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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Navegações de cabotagem – o Sítio do Pica-pau Amarelo de Taubaté e as oportunidades que não se podem deixar passar

(Ah, mas eu não perderia uma chance dessas...)

“O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.

Francis Bacon

Olá!

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Pelo tempo que frequento Taubaté, até que demorou. Esta terra se vangloria de ser a naturalidade de Monteiro Lobato, considerado até hoje o principal escritor infantil de Ilha da Vera Cruz, ainda que com uma boa dose de polêmica. O epíteto autoproclamado é “Capital Nacional da Literatura Infantil”, justamente pelo filho ilustre. Se o vínculo é efetivamente forte, eu não sei, já que o escritor em questão viveu em várias outras cidades, como a que lhe traz o nome ou Areias, onde foi procurador, e ambas também lhe rendem homenagens, mas o fato é que existe um parque na cidade que recebe o nome de sua magnum opus, Sítio do Pica-pau Amarelo.

O espaço está instalado no que era conhecido como “Chácara do Visconde”, pertencente a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, que veio a ser o avô de Monteiro Lobato. É uma construção típica dos grandes fazendeiros da época, feita em taipa de pilão e pau a pique, material mais comum das construções de então.

Esta casa concentra um acervo de objetos pertencentes a Monteiro Lobato e sua família, distribuídos pelos mais de dez cômodos existentes, incluindo uma certa ambientação de época e um posicionamento original dos móveis e utensílios, como a sala de jantar.

O “quintal” da casa é uma grande área de 20000 m2, que já foi muito maior no passado, e que era cercado de arvoredos. Hoje em dia, o que prepondera são as mangueiras, especialmente produtivas nesta época do ano.

O Sítio do Pica-pau Amarelo é uma série de histórias onde Monteiro Lobato retrata muito de sua infância e traz uma boa dose de sua visão de mundo. Evidentemente, os personagens do Sítio estão espalhados por toda parte, tanto dentro da casa…

… quanto fora dela, a maioria deles no que poderíamos chamar de “tamanho natural”.

A grande vedete, como se pode esperar, é a boneca Emília, alter ego do escritor e o pivô em torno do qual as histórias são contadas.

É através dessa personagem que Monteiro Lobato exterioriza uma boa parte de seus pensamentos e acaba por se inserir em pessoa nas próprias histórias, muitas vezes de forma um tanto polêmica.

Enfim, é um espaço cuja finalidade é contar um pouco sobre a vida do autor e dar informações sobre sua mais conhecida obra.

O espaço tem sua função e é uma daquelas ilhas de paz em uma cidade razoavelmente agitada, já salvaguardada minha origem paulistana. As informações são relevantes e, de fato, trazem um clima de Sítio do Pica-pau Amarelo para quem se acostumou a ler as histórias em tempos escolares. Mas eu sinto uma falta, e preciso falar sobre ela, sem querer que se traga sobre mim nenhuma espécie de ranço ou rancor.

Taubaté, a meu ver, lida muito mal com suas oportunidades turísticas. Não basta colocar um letreiro na entrada principal da cidade e uma estátua de três metros do escritor se não se vê mais nada a respeito da temática cinquenta metros depois. Quando eu viajava para estes lados e via esses artefatos, imaginava que a cidade toda era povoada de referências ao autor e à obra, que ganhou muito impulso a partir da década de 70, quando sua obra infantil virou um imenso sucesso televisivo. Mas não se vê quase nada, a não ser uma figura aqui, um nome de loja ali, uma homenagem acolá.

Outras cidades capitalizaram fatos e fizeram limonadas a partir de limões históricos, ou seja, transformaram situações que se mostravam jocosas ou humilhantes em oportunidades de mudar o transcurso da história. Penso em Itu, de quem já falei aqui, mas que reitero em apertada síntese: ainda na era do rádio, o humorista Francisco Flaviano de Almeida lançou o personagem Simplício, um homem do interior cujo principal mote era exagerar nos tamanhos das coisas de sua terra natal, a precitada Itu. A ironia estava no fato da cidade ser (então) pequena até no nome, e o sucesso da piada ressoou na fama do lugar. Ao invés de sentir humilhação, toda sorte de gigantismo foi sendo instalado: o semáforo, o orelhão, uma praça completa. O comércio veio junto e os souvenires são encontrados em toda parte: chinelos, chaveiros, sorvetes, fósforos e tudo o mais que se pensar. Quem vai a Itu hoje já vai em busca de um atrativo que a cidade não tinha, chegando até mesmo a esquecer sua importância republicana.

Outro caso diz respeito a Varginha, nas Minas Gerais. Uma história confusa, envolvendo três meninas que supostamente teriam avistado um ET, conciliada com uma mistura explosiva de fatos mal explicados e teorias da conspiração fizeram dessa cidade ao sul de Minas Gerais uma capital nacional da ufologia. A chance de cair na ridicularização era grande: parece que o tal do ET era um mendigo se aliviando. Hoje em dia, passados exatos 30 anos, a cidade absorveu toda a curiosidade que se voltou a ela e possui toda sorte de equipamentos que fazem referência a marcianos, naves espaciais e qualquer temática relacionada a OVNIs, incluindo até mesmo repartições públicas.

Taubaté não tem nada disso com relação ao Sítio. Resignada, a cidade tem se sujeitado a ser conhecida como a capital da mentira: tudo o que é de falsificado é “de Taubaté”, a Xuxa, o Batman, o parkour, tudo capitaneado pela célebre grávida e inaugurado pela Velhinha de Taubaté, a última cidadã brasileira a acreditar no governo da ditadura, criação do cronista Luís Fernando Veríssimo, antevendo uma credulidade ingênua dos habitantes desta terra. A cidade, segundo o autor, foi escolhida aleatoriamente por ser lugar pacato, mas é mais do que certo de que há uma sombra de Jeca Tatu nessa opção, mesmo que inconscientemente.

São Luís do Paraitinga e seu carnaval de chifre e rabo, São Thomé das Letras e suas bruxas… São muitos os exemplos de cidades que apareceram no mapa por conta de um pequeno episódio, de uma história perdida, de um evento qualquer que chamou a atenção do país, mas que foi aproveitado pelos governos e moradores para justificar sua existência e, melhor ainda, trazer dividendos.

Quer saber? Se eu fosse do corpo gestor (o atual prefeito se autodenomina gestor) de Taubaté, não somente daria uma estilingada na ênfase ao Sítio, mas também exploraria ao máximo essa história da grávida. Parece politicamente incorreto, mas ninguém precisaria passar por humilhação. Uma grande feira de roupas para gestantes poderia ser o pontapé inicial para uma divertida nova vocação para a cidade. A princípio, roupas vindas de polos produtores, para depois o próprio mercado se encarregar de trazer produção para cá. Isso seria uma espécie de impulso inicial, para que o próprio mercado se desenvolvesse na esteira. Afinal, a cidade tem tradição têxtil, tendo em vista o tradicional apito da Companhia Têxtil Industrial - CTI, que até hoje é disparado como se ainda chamasse seus funcionários.

E a grávida? Ela é viva e, pelo visto, não se sente disposta a fazer ressurgir essa história toda. Afinal de contas, Taubaté voltou para o mapa pela sua história surreal*, e se deu pela chave da ridicularização, o que é indigesto para quem vive aqui, e isso eu sinto ao abordar o tema com os mais antigos. No final das contas, se tudo for lidado com habilidade, ela pode ser a mais beneficiada de todos. Um acordo de uso de imagem traria tranquilidade financeira e reverteria a imagem negativa que ela possui até hoje, especialmente porque traria bom humor para um tema que é tratado com vergonha, por ela e pela população. Uma espécie de padroeira que estaria presente na feira e teria oportunidade única de se redimir com seus concidadãos, além de tirar todo o peso de seus atos. Limão, limonada, sacaram? Eu só não sou rico por preguiça.

Falando de maneira mais séria, é o custo de oportunidade sendo colocado como exemplo com toda a força. Esse é um dos poucos termos que eu lembro dos tempos em que estava na faculdade de contábeis, matéria que eu detestava a despeito do excelente professor Maurício, por conta de contas e mais contas. Ele diz respeito a tudo aquilo que deixamos de ganhar ao fazer opção por uma determinada atividade econômica. Os exemplos são fáceis, e vou tirá-los de mim mesmo. Ao renunciar continuar tocando em bandas, eu tive a oportunidade de melhorar meus estudos e aperfeiçoar meus conhecimentos, o que me deu melhores condições para encarar a própria vida, que segue claudicante, mas segue. Mas, embora fosse possível prever que a carreira musical não daria em nada, não é algo que podemos nos assegurar. Poderia dar um daqueles encaixes que acontecem de vez em quando no universo e hoje eu estivesse em um daqueles iates aportados em Mônaco, deitado nas glórias de uma carreira de sucesso.

