quando eu tinha ânsia de vômito. "Eu vou botar prá fora, não adianta tomar isso", falava eu, já em desespero. "Um pouquinho sempre fica", dizia a genitora, na esperança de que as poucas gotas restantes fossem suficientes para dar uma amainada nos engulhos. A coisa é mais ou menos assim. Pode ser que, a custo, algum dos bons argumentos chegue a ouvidos um pouco menos moucos, e se instale em sua memória, de modo a fazer, em algum momento, brotar a linda flor da dúvida, a grande geratriz do questionamento. Ele nunca é ruim, porque qualquer argumento pode ser confirmado e sair mais forte do que era, por isso não há motivos para medos. Haverá pessoas que passarão a vida inteira atoladas em uma mesma dimensão da realidade, mas também haverá aquelas que estão somente esperando essa sementinha racional, uma proposição que lhe dê respostas melhores das que já tem, e é assim que funciona a transformação das cabeças.

Por fim, existe falsa proclamação de vitória não falaciosa? Bem, se é falsa, é falaciosa. Mas se o argumento bem defendido é acompanhado por boa concatenação lógica, as manifestações de agrado da camarilha não tornam o argumento falso. Só deixam o debate pobre e afastam quem gosta mais da lógica do que do espetáculo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É uma recomendação para ser seguida com cuidado. Com a proliferação dos debates de internet, surgiram alguns manuais que pretensamente ensinam a vencê-los, ainda que de modo pouco honesto, mais apelando a truques do que a técnicas reais de construção de argumentos. Nada melhor, neste caso, do que ter um nome consagrado para dar base a algumas barbaridades. Portanto, indico esta obra menor e inacabada de Schopenhauer mais como curiosidade, que hoje em dia é citada por um monte de gente como se fosse uma bíblia das discussões.

SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Ter Razão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

* É óbvio que existem teólogos sérios, que possuem um espírito de autêntico estudioso, e que ficam felizes quando surgem descobertas dessa natureza.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Navegações de cabotagem – O Templo Zu Lai de Cotia: as influências do Budismo na Filosofia Ocidental

Olá!


A natureza propiciou a nós dois períodos do dia bem distintos, um que vai até o sol a pino e outro que segue até escurecer. Já a cultura os chamou de “manhã” e “tarde”, ao menos para nós, descendentes de Camões. Isso nos dá uma clara divisão, cujo ponto de inflexão é o arroz-com-feijão nosso de cada dia, que pode ser utilizada para igualmente dividir nossas tarefas: de manhã, lavo; à tarde, passo. De manhã, escrevo; à tarde, leio. De manhã, bocejo; à tarde, durmo. Assim sucedendo, e estando na municipalidade de Cotia, divido meu dia em dois e vou de manhã ao templo Odsal Ling, do qual já fiz minha narrativa nesta série, e à tarde vou ao templo Zu Lai, após um prato vegetariano para manter o clima de descolamento. São meros quinze minutos de distância, cada qual em uma das bandas da rodovia Raposo Tavares. Vamos até lá.



É o maior santuário budista de toda a América Latina, e é um dos monastérios Fo Guang Shan espalhados pelo mundo, de orientação mahayana. Zu Lai significa, em uma tradução livre, “nem vir, nem ir”. É um tanto estranho, mas isso tem seu significado no desprendimento, um dos principais dogmas budistas – a passagem deve ser de tal modo a deixar o mundo por onde se passou absolutamente intacto.



O templo não é muito velho. Foi fundado em 2003, e nasceu não só para ser um lugar de culto, mas também um centro de educação doutrinário e casa de benemerência social. De acordo com sua fé, todo o ambiente é composto por estética de temática budista. Desde a sua entrada, com o terreno em desnível, o trajeto rumo às salas principais é feito todo em subida.



Próximo às escadas, temos um morro gramado que é conhecido como Jardim dos Dezoito Arhats. Um arhat é um ser que, assim como um buda ou um bodhisattva, atingiu a iluminação, com a diferença de que esta foi alcançada não por si próprio, mas por intermédio de ensinamentos alheios. Conta-se que o Buda Shakyamuni, fundador do Budismo, próximo ao momento de desencarnar, delegou a dezoito de seus discípulos a tarefa de cuidar dos ensinamentos do dharma, como se fossem apóstolos. Cada um deles é retratado no jardim. Este no centro da foto, por exemplo, é Chudapanthaka, o arhat mendicante que agita seu cajado às portas onde batia.



Passando as escadas, há mais uma sequência de estátuas, desta vez de jovens budas em diferentes situações. Não consegui maiores informações sobre seu significado, mas posso supor que são arhats no começo de suas caminhadas.



Entre estes dois jardins, fica situada a escadaria que conduz ao pórtico principal, símbolo do progresso das encarnações e caminho para a sabedoria, representada esta pelo portal. O estilo arquitetônico é aquele tipicamente chinês, principalmente utilizado nos palácios da dinastia Tang, que ocorreu em um período de grande desenvolvimento tecnológico.



Bem no pé da escada, há uma fonte que as pessoas facilmente confundem com uma fonte dos desejos, como a Fontana de Trevi, em que se jogam moedas para a realização das mais recônditas obsessões. Na verdade, a presença da bodhisattva Kwan Yin explica melhor a sua função. Ela é a versão feminina de Avalokiteshvara, bodhisattva da compaixão. As moedas que lá são atiradas não são destinadas a realizar desejos, mas a simbolizar um ato de caridade e misericórdia.



Para cumprir adequadamente o rito, é preciso arremessar uma moeda de forma a bater no sino da fonte. Desse modo, o dinheiro provavelmente cairá dentro do vaso situado à frente da imagem.



Também do alto das escadas, antes de penetrar no pátio, observamos em ambos os lados um elemento decorativo muito interessante, que são as cascatas artificiais que servem de desaguadouro para suas respectivas fontes. No tempo certo, estas cascatas se enchem de flores de lótus, uma das principais metáforas budistas. O lótus brota a partir de regiões pantanosas, e é símbolo da pureza espiritual que emerge do mundo.



Já no interior da área do santuário propriamente dito, temos um pátio de distribuição por onde é possível ter acesso a todos os compartimentos, incluindo restaurante, lojinha e aos salões rituais, que incluem um cinerário e algumas salas de meditação.



Um diferencial com relação ao Odsal Ling e ao templo Kadampa de Cabreúva é que o Zu Lai ENCHE. Muita gente acorre a este espaço como um ponto turístico, embora não o seja na acepção perfeita da palavra. Detesto tacar borrões nos rostos, mas há pessoas que detestam ser retratadas sem autorização. Afinal de contas, é muito grave ser fotografado em um templo, que coisa pecaminosa! Por conta disso, achei por bem passar o dedo nos visitantes. A exceção é a patroa.



