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sábado, 25 de fevereiro de 2023

Os verdes mares de onde não há mar – 12ª Parada: Senador José Bento e uma palavra sobre o sincretismo religioso

(Adaptar para sobreviver. Essa é uma assertiva tão válida que acontece até onde não vemos)

Olá!

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Estou quase nos últimos dias dessa minha viagem. Duas coisas determinam o término: o prazo que se esvai e o dinheiro que acaba. É uma dupla ainda mais inexorável que o destino, mas não adianta chorar pelos cantos. O melhor que tenho a fazer é ainda tentar achar mais algum cantinho para visitar, e por aqui isso não é tarefa difícil. Vou até Senador José Bento, e por lá pegar algumas paisagens.

Esta pequena cidade proclama sua região como Vale do Café com Leite, porque fica na confluência entre as áreas dos laticínios e dos cafeicultores, duas atividades nas quais Minas Gerais se celebrizou, uma há muito tempo (e que foi sinônimo de política nacional) e outra mais recente, aproveitando suas características naturais.


A cidade é toda cercada por morros, o que favorece as vistas e dificulta as construções. A tradicional igreja é dedicada a São Sebastião, e fica no topo de uma das incontáveis colinas.

Este é um dos santos mais populares do Brasil, em parte por seu sincretismo com a Umbanda, onde ele é Oxóssi, o orixá da caça e das matas.

Para quem não sabe, esse modelo sincrético foi a maneira com a qual os negros escravizados puderam continuar a exercer seus ritos e sua fé, porque havia uma religião oficial no reino e nas primeiras repúblicas, o que fazia com que fosse necessário o uso de subterfúgios.

Para além disso, o soldado Sebastião foi um dos muitos mártires dos primeiros séculos do Cristianismo. Em certos períodos do governo romano, algumas perseguições eram levadas a cabo para quem não oferecesse sacrifícios aos deuses do império, ou simplesmente se confessasse como tendo fé diversa. Há semelhanças entre os dois dramas? Sim, há. Por isso as dicotomias Oxóssi/Sebastião, Ogum/Jorge, Iansã/Bárbara se tornaram tão populares.

Mais uma coisa: como nos aproximávamos do Natal, esta foi a primeira cidade em que vi alguns preparativos para a grande festa. Os ritos dizem que os preparativos devem começar no Advento, quatro domingos antes do Natal, mas o pessoal já foi enfeitando a praça ainda antes.

Pela área rural, percorri por várias estradinhas de terra e passei por cachoeiras e fazendas, algumas com cachoeiras dentro, mas fechadas. Uma das mais famosas foi comprada recentemente e a dona resolveu não franquear mais o acesso. Pena. Fui também atrás das pedras, sendo a mais famosa delas a Pedra do Mirante, que fica bem na estrada para Poços de Caldas.

Ela se tornou célebre principalmente por conta de seu facílimo acesso, pelo local privilegiado e, naturalmente, pelo ponto de visada que proporciona.

Tanto é assim que acabou recebendo estrutura mais robusta, com escada e plataforma, e até placa comemorativa.


Voltando para a questão do sincretismo, que é especialmente forte quando envolve religiões de origem africana. Como acontece com qualquer região do mundo, os africanos tinham sistemas religiosos e cosmogônicos, e dada a distância entre os territórios e as culturas, diferiam muito daquilo que era praticado nos lugares para onde eram levados. Entretanto, o substrato da formação de suas religiões tinha grandes semelhanças com o de todas as outras.

Se nos reportarmos ao filósofo holandês Baruch de Espinoza, observaremos que a origem das religiões se dá em duas instâncias. Primeiramente, o humano em relação com o mundo está sempre em uma posição de conflito e incerteza. Embora a terra dê frutos, o sol traga calor e as árvores façam abrigo, há momentos em que a terra resseca, o sol calcina e as árvores caem sobre nós. De membros harmoniosos, tornam-se vilões. Levados a um espaço temporal maior, os ciclos se tornam detectáveis, mas há momentos inexplicáveis em que eles não se repetem, e a habitualidade construída em cima dessa roda que gira falha, às vezes com consequências dolorosas. Diante desse cenário, o homem vive em permanente ansiedade, simplesmente porque não consegue ter controle dos fenômenos. Tudo parece longe de suas mãos, com conformação muito difícil, porque, afinal de contas, ele age no mundo: planta, coleta, constrói, limpa, recolhe, pastoreia, prepara, faz e desfaz. No entanto, tudo vai à bancarrota por um evento qualquer – um ano seco, um vento forte, uma maré alta, um tremor de terra. O ser humano percebe os limites de sua ação e como é pequeno diante do universo que não lhe demonstra empatia, embora haja aquele papinho bonito de perfeição e de funcionamento esmerado.

O ser humano vive nessa incerteza, mas não lhe agrada nem um pouco essa condição. Não se conforma, e quer, de algum meio, influenciar no seu próprio destino. Dessa forma, inicia-se uma correlação de coincidências que o faz pensar na existência de um ser maior, que guia os rumos do mundo e o dele próprio, que é suscetível a humores e que pode trazer alvíssaras e desgraças, conforme se sinta agradado ou insultado. Nada mais do que a projeção de sua ansiedade em um ser externo, maior e mais poderoso, passível de ser agradado ou irritado.