Mas o custo de oportunidade não se dá em suposições vazias, como essa. Para ter uma efetiva dimensão do que se deixa de ganhar, é preciso compreender onde se pode chegar, e, para isso, é preciso ter uma melhor ideia dos recursos disponíveis e de sua aplicação. Uma garagem, por exemplo, comporta uma oficina ou um salão de beleza, nunca os dois. Compreender qual o melhor uso significa dimensionar os ganhos de um ou de outro, e isso é muito mais complexo do que pode parecer. Uma oficina pode parecer trazer maiores ganhos, mas isso se houver público suficiente para seu uso em tempo integral. Por outro lado, o valor agregado do salão pode ser melhor, e, mesmo tratando de cifras mais miúdas, produzam um resultado mais exuberante. O que importa é: quanto se deixará de ganhar com a oficina se instalarmos o salão? Esse é o custo de oportunidade, um valor implícito e de difícil aferição, mas que existe.

Ocorre que esse custo não é somente econômico, mas social, ambiental e qualquer outro aspecto em que uma opção implica em uma renúncia. Tudo o que poderia se deixar de ganhar com obtenção de empregos, por exemplo, faz parte do custo de oportunidade de deixar passar batido símbolos fortes que uma cidade carrega. E eu percebo o tamanho do que se deixa de lado, especialmente pelo fato de ter vindo recentemente de fora, e trago essas percepções justamente por afinidade a esta terra. Vim morar aqui por ter gostado do lugar, e quero vê-lo cada vez melhor. A oportunidade é uma limonada, o custo é o limão. 

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não sou muito versado nas artes da economia, então fui na biblioteca pegar umas referências melhores e encontrei esse livro, que me deu uma boa clareada nas ideias.

MANKIW, Gregory. Introdução à economia. Princípios de micro e macroeconomia. São Paulo: Atlas, 2001.

E tem também o parque, bem próximo da região central de Taubaté. É sempre melhor visitá-lo nas férias e nos finais de semana, em que as feirinhas e as apresentações teatrais acontecem.

Sítio do Pica-pau Amarelo - Museu Monteiro Lobato 

Avenida Monteiro Lobato, sem número 

Chácara do Visconde

Taubaté/SP 

A aproximadamente 130 km do centro de São Paulo.

*Para quem não sabe da história: em 2012, surgiu a história de uma grávida de quadrigêmeas em Taubaté. O insólito da situação não estava na gravidez em si, rara, mas não raríssima, mas do formato de bola de praia que a barriga da suposta gestante, evidentemente falsa, mas que rendeu horas e mais horas de reportagens na televisão de baixa seriedade. Eu, sinceramente, tenho uma opinião que beira a teoria da conspiração: a própria emissora que mais divulgou o caso foi a principal “armadora” da história toda, ao perceber os índices de audiência que poderia obter a partir do absurdo da situação.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Navegações de cabotagem – o Mercado Municipal de Guararema e o mercado, divindade moderna

(Mercado é um termo tanto afetivo, quanto aterrorizante. Tudo depende a que estamos nos referindo)

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que devemos esperar nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse”

Adam Smith

Olá!

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Este texto só não fez parte do anterior porque eu queria tratar de outro tema. Até porque era só atravessar a rua. Quando falamos do centro de Guararema, uma cidade que nasceu em função de um rio, pensamos naquela espécie de parque linear que acompanha os contornos do Rio Paraíba do Sul, onde estão os bares, os restaurantes e o comércio em geral, mas há algumas travessas onde continuamos a encontrar coisas boas. Da mesma forma que fui conhecer a Casa da Memória, também achei que seria legal conhecer o Mercado Municipal local, modelo de negócio que é muito comum em todo o Vale do Paraíba. Vamos até lá.

Os mercados municipais são, na sua maioria, entrepostos que serviam para distribuir produtos agrícolas utilizáveis nas viagens dos tropeiros, razão pela qual são sempre equipamentos históricos muito importantes, porque é praticamente um distintivo de que aquela localidade era rota dos caminhos de expansão do Brasil.

Eles ficavam em grandes praças públicas, onde era possível estacionar as tropas para alimentar os animais e fazer as negociações e escambos de produtos.

Como os ciclos de subida do litoral para as regiões produtoras e auríferas se deram há alguns séculos, a arquitetura dos mercadões costuma pertencer aos mesmos períodos históricos, salvo os casos em que ocorreu uma descaracterização dos edifícios originais.

No caso deste mercado em específico, ele teve uma reforma recente e, portanto, está trincando de novo, com todas as coisas nos seus devidos lugares, com os tijolos maciços expostos e estruturas em arco dando um bom exemplo de soluções de época.

O Mercado Municipal de Guararema não é gigantesco como seu correlato paulistano, com seus produtos gourmetizados, ou mesmo seu irmão de Taubaté, verdadeira feira livre coberta. É mais uma atração turística que contém produtos locais e convencionais, alguns típicos da região.

Alguns deles são marcantes na região, que é rica na produção de verduras (faz parte do Cinturão Verde de São Paulo), orquídeas e cachaça.

Desta última, a amplitude da gama de produtos faz com que surjam algumas coisas exóticas, como a cachaça de caranguejo, uma daquelas velhas misturas que se dizem afrodisíacas. O velho efeito placebo (quando funciona).

Nós falamos muito de mercados em seu contexto predial, como o local em que vamos fazer nossas comprinhas e queimar nossos escassos níqueis. Esse é seu sentido mais popular e que guarda até uma certa afetividade. Eu-criança, por exemplo, tinha uma escala mensal de idas ao mercado. Quando era tempo de pagamento, minha mãe ia até um supermercado para “fazer despesa”, ou seja, a compra grande do mês, que precisava resistir até o próximo salário. Ficava um tanto longe, mas como não tínhamos carro, o negócio era levar um carrinho de feira para as necessidades mais imediatas e esperar o caminhão entregar o restante no final do dia. Gostava um bocado dessa compra porque eu me punha a pilotar o carrinho de mercado, e sempre me sobrava uma bolachinha recheada. Quando as coisas acabavam antes do previsto, ou para comprar perecíveis e inesperados, já aí a operação se dava nos empórios e mercearias, genericamente tratados por mercadinhos. Era famosa a “Venda do Chico”, que até virou ponto de referência naqueles tempos em que os bairros ainda tinham um certo ar interiorano: servia para indicar a rua que subia para a Vila Santa Clara, para “apear” do ônibus, para achar o começo da Estrada do Oratório. Era lá que se compravam esses remanescentes menores, mais caros que o supermercado, mas bem mais perto de casa.

Só que esse não é o sentido único dessa palavra, sendo que sempre que a ouvimos no noticiário, trememos nas pernas. O mercado parece uma espécie de divindade que guia a economia de um país para o Olimpo ou para o precipício, muitas vezes de forma imprevisível, e que nos empobrece ou faz respirar. Isso tudo coloca essa entidade no mesmo patamar de outros deuses quaisquer, ou seja, somente os iniciados conseguem se comunicar e interpretar seus sinais, os economistas. Mas, como toda e qualquer atividade humana, também aqui conseguimos achar fundamentos filosóficos, e é o que tentarei fazer agora. Acompanhem o tio.

Estudar a etimologia da palavra mercado já nos ajuda a entender algumas coisas. A referência direta é ao latim mercatus, o lugar onde os antigos romanos se encontravam para realizar o comércio. A raiz mais profunda da palavra, entretanto, vem de Mercúrio, o deus romano correspondente ao Hermes grego, e que regia os negócios, a oratória e as trapaças. Parece tudo coligado? Pois é mesmo. Os comerciantes eram todos como raposas prontas para dar o bote nos manés, a ponto de ser criado um provérbio que tinha o enunciado de caveat emptor, ou “cuidado, comprador”. Servia para alertar que o incauto está sempre prestes a tomar prejuízo nas operações comerciais. Talvez isso explique os códigos de defesa do consumidor. Não que todos os comerciantes queiram nos golpear, mas, se fosse possível distinguir os bons dos maus, não teríamos tantas piadas a esse respeito.

Mas o mercado, no ponto de vista racional, é algo mais abstrato, uma espécie de espaço que abarca os componentes que faz girar os recursos de uma determinada sociedade. Os principais fenômenos que fazem parte desse espaço são a oferta e a demanda. Para isso, precisamos pensar um pouquinho em como surge o comércio.

Imagine você em um tempo antigo, já dominando as técnicas agropecuárias, mas precisando se virar por si próprio, o que lhe faz perceber que há momentos em que te sobra coisas que você plantou para comer, e há os momentos em que te faltam outros objetos de necessidade. Tendo seu vizinho esses mesmos objetos, é lícito imaginar que você queira conseguir com ele alguns que lhe sobrem. Como a solidariedade humana é um conto da carochinha, ele certamente concordará em trocar contigo alguns produtos, desde que haja um consenso entre ambos de que há justiça no ato. Esse é o escambo, a forma mais primitiva de comércio. Tudo funciona nessa base, apenas trocando a mercadoria física por dinheiro.