Na escadaria que precede o salão principal, temos mais um exemplo das tradições e da arte de cunho budista. Trata-se da imagem esculpida de Shishi, o leão guardião que visa manter o templo protegido de maus espíritos. Os leões não são típicos da região asiática onde se desenvolveu o budismo, mas é uma prática que demonstra um certo sincretismo com outras regiões do mundo. Originalmente, o papel era exercido por imagens de tigres ou cães.



O templo principal é conhecido como “Sala do Grande Herói”, e é lá existe uma magnífica estátua de jade de Buda Gautama. Não é permitido tirar fotografias no interior do templo, o que obedecemos. Do lado de fora, há um grande incensário onde é possível espetar seu artefato no fundo de areia. O odor é bastante forte (o que eu gosto), e quem é alérgico precisa manter distância.



Bem ao lado, há uma árvore semelhante a uma pitangueira em que as pessoas penduram desejos de paz, saúde e etc. Novamente, muita gente faz confusão e esquece (ou nem sabe) a forma como o Budismo lida com a questão do desejo. Vamos falar um pouco mais para a frente.



O fundador deste templo é o Mestre Hsing Yün, um chinês que migrou para o Taiwan durante a guerra civil, no século XX. Fundou mais de 200 templos pelo mundo inteiro, e sua principal característica foi o ecumenismo com que tratou a difusão de sua fé. Deixou a administração deste local ao encargo da monja Jue Cheng, mais conhecida como Mestra Sinceridade.



Como eu disse anteriormente, há um cinerário no templo Zu Lai. Mas o que é isso? É uma sala onde são depositadas as cinzas dos mortos. É uma prática muito comum entre os budistas. É dedicado ao bodhisattva Kshitigarbha, uma espécie de protetor dos moribundos. Também aqui as fotografias são proibidas sem autorização.



Nos fundos do templo, há um pequeno playground para os petizes mais impacientes. Ele é guarnecido por um painel de azulejos que representa a lenda do pombo e da bodhisattva Kuan Yin. Rapidamente: em um jardim, havia uma estátua de pedras preciosas de Kuan Yin. Um pombo que voejava por lá pousou aos seus pés, e uma das pedras caiu sobre ele. Entendendo ser um sinal, pegou a pedra e levou até a casa de uma família necessitada. Assim que voltou, novamente a cena se repetiu. Isso aconteceu até a estátua ficar totalmente desprovida de preciosidade e o pombo morrer. Parece sem sentido, mas representa o destino de um bodhisattva – a resiliência na execução da tarefa, sem esperar nada em troca.



Para dispor todos esses conhecimentos, o templo possui um museu de arte budista, que contém um bom acervo de peças. Novamente, não sendo permitido tirar fotos de seu interior, limitei-me a fazer o que era possível.



Anexo ao santuário, há um parque onde é possível realizar meditações mais próximo à natureza. Digno de nota é seu lago, com muitas carpas e tartarugas, cercado por bosque de Mata Atlântica nativa e com uma ponte em estilo tipicamente oriental.



Quando observamos diretamente os fundos filosóficos das diferentes religiões, vamos concluir que aquelas de origem oriental têm um fundamento bem mais filosófico do que as abraâmicas. Isso porque estas últimas, que são majoritárias na Europa e nas Américas, baseiam-se no princípio de autoridade, primeiramente de um deus onipotente, e depois dos sacerdotes, a quem cabe uma interpretação que costumeiramente não dá margem a grandes discussões. Com isso, a força das concatenações lógicas se torna muito menos necessária para definir, por exemplo, uma regra de conduta moral. Como a matriz oriental, em especial o Budismo, prescinde de uma figura de autoridade, já é muito mais de rigor que as coisas façam um sentido completo. No modelo judaico-cristão-islâmico, basta a palavra da divindade (ou do pretenso portador do magistério); no Budismo, o que impera é a relação de causas e efeitos. É evidente que tudo isso se dá em linhas gerais, e há princípios causais no Cristianismo, assim como há linhas hierárquicas no Budismo, mas essa estrutura subjacente faz a aproximação com o pensar tipicamente filosófico muito mais confortável, dada a ausência de elementos ad hoc ou manifestações de vontade imperscrutáveis.

É óbvio que o fato de vivermos sob cultura ocidental faz com que a Filosofia aqui praticada seja muito influenciada por uma moral de fundo cristão, e isso é inevitável, mas também é fato que muitos pensadores do lado esquerdo do planisfério foram influenciados pelo pensamento budista, tão bem estruturado para fins de especulações filosóficas que é, e é sobre eles que pretendo discorrer neste texto.

O Budismo é tão milenar quanto a própria Filosofia ocidental, mas só foi conhecido com mais profundidade no nosso lado do globo (eu disse globo) a partir do século XVIII. Por este motivo, é somente neste momento que vamos começar a sentir alguns filósofos se aproximando intencionalmente de seu ideário.

Antes disso, tivemos algumas aproximações sem pontos de contato, como a afinidade do Budismo com o Estoicismo no quesito resiliência à dor, ou com o nominalismo na questão dos universais. As influências mais claras vão aparecer com os voluntaristas, a dispersa corrente que aprendeu a olhar a volição como mais significativa que a própria razão em termos de domínio mental. O começo é com Kierkegaard, o dinamarquês que inaugurou o Existencialismo no começo do século XIX, apesar do desenvolvimento da escola ser mais tardio. Embora seja autodeclaradamente um filósofo cristão, que lidou com a questão do indivíduo diante de Deus, é possível observar como muitos dos traços de seu pensamento estão mais aparentados ao Budismo que ao Cristianismo. Por exemplo, ao concluir que a existência do homem é mais importante do que a sua essência, Kierkegaard coloca a nós o mar de possibilidades que decorre do devir. Nesse sentido, o leque de escolhas torna-se uma usina de angústia. Em um animal não-humano, não há esse problema: ele segue seu instinto e pronto. Já o ser humano, dono da liberdade de escolha, percebe que tudo é igualmente possível. Essa angústia é o que ele chama de puro sentimento do possível, e é a principal marca da nossa existência, um sofrimento que nos pauta para sempre. Quando olhamos para o Budismo, vemos que, em seu âmago, ele diz a mesma coisa: por toda a vida de um indivíduo, ele se moverá por conta do sofrimento. A dor é uma inerência ao ser humano, esteja ele no nível de existência em que estiver, um sofrimento cíclico, inesgotável, caracterizado pelas suas inúmeras repetições, cuja saída se dá pelo nirvana, o alcançar da iluminação. Aqui, Kierkegaard trata da questão da saída do fluxo de angústia pela tomada de consciência da individualidade, ao invés de um amargo carregar de repetições do passado, imposto a alguém que não é reconhecido como único e que também não reconhece a si mesmo como tal.