Eu fiz isso e choveu, eu fiz aquilo e estiou. A impressão imediata é que minhas ações tiveram alguma influência no clima, como se este fosse controlado por alguma divindade. Então eu passo a repetir esse ato na forma de um ritual, irrefletidamente. Ele se torna tão forte e arraigado que acaba ganhando um status de inerrância. Quando ele falha, o erro não está no rito, mas na forma que o pratico, ou na falta da minha fé. Essa é a segunda faceta de Espinoza: a ignorância. Pela minha falta de capacidade em intervir, eu acabo atribuindo a alguém de fora essa prerrogativa, e busco maneiras de agradá-lo, com danças, palavras mágicas, imagens, sacrifícios. Isso não é nem própria ou unicamente da religião, mas da atitude humana perante sua limitação. Eu puxo pela memória e recordo, entre nuvens, da minha mais antiga reminiscência futebolística, e já lá, na aurora da minha vida, estava esse mesmo sentimento. Na primeira invasão corinthiana, em 1976, estimados 70000 fanáticos empurravam o time contra o Fluminense. Jogo feio em campo inundado, que chegou aos pênaltis. Nos momentos que antecediam as cobranças, minha mãe pegou as pontas de todos os lençóis da sala/quarto da casa da minha madrinha, e tratou de amarrá-las. "É para prender as mãos do goleiro do Fluminense", disse a crédula genitora. Tratei de amarrar tudo o que tivesse pontas também – lenços, toalhas e mangas. Deu certo, mas só naquele dia, porque na final, contra o Inter de Porto Alegre, não houve mandinga que desse jeito. 

Por que isso é ignorância, segundo Espinoza? Porque apartamos a deidade do mundo. Se a terra encharcada não produz, o que precisamos fazer é torná-la menos compacta, mais arenosa, drená-la melhor, plantar ervas que admitam mais água. Ela não precisa de nada além disso, que se voltem os olhos para ela mesma, e não para sortilégios que a modifiquem magicamente. Cuidar da terra é cuidar de Deus, porque ele está em tudo e é tudo, diz o holandês. Tudo o mais, é desconhecimento, é ignorância. Não adianta danças, velas, imagens. O que é preciso é cuidar das próprias coisas.

O discurso óbvio é de que essas crenças são primitivas, e que são descendentes diretas dos antigos animismos. Mas quando você ora, meu irmão, você está fazendo a mesma coisa. Mesmíssima. Estruturalmente, as religiões são tão parecidas que permitem o sincretismo. E um exemplo recentíssimo vem na forma de "Marcha para Jesus", evento evangélico que aproveita um feriado católico, o Corpus Christi, para ser levado a cabo, a ponto de, no mínimo, estar empatando em impacto. Nas grandes cidades, certamente já superou. E os tapetes de serragem da celebração católica vão ficando cada vez mais restrito às cidades do interior. A lógica é simples: aproveita-se um espaço de tempo sem significado para uma determinada comunidade e aplica-se uma lógica nova, em substituição à prática antiga. Isso não é novo: a própria escolha do Natal levou em conta a existência de uma comemoração pagã e procurou substituí-la.

Há uma diferença crucial, porém. Quando duas culturas concorrentes se encontram, temos que ambas se imiscuem, de forma a se obter um resultado final mais consensual, como é o caso da marcha mencionada. Entretanto, quando há a sobrepujação de uma sobre a outra, vemos um fenômeno de resistência, tal como aconteceu com o Catolicismo predominante e as religiões oriundas da África, Candomblé à frente. Esse fenômeno não é único: a Santería cubana e o Vodu haitiano sofreram o mesmo processo sincrético. Em todos esses lugares, a população trazida não tinha suas culturas e valores reconhecidos e levados em conta. Por definição, tudo o que viesse deles era considerado desprovido de valor. Acontece que não se mata uma cultura dessa forma, como se fosse possível jogá-la para o esquecimento da história. E o sincretismo foi a forma encontrada para sua manutenção. Usando simbologias preexistentes, usavam-nas por assimilação para não deixar morrer seus cultos, trazendo uma completa ressignificação para esses elementos. As imagens dos santos é o exemplo mais visível na interação forçada entre Candomblé e Catolicismo.

Há uma quase vingança nisso. A imagem de são Jorge foi praticamente banida das igrejas católicas, por conta de um mal explicado édito que retirou dos altares uma porção de santos considerados pouco documentados. Se por um lado a medida trouxe um pouco de realidade para uma área crivada de elementos lendários, por outro desconsiderou toda a tradição de regiões inteiras. São Jorge é padroeiro da Inglaterra, de Portugal e muitos outros países, além do meu notável Corinthians. Quem não deixou a tradicional imagem sobre o cavalo, combatendo o dragão da maldade foi exatamente o processo sincrético com os cultos africanos. Sua imagem, aqui no Brasil, foi mantida viva por ação da Umbanda e sua associação com Ogum.