Agora imagine que você tenha algo que todos queiram ou precisem muito, como uma erva que cure uma determinada doença que tem se espalhado em epidemia. Essa erva, antes ordinária, passa a ser preciosa, e você poderá exigir muito mais do que conseguiria por ela em situações normais. As pessoas ao seu redor estarão dispostas a oferecer mais por ela, e, com isso, diante de uma procura grande, a oferta vai se tornando mais e mais escassa, te autorizando a cobrar ainda mais por ela.

Só que chegará um limite. Você pode pedir tanto por sua erva milagrosa que não haverá quem queira ou possa pagar o preço que você propõe, preferindo enfrentar a epidemia sem o conforto oferecido. Neste caso, sua erva começará a ficar estocada e estragando, até que o movimento se inverta e você aceite comerciá-la por menos. Pode ocorrer ainda que um de seus vizinhos consiga uma muda da tal planta e passe também ele a oferecer o produto, de modo a passar a existir uma oferta mais abundante. Para conseguir esvaziar os estoques mais rapidamente, você passa a aceitar retribuições menores pela sua venda, o que também pode acontecer pelo chato do vizinho. É a tal da concorrência.

Esses são os princípios básicos que norteiam o mercado, cuja lei geral é regida por oferta e procura: os preços são guiados pela articulação entre ambos, que se movimentam de formas inversas. A oferta maior faz com que o preço caia, enquanto a demanda maior faz com o preço suba. Vale o inverso - oferta menor, preço maior; demanda menor, preço menor.

Os economistas defendem essa lei da mesma forma que os astrônomos defendem a gravidade e os biólogos, a seleção natural. Isso ocorre porque parece existir uma espécie de algoritmo  por trás de um movimento natural. Mas a observação da vida prática demonstra que muitos fatores podem perturbar essa ordem, como a formação de cartéis e a intervenção governamental. No primeiro caso, os empresários de um determinado setor agem em conluio para impedir que os preços caiam, como são os clássicos casos de especulação imobiliária. Basta que se olhe o tempo que demora para um prédio ser preenchido totalmente. Meu melhor exemplo é quando passo pelo elevado onde começa a Radial Leste. Transito às oito da noite e vejo os novos prédios da Baixada do Glicério. Apesar de novos, eles já têm mais de cinco anos, e pelo menos a metade deles está apagada. Ninguém nesta cidade dorme a esse horário, portanto, são apartamentos vazios. Se os apartamentos são caríssimos e não são vendidos, por que seus preços nunca caem? Teorizo que a venda de metade deles já é suficiente para dar retorno à construtora, e o que vier daí para frente é lucro, na mais pura acepção da palavra. Isso não é possível de fazer se todas as construtoras não agirem da mesma forma. Compreendem por que o preço do imóvel não cai? E isso porque estou falando do Glicério, uma parte pobre da cidade.

Já o governo pode interferir no mercado de forma oposta. Um exemplo acontece quando o dólar ameaça subir, fazendo com que o preço dos importados subam na mesma proporção. Neste caso, é possível que o governo pegue uma parte dos dólares que estão na reserva internacional (dinheiro que fica “embaixo do colchão” para pagar dívidas com entidades estrangeiras) e os disponibilizem aos operadores financeiros. Com isso, usa uma lei do mercado para atuar contra seus próprios princípios, aumentando artificialmente a oferta de dólares para diminuir o seu valor no mercado interno.

Os fatores que influenciam o tal do mercado são tão vastos e detalhados que é um desafio até hoje aos economistas para bem compreendê-lo e entender como se pode fazer previsões sobre ele, como compete a qualquer ciência. Um dos economistas mais definidores dos mecanismos de mercado foi Alfred Marshall, que criou o conceito de ponto de equilíbrio financeiro, que consiste no momento em que oferta e procura chegam a um “consenso” e estabilizam os preços de um determinado produto.

A primeira coisa na análise de Marshall, um  britânico da então nascente escola neoclássica, é distinguir o mercado de curto e de longo prazo. É como quando queremos analisar a teoria da evolução acontecendo diante dos nossos olhos: precisamos olhar a nível microscópico. No caso do mercado de curto prazo, estamos falando de bens de consumo imediato, que, se não forem comercializados, poderão estragar ou perder propriedades, como a erva que usei no exemplo. No longo prazo, é como se olhássemos por um telescópio, analisando um todo. É quando pensamos em bens duráveis, que podem resistir melhor ao tempo, como no caso dos apartamentos*. Nestes casos, a movimentação de preços não é tão imediata como nos casos de curto prazo. De qualquer forma, Marshall criou uma forma visual de análise de uma situação de mercado, que ficou conhecida como cruz de Marshall.

Esse gráfico funciona da seguinte forma: em um plano cartesiano, onde as coordenadas dizem respeito a quantidades (x) e preços (y), são inseridas duas linhas curvas: uma que representa a variação de preço da demanda e outra, a variação da oferta. A oferta, que está na perspectiva de quem vende, nasce do preço mínimo aceitável para a venda de um produto e vai crescendo à medida que se procura uma maior lucratividade pelo aumento das quantidades produzidas. Sob o ângulo de quem consome, a curva de procura vai do preço mais alto para pequenas quantidades oferecidas até o preço mais baixo que estimula novas compras. Vou utilizar uma moderna planilha gerada por um avançado módulo financeiro para exemplificar o gráfico:

Gráfico 

Percebam que a informação central do gráfico é o ponto de interseção chamado de equilíbrio, e é nele em que o mercado de um determinado produto se estabilizará. Variações muito grandes de preços ou produtos tenderão ao fracasso, já que o ponto de equilíbrio é atrativo - preços muito altos serão refutados, preços muito baixos trarão prejuízos. Por outro lado, quantidades muito pequenas serão consumidas de imediato, sendo insignificantes no mercado, enquanto quantidades muito altas são inviáveis financeiramente.

Como essa, muitas outras ferramentas foram criadas por diferentes economistas para tentar compreender esse tal de mercado, uma entidade tão estranha quanto qualquer outra que transcenda a realidade em si mesma, razão pela qual vou parar por aqui, porque eu mesmo já estou ficando cansado. Mas é o suficiente para demonstrar que não é um mundo tocado pela caridade, mas pelo interesse das pessoas. É um mal em si mesmo? Deve ser, mas tem coisas com as quais precisamos lidar como elas são, e não como queríamos que elas fossem.

As ações do deus mercado são válidas também aqui, no pequeno mercado de Guararema? Certamente sim, com a diferença de que aqui eu posso puxar um papo com a menina que serve o café e que me conta da paz que encontrou em sua vida, ou do rapaz da cachaça que me engabela com as vantagens reprodutivas da cachaça com caranguejo. Talvez esse Deus não seja de misericórdia como falam dos outros. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Para quem curte Economia, é uma das obras essenciais.

MARSHALL, Alfred. Princípios de Economia. Col. Os Economistas. São Paulo: abril cultural, 1982.

Para quem quiser visitar o Mercado:

Mercado Municipal de Guararema

R. Major Paula Lopes, 125

Centro

Guararema/SP 

A aproximadamente 75 km do centro de São Paulo

*Minha hipótese permanece válida porque, do ponto de vista do vendedor, há as necessidades imediatas, como pagamento de salários e compras de materiais são imediatas, embora se trate de bens duráveis. Se é possível considerar para eles um bem durável, isso significa que já lhes foi possível fazer reserva suficiente para especular.

quarta-feira, 12 de março de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o pequeno Jabaquara e a lógica que amarra as pernas dos pequenos

(É possível alguém das beiradas ir parar no centro? Difícil)

“Em questões de dinheiro, todos temos a mesma religião”

Atribuído a Voltaire

Olá!

Clique aqui para acessar a série toda

Jabaquara é um bairro daqui de São Paulo. Ele ficou especialmente célebre a partir da década de 70, quando virou a última estação da banda sul do metrô e seu pátio de manobras, aquele misterioso local onde os dorminhocos vão passear ao fim das viagens, para acordar perdidos. Essa notabilidade foi acentuada quando foi criado o terminal rodoviário, que substituiu com vantagem a velha rodoviária do Glicério, despejando o mar de ônibus que vai para a Baixada Santista diretamente na Rodovia dos Imigrantes. Isso tudo colocou no mapa um bairro outrora distante, daqueles que demoravam horas e horas de ônibus para chegar. Fiquei mais íntimo de lá quando trabalhei na região, na Água Funda, e volta e meia precisava ir a algum banco ou repartição.

Jabaquara, palavra de origem tupi, significa algo como “esconderijo de negros fugitivos”, e isso explica a função inicial do bairro. Com o decorrer do tempo, acabou se tornando uma espécie de pouso para as pessoas que trafegavam entre a porção central de São Paulo e o extinto município de Santo Amaro de um lado, e a região da Borda do Campo (atual ABC) do outro. Só deixou de ser uma região rural a partir de meados do século XX.