Em seguida, vamos falar de Schopenhauer, o filósofo mais diretamente influenciado pelo Budismo. Estamos de acordo que a pauta da vida humana se dá no sofrimento, sendo a angústia um deles. Mas qual seria o motor para esse sofrimento? Qual é a causa originária que está por trás de cada ato de dor? Para o Budismo e Schopenhauer, é o desejo. Diferem muito pouco quanto a isso. O Budismo diz o seguinte em suas Quatro Nobres Verdades:
  • Não há como fugir do sofrimento;
  • O sofrimento é causado pelo desejo;
  • Há como se fazer cessar o sofrimento pela cessação do desejo;
  • O caminho para isso é a busca do nirvana pela conduta e prática mental.
Schopenhauer chega a uma conclusão muito semelhante. Ao contrário do que imaginavam os filósofos anteriores, a razão não está na guia do sentimento humano, mas a vontade. Não se trata de um mero desejo orgânico, que pode ser satisfeito com a sua realização, mas de um sentimento visceral, violento, inexorável. O corpo quer viver e para isso deseja, sempre mais e mais. No fundo, é o próprio instinto de sobrevivência que faz isso, suplantando qualquer racionalidade possível. Há vontade em toda a realidade, que suplanta a mera representação que cada um de nós temos do mundo. O mundo é guerra de egos, porque cada um constrói sua própria representação da vontade que tem. Aspiramos por aquilo que não temos, seja material como uma pedra preciosa, seja corpóreo como uma bela fêmea, seja abstrato como um sentimento de glória. Sua extinção só chega pela extinção do próprio eu. E aqui temos mais uma interseção entre Budismo e Schopenhauer – como romper esse laço? Fundamentalmente, através da negação do desejo, cuja ferramenta basilar é a ascese, o exercício mental para reconhecer e afastar-se da ação da vontade.

Outro que se sentiu tocado pela filosofia budista foi Nietzsche, o dono do martelo. Não tanto no sentido de alinhar seu pensamento, como fez Schopenhauer, mas o de fazer análises críticas. Devemos nos lembrar de que, para Nietzsche, o verdadeiro caminho para a evolução da humanidade é atingir o übermensch, o além-do-homem, a superação de todos os valores como consequência da libertação do espírito. A atravancar esse caminho, teríamos uma moral de rebanho cuja principal ferramenta é a Religião. No seu entender essa moral era padronizante, castradora e impedimento de valores verdadeiramente significativos, imposta pelos mais fracos como meio de se fazerem iguais aos melhores. Esse processo de melhoria não é algo contrário à benevolência, mas uma necessidade de evolução da própria humanidade. A principal Religião de rebanho é o Cristianismo*, uma autêntica representante da humanidade decaída. Já o Budismo, por se calcar na realidade, é visto com olhos muito menos críticos. Um dos seus principais pontos é a ausência de um deus senhorial que guiaria o rebanho, que ditaria atitudes corretas e qualificando seu desvio como pecado, conceito este inexistente no Budismo. Nietzsche, como sabemos, admite o sofrimento como inerente à vida, mas, ao contrário do Budismo, entende que o mesmo não deve e nem precisa ser evitado. No entanto, acha essa psicologia do desejo muito mais aceitável que a lógica punitiva do Cristianismo, a ponto de entender que os budistas pertencem à última religião admissível antes do além-do-homem (mesmo que, ainda assim, mantenha muitas críticas ao Budismo como religião em si).

Por fim, falemos de Freud. O Budismo talvez seja a religião que melhor trata a questão da mente, não somente pelas suas práticas meditativas, que compartilha com outras práticas religiosas, mas principalmente pela questão do autoconhecimento, do olhar para dentro de si mesmo. O Budismo preconiza isso pela doutrina de que é difícil chegar a um completo conhecimento de si mesmo, em especial de todo o potencial que a mente tem de captar holisticamente o mundo e o papel de cada um nesse todo. Quando Freud fala das instâncias da consciência, podemos perceber claramente também essa limitação de se autoconhecer. O ego, a parte consciente da psique, é apenas uma pequena porção do todo, e fica ensanduichada entre o id instintivo e o superego repressor. Dessa forma, também a psicanálise reconhece a impossibilidade do pleno autoconhecimento.

Existem inúmeras outras influências do Budismo na Filosofia contemporânea, não só no campo da Ética, mas até mesmo na Filosofia da Linguagem. Para o momento, no entanto, está de bom tamanho, porque eu queria apenas demonstrar como temos cada vez mais elementos orientais na Filosofia, advindos de locais onde ela é mais natural do que em nosso habitual quotidiano. Bons ventos a todos!!! E bom ano novo.

Sugestões de leitura:

Dois livrinhos de autoria do fundador do templo Zu Lai para ajudar na compreensão do Budismo:

YÜN, Hsing. O que é Budismo? Cotia: Templo Zu Lai, 2019.
-------------. A essência do Budismo. Cotia: Templo Zu Lai, 2019.

E o livro de Nietzsche onde ele comenta sobre o Budismo e desce o cacete no Cristianismo com mais força. Os demais autores já estão citados nos textos a que remeto através dos links.

NIETZSCHE, Friedrich. O Anti-Cristo. São Paulo: Escala, 2011.

E, claro, recomendo a visita ao templo Zu Lai. Fica na Rua Fernando Nobre, 1461, em Cotia/SP, bem pertinho da Rodovia Raposo Tavares, lá pelo Km 28.

* Devemos ter em mente que Jesus, para Nietzsche, era um espírito livre. O problema não é Cristo, portanto, mas o Cristianismo – "o Evangelho morreu na cruz", é uma de suas frases mais famosas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Pequeno guia das grandes falácias – 48º tomo: a petição de princípio (petitio principii) e um pouquinho sobre inversão de argumentos e terra plana

Olá!

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(Pessoas, antes de começar, quero informar que fiz uma grande confusão com essa temática há um tempo atrás, quando publiquei este texto. Não gosto de modificar minhas postagens, prefiro que fiquem registradas minhas impressões de acordo com a passagem do tempo. Mas aqui não se trata de parecer ou ótica, mas de erro mesmo, que vamos dirimindo à medida em que vivemos e aprendemos. Já fiz os ajustes necessários lá e peço desculpas a quem se desinformou com minhas incorreções. Procurarei ter mais cuidados doravante).

