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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Navegações de cabotagem – a Gruta da Paz de Limeira, com um nome e um designador rígido para torná-la única

Olá!

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É monocórdio, mas é assim mesmo, amigos que me acompanham neste blog. Talvez seja mais chato para quem lê, porque eu me divirto um bocado com isso, mas peço um pouco de paciência, porque não custa. Ainda no começo deste ano, antes da interminável pandemia, mais um domingo, mais um bate-e-volta, mais um concurso público da menina mais nova, que busca nas prefeituras o espaço que a iniciativa privada lhe nega, praticante da área de Ciências Sociais que é.

Desta vez, estamos em Limeira, cidade bastante próspera que fica situada no centro-leste do estado de São Paulo, em uma região onde a temperatura já começa a se elevar, próximo à depressão periférica paulista. É sabido como há uma diferença grande de temperatura entre a região serrana da qual Sampa faz parte e a área do planalto do interior. É um município grande, com mais de 300 mil habitantes, e que tem alguns prédios bastante antigos espalhados pelo centro urbano, embora, da mesma forma que na Capital da Solidão, tudo tenha ficado meio espalhado em meio à onda modernizante da década de 70.

Entretanto, estamos no interior e a paz reina nos domingos. Dei um pulo no mercado municipal para comprar umas castanhas (fiquei sabendo que pouco tempo depois o prédio sofreu um incêndio de grandes proporções) e fui passear pelas praças para esperar o tempo passar. Em uma delas, vi algo que me chamou a atenção: uma formação inconsueta de pedras, no meio termo entre uma caverna e um castelo, soergue-se em meio às árvores e bancos. É a Gruta da Paz.


Trata-se de um monumento centenário, construído de pedras retiradas de uma fazenda da região pela parte de fora, enquanto por dentro é toda feita de tijolinhos. Foi erguida por ocasião do término da Primeira Guerra Mundial e é cheia de referências religiosas, como os trinta e três degraus de sua escadaria, a idade de Cristo quando morreu.


São quatro tipos diferentes de pedras, para representar o que era entendido na época como as quatro raças humanas, e que constituem uma construção de estilo maneirista, segundo dizem, embora busque recordar um edifício medieval.


Ao redor da construção, há a estrutura de uma lagoa que se encontrava vazia. Não sei se se trata de manutenção ou limpeza, mas ficaram faltando umas carpinhas para dar alegria ao lugar, assim como mais significados religiosos.


O final da escadaria dá em um platô que serviria originalmente como um coreto, para as bandinhas da cidade tocarem suas músicas. Hoje, serve para dar um tapa na pantera. Por uma paulistaníssima prudência e mau costume, achei por bem esperar um pouco para ir até o alto.


O coreto de fato não está nos cimos do monumento, mas um pouco mais para baixo na própria praça, em estilo completamente diferente, guarnecido por uma rara arquibancada de três lances.


Hoje em dia, pelo que pude perceber, a gruta serve como espaço expositivo, mas já serviu como lanchonete e bomboniére. Os arcos ogivais dão um ar meio medieval, ainda que desvirtuados pelas contemporâneas grades de proteção.


A gruta fica na mesma praça onde fica situado o Teatro Vitória, e formam um conjunto bonito em meio a um centro comercial. Embora haja quem lhe conteste a beleza, pelo que andei vendo nessas internets da vida, não deixa de ter sua importância histórica.


Apesar de tão antiga, esse nome oficial, Gruta da Paz, somente veio em 2004. Até então, era apenas um monumento municipal que ficava no meio da Praça Toledo Barros. Nessa ocasião, houve um concurso de poemas. O vencedor virou uma placa que foi para a parede do castelo.


Quem me acompanha neste blog sabe da bronca que eu tenho com mudanças de nomes de logradouros, como pode ser lido neste texto. Salvo honorabilíssimas exceções, penso que um nome deve ser mantido quase sempre, porque carrega consigo um pacote de significados difícil de ser superado por uma homenagem a alguém que nem mesmo soube que tal rua existe.


Arrumaram um sistema na cidade de São Paulo que é ainda pior do que a mudança pura e simples: adiciona-se ao nome original uma designação laudatória, gerando trambolhos inexplicáveis, como é o caso da Rua das Olarias Coronel Camilo Christófaro Marins. Que coisa horrorosa! Nem se guarda a história da rua repleta de olarias que aproveitava a argila das beiras do Rio Tietê, nem se homenageia o gajo em questão com a devida deferência. A um parece querer-se apagar a memória; a outro, dá-se uma aura de desimportância, e a tudo se dá uma impressão de serviço malfeito. E a moda pegou: Ponte do Limão Adhemar Ferreira da Silva, Ponte da Casa Verde Jornalista Walter Abrahão, e por aí afora.


Não é o caso do monumento em questão. Um nome próprio geralmente é muito bom, e ele faz todo sentido quando lembramos que a gruta foi construída nos términos da Primeira Guerra Mundial, quando a esperança (infrutífera) de um mundo melhor vinha à tona de um povo muito assustado. Um nome próprio individualiza e ajuda a reconhecer um objeto mesmo quando falamos dele subjetivamente. É mais ou menos o que acontece com os cachorros, que deixam de ser UM cachorro qualquer para ser específico, O Fulano de Tal (no meu caso, o inefável Homem-Cueca).

Mas essa história toda me fez lembrar de uma das grandes questões da moderna Metafísica e de como o Filosofia da Linguagem costura uma solução para a aporia. Trata-se da Teoria dos Mundos Possíveis e do Designador Rígido, temas tremendamente complexos dos quais vou passar somente uma ideia geral. Vamos nessa.

Essa história toda começa com Leibniz, o pensador alemão das mônadas como componentes do universo (leiam aqui sobre isso, é importante). Ele dizia que as mônadas, uma espécie de centro de energia que seria o elemento fundamental de toda a realidade, acomodavam-se uma às outras através de uma harmonia preestabelecida, que, por sua vez, era fruto de um arranjo divino. Dada sua plasticidade, as mônadas que compõem o universo poderiam se amoldar a qualquer realidade, mas por conta da harmonia guiada por Deus, somente poderiam adotar a forma que percebemos na própria realidade. Diante das inúmeras possibilidades, aquela que nos é plasmada é a mais adequada de todas, em razão de seguirem a perfeição divina. Ainda que as contingências não nos permitam perceber, Leibniz entende que nosso limite intelectual impede-nos de compreender que os caminhos traçados em todo o universo são os melhores possíveis. “O mundo é o melhor dos mundos possíveis”, dizia o tedesco.

É óbvio que, por mais que fosse bem engendrada e não fosse desprovida de sua lógica, essa tese tinha costas largas para tomar paulada. E as mais célebres (dolorosas) vieram das ácidas mãos de Arthur Schopenhauer, o profeta do pessimismo. Ele ridicularizava as teses de Leibniz, tomando-as por pura viagem metafísica. “Eu só conheço o mundo real, não tive o prazer de conhecer os possíveis”, disse ele, asseverando a inutilidade de se pensar em algo que, no limite, não existe. Esse pensamento materialista só admite uma preordenação das coisas se pensado em sua própria metafísica da vontade, onde tudo concorre para tentar saciar o insaciável, em sua mais célebre frase, o exato oposto da assertiva leibniziana: “A existência é uma dívida perpétua que só a morte paga por inteiro. O mundo é o pior dos mundos possíveis”.

