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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Feminismo: o que ele é e o que ele não é

(O feminismo é uma questão muito ampla e que gera um bocado de desajustes. Vamos tentar conciliar alguns deles)

Olá!

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Como nasce um preconceito? Basta que se analise a própria palavra para se saber. Conceito tem a mesma origem etimológica da palavra concepção, que significa guardar dentro de si, gerar a partir de si, e pré significa antes. Preconceito, portanto, são ideias preconcebidas, que são formadas antes que tenhamos contato com o objeto de nosso suposto conhecimento. Suposto porque o preconceito consiste nisso: mera opinião. O preconceito faz com que tenhamos ideias errôneas não só sobre determinadas pessoas, mas também sobre determinados assuntos. Por essa razão, redigi pequenos textos de perguntas e respostas, com o intuito de dar informações a confusões que se fazem por pura e simples falta de pesquisa. Minha ideia não era criar uma série, mas eu tive o efeito mental de perceber que várias temáticas se ressentem desse problema, e a coisa foi crescendo. Sendo assim, resolvi criar uma página para rotear todos esses assuntos, já que a coisa cresceu. Aproveitem e sugiram temas.

Aproveitando a introdução, a pauta dessa vez será o feminismo. É um tema que aparentemente é muito simples, em parte porque está em nosso dia-a-dia, mas que é crivado de má vontade, porque nele está sintetizado um confronto que existe há décadas, e que muita gente tende a subestimar. Já vi gente que é arraigado combatente do racismo colocando o feminismo como uma pauta menor e, embora não seja uma posição comum, é muito sintomático de que algo vai mal quando acontece.

Provavelmente não se compreende muito bem o que seja o feminismo. Parece simplesmente mais uma versão da guerra de poder, como aconteceu já tantas vezes neste cada vez mais quente planetinha azul. De certa forma, é mesmo, mas não no puro e simples sentido de se trocar um detentor por outro, e sim para que se tenha um reconhecimento melhor da igualdade de direitos em um sentido mais amplo, e na constatação de que não há lógica em se nomear uma hierarquia entre gêneros, de modo mais estrito.

Por conta disso, vou seguir no método dos demais textos desta série e tentar trazer algum tipo de luz sobre o assunto, ou ao menos não o tornar ainda mais nebuloso. Vamos começar pelo mais básico…

O que é feminismo?

Feminismo, ao contrário dos demais temas da série, é aquilo que chamamos de termo guarda-chuva, ou seja, um nome genérico sob o qual temos várias acepções diferentes. Isso acontece dada a multiplicidade de correntes que vieram surgindo através dos tempos, cada uma com um objeto mais ou menos específico. Porém, de um modo geral, o feminismo é o conjunto de movimentos que defendem a igualdade política e social entre homens e mulheres.

O que é sexismo?

Esta pergunta é importante de responder porque há outra que é subsidiária a ela, que virá logo na sequência. O sexismo, ao contrário do feminismo, não é um movimento, mas uma atitude que considera que um dos sexos é superior ao outro, seja por características físicas, por predisposições históricas, por imposição social ou qualquer outro modo de distinção.

O feminismo é sexista?

Existem raras exceções, mas via de regra o feminismo não é sexista porque não inclui uma ideia de superioridade do sexo feminino. O que o feminismo defende é uma igualdade de direitos entre homens e mulheres. Hoje podemos achar incrível, mas o voto feminino é uma “invenção” recente. As mulheres não votavam porque elas não eram tidas como costumeiras titulares de direito possessórios, nem eram atuantes no mercado de trabalho formal. Querer votar, assim como os homens, é uma reivindicação que não coloca ninguém como melhor ou pior, somente assegura o mesmo direito a ambos os sexos. Essa é a natureza geral dos movimentos feministas. Portanto, não existe sexismo aqui, a não ser que o caso fosse de inverter as condições: dar apenas às mulheres o direito de voto, no exemplo.

Por que o feminismo é tão complexo?

Porque ele não é um movimento unívoco. Tem inúmeras faces e derivações que abrangem qualquer camada social. Uma boa parte dos historiadores especializados ensina que o feminismo veio em ondas, onde cada uma atendia interesses específicos que tinham diferentes abrangências. Na primeira, tínhamos as reivindicações mais gerais, com relação a direitos mais básicos e que atingiam qualquer mulher; na segunda onda, percebe-se que os direitos pleiteados por mulheres negras, indígenas e de outras etnias necessitam de mais profundidade do que aqueles das mulheres brancas, com muitas discussões próprias. Na terceira, entra na pauta os direitos das mulheres trans. Não se trata de uma divisão consensual, mas é possível perceber como os diálogos progridem e se tornam mais abrangentes com o tempo.

As mulheres são diferentes dos homens. Por que pretendem igualdade?

A igualdade não pressupõe uniformidade. Somos iguais quando podemos fazer as mesmas coisas, e não quando devemos fazê-las. É óbvio que a lei submete todos os cidadãos a certas regras, e é assim mesmo que funciona, mas a igualdade existe quando todos podem ou devem fazer as mesmas coisas. Reivindicações sobre remuneração igual para função igual e experiência semelhante não significam que preferências e costumes precisem ser os mesmos, entenderam?

Mas os homens continuam fazendo o trabalho mais pesado. Isso não lhes garantiria melhores direitos?

Poderíamos dizer que o "contrato de trabalho matrimonial" reproduzia a lógica de que os homens saíam para caçar enquanto as mulheres cuidavam da prole, e que lhes caberiam as melhores porções porque precisavam de força e, principalmente, foram eles que caçaram. Mas que sentido faz isso hoje em dia? Por um lado, os trabalhos fisicamente extenuantes têm diminuído a olhos vistos; por outro, os cuidados com os filhos passam a ser cada vez mais partilhados.

Se as reivindicações dos movimentos feministas são justas, por que geram tanta reação?

Pense que você está na rua comendo um saco de salgadinhos da sua preferência. Se alguém chega em você e reivindica metade de sua guloseima, você não vai gostar. Será preciso tempo e justificativa para que se tire sua noção de injustiça e você concorde em dividi-lo, porque você não vê nada de errado na situação privilegiada. O que os movimentos feministas pedem não são encarados como equalização de direitos, mas como concessão de privilégios, e isso nunca é bem visto sem mudanças nos paradigmas sociais.

As feministas falam muito do tal do patriarcado. O que seria ele?

Patriarcado é a estrutura social que favorece os indivíduos de sexo masculino. Isso é visível quando olhamos para as composições governamentais e verificamos que, apesar da divisão meio a meio na população, há uma predominância muito expressiva de membros do sexo masculino. Mulheres são estranhas no ninho dos núcleos de poder e, quando lá chegam, podem carregar uma aura de que o conseguiram por meios imorais. “Vaginocracia”, o comando das que se dispõe a sofás para a ascensão social, é um dos termos mais cruéis que eu já ouvi, porque reduz as ocupantes à sua ação sexual, e não sua competência.  

Entretanto, revistas de entretenimento masculino estão acabando. Isso é sinal de que há uma menor objetificação das mulheres?

É ingênuo pensar nisso, porque, se existe, é um fator para lá de secundário. A Playboy acabou por causa da internet. Um usuário qualquer repassava as fotos para acesso franco de quem se dispusesse a acessá-las, e os caros cachês deixaram de valer a pena. Essa é a real. Além disso, a objetificação hoje está nos sites de vídeos, o que nos mostra que ela não deixou de existir, apenas mudou de mídia.

O que atrapalha a militância feminista?

Obviamente existe resistência, mas certas correntes do feminismo são muito agressivas. Compreende-se. De acordo com a teoria da mola do Pirulla (assistam aqui), momentos de tensão máxima geram reações extremadas, em ambos os lados do artefato em pressão, mas tendem a se acomodar com o tempo e quando há concessões. Mas de fato há feministas que enxergam sexismo em tudo, que dificultam o diálogo e que tornam a causa antipática. Além disso, devemos admitir que as coisas não vão mudar do dia para a noite, e que dedos na ferida costumam doer. Quando isso acontece, o lado atacado simplesmente fecha os ouvidos, e é duvidoso se o método faz passar do engajamento de quem já é engajado. Fica só aquele famoso “pregar para convertidos”.

Uma lei como a do feminicídio não é sexista? A lei Maria da Penha não era o bastante?

Em que pese o monte de demagogia envolvido na criação deste tipo de lei, o fato é que existe um problema que precisa ser combatido. A violência doméstica é real e ocorre quase em sua totalidade contra o polo feminino da relação. Embora tratem do mesmo objeto, a Maria da Penha trata de questões protetivas, como a possibilidade de denúncia e prisão preventiva dos acusados, enquanto a lei do feminicídio modificou o Código Penal, formalizando um agravante nas condições de um homicídio e aumentando o tamanho da pena. São, portanto, complementares. Tem mais uma coisa: a lei Maria da Penha já foi utilizada para violência doméstica de mulheres contra homens através do princípio da analogia.

Então será preciso implantar leis para tudo? O feminismo é um grande legalismo?