Já falei muitas coisas sobre minha história neste humilde espaço, desde a minha mais tenra infância até os dias atuais, sem nenhum tipo de linearidade. Essa estrutura caótica se deve à adequação do tema da postagem ao episódio que uso, muitas vezes, para ilustrar determinado pensamento. Por isso mesmo, às vezes me repito, como farei agora. Eu já mencionei anteriormente que, em minha juventude, eu tinha o sonho de fazer carreira musical, neste e neste textos. Seguia não só o desejo de impressionar as menininhas, mas também uma tendência familiar, que gostava de se juntar à mesa para batucar velhos sambas-canções e boleros, o que faziam muito bem, especialmente meu padrinho, com um vozeirão de barítono burilado nos velhos clubes do Brás e da Mooca. Dos que nada cantavam, havia a extração do ritmo, utilizando caixinhas de fósforo e latinhas vazias à guisa de agogô. Os mais arrítmicos eram eu e meu pai. O velho nem tentava acompanhar, sabedor da inépcia de seu compasso, mas eu, criança inconveniente, queria participar da roda por toda lei, mas atrapalhava mais do que abelha no chá de gengibre. Davam a mim um ralador de queijo e uma colher de pau, para simular um reco-reco, e com isso eu me divertia iludido.

Anos mais tarde, é com esse painel que minha mãe aceitou, com um misto de desânimo e indulgência, o pedido de me disponibilizar o velho violão que ficava guardado no guarda-roupa de meu já falecido avô, pouco confiante na minha capacidade de transformar em música a minha conhecida impaciência. Sozinho, eu mostrava uma faceta que até eu mesmo desconhecia até então, a de me compenetrar no aprendizado e entender coisas por si só. E, dessa forma, comecei a tocar uma coisinha ou outra, com a pouca técnica que me caracteriza até hoje. Quebra um galho nos parques da vida, ao pé de uma árvore, cantando canções que todo mundo conhece na minha geração.

Mas eu não estava contente com as mesas da família. Eu queria me aperfeiçoar um pouco, e, ao menos, aprender a afinar meu próprio instrumento. Por isso não me considero completamente autodidata: fiz umas quatro aulas de teoria com um amigo, o Nivaldo. É desse pequeno, porém proveitoso aprendizado que comecei não só a afinar, mas também a dedilhar e usar palheta. O resto foi por minha conta e das revistinhas de cifras.

Outra coisa que eu aprendi com meu camarada representou uma virada em minha incipiente carreira: um contrabaixo possuía uma afinação correspondente às quatro últimas cordas do violão. Já trabalhando, fiz o primeiro crediário da minha vida: um baixo Retson e um amplificador Check Mate. O primeiro era pouco mais que uma tábua com cordas, e o segundo tinha o colorido sonoro de um radinho de pilhas, mas eu fiquei exultante com minhas aquisições, e após pouquíssimo tempo de adaptação, já fui me candidatar a fazer parte de alguma bandinha que quisesse arriscar a sorte.

Foram poucas as tentativas antes de concluir que eu não ia para lugar algum, e que o melhor a fazer era me dedicar à faculdade. Na primeira foi o Carnívoro, que, apesar do nome thrash metal, era um power trio em que tocávamos velhos hard rocks da década de 70, e onde aprendi também a tocar bateria. Acabou rápido, com a mudança dos irmãos guitarrista e baterista para uma cidade do interior, deixando-me a pé. Depois, fui para um conjunto que formamos após uma jam de tarde de domingo. Um pessoal mais completo, já com duas guitarras e um vocalista, mais voltados para o emergente pós-punk, cujo nome era Tropa de Choque. Participamos de alguns festivais e arrumamos dois barzinhos para tocar, todos nós com documentos devidamente falsificados. Desisti quando o rumo da galera estava mais dirigido para substâncias do que para música. Fui então tocar com um grupo já formado, o Sentença de Fogo, que tinha um problema curioso: tinham uma bateria, mas não tinham baterista. Explico. O baixista era, ele mesmo, o proprietário do instrumento de percussão. Como aqueles homens-banda ainda eram fenômenos de circo, já era preciso arrumar quem assumisse o papel de baterista. Eu fui um belo dia para assisti-los e acabei resolvendo dois problemas, assumindo o posto de baterista e também de vocalista, já com o compromisso de ceder os postos assim que conseguissem quem os fizessem – o que eu queria mesmo era continuar tocando meu baixo. É que há problemas em ser vocal e batera ao mesmo tempo. Primeiro, a pouca mobilidade. A não ser no intimismo de uma bossa nova, é esperado de um vocalista que haja muita interação com o público, o que não é muito possível para quem está sentado em um banquinho, atrás de uma parede de tambores. E há também a questão da dificuldade de se tocar e cantar ao mesmo tempo. Exceção feita a poucos gênios, dá para cantar e tocar confortavelmente apenas nos grooves. Na hora das viradas, vira um embolo só. As opções não são animadoras - ou se evitam performances arrojadas, tirando a graça da condução, ou se fazem vocalizações extremamente simples, tornando o resultado final eternamente ingênuo. Quem dera eu fosse Peter Hoorelbeke ou Lee Kerslake para conseguir fazê-lo com tanta maestria, mas eu sou eu. A coisa acabou uns seis meses depois, da forma que eu falei: com o recrutamento de um baterista*, minha missão acabou naquela casa.

Isso tudo levou poucos anos, mas me deu uma certa carguinha de experiência, de modo a permitir voos pouca coisa mais altos, as bandas Mosaico e Exílio. Da primeira, uma experiência no progressivo, com um quarteto de baixo, bateria, guitarra e flauta, poucos vocais e com muita incursão pelo jazz. Por incrível que pareça, a banda nasceu para musicar uma peça infantil!!! A trupe que a encenava era a personificação da piração na batatinha, todos amadores com um jeitão meio hippie, meio rastafari. Era um musical do tipo proteção à natureza, onde os personagens cantavam músicas realmente etéreas, e havia um punk malvadão que queria destruir tudo. Nada de novidades, a não ser a intenção de se usar músicas muito mais sofisticadas. Eles usavam músicas em background e faziam dublagens, e o projeto era ter uma banda ao vivo. No caso, nós.

A coisa não deu muito certo. Primeiro, porque a peça era ruim para caralho. Depois, porque criar as músicas no tempo que os atores queriam era coisa infactível. Por fim, a casa dos ensaios recendia a maconha, o que, na época, ainda era uma chave de cadeia daquelas. A casa era de um casal que tinha erva por todos os potes… eles fumavam sem parar, e todas as vezes que íamos lá, ficávamos se borrando todos, esperando a batida dos hômi na porta. Depois, ainda tocamos juntos por um tempo, mais para fins recreativos, até cada um ir para seu lado.

Minha experiência mais séria veio antes disso. Estando "desempregado" do Sentença, fui convidado para fazer parte de uma banda cover do Raul Seixas. A coisa não rolou, por conta da ruindade da galera, mas o batera era promissor e propus a ele um empreendimento novo, só com composições próprias. Eu, Maurício, Moacir e Edson éramos os gajos. Um conjunto clássico de duas guitarras, baixo, bateria e todo mundo no coral. Fazíamos algo próximo do hardão setentista, obtendo distorções mais sobrecarregando as válvulas do que usando pedaleiras (até por conta da limitação dos recursos). Nossas letras falavam essencialmente sobre angústia e desejo de liberdade, com uma boa dose de poesia e filosofia.