Mas o fato é que a ideia de mundos possíveis não foi descartada por completo, sendo retomada em um campo que trafega do metafísico para o lógico-semântico a partir da segunda metade do século passado – ontem, no tempo histórico. E aí vamos começar a fazer algumas perguntas para este novo momento. Ontologicamente, o que é um mundo possível? Seria algo semelhante a uma realidade alternativa, como é comum acontecer em histórias da Marvel? Não é bem isso. Embora exista quem de fato defenda a existência de mundos paralelos ao que temos ao nosso redor*, a questão dos mundos possíveis diz mais respeito a uma condição lógica do que propriamente existencial. Exemplo: Há pouco tempo, tivemos o sorteio dos confrontos para a Copa do Brasil**, e calhou ao Corinthians enfrentar o América Mineiro. Poderia ser um monte de outros times, todos participantes do sorteio: um Derby com o Palmeiras, Majestoso com o São Paulo,  um Clássico Alvinegro com o Santos, um Encontro das Nações com o Flamengo, ou jogos contra Inter, Botafogo, Grêmio, Cuiabá, Bragantino, Athlético Paranaense, Ceará, Juventude, Fortaleza ou Atlético de Goiás, mas lhe coube o Coelho. Esses são todos os mundos possíveis no caso “adversário do Corinthians na Copa do Brasil”, sendo que um corresponderá à realidade e os demais quatorze à possibilidade. Não está no escopo dos mundos possíveis enfrentar o Vasco ou a Portuguesa, porque o primeiro foi desclassificado em etapa anterior e a segunda nem participou do torneio, e, portanto, estes confrontos não estão incluídos nos mundos possíveis definidos neste escopo. Também não está na possibilidade enfrentar a seleção da Argentina, porque é uma copa entre clubes. Idem com relação a times ingleses ou coreanos, porque é um torneio nacional. Pior ainda outras hipóteses mais esdrúxulas: o Corinthians não pode enfrentar a si mesmo, nem a dois adversários ao mesmo tempo. Também não pode enfrentar um time de basquete ou um escrete de jogadores falecidos. Portanto, os mundos possíveis só são extraídos de um escopo bem delimitado e logicamente bem construído. Não é qualquer historinha que é um mundo possível. A coisa está mais para haver uma sinonímia entre mundo possível e mundo logicamente possível, entre os quais um deles é nosso mundo atual. Aristotelicamente falando, o mundo atual é um dos mundos possíveis que está em ato, enquanto os demais mundos estão no estado de potência (para ver mais, leiam aqui).

E existe a chance de que os mundos possíveis possam também ser reais? Tipo assim, de carne e osso? É impossível saber, e nem mesmo é seu propósito descobrir uma pretensa factibilidade. Essa teoria pertence à Filosofia, e não à Ciência. Perceberam a diferença? A ideia central desta teoria é dar uma totalidade entre o concreto e o possível, os dois componentes ontológicos da realidade, e com isso expandir a compreensão que temos do universo. Não é simples, mas eu nunca disse que era.

Pois muito bem. Se um mundo possível vai muito longe de um mundo de conto de fadas, de modo a possuir vastas coincidências entre si, é preciso pedir socorro à linguagem para que se possa chamar pão de pão, e pedra de pedra. O que eu quis dizer com isso? Que os filósofos estabeleceram que deve existir uma ferramenta tal que permita identificar sem sombra de dúvidas um mesmo objeto em diferentes mundos possíveis. Essa ferramenta é o designador rígido, e seus principais baluartes são os nomes próprios.

Em primeiro lugar, um pouco de gramática. Um substantivo é uma classe de palavras variáveis que serve para designar nomes e coisas, e tem esse nome porque pretende dar uma noção da substância do objeto ao qual retrata. Em suma, um substantivo corresponde a um nome. Quando este se refere a uma particularização de uma espécie expressa em um indivíduo, temos um nome próprio, expresso em letras maiúsculas, para dar uma certa “nobreza” a quem lhe recebe. Este é o maior distintivo de individualidade possível. Vamos reservar.

Em uma teoria de mundos possíveis, temos sempre indivíduos que se repetem em diferentes instâncias, sem que estes percam sua particularidade. Todos os termos que se refiram a eles são designadores, ou seja, são palavras que lhe dão precisão na identidade, que distinguem um objeto dos demais. Mas há um índice de “dureza” que torna esses designadores mais ou menos individualizantes. Chamamos de designadores rígidos aqueles em que indicam um único objeto em todos os mundos possíveis, e de designadores flácidos os que podem variar de objeto.

Nomes próprios são designadores rígidos por excelência. Quando falamos do Sport Club Corinthians Paulista, estamos apontando uma agremiação esportiva única, que seria apontado por esse nome sob qualquer condição do sorteio dos confrontos da Copa do Brasil. Já as descrições definidas são os designadores flácidos canônicos. Digamos que a equipe que enfrentará o América Mineiro será o alvinegro do Parque São Jorge. Parece a mesma coisa de dizer que este é o Corinthians, mas suponhamos a hipótese que, em um mundo possível, esta equipe não seja mais alvinegra, ou que haja outro time nessas cores no Parque São Jorge. Digamos ainda que o clube tenha se mudado desse bairro, e que outro tenha se fundado no lugar. São todas condições contingenciais, por mais que se aproximem do consenso. Entretanto, o Corinthians será o Corinthians na Copa do Brasil ou em qualquer outro torneio; continuará o sendo se mudar de bairro, cidade ou estado, e, mesmo que mude as cores, ainda assim vai ser Corinthians. Haverá quem diga: e se ele mudar de nome? Neste caso, teremos um novo designador rígido, que novamente passará a designar esse escrete nos mundos possíveis onde existir. Portanto, o nome próprio sempre se dirigirá a um objeto específico, enquanto uma descrição definida pode mudar de referência, dependendo das contingências.

Ora (direis), seu parlapatão. E se houvesse um time com exatamente este mesmo nome em uma cidade aqui ao lado... Santo André, digamos? Como farás para que sua tese do designador rígido continue funcionando? Para onde irá seu sentido e referência nos casos de homonímia, quando um mesmo nome próprio se referirá a dois objetos distintos. Primeira coisa que farei é explicar que a tese não é minha, mas de Saul Kripke, filósofo norte-americano ainda vivo. Segundo, que é exatamente para isso que servem as descrições definidas, que vão constituindo um feixe de descrições que é amarrado justamente pelo nome próprio. Portanto, este nunca vem sozinho, e por isso é possível obter consenso sobre a quem ele se refere.

Complicadinho... Posso eventualmente voltar ao assunto para falar mais, mas é mais uma importância que existe em se dar um nome ao monumento da Praça Toledo Barros: tornar-lhe único em todo o universo da arte pública, para além de suas cambaleantes descrições. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Kripke é um dos grandes nomes da moderna Metafísica e da Filosofia da Linguagem, e faz muitas inovações na Lógica. É bom ter um pouco de conhecimento anterior nessas áreas antes de começar a lê-lo, ou procurar um bom comentador.

KRIPKE, Saul. O nomear e a necessidade. Lisboa: Gradiva, 2012

E quando estiver passando por Limeira, dê uma passadinha rápida na Gruta da Paz, principalmente se for um pacífico domingo de sol, torcendo para seus tanques estarem cheios novamente.

Gruta da Paz

Praça Toledo Barros, s/nº

Centro

Limeira/SP

Aproximadamente 150 Km a partir do centro de São Paulo


* Não é isso o que a maioria das religiões fazem?