É óbvio que não é possível nem desejável que todos os aspectos da vida social sejam subvencionados por legislações. Elas engessam as engrenagens e tolhem liberdades, e o pior: não alcançam tudo. Eu posso agravar penalidades contra o assassinato de mulheres, mas não tenho como criar leis que obriguem a sociedade a considerar mulheres tão competentes quanto homens. Para isso, é necessária uma mudança de visão, e não de legislação.

Você é homem. Não tem lugar de fala neste tema.

Essa questão do lugar de fala é um dos maiores mal-entendidos modernos, e já expliquei em detalhes neste texto. Mas vou dar uma repassada. Lugar de fala todo mundo tem, e serve para dar um espectro geral do que a sociedade pensa como um todo a partir da colocação de cada um dos componentes sociais. Afinal de contas, todos nós participamos do espaço público, cada um tendo sua própria perspectiva ou, melhor dizendo, perspectiva da soma de sua individualidade com seu estrato social. Como homem, eu tenho um ângulo da questão, independentemente de minha representatividade, assim como ocorre com homens e mulheres trans e cis, e qualquer outro indivíduo.

Eu não vou me aprofundar muito, porque apesar de ter lugar de fala, não sou grande estudioso no assunto, e não quero me colocar em polêmicas nas quais não sou muito inteirado, e também não vou colocar aquelas questões que suscitem ironia ou desprezo, tão comuns nos debates que pendem para o desprezo. Estou em processo de aprendizado permanente. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Para pegar um apanhado geral dos diferentes movimentos e selecionar autores para se aprofundar.

VÁRIOS AUTORES. O Livro do Feminismo. Col. As Grandes Ideias de Todos os Tempos. Rio de Janeiro: Globo, 2019.

segunda-feira, 29 de março de 2021

O pensamento por oposição e o Pequeno guia das grandes falácias – 58º tomo: o argumentum ad temperantiam (falácia do meio-termo)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Nós vivemos tempos difíceis, não só por conta do interminável coronavírus, mas também pela profunda divisão que encontramos em nossa sociedade. Aqui, não cabe pensar apenas nas famosas classes em luta de Karl Marx, nem nas divisões causadas pela horrorosa distribuição de renda, mas no plano do debate político mesmo. Nos últimos tempos, exacerbados pelas recentes decisões do STF, a coisa começou a se figurar como guerra aberta para a eleição do ano que vem.

Ao lado disso tudo, temos uma confusão dos diabos na condução da pandemia, e também aqui as coisas ficam na base do Fla vs Flu. Pouca gente pondera de verdade na questão. De um lado, defende-se o SUS porque os manda-chuvas o elogiam. De outro, ora, porque os manda-chuvas o depreciam. Do meu lado, procuro entender o que ele é e como funciona, e percebo que há muito mais coisas favoráveis do que contrárias, sem que me gritem o porquê. Então eu deveria simplesmente acionar a verve armênia e deixar que os cães ladrem, à direita e à esquerda. Só que quando se faz campanha contra a vacinação, não é atingida somente ela em si, mas toda uma cadeia complexa e exemplar do sistema de saúde do Brasil, e que somente não decolou de vez até hoje por conta da falta de dinheiro.

Só que eu não ando com saco para comentar política, e chamei o assunto apenas para dar base ao tema que quero abordar. As polarizações políticas são tão comuns porque isso é uma predisposição de nossas dicotômicas mentes.

O ser humano pensa por oposições, já dizia a filósofa argelina Hélène Cixous, da escola pós-estruturalista francesa. Para que consigamos estabelecer o que é bom, logo pensamos em algo que é mau; no que é lento, pensamos naquilo que imaginamos ser rápido; no que é antigo, tentamos estabelecer mentalmente o que é recente, e assim sucessivamente. Ou seja, para que consigamos raciocinar, procuramos sempre um referencial, e a maneira mais simples que nosso cérebro encontra é a guinada de 180 graus, olhar lá para o outro lado e estabelecer quão distante está uma posição da outra. O binarismo destes princípios mentais vai desembocar diretamente na linguagem, o que gera nela uma espécie de hierarquia, onde um dos termos sempre vai encontrar prevalência sobre o outro.


Talvez seja muito difícil lutar contra essa espécie de predisposição à estrutura binária do pensamento, e o grande problema não está em se reconhecer os extremos, mas se fixar muito próximos a eles gera um desequilíbrio que mexe na forma como valorizamos tudo aquilo que está na outra ponta. Tudo tende a se aglomerar em torno dos polos, como se houvesse uma força de atração nesses extremos, uma espécie de imantação cognitiva. E isso vai fazer com que julguemos o lado de lá como estranho à relação, como se fossem desviante, como se estivesse não só do lado oposto, mas do lado de fora. E isso não é verdade.

Peguemos como exemplo algo que me é caro: futebol, claro... Corinthians e Flamengo costumam condividir as mesmas atribuições, cada um em sua terra. Time do povo, torcida apaixonada, que lotam estádios por onde passam. Estão em um polo bem específico no espectro da popularidade, que não guarda relação apenas com atributos de volume, mas de oposição à elite. Por isso, são também times de molambos, de desdentados, de analfabetos. São times de massa, e o povo é relacionado, por oposição à camada mais rica, à pobreza, à falta de cultura, às doenças da miséria. Tudo errado. Nem o povo é inculto, nem é interdito a ricos e intelectuais de gostarem destas equipes.

Cixous aprofunda esse debate no sentido do gênero. Ela percebe que, além da desproporção do pensamento binário, há uma tendência em se atribuir características femininas ao polo inferior na relação linguística. Os pares dicotômicos guardam uma posição hierárquica entre si, e aqueles atribuídos ao gênero feminino sempre estão na parte baixa. Forte e frágil, claro e enigmática, ativo e passiva e, especialmente, racional e emocional são as formas em que não há trânsito, apenas saltos. Ser emotivo não é particularmente um problema, mas está hierarquicamente inferior ao racional, que é designativo da espécie. O homem emocional é mariquinhas, é um defeito, percebem?

Só que não há diferença entre a forma de pensar entre homens e mulheres.  O riso da Medusa é exatamente o reconhecer que a petrificação é só um efeito de um pensamento embotado, e a górgona não é monstruosa, mas linda e sorridente. Estas são tão capazes quanto aqueles de realizar coisas emocionais e racionais, fortes e frágeis, ativas e passivas.

A busca racional, neste caso, não está em considerar tudo o que é emocional como bom e migrar automaticamente para o outro polo, o mesmo valendo com relação à racionalidade. Elas são boas e preciosas em seus momentos específicos, e não é possível nem necessário que se abra mão delas. É preciso alguma solução, e ela vem de muito tempo atrás, mais especificamente do velho Aristóteles. O estagirita tinha uma concepção de homem como animal político que o fazia julgar impossível a existência de humanidade fora das relações sociais (para saber  mais, leia este texto). Isso fazia com que se acreditasse  que o melhor homem é aquele virtuoso, que soubesse o que era melhor para si e para a polis: a eudaimonia, no jargão  filosófico. No vernáculo,  nada mais é do que a felicidade,  a teleologia do ser humano e de suas construções,  a saber, as cidades. Não só  os homens  têm como propósito serem felizes, mas, a priori, a polis também  tinha esse objetivo.

Entretanto, temos aqui um paradoxo. É muito comum que as decisões  coletivas adotadas em uma comunidade não agradem a todos, e de uma cidade feliz extrairemos cidadãos infelizes. Ações extremadas de indivíduos tendem a ser egoístas,  e isso é um grande problema na vida em comum. Como isso pode ser solucionado?

Aristóteles nos fala sobre o meio-termo como virtude. Em uma relação onde podemos nos situar em extremos, qualquer aproximação radical a eles recebe o nome de vício, que é exatamente oposto à virtude almejada. Por exemplo: amar demais a nação é ufanismo; amar de menos é desapreço. Ambos são defeitos, porque o patriota excessivo deixa de enxergar as limitações de seu país, e o antipatriota maximiza o que há de ruim e não se dispõe a se dedicar a ela. Ambas as atitudes não trazem coisas boas. Outro: como um governante deve agir diante de um crime? Deve ser punitivo ou liberalizante? No primeiro caso, estará propenso a cometer excessos em nome de uma política do exemplo, enquanto no segundo poderá tornar a administração do convívio caótica. O que esperamos então? A virtude que vai pelo meio desses dois extremos, a justiça. Ser justo, no caso, é aplicar uma dosimetria ideal para a correção do erro, sem que haja desproporcionalidade, nem que se cultive a impunidade.

É no caminho do meio (conceito explorado concomitantemente pelo Budismo) que se encontram as qualidades essenciais do bom homem e do bom cidadão, na medida em que este vive da melhor maneira possível para si mesmo e para a pólis. Ou seja, a mediania é o caminho para a eudaimonia.

Acontece  que mesmo o ponderadíssimo meio-termo tem problemas,  e ele vem em forma de falácia. Nem sempre encontrar o caminho do meio literal é a melhor solução  para um problema.

