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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O café filosófico do quotidiano – a tatuagem fala mais para si ou para os outros?

(Fazer uma tatuagem é parte da moda, não há dúvida. Mas é só isso? Quando bem pensada, a quem ela fala?)

“Não se tornam as vidas humanas mais legíveis quando são interpretadas em função das histórias que as pessoas contam a seu respeito?”

Ricoeur

Olá!

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Experimentar significa caminhar de um extremo para o outro. Muitas vezes insistimos em um ponto que visivelmente não funciona, e mal percebemos que é no outro canto que está a resposta. Plantas apodrecidas pedem que se coloque menos água. Pressão alta demanda menos sal, e vamos caminhando da salmoura para o insosso, com todas as escalas no meio da via. Sendo assim, nossos passos são dialéticos, não porque todas as vezes que eu tenha um fracasso eu precise ir para o lado de lá mais extremo possível, mas eu aponto meu nariz para ele. Se sou gastão, preciso ser econômico; se sou guloso, procuro pela temperança e, se sou doido, procuro pela sanidade, seja lá o que isso for. É isso o que quero dizer.

Isso é aplicável a café? Sim, sem dúvidas. Toda experimentação é válida na busca do café perfeito, que sabemos ser impossível, mas, tal qual deve fazer qualquer ciência, não se deve desistir de tentar a perfeição. Se eu uso temperaturas baixas, dou uma guinada para sua elevação e vou modificar essa variável. Se o líquido está fraco, apertamos a moagem. Se há pouco corpo, vamos partir para mais contato, através de uma infusão. São tantos e tantos fatores que justificam esse pequeno universo como modelo de pesquisa científica. Os detalhes, por vezes, fazem a diferença.

Um deles está na aderência do papel ao porta-filtro. Há escolas que preferem o contato mínimo entre ambos, para melhorar a circulação de ar no sistema e, consequentemente, acelerar o fluxo, enquanto há outras que preferem o contrário: aproximar ambos para tornar mais regulares as superfícies de contato, com o mesmo objetivo. Quem trabalha com os dois lados é a japonesa Hario, que tem no V60 sua joia da coroa, e que trabalha com a primeira perspectiva. Para a segunda, há o irmão menos famoso, que compartilha muitas de suas características, mas oferece uma opção na questão do contato – o Mugen.

Enquanto o V60 tem ranhuras que isolam filtro e porta-filtro, o Mugen procura canalizar o escoamento para as poucas ranhuras em forma de estrela de seu interior. A promessa é que essa arquitetura permite que a água seja passada em um ataque único, sem necessidade de blooming ou de parcelamento de despejos.

O objetivo é exatamente diminuir o fluxo de água e combinar características de métodos percolados e infundidos, produzindo bebida com mais corpo, sem, no entanto, extrair mais amargor.

O suporte excêntrico e a cor cinza escuro dão uma elegância ímpar ao método, mas sua característica mais inconfundível é o conjunto de ranhuras interno, que coleta a água dos diferentes pontos e a centraliza para o escoamento.



Nome do utensílio: Porta-filtro Mugen

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: Insere-se um filtro no porta-filtro e despeja-se água antes de se colocar o pó, para uma boa adesão do mesmo às paredes do filtro. Fazer o ataque todo de uma só vez, para que o efeito desejado seja produzido.

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

Olho para aquele formato de estrela bonito e lembro de uma tatuagem muito comum, que eu gostaria de ter feito, quem sabe ainda? Eu queria tatuar uma rosa dos ventos, espécie de símbolo consensual dos viajantes, mas, embora eu tenha feito várias séries de textos versando sobre meus rolês, o fato é que eu não posso afirmar que minha vida se pauta nas idas e vindas para lugares variados, por um motivo muito simples: falta de recursos. Conheço um monte de gente que faz maluquices financeiras para ir à Europa, Caribe, Estados Unidos, Japão. Eu, por exemplo, nunca saí do país, e não tenho grandes sainhas disso, já que há muuuuuuuito o que ver em Pindorama. Mas, mesmo aqui, não sou o que se pode chamar de viajante contumaz. Por isso, não percebo muito sentido em eternizar uma imagem no corpo que, apesar de esteticamente bela, não diz muito sobre mim para mim mesmo. Meu baixo e minha bateria sim, evocam meu passado e nelas vislumbro meu futuro, então olho para elas e percebo que tem significado para mim.