** Para quem não é ligado em futebol, trata-se de um torneio a nível nacional em que diferentes equipes de todo o Brasil vão se enfrentando e se eliminando, até terminar com uma final, obviamente. O campeão ganha uma bolada e uma vaga na Copa Libertadores, a competição mais importante da América do Sul.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Navegações de cabotagem – o Museu Mazzaropi de Taubaté e o cinema como reflexo da espécie e lugar de escuta

Olá!

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Quem me acompanha com um pouco mais de frequência, sabe das minhas intenções em sair da cidade de São Paulo, tão logo eu esteja um pouco mais solto com relação àqueles velhos compromissos de sempre. Como venho volta e meia namorar a região do Vale do Paraíba, seja na Serra da Bocaina, seja na Vertente Oceânica Norte, seja nas encostas da Mantiqueira, é de se esperar que alguma cidade que esteja no entremeio destas regiões seja algo razoavelmente atraente. É o caso de Taubaté, terra de bom porte e bons recursos, além de ser próxima da própria capital. Quando ‘inda não vivíamos nos pandêmicos dias e não precisávamos de máscaras até para buscar um pãozinho na padaria, fui até lá para a filha mais nova fazer umas tentativas de emprego e estudo. Enquanto ela se debatia com questões e sabatinas, fui procurar o que fazer no tempo disponível, como sempre faço. E fiquei sabendo da existência de um museu dedicado a um dos principais comediantes da velha guarda brasileira, Amácio Mazzaropi. Vamos lá conhecer mais sobre a vida do Jeca.


Em primeiro lugar, algumas informações. Mazzaropi, apesar da localização do museu, não era taubateano, mas paulistano da Santa Cecília. Só aos dois anos mudou-se com os familiares para a terra onde tinha muitos dos seus parentes. Lá, encantou-se primeiramente pelo circo, e que desembocou na decisão de utilizar um meio então mais moderno para a arte de representar. Foi um dos primeiros brasileiros a enriquecer com o negócio do cinema.


Ele produziu e atuou em dezenas de filmes do gênero comédia, principalmente evocando tipos populares da cultura brasileira, como o caipira e o suburbano, geralmente deslocados do próprio meio onde vivem, em uma paródia da real questão do êxodo rural e das transformações do meio urbano, cada vez mais rápidas.

O museu fica localizado no mesmo local onde era sediada a PAM Estúdios, que nada mais era que a produtora de filmes de Mazzaropi. É uma região da periferia de Taubaté, quase no meio rural, e onde também está localizado um hotel-fazenda, que era originalmente utilizado pelas equipes e elencos para estadia.


Trata-se de uma instituição paga, mas de valor quase simbólico, dado seu acervo de mais de 20000 peças. A separação dos espaços é temática, mas por todo lugar para onde se olhe vamos encontrar referências ao homenageado em tela. Como sua produção foi muito grande, há bastante material disponível para visitação, bem como artigos itinerantes que vêm e vão para exposição em outros rincões de Terra Brasilis.


Começa-se pela ala de equipamentos cinematográficos que foram utilizados pela PAM, que não são exatamente iguais aos que se utilizam hoje em dia, mas que, por isso mesmo, podem dar uma ideia mais precisa de como certos processos eram muito mais morosos, porque o mundo analógico de outrora exigia uma habilidade que os preparados digitais contemporâneos não deixam entrever. Lembrem-se: há um ponto em que se torna indistinguível magia e tecnologia. Aqui temos projetores, microfones, bobinadores, câmeras e outros aparelhos utilizados da metade para frente do século passado.


Em seguida, temos uma ala biográfica, representada por vários painéis circulares (para remeter a um rolo de filme?) com amplo sortimento de fotografias e textos. Aqui, temos a descrição da memória de vida e da carreira de Mazzaropi. Já dá para ficar a manhã toda só lendo estes conteúdos e entendendo como se desenrolou sua trajetória. Um dos painéis contém um zootrópio, antiga máquina de simular movimentos.


Há também uma ala que se dedica a explicar como os princípios óticos são utilizados para produzir o cinema, inclusive começando pelo começo: como funciona o olho e como seu esquema é reproduzido na projeção das imagens. Há um olho gigante que pode ser visto por dentro, para entender a dinâmica da inversão e correção daquilo que vemos.


É esse tipo de coisa que vai dando riqueza a uma visita, porque amplia o conhecimento.  No mesmo setor, temos explicações sobre os diferentes processos que levam à ilusão de ótica típica do cinema, como um aparelho giratório que faz entender a sucessão de imagens que faz a constituição de uma imagem plena. Nestas fotos, está ruim, mas dá para captar como funciona a coisa: sucessões de imagens estáticas colocadas em movimento modificam o modo como as percebemos, e a persistência dessas várias imagens dão a impressão de serem uma coisa só.


Em outra ala, pelas estantes e armários, há inúmeros objetos pessoais e cenográficos utilizados em suas diferentes produções, incluindo as célebres camisas xadrezes.


Há um pequeno auditório no interior do próprio museu, onde também há coleções de prêmios recebidos. Lá são ministradas aulas e debates sobre a vida e a obra de Mazzaropi. Embora estivesse fechado naquele dia, há também um anfiteatro maior, onde são oferecidas projeções de filmes, alguns deles remasterizados.


Nestes tempos de selfies, o museu disponibiliza algumas brincadeiras para o pessoal fazer suas gracinhas fotográficas, como chapeuzinhos, vestidos, gravatas e algum ambiente onde possamos brincar de manequins.


Há ainda um mezanino, que contém mais algumas coisas interessantes. Logo no topo da escada, a reprodução de um velho fogão a lenha permite que se veja e ouça alguns depoimentos através de telas digitais e headphones.


Neste mesmo andar, há vários dos ambientes cenográficos utilizados em filmes, organizados do mesmo modo em que estavam dispostos nas filmagens.


Vou começar de cara com uma confissão: não sou muuuuuuuuuuuuuito apreciador da obra de Mazzaropi, embora também não tenha motivos para depreciá-lo. Meu sogro, por exemplo, é fã de carteirinha, pela via da contemporaneidade e da temática interiorana. Era daqueles que ia à porta do cinema assim que uma nova película era lançada. Nos tempos dos videocassetes e DVD’s, era hábito o genitor da patroa fazer maratonas de três ou quatro filmes. Eu assistia no máximo um, e ia, já enfadado, tirar uma pestana no colchão do quarto de cima. Ora, direis, sendo assim, o que foste fazer em casa dedicada ao gajo? Não devias procurar outro afazer, tão abundantes os locais disponíveis nesta aprazível região, ou ao menos sorver café em algum canto?

Nada disso. Ainda que eu não seja exatamente um fã, isso não significa que eu não reconheça seu valor. Gostar ou não de um determinado artista é do campo opinativo, mas eu estou diante de dados e fatos; de conhecimento, em suma, ainda que seja necessário acionar certos filtros para os excessos laudatórios tão comuns nos espaços de homenagem. É a mesma coisa: um corinthiano debocha de um palmeirense (e vice-versa) pela paixão clubística e pela farra, mas negar a grandeza do outro time é cegueira. Sendo assim...