É que o pessoal faz uma confusão que se aproxima da comparação entre meio-termo e média aritmética. Basta somar os dois valores extremos e dividi-los por dois para se obter o meio-termo. Não é isso, é óbvio. Mesmo uma das mais elegantes demonstrações da matemática, o número de ouro, mostra que nem sempre a metade geométrica corresponde a um ponto ideal. Vejam sua aplicação na divisão em média e extrema razão, conhecida também pelo charmoso nome de divisão áurea:

Quando os segmentos de reta são cortados no ponto certo, teremos entre a reta total e os dois segmentos uma progressão geométrica, em uma razão correspondente ao número irracional 1,618... O número de ouro é uma constante matemática que aparece em inúmeras ocorrências na natureza, e por esse motivo é considerado uma dádiva divina. Para obter a constante, é possível fazer um exercício. Divida-se na vertical um retângulo que tenha como proporção entre altura e largura o número áureo. Uma dica para facilitar é usar altura 10 e largura 16,18 meio na vertical; em seguida, pegue-se a seção menor  e divida-se ela na proporção áurea, desta vez na horizontal. Ao se repetir o processo, é possível perceber que a linha de tendência imaginária descreverá uma espiral, e o número que dá a razão para o seu estreitamento é exatamente o número de ouro, ou proporção áurea. Se constituísse uma média perfeita, teríamos círculos concêntricos, e não a espiral que é traduzida como perfeição desde a arquitetura clássica grega, e que também pode ser achada com frequência na natureza.

Disponível em https://www.researchgate.net/figure/Golden-rectangle-and-golden-spiral_fig1_333224083

Sendo assim, a simples afirmação de que a média entre dois opostos é um meio-termo, faz com que tenhamos uma falácia, a falácia do meio-termo, ou argumentum ad temperantiam. Esse nome vem da qualidade de ser comedido, de ser moderado, de dosar adequadamente uma coisa qualquer, o que pode parecer muito justo, mas nem sempre é. É a história que vivemos atualmente: se temos dez milhões de doses disponíveis, então poderemos imunizar cinco milhões de pessoas. Não adianta usar de temperança para chegar a um meio-termo. Se eu der uma dose só para dez milhões de pessoas, será a mesma coisa que não ter vacinado ninguém. Se a prescrição são duas doses, são duas doses e pronto. É melhor ter cinco milhões de efetivos imunes do que dez milhões de imunes de mentira. Aqui, o meio-termo não cabe, e é falacioso.

É mais que óbvio que há momentos em que o meio-termo é uma divisão simples por dois, e nesse caso não há falácia. Se eu tenho um console para duas crianças, é uma hora para cada um e acabou, sem dores na consciência nem desproporção.

Também é mais do que óbvio que moderação não é um mal em si mesmo, muito pelo contrário. Sempre que eu falo em temperança, é inevitável de pesar na gula. Ontem mesmo eu fiz uma petiscaria com a galera aqui em casa, e sempre parece que cabe algum petisco a mais. Já está todo mundo de barriga cheia, mas a mesa ainda oferece os exageros preparados a mais, e entre o papo e a cerveja vai indo tudo goela abaixo. A noite vai cobrar o preço e a gente sabe disso, mas o comedimento não chega.

E esse é o pulo do gato dessa falácia. O meio-termo sempre parece mais ponderado, mais justo e infalível. Diga a alguém que há uma dose certa para fazer exercícios e você estará correto: exercício demais é perigoso, e de menos é inócuo. Ou seja, o meio-termo é o ponto que fica entre o escasso e o excessivo, sem, no entanto, que se prenda uma definição fixa entre dois pontos. Esse é o erro.

É isso. Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Hélène Cixous ainda vive, e é uma das mais importantes vozes do feminismo de nosso tempo, mas, infelizmente, é muito pouco divulgada no Brasil. Segue uma indicação em espanhol.

CIXOUS, Hélène. La risa de la Medusa. Ensayos sobre la escritura. Barcelona: Anthropos, 1995.

O livro de Aristóteles escrito a Eudemo é muito menos famoso que aquele escrito a Nicômaco, seu filho, inclusive tendo muitas partes repetidas entre ambos. Mas é no material próprio desse livro que ele fala com mais propriedade com relação à mediania.

Aristóteles. Ética a Eudemo. São Paulo: Edipro, 2015.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Bandas femininas descobertas em quarentena e o feminismo que ainda tem a muito a trilhar [Pequeno guia das grandes falácias - 50º tomo: o apelo à vaidade (argumentum ad vanitatem)]

Olá!

#FiqueEmCasa

No animal, a gratuidade, a variedade das atividades do macho permanecem vãs porque nenhum projeto o habita; quando não serve à espécie, o que faz não é nada; ao passo que, servindo à espécie, o macho humano molda a face do mundo, cria instrumentos novos, inventa, forja o futuro. Pondo-se como soberano, ele encontra a cumplicidade da própria mulher, porque ela é também um existente, ela é habitada pela transcendência e seu projeto não está na repetição, mas na sua superação em vista de um futuro diferente; ela acha no fundo de seu ser a confirmação das pretensões masculinas. Associa-se aos homens nas festas que celebram os êxitos e as vitórias dos machos. Sua desgraça consiste em ter sido biologicamente votada a repetir a Vida, quando a seus próprios olhos a Vida não apresenta em si suas razões de ser e essas razões são mais importantes do que a própria vida.

Simone de Beauvoir


Esses tempos de coronavírus são essencialmente crivados de paradoxos. Por um lado, por exemplo, acabo de concluir que não me dou com o tão propalado home office. Seja pela falta de uma cadeira ergonômica, seja pela inépcia em trabalhar com o incômodo teclado de um notebook, o fato é que todos esses dias têm sido de dores nas costas, embora eu nem cogite desobedecer ao resguardo. Por outro, tem sido uma oportunidade sem preço para reencontrar uma porção de músicas que eu não ouvia há muitos e muitos anos. Claro que com a disponibilidade de internet o acervo ficou enriquecido com vitaminas e ferro, mas comecei fazendo revisitas. Fui atrás de dinossauros como o Vanilla Fudge, que começou a apontar a psicodelia vigente na década de 60 na direção das distorções típicas do hard rock; como o Blue Cheer e o MC5, com seus respectivos proto-metal e proto-punk; como o Iron Butterfly, Taste, Cream, Free, Ten Years After... Vocês acham que é muita velharia? Mas eu não tenho quinze aninhos, e não tendo grandes perspectivas de retorno ao batente físico, meio que concluí que seria bom reavivar o subconsciente com coisas já conhecidas. Não seria má ideia me inteirar um pouco mais das novidades, mas elas vieram, de certa forma. Como o algoritmo do YouTube procura seguir tendências, foi me indicando uma série de vídeos desta mesma faixa etária e corrente musical, e um monte de música que eu não conhecia foi se descortinando. Era coisa inalcançável para mim na juventude, que dependia da boa vontade das gravadoras em lançar discos ou, principalmente, das rádios em divulgar. Mesmo emissoras dedicadas ao rock não eram profusas em coisas do tempo do ronca, com exceção daquelas mais conhecidas. E olha que eu conhecia uma galera que tinha grandes coleções, além de ser atrevido o suficiente para ficar escavando raridades que não iria comprar em lojas como Baratos Afins e Grilo Falante, e até mesmo por isso eu tinha um conhecimento minimamente decente sobre o cenário.

Fui dando chance a cada uma das bandas que o guru digital colocava automaticamente na agulha de minha picape virtual. Muita coisa boa de fato, e outras nem tanto. Grannie, Orang-utan, Farm, Murphy Blend, Green Bullfrog, Dogfeet e outras, todas pequenas preciosidades que ficaram perdidas no tempo e que vão me distraindo os ouvidos enquanto eu tento me entender com Skype, VPN et caterva. Mas uma em especial me gruda a atenção. É a banda Fanny, composta por quatro garotas que tocavam e cantavam, uma grande raridade para a época*. Para não dizer que eu não me lembrava delas de jeito nenhum, eu sabia da existência da guitarrista Patti Quatro, irmã menos famosa da baixista e vocalista Suzi Quatro, e que ela tinha feito uma passagem relâmpago por algum comboio em meados da década de 70. Esse comboio é a tal banda Fanny. Como eu já fazia na época de juventude e algum novo conjunto me encantava, fui correr atrás de toda informação possível, como componentes, discografia, trabalhos anteriores e posteriores. Faziam um som que ia no meio-termo entre o rock mais n’roll e o balanço da Motown**, passando por algumas baladinhas, é bem verdade, mas usando de peso em boa parte de suas músicas, especialmente com as vozes rasgadas da baixista e da tecladista, resultando em uma mistura das mais interessantes, com bons corais. São musicistas competentes, com as filipinas irmãs Jean e June Millington no baixo e na guitarra, a batera Alice de Buhr e a tecladista Nickel Barclay, todas se revezando nos vocais.


Sim, você que é mais malandrinho no inglês poderá dizer que o nome Fanny é 
uma gíria para “partes pudendas femininas”, e você estará certo. Mas, segundo as próprias integrantes, a ideia não é atribuir conotação sexual pura e simples, e sim de fazer pairar um espírito feminino sobre a banda. Elas não faziam um tipão rockeira sensual, como eram as Runaways, ou brucutus motoqueiras, como a Girlschool. Vestiam-se sem grande apuro, quase como hippies. Estavam longe do padrão de beleza esperado para um conjunto que pretendesse vender vaidade, mas elas só queriam apresentar sua música. Aliás, segundo elas mesmas declaram, a pressão para adotar uma atitude mais sensualizada nas músicas e nas apresentações foi o principal fator a minar a existência da banda, que queria o mesmo que seus congêneres masculinos: expor sua arte e vender seus discos. Apesar de terem feito algum sucesso no começo dos anos 70, hoje estão quase esquecidas.