Poucas coisas mais poderiam caber na minha pele no sentido de ter sentido. Alguma coisa sobre café seria óbvio, como fez a patroa, com seu ramo no antebraço e xícara no braço:

Mas ainda não cheguei a concluir o que eu poderia colocar. Um dos meus métodos favoritos estilizado é uma hipótese, como uma Chemex ou Clever. As ligações iônicas da cafeína são muito manjadas. Talvez sua fórmula química, não sei. Outra hipótese estaria ligada ao trabalho, mas eu o detesto, então deixa para lá. Filosofia? Pode ser, ainda não pensei a fundo. Corujas são muito batidas, então precisaria pensar em alguma coisa, talvez a página de fundo deste blog… acho que ficaria bom. Então, por enquanto, vou ficando com meus artigos musicais, minhas pautas, meus trechinhos de canções.

Nossa, esse papo já está parecendo de maluco. Vou centrar as ideias em uma única pergunta: por que as pessoas se tatuam?

Não é um único fator. Quando você olha as poucas estatísticas disponíveis, e levando em conta que se trata de pouco confiáveis levantamentos de internet, percebe-se que os brasileiros são um dos povos mais tatuados do mundo. Algo em torno de 35% das pessoas possui ao menos uma tatuagem gravada no corpo, e isso é um negócio realmente empírico, bastando sair na rua para constatar. A coisa muda radicalmente de acordo com a idade. Excetuando-se os menores de idade, quanto mais baixa a faixa etária, maior é essa proporção, invertendo-se a lógica quando os cabelos rareiam e a barba embranquece. Na minha faixa, provavelmente algo em torno de 10% é o número mais imaginável. Ou menos.

Mas as regras não são tão estritas. Minhas irmãs, por exemplo, têm apenas um ano de diferença entre elas, mas a mais nova tem umas vinte espalhadas pelo corpo, enquanto a mais velha tem uma só. Por isso, tentar delinear regras não é simples, então pensar nos supostos 77 milhões de brasileiros rabiscados é um exercício mais fácil do que ficar delineando séries e classes. De qualquer forma, é um mar de gente, há de se convir. E não há como deixar de se discorrer sobre o óbvio: é moda. Resta saber se é modinha.

Uma maneira de entender isso é olhando as próprias tatuagens. Certos desenhos se repetem em determinadas épocas, como os atuais leões realistas e as mandalas. Houve o momento das estilizações, dos motivos tribais, das explosões de cores, dos motivos afro. Essa variedade demonstra que talvez as tatuagens tenham vindo para ficar, como um adorno de pele semelhante aos brincos, usados há séculos por mulheres e há décadas por homens modernos. Como temos ao menos trinta anos de crescimento das tatuagens, parece que vieram para ficar, com as devidas flutuações. Por isso, é moda, no seu sentido mais permanente de ter sido absorvida pelos costumes. Modinha são os desenhos do momento, já sendo modificados, para o desespero de quem entrou na onda.

Como é impossível prever o futuro, desloco o foco para uma questão mais filosófica. O que queremos dizer com uma tatuagem? A quem queremos dizer? A nós ou aos outros?

Talvez seja uma questão de identidade. Sem cair no âmbito da insatisfação consigo mesmo, há uma casca exterior que nos é característica e há uma quota de formatações internas que podem ser facilmente detectáveis, e outras são mais difíceis de externar, são autenticamente interiores. Por exemplo, sabemos de imediato que uma pessoa é negra, alta, peso em dia, olhos grandes só de ter um contato visual. Para saber seu jeitão de ser, precisamos de algumas horas de conversa, e aí teremos seus graus de eloquência, timidez, vaidade e così via. Já para puxar algo que lhe seja verdadeiramente íntimo, talvez jamais saibamos. Ocorre que, por vezes, há uma necessidade interior de se por isso para fora, mas que não se encontra bom meio para tanto. Há maneiras de fazer isso: escrever um poema, cantar uma música, fazer uma tatuagem - eternizações e exteriorizações de interioridades.