Se você perguntar a um paulistano inespecífico, a primeira resposta à pergunta “o que é Jabaquara” será semelhante a essa, com algumas informações a mais ou a menos. Se a pergunta for a alguém muito letrado, poderá ser acrescido o segundo parágrafo. Mas Jabaquara não é só isso.

Jabaquara é um dos times fundadores da Federação Paulista de Futebol, o primeiro desta série de textos que ainda está na ativa. Vem passeando há décadas pelas divisões inferiores do Estadual, tendo, inclusive, alguns períodos de licenciamento, sempre por apuros financeiros. Seu nome original era Hespanha, pelo óbvio fato de ter sido fundado por imigrantes espanhóis da cidade de Santos, colônia bastante significativa por lá. Sim, o Jabaquara do futebol não tem nada a ver com o bairro paulistano, o que foi um grande engano deste escriba em seus primeiros anos de compreensão futebolística. Foi obrigado a mudar de nome em 1940, por força da legislação que proibiu a utilização de nomes referentes às forças beligerantes na Europa por ocasião da Segunda Guerra Mundial, mesmo ato que obrigou os Palestras Itálias mineiro e paulista a se transformarem em Cruzeiro e Palmeiras, respectivamente, ou o Germânia a virar Pinheiros. Por esta razão, já consta da famosa entrada da federação com seu nome novo, mas as mesmas velhas cores aurirrubras da bandeira espanhola.

O Jabaquara nunca foi campeão paulista, e ostenta apenas os títulos obtidos na região da Baixada Santista. É lembrada mais por ter sido o berço de um dos principais goleiros da história, Gylmar dos Santos Neves, que depois flanou seu talento por Corinthians, Santos e Seleção Brasileira. É o terceiro time da cidade de Santos, uma espécie de xodozinho que todo mundo gosta, mas ninguém leva a sério. Quer dizer… todo mundo que conhece, o que já é mais raro. Claro que os moradores de Santos sabem da existência daquele pequeno estádio na Caneleira, bairro de morros e mangues que não lembram uma cidade praiana, para onde o clube se mudou ao vender a sede do Macuco, esta de fato próxima ao mar, mas todo mundo se pergunta até quando ele dura. Sua estrutura é o mínimo que se espera para não ser um time de várzea, e é quase inacreditável que ainda exista profissionalmente.

O Jabaquara está como está por causa do capitalismo, sem nenhuma crítica direta ao sistema. Vou explicar meu ponto.

O capitalismo é um sistema econômico cuja principal característica está na liberdade de mercado, ou seja, as relações comerciais são regidas por movimentações de dinheiro circulante, que se dão sob uma espécie de algoritmo que faz com que a economia se equilibre e reequilibre espontaneamente, sem a necessidade de intervenções exteriores, notadamente de governos. Isso é proporcionado por alguns pilares básicos: livre iniciativa, livre concorrência, admissibilidade e incentivo ao lucro e acúmulos de capital.

Seu nome deriva do latim caput. Literalmente, esse termo significa “cabeça”, mas é utilizado em seu sentido figurado de “primeiro”, ou de “líder”. Capitalista é, nesse sentido, aquele que detém os meios econômicos para liderar os processos industriais e comerciais, de fazer a roda da economia girar. A interveniência de governos passa a ser considerada prejudicial à economia, por dirigir políticas, retirar fundos da economia e desequilibrar o mercado, de modo a produzir teratologias financeiras, por seu imenso tamanho. O mercado deve se pautar pela lei de oferta e procura, que funciona mais ou menos como alguns princípios da seleção natural. Quando há excessos de um determinado produto, ele tende a ficar mais barato, e isso faz com que seu consumo aumente, até o ponto em que há uma inflexão e, de tanto ser consumido, ele passe a ficar escasso, o que movimentará seu preço para cima, o que fará com que menos pessoas consigam adquiri-los, e, com isso, haja um excesso de produção e os preços novamente baixem, em um movimento pendular infinito. Portanto, enquanto nos seres vivos o impulsionamento da seleção se dá pela necessidade de sobrevivência, no capitalismo a movimentação se dá pelo dinheiro. E, surpresa, em ambos os casos são os melhores adaptados que sobrevivem.

O capitalismo, como o próprio nome diz, favorece aqueles que detêm capital, mormente na forma de acúmulo. E os demais? Como se inserem neste sistema? Com o seu trabalho. Ou trabalha para um capitalista que tem terra, fábrica ou comércio, ou tem algum pequeno negócio onde todas as tarefas são desempenhadas por ele mesmo. Suas ações isoladas não são capazes de modificar a realidade da economia e, por isso, em tese, precisariam atuar em conjunto, algo difícil sem uma guia (como sindicatos e governos). O livre mercado defendido pelos capitalistas, nesse sentido, possui uma certa quantidade de pessoas naturalmente excluídas. São aqueles que estão nas franjas do sistema, que não se adaptam bem a esse modelo de realidade. Eles se encontram até mesmo nos países mais avançados do mundo. Não é preciso ser alguém que não tenha dinheiro ou não goste de trabalhar.

Acho que um dos melhores exemplos que eu posso dar é o pintor que morava no prédio em que habito, o José Camargo. Ele fazia pinturas de um preciosismo ímpar, como sói acontecer com os espíritos mais cuidadosos. Cada tracinho era visto e revisto e apagado e repintado até chegar àquilo que ele julgava ser a sua perfeição. Fazia um estilo majoritariamente impressionista, ao agrado dos transeuntes da Praça da República*, que admiram muito, especulam mais ainda e compram pouco. Para quem anda a esmo, um quadro a trezentos dinheiros é caro, artigo de luxo que se compra uma vez na vida e outra na morte. Para o pintor, é uma pechincha, pois quanto mais esmero se dá na sua produção, menor o tempo restante para fazer mais obras. O Camargo fazia os pequenos quadros de flores e casinhas com raiva, porque era isso o que saía, e ele precisava comprar o seu feijão, mas estava longe de ser a maneira que ele gostava de se expressar. Há uma alma artística e um corpo pragmático, que chora por comida. Ele amava as encomendas em que o comprador apenas dava uma temática, dando-lhe liberdade para criar em cima da ideia geral. Mas essas eram raridade, principalmente quando era dado o orçamento.

Em um exemplo, o Zé cobrava mil reais em um quadro que iria lhe tomar o mês inteiro. À parte do custo dos materiais, imagine-se tendo um salário desses. Dá para viver? Para quem iria comprar, é um objeto caro, cujo único propósito é estético, e que pode ser empurrado ad infinitum. Para quem faz, é praticamente uma miséria, um ganha-pão ingrato que demanda esforço físico e intelectual, mas que não dá sustento. Esqueçam dos renomados: eles são uma ínfima parcela daqueles que têm o talento recompensado. E renome não é sinônimo de talento: Romero Brito, podre de rico, é tão criticado quanto um Paulo Coelho na literatura. Mas seus gatos estilizados vendem como água.

Existe um ponto tal em que o que vende é o nome que assina, não a obra em si. Fui a uma exposição de esculturas que tinha peças do estadunidense Jeff Koons, célebre por flertar com o brega o tempo todo, e esse foi o construtor de seu elevado conceito. Ele mesmo lançou a si um desafio: “tudo o que eu faço é reverenciado pela crítica e pelo público. Vamos ver o que acontece se eu pegar anões de jardim e fadas, daqueles que as pessoas compram em lojas baratas, e reproduzi-las igual-que-nem, como se eu as tivesse criado”. O resultado: “Koons revoluciona mais uma vez”, “o kitsch purista de Koons renovando a academia” e outras bravatas semelhantes. Chega um ponto em que o nome se empurra sozinho. São fenômenos do capitalismo.

Quando o Camargo chegou à conclusão de que seu trabalho estava desvinculado do cumprimento de qualquer sonho, foi pragmaticamente ganhar a vida como faxineiro de um prédio. É uma lástima que as coisas cheguem a esse ponto, mas lá também sua verve artística e seu apuro nos detalhes veio trazer problemas. Ele via seu ofício como uma obra de arte, e limpava escadas e corredores com o mesmo critério que utilizava em suas pinturas: qualquer cantinho ficava impecável sob sua alçada, com madeiras polidas, cromos brilhantes, chão e paredes indefectíveis. Isso é uma qualidade, não? No aspecto prático, não. O síndico apreciava o edifício reluzente, mas a velocidade da faxina era inversamente proporcional ao capricho, e isso colidia com a necessidade de uma limpeza mínima em todos os andares. O Camargo era cobrado, mas não conseguia se desvencilhar de seu preciosismo, e o resultado foi sua substituição por alguém mais medíocre, mas que resolvia o problema da limpeza com mais objetividade**.

O Camargo é isso que falamos ser um desencaixe do modelo capitalista. Não é um vagabundo que não quer trabalhar, e sim alguém que não produz em escala comercial, mas, mesmo que fosse, teríamos apenas outra forma de exclusão que se baseia na comercialização de produtos, sendo que um deles é o labor.