Parei para tratar da bola por um momento (ao som de Fanny). Se pensarmos em precursores do rock’n’roll, teremos vasto material à disposição. Se buscarmos a raiz feminina do movimento, aí lascou. Quando pensamos na questão do feminismo, temos a tendência irrefreável de achar que hoje as coisas são melhores que antigamente. Talvez seja verdade, mas as coisas estão tão imiscuídas em nossas mentes que poucas vezes percebemos esse tipo de coisa, por mais que tentemos ser cabeça aberta. Vejam vocês: já há um bom tempo atrás, escrevi um texto em que falava sobre palavrões.  Vou transliterar o primeiro parágrafo para ficar mais fácil de entender onde quero chegar.

“Praça da Liberdade. Lugar interessante, geleia cultural que agrega e mistura muitas tribos, em especial os divertidíssimos cosplayers. Terra invadida pelos jovens, novíssima Ágora repleta de cores, música e... palavrões!!! Infinitos, variados, ditos em alto e bom som, capazes de arrancar a casca de um carvalho, principalmente quando saídos dos delicados lábios carmins das frágeis e indefesas jovenzinhas, prontas para dar aula ao mais carrancudo dos carroceiros”.

Retirado todo o ouropel e o sarcasmo da frase acima, o que teremos é a afirmação da surpresa por ver meninas falando palavrões. E por quê?

Eu não me considero machista. Eu lavo louça, passo roupa, varro chão e faço quiches. Eu uso rosa e a patroa usa azul, para desespero do ministério dos direitos humanos***. Aliás, as diretrizes orçamentárias do lar doce lar são ditadas pela cara-metade, independentemente do tamanho da renda. No entanto, já falei sobre o tempo mais de cinco vezes, sobre arché mais de dez vezes, sobre ciência mais de vinte vezes, sobre futebol mais de trinta vezes, mas eu só falei sobre feminismo duas míseras vezes, uma sob mero contexto histórico (aqui) e outra cheia de senões (aqui). Com essa observação, e sentindo-me autoprovocado, resolvi aproveitar as larguezas temporais do covid-19 e me pus a contar as citações que fiz neste blog, desde o tempo do morro cheio de mato até hoje. São 391 autores homens contra 30 mulheres, bem menos de dez por cento. São constatações que caem de repente à nossa frente, como se fosse uma pedra. Então a real é que eu sou machista e nem percebo? Sim. A sociedade é assim.

Vou dar um exemplo de como certos fenômenos quase imperceptíveis acontecem sem nos darmos conta de como ele está presente em nosso dia-a-dia. Coloquemos no centro das atenções minha falecida madrinha, a tia Nena. A coisa toda se dá na anual e onerosa época de Natal. Como a vida era apertada e a família insistia em se reunir inteira, era infactível comprar um presente para cada um, mesmo que fosse pequeno. Desta forma, a festança sempre se baseou mais nas proteínas e carboidratos do que na distribuição de regalos. Acontece que crianças pequenas são um problema (eu incluso) e satisfazer onze petizes não era exatamente fácil. A solução para o rombo era a adoção de um amigo secreto: ao invés de comprar uma arquibancada de porcarias insignificantes, comprava-se uma única porcaria um pouco melhor. Quem quisesse dar presentes avulsos, que os colocasse no pé da árvore de Natal, para gáudio de seu futuro proprietário.

É óbvio que, sendo um só o presente garantido para se receber, havia o risco de se ter um sonoro mal-me-quer nas mãos, e morrer com o mico preto não é legal, por mais que sejamos compreensivos. Para evitar os dissabores, ficava exposta uma tabuleta na sala da tia Nena com o nome de todo mundo envolvido. Lá, cada um indicava as preferências para o ano. Não valia especificar detalhadamente o intento, apenas abrir as possibilidades: perfume, camisa, calçado, tudo bem genérico, senão não tinha graça (vejam minhas opiniões sobre Natal neste antiquíssimo post). Para a tia Nena, a demanda era sempre a mesma: panelas e utilidades domésticas. Minha mãe só não virava na cova porque ela ainda era viva. Dizia para ela pedir alguma coisa de prazeroso, de bonito, de confortável, não de trabalho. Nunca adiantou. Enquanto durou o sistema, estava lá cravado na pedra – panelas. A madrinha se justificava dizendo que lhe fazia gosto cozinhar para as manadas que lhe acorriam todo fim de semana, que era esse seu papel na família, e que era feliz assim. Cosa fare?

Essa é só uma história das milhões em que mulheres se conformam com o lugar que lhe é reservado. É bem verdade que se trata de uma realidade em movimento, e que as coisas não estão exatamente iguais à década de 70, momento em que o jeito Tia Nena de ser ia começar a ser desmontado, mas tudo vai tão lentamente que dá tempo de embranquecer os cabelos. Medimos a sociedade pela régua dos homens, essa é a verdade. O mundo é todo acomodado de acordo com o protagonismo masculino, e ainda hoje há um certo exotismo em ver meninas mandando bala no rock’n’roll.

Quando faço essas simples afirmações, devo dizer que não partiram puramente do oco da minha cabeça, mas do cruzamento entre a realidade que encaro com o pensamento da segunda onda do feminismo, Simone de Beauvoir à frente. Nas primeiras manifestações mais sólidas, ocorridas pelo final do século XIX, o movimento feminista reivindicava basicamente alguns direitos fundamentais, como voto, representação parlamentar, educação, trabalho... Coisas que parecem surreais hoje em dia. Aos poucos, com o atendimento sofrido de algumas demandas, o foco foi mudando um pouquinho, de modo a não se discutir mais direitos fundamentais, e sim qual era o papel das mulheres na mecânica social. É exatamente neste contexto que Beauvoir fala.

Sua obra O Segundo Sexo investiga as diferenças biológicas, psicológicas e materiais entre homens e mulheres, para concluir que apenas motivações sociais podiam explicar as diferenças de papeis na vida de ambos os sexos. Sua síntese é a seguinte: o ser humano não se iguala a um animal qualquer, e sua posição no cosmos transcende seu mero papel biológico. O ser humano abstrai, sonha, se autoconfigura, vislumbra para si um futuro, vai para além de suas funções como organismo. Entretanto, quando se leva em consideração quais são os humanos a quem se permite habitualmente essa transcendência, vê-se que há uma clara linha dividindo os dois sexos. A própria manifestação do feminismo já nos faz perceber que é do masculino que parte a normatização – não faz sentido se manifestar quem detém o padrão. Se quem define o universo é o homem, então a mulher sempre é colocada em relação a esse parâmetro. A mulher é o que Beauvoir chama de “o Outro”. E daí ela configura toda uma relação de subordinação que formata o que uma mulher é. Para muito além do que sua própria natureza lhe forma, ser uma mulher é muito mais uma conformidade a normas impositivas. Nada do que é o destino feminino parte de si mesmas, mas daquilo que foi prefigurado para elas: os cuidados da casa, a subserviência, a criação dos filhos. Nada depende de suas vocações ou de suas vontades. Daí sua célebre frase, que diz que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher.

Só que nossa cara Simone era da escola existencialista, como seu companheiro Sartre, e isso significa que o primado de seu pensamento incluía um papel muito forte para o quesito liberdade. Diante da colocação ao papel de objeto que é dado à mulher, é preciso reconhecer o círculo vicioso em que a prende nessa situação. Ela é colocada como uma entidade sem autonomia, e se reconhece assim, pela educação massiva que recebeu desde sua puberdade, quando se diferenciava mais claramente de um menino. Daí para frente, a mulher tende a perder sua face pública, que é exercida pelo marido, o “cabeça do casal”. Poderíamos pensar tanto o universo masculino quanto o feminino como construções sociais, o que aparentemente faria o nivelamento da coisa, mas isso é uma ilusão, por um motivo muito simples: quem coloca os tijolinhos dessa construção são os homens. O horizonte de perspectivas é mais ou menos semelhante – quando se opta pelo casamento, o homem tem o papel de provedor e a mulher de administradora. Porém, para que cumpram seu papel, um obtém o sustento para a família através do mundo inteiro; a outra, reduz seu universo ao lar. Desta forma, não há que se falar em funções iguais. O homem tem tarefas que não são fáceis, é certo, mas que lhe amarram muito menos que a mulher. Aqui, a discussão é menos de “dureza” e mais de horizontes.

Para se igualar aos demais humanos, a mulher não pode abrir mão de sua liberdade. E como fazer isso? Através do reconhecimento de sua existência, caracterizada principalmente pela sua capacidade de fazer opções, como qualquer ser humano faz. É especialmente através do trabalho que se consegue essa autonomia na vida que se reflete diretamente em suas escolhas. Como a própria Beauvoir diz, “desde que ela deixa de seu uma parasita, o sistema baseado em sua dependência desmorona”. E, especialmente, não nenhuma contradição entre ser autônoma e ser mulher.