Eu, pessoalmente, tive pouco contato com cultos afro-brasileiros, mas que também não é nulo. Três foram as ocasiões: quando eu era criança ainda, no fim da rua sem saída que minha avó paterna morava existia o terreiro da Vó Sabrina, onde eu vivia catando amora durante as giras, porque o quintal ficava aberto. Já rapazola, essa mesma avó ia ao Jardim Colorado, onde existia o terreiro da Mãe Joaquina. É lá que tomei um passe pela primeira vez. Por fim, bem mais recentemente, havia na Liberdade um outro centro, que se mudou para o Bresser, chamado Casa da Fé. De todas elas, pude tirar conclusões interessantes, cada qual dentro das minhas possibilidades. Da primeira, aprendi que um lugar de culto também pode ser um lugar onde você não é obrigado a ter uma posição sisuda, e nem que te fiquem obrigando a segui-lo, entrando e saindo a hora em que bem entender. Do segundo, consegui captar que existe uma arte popular alegre, que inclui danças e cantos que te puxam pelos sentidos, sem sentimentos de culpa. Da terceira, conheci formas de encarar a transcendência de uma maneira inesperadamente sofisticada, que tem respostas melhores que o Cristianismo para certos aspectos, embora eu igualmente não creia em seus desígnios, mas aceite tranquilamente sua visão de mundo. Sobre os princípios gerais destas vertentes, deixarei para momento oportuno, quando também tiver aprendido mais sobre elas. 

Tudo junto e misturado, aproveito para falar um pouco sobre o senador que nomeia a cidade. Ele era um padre e político, além de jornalista que fundou um jornal em Pouso Alegre. Participou de eventos importantes na virada do primeiro para o segundo reinado, e foi assassinado numa tocaia próxima à sua fazenda. Não se sabe bem os motivos para tal ato, mas há duas hipóteses mais aventadas: motivações políticas ou disputas demarcatórias. De uma forma ou de outra, também na sua história vemos a imbricação de duas histórias: o padre de princípios conservadores e o senador com ideias liberais. É assim que o mundo se move – controverso e paradoxal. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Espinoza é um dos pensadores mais desafiadores da nossa espécie. Segue o livro onde ele cuida da formação das religiões.

ESPINOZA, Baruch de. Tratado teológico-político. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 9ª mirada: Salesópolis e a metafísica no delicado nascimento do Rio Tietê

Olá!


Nunca ouvi dizer que uma dança da chuva tenha tido efeito reverso. Então não adiantou nada sair se sacudindo com a patroa nas ladeiras de Santa Branca. A sexta-feira amanheceu tão chuvosa quanto tinha sido a noite anterior. Sim, eu sei. Danças são para produzir aguaceiro, e não para estiar. Como eu não acredito em nada disso, deve ser o motivo universal da falta de fé e, sendo assim, o negócio é pegar barro mesmo. Faz parte e não há de perturbar. Há outro calçado na mala.

Este dia estava pleno e absoluto, porque, apesar de perto da Terra da Garoa, sempre há descarga de mala, desembaraço de hotelaria e um certo balouçar indeciso até pegar o rebolado da viagem, o que come importantes horas no cômputo líquido. Com isso, logo após o café bem cedo, apontei meu nariz um pouco mais ao sul, para conhecer a pequena cidade de Salesópolis, o berço do Tietê.


O antigo nome da cidade era São José do Paraitinga, e foi modificado para homenagear o presidente Campos Sales, uma honraria da qual sou comumente contrário. Seu padroeiro é São José, e sua matriz tem o habitual estilo do colonial tardio, com traços neoclássicos.


Toda a igreja é cercada de referências ao santo em questão. Pode parecer estranho hoje em dia, mas São José não era um dos santos mais cultuados no começo da igreja, talvez por seu papel pouco destacado nas páginas bíblicas. Hoje em dia, é muito recordado como padroeiro dos trabalhadores, e do lado de fora podemos ver uma representação da sagrada família com nosso caro em plena labuta.


Não ficamos muito tempo na área urbana, no entanto. No caminho para as nascentes do Tietê, há um restaurante conhecido como Senzala, que vai muito além da propositura gastronômica. Diz-se que é uma área onde uma antiga senzala se quedou abandonada após a abolição da escravatura.


Estando recoberta de mato, foi localizada por um comerciante que tinha uma filha adotiva. Tomou posse do lugar, que não possuía proprietário formalizado, e lá a transformou em sua habitação. 


Atualmente, a família da menina adotiva já está em sua quarta geração, procurando preservar a casa em seus aspectos essenciais, como as paredes de pau a pique e o chão de terra ou de tijolos.


Quem nos narra a história é o atual proprietário do lugar, o João, que mostra com orgulho os diversos móveis, objetos e utensílios ali existentes, como o maquinário manual para produzir farinha de mandioca.


Seguindo adiante na estrada, já bem embrenhado na parte rural, fica localizado o Parque Nascentes do Tietê. O nome não é um romanceamento como se gosta de fazer com os condomínios fechados das beiras de estrada, mas um espelho da realidade: é aqui que nasce o tão judiado rio.


Já quero agradecer ao administrador Daniel, que nos deu valiosas orientações sobre o parque. Para chegar à nascente propriamente dita, há quatro alternativas de caminho, sendo um direto, dois por trilhas curtas e um por trilha mais longa, de cerca de dois quilômetros. Foi por essa que eu fui.