Percebam que eu estou evitando juízos de valores. O Zé Camargo existiu, como existem mendigos, e vivia nesse sistema. Não estou dizendo que o capitalismo é bom, nem ruim, apenas fazendo constatações empíricas. Haverá quem diga que tudo no universo tem esse substrato de Lei da Selva, e que o capitalismo nada mais é do que isso transposto à economia, e que faz aperfeiçoar produtos e serviços. Mas, se é uma lei de seleção, ela tem seu percentual de crueldade inerente.

A condição do Jabuca demonstra, plasmando a situação dos marginalizados, como funciona esse sistema também no mundo futebolístico. No estado de São Paulo temos quatro “grandões”, sendo que um deles fica na cidade de Santos, Terra da Liberdade e da Solidariedade. Os meninos que querem começar a carreira procuram primeiro a Vila Belmiro, e não a Caneleira. Vão para lá aqueles que não passaram nas peneiras do Santos, nem da Portuguesa Santista (de quem chegará a vez aqui na série). Resta para o Leão aqueles que ainda não explodiram, ou que nunca vão explodir, e vão procurar ofícios em outras atividades, a grande maioria. Isso acontece porque o Santos atrai mais, pela fama, pela estrutura e, principalmente, pela grana. O Santos, mesmo em percalços financeiros, tem muito mais visibilidade, agentes internacionais, infraestrutura, nome na praça, e uma possibilidade de crescer que o Jabaquara só terá se algum mecenas quiser fazer caridade esportiva, algo muito raro. Quem tem dinheiro, quer uma vitrine mais ampla, e times com a corda no pescoço existem aos borbotões, inclusive já encaminhados em alguma divisão nacional. O Jabaquara está na quarta divisão do Paulista. Não me parece que vá ter atenção de algum endinheirado.

A realidade é que nosso querido Leão da Caneleira só existe ainda porque estamos no Brasil, justamente com seu capitalismo imperfeito. Associações não estarem sujeitas à lei das falências é uma jabuticaba jurídica daquelas exemplares, e, por conta disso, ainda podemos ver a tradição amarela e vermelha em campo. Mas isso não muda o fato de que o Jabaquara está naquela borda mais externa, aquela parte do bolo em que pouco resta além das migalhas que caíram no chão. A realidade é triste, porque se trata de um daqueles onze fundadores, um dos que não sucumbiram por pura teimosia, um dos times que eu mais gosto no futebol, mas a realidade é esta, no futebol e no mundo, e no futebol como espelho do mundo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Escrito por um apaixonado, bancado pelo próprio bolso, é um livro de histórias esparsas e emocionantes, e, apesar de já ser meio antiguinho, faz jus a um time que tem como principal patrimônio a sua história.

SILVEIRA, Sérgio dos Santos. Jabuca dos nossos corações. Santos: Edição do autor, 2002.

* Para quem não é de São Paulo, a tradicionalíssima Praça da República é onde se realiza a feira de artes todos os finais de semana.

** Para não deixar a história sem uma conclusão: o Camargo terminou seus dias ao lado de seu companheiro Luiz, que lhe deu liberdade para compor suas obras. A última delas, inacabada, veio parar em minhas mãos e está hoje na sala de casa. Ele morreu de repente e, romanticamente, seu companheiro se foi um mês depois. Contornos tristes do que, no final das contas, foi um final feliz.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Navegações de cabotagem – a Colônia Witmarsum de Palmeira originando pensamentos sobre plus valia

(Até que ponto trabalhamos para nós mesmos?)

“Na verdade, o vendedor da força de trabalho, como o vendedor de qualquer outra mercadoria, realiza seu valor de troca e aliena seu valor de uso. Ele não pode obter um sem abrir mão do outro. O valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, pertence tão pouco a seu vendedor quanto o valor de uso do óleo pertence ao comerciante que o vendeu. O possuidor de dinheiro pagou o valor de um dia de força de trabalho; a ele pertence, portanto, o valor de uso dessa força de trabalho durante um dia, isto é, o trabalho de uma jornada”.

Marx

Olá!

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Quando pensamos em grandes cidades, logo vem em mente, por consequência, as cidades-satélites, que são aquelas que orbitam ao redor de um grande centro. Lembrando de Rio e São Paulo, os extremos chegam a ponto de haver geógrafos que entendem que ambas as regiões metropolitanas se tocam, de forma a constituir uma megalópole.

Em Curitiba, a coisa não chega a tanto. Como o Vale do Ribeira é mais preservado e menos desenvolvido que o Vale do Paraíba, não há uma ligação tão evidente quanto no caminho que liga Rio e São Paulo. Quem vai pela Dutra, não percebe claros tão grandes quanto quem vai pela Régis, e isso faz com que ambas as metrópoles sejam mais isoladas. Mas, ainda assim, Curitiba é uma grande metrópole, que tem seus satélites. Algumas são cidades altamente industrializadas, enquanto outras mantêm um ar tipicamente rural. E ainda dentro dessas há daquelas comunidades que possuem características absolutamente próprias, fazendo com que se tornem únicas. É o caso da Colônia Witmarsum, de quem tratarei agora.

A Colônia é um distrito do município de Palmeira, para onde migraram agricultores de origem alemã de religião menonita, uma classificação de igreja protestante que fez o protesto dentro do protesto. Explico melhor. Os menonitas são anabatistas, crentes que acreditam que o batismo realizado em crianças não tem valor, porque não se trata de uma escolha própria. Sendo assim, os anabatistas fazem o rebatismo de seus fiéis, para que o sacramento tenha efeitos concretos. A igreja menonita é o centro para onde converge todo o bairro.

Por conta de sua doutrina, os menonitas conseguiram a proeza de desagradar tanto os católicos, quanto os protestantes tradicionais, e foram perseguidos por ambos. Isso fez com que se desse uma busca pelo isolamento, o que levou a uma comunidade muito fechada, de alta manutenção da própria cultura. Por esse motivo, os elementos de origem alemã estão espalhados por toda a parte.

Eles se estabeleceram de forma a trabalhar a terra com as técnicas que conheciam, dada a aproximação climática desta região paranaense dos Campos Gerais com a ambientação temperada do centro europeu.

O nome Witmarsum, em língua germânica, significa “estrela azul”. Poderia ser estendido para o azul do céu local, resplandecente naquele dia.

A colônia se juntou em torno de uma cooperativa, que dá conta da maior parte da produção agrícola e de muitos produtos típicos que tem pegado um certo renome. Como são oriundos da Alemanha, há os artigos que são muito próprios daquela cultura, como é a óbvia cerveja.

Mas também existem itens que não são muito comuns em Terra Brasilis. É muito utilizado o ruibarbo, planta típica das margens do Rio Volga, de difícil preparo, dada a toxicidade de suas folhas, mas com sabor bem próprio em seus talos. Aqui, são consumidos in natura ou na forma de chás, ou ainda em preparados de frutas, como geleias.

Aliás, aqui temos a oportunidade única de “enfrentar” a culinária alemã, com seus porcos, linguiças e curtidos. Eu, particularmente, me divirto até os extremos com essas comidas que fogem do dia-a-dia, e com as cores e sabores que se apresentam nas mesas tipicamente fartas dos europeus.

São de fato vários os locais que reproduzem esse conjunto, mesmo com o distanciamento razoável que não estamos acostumados nas cidades maiores. Aqui há um misto de comida e repouso, propício para quem não vai comer pouco.


Outro atrativo culinário que atrai bastante gente são os cafés coloniais, típicos da região Sul. São diversos pães e massas que se alternam com inesperadas salsichas e outros embutidos, incluindo também culinárias da Itália, da Espanha e de Portugal.

Aqui, uma reminiscência infantil. Meu avô tinha uma minúscula oficina eletrônica, e a dona da garagem que ele alugava era a Kathi, uma alemã legítima, que nos enchia de doces mergulhados no mel todas as vezes em que os fazia. Vinha no pratinho com papel amarrado com um barbante, que meu avô, pouco diligente, fazia chegar todo melecado em casa. O cheiro dessas casas recende a esses dias. 

Por fim, há as casas de “badulaques”, que não são badulaques, mas delicadas peças que são verdadeiras obras de arte, como esses relógios cuco de parede.

O lugar é lindo. Parece que estamos em uma vila europeia, com todos os lugares bem cuidados, jardinagem em dia e limpeza impecável. A comida é convidativa e dá gosto de se entrar nas lojinhas em geral. Mas tudo é caro, muito caro. Dificilmente se come com menos de cem moedas a cabeça, o café colonial é na faixa dos cinquentinha e os artigos para venda custam um rim. Os tais dos cucos são todos acima de 700 reais, o que não é qualquer dinheiro, convenhamos, mesmo que efetivamente valham isso.