Por fim, é impossível não notar como existe resistência ainda nos dias de hoje às demandas femininas. Há exageros? Há, mas eles não são suficientes para explicar tanta encrenca com a causa. A alienação busca ser mantida principalmente através de processos de ridicularização das demandas, com a afirmação de que feminismo é coisa de mulheres mal resolvidas, tanto sexualmente quanto esteticamente, e com isso apelam para uma pretensa vaidade, que é atribuída bovinamente às mulheres, como se homens não fossem igualmente vaidosos. Esse é o apelo à vaidade, ou argumentum ad vanitatem, uma falácia informal de dispersão e relevância que busca desviar de um determinado assunto com base na vaidade da pessoa. Vocês sabem, né? O exemplo vem de uma frase minha mesmo, citada logo acima. “Como uma menina tão jovem e bonita fala tantos palavrões?”, para apelar para aquele sentimento de amor-próprio que a situa fora dos chamados “bons modos”.

É isso. Bons ventos a todos nestes tempos de covid-19 e tentem se manter quietinhos em seus cantos. Duvido que pessoas tão eivadas de bom senso não sejam capazes de compreender isso.

Recomendações:

Simone de Beauvoir é referência para qualquer trabalho em que se queira abordar o feminismo. Como é um movimento ainda aceito aos tropeções, muita gente falará bobagem ao se pronunciar sobre ela. Confie no que ela escreveu, não no que escreveram sobre ela. Este é seu livro máster, um belíssimo calhamaço:

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Com relação à banda Fanny, segue sua curta e completa discografia:

Fanny (1970)
Charity Ball (1971)
Fanny Hill (1972)
Mother’s Pride (1973)
Rock and Roll Survivors (1974), com Patti Quatro

Os três primeiros são os melhores. Segue uma listinha de boas músicas para ouvir no YouTube: os hard blues You’re the One, Special Care e I Just Realized , os boogies Changing Horses e Charity Ball, a balada Old Hat, os hardões Blind Alley, Hey Bulldog e Young and Dumb, os bons trabalhos vocais de Badge e Bitter Wine e os slides de Ain’t That Peculiar, mostrando as habilidades obtidas no ukulelê. Vale a experiência.

Um site em inglês que traz as mais preciosas informações sobre a banda tem o seguinte endereço eletrônico:


* na verdade, é raro até hoje.

** Motown é o nome de uma gravadora de Detroit, a principal cidade automobilística dos Estados Unidos durante muitos anos. Este nome é a condensação de motor town, cidade dos motores, e tal gravadora se especializou em música de origem negra, como o soul, o spirituals e o rhythm’n’blues. Da mistura entre estes estilos, criou-se uma sonoridade própria, de arranjos muito refinados.

*** Para quem ler este texto no futuro, vivíamos o sombrio e jocoso tempo da ministra Damares Alves, que se autointitulava “terrivelmente cristã”, e que se dizia contrária à ideologia de gênero.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sobre as confusões entre lugar de fala e representatividade, e os tropeços na transição de uma youtuber rumo ao engajamento (Pequeno guia das grandes falácias - 41º tomo: o Bulverismo)

Olá!


Vou surfar na hype? Vou surfar na hype. Este espaço está cada dia menos frequentado, embora minha média de produção venha se mantendo a mesma ao longo dos anos, e vou aproveitar um pouco deste expediente tão utilizado pela rede afora. Pensando bem, não há problema nenhum nisso, porque falar sobre fatos notórios e pessoas famosas faz parte do nosso quotidiano. O diferencial está em tentar extrair um sumo proveitoso de uma fruta que é puro escolho. De mais a mais, era um tema sobre o qual eu estava mesmo querendo falar, já há um bom tempo. Deixemos de vã filosofia e vamos ao que importa, até mesmo porque já estou bem atrasadinho.

No finalzinho do ano recém encerrado, uma polêmica acendeu os ânimos nesta já conturbada Ilha de Vera Cruz. Não vou detalhar muito, todo mundo já viu (mas aqui tem um vídeo com o ocorrido), bastando dizer que, em um matinal na TV, a youtuber Kefera Buchmann reagiu com um algum grau de agressividade a um audiente da plateia, que contrapunha certos argumentos ao feminismo que se discutia na ocasião. Nada muito UFC, mas o fato é que uma imensa discussão se iniciou a partir do evento, com tropas de defesa e ataque à garota, em especial nas redes sociais, lodaçal de onde brotam muitos monstros.

Kefera falou em mansplaining, manterrupting e lugar de fala, com o argumento de que um homem não é parte legítima para se pronunciar sobre feminismo, um assunto que não lhe diz respeito. Bom... Para poder entender se este argumento é válido, precisamos delinear bem o que é esse termo da moda, tão mal compreendido e utilizado, e, para tanto, precisamos começar do começo, sendo essencial saber o que é espaço público. Façamos isso agora.



Sempre que falamos genericamente em espaço público, vem à nossa mente alguma coisa como uma imensa praça. Por uma questão de familiaridade, penso na praça Clóvis, onde centenas de pessoas andam para lá e para cá, buscando o Poupatempo ou as essências da Silveira Martins. Algumas crianças correm aleatoriamente, espantando os pombos que uma senhora em vão tenta alimentar. Há um pipoqueiro e um vendedor de bexigas, enquanto uma boa vintena de mendigos filosofa sobre o momento mais adequado para se embebedar, e subempregados apregoam as fotografias 2x2-3x4-5x7, imprescindíveis para documentos, tudo isso vigiado pelos policiais que protegem transeuntes e meninas vendedoras das lojas de perfumes, a quem buscam impressionar. Eventualmente há algum violeiro que tenta cachês com seu chapéu deitado ao solo, ou um pastor que berra imprecações contra aqueles do mundo. Tudo isso parece passível de pintura e emolduramento, mas não é a expressão do conceito sociológico de espaço público. É, no máximo, um dos meios físicos onde este subsiste.

Vamos pensar no seguinte. Há um local onde todos somos os senhores do castelo. Dentro da minha casa, e nos limites da legalidade, eu faço o que bem entendo: fico pelado, tiro ouro do nariz, como bife com as mãos, trepo em cima do guarda-roupa, dentro do guarda-roupa, COM o guarda-roupa. O espaço privado é o espaço do indivíduo, compactuado, no máximo, com os familiares e com o outro consentido. Para isso, há fundamentações constitucionais e princípios éticos bem aceitos. Ocorre que existimos em sociedade e o viver coletivo é muito maior do que a soma das individualidades. Há inúmeros lugares onde o povo exerce esse sentido comunitário e estabelece seu convívio. Aqui, há uma série de limites que são estabelecidos de maneira coercitiva, seja através da lei, seja através dos costumes que aquele meio social adota. Não se pode pisar fora da faixa, e, se houver quem o faça, há punição em alguma forma. Ao contrário da casa, já não temos, no espaço compartilhado, a mesma liberdade. Não se anda pelado, porque é contra a lei; não se tira ouro do nariz, porque é mau costume. É a nossa cultura, em síntese, que dirá o que pode e o que não pode. E isso não ocorre apenas nas praças e nas ruas, mas por toda a cadeia de meios por onde as pessoas são alcançadas em sentido comunitário. Em um panfleto, em um programa de rádio, em um comício, nos grafites das paredes ou nas redes sociais a noção de espaço público também está presente, porque a sociedade não se limita à presença física, mas à disseminação de ideias e ao exercício de direitos, principalmente quando falamos nos elementos que constituem nossa cultura e nas ferramentas que fazem o próprio espaço público continuar a existir, como a liberdade de expressão, o respeito às escolhas e os direitos individuais. Portanto, a cada vez que um cidadão é tolhido em seu papel social, é o próprio espaço público que é agredido. Não há democracia sem o respeito ao espaço público. Não há sociedade sem espaço público.

Pois bem. O espaço público não é uma coisa uniforme, bonitinha como um arabesco, porque ele é composto de um espaço físico e conceitual que é ocupado por pessoas, com seus anseios e expectativas. Estas pessoas tendem a se agrupar de acordo com certas afinidades, que vem de dentro, e de certas classificações, impostas de fora. No primeiro caso, podemos enquadrar as tribos urbanas, os estudantes de uma determinada área ou a torcida de um time qualquer. Passo pela Liberdade nos domingos e ela está repleta de otakus. Ao que me consta, nenhum deles está lá porque é obrigado, mas porque lhes é agradável se vestir de desenho animado e ocupar a praça com suas fantasias e palavrões. Por outro lado, há grupos que são enquadrados em uma determinada categoria por força de uma disposição cultural dominante. Sabemos da pluralidade social, mas sabemos também que há uma espécie de padrão universal, uma cultura hegemônica, onde um grupo ideal se encaixa melhor que os outros, e cria-se uma noção de “lado de fora”. São assim as minorias, como negros, gays, indígenas, portadores de necessidades especiais e tantos outros, incluindo mulheres – que não são poucas, mas sucumbem na normatividade. Essa diferenciação visa delinear bem quem tem a régua na mão para medir e quem está sobre a mesa para ser medido. É por isso que eu disse que o espaço público não é um quadro elegante na parede, mas uma cena em constante tensão, até mesmo porque ele não é estático, e seu grande movimento se dá pelas manifestações, que, em ambiente democrático, são os designadores de existência dos grupos que o compõe. É nesse sentido que chamamos essas manifestações de falas, o meio primordial da nossa linguagem, tão característica do ser humano. Estas falas não partem uniformemente, mas de acordo com a maneira como os diferentes grupos são formatados, eles mesmos um lugar neste espaço público que mescla área física e virtualidade. Daí, o tal lugar de fala, quase um sinônimo de ponto de vista de um grupo.