Tem coisas que a gente lembra-se de quando é pequeno que nos trazem um certo rubor. Não é bem o caso, mas não deixa de ser curioso. Trata-se de minha lembrança mais antiga com relação a cinema. Como já contei por aqui e ali, eu morava com outras nove pessoas, sendo que uma delas era meu primo cinco anos mais velho. Em um dia aleatório, vi pelo vitrô ele saindo com uma galera que eu já conhecia, seus colegas de escola, em um grande bando. Eu devia ter uns seis ou sete anos, o que o colocava nos onze ou doze. Curioso, perguntei à minha mãe aonde iriam Plinio et magna comitante caterva, em tamanho estrépito e algaravia. “Ah, eles vão no cinema”, disse a genitora com aquele delicioso defeito linguísitico tipicamente paulistano. “E como é isso?”, redargui. “Bom, é como se fosse uma tevê, só que imensa”. Eu-menino, na minha literalista cabeça infantil, imaginei logo um grande televisor, com o seletor de canais e botões de volume e brilho, igual à Colorado P&B que guarnecia a sala, que era mais ou menos assim:

Fonte: https://vejasp.abril.com.br/blog/memoria/dez-marcas-de-tvs-de-antigamente/

Quando fui efetivamente a um cinema, pouco tempo depois, fiquei um tanto surpreso, porque não tinha tanto a ver com a descrição que formei na minha cabeça. A tela era muito maior do que imaginava, e não havia nenhum vestígio de botoeira, e sim um palco e uma cortina, por baixo de onde brotava uma luminosidade difusa. As salas de cinema, crianças, também não eram parecidas com as que temos hoje, e alguns deles podiam servir também como teatro. Ainda existiam cinemas de rua e, mais ainda, salas de bairros. Tinham capacidade muito maior que os atuais cines de shopping, muitos com mais de 1500 lugares. O cine Amazonas, por exemplo, ficava na Vila Prudente e era bem perto de casa. O mesmo aplicava-se ao Ouro Verde, na Rua da Mooca. Embora já estivessem em declínio, serviram para me dar um encantamento que, mais tarde, foi substituído pelo teatro. Sim, é verdade. Eu mais vou ao teatro que ao cinema*, mas de forma nenhuma isso significa que eu não goste da tela grande. Muito pelo contrário.

É que sempre tivemos, como espécie, uma propensão em contar nossas histórias. Há razões práticas e emotivas para isso. Pragmaticamente: se no exato momento estamos vivos, é porque alguma coisa deu certo em nossas existências, e, levando em conta que há uma espécie de consciência coletiva de espécie, é de bom proveito que todos aqueles ao nosso redor tomem conhecimento das estratégias que tomamos diante de nossas bifurcações. Mas é claro que não somos esses robozinhos**, que fazem tudo de acordo com uma programação. Quando meu tataravô conseguiu fugir do mamute, por exemplo, toda uma carga de emoções veio junto – o pânico inicial, o medo vencido, o insight intuitivo, a apreensão pelo livramento do perigo e a sensação de euforia no sucesso, tudo isso resolvido em um átimo. O resgate dessas memórias se dá com vivacidade, com muito mais subjetividade do que poderia ser uma mera descrição de quem vê tudo à distância. Somos “contaminados” por nossa História e isso reflete em nossas histórias.

Eu falei em vivacidade e isso nos remete ao estereótipo dos imigrantes italianos, que agitam as mãos como uma linguagem própria, e como se fosse impossível comunicar-se apenas com as palavras – a gesticulação complementa o ato comunicativo de maneira imperativa. Isso é só para dar um exemplo, já que muito antes de se sonhar em Itália é provável que os homens lançassem mãos de recursos para ampliar suas representações. Em uma dessas, imagino uma pessoa aproveitando a luz projetada por uma fogueira nas paredes da caverna para fazer sombras com suas próprias mãos, dando mais ânimo ao seu relato. Olha, eu digo a vocês que sou bom nisso, e dá muito certo com crianças. Deve ser porque faltava muita energia elétrica no bairro onde morava, e acabei aprendendo a fazer vários bichinhos com as mãos: cachorros, elefantes, burros, camelos, patos, coelhos, pombos, caramujos, aranhas e congêneres... e com eles contava historinhas aos meus filhos e afilhados, conseguindo uma adesão muito maior de suas atenções. É um truque da pareidolia? É, mas, de uma forma ou de outra, é assim que se forma o nascedouro do cinema: uma necessidade de contar histórias e uma vontade de torná-las mais encantadoras.

E com isso entendemos que há mais alguma coisa a se falar filosoficamente sobre o cinema. Como máquina de contar histórias, a tela grande coloca-se na posição de quem fala, e de quem interage com quem está do lado de cá; entretanto, essa interação não se dá de maneira completamente livre. O cinema é essencialmente um lugar de escuta, não há cinema sem alguém que esteja lá para fechar o circuito da comunicação. E exercitamos algo que tem sido perdido nos últimos tempos, podem notar. Sempre que sentamos com alguém para ouvir seus problemas, rebatemos os mesmos com nossas próprias aflições, e isso é um defeito no sistema de comunicação. Eu tomo por mim mesmo. Tenho uma dificuldade incrível em me abrir, em colocar alguma coisa para fora, e, se chego a este ponto, o de me colocar na posição de confessante, é porque tem algo clamando por ser vomitado. Se neste exato instante meu interlocutor passa a ele mesmo tirar de dentro aquilo que lhe faz mal, meu objetivo estará frustrado. Provavelmente me recolherei novamente e perderei a oportunidade de extravasar aquilo que me corroía internamente. Quando estamos em uma sala de projeção, podemos ter a mesmíssima aflição que nos levaria a interromper a confissão que nos é arremessada pelos atores e pelo diretor, mas ali não é esse lugar. Ali temos que exercer e exercitar nossa audição, porque por trás da tela não há quem nos ouça. O diretor é imperativo, a fala dele é agora, e só há duas opções – ouvir ou fugir. O cinema faz um quê de divindade, poderosa e inamovível, a quem não adianta contestar durante a fala. Só depois, aí sim, podemos levantar o debate, quando a comunicação já foi completa, quando o artista já pode se manifestar inteiramente. E com isso aprendemos a ser melhores audientes, a escutar uma totalidade antes de nós mesmos nos colocarmos, e a compreender uma narrativa como uma completude. Há momentos para o debate, e há momentos para nos colocarmos no momento de passividade da escuta, para chegarmos ao momento ativo do entendimento.

Recomendações:

Vou recomendar o canal de Max Valarezo, dedicado à sétima arte. Encontrei-o quando estava pesquisando sobre a indução das risadas nos filmes, e me inscrevi de bate-pronto. Ele se chama Entre Planos, e não se limita a análise de filmes, mas do cinema como atividade.

https://www.youtube.com/channel/UCZq_CYXRoRjKqidapMPujaQ

Comprei um livro na loja do próprio museu, que traz muitos e muitos dados sobre a filmografia de Amácio Mazzaropi. Não é um livro propriamente para ler numa tarde de domingo, mas para consultar quando se quiser saber algum detalhe sobre a carreira do artista.

SILVA NETO, Antonio Leão da. Enciclopédia Mazzaropi de Cinema. São Bernardo do Campo: Edição do Autor, 2019.

Por fim, é claro, recomendo o próprio museu. Seu endereço é o que segue:

Museu Mazzaropi
Estrada Amácio Mazzaropi, nº 249
Itaim
Taubaté/SP
Aproximadamente 140 Km a partir do centro de São Paulo

* Sempre se lembrando dos impeditivos da atual pandemia.

** Não?

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Navegações de cabotagem – o Museu de História Natural de Atibaia e os humanos como síntese da História

Olá!