Estava tudo bastante molhado e cheio de formigas, mas foi bom notar como a vegetação, apesar de espessa, é jovem. Não há grandes árvores com grossos troncos, porque a redondeza era destinada a pasto até não muito tempo atrás. Por aqui, o Tietê ainda é um pequeno regato.


O ponto exato de onde surge o rio faz compreender como o equilíbrio natural é delicado. Não fosse a placa demarcatória, dificilmente se saberia que ali nasce um rio que corta o estado de São Paulo praticamente inteiro, com sua inconsueta direção que se afasta do mar.


Há três pontos de onde a água brota. O primeiro é uma rocha fendida por onde escorre um fino filete d'água...


... o segundo é de uma fenda mais rasa, onde foi colocada uma calha de taquara para que a água fique mais visível...


... e o terceiro é um olho d'água, onde o líquido sobe pela areia do fundo do pequeno leito, formando um minúsculo torvelinho.


Como chovia, tudo isso ficava um pouco mais complicado de fotografar. Prova da boa qualidade da água que lá surge é a presença de muitas aranhas d'água e dos pequenos guarus, peixinhos bem pequenos e muito comuns na região. Coloquei uma sinalização na foto para ficar mais visível (aranha em vermelho, guarus em preto). Também tinha bastantes girinos no local.


Daí por diante o curso do rio vai se avolumando aos poucos, ganhando consistência na medida em que outras pequenas minas vão afluindo para ele. A água nesta região é perfeitamente limpa e plenamente potável.


No próprio parque há um memorial que dá informações da cidade de Salesópolis e da criação do parque, com um bom número de painéis explicativos e uma maquete que demonstra o perfil hidrográfico da região.


O mais interessante e chocante são os comparativos entre a coloração das águas do rio Tietê durante seu curso. Na foto, água colhida da nascente e na cidade de São Paulo. Chega a ser desesperador. Menos mal que, de lá para frente, a imundície se disperse, até voltar a ficar limpa pela região central do estado.


Uma pausa para se secar e almoçar, partindo para nova empreita. Desta vez, pegamos a Estrada dos Freires para ir até o Museu da Energia de Salesópolis. Gerenciado pela coordenadora Simone Villegas, e, no dia, auxiliada pela guia Carol, é um espaço muito bonito, todo florido, cheio de bananeiras e goiabeiras, além da tropa de cinco cachorros que elegeram o local como moradia.


É surpreendente, mas a poucos quilômetros daquela pequena nascentezinha de três pontos, o rio Tietê já pega porte suficiente para permitir a construção de uma usina hidrelétrica, ainda que não muito grande.


A usina em si tinha capacidade para abastecer de energia elétrica pequenas cidades da região. É preciso considerar que em 1913, ano de sua fundação, a redondeza era naturalmente muito menos habitada que hoje.


O maquinário é o mesmo desde a inauguração. A usina parou de produzir energia na década de 80, mas está em fase de testes para voltar a operar em tempo constante. Tivemos a sorte de pegar a usina em pleno funcionamento.


Esta tubulação é destinada a trazer a água da represa que fica lá no alto. Para quem não sabe, uma usina hidrelétrica funciona utilizando o efeito da gravidade, com a força da água movendo as pás das turbinas, que, por sua vez, é transformada em energia elétrica pelos geradores vistos na foto anterior.


No passado, a operação da usina demandava um bocado de operários, que, dado o isolamento do empreendimento, habitava por lá mesmo. Algumas das antigas casas ainda estão lá, com o seu estilo bem típico.


Seu uso hoje é outro. Em seu interior e em seu entorno, há uma série de artefatos que demonstram o funcionamento da eletricidade, com a possibilidade de interação dos visitantes, como os geradores a pedal e as limalhas magnetizadas.


Em outra das casinhas, há o assim chamado Espaço Água, que conta o histórico da usina e da cidade de Salesópolis, incluindo informações sobre a mata e a fauna nativa.


Um dos operadores atuais, chamado Elvis, é um entusiasta da observação de aves, e promove, por iniciativa própria, algumas atividades neste sentido. É uma zona onde se encontram quase trezentas espécies, inclusive uma ave em sério risco de extinção, o bicudinho-do-brejo paulista, que virou uma espécie de símbolo do lugar.


Para subir até a represa, é preciso encarar uma escada de 250 degraus. Já encarei até maiores, mas esta foi, de longe, onde eu mais me cansei, pela extrema irregularidade nas dimensões dos degraus.


O topo da escadaria, entretanto, permite uma vista muito bonita do vale, e dá uma grande visão geral do complexo do parque, que tem, como se pode esperar, um grande desnível com relação à base.


Esta é a represa formada pela barragem, em contrastante mansidão com o fluxo frenético da queda d’água.


E este é o escoadouro que faz vazar a água acumulada. É controlada por um sistema de comportas que ora retém água, ora a faz descambar morro abaixo.


Vejam como as coisas se dão em um equilíbrio delicado, que nasce como um filete, mas que toma uma dimensão enorme, que atravessa grandes porções de território, se torna imundo, mas depois se revigora, em um ciclo de renovação e recriação que tenta, a força, se manter. A vida resiste, mesmo nas coisas brutas.