O processo criativo tinha um esqueleto fundamental. Basicamente, algum de nós trazia um tema melódico e ficávamos brincando por horas em cima do mesmo, até que dele saísse um arranjo melhor elaborado. Um tempo depois, já com a música consolidada, algum de nós criava uma letra e inseria as partes em dueto. E esse era o "processo produtivo" mais comum – primeiro a música, depois a letra, e por fim a cerejinha do bolo: o nome da tal canção.

Evidentemente, essa ordem poderia ser subvertida. Às vezes, uma boa poesia podia nascer, pedindo para ser musicada. Por vezes, era fácil de encaixar uma melodia que nascesse igualmente de forma autônoma, mas o mais usual era que houvesse problemas, tendo a necessidade de se fazer adaptações, cortando algumas sílabas aqui, umas palavras ali, frases inteiras acolá. Dificilmente era necessário fazer ajustes quando a música nascia primeiro.

Mas havia casos de inversão mais radical, onde a trabalheira (e a sensação de “forçação”) era mais acentuada. Isso ocorria quando a obra começava pelo fim, ou seja, pelo título. Em alguns casos, isso era compreensível. É o que aconteceu com a música tema da banda, que não poderia ser outro a não ser "Exílio", ora pois. Era um rockão com baixo marcapasso bem socado e muito bumbo, e uma pá de acordes dissonantes, que ia variando de andamento, passando para um cavalgado levado só no power chord e meu vocal rasgado: "exilado, solitário, essa é a minha sina…". Putz, pensando bem, era uma PUTA música. Não tinha nada de delicada e chamava muito na emoção, principalmente na hora do solo. Mas esse, como eu disse, era um caso de exceção. Músicas como “Garoa na Serra”, “Todos os Caminhos Levam à Alvorada” e “Muito Além do Porto” eram apenas bons nomes, que, se viraram músicas decentes, foi mais pela via do improvável. Isso porque as coisas têm um caminho mais ou menos certo a seguir, e tudo o que foge a essa rota tem cara de casa que começou a partir do teto.

Bom… isso não é problema de maiores consequências quando falamos de arte, mas eu gastei todo esse português porque eu queria demonstrar que há um sentido certo nas coisas, e que quando não o seguimos podemos ter problemas. Não fosse assim, não haveria razão para utilizarmos metodologias, o que nos leva de imediato a lembrar de pesquisa acadêmica, em especial a científica. Por este motivo, há alguma coisa de errado quando tentamos fazer a coisa ao contrário.

O desenvolvimento de uma proposição segue um rito. A partir da observação de um fenômeno qualquer, que nos desperte a curiosidade e que clame por explicação, buscamos coincidências, repetições e anterioridades que nos permitam formular uma hipótese. Porque aconteceu isso, aquilo e o outro, o desfecho foi tal. Depois disso, procuramos testar essa hipótese, obtendo dados e mais dados que a corroborem ou refutem. Quando pensamos no silogismo aristotélico, esse é o espaço em que formaremos as premissas, e delas extrairemos as conclusões. É assim que funciona. Eu só tenho conclusões se eu tenho dados que confirmem minhas premissas.

Só que essa técnica não é especialmente boa para quem tenha uma conclusão que é tida como verdade absoluta. Em um sentido normal, que parte das premissas para a conclusão, não há nada de errado se essa última não se confirmar. O que acontece, neste caso, é que mudamos a conclusão e pronto. Só que isso pode confrontar aquilo que está descrito em um livro sagrado, e aí temos gasolina no incêndio. As pessoas dificilmente abandonam o conforto de suas convicções, mesmo confrontadas com uma realidade muito divergente de suas crenças. É o que já falei neste texto, por exemplo.

Esse mecanismo funciona terrivelmente bem com religiões que têm suas verdades prontas e que não podem ser mudadas. Tem-se uma conclusão, e procura-se adequar as premissas de acordo com ela. O rito é modificado, é invertido. Na Ciência, obtemos dados para tirarmos conclusões; na Religião, temos conclusões, e procuramos dados que as corroborem. Veja-se Evolução, veja-se idade da Terra, veja-se surgimento da vida. Veja-se tantas e tantas outras.

Isso funciona com absolutamente qualquer religião? É claro que não. O Catolicismo, por exemplo, convive muito bem com teorias como o Big Bang e o Evolucionismo. Deus é o motor que lhes toca e pronto. Mas há gente que é muito mais literalista, e que precisa cumprir seus escritos ipsis litteris, sem tirar nem pôr. Para isso, dentre outras, praticam uma falha argumentativa denominada petitio principii, a petição de princípio. Isso funciona aplicando-se nas premissas os mesmos valores que se aplicam à conclusão, ou seja, a conclusão já é apresentada como verdadeira em uma das premissas do argumento. É um final (conclusão) que demanda um ponto de origem, uma explicação que lhe dê sentido, que pede um princípio. Um belo exemplo está nos nossos divertidos terraplanistas, que inferem, por exemplo, que as estações do ano não podem ser explicadas pela variação posicional do eixo da Terra. O Sol teria um tamanho muito menor do que supomos e transita ora por sobre o hemisfério norte (mais interno), ora pelo hemisfério sul (mais externo), explicando a variação de temperatura. Adota-se de forma não experimental premissas (sol pequeno, movimento concêntrico ao centro da Terra) que, adotadas como verdades, confirmam a conclusão.



Aliás, foi lançado um filme sobre a “teoria” da terra plana que é muito interessante do ponto de vista antropológico (recomendação mais abaixo). São pessoas que se contentam muito com a fama que obtém, mesmo que seja de excêntricos, e, se tem um mérito, é o de ser contestadores. Nenhum conhecimento pode ser considerado confortável, e os terraplanistas fazem de fato os cientistas se exercitarem nas explicações, mesmo que entremeadas a frouxos de riso. É interessantíssimo ver como nossos anti-heróis se debatem consigo mesmos a cada vez que um experimento deles fracassa. É giroscópio, é feixe de laser, é raio de luz, tudo dá errado e esse erro é atribuído a furos na condução da experiência, e não a provas de que a tese é simplesmente errada. Tenha diante de si um mundo redondo e todas essas experiências funcionam. E é tão simples se convencer da esfericidade da Terra... Basta usar a analogia: se todos os astros semelhantes ao planetinha são em forma de globo, por que somente ele não seria?

Mas a petição de princípio não é um fenômeno simples, que é utilizado de forma simplória em pensamentos estapafúrdios. Há debates intensos em alta Filosofia da ocorrência desse erro de raciocínio. Aliás, põe alta nisso. Vou dar um exemplo de como Schopenhauer contestou a Filosofia Moral de nada mais, nada menos que Immanuel Kant, a quem considerava um mestre.