(Enquanto escrevo este texto, tenho nos ouvidos o álbum “Of Natural History”, da banda vanguardista Sleepytime Gorilla Museum. Pura maluquice sonora, misturando muita teatralidade com construções musicais insólitas. Seus componentes são multi-instrumentistas que tocam qualquer tipo de coisa – desde instrumentos muito antigos até objetos encontrados em casa, à moda de Hermeto Paschoal. Não é para qualquer um, mas vale a pena conhecer. Dados de recomendação lá embaixo).

Pouco antes da eclosão desta inaudita pandemia que já nos grassa e desgraça há cerca de seis meses, ou melhor, quando ainda tínhamos a expectativa de que 2020 seria um ano como outro qualquer, dei um pulinho aqui e outro ali para ajudar a filha caçula na sua missão de prestar concursos públicos. A indigitada descendente estuda na área de humanas e, como bem sabemos sem nenhum demérito, o destino-base desta formação é atuar na Educação. Sendo assim, às vezes é melhor procurar alguma coisa pelo interior próximo, enquanto não se consegue nada de muito proveitoso em Pauliceia Desvairada.

Vou reabrir a série das Navegações de Cabotagem e, como eu já disse, os quatro textos que se seguirão descrevem fatos que ocorreram todos antes da segunda quinzena de março. Por esta razão, não serão vistas luvas, máscaras ou escudos faciais nas pessoas, assim como não havia de se falar em imprudência ou negligência. Os quatro quilos que eu ganhei desde então são prova de meu bom comportamento epidêmico, embora não o seja no plano estético e lipídico.

Neste episódio, vou para a cidade de Atibaia. Ela não fica longe de SP/SP, algo como 70 km, o que dá para cobrir em cerca de uma hora, e fica na mesma região bragantina que relatei em minha série Para lá da serra que eu vejo na janela, de quem recomendo a leitura. Precisei levantar bem cedo, porque a prova da garota era às 08:00, mas o domingão estava um bocado agradável, naquele meio termo entre céu claro e brisa fresca, e fui procurar o que fazer ao ar livre. Atibaia por si só já é uma cidade linda, mas fiquei sabendo da existência de um parque com coisas legais, então me mandei para lá.


O nome do tal parque é Edmundo Zanoni. Este cidadão foi prefeito da cidade na década de 60 do século passado.  Há tempos atrás, aqui ficava localizado um clube de campo que pertencia à municipalidade, mas que, com fins de democratizar o seu acesso, foi aberto para o público em geral. Tem um relevo em declive, acompanhando o desenho do morro que lhe guarnece. Em seus vários canteiros, há uma bela profusão de flores.


O projeto de paisagística é bastante delicado, em uma área relativamente ampla (cerca de 40 mil m²), e para os moradores dos meios urbanos tem novidades pouco conhecidas, que possuem um fundo estético que explica bem a diferença entre arte e natureza: a beleza está nas duas, mas não são a mesma coisa.


A cidade de Atibaia historicamente faz parte do circuito que foi colonizado por populações nipônicas, como acontece no contexto do Cinturão Verde da metrópole da garoa. Por conta disso, é razoavelmente comum encontrar referências a essa cultura, incluindo um Jardim Japonês no parque, com sua inconfundível carpa, uma espécie de peixe-símbolo da longevidade e fertilidade.


Uma tradição daqui, trazida justamente pelos orientais, é a festa de morangos e flores, realizada todo ano na entrada da primavera. Vi que desta vez não vai ter. Paciência. Com o dia em franca ascensão da temperatura, fui com a patroa matar saudades dos pedalinhos no lago do parque.


Há uma torre de pedra fazendo as vezes de farol na ilhota acessível  por ponte. Fiquei sabendo que toda a área fica enfeitada de cima a baixo por ocasião da festa citada. Nas fotos que vi, fica lindo de verdade.


Para além das sutilezas do sol nascente, há também uma casa de artesanatos, estes expostos de forma permanente, para a apreciação de quem curte um chaveiro. Os carros-chefes são os vasos pintados à mão e os artigos que remetem à própria cidade: morangos, corujas e a Pedra Grande, monumento natural localizado na parte rural.


O parque ainda é sede do Instituto Pró-Carnívoros, uma daquelas entidades que martela em cima de ferro frio para defender uma causa que tem pouca visibilidade. É uma ONG cujo objetivo é a proposta de estratégias para a manutenção da vida dos carnívoros nativos a longo prazo.


Mas vamos ao tema que pretendo abordar com mais detalhe. No miolo do parque, existe um Museu de História Natural cujo nome homenageia o professor Antonio Pérgola, dito Toninho, cuja grande especialidade era a taxidermia, um conjunto de técnicas destinado a preservar, o mais proximamente possível, a forma dos animais quando ainda eram vivos.


Estruturalmente, o espaço é composto por painéis, gaveteiros e dioramas, uma espécie de armário envidraçado em que as peças podem ser dispostas de maneira a reproduzir um certo ambiente. No nosso caso, o ambiente a ser retratado é o habitat das espécies que compõem a região, de modo que os bichos não sejam simplesmente expostos, mas que formem um contexto compreensível.


É preciso elucidar o que é um museu de história natural. Da mesma forma que acontece com as universidades (como já escrevi aqui e aqui), há muita confusão com relação ao seu propósito. A um primeiro olhar, imagina-se que seja um lugar onde as crianças podem ver um monte de bichinhos empalhados, e nada mais que isso. Idem ocorre com os jardins botânicos, que pensamos parecer um imenso jardim, cheio de plantinhas. Não, o que temos nesses espaços são coleções, que possuem um sentido científico que vai além do mero entretenimento.


Claro que não há nada de mau em simplesmente se distrair. E também é claro que a quantidade de recursos disponíveis vai influenciar muito até onde os administradores podem chegar. Museus como os de Viena ou de Nova York têm coleções imensas e caríssimas, que são expandidas através de um círculo de empréstimos entre essas instituições de grande porte. Mas, mesmo em lugares menores, o propósito é basicamente o mesmo: confluir história e natureza para que seja possível compreender como a vida se desenrola no planetinha azul. Por isso, os acervos dos museus de história natural se deslocam em dois eixos: um vertical e diacrônico, em que se procura entender como surgiram as diferentes espécies, e que são sintetizados por ossadas milenares e fósseis...


... e num eixo horizontal e sincrônico, que busca evidenciar como as espécies de determinados locais estão espalhadas pelo espaço geográfico, desde sua origem mais remota, como é o processo de fecundação representados pelos ovos...


... passando pelos primeiros desenvolvimentos do novo ser, que, em condições normais, são pouco visíveis para nós, como pode ser observado através dos embriões e fetos...


 ... passando pelos animais em suas formas adultas...


... até chegar aos seus despojos mortais, onde podemos aprender um pouco mais sobre sua morfologia óssea. Neste caso, a linha do tempo somente é percorrida pelo tempo de vida das espécies atuais, e não no longo tempo histórico das espécies pré-históricas.


Por conta da expectativa da formação de contextos, um museu destes não se limita apenas às espécies animais, mas faz considerações de ordem territorial, podendo lançar mão de amostras da vegetação e dos aspectos minerais também.


O resumo da ópera é: essa modalidade de instituição visa fundir história, biologia e geografia para que seu usuário tenha ferramentas para entender como funciona a interação entre seres e meio físico, que tanto pode ser o do próprio local...


... como de terras mais distantes...


... ou agrupamentos de animais com similaridades, para que se comparem elementos evolutivos...