Em mais de um texto (aqui e aqui) me reportei a uma espécie de espiritualidade que escapa da religião, algo como uma integração ao universo que sentimos ao nos defrontar com a imensidão ou a nos perceber como parte da engrenagem cósmica. Há quem perceba nisso uma espécie de equilíbrio natural que tende a trazer as coisas aos seus lugares, há quem veja isso como a obra de um deus criador, que rege todas as coisas com tal poder que nos diminui a condição de moscas. E há quem conjugue as duas coisas. Esse quem é Baruch de Espinoza, de quem falaremos a partir de agora.

Já espanei de leve o assunto aqui, mas entendi que fazia sentido aproveitar o ensejo e aprofundar o estudo. Forçando o trocadilho, Espinoza teve a vida muito espinhosa. Sendo judeu, foi expulso da sinagoga (chérem). Estando em país cristão, a Holanda, foi excomungado. Tudo isso por sua concepção sui generis com relação a Deus. E o começo é a ideia de substância que nosso holandês de pais portugueses tinha. Desde os tempos aristotélicos, a Metafísica olhava para a forma e a matéria que compunham os seres e as chamava de ousía, a base de todos os seres e que ancora cada uma das coisas a uma realidade que lhe é subjacente, que lhes tornam o que elas são. Aristóteles entendia que cada objeto no cosmos tinha sua própria substância, mas Espinoza entendia que essa substância era única e comum a todos os seres, sendo que as diferenças entre os objetos estão apenas no plano do aspecto.

Mas o que seria essa substância que permeia todo o universo e está presente em todas as coisas? Para Espinoza tanto pode ser chamada de Deus ou de natureza. Deus é natureza, e natureza é Deus. É o conceito de causa sui, a substância que é causa de si mesmo e que está em tudo, absolutamente tudo no universo.

Como podemos reconhecer a natureza como causa de si mesma? De uma maneira extremamente simplificada, podemos pensar no seguinte: a cada vez vemos brotar uma planta, surgir um bicho, desaguar um rio. É da natureza que provém a natureza. Mesmo quando chupamos a mais artificial de todas as balas, é de algum elemento natural que lhe foram extraídos os componentes. Equivalendo natureza e Deus, como em Espinoza, podemos afirmar que é a natureza que dá existência à própria natureza, que é a natureza que dá a essência à própria natureza e é a natureza que dá potência à própria natureza. Substitua o nome natureza por Deus e teremos a mesma lógica.

A concepção de Deus em Espinoza, portanto, é muito distinta daquela imaginada por teístas. Deus, ainda que colocado em um trono, é movido pelas mesmas paixões que o homem. Mesmo que os monoteísmos representem, de certa forma, uma evolução da visão quase animista do politeísmo pagão, permanece a visão de Deus como um homem acima dos demais, destacado do mundo assim como um rei se destaca da sociedade. Apenas utilizando como exemplo, é possível ver como o Deus cristão é ciumento (Ex 20, 5), vingativo (Dt 32,35), enternecido (Os 11,8), paciente (1Cor 13, 4), muitas vezes tendo atitudes opostas entre si quando tratando de um mesmo assunto. Enfim, uma divindade humanizada, porém colocada à parte, transcendentemente. Não é difícil de entender isso quando se olha a própria Bíblia. Mas Espinoza também vê Deus nos seres desprovidos de alma, já que ele é um monista de substância. Essa tal de alma não há, enquanto corpo e pensamento são também da mesma substância e parte da mesma natureza e do mesmo Deus.

Eu sou corpo, assim como minha mente é corpo, e as mentes e corpos dos outros fazem parte da mesma natureza que nos une e da qual somos copartícipes. Eu não sou uma substância particular, mas uma individualização que ocorre por conta dos movimentos e do repouso que me são peculiares. Dessa forma, temos o afeto no pensar de Espinoza, que nos modifica e renova, e isso também ocorre quando sou tocado, no corpo e na mente, por toda a delicadeza da vida que se origina e renova. O afeto é movido pela potência de agir, que Espinoza dava o nome de conatus, e que cresce ou diminui na medida em que um corpo consegue ou não manter suas proporções de movimento e repouso. Sim, é como se fosse uma vontade de viver. E essa vontade se espelha também nas coisas, no Rio Tietê que resiste à sua morte ao passar pela metrópole e que deságua na divisa com o Mato Grosso do Sul já totalmente renascido.

Deus não está apartado do mundo. Ele é o próprio mundo, expresso na natureza. Ele não vive na transcendência, como se estivesse nos céus, mas é imanente, está aqui conosco porque nós mesmos somos parte dele. Não somos como Deus, somos Deus. E assim também é tudo o que é de bom e de ruim, tudo o que é de leve e de pesado, tudo o que é de claro e de escuro, sem tirar nem pôr. Daqui, temos o seguinte: quando se refere a Deus, Espinoza é um panteísta; quando o equivale à natureza, torna-se um ateu. É mais ou menos essa uma dupla designação que se atribui a ele.