É preciso recordar que Schopenhauer tinha mesmo um jeitão de outsider, não se importando em ser politicamente correto ou simpático com quem quer que fosse. Por isso mesmo, não se furtou em acusar de petitio principii ao argumento do imperativo categórico kantiano. Bem lembramos que este nos diz que toda nossa ação ética deve ser redutível a uma sentença que possa ser aplicada universalmente. Pois bem. Kant dizia que a ética deveria ser tão racional e desprendida de elementos metafísicos quanto qualquer outro juízo poderia ser. Por isso, quando defrontados com uma situação que nos desafia, temos que ter em mente uma lógica do dever: independentemente de qualquer conotação salvífica, o ser humano tem a capacidade de fazer juízo distintivo entre o bem e o mal. Sendo assim, apesar de sua liberdade, um homem DEVE impor a si mesmo a conduta mais racional, ou seja, aquela que penda para o bem. E o imperativo categórico torna-se uma formulação que permite levar essa disposição moral à prática. Por esse motivo, a moral como valor tem a forma de uma lei e uma necessidade absoluta.

Pois muito bem. Schopenhauer diz que há um engano neste argumento. Para ele, a lógica kantiana não prescinde de uma forma teológica, partindo da premissa de que um dever é uma imposição. A ética deontológica só faz sentido se pensarmos na existência de uma prescrição, que, no final das contas, não tem como partir de outro que não seja uma espécie de instância superior, um deus. Do contrário, não é possível se falar em liberdade de escolha. Por este motivo, a ideia de que a ética se submete a leis e que tem necessidade absoluta constitui uma assunção de verdade que se presta a dar guarida ao imperativo categórico. Em miúdos, Kant assume que as leis morais são universais e necessárias. Schopenhauer, um ateu convicto e militante, entende que a lei moral absoluta não tem como existir, haja vista ser o homem, um ser natural submetido pela natureza e pela vontade que lhe guia a razão de agir, só tem os indivíduos de sua espécie como representantes da escolha ética. Estando submetida a indivíduos, que tem cada um suas razões de agir, torna-se insubsistente uma aferição empírica dessas escolhas, já que cada um o faria a partir de sua própria ação, e, sendo assim, torna-se impossível estabelecer leis de conduta. Para Schopenhauer, a lei do dever não é verdadeira, e Kant somente a utiliza para fundamentar a tese do imperativo categórico.

Não vou deixar aqui uma opinião sobre qual desses cachorros grandes está certo ou errado. Meu objetivo era só dar um exemplo clássico de petição de princípio, e demonstrar como discussões sobre argumentos não são meras birrinhas entre comadres de vila. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Primeiro, o documentário da Netflix. Não tenho como deixar de rir ao ver os fracassos de suas experiências, mas a obra contém uma grande advertência: a Ciência distanciou-se de tal forma do grande público que permitiu o surgimento desse tipo de contestação. O cientista ficou antipático, dono de um linguajar hermético e que mais parece um líder de seita. A Ciência ficou menos crível que qualquer explicação mirabolante. E, sim, isso é culpa dos cientistas. Cabe rever a posição e educar cientificamente as pessoas.

CLARK. Daniel J. A Terra é plana (Behind the curve). Filme. Estados Unidos: Netflix, 2018. Cor. 96 min.

Schopenhauer faz suas críticas a Kant na forma de ensaios, que foram coligidos na obra abaixo.

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o fundamento da moral. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

* (um parêntese a se abrir. Sempre foi difícil de se arrumar bateristas pelo simples fato de ser um instrumento caro, mesmo os mais ordinários. Hoje em dia, há mais um agravante pelo fato da migração do povo para os apartamentos, onde as regras de silêncio são rigorosas. Em outra mão, há tanta possibilidade de se construir samples em baterias digitais que um batera em carne e osso praticamente ficou dispensável. Nesse ponto de vista, sou um absoluto reacionário).

terça-feira, 11 de julho de 2017

Navegar é preciso viver - 5ª ancoragem: Campos de Jordão e a música que se abraça à metafísica

Olá!


Chegava-se próximo do feriado prolongado do Dia do Trabalho. Como se sabe, cidades turísticas costumam encher até a tampa nesses momentos, e, dado o frio repentino e inesperado destes dias, seu maior atrativo, ir a Campos do Jordão talvez não fosse uma boa ideia. Mas não há como ir ao sul da Mantiqueira e deixar de passar por lá. Portanto, eu e a patroa convencionamos a sexta-feira como dia bem adequado para subir ao ponto mais alto da serra (e de todo o estado de São Paulo também), com a intenção de não voltar tão tarde, e pegar um fondue no retorno a Santo Antonio do Pinhal. Acontece que a vida tem dessas coisas, e tivemos um bom motivo para ficar até tarde na cidade, como veremos daqui a pouco.


Campos do Jordão é bem maior que todas as cidades circunstantes, e, como tal, possui suas vantagens e mazelas. No primeiro tópico, é preciso dizer que quase tudo naquele lugar é muito bonito, sendo que o próprio portal de entrada já é considerado, por si só, um atrativo turístico.


Mas é um lugar serrano, como eu já falei, e a neblina é algo que fica gravado no subconsciente quando se vai para lá. Mais que isso, pegamos um dia de nevoeiro espesso desde cedo, e muitas das fotos que ornarão este texto estarão devidamente preenchidas por estas partículas de água disseminadas no ar, como no valezinho abaixo. Outrossim, o mesmo fenômeno ocorrido em São Bento do Sapucaí e Sapucaí-mirim se deu por aqui: tudo o que possuísse mais de cinco metros de altura estava invisível. Com isso, teleférico do Morro do Elefante e Pedra do Baú estavam riscados do meu mapa turístico particular.


A arquitetura de Campos do Jordão é bem conhecida: influência europeia. Mas, ao contrário dos sobradinhos portugueses da Vila Maria e das casas operárias italianas da Mooca, o que temos aqui são as construções de tipo enxaimel, típicas da Alemanha, Suíça, Áustria, Bélgica e outros países do norte da Europa. São caras prá burro, mas lindas de morrer.


Fomos dar umas bandas pelo bairro do Capivari, especialmente festivo naquele dia, em vista da festa do Pinhão (que também ocorria na vizinha Santo Antonio do Pinhal). O aspecto das pessoas encapuzadas dava a dimensão da temperatura de então.


Imaginávamos que, caso quiséssemos comprar algum tipo de roupa, teríamos os olhos furados, mas não. Sim, isso era perfeitamente possível, mas com um pouco de paciência foi possível escavar roupas de lã com um preço nem tão para Deus, nem tão para o diabo.


Ao cair da noite, todos os restaurantes de Capivari acendem seus réchauds; tanto os pequenos, para derreter os fondues, quanto os grandes, para manter nossos enrijecidos cadáveres razoavelmente aquecidos. Além dos já mencionados queijos, há também algumas churrascarias e outros típicos da culinária alemã.