Há inúmeros lugares de fala em uma sociedade, tantos quantos houverem nichos em que se possa enquadrar um determinado fragmento de população, e cada um deles tem um discurso específico sobre o espaço público como um todo, sobre o modo como cada aspecto da vida comum transita nele e sobre os demais lugares de fala. A cultura dominante, por exemplo, tende a ter uma fala mais conservadora, evidentemente porque não quer que as relações mudem, com grande gradatividade nas eventuais transformações. Obviamente, o espaço público já é moldado de forma a lhes favorecer. Já agrupamentos destacados do padrão tem lugar de fala mais contundente, mais urgente. Um negro, uma mulher, um gay, um ateu, todos eles, que são externos à normatividade do consenso geral, a partir do seu lugar de fala, também se manifestam da maneira com a qual seu papel na teia social lhe provoca maior ou menor sofrimento, que não pode esperar a vida inteira e mais seis meses para ser ao menos atenuado. Vejam que o lugar de fala tem seus delimitadores muito borrados, especialmente porque acabam se interseccionando: uma mulher negra, para dar um exemplo, pode ter sua visão pontuada a partir de três ângulos – o do gênero feminino, o da população negra e aquele que é a mistura dos dois, que tem algum grau de especificidade com relação aos demais.

Vou engendrar um exemplo meio simplista para tentar deixar um pouco mais evidente a coisa, misturando realidade e ficção pedagógica. Eu moro no 5º e último andar de um daqueles predinhos antigos do centro de São Paulo, o que, obviamente, não constitui uma cobertura, mas um andar como os outros. Apesar disso, com relação aos apartamentos de outros andares, tenho certos privilégios. Por exemplo, há a laje superior onde posso estender minhas roupas, algo que somente eu e mais três unidades podemos fazer. Os demais apartamentos têm apenas seus pequenos cubículos apelidados de lavanderia para fazê-lo. O elevador sempre demanda maior esforço para me transportar, porque é para o meu andar que ele percorre a distância mais longa. O mesmo se aplica ao recolhimento do lixo pelo zelador. Mas é pela varanda que dá vista para a região do Parque Dom Pedro que a regalia é mais notável. Do meu balcão, vejo uma boa parte da Várzea do Carmo, dos viadutos da Rangel Pestana, do magnífico edifício da Escola Fazendária, de todo o conjunto de sobradões da Rua do Carmo e mesmo de uma fatia do Brás. Os apartamentos do quarto andar ainda conseguem enxergar os sobradões e a escola, mas já a partir da janela da dona Madalena, no terceiro, tudo o que se vê é o paredão cinza de uma quadra de futsal. A família de peruanos do primeiro andar tem o agravante da barulheira matinal da padaria do térreo, e suas paredes externas são todas pichadas, o que indica também o risco do roubo. Consequentemente, a vista do meu apartamento é boa, mas ofusca um item fundamental: a dificuldade que tenho em ver os demais apartamentos do próprio prédio. Se eu debruçar perigosamente na mureta, verei apenas a varanda de uma unidade do quarto andar, e mais nada. Os demais andares também não me veem, mas me sentem – a poeira dos meus tapetes, a água de limpeza dos meus vitrôs, o salto alto da patroa e o frenético sapateado do Homem-Cueca, fenômenos causados por mim, mas que não são absorvidos por mim. Os outros andares sabem que eu existo, o que só fico sabendo quando os mesmos reclamam. Quando cada um de nós se manifesta acerca do horizonte, o faz a partir de um determinado lugar. Eu diria que é belo, ou ao menos interessante, que há construções antigas, que há noção de progresso, que está bom, enfim. A dona Madalena dirá que é sem graça, um grande muro cinza e nada mais. Já os peruanos dirão que é feio, todo rabiscado e ruidoso. Imaginemos o prédio visto de frente e vamos cognominá-lo de tecido social. Cada um dos andares é um lugar de fala, influenciado diretamente pelas condições materiais dos habitantes de cada um deles.

O lugar de fala de um grupo inclui aquilo que é manifestado a respeito dos demais grupos. Não se trata de uma mera opinião, mas de um ponto de vista que precisa ser conhecido, até mesmo para que os diferentes nichos sociais se compreendam mutuamente. Isso é o diálogo, pressuposto básico da democracia. Por isso, não existe essa coisa de dizer que determinado assunto não é o lugar de fala de uma pessoa pelo simples fato dela não pertencer ao grupo. Como bem notou a filósofa Djamila Ribeiro, há uma confusão muito frequente entre lugar de fala e representatividade. Eu, como homem, hetero, branco e gordo, não posso me considerar um representante do grupo feminino, homo ou negro, apenas dos gordos, e como gordo falar daquilo que me aflige como indivíduo: catracas mínimas, bancos espremidos, roupas raras e caras. Mas o fato de eu não ser mulher não tira meu ponto de vista sobre o feminismo. Do meu lugar de fala, há uma visão sobre mulheres, gays e negros, que podem e devem ser debatidos. Voltando ao prédio, meu lugar de fala é o quinto andar, mas minha opinião sobre os peruanos e dona Madalena pode passar pela empatia e reconhecer as suas aflições com o muro, ou simplesmente pode ser um “foda-se”. Saber disso é proveitoso para, pelo menos, que se saiba com quem se está lidando, já que o lugar de fala é, antes de qualquer coisa, uma predisposição ética. Lugar de fala não é lugar de silêncio. Lugar de silêncio é nas ditaduras.

Esse é o grande engano de Kefera. A partir do meu lugar de fala, eu tenho uma ideia formada que pode ou não coadunar com os representantes de outros lugares de fala, mas não há sentido em impor um limite que não existe. Apesar disso, não podemos simplesmente atacá-la, como muita gente tem feito. É preciso entender um pouquinho da sua carreira. Ela foi uma das primeiras pessoas a sacar o funcionamento do YouTube, plataforma de vídeos que remunera os produtores de conteúdo de acordo com a publicidade gerada por suas visualizações. Com um conteúdo voltado para o público jovem, dando opiniões e comentando sobre sua vida pessoal, arrebanhou uma multidão de fãs interessados em seu jeito despojado e, por vezes, controverso. Com isso, tornou-se uma das mais seguidas personalidades da internet. Veio diversificando cada vez mais suas atividades, com o lançamento de livros, atuação em novelas, filmes e peças teatrais, descolando-se de sua origem. Em busca de uma mudança da visão que se tem sobre ela, engajou-se na luta feminista, o que derivou no convite a um programa de televisão, onde rolou todo o fuzuê. É louvável que sua temática amadureça, que saia do mero entretenimento e é muito boa sua adesão à causa feminista, porque sua notoriedade carrega toda uma visibilidade de um público que lhe acompanhava de perto até então e que lhe ouve, além de lhe tirar uma certa impressão de futilidade (o que não é um mal em si). Só que parte de qualquer processo de maturação é feito de tropeços. Todos nós passamos por isso. A impressão que tive é aquela que acontece quando começamos um novo namoro, ou compramos um carro bacana, ou, como no caso, adquirimos um novo conhecimento. Queremos mostrá-los a todo mundo, repetir os conceitos como se pertencentes a uma seita hermética, da qual somos agora iniciados, em palavras que têm o efeito de um sortilégio, assim como fazemos com veículos e consortes. Chegará o tempo em que haverá uma compreensão melhor de como os conceitos traduzem ideias, que tem uma sequência lógica, e que são essas que importam, não valendo a pena despejá-los sobre nossos interlocutores apenas para dar uma pretensa impressão de que sabemos muito sobre o que estamos falando. Vejam vocês: uma das críticas mais contundentes que tenho visto a todo esse caso diz respeito exatamente às contradições de sua manifestação – menciona o manterrupting interrompendo a outra parte, e cita o lugar de fala esquecendo que ela mesma é bem sucedida, pertencente a um padrão estético bem aceito e muito bonita, um lugar de fala com vários privilégios. Sua opinião sobre outras lutas que não sejam o feminismo seria ilegítima? Ela fala pelas mulheres negras? Pelas mulheres trans? É preciso lembrar que, de seu lugar de fala, um sociólogo homem pode não só falar com propriedade de feminismo, bem como pagar um preço pela sua defesa a esses mesmos ideais. Afinal de contas, os preconceitos não são lançados só sobre um “público-alvo”, mas também a quem se engaja a eles. Sim, ele nunca será uma mulher, ele não REPRESENTA a mulher e não “sente na pele” o que significa sofrer pelo simples fato de ser mulher, mas ele pode, do lado de fora da representatividade, perceber coisas que a própria representante não enxerga. Eu não represento nem o primeiro, nem o terceiro andares, mas os peruanos e a dona Madalena talvez nem tenham ideia de como é ter a vista panorâmica do quinto andar, e justamente eu, sabedor de suas aflições, posso lutar pela queda do muro. Uma dominação carrega consigo sempre uma boa dose de alienação, e muitas vezes uma mulher concorda com atitudes que são contrárias a ela, reputando-as como naturais. Como funcionaria o lugar de fala impeditivo em uma circunstância desta? Toda fala é legítima quando se propõe a também ouvir. É o diálogo. É a democracia.