É claro que uma visão dessas não iria agradar nenhum dos próceres religiosos, ainda mais em uma época que eles gozavam de tanto poder. Um Deus sem personalidade, sem vontade própria, sem intelecto, e, principalmente, sem o bastão do castigo aos que erram, sem um livro de regras na mão, e cujos atributos são simplesmente a eterna necessidade absoluta e a impessoalidade, que tanto se aplica ao bem quanto ao mal... É, não podia dar certo. Espinoza viveu no início do século XVII, momento em que os judeus eram expulsos a torto e a direito dos países cristãos, e apresentar um deus com esse formato fazia com que nem pela origem, nem pelo ideário, Espinoza tivesse vida confortável, terminando seus dias como polidor de lentes.

Essa concepção metafísica de Espinoza, no entanto, representa uma novidade importante para nós, nestes tempos em que a vida da natureza se encontra em uma encruzilhada, onde não sabemos onde a necessidade de desenvolvimento nos levará. Se pensarmos na natureza como um todo que nos doa nossa própria existência, e ainda que a chamemos de Deus, teremos a oportunidade de rever algumas condutas. Será que é justo afrontar com toneladas de lixo e de egoísmo nossa própria divindade?

Bons ventos a todos...

Recomendação de leitura:

É um livro complexo, como complexo é todo o pensamento espinozano. É um daqueles caras que nos coloca em apuros na faculdade, mas, com um pouco de boa vontade, vale a pena conhecer.

ESPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (17 – Filosofia Ambiental)

Olá!


Era uma vez um tempo em que os homens não se preocupavam muito com o ambiente que os rodeava. Havia uma profusão tão grande de meios naturais que não parecia haver riscos em se derrubar uma boa parte das florestas, extinguir uma boa parte das espécies ou transformar uma boa parte deste ambiente em meio urbano, mais apropriado às comodidades típicas do lento progresso tecnológico. É bem verdade que, aqui e ali, fosse notado um aumento das tosses, a troca da poeira pela fuligem, um acinzentamento do horizonte, o sumiço de bichos tão comuns em outras eras, mas a vinculação entre os fenômenos era toldada pelo conforto e pela acumulação. Acontece que os tempos passaram, e a falta de cuidado empilhada por milênios de relações conturbadas vai cobrando seu preço, representada por temperaturas elevadas constantes e uma umidade tão baixa que enchem nossos narizes de escaras. Será que não perdemos nossa noção de participação do meio natural? Será que nosso distanciamento com o que éramos originalmente não nos leva a uma situação pior daquela que tínhamos anteriormente? Será que temos riscos reais de pôr tudo a perder? Será que ainda há algo a fazer? Essas são as perguntas que fazem brotar um campo recente para a coruja de Minerva plainar, a Filosofia Ambiental.


Pelo fato de ter se destacado o mote do ambiente das demais áreas de investigação filosófica, dá a impressão que a Filosofia nunca se preocupou com questões ambientais. Não é verdade, até mesmo porque o primeiríssimo tema abordado pelos filósofos ocidentais foi justamente a questão do cosmos, qual a origem e o fundamento último das coisas, chegando à arché, já tão explorado neste espaço. E é claro que não dá para falar do universo sem falar da natureza que nos rodeia. Basta que se veja quantos tratados denominados De Natura (Sobre a Natureza) possuímos na Filosofia pré-socrática. Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Parmênides, Melisso, Empédocles, Anaxágoras e outros compuseram textos assim denominados e que se preocupavam em tratar da questão. Ora, direis, quando esses filósofos falam de “natureza”, não é sobre arvorezinhas e bichinhos, mas sobre aquilo que é inerente às coisas, o que é a natureza das coisas, seu ecochato. Eu sei disso, mas hás de concordar que o mundo em seu estado natural é a melhor forma que temos de descrevê-lo e entendê-lo pelo que ele é. Não vamos fazer explorações botânicas ou paleontológicas no meio da Praça da Sé, mas em meio mais rústico, o mundo como seria se não houvesse a interferência humana. Sendo assim, investigar a natureza das coisas exige um tal nível de regresso às origens que somente a podemos encontrar no mundo preservado, e isso nos faz ter um elo com essa Filosofia mais antiga. Ademais, estes filósofos não faziam a distinção entre o homem e a natureza que passou a ocorrer a partir dos sofistas e seu antropocentrismo, radicalizado a partir da trinca clássica Sócrates-Platão-Aristóteles. O homem era tão parte do mundo quanto a arvorezinha e o bichinho, ou seja, não era apartado do meio natural. E mais ainda, uma parte da metafísica da arché era baseada na ideia de elementos naturais como basilares na composição do cosmos: Tales com sua água, Xenófanes com sua Terra, Anaxímenes com seu ar e Heráclito com seu fogo, além da mistura de todos eles proposta por Empédocles. Portanto, a Filosofia não nasce descolada do meio ambiente, apenas acontecia que a relação entre homem e natureza possuía linhas de divisão mais borradas. A questão se torna mais importante somente após a Revolução Industrial, quando a interferência humana se torna muito mais significativa. E influente. E perigosa.