O ato da tatuagem inclui uma dose de sofrimento. É caro, é doloroso e é permanente, a não ser que se queira enfrentar reversões igualmente caras e dolorosas. Então temos certa porção sacrificial, o que dá uma ideia de rito de passagem. Isso acaba me lembrando aquele momento da juventude em que começamos a fumar, uma mostra (tola) de que estamos nos descolando de nossos pais e tomando decisões próprias, o que caracteriza a formação de uma nova identidade. Ter uma tatuagem externa isso, demonstra algo de nosso caráter, primeiro pela coragem de fazê-la, depois por expor um símbolo. Modinhas saem um pouco desse contexto, mas uma imagem bem pensada conta um pouco de nós aos outros e, quem sabe, a nós mesmos.

Só que o que nos identifica não é único. Existe uma camada mais externa e evidente, que está ligada a nossas aparências e características permanentes, aquilo que sempre temos, independentemente do tempo. Alguns fatos meus nunca vão mudar, como eu ser brasileiro, ser da espécie humana, e, portanto, ser bípede implume das unhas chatas, dentre outras coisas que nunca mudam com o decorrer do tempo. É o que chamamos de mesmidade, ou a identidade que resiste ao tempo.

Mas não somos sempre os mesmos. Crescemos, envelhecemos, caminhamos para a morte, e, nisto, muito muda. Aquele velhinho que está subindo duramente a ladeira com sua bengala já foi um gurizinho que perturbava seus pais mesmo de madrugada. O que faz com que ambos sejam o mesmo ser?

Mais ainda: mesmo que todas as histórias dos seres humanos sejam, na média, mais ou menos semelhantes, cada um de nós é único. Cada um de nós deixa um legado de sua própria história. O que é isso que nos deixa iguais a nós mesmos dentre o mundo todo e no decorrer do tempo?

Vejam bem. Quando queremos falar a palavra “mesmo” em latim, podemos usar duas formas. A mais comum é “idem”, de onde retiramos uma palavra muito significativa do que estamos expondo aqui: identidade, a qualidade de ser igual a si mesmo, a se tornar único. Mas, como acontece em tantas outras línguas, também no latim temos um sinônimo: ipse. Ela está em termos como ipsis litteris ou ipsis verbis, respectivamente para representar literalidade escrita ou falada. Mas a sinonímia entre idem e ipse não é absoluta, como acontece com mandioca e aipim. Enquanto o idem é aquilo que é igual ao longo do tempo, o ipse representa aquilo que é igual em nós APESAR do tempo. Sabemos que não seremos sempre iguais no físico, nem no psicológico, mas teremos sempre algo que nos diferenciará no mundo, algo só nosso. A ipseidade nos particulariza e nos mantém iguais a nós mesmos.

Segundo um dos seus maiores defensores, Paul Ricoeur, a ipseidade se sintetiza nas narrativas. Um exemplo que eu posso dar está em um jornal. A mesmidade estaria na notícia – imaginando ser possível que a mesma seja desenviezada. O relato seria um fato contado como ele foi: onde, quando, como, porque e para que. Já a ipseidade seria a análise do fato, que já vem banhada pelo conhecimento e opinião de quem a profere. Notem que uma vem como uma marca indelével clara, um fato descrito, quase um axioma sobre um determinado fenômeno. Já o segundo vem carregado de cultura e subjetividade, mas que também é uma marca pessoal, uma visão de mundo que fica estampada na história daquele indivíduo. A ipseidade é, em boa parte, isso: as narrativas surgem da história de cada contribuinte, dos aspectos que lhe construíram e que não se apagam mais, ainda que mudem com o decorrer do tempo. Ambas, identidade e ipseidade perduram no tempo, uma no aspecto tangível, outra no aspecto narrativo. De fato, não somos somente nossos corpos, mas também nossas histórias. E, com isso, temos que admitir que somos tripartites, sendo formados por mesmidade, ipseidade e alteridade, sendo que a do meio está aí por ser meio que “ensanduichada” entre nossa realidade própria e pelo que os outros nos formatam. Em miúdos: já temos coisas que somos (idem) e somos moldados pelo que queremos colocar aos outros (alter), e isso constrói o que somos em si mesmos (ipse). Colocamos isso para fora na forma de narrativas, que não são somente falas, mas em tudo aquilo que nos expressa. Somos para os outros e para nós mesmos.