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Subsidiariamente, podemos também dar uma enriquecida no Pequeno Guia das Grandes Falácias, que, para quem não sabe, é uma coletânea de argumentos defeituosos que eu lancei neste recanto, alguns com foco direto, outros derivando de um tema principal, como é este caso. Quando Kefera introduz a temática do mansplaining e do manterrupting, ela já prejulga o seu interlocutor sem fazer qualquer análise do seu argumento. A impressão geral é a de que o rapaz em questão está errado antes mesmo de se avaliar seus argumentos. O mansplaining, por exemplo, se baseia no fato de que a sociedade aceita melhor as explicações de um homem sobre o feminismo do que as das próprias mulheres. Só que, para se detectar um mansplaining, é preciso que ele esteja constituído e que seja demonstrado por a mais b. Não é qualquer argumento sobre feminismo emitido por um homem que é mansplaining, e por este motivo é preciso interpretar o argumento antes de imputar erro. Esse tipo de falácia de dispersão chama-se bulverismo, derivado de um nome criado pelo professor e escritor norte-irlandês Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis.

Como se pode perceber, o bulverismo é uma espécie de argumentum ad hominem circunstancial, na medida em que se deixa de analisar a proposição do argumentador para atacar o próprio argumentador, afirmando peremptoriamente seu erro em decorrência de sua condição. No caso, o fato de ser homem inviabiliza a correção daquilo que se diz, o que, evidentemente, não é boa técnica argumentativa, mas que gera engajamento.

Mas o que seria esse curioso nome? É que Lewis, em seu artigo denominado “Bulverismo ou os Fundamentos do pensamento do século XX” cria uma personagem fictícia, chamada Ezekiel Bulver, que tem uma espécie de epifania aos cinco anos de idade, quando ouve sua mãe refutar seu pai pelo gênero em uma questão de matemática. Essa técnica sofística, segundo Lewis, espalha-se como praga por qualquer lugar em que se queira levantar uma discussão. Nesse sentido, ele tem razão. Nestes tempos difíceis, o bulverismo é prática comum mesmo em meios menos raivosos, porque é menos agressivo que um ataque pessoal, mas faz os mesmos estragos e com os mesmos mecanismos – a desqualificação do antagonista e o desvio do argumento principal. Se eu digo que sou contra a liberação das armas e alguém diz que sou covarde, isso é um ataque pessoal; se diz que socialistas não tem nada a dizer na liberação de armamentos, porque são contra liberdades individuais, é um bulverismo. Percebam que, em nenhum dos casos, há importância nas minhas razões. Em qualquer uma delas, as causas e os motivos antecipam as razões, que nem são analisadas, e que se prestam independentemente de quais forem essas últimas. Vejam o fenômeno:

Afirmação 1: Sou contra a venda de armas porque é perigoso para quem tem crianças pequenas em casa.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Afirmação 2: Sou contra a venda de armas porque é o fator surpresa sempre está a favor de quem ataca, e não de quem se defende.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Afirmação 3: Sou contra a venda de armas porque ela retroalimenta a violência.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Afirmação 4: Sou contra a venda de armas porque favorece um lobby muito restrito de fabricantes.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Notaram como a estrutura da resposta é sempre possível? Como a simplificação sempre se antecipa ao argumento a ser combatido? É desse jeito que ambos funcionam. E funcionam bem.

Recomendações:

Djamila Ribeiro é uma jovem ativista negra, polêmica porque lida com temas polêmicos. Sendo de esquerda, vai, a partir deste ano, para uma nova minoria. Mas sua obra citada abaixo é essencial para estabelecer bem o que é lugar de fala. Livro simples e de leitura rápida. Não deixem de lê-lo se quiserem se imiscuir em causas sociais.

RIBEIRO, Djamila. O que é Lugar de Fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

O artigo de C. S. Lewis que fala sobre bulverismo está disponível na internet. É autor cujas ideias não estão entre as minhas favoritas, mas é célebre (principalmente por conta d’As Crônicas de Nárnia) e teve essa sacada argumentativa. Portanto, segue um endereço onde seu texto pode ser lido em português:

LEWIS, Clive S. Bulverismo, ou os Fundamentos do Pensamento do Século XX
Disponível em: http://ultimato.com.br/sites/cslewis/2014/05/30/bulverismo-ou-os-fundamentos-do-pensamento-do-seculo-xx/

E (por que não?), o canal no Youtube de Kefera Buchmann. Não sou inscrito em seu canal e não acompanho sua carreira artística, mas não posso cometer a injustiça de citá-la e não lhe dar crédito algum:

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 1ª estação: Maria da Fé e a presença do feminino em lugares improváveis

Olá!


Vou interromper momentaneamente minha tarefa de elucidação de áreas da Filosofia (vejam aqui os textos já publicados) por uma razão nobre: fui dar um daqueles meus habituais rolês a esmo, sem roteiro fechado e com os riscos inerentes à quem se atreve a mochilar, ainda que de carro. Poderia esperar o término do guia? Poderia, mas desse jeito junto duas vantagens – dou uma descansada na chateação da monotemática e anoto rapidamente minhas considerações, que povoam um cérebro já não tão retentivo. Como virou praga, todas as vezes que visito um local, fico fazendo minhas considerações filosóficas, para depois traduzi-las em postagens, como esta que agora inicio. Portanto, vamos lá.

Meu último destino tinha sido o Sul de Minas, na região das Terras Altas da Mantiqueira e no Circuito de Águas Mineiro (leiam aqui os relatos). Apesar de passar por muita parte, senti que algumas coisas ficaram para trás, dadas as dicas de lugares que o próprio pessoal desses roteiros passava para mim e para a patroa. Não resta muito a fazer, com a parca semana que me é reservada para descanso a cada temporada, a não ser regressar e palmilhar mais um pouco deste chão, o que fiz. Desta feita, baixei de meridiano e fiquei por uma região conhecida como Caminhos da Mantiqueira, apreciador de serra e mato que sou, em região bem fronteiriça com o estado de São Paulo. A travessia percorreu área outrora coberta por uma importante malha ferroviária, e me dediquei a caçar aqui e ali os indícios dessa presença. Alguns são óbvios e bem preservados; outros, ficaram apenas na memória dos velhos moradores, que gostam de bater papo e contar “causos” com nível de credibilidade variável. Por isso nominei esta série desse jeito. O começo de tudo se deu pela pequena cidade de Maria da Fé.


Este lugarejo, cujo nome homenageia uma pouco conhecida proprietária de terras naquelas sesmarias, fica no topo da serra do Capituba, um subconjunto da Mantiqueira, local muito alto, e que é frio à beça para os padrões mineiros. É toda cercada de vales e com horizonte farto de montes e colinas. Como se pode perceber, chovia e fazia muita nebulosidade, com névoa estacionária no topo dos morros, algo muito frequente em terras com tanta variação de altitude, e que prejudica muito a visibilidade nos mirantes.


A antiga estação de trem se encontra bem preservada, e abriga hoje um espaço cultural. No dia em que estive lá, estava cheia de meninada, por causa de um desencontro de informações. Programada a exibição de um filme, o pessoal lá chegou às 13:00 para o deleite cinematográfico. No entanto, o número 1 marcado no cartaz não era um número, mas um rabisco qualquer. A sessão era às três da tarde, e, sendo assim, a massa mirim ficou aguardando pelos arredores, em frenético alarido, como é típico na faixa etária.


Ao lado da estação, uma locomotiva a vapor faz as vezes de obra estatuária. Seria legal se estivesse em funcionamento, como em Passa Quatro ou São Lourenço (se possível com preços mais convidativos), mas compreendemos que essas coisas não são fáceis. Pensei que a sigla RMV fosse a marca do fabricante, burramente. Não é. Significa Rede Mineira de Viação, o que significa que esta máquina operou em algum momento entre 1931 e 1965, período em que o tráfego esteve ao encargo desta companhia.


A praça formada à frente da estação é uma graça. É toda florida e bem cuidada, ainda no espaço que, no passado, era reservado à linha férrea. A caixa d’água que abastecia a máquina ainda está lá, dando referência à passagem dos hoje inexistentes trilhos.


Nesta mesma praça, temos a presença insólita de oliveiras, cultura incomum no Brasil, mas que acabou pegando em Maria da Fé, dada sua altitude e clima ameno. Neste sentido, é prima-irmã de São Bento do Sapucaí, onde também é praticada a olivicultura.


A árvore virou uma espécie de símbolo da cidade. Destaca-se da paisagem em geral pelo verde meio opaco de sua folhagem, composta de elementos alongados, e sua floração se dá no nosso inverno, de onde se deduz que não pude ver nenhuma. É uma folha meio dura, cujo sabor não lembra em nada uma azeitona.