E aí gente se põe a pensar: não sei se o esquema de cooperativa funciona ainda, se se aplica somente à produção agrícola ou se também o pequeno comércio está sob regime de cooperação. De toda forma, penso se todo o fluxo de mercadorias tem algum reflexo no bolso dos funcionários ou se temos o mesmo tradicional funcionamento das redes de alimentação das grandes cidades. Sabemos que os preços, nesse caso, não se refletem no bolso da brigada.

É assim que funciona o mercado, e eu não vou me imiscuir em temas que entendo muito pouco. Mas eu vejo muita gente dizendo que isso é o mais-valia que os marxistas tanto se apegam, que a diferença que iria para o bolso do trabalhador vai direto para o bolso do proprietário, e que a tal mais-valia expressa o tamanho do lucro. Não é bem assim, e cumpre falar sobre o tema, especialmente porque “O Capital” é uma obra muito extensa, mesmo se devidamente fatiada, e para compreendê-la bem é preciso paciência e, especialmente, espírito livre.

Primeiramente, vamos fazer aquele velho disclaimer. Este ensaio vai falar sobre marxismo, e isso não significa que vai enaltecê-lo, mas esclarecê-lo, nos limites deste humilde escriba, porque vou tratar de um termo onde há confusão. A coisa chegou a um ponto de que as diferentes teses que são elaboradas atualmente sobre Marx terem estabelecido a distinção “marxista”, quando se refere a adeptos das ideias do alemão, e “marxiano”, quando a intenção é se referir ao conjunto filosófico do mesmo pensador. Portanto, estar escrevendo sobre um conceito de Marx não significa que eu seja ou não seja marxista, mas que trato de filosofia, e, por isso, não posso deixar de lado temas importantes que o abordem. Se quiserem contestar, os comentários estão aí, desde que se faça de maneira respeitosa, combinado?

Falei um pouco sobre valor de uso e valor de troca neste post, e só vou repassar rapidinho o tema. Nós usamos as coisas, e isso lhes dá um valor, porque elas são importantes e precisamos delas. Entretanto, esse valor não as põe em condições de serem comercializadas, porque há um outro valor, mais abstrato, que é o valor que tal coisa tem perante a sociedade, e que chamamos de valor de troca. Eu posso amar de paixão meu velho violãozinho, onde aprendi meus primeiros acordes, e, para mim, seu valor é inestimável, mas não consigo pagar o precitado café colonial se eu tentar vendê-lo, tão fodido deteriorado que se encontra. O valor de troca se originou há muito tempo atrás, quando o nascente comércio era feito na base do escambo, palavra esta um sinônimo de troca. Mercadorias muito diferentes eram trocadas entre si, sem qualquer correlação quantitativa, como, por exemplo, trocar vinte quilos de batata por dois metros de tecido.

Ok, compreendemos que mercadorias diferentes compartilham valores de troca, cada um em sua proporção. Mas o que faz com que uma sociedade determine o valor de troca de cada uma delas?

Pensemos assim: uma florzinha ordinária que eu colha de um terreno baldio não dá trabalho algum e qualquer um pode fazer o mesmo. Já uma flor plantada em uma estufa, que pode florescer em qualquer época do ano, com cuidados de adubação e proteção de pragas, que fica acondicionada em local ideal para mantê-la madura por mais tempo e assim por diante, envolve muito mais trabalho, e, naturalmente, as pessoas reconhecem e valorizam o esforço aplicado naquele produto. Há diferenciais: maior frescor, disponibilidade imediata, perfeição formal, e via discorrendo. Por isso, seu valor de troca faz sentido. Sendo assim, essa flor possuirá um valor de troca que é igual ao valor de troca de outro produto qualquer, e seus produtores poderiam fazer o intercâmbio de modo socialmente aceito. Quando toda a sociedade consagra esses valores, eles ganham aspecto simbólico e podem ser substituídos por moedas. E assim nos aproximamos da realidade que temos até hoje.

Pois bem. Se estamos entendendo que o que iguala o valor de troca entre duas mercadorias absolutamente diferentes é a quantidade de trabalho socialmente aceito, então podemos concluir que a força de trabalho é um dos componentes centrais na formação de um preço. Ocorre que o trabalhador, nessa relação de insumos, é o único elemento que caracteriza a mercadoria como tal, porque nada pode ser considerado mercadoria se não há alguma forma de trabalho humano aplicada a ela. Se está solta na natureza e posso pegá-la a qualquer hora, não é mercadoria.

Enfim, podemos compreender que a principal mercadoria é a que menos nos damos conta que existe quando olhamos para uma: a força de trabalho. É a única que a imensa maioria tem ao seu dispor para entrar no mercado. Ela tem uma condição especial, que podemos aplicar ao raciocínio anterior: se todo valor de troca se baseia no trabalho aplicado à matéria-prima, é com a mercadoria força de trabalho que se tem a fonte dos valores de mercado. Afinal, não dissemos que é o valor do trabalho aplicado que iguala as mercadorias das mãos distintas mercadorias? Portanto, não é uma mercadoria que possui só seu próprio valor, mas a característica de produzir mais valores.

Ocorre que, quando um empresário contrata mão de obra, vai pagá-la por um valor determinado. Comprou a mercadoria que é a força de trabalho de uma pessoa, a sua capacidade de produzir valor, e vai consumi-la até o ponto em que o trabalhador já terá suprido sua própria manutenção. Mas o consumo dessa mercadoria não para nesse ponto. Ela continuará, para além do que custa o trabalhador, e seu trabalho começará a multiplicar os valores do dono dos meios de produção. O seu expediente é vendido por oito horas, mas quatro horas seriam suficientes para suprir suas necessidades. O que vai além disso é usado para gerar mais e mais valor ao capitalista que investe. Isso é o conceito de mais-valia, ou, na forma latina que prefiro, de plus valia.

Por que a plus valia não é simplesmente um dos fatores do lucro? Porque o capitalismo possui um caráter auto-expansivo, isso é intrínseco a ele. O aumento de produção é um dos focos não somente para o consequente aumento da lucratividade, mas para que se aumente a participação no mercado. Isso tudo se procura obter através de dois caminhos: um aumento na quantidade do tempo trabalhado ou na diminuição do tempo necessário para a obtenção da mercadoria. O primeiro é o plus valia absoluto e o segundo é o plus valia relativo.

O plus valia absoluto, como é fácil de entrever, é o aumento do número de horas exercidas pelo trabalhador. Vamos começar nos lembrando que se vivia em uma época com uma legislação trabalhista praticamente inexistente, com os empregos sendo oferecidos com baixa proteção e quase nenhuma possibilidade de negociação. Portanto, a jornada de trabalho era uma questão arbitrária. Se o trabalhador do exemplo cumpria quatro horas para suas necessidades e outras quatro para produzir mercadorias que não lhe aumentavam os ganhos, com a extensão da jornada esse acréscimo se tornava ainda maior.

Já o plus valia relativo depende de um aperfeiçoamento das tecnologias que permitem que a produtividade se amplifique sem haver correspondência nos ganhos do funcionário. Imagine uma máquina que permitisse produzir cinco bolas por hora e passe a produzir dez. Em uma mesma jornada de trabalho, um trabalhador produziria o dobro do que foi contratado, sem que, no entanto, isso reflita dinheiro no seu bolso.

Aqui, poderíamos pensar que a assertiva sobre o plus valia ser sinônimo de lucro se completa, e podemos tirar uma bela soneca após um almoço tão opíparo. Mas se a coisa se limitasse a isso, teríamos uma situação permanente que nos manteria no momento da análise marxiana: no século XIX. Se o plus valia fosse a remuneração de um magnata, ele seria mais e mais ostentoso, enquanto sua fábrica ficaria envelhecida e ultrapassada tecnologicamente. Mas o que ocorre de fato é a retroalimentação do capital. É preciso que haja reinvestimento no próprio negócio, caso contrário a chance de se sucumbir à concorrência, um dos pilares do capitalismo, é praticamente inexorável. Aquele que não conseguir dar conta de se sustentar perante os concorrentes é engolido por eles, fazendo com que o capital se acumule nas mãos de cada vez menos milionários, estes cada vez mais ricos. Evidentemente, estamos falando do contexto do século XIX, mas é acaso que conglomerados tão gigantes venham se formando por todo o mundo? Não sei dizer, mas o fenômeno foi detectado e parece fazer sentido.

O plus valia é, portanto, o tanto de trabalho que se extrai de um operário, camponês ou qualquer outro produtor para fazer girar a roda do capital. Se trabalhasse para si mesmo, o trabalhador teria muito mais retorno das mercadorias nas mãos. Como não tem, o operário se aliena do fruto do seu trabalho, mas toda a estrutura que sustenta essa realidade vai ser analisada em outro momento, embora tenha dado alguma pinceladinha neste post.