... ou amostras de elementos isolados, geralmente excêntricas ou em risco de extinção, no que os museus prestam mais de um tipo de serviço.


Enfim, museus são espaços de estudo. E, neste caso específico, o plano temporal tem muito mais importância do que parece em um primeiro olhar. Às vezes não nos damos conta de como a História é tão presente em nossas vidas, e só quando nos deparamos com alguma coisa que nos obriga a nos situarmos no tempo é que passamos a reconhecer nosso lugar na História.
Entretanto, o que somos quando observados no tempo? Segundo Benedetto Croce, filósofo italiano que viveu na virada do século XIX para o XX, somos um processo em curso. Vamos entender melhor essa proposta, e se concordamos ou não com ela.

Croce imagina um conceito de historicismo absoluto, fortemente calcado no Idealismo hegeliano e em seu Geist, mas não vou abordá-lo aqui, para não o tornar aborrecido (leia um pouco melhor sobre isso neste texto). Isso equivale a dizer que qualquer juízo que se faça acerca de tudo, seja algo físico como uma pedra ou abstrato como a própria Filosofia, não pode ser colocado fora da História, e, de certa forma, equivaler-se a ela. Isso acontece porque, por mais que algo possa parecer fortemente preso em um determinado momento distante, absolutamente tudo está ligado pelos liames do tecido histórico, e o momento atual nada mais é do que uma fotografia de um processo em curso permanente. Dessa forma, toda História é História Contemporânea, porque nada é como é sem que tenha sido o que foi.

(Isso me lembrou duma situação que ocorreu quando eu ainda tentava ganhar o mundo com minhas bandas e minhas músicas. Trata-se de uma música chamada Filhos do Passado, que reescrevo agora com um pequeno realce.

Gira o mundo, grande mundo
Ordem e progresso ou poço sem fundo
Um grande fato da nossa história
Ou apenas mais uma escória

Sinas mil do meu Brasil
É tudo belo ou é tudo hostil
Maior derrota ou menor vitória
Longa tragédia ou fútil gloria

Se hoje somos o que somos
Foi porque fomos o que fomos
O bem e o mal foram consumados
Na vida dos filhos do passado

Acorda e vive, grande cidade
Diz a mentira ou a verdade
Seu presente é vil ou é sagrado
Não sabe o futuro ou não lembra o passado

Esse trechinho fazia parte do refrão. Era um rock no estilo hard setentista, apesar de estarmos extemporaneamente na década de 80. Não tínhamos grana, mas tínhamos uma caixa acústica com o alto-falante rasgado, e a usávamos quando queríamos – rá rá rá – simular um Marshall com as válvulas sobrecarregadas. É... Não tinha como dar certo. Mas o ponto é outro – a parte destacada parecia-me ingênua demais, mas era exatamente o que eu queria dizer e se desenvolvia bem harmonicamente. Relendo o presente filósofo, pergunto-me se eu não era croceano antes mesmo de conhecê-lo. Sim, eu sei que é só uma coincidência, mas notem como, de maneira quase infantil, eu consigo exemplificar a tese de nosso caro abruzês).

Segundo pensava Croce, por mais remotos que fossem os fatos passados, eles continuavam reverberando seus efeitos até os dias presentes. Ele utiliza o exemplo do bode expiatório para explicar isso. Se alguma pessoa, seja por princípio religioso, seja por comiseração humana, seja por mero arrependimento, aplica a si mesmo um rito de expiação, ela reproduzirá, ainda que inconscientemente, toda a estrutura estabelecida por um rito das tribos judaicas milenares e de outros povos primitivos, com práticas semelhantes. Dessa forma, todo esse amálgama de passado é tornado presente no momento em que alguém repete o ato, como já faziam os antepassados.

Dessa forma, toda pessoa carrega consigo uma espécie de coletânea de documentos de juízo histórico, que lhe foi imputada por irradiação dos conhecimentos da espécie humana, transmitidas e integradas através dos tempos, e que nos fazem efeito modificador de caráter quando nos defrontamos a um objeto do passado. Reconhecemos um bichinho exposto em um armário e deste confronto com a História contida em nós reagimos particularmente e damos carga novamente a esta mesma História. Um homem é o universo inteiro no sentido histórico. Somos, todos nós, um compêndio de História universal.

Sendo assim, quando estamos em um museu de história natural, não estamos apenas presenciando um pacote de elementos antigos, mas estamos diante de nós mesmos. Cada reação, que se desdobra em curiosidade em conhecer, ou em aflição pela fragilidade, ou em admiração pelo trabalho detalhado, ou até mesmo em indiferença, é uma pequena parte da nossa característica de sermos humanos, que nos foi transmitida através de nossa inserção na História. Não somos humanos sem nossa história. Não é legal isso?

Recomendações:

Começo pela obra de Croce voltada à Filosofia da História. Ele é muito mais amplo do que esse livro, e posso voltar a ele mais vezes, conforme for conveniente.

CROCE, Benedetto. A História como Pensamento e Ação. Rio de Janeiro: Zahar, 1962.

Vai também a recomendação de visita ao Parque Edmundo Zanoni e seu respectivo museu, ainda mais quando a chatíssima pandemia atual permitir. Este é seu endereço:

Parque Edmundo Zanoni
Avenida Horácio Netto, 1030
Vila Loanda
Atibaia/SP
Aproximadamente 70 Km a partir do centro de São Paulo

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Pequeno guia das grandes falácias – 51º tomo: o apelo ao ridículo, e mais algumas coisas sobre o humor como ferramenta da agressividade

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

#UseMascara

Tudo bem com vocês? Comigo vai indo, ainda que meus níveis de vitamina D estejam lá no rodapé. Isso é fruto da atual pandemia que ainda persiste em Terra de Santa Cruz. E que monte de briga tem dado isso... Não sei se por conta do cansaço de se ficar em casa, ou por conta de conflitos nas posições políticas, chega a dar desespero de ver a montanha de gente que está descumprindo as relativamente fáceis atitudes de bom senso para evitar contaminações. E tudo naquela base: usar máscara é impositivo, é inútil, é ridículo...

Bom... eu mesmo não gosto de usar máscara. Como meu bigode cresce muito rápido, em questão de três dias após a raspagem já se torna um grande incômodo aquele tecido grosso raspando meu buço. Mas a verdade é que não posso pensar só em mim, já que eu convivo com outras pessoas, que, por sua vez, convivem com outras, e assim sucessivamente, em progressão geométrica. Por isso, concluo que ridículo é não usar a máscara.

Falando assim, abordo mais uma falácia, uma das mais simples de todas, o apelo ao ridículo. E também das mais usadas. Ela é aplicada tentando diminuir o valor de um argumento colocando-o no campo do jocoso, do hilário, tirando toda a sua força. Essa falácia é conhecida na Europa como “falácia da risada do cavalo”, simplesmente pelo fato de que o equino produz um som que se assemelha a uma gargalhada debochada, que é exatamente o propósito deste tipo de “argumento”. Ela dispersa do ponto central discutido, como é tão comum nas quintas-séries deste Brasilzão indômito, e procura fazer a audiência acompanhar seu usuário na chacota geral. E, evidentemente, introduz material irrelevante – não nos importa se a máscara nos deixa com cara de foca, o que interessa é se ela é eficiente ou não na proteção contra o tal coronga, certo? Só que tem gente que se incomoda bastante com isso.

Mas, embora a falácia em si seja simples, há algumas coisas muito mais complexas neste processo de ridicularização. Vou pedir paciência e um pouco de indulgência com o texto que vou expor a partir de agora, porque ele é necessário para chegar onde quero. Vamos lá.