Percebam, em vista de tudo isso, como podemos imaginar que, ainda que inconscientemente, uma tatuagem pode ser interpretada como uma fusão de identidades. O que é permanente no caráter passa a ser também permanente no tempo, através da impressão de um simbolismo abstrato representativo de um conteúdo da consciência. Trazemos para a pele algo que faz parte de nossa identidade intangível, e a tornamos permanente. Por isso, eu sempre digo que uma tatuagem não precisa ser evitada, mas bem pensada. Aquele leãozinho da moda pode perder o sentido se você mudar sua perspectiva religiosa, e a não ser que você não tenha dificuldades em assumir sua própria história, pode acabar se tornando um estorvo. Nomes são um eterno perigo, rostos também, a não ser que haja muita resiliência com o tempo passado.

Pode ser que eu acabe colocando a rosa dos ventos na pele não somente para expressar uma realidade tangível, mas uma realidade do desejo, o que vai dar mais substância a ela do que um aspecto meramente estético. O mundo gira e vamos ver onde vai dar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não é leitura fácil, mas é interessante, especialmente pela abordagem a inúmeros aspetos psicológicos.

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1991.



segunda-feira, 24 de junho de 2024

Navegações de cabotagem – a Loja do Burro de Taubaté e a metáfora para além da figura de retórica

(Não é preciso se incomodar com palavras que parecem ofensas. Às vezes, elas são grandes elogios)

“… ao dizer que a própria palavra ‘metáfora’ é metafórica, na medida em que é emprestada a outra ordem que não a linguagem, antecipamo-nos à teoria posterior; supomos com ela que: 1) a metáfora é um empréstimo; 2) que o sentido emprestado opõe-se ao sentido próprio; 3) que se recorre a metáforas para preencher um vazio semântico; 4) que a palavra emprestada toma o lugar da palavra própria ausente se esta existe”.

Paul Ricoeur

Olá!

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Quantas estrelas precisam brilhar para sua glória? Depende da constelação que você orbita. O futuro a Deus pertence e, portanto, não pertence a ninguém. Por isso, não dá para saber onde estaremos daqui a quinze, vinte ou cinquenta anos. É aquela velha história: dizem que quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré, mas não é assim que funciona. Pequenos progressos são, ainda assim, progressos. É sempre possível que um momento atual reflita um ponto de inflexão, de onde as coisas pegarão a ladeira para cima. Mal comparando, estamos em ano olímpico. É claro que o Brasil-sil-sil não tem como competir com os grandões, como China e Estados Unidos, mas, se chegar às mesmas vinte e uma medalhas da última olimpíada, não podemos dizer que terá feito feio. São duas coisas. Por aqui, as coisas andam lentas mesmo, como bem sabemos. E, ainda assim, em 76 ganhávamos duas medalhinhas de bronze no mesmo evento, o que já dava motivos para comemorar. Portanto, é preciso colocar em ponto de relatividade onde estamos, de onde viemos e para onde vamos.

Faço todo esse périplo que vagueia entre o lirismo barato e a filosofia de porta de boteco para dizer que, em Taubaté, há um time tradicional de mesmo nome, representado pelas cores da bandeira da cidade, como sói acontecer. Comparado com os times da capital, é bastante modesto, estando fora da primeira divisão paulista há exatos 40 anos, mas, falando da região do Vale do Paraíba, só tem alguma concorrência na cidade ao lado, São José dos Campos, bem maior. Mas sua torcida comparece, e é bem representada também no futebol feminino. Eu vim conhecer um estabelecimento misto, pequeno, mas muito interessante, que deveria estar entre os principais pontos turísticos da cidade. É a loja do Burro, mascote do Esporte Clube Taubaté.

Trata-se de uma mascote inusitada, já que se diferencia definitivamente dos infinitos leões e galos que povoam o imaginário futebolístico. Se destacou tanto que o próprio Maurício de Souza eternizou sua versão, em homenagem ao centenário da equipe, em 2014. Mas não é uma origem meramente jocosa, que tenha nascido de uma ofensa (como o porco do Palmeiras). Taubaté é terra de tropeiros, aqueles viajantes que se internalizavam no país para levar víveres e trazer minérios das Minas Gerais. Sua grande ferramenta de trabalho estava nos burros, mais fortes e resistentes do que os cavalos, além de se acomodar melhor nos terrenos íngremes das Serras do Mar e da Mantiqueira, precisamente no entremeio onde a cidade se localiza. Mas há uma história galhofeira, sim, que envolve o bicho: a escalação de um jogador irregular fez com que o time perdesse os pontos onde aplicou uma goleada.