Na região do Alto da Boa Vista, visitamos o Palácio Boa Vista, residência de inverno do governador de São Paulo. Foi construído e inaugurado por Ademar de Barros, que, muito antes de Paulo Maluf, já carregava o pouco honorável epíteto de “rouba mas faz”. Óbvio que nosso ex-governante o fez para uso próprio, a toque de caixa, sob o esfarrapo de que se tratava de um lugar digno para um cargo digno, e que a casa não era para ele, mas para todos os governadores em exercício. Bem... a parte disso, a casa é realmente muito bonita, repleta de obras de arte, só que é proibido fotografar seu interior, por alegadas questões de segurança.


Na sequência, fomos ao Museu Felícia Leirner, no mesmo espaço físico onde fica o auditório Cláudio Santoro, aquele do célebre Festival de Inverno. O lugar fica situado em um morro de onde se pode avistar com privilégio a Pedra do Baú, desde que não haja tanta neblina.


Felícia Leirner, como explicou o guia do espaço, foi uma escultora polonesa radicada no Brasil, casada com um industrial da área têxtil. Após a morte do marido, passou a se dedicar à arte da escultura, utilizando os mais diferentes suportes e passando por vários estilos, que constituíram fases em sua carreira, refletidas na divisão a céu aberto das alas do museu.


Foi aqui que ocorreu um fato que mudou a rota do meu rolê. O mesmo guia que nos atendeu informou que haveria uma apresentação GRATUITA da Orquestra Jazz Sinfônica naquela noite no auditório. Será que eu me interessaria?


Só que faltavam muitas horas para o concerto, e o jeito foi continuar fazendo visitas a outros locais. Como já havia vindo aqui quando criança, busquei pela memória minhas passagens, e a que estava mais presente era a Ducha de Prata, onde há muitas lojas e uma corredeira um tanto artificializada, além de uma pequena trilha que leva a uma paisagem com menos interferências.


Apesar de ainda ser sexta-feira, a cidade já estava bastante movimentada, como podia ser observado na Vila Abernéssia, no centro. Passamos meio que voando pela igreja matriz, dedicada a Santa Terezinha...


... e pela praça do chafariz, onde, nas proximidades, encostamo-nos para almoçar.


Logo após, fomos à Casa da Xilogravura, um museu particular dedicado a ensinar aos leigos o nobre ofício da impressão. É instalada em uma grande residência do bairro Jaguaribe.


O espaço é simbolizado por um cachorro, como pode ser visto na pedra talhada na entrada do museu.


Qual seu sentido? É que havia um cão, chamado de Chiquinho, que vivia pelas redondezas, virando uma espécie de mascote da casa. Quando morreu, seu corpo foi enterrado no quintal. A pedra é, portanto, uma lápide. Está tudo bem explicado em um memorial do museu.


Xilogravura, para quem não sabe, é uma técnica em que o artista entalha imagens em madeira para embebê-la em tinta e reproduzi-las em papel ou outro suporte, de maneira idêntica a um desses carimbos de repartição pública. É sobejamente utilizada em literatura de cordel, porque é barata e permite a reprodução de várias cópias, mas a técnica também pode ser utilizada para produzir obras de grande tamanho, como várias das que estão expostas.


Tivemos a oportunidade de conhecer o dono do espaço, o escritor e pesquisador Antonio Fernando Costella, que já legou o museu à USP após sua morte. Estava cuidando do transporte de mais uma obra com sua esposa, por isso não quisemos tomar muito do seu tempo.


Bem ao lado da Casa da Xilogravura, fica situada mais uma igreja, essa dedicada a Nossa Senhora da Saúde, bem mais sóbria que a matriz.


Com a proximidade da noite, tratamos de nos achegar novamente ao auditório Cláudio Santoro, desta vez para assistir ao concerto programado. No foyer, ao invés de um mero café, optamos pelas clássicas sopas locais. No caso, de abóbora.


Já na sala de concertos, como pede a voz da mocinha, nenhum uso de celular após os toques da campainha de Moliére, para respeito à nobre arte da música. Um último flash só para registro, já sabendo que versaria sobre este tema no presente texto.


Devo confessar uma completa emoção já nos primeiros acordes da orquestra regida pelo maestro Fábio Prado, que tem como propósito trazer para o formato sinfonia os clássicos da MPB. Não há como comparar a audição de uma orquestra ao vivo com uma gravação. É a mesma diferença de assistir um jogo de futebol no estádio ou na televisão de sua casa.

Não quero usar aqui a expressão “música de verdade”, porque não é meu direito arbitrar o que é arte e o que não é (vide este texto), mas é somente em uma sala de concertos que podemos notar certas características musicais, como a tridimensionalidade sonora, algo impossível com os paredões acústicos dos grandes shows, com o espaço limitado dos barzinhos ou com os individualistas fones de ouvido. Do primeiro, é possível explorar a potência sonora; do segundo o intimismo e, do terceiro, o isolamento. Mas só no auditório temos a percepção das diferentes profundidades que o som musical pode obter. Uma orquestra é distribuída de modo às diferentes intensidades instrumentais fazerem parte do tecido sonoro, nada está lá por acaso. Percebemos, por exemplo, os sons da tuba vindos de uma direção, os dos timbales vindos de outra, e a tapeçaria de violinos guarnecendo todas as partes, como se fosse possível tocá-los. Isso não é possível de obter em estruturas cuja emissão de som seja concêntrica. E é impressionante como isso faz toda a diferença, inclusive na dramaticidade das peças.

Por isso, não é só uma questão de ser música clássica (até mesmo porque, aqui, temos uma adaptação advinda do popular). É um fato que precisa ser presencial para ser percebido. Outra coisa: somente ao vivo conseguimos ter uma dimensão mais exata da importância de um maestro. A regência é imperceptível no som gravado, e subestimável quando vista pela TV, dando aparência de uma tradição ou dogma, e não de um papel realmente vital. Já no próprio auditório, consegue-se entender sua função quase pastoral, de conduzir seu rebanho musical de forma a ditar-lhe o ritmo, a elevar-lhe a intensidade, a conferir-lhe uniformidade, a destacar-lhe o detalhe. Assistir a um concerto é uma experiência única e necessária.

Mas é preciso tentar entender porque as artes, e a música em especial, exercem em nós tanto fascínio. A música, notadamente a instrumental, não pode nos parecer vazia de sentido? Por que dizemos que uma melodia é triste, heroica, irrompedora, cômica, se ela não diz nada e se nos momentos em que ocorrem fatos tristes, heroicos, irrompedores ou cômicos não há nenhuma música em seu substrato? Vamos tentar entender com Schopenhauer, meu filósofo favorito, mas passando primeiro por Kant.