É óbvio que o salto entre a filosofia da physis e as revoluções técnicas não foi tão abrupto. Do intimismo do homem como parte da natureza dos gregos antigos, passamos para a visão do homem como objeto de estudo, que possui um tempo distinto do meio natural e uma possibilidade de conhecer que não se encontra em qualquer outro ser. Platão dá a nós uma visão desconfiada com relação aos nossos sentidos: tudo o que podemos apreender dos objetos são suas aparências – o verdadeiro conhecimento está no intelecto. Dessa forma, a nossa interação com o ambiente que nos cerca, incluindo o natural, é passível de erro. Esse é um nascedouro, quase embrionário, de um afastamento cada vez mais crescente com a ideia do homem natural.

A coisa não muda de figura no período teocêntrico da Idade Média. Apesar de se ter em mente que Deus cria tudo o que existe, incluindo homem e natureza, este primeiro é um ser especial, criado para ser o herdeiro das benesses divinas. De acordo com a escrita bíblica, Deus dá ao homem a primazia sobre todo o restante do universo, ao fazer dele uma imagem de si próprio. Desta forma, há uma espécie de hierarquia relativa ao domínio sobre o cosmos. No alto, o Deus criador de todas as coisas. Em seguida, o homem, sua imagem e semelhança. Por fim, todo o restante da natureza. Apesar de reconhecer o homem como proveniente do mesmo Deus, dá-se a ele um estatuto de dominador, que pode decidir seu uso e seu destino (“E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi” – Gn 1:28-30). Aliás, se considerarmos que é da natureza que o homem extrai sua perdição, ainda que simbolicamente, perceberemos que a relação com o meio natural possui sua dose de conflitos. Afinal, é pela influência da serpente e do fruto da árvore no centro do jardim de Éden que se concretiza o pecado da desobediência e da vontade de autossuficiência, considerados mortais na exegese judaico-cristã. Não parece que estas predisposições influenciem diretamente nos problemas ambientais contemporâneos, mas percebam como vai se formando um cerne que opõe ser humano e sua ambiência.

Nós já sabemos como termina a Idade Média. Paulatinamente, a Ciência que a tudo observa empiricamente vai apresentando mais resultados e melhores explicações acerca da realidade do que faziam os tratados teológicos. Cada vez mais desvinculados de aspectos mágicos, o homem mais uma vez se volta para o mundo que lhe cerca. A pesquisa substitui o vaticínio na predição dos fenômenos, e é constatada a maior eficácia de fármacos em relação a rezas e mandingas, dentre outras miudezas. Evidentemente, esse olhar que novamente se vira para a natureza vem com componentes diferentes daquele dos gregos da velha guarda. O que temos agora é que pensamos não mais como conviver com o meio natural, mas como usufruir dele e essa diferença é fundamental. O advento do Capitalismo reforça o aspecto de utilidade dos recursos, especialmente sob o ponto de vista de produção de riquezas. Não há mais um valor intrínseco em um vasto território arborizado, se em seu lugar puderem existir pastos ou campos cultivados. O braço direito da expansão comercial é a tecnologia. Cada vez mais, as técnicas agrícolas permitem alcançar áreas impensáveis para a cultura, estendendo os limites antes refreados pelo alcance dos braços ao potencial produtivo da máquina. A natureza torna-se um óbice, e não uma aliada.

Tudo isso nasce de uma perspectiva mais mecanicista e menos holística, criada a partir do momento em que o mundo é desmembrado em suas pequenas engrenagens motoras. Há uma certa perda na relação de causalidade: não é imediatamente perceptível que o despejo feito no rio sujará a mesma água que será utilizada para irrigar as plantações ou dar de beber ao gado. Ou melhor raciocinando: primitivamente, há tanta disponibilidade de recursos que parece que os mesmos nunca faltarão. Notem como esse pano de fundo intelectivo agrava ainda mais a separação entre homem e meio. No antropocentrismo, tínhamos uma distinção entre homem e animal; no teocentrismo, entre homem possuidor de espírito e mundo bruto. Agora, temos um completo desenlace entre homem e o restante do mundo. É levada ao paroxismo a questão do domínio da humanidade sobre o território que habita, e este é cada vez mais amplo, pela técnica que se desenvolve mais e mais. Poucos filósofos ainda mantêm algum tipo de pensamento totalizante, como Baruch de Espinoza, mas mesmo ele é ultrapassado com a aproximação de eventos como a Revolução Industrial. Vejamos: Espinoza entendia que o universo era composto por uma e apenas uma natureza, sendo que nosso holandês era, por isso, enquadrado como um monista. Mas, em geral, o monismo vem de braço dado com teses materialistas, que acreditam que nada há além daquilo que os sentidos estão aptos a captar, e não há uma instância metafísica que ultrapasse nosso entendimento. Não é esse o pensamento espinoziano. Para ele, só há uma substância de onde emana todas as demais: Deus. Não havendo outra fonte de onde se origine o cosmos, Deus não só está presente em tudo; ele É tudo. Ao contrário do que queriam as religiões em geral, Deus é imanência pura: está em toda parte e é toda parte. Se por um lado esse panteísmo exclui o aspecto transcendental divino, por outro dá sacralidade a tudo o que existe. Mais que isso, dá unidade. Homem e natureza, neste contexto, são uma só coisa. Mas, como dizia a crítica da época, o panteísmo de Espinoza era uma forma criativa de ateísmo, e ateus nunca foram muito bem vistos. Sendo assim, um crescente Capitalismo que encontrou a escusa weberiana da obtenção do acúmulo fez muito sucesso, pelo motivos óbvios.