Em conclusão, não conheço os sistemas de cooperação que existem neste lugar. Eu gostaria muito que fosse um modelo a ser aplicado ao mundo, que refletisse no bem-estar de cada um o fruto do seu trabalho, que pudesse ser um espelho onde nos enxergássemos menos sozinhos, mas acho que estou sendo um pouco utópico. Isso juntaria a beleza do lugar com a beleza de sua sociedade. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Para não ter que ler a volumosa obra de Marx, é possível começar pelo resumo feito pelo seu amigo de longa data, Engels. Segue a indicação.

ENGELS, Friedrich. Resumo de O Capital. São Paulo: Boitempo, 2023.

E alguns dados da Colônia em si mesma.

Colônia Witmarsum

Palmeira - PR

A aproximadamente 490 Km do centro de São Paulo

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

A síndrome de Poliana como exagero do viés de positividade e o Pequeno guia das grandes falácias – 63º tomo: a falácia do vidraceiro

(Ser feliz é uma coisa boa, mas tudo na vida tem sua justa medida. Passar do ponto pode não mostrar coisas boas, inclusive falácias).

“Destruição não é lucro” - Bastiat

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Estamos em época de Olimpíadas, que se realiza em atraso, por conta da "benção" da pandemia. Eu curto muito acompanhar os jogos, só que desta vez está difícil, porque a maior parte dos certames ocorre de madrugada. Afinal, o Japão está do outro lado de uma Terra que não é plana, e meu sagrado sono não me deixa interromper seu culto. Mesmo assim, ainda na hora do café, procuro me atualizar sobre medalhas e recordes.

Tem coisa, no entanto, que me incomoda, e muito. Eu estou longe da crítica barata e milonga repetitiva de “globolixo” dos atuais donos do poder, mas o ufanismo da vênus prateada me dá engulhos. Mesmo nos esportes onde sabemos não haver a mais remota chance de medalha, os locutores e comentaristas insuflam a audiência, como se quisessem catalisar a grandeza da nação através de um sonho impossível. Isso é uma tática, obviamente. Se você perguntar em off, um por um te admitirão que não existe chance de medalha no badminton ou no hóquei. Mas o ordenamento é não baixar a bola, em nenhuma circunstância. Para mim, é um alto astral idiota. Bom... Tenho problemas com ufanismos e otimismos.

Comecei a trabalhar aos 14 anos, o que significa que, neste ano da graça de 2021, completei 37 anos de carreira praticamente ininterrupta. Em outros tempos, já estaria regularmente aposentado, mas as mudanças de regra feitas com o jogo andando fizeram com que eu ainda tenha muito a trabalhar. Mas essa janela toda me fez cruzar com todo tipo de gente: soturnos, sossegados, ansiosos, lascivos, oligofrênicos, espertos e aqueles que mais me irritam, os otimistas exacerbados. Ô como me aborrecem aqueles que se colocam em permanente estado de alto astral.

Credo (direis)! Que péssimo humor… Você preferiria que seus colegas fossem reclamões que só jogam o clima para baixo, ou aqueles que têm manias persecutórias que acham que todo mundo quer prejudicá-los? Não é melhor ouvir palavras que no mínimo podem servir de incentivo?

Eu sei dizer que sou meio pessimista mesmo. Talvez por isso tenha Schopenhauer entre meus filósofos favoritos. Não sou um radical, que só veja o lado negro da vida. Mas, se pretendo ser realista, é óbvio que não posso contorcer minha visão ao ponto de me desprender da realidade. E há momentos em que temos motivos justos para sermos ponderadamente otimistas. Se meu time tem bons jogadores, entrosados e em forma, não tenho porque achar que ele será rebaixado, e sim que disputará o título.

 Num rasgo de humildade, admito que o pessimismo não é uma tática boa. Já cheguei a pensar que era uma ótima estratégia de defesa: se eu espero pelo pior, quando as coisas não vêm tão ruins assim acaba sendo até um lucro. Acontece que ser pessimista, por vezes, significa sofrer por antecipação e, não em poucos momentos, inutilmente. Por exemplo, espero o resultado de um exame achando que tenho um gravíssimo tumor. Quando é constatado que não passava de uma espinha, percebo que a dor de cabeça foi à toa.

Mas é o tipo da coisa que não escolhemos ser. Há uma certa medida em que a racionalidade age, mas que daí para frente não adianta nada. Eu raciocino que são ofensivos ao meu anfitrião os esgares que faço diante do coentro que aniquila a torta, mas não consigo nunca me convencer de que sabão é um bom gênero alimentício. Com a dicotomia otimismo/pessimismo é a mesmíssima coisa. Pensar ajuda, mas há um momento em que não conseguimos conter as aflições e ansiedades.

Acontece que não se trata (o meu perrengue) de ter inveja dos otimistas. É que, assim como o pessimismo exagerado é um mal em si mesmo, dialeticamente o otimismo despropositado também é. Ele nem natural do ser humano é.

Há gente que tenha esses impulsos através das bazófias que leem nos manuais de autoajuda, que ouvem nos discursos do empreendedorismo ou nas lavagens cerebrais da PNL. Esses logo levam uma na cabeça e retornam à crua realidade. O problema é quando esse estado de espírito torna-se tão arraigado que passa a fazer parte da realidade mental da pessoa que, como sabemos, é bem descolada da realidade factual que todos nós, caniços pensantes, vivemos com peso.

Tão séria é a situação das pessoas que vivem em uma positividade falsa que passou a ser considerada uma doença, que é classificada no curioso nome de síndrome de Poliana, baseado na personagem criada no começo do século XX pela escritora Eleanor Porter, que fez um sucesso lascado. Senta, que lá vem spoiler.

Poliana é uma menina que perdeu seus pais e se viu forçada a morar com a tia, uma mulher extremamente amargurada. Como foi destinada a ela uma vida tediosa, em lugar solitário, usou uma brincadeira que seu pai lhe ensinou para animar e dar sentido para seus dias: o “jogo do contente”, que consiste em achar um lado positivo em tudo e sempre encontrar um motivo para ser feliz, seja lá qual for a circunstância. Para o que queremos conversar aqui, já é mais que suficiente.

Os psicólogos Margaret Matlin e David Stang, especialistas em psicologia cognitiva e social, descreveram um conjunto de sintomas que incluía um desprendimento da realidade através da fuga de situações difíceis, mesmo quando em níveis insuportáveis. A este diagnóstico resgataram o nome da pequena guria do conto, por possuir algumas características assemelhadas ao quadro. O limite entre o otimismo simples e a positividade tóxica é bem embaçado.

Por um lado, poderíamos aproximar o jogo de contente da pequena Poliana a uma lógica epicurista. Se na atividade lúdica a menina procurava encontrar sempre um lado positivo em tudo, podemos pensar que esse alívio mental é uma busca pelo prazer, em detrimento do sofrimento que a situação normalmente faria pensar. Mas a coisa está longe de ser tão simples assim. 

Nós todos vivemos sob condições psicológicas chamada de vieses. Não são coisas excepcionais, mas apenas tendências mentais a dar um determinado caminho às coisas que pensamos e sentimos. Um dos mais clássicos é o viés de confirmação, outro são os mecanismos heurísticos. Há ainda outros, como o viés de positividade, uma tendência psicológica em lembrar mais facilmente de eventos positivos do que negativos. É um fenômeno comuníssimo, que citei neste link, mas vou dar como exemplo os tempos em que você ia comer macarrão na sua vovó. A não ser que algo muito traumático tenha acontecido nessas tardes de domingo, você não lembrará que seus tios estavam bêbados, que suas tias lhe arrancavam as bochechas, que seus primos quebravam seus carrinhos e que seu irmão mais novo fazia birra para ganhar justamente a coxa de frango que era sua. Você vai lembrar apenas do sabor da massa e do molho, do quanto a sobremesa era saborosa e do quanto era acolhido com carinho pela avó, da bola que jogava com o avô e do quanto era grande o quintal, em detrimento da sala de seu minúsculo apartamento. A mente faz esses fios de seletividade porque quer viver bem consigo mesma, e é óbvio que lembranças felizes são mais cômodas, mesmo que não formem a realidade completa.

A moderna psicologia forjou o termo síndrome de Poliana pra diferenciar uma condição natural, que é a perspectiva positiva, de uma condição patológica. O termo síndrome significa um conjunto de sintomas que dão uma dica que algo vai errado, ou seja, uma síndrome é uma condição de anormalidade, um sinal de doença. Logo de cara, portanto, é preciso diferenciar uma pessoa com pensamento predominantemente positivo de outra que se perde em devaneios de contentamento impossível.

Pensamentos positivos são bons. Todos aqueles que desenham um objetivo não o fazem sem que haja impossibilidade de atingi-lo em condições normais de temperatura e pressão. Eu, por exemplo, tenho um projeto de aposentadoria: gravar todas as músicas que eu escrevi na juventude. Eu tenho uma bateria, meu filho mais velho tem uma guitarra e meu genro tem um baixo. Com um computador e alguns microfones, é o suficiente para captar as músicas e fazer tratamentos por software. Dá um trabalho insano, mas, estando em santa paz com minha inatividade, é uma ocupação e tanto. Se eu não acreditar minimamente que vai ficar bom, nem começo a brincadeira. Mas o limite da minha positividade está aí: é uma coisa amadora, limitada à auscultação de meia dúzia de pessoas, um legado para os netos.