Maria da Fé é a sede da Fazenda Experimental de Olivicultura da Epamig – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, uma espécie de Embrapa mineira, que pesquisa e dá apoio aos produtores rurais da redondeza, especialmente no cultivo de oliveiras e produção de azeite.


A Epamig cultiva os campos ao seu redor não só com propósito comercial, mas principalmente para compreender quais espécies melhor se adaptam às nossas condições ambientais e dão melhor produtividade. Por enquanto, o caminho vai apontando para espécies arbequina, espanhola e de sabor frutado; grappolo, italiana levemente amarga e koroneiki, grega mais picante.


A tarefa da Epamig inclui a extração do azeite, não só das azeitonas produzidas na casa, mas também para produtores menores, que não tem condições de armar um lagar próprio.


Boa parte dos produtores é abastecida pelas mudas germinadas em seus viveiros e estufas, não só nesta cidade, mas em outras localidades que vêm tentando se introduzir neste mercado.


Como o Brasil não é um produtor clássico de azeite, a Epamig estende sua pesquisa a outras espécies e mesmo provocando hibridações, em busca de resultados ainda melhores. Para tanto, possui um banco vivo de espécies em um dos seus terrenos. Agradecemos todas essas informações à Carol, que gentilmente nos atendeu naquele dia.


O resultado é muito bom, um azeite saboroso que se vem transformando em marca registrada de Maria da Fé.


Nem só de azeitona Maria da Fé viverá, mas de todo café que vier de sua zona rural. Sendo bastante alto, seu território não sofre das intempéries que sacrificam a qualidade da rubiácea, gerando grãos maturados no tempo certo, que produzem uma bebida mais suave, que dispensa adoçamento, característica do café de boa qualidade.


Vamos agora para a inevitável igrejona, que será a causa do argumento filosófico deste texto. Fica defronte a uma praça com declive acentuado, algo frequente por estas plagas, e é dedicada a Nossa Senhora de Lourdes. Trata-se de uma das mais célebres representações de Maria, que se apresentou na gruta de Massabielle, na cidade francesa de Lourdes, à menina Bernadette Soubirous, como a Imaculada Conceição.


A estátua da mesma santa pontua em um dos níveis da praça, ao lado de um dos canteiros de lavanda.


Por fora, é uma igreja típica, bastante bela, mas sem ser espetacular. O mesmo não se pode dizer do lado de dentro, este sim magnífico. É todo composto por pinturas da década de 40, pelo que entendi, e presta uma reverência incomumente feminina, buscando as personagens inclusive no velho testamento. O passeio se inicia pela própria padroeira, na lateral do altar, retratada aqui na aparição já mencionada.


No lado oposto, temos uma imagem que representa a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, que, na doutrina católica, diz que a mãe de Jesus foi concebida livre do pecado original, comum a todos os seres humanos, para que dela fosse gerado um ser absolutamente puro.


Nos fundos da nave, no acesso ao campanário, há outra pintura com centro temático feminino: as Três Marias, tão conhecidas pelo nome dado ao cinturão da constelação de Órion, as três alinhadas e equidistantes, em rara ocorrência cosmológica e ecumênica. Maria de Nazaré, Maria Madalena e Maria de Cléofas choram a morte de Jesus, que não é exatamente o foco da tensão da obra, mas a dor e a sensação de abandono que perspassa da expressão das três mulheres.


Nas laterais do teto, há três destaques circulares de cada lado, e em cada um deles uma imagem feminina: as rainhas Ester e Abigail, a juíza Débora, a viúva Judith, todas heroínas do antigo testamento, a mártir Santa Filomena e a já mencionada Santa Bernadette. Algumas delas eu nunca tinha visto representadas em uma igreja.


Há ainda mais algumas imagens femininas, como a Nossa Senhora das Dores da foto abaixo, além de uma Santa Cecília pintada logo abaixo do coro e algumas outras, cujas fotos foram vergonhosamente mal colhidas por mim, que sou inepto como artista e tremelicante como técnico.


Com relação à menina Bernadette, que se dedicou à vida monástica após sua visão, há um simulacro de seu corpo incorrupto, ou seja, que não se deteriorou depois da morte. Como obra de realismo, não é tão impressionante quanto a imagem de Nhá Chica na matriz de Baependi, mas é significativa para contar toda a história dos personagens que dão origem ao padroado da presente igreja.


É verdadeiramente incomum ver tanto destaque ao feminino em uma igreja católica. Geralmente, centraliza-se a devoção a uma santa específica e, em seguida, os congêneres acompanhantes são divididos por gênero. É inegável, por mais que se fale o contrário, que há uma certa preferência pelos homens na hierarquia, não só em espaços deste tipo, mas de muitas outras religiões. Não discutirei aqui se isso é certo ou errado, trata-se unicamente de uma constatação, qualquer que seja sua explicação. Mas é uma boa amostra de como as mulheres nem sempre têm facilidade para dividir o espaço público, o que não é circunscrito, como eu já disse, ao âmbito religioso. Basta que se comparem as edições de revistas ditas masculinas ou femininas. Nas primeiras, além dos habituais nus, há matérias falando de economia, de carros, de política e outros assuntos de cunho informativo; nas femininas, temos fofocas e itens de beleza, bem mais fúteis, e pouco mais do que isso. Por que há uma certeza absoluta de que a mulher não pode se interessar por assuntos mais profundos? Por que o conhecimento apresentado à mulher é feito com certo desdém, até os dias de hoje?

Imaginem a condição que se enfrentava no século XVIII. Mas essa foi a grande pergunta lançada pela inglesa Mary Wollstonecraft, considerada por muitos uma precursora do feminismo. Eu discordo. Entendo que o pensamento dela é, na verdade, o marco inaugural do movimento, muito embora ela tenha sido mais conhecida como mãe da escritora Mary Shelley, a criadora do Frankenstein, do que como filósofa. O eixo em que gira sua filosofia é o seguinte: homens ou mulheres, somos seres humanos, cuja principal característica é a racionalidade. O sistema social pensado por grandes intelectuais na época da Revolução Francesa tinha como pano de fundo a garantia de liberdade e igualdade dos cidadãos, baseado na sua capacidade de viver sem a tutela de um tirano. No entanto, o patriarcado combatido pelos liberais revolucionários era mantido no âmbito familiar: as mulheres eram consideradas incapazes de gerir suas próprias vidas, tendo a necessidade de se submeter a um pai ou a um marido que lhe provesse o sustento necessário. Se a Revolução realmente pretendia implantar uma justiça social, era imprescindível que não desperdiçasse metade de sua capacidade intelectual – justamente a das mulheres. Mas os projetos não indicavam neste sentido. A educação imaginada para as mulheres se baseava em dois pilares: mãe e esposa, e não protagonistas na vida política.

Wollstonecraft preconizava que as mulheres deveriam resistir a essa imposição injustificável. A maneira de se fazer isso era uma espécie de “masculinização”. Não no sentido sexual, mas no de realizar a assunção de tarefas tipicamente masculinas, como o trabalho no campo. Dizia-se que a lavoura era muito pesada para mulheres, mas as camadas pobres não abriam mão do trabalho feminino. Havia mulheres nas cocheiras, nas minas, na incipiente manufatura, e elas deveriam se provar autossuficientes, mas agora escalando para uma educação mais refinada, onde elas poderiam participar do poder decisório em todos os planos, desde a gestão da casa até a da cidade. Esse processo de masculinização incluiria a desmistificação da ideia de que haveria um recorte intelectual nos gêneros: enquanto aos homens caberia naturalmente a ponderação, a visão científica e a decisão sensata, às mulheres caberia a sensibilidade, a emotividade e a propensão para o afeto. Muito antes de Simone de Beauvoir, ela dizia que essa visão reduzia a mulher à sua condição de fêmea. Essa posição parece de grosseirões hoje em dia, mas era defendida por gente da bitola de Jean-Jacques Rousseau!!! Isso serve para provar como o preconceito é mais forte do que a própria pretensa racionalidade pode supor.

Para Mary, a tônica deste pensamento era tristemente perversa: manter sob o espírito do presídio toda uma classe, como ela mesma diz: a gaiola dourada só serve para adornar a prisão. Razão e emoção são complementares, e não excludentes; cabem em um mesmo ser. O grande problema é que, dada a condição de inferioridade intelectual das mulheres daquele tempo, nada restava a não ser aguardar que a atitude integradora partisse justamente dos homens, por isso ela guardava algum tanto de concessão à primazia masculina. Era ingenuidade demais achar que ela seria ouvida, ainda mais tendo levado uma vida fora dos padrões de moral da época, incluindo relações com homens casados e filhos ilegítimos. Demorou muito para que sua obra fosse dissociada de sua breve vida pessoal, e somente nos últimos tempos tivemos uma retomada de seus escritos com a reverência que lhe são devidos.

Então é esse o começo desta nova série. Estão todos convidados a viajar comigo pelo restante do caminho, onde continuarei procurando dar vazão à minha mania: a de encontrar Filosofia em todos os momentos que vivo e em todos os lugares por onde ando. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Felizmente, há uma edição mais ou menos recente de sua obra mais importante em português. Percebam a sua atualidade, ainda que a mesma tenha praticamente gritado no deserto em sua época.

WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos Direitos das Mulheres. São Paulo: Edipro, 2015.