Vamos fazer um daqueles experimentos mentais que são tão caros aos filósofos da mente, baseados em suposições de fatos não reais, mas que nos ajudam a tentar entender uma realidade ulterior, ou a comprovar veracidades não verificáveis, como é o caso do “cérebro na cuba” ou do “quarto chinês”, que mencionei neste texto.

Em um país hipotético, com um sistema democrático em construção, a população vem, ao longo de mais de trinta anos, debatendo-se com as frustrações na eleição de seus representantes. Após mais de vinte anos vivendo em tempos ditatoriais, cuja conclusão foi um país entregue às dívidas astronômicas, à inflação galopante e a sistemas falidos de educação e saúde, a esperança sempre residiu nos bonitos discursos dos pretendentes ao poder, e que a liberdade de escolha traria consigo tempos melhores. Embora fosse visível alguma evolução, o fato é que a desigualdade social permanecia e muitos, mas muitos escândalos de corrupção grassavam a história daquela imaginária república. Tentou-se de tudo: o presidente burguês, o presidente professor, o presidente operário e até uma presidenta. A persistência da questão levou a uma polarização intensa, com baixa aceitação dos resultados das urnas, levando a uma instabilidade política típica dos colapsos democráticos. No transcorrer do desacerto, uma terceira via surgiu no ar: um candidato que, muito embora estivesse há 28 anos na política, apresentou-se como a antítese do político profissional. De fato, seu jeito de lidar com as questões fugia do padrão normalmente visto na atividade, com muitos arroubos autoritários e falas problemáticas, constituindo-se aquilo que hoje em dia pavoneamos chamar-se de outsider, aquele que escapa da norma.

A princípio, sua candidatura não era levada a sério, amparada por um partido nanico que lhe dava poucos segundos de propaganda obrigatória, um mecanismo existente no suposto país para permitir que candidatos à eleição expusessem seus programas em horário nobre na mídia tradicional. Mas o uso competente das redes sociais e com um discurso muito caro a setores conservadores, que enxerga comunismo em qualquer molho catchup e carrega deus, pátria e família para todo lado, começou a causar coceira nos institutos de pesquisa. O discurso deste candidato imaginário não levava a grandes soluções, mas frases de efeito que se provaram cada vez mais eficazes, versando sobre malefícios dos opositores, como kits gays, legalização de pedofilia, desarmamento da população em detrimento dos bandidos e outras balelas evidentes, mas que se tornaram uma nova verdade quando amparada pelas redes de notícias falsas, risíveis para quem é sério, mas eficientes para quem tem essa linha nublada entre realidade e vontade. Senão vejamos: com uma defesa de armas, violência e tortura, nosso suposto aspirante posiciona-se ao lado dos valores cristãos, e ganha a maioria da população evangélica; embora nunca tenha ouvido falar de Adam Smith, promete liberalismo econômico, e com isso arrebanha um bocado de empresários; embora se diga um grande patriota, presta reverência quase sagrada ao presidente da nação mais poderosa do planetinha neste momento histórico, e com um papo de anticonvenção política, embora tenha aqueles citados 28 anos de mandatos acumulados, convence o eleitor inconformado. Projetos mesmo, nenhum; a não ser dois nomes centrais em seu plantel – um ministro da Economia do estilo privatiza-tudo e um ministro da Justiça famoso pelo combate a corruptos feito com meios igualmente pouco republicanos, mas de muito estrépito e rebuliço. A pedra de toque vem na forma de um atentado – com motivações meio confusas, sofre uma facada em plena campanha, e ganha um estatuto até então inexistente, o de mártir. Tudo isso aliado à incapacidade de seus adversários de se reinventarem, vai a um segundo turno de sonho, onde enfrenta o melhor êmulo possível: o espantalho de tudo aquilo que tornou possível sua chegada à reta final. Dizia-se que seus arroubos eram apenas uma forma de se manifestar. Que, uma vez empossado, baixaria seu tom e levaria seu governo bastante próximo à normalidade, e que era possível votar nele sem preocupações. Ainda bem que estamos apenas no campo da simulação.

Uma vez eleito, este presumido presidente vai se envolvendo em percalços sucessivos. Primeiramente, um dos seus filhos é envolvido em um escândalo de formação de caixa 2 a partir da retenção de parte do pagamento dos funcionários de seu gabinete. Além disso, os vínculos com o pessoal que toca toda essa operação aproximam a família presidencial do assassinato de uma vereadora que atuava contra as famosas milícias da cidade do próprio presidente. Depois, o presidente se desvincula de seu partido, especialmente pela acusação de candidaturas-fantasma e pela divisão do bolo de um tal de fundo partidário, uma montanha de dinheiro destinada aos partidos políticos dessa distópica nação a quem mais obtinha votos. Chegou a crise na cultura, ao ter um secretário que copia os discursos dos propagandistas nazistas para anunciar o plano de cultura do país. Para arrematar, uma crise sem precedentes se instala no mundo inteiro, com a chegada de uma pandemia por um vírus que, embora de baixa letalidade, se espalha mais fácil que fofoca em boca de porteiro. O presidente, copiando seu colega do país poderoso, despreza o fato e dá mais importância à atuação econômica do país, menosprezando os números crescentes de mortos, comparecendo desguarnecido de manifestações de seus correligionários e fazendo loas a um remédio misterioso, sem comprovações de eficácia. Desliga dois ministros da Saúde que discordam de seus métodos improváveis de combate à pandemia e de retorno imediato às atividades normais. No meio disso tudo, aquele superministro mencionado há pouco rói a corda e sai do governo atirando contra o mandatário, ao acusá-lo de interferência direta em órgãos de segurança onde não deveria meter o nariz, para reconforto e proteção de la famiglia, aqueles mesmos com problemas com milícias. Enquanto essa poeira ainda não havia baixado, aquele tal operador dos esquemas de caixa 2 é preso na casa de um advogado, coincidentemente patrono jurídico do presidente e de seus filhos. As explicações deste são cada vez mais estapafúrdias, e, coincidência ou não, uma série cada vez mais inexplicável de cheques começa a surgir na conta da primeira dama, em um volume muito maior do que o alegado “empréstimo” ao amigo destrambelhado nas contas. Estando com uma base cada vez mais reduzida no congresso, e vendo as petições de impeachment cada vez mais avolumadas à sua porta, resolve se aproximar daqueles a quem se dizia tão contrário: um setor denominado Centrão, composto por parlamentares aderentes ao dono do poder, seja ele quem for. São aqueles políticos tradicionais a quem nosso hipotético presidente dizia combater, que mudam de opinião conforme a disponibilidade de cargos e verbas vagar para lá ou para cá.

Toda esta rede de intrigas e trapalhadas levou o tal governante a ter uma relação tempestuosa com muita gente, imprensa à frente. O azedume com que trata os órgãos dos noticiários que adotam posição crítica chega às raias da ameaça física, incitando muitos de seus apoiadores a fazer o mesmo. Também se indispõe com outros países, seja por conta de ideologias amalucadas de um núcleo conspiracionista, seja pelas suas medidas pouco favoráveis aos direitos humanos e ao meio ambiente. Mas não é só. Também vive às turras com os demais poderes, que, no final das contas, exercem o poder de fato, seja aprovando legislações que o majorengo não tem tato para conseguir, seja impedindo-o de desmandar como quiser. Adota uma posição vitimista, dizendo que não governa porque não deixam, que todo mundo é comunista e que os velhos poderosos não querem abrir mão da chave do cofre.