Percebem que esse tipo de pensamento está bem delimitado pela realidade? Dentro do campo de possibilidades, essa pretensão está realmente calibrada: haverá algum tempo, há recursos materiais e eu não tenho artrose nos dedos (ainda). Qualquer coisa que vá acima disso, vai ficando cada vez mais improvável e irreal. Pode ser que alguém do vilarejo que eu more me ouça pela janela e ache bom que eu toque no seu boteco. No mais tardar, alguma molecada poderá achar o baterista que faltava, para brincarmos nos fins de semana. Daí para frente, é otimismo demais. Não vou atrair nenhuma gravadora, não vou fazer shows, não vou sair em turnê, ser aclamado como um talento tardio. É tão possível quanto as pirâmides do Egito terem sido montadas pela força das águas do dilúvio (sim, já ouvi esse tipo de coisa).

Qual é o problema de pensar tão grande, de ter uma positividade exacerbada? É simples. Da mesma forma que o pessimista de carteirinha, o otimista excessivo se desprende da realidade. Quando isso chega a um nível de transpor a barreira do patológico, temos diante de nós uma atitude de fuga da realidade. E convenhamos: se alguém é escapadiço à verdade física e mental, é porque tem problemas.

Uma boa parte da questão está incluída naquilo que consideramos como bom e valioso. Concordam comigo que nem tudo o que tem valor está inscrito em nossos genes? Muito do que valoramos vem do nosso meio social, através dos usos e costumes. Só que tem um problema: esses valores não são absolutos nem eternos, como bem diria Nietzsche. Mas nós balizamos a felicidade através da normatividade, e o que fica fora dela é negativo, é desviado, e triste. Vou dar um exemplo: por que o desenho Frozen causou estranheza e até estrépito em certos meios? Porque ele não terminou com um casamento, como é o padrão. Idem com toda e qualquer novela que você assistir. O final feliz esperado para qualquer história de amor é o enlace definitivo. Com isso, pensamos que uma pessoa sozinha não pode ser feliz, porque o "normal" é um casal, uma família. Duas ilusões conjugadas: a que diz, como na música de Jobim, que é impossível ser feliz sozinho; e a de que o melhor refúgio de um ser humano é a família. Tem muita discussão aí. Primeiro, por mais gregário que seja o homem, sempre haverá quem prefira ficar só, sem que isso represente tristeza. Para essa pessoa, a positividade estará justamente na solidão. Se você não entende solidão como uma coisa boa, seu complexo de Poliana lhe fará bugar o cérebro. Por outro lado, há famílias absolutamente tóxicas, e o lado positivo possível é se afastar dela. Lamento, mas isso existe e acontece. Portanto, determinar o lado positivo é muuuuuuuito relativo.

Para além deste aspecto, no entanto, vai mais coisa ainda. A positividade excessiva não deixa de ser uma forma egoística de não suportar a realidade tal como ela é. Vamos combinar que lidar com o lado bom das coisas é sempre mais fácil do que lidar com pensamentos negativos. Só tem um probleminha: eles existem, e tem situações em que nada de positivo é possível extrair. Há coisas que não tem lados positivos. Uma fácil e rápida: que cena que envolva racismo pode ter lados positivos? O que faria Poliana em uma situação assim? Só se pensar: que bom que não é comigo. Isso não é tóxico? A síndrome de Poliana, portanto, aparece quando a pessoa não quer enfrentar problemas, simples assim.

O fato é que temos que saber lidar com situações difíceis, e não há nada de mau em nos sentirmos mal com elas, desde que não sejam incapacitantes. E é aí que a síndrome é um problema - quando ela nos torna incapazes. Muitas vezes a solução para a aporia de não existir lado bom é achar um tertius. Se eu sofro, é porque Deus quer, ele sabe o que é bom para mim; se eu não consigo, o destino me levará a coisas melhores, coisas do gênero. Mas nada faço para resolver a questão, especialmente quando faço essas terceirizações. Se esse modelo de pensamento me conforta, também me conduz a um conformismo - o que é o exato oposto do otimismo, no final das contas. Notaram a armadilha?

É por isso que eu gosto do desenho Divertida Mente, a quem relacionei no meu post dos dez anos. Há quem não tenha gostado, e dificilmente alguém o coloca como o melhor trabalho da Pixar, mas eu ainda achei ótimo. Seu recado é muito claro: todos os nossos sentimentos são necessários para a construção da personalidade de uma pessoa, inclusive a tristeza. A todo tempo a personagem Alegria tenta controlar o edifício da personalidade da protagonista, que se encontra em plena transição da infância para a juventude, mas há um momento tal em que sua antagonista Tristeza invade, sem controle, o palco mental da menina, e, pasmem, é ela quem resolve as coisas. Sem a tristeza, os outros sentimentos não se rendem, o ego não se encontra a si mesmo e se repõe à estabilidade. Não é preciso colocar a tristeza para fora, mas deixá-la agir como reação natural. Desenhinho genial, e que dá um tapa na cara dos poliânicos.

Desculpem pela brincadeira. Os acometidos pela positividade tóxica precisam de ajuda tanto quanto os deprimidos, porque são dois lados de uma mesma moeda, e merecem todo o meu respeito. Mas há sempre espaço para lembrar das falácias, não é mesmo? Há uma delas que está relacionada ao fato de se ver tudo pelo lado bom, e que nos mostra como nem sempre a positividade está vinculada a argumentos válidos. É conhecida pelo curiosíssimo nome de falácia do vidraceiro, e vem de uma alegoria do economista francês Frédéric Bastiat para desmentir que um processo destrutivo pode ser benéfico para a economia.

A historinha é a seguinte: um menino quebra a vidraça de uma loja com uma pedra. Diante do aborrecimento do proprietário, alguma Poliana lhe diz para não se irritar, pois para cada coisa de ruim, há alguma coisa de bom. Senão, o que seria dos vidraceiros?

Essa ideia é falaciosa porque carrega uma falsa positividade. De fato, o lado bom se justifica, mas é muito menor do que o prejuízo causado – e que não se resume à substituição do vidro. Bastiat chama essa última de efeito visível, algo que está ligado imediatamente ao que se vê. Mas a cadeia de causas e consequências levada adiante, traz consigo aquilo que não se vê. O vendeiro tem que realizar um gasto imprevisto com a vitrine, o que é bom para o vidraceiro e mais ninguém, ali se encerra o seu ciclo. Mas acontece que a quebra da janela direciona a verba disponível para um evento ruim, que pode ferir alguém, estragar o produtos expostos e que, no final das contas,  desvia o dinheiro dispendido de outros fins, mais bem amarrados na cadeia de causas e consequências.

No final das contas, a positividade exposta aqui é falsa. O argumento parece trazer bons motivos para se sair quebrando janelas por aí. Melhor seria que o vidro não se houvesse partido, que as coisas que não são vistas pudessem acontecer normalmente. Não há nenhum ganho na substituição da janela: ela é necessária no comércio do lojista e precisará ser refeita. Esse dinheiro, se investido na melhoria da venda, aperfeiçoaria o trabalho e geraria mais renda, em uma das hipóteses. Esse é o lado invisível das consequências, segundo o que diz Bastiat.

Bom, é isso. Sejam felizes, mas não o façam por fuga ou autoengano. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Vão de baciada. A versão que está na foto é de uma coletânea da Disney que eu tenho desde criança, mas a história de Poliana é menos resumida do que a que está lá. Segue uma bonita versão completa.

PORTER, Eleanor. Pollyana. São Paulo: Autêntica, 2016.

A psicóloga Margareth Matlin foi bastante atuante e tem o seguinte livro em língua portuguesa:

MATLIN, Margareth. Psicologia cognitiva. Rio de Janeiro: LTC, 2004.

O desenho Divetida Mente é um dos que eu mais recomendo para assistir. Gostei muito, de fato, principalmente levando em conta a proximidade entre Pixar e Disney, que costuma se dedicar a historinhas mais manjadas.

DOCTER, Pete. Divertida Mente. Filme. Cor. 94 min. Estados Unidos: Pixar, 2015.

Mas não sejamos radicais. Frozen também é um desenho agradável e que tem o tal final meio diferente. Gosto ainda mais porque incomoda, ainda que involuntariamente, uma bela camada de tontos (e preconceituosos).

DEL VECHO, Peter. Frozen. Filme. Cor. 102 min. Estados Unidos: Disney, 2013.

Por fim, recomendo este opúsculo de Bastiat, que tem umas coisas bem interessantes e fáceis de entender na área de Economia.

BASTIAT. Frédéric. O que se vê e o que não se vê. São Paulo: LVM, 2010.