Racionalistas e empiristas viviam às turras desde os fins da Idade Média. Os primeiros diziam que todo o conhecimento partia do intelecto, enquanto os outros achavam que nascia da observação. Kant resolve a charada, dizendo que os racionalistas tinham razão no que diz respeito à estrutura da mente, que tem a capacidade para receber e processar informações, e que os empiristas estavam corretos ao afirmar que a mente não é nada sem conteúdos. Desta forma, o processamento é racional, e o dado é empírico. No entanto, Kant não deixa de dar uma certa primazia ao processo empírico, porque o homem não é capaz de observar a coisa-em-si, o objeto essencial, o noumeno. O que é possível observar é o particular, o acidental, um exemplar existente, o fenômeno. E por que?

Porque todos os homens são, antes de mais nada, indivíduos. E, como tal, possuem uma perspectiva única sobre as coisas, o que não se resume a uma questão de opinião, como pode parecer. Temos todo um ambiente que influencia nossa formação, fornecendo usos e costumes, temos contingências fisiológicas que podem modificar o modo como apreendemos os objetos, e temos um modo particularíssimo de exercer nossa percepção que é simplesmente impossível de ser constatado pelas demais pessoas. Para entender melhor, imagine o que é a percepção das cores. Pense como eu, você, seu vizinho e todas as pessoas do mundo enxergam a cor azul. Será que todos a vemos igual? É perfeitamente possível que aquilo que é azul para mim, é verde para você. Não se trata de um tipo de daltonismo, onde há um erro na percepção de certas cores. Se absolutamente tudo o que é azul para mim for verde para você, então estaremos de acordo que o objeto é azul e pronto, acabou. Mas qual seria a cor-em-si da coisa-em-si? O meu azul ou o seu azul (que para mim é verde, apesar de não notar)? Percebem como é impossível alcançar o noumeno?

A inovação de Arthur Schopenhauer é a seguinte: sendo um materialista convicto, remove qualquer componente idealista da equação imaginada por Kant. Na sua dimensão ontológica, o mundo é regido pela vontade. Já discuti essa questão neste texto, mas é necessário que me aprofunde um pouco mais para as coisas ficarem claras. A vontade, na concepção schopenhaueriana, é a verdadeira essência do mundo. Trata-se de uma força disforme, incontrolável e que não tem outro objetivo a não ser continuar a existir. Não precisamos perder tempo para tentar imaginar como é a vontade, ela é simplesmente inatingível. É dela que partem todos os desejos e impulsos, por mais ilógicos que sejam, já que na sua dimensão não há causalidade necessária, não há tempo transcorrido e não há espaço preenchido, coisas características dos fenômenos.

Como a vontade se manifesta, se ela é cega e informe? Na forma de representação. Todas as vezes que a vontade nos guia para um desejo, ela passa a ser representada pelo mesmo, de acordo com a circunstância fenomênica. Se tenho fome, a vontade toma a representação de uma picanha. Após ser devorada, outra vez a vontade buscará uma representação, agora na forma de rede para dormir; ao acordar, mais uma vez a vontade será representada por outra coisa, e outra, e outra, e outra... A vontade é um ciclo infinito de representações, que se repetirão insaciavelmente até a morte. Captaram que o noumeno e o fenômeno de Kant são a vontade e a representação de Schopenhauer? A novidade está na dinâmica deste último, que coloca materialidade à ontologia do noumeno e à tangibilidade do fenômeno.

Acontece que tudo isso é agonizante. O desejo infinito impulsionado pela vontade não dá descanso para um ser humano, e, passados anos e mais anos de frustrações causadas pela não satisfação dos anseios desta vontade ou pelo tédio de sua concreção, o que resta é a angústia e uma sensação de impotência e irrealização. Como sair desse círculo vicioso? Schopenhauer dá dois caminhos.

O primeiro é a ascese. Schopenhauer era um estudioso de doutrinas orientais, especialmente do Budismo. A prática contemplativa dos monges, para quem é mais desejável um descolamento do mundo do que o enlace vigoroso aos bens e às vaidades, é um modelo a ser seguido. Para resistir aos imperativos da vontade, é preciso voltar as costas às suas representações. É um processo que requer um costume, doloroso a princípio, dada a intensa sensação de perda, mas que aos poucos se solidifica, na forma de indiferença.

A outra chave é a contemplação estética, atingindo seu apogeu com a música. Schopenhauer entende que as artes possuem o condão de fugir do grilhão da vontade justamente por não se focar em causalidade ou temporalidade, necessárias para formar a representação. A experiência estética é uma maneira de fazer uma intuição direta dos sedimentos que ficam por trás do mundo experienciável, sem passar pelo crivo da individuação. De fato, se notarmos que a apreciação da obra de arte tem o viés de escapar do fenômeno que é apresentado diante do apreciador, poderemos perceber o alto nível de abstração que temos como atingir. E a primazia da música vem justamente disso: enquanto manifestações como a arquitetura, a escultura, a pintura, o teatro e a literatura lançam mão de objetos concretos para suportar seu sentido subjetivo, a música prescinde disso. Seu único ponto de concretude é o som, e nada mais. A música consegue transcender a razão, dispensando a formação de conceitos que, em tese, desvirtuariam o acesso direto à vontade, transformando-a novamente em representação. É como eu já falei mais acima – sem adicionar nenhum tipo de ideia ou linguagem, a música consegue trazer expressão aos mais diversos sentimentos, sem que consigamos explicar o porquê. Justamente porque sintoniza a vontade sem a atenuação da lógica, do sentido, da razão. A música plasma a própria vontade.

Desta forma, enquanto a ascese é uma solução que volta as costas para a vontade, a música a encara nos olhos, mesmo que não seja um fármaco permanente para o problema do sofrimento causado pela sua eterna pulsão. O absurdo da existência, portanto, é atenuado por essa panaceia, e não extinto.

Percebam como Schopenhauer precede um monte de gente. Os existencialistas lhe são tributários pela expressão da angústia. Nietzsche importa e concorda com a vontade nas camadas inferiores da consciência (ainda que mais tarde passe a discordar de sua posição), e Freud traz dele o conceito de inconsciente que rege as ações e desejos. É pouco?

Incluam uma audição em sala de concertos naqueles projetos para fazer antes de morrer, nem que seja para discordar verticalmente de mim. E, se possível, aproveitem para aquecer o estômago e o coração na fria região da Mantiqueira.

Recomendação de leitura:

Já recomendei anteriormente o capolavoro de Schopenhauer, por isso recomendarei outra obra, na verdade um extrato de seu imenso livro Parerga e Paralipomena, em que são reproduzidas suas aulas na Universidade de Berlim relacionadas à arte.

SCHOPENHAUER, Arthur. A Metafísica do Belo. São Paulo: Unesp, 2003.