É só do meio para o final do século XX que os recursos naturais dão sinais claros de esgotamento, e começamos a sentir falta de uma doutrina integralizante, que conseguisse medir consequências antes da execução das causas. Às crises nos preços do petróleo se somaram os primeiros sinais de aquecimentos global e outros prenúncios de potenciais catástrofes. É fácil perceber as alterações no ambiente com exercícios simples. Eu tenho quase 50 anos, o que, na história da humanidade, não passa de um átomo. Nasci e sempre vivi na cidade de São Paulo. Na minha infância, havia um pacote de pequenos bichos que são difíceis de ver hoje em dia. Pirilampos eram muito comuns. Piolhos de cobra eram abundantes em época de chuva. Havia gafanhotos e grilos audíveis em qualquer noite e em qualquer lugar. Havia também os temíveis chupa-sangue, uma espécie de besourinho vermelho que os mais velhos faziam questão de nos tocar terror. Hoje em dia, todos esses insetos são raros de se ver. Só tem baratas e baratas e mais baratas, que dominarão o mundo logo mais, quando nenhuma outra espécie puder resistir às condições climáticas do planetinha. Ah, e há pernilongos, muitos, de todas as formas e cores. Esse desnível, perceptível em nossas próprias vidas, podem ou não ser causados pela humanidade, mas são empiricamente detectáveis, não há dúvida. Perguntem a seus avós porque o epíteto de São Paulo é “Terra da Garoa”. Hoje ele não faz mais sentido, e por quê? Por alterações climáticas, simplesmente. A névoa matutina é rara, e dias com temperatura mais baixa que dez graus são contáveis nos dedos de uma só mão nos últimos vinte anos. E a discussão descamba improdutivamente para o campo da antropogênese das mudanças climáticas. Que importa se o aquecimento é causado ou não pelo homem? O que precisamos discutir é O QUE podemos fazer para minimizar o problema, porque é ele que vai nos matar.

A Filosofia Ambiental surge, como se pode ver, com um forte propósito ético. Parece muito semelhante à Ecologia, mas difere desta porque uma é Ciência, e a outra é especulação, como toda boa disciplina filosófica. A Ecologia estuda as relações do meio ambiente com os seres que nele habitam (ecologia significa Estudo da Casa em grego), ou seja, não há viés ético obrigatório no seu objeto, mas é a partir dela que passamos a fazer a investigação e a levantar hipóteses, e essa é a conexão que há entre ambas. A Filosofia Ambiental, por seu turno, tem na sua conta a questão dos valores. Um exemplo é a discussão do especismo, uma espécie de racismo com relação a outras espécies, que tratei neste e neste textos, já bem antiguinhos. A ideia base é racionalizar a relação entre homem e ambiente, levantando questões que antes eram mal pensadas. Já tratei do tema por estas plagas, ao discorrer sobre a ecologia profunda de Arne Naess, o utilitarismo ecológico de Peter Singer e a hipótese de Gaia de James Lovelock. Em todos eles, transparecem conceitos que incomodam. Uma Filosofia que sirva para dar base a uma nova visão que tenhamos sobre o mundo obrigatoriamente precisa nos mover. Isso dá uma certa cara ideológica à defesa do meio ambiente, o que é ruim. Ecologia e ética ambiental não deveriam fazer parte somente da pauta da esquerda (para recordar dos cuidados a tomar com os estereótipos e pacotes ideológicos, leiam mais aqui), mas o fato é que o tema, por ser naturalmente político, cai na mesma armadilha da polarização, tão frequentemente disponível aos nossos incautos pés nos dias de hoje. Dizer, como dizem os defensores do modelo liberal que, por exemplo, a cobertura vegetal se restabelecerá em pouco tempo se restituídas suas condições originais oculta duas questões mais delicadas – quando haverá alguma vontade de restabelecer um meio já devastado e o que existirá para fazer essa recomposição, já que não há o milagre da reposição das espécies extintas.

No fundo, no fundo, era inevitável que a Filosofia se enveredasse por esse campo do modo como o fez e que as reações viessem. Temas como poluição, uso de defensivos, esgotamento do solo, expansão agrícola, ameaças de guerra, poderio econômico na administração da terra, todos eles dizem respeito a todos nós, ainda que estejamos longe das arvorezinhas e dos bichinhos, e isso PRECISA nos interessar. Afetam nossa vida, e isso é o motor do pensamento problematizador. Mas afetam também os nossos ganhos, o modo como pautamos nossa evolução histórica, e tirar o rei do trono é sempre um processo doloroso. Bons ventos a todos, enquanto houver vento.

Recomendação de leitura:

Os acordos internacionais prometem muito e entregam pouco. A crise ambiental afeta também o mecanismo social. Ao colapso ecológico seguirá, inexoravelmente, o colapso financeiro e de todo a humanidade como conhecemos. Este é o assunto tratado pelo professor Luiz Marques, da Unicamp, em um livro repleto de embasamento, para que ninguém diga que são bobagens. Não deixem de ler.

MARQUES, Luiz. Capitalismo e Colapso Ambiental. Campinas: Unicamp, 2015