A parte da loja é o que se espera: diferentes artigos relacionados ao esporte em si, como camisas, calções, mochilas, abrigos, bombetas e meiões.

Há também outros itens, igualmente ligados ao clube, mas menos relacionados ao futebol em si mesmo, com uma variedade até inesperada para uma equipe do interior. São carteiras, chaveiros e até uma razoável cerveja.

A parte mais legal, entretanto, é mesmo o museu. Achei uma solução inteligente, porque deixa a história da instituição mais exposta a um público maior, ao invés de somente ficar restrita àqueles que vão ao estádio. Desta forma, o visitante pode conhecer e se afeiçoar mais a ela, além de ter subsídios sobre a própria cidade.

Que não se espere uma sala de troféus como a do trio de ferro da Capital, ou mesmo da Vila Belmiro, mas o time tem suas conquistas importantes, inclusive nos primórdios do futebol paulista, quando, aos cinco anos de existência, levou o Campeonato Paulista do Interior de 1919.

Outro registro importante é o conjunto que fala sobre o título da divisão de acesso de 1979, que contém o próprio troféu, notícias de jornais locais e a camisa do goleiro Wagner Gão, um dos poucos jogadores do Taubaté da época de quem eu tenho lembrança, além do quarto-zagueiro Bothu.


Além do Burrinho da Central, há outra caricatura, em homenagem ao ex-presidente Joaquim de Morais Filho. Ele ficou célebre ao ter seu nome atribuído ao estádio do clube, que ficou conhecido como Joaquinzão, com capacidade para quase 10000 torcedores.

Do lado de fora da loja/museu, um conjunto de painéis conta toda a história do EC Taubaté, contando “causos” e curiosidades.

Não houve esquadrões de renome e projeção nacional, mas alguns bons jogadores surgiram e passaram por estes gramados, especialmente o bicampeão mundial Zito e o centroavante Edmar, que, mais tarde, passou por Palmeiras, Corinthians e seleção brasileira.


Aliás, as visitas dos grandes sempre foram uma atração para toda a cidade, sendo que o maior público da história do Joaquinzão foi uma refrega com o Corinthians, com mais que o dobro da capacidade atual ocupando as arquibancadas. Vejam um cartaz anunciando uma partida contra o São Paulo.


O Taubaté também teve seus dirigentes folclóricos, e isso está exposto no pequeno acervo. Um exemplo é o Dr. João Rachou, que não admitia jogadores que não eram ambidestros no time. Pobre saci.

Por fim, para quem reclama que times como Juventus de Turim ou Atléticos Paranaense e Goianiense tenham mudado de distintivos, vejam por quantos o EC Taubaté passou.


Como vocês que me acompanham sabem, eu sou um apreciador do futebol mais miúdo, aquele que se joga fora da tevê e da exposição maciça. Por isso, não poderia deixar de voltar meu olhar para este clube, especialmente estando por aqui a menina mais nova há mais de três anos. Três anos, três camisas que estão no meu acervo.

Retomando a questão do burro. Os mascotes são muito importantes na vida de uma torcida, porque eles representam uma totalidade, uma espécie de espírito conjunto de um agrupamento humano como um todo, na mesma senda por onde andam os totens. Eles agregam na sua representação todas as virtudes que as pessoas que lhe compõem têm como preciosas. Por esse motivo, alguns mascotes são mais esperados e recorrentes que os outros. O leão é quase óbvio, porque representa a força, a majestade, a imponência e demais que-tais. Por esse motivo, é adotado por um sem-fim de agremiações, mesmo que seja um bicho que não está em nossa fauna, como Sport, Vitória, Bragantino, Inter de Limeira, Remo, Avaí, Fortaleza, Mirassol, Portuguesa (que abandonou uma mascote muito mais interessante, a dançarina de vira Severa) e um monte de outros. Já o galo é representante da valentia e da entrega à luta, e é adotado por Atlético-MG, Paulista de Jundiaí, Ituano, Goiânia, CRB, Treze, Operário-MS e mais outros, na sua versão galinácea ou da campina. A adoção do burrinho é, portanto, um tanto polêmica, porque é inevitável que a principal característica que ele evoca é a… burrice! A assimilação é tão poderosa que você não diz que o leão e leão ou que o galo é galo, mas você diz que o burro é burro. Você tem o Diogo Cão, o Borba Gato, o Carlos Roberto Gallo, o Leão Lobo, o Osvaldo Aranha e até o Cipriano Barata, só que eu nunca ouvi falar de um Antônio Burro, ou um José Asno, seu sinônimo. Portanto, é um bicho que virou sinônimo de ofensa, punto e finito. Mas as coisas não são como aparentam, e a discussão sobre as metáforas são muito mais profundas, o que tornam o Burro da Central um dos mascotes mais criativos e ousados do Brasil. Vamos ver.