Nosso quimérico chefe de estado é uma usina permanente de memes, quase sempre por futilidades. Autointitula-se atleta, mas não sabe fazer meia dúzia de flexões. Sua inabilidade no uso de EPI’s faz com que sua máscara vire uma venda. Diz que não pode ser carinhoso com os filhos homens, mas manda um “eu te amo” para o chefe daquele país rico. Leva uma bicada de ema e tenta espantá-la com seu remedinho milagroso, faz arminha em passeatas religiosas (o que é mais cristão do que andar armado?), retém o resultado de seus exames sabe lá o diabo por que, tem até um tal de Talarico que andou esquiando pela sua barra... Tudo isso regado a muita saliva e vociferações. Conclusão: neste país inexistente, foi eleito como presidente o valentão do boteco, que esbraveja de forma simplista contra qualquer tipo de situação, e que, naturalmente, não resolve nada. E, apesar disso, mesmo com todos esses tropeços, onde seria esperada uma popularidade próxima ao traço, a queda se deu somente até certo ponto, para não se esvair mais, mantendo uma boa porção de seus eleitores ainda fieis, quase dois anos após sua eleição.

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Bom… Fundamentalmente, encaramos o mundo com o qual convivemos mais na base do sentimento do que da racionalidade. Não há nada de excepcional nisso: as coisas sempre foram assim e continuarão sendo. É desse jeito que a espécie se mantém há milênios. Entretanto, não é de modo unívoco que essa interação se dá. O mundo externo a nós pode nos provocar uma gama muito intensa de sentimentos, e a reação a cada um dos diferentes fenômenos atiça um tipo específico deles, diferindo ao infinito pelas combinações possíveis, e dependendo de quem o produz.

Diante de um problema qualquer, nossa reação pode ser de ternura – uma situação nos toca, ainda que de maneira improvável, como o centroavante do time rival quando perde o pênalti. O mais provável seria pura euforia, mas é possível achar condolência mesmo nela (isso também nos humaniza). Nossa reação pode ser de medo, como quando não sabemos se queremos que o dia da grande final chegue logo ou chegue nunca, gerando uma indefinição que só nos faz aumentar a angústia. Pode ser de asco, um sentimento orgânico como aquele que nos causa o cheiro de urina dos banheiros mal cuidados dos estádios. Mas o fato é que com todos estes modos de sentir coabita um afeto que é muito mais natural do que gostaríamos de idealizar: a agressividade.

Não podemos confundir agressividade com violência física, e não podemos menosprezar a capacidade de sermos agressivos de maneira dissimulada. Mas a agressão é absolutamente necessária para a vida de indivíduos e sociedades. Este é um fato que a Filosofia e a Psicologia já detectaram há tempos. No âmbito da psicanálise, por exemplo, as pulsões são inerentes ao equipamento psíquico humano, alguns as pensando como derivação da pulsão sexual, como Freud, e outros as imaginando como pulsão própria e específica, como Adler. Para quem não sabe, uma pulsão é uma tendência, uma espécie de "objetivo" que é perseguido inconscientemente por cada um de nós. E isso é comum a todos, em diferentes níveis e com maneiras absolutamente pessoais. Sendo parte do substrato de todas as pessoas, é de se esperar que haja uma agressividade coletiva, que se espraia por toda a sociedade. Então, é natural que a mesma se manifeste. E como isso se dá?

De diferentes formas, é evidente. Não é só quando vemos duas torcidas trocando porradas, ou, pelo menos, xingando-se à vera. Em um sistema de coisas extremamente competitivo, a cada vez que vemos a investida de uma empresa em determinado nicho de mercado, vemos boa dose de agressividade embutida. Afinal de contas, pensem bem. Boa parte da propaganda inclui se impor como a melhor opção entre as outras, se possível as anulando, exatamente como faz o leão na floresta, ainda que não haja sangue na parada. A agressividade está até mesmo no olhar desconfiado das pessoas na fila do emprego, e, embora contida e invisível, plenamente presente. A agressividade não pode ser manifesta sempre, porque, ora bolas, precisamos sobreviver, e é melhor que o façamos com todos os dentes.

Por isso mesmo, Freud enxergou o chiste como um dos canais possíveis para a agressividade. E o que é esse tal de chiste? É uma espécie de piada rápida, que pode ser resumida até mesmo em uma palavra. Para ele, a comicidade do chiste tem o mesmo propósito dos sonhos, dos lapsos, dos atos falhos e das neuroses: ser um escoadouro de manifestações do inconsciente. Como sabemos, Freud acreditava que tudo o que está nas instâncias inconscientes da psique não era acessível à consciência, mas procuravam canais com os quais pudessem se tornar manifestos, de modo a se fazer conhecer, desviando da repressão feita pelo superego contra as manifestações instintivas do id, que melhor representa nossa porção animal (saiba mais aqui e aqui). Isso significa que o chiste é um caminho para liberar certos pensamentos que se encontram refreados, principalmente porque carregam consigo o álibi de ser "só uma piada". O chiste é uma licença psicológica para ser agressivo, e somente é possível obter recompensa em uma situação de percalço quando reagimos contra ela de maneira agressiva. Isso também vale para o humor político. Reagimos contra uma situação real deturpando-a, reduzindo-a, ridicularizando-a.

…

Isso tudo posto, pensemos no seguinte: por que diabos achamos que é ridicularizando aqueles que ainda insistem em acreditar no seu mito que vamos conseguir convencê-los de seu erro? O que nós podemos esperar como reação a uma manifestação que é precipuamente agressiva? Percebam que as pessoas não somente fizeram uma opção política como quem palpita em uma partida de pebolim, mas como escolhem um rumo para a sua própria vida. Quem teve paciência de ler toda a primeira parte do meu texto, sabe que a situação não tem nada de fictício. Estou simplesmente reproduzindo vários dos fatos e notícias do governo atual, que muita gente apostou de verdade, com toda sua força e seu coração. Provavelmente um eleitor desses que resistiu ler minhas bazófias até o fim estará puto comigo, e preparando uma resposta a altura, igualmente agressiva: xingar nos comentários, contra-recomendar o texto, elaborar uma resposta, juntar o grupinho do zapzap para floodar esta pobre terra arrasada. É muito pouco provável que alguém saia daqui convencido dos deméritos do governo atual simplesmente por se sentir ridículo.

As pessoas que apoiam incondicionalmente o presidente meio que doaram sua confiança e tem grandes dificuldades em renegar a sua crença. É quase uma dissonância cognitiva, quando um fato se coloca à nossa frente sem que ele corresponda ao que nosso equipamento cognitivo é capaz de traduzir. É como se chovesse e a roupa secasse, ao invés de molhar  – eu não espero esse desfecho de tal forma que me recuso a acreditar nele. Por isso que assumir o erro não é uma alternativa, preferindo esses moços a brigar com os outros e com a própria realidade, negando-a. E das duas uma: ou relevam conscientemente os absurdos do mandatário, ou se alinham com eles. Aí, a coisa fica mais feia. O que nos resta é ser racionais e dar o tempo necessário para que a voga passe. Vai passar. Tudo passa.

Recomendação de leitura:

Fica com Freud e seu texto fundamental sobre o tema:

FREUD, Sigmund. Os chistes e a sua relação com o inconsciente. In: FREUD, Sigmund. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição Standard Brasileira, vol. VIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.