Nós não assumimos um mascote pensando em fazer uma assunção direta deles, mas do seu pedaço simbólico. Isso é óbvio até. Eu não vou me vestir de galo ou viver como um leão, mas vou aproveitar o que eles carregam consigo de virtudes representativas. Nós temos aspectos práticos das palavras e, da mesma forma, aspectos simbólicos, fazendo da mesma forma que nos atos e representações da vida. É, nesse sentido, que temos as metáforas.

Ensinam-nos nas escolas que a metáfora é uma figura de linguagem em que substituímos um termo referencialmente direto por outro, indireto, através de um ponto de contato em que ambos coincidem. Isso está correto, mas há uma análise filosófica que vai muito mais profundamente.

Principiando pelo princípio, o que é uma metáfora? A palavra metáfora quer dizer, em grego, algo como “carregar para além”. Neste caso, o que é carregado para além? O sentido da palavra ou frase onde ela é aplicada. Seu uso, notadamente, é poético ou didático. Daí, já podemos perceber sua utilidade.

O burro, por exemplo. Trata-se de uma inverdade dizer que o burro é burro. Na acepção da palavra, aquilo que tratamos por burrice é, na verdade, o estado de ignorância. Provavelmente isso nasceu entre dois fatores: o fato de que o animal aceita cargas pesadas no lombo em troca de um pouco de alimento, ou de sua proverbial teimosia. A segunda, contraditoriamente, por muitas vezes é a defesa que o bicho tem para a primeira, ou seja, empacar é uma forma de não admitir que seu trabalho lhe seja pesado demais. Ou seja, ser tolo não é um atributo real do burro, mas uma característica que lhe foi consagrada, ainda que de maneira injusta.

De toda forma, justa ou injustamente, o burro carrega a pecha de lhe faltar a inteligência. E isso acaba sendo absorvido e atribuído para outras ocasiões onde essa mesma característica se apresenta. Sendo assim, quando queremos dizer que um sujeito qualquer é atoleimado e teimoso, pegamos emprestados esses tópicos do pobre asinino e aplicamos ao indigitado, nesse ponto de contato semântico.

Podemos notar que o tolo e o burro possuem traços semânticos comuns. Pela visão que temos consagrada, ambos são tardos no pensamento, ambos têm resistência em agir, ambos não medem as consequências de suas ações. Desta intersecção, nasce o uso comum: fulano é burro.

Isso pode ser aplicado em inúmeros exemplos: flores e mulheres compactuam beleza, cristais e crianças compactuam fragilidade, cobras e fofoqueiros compactuam o veneno, e assim por diante. Por vezes, isso ajuda muito a trazer aspectos conhecidos a elementos desconhecidos, ou a fazer exemplos. Quando eu digo que “o Oriente Médio é um barril de pólvora”, não estou querendo dizer que ele é feito de madeira e com um explosivo dentro, mas que um elemento conhecido, que causa grande estrago e que pode explodir com facilidade, sintetiza um lugar que não conhecemos, com equilíbrio político e militar frágil. Essa é a grande força retórica da metáfora.

Como eu disse, está nos manuais da língua esse uso como figura de retórica, que é o mais evidente e que deve, de fato, ser uma preocupação educacional. Mas o espírito filosófico exige um pouco mais e é por isso que podemos imaginar que esse uso semântico só é possível porque existe um fenômeno ontológico em curso todas as vezes em que elaboramos uma metáfora.

Podemos perceber que o exercício metafórico se dá em um plano do equívoco. Não no sentido de se enganar, como pareceria, mas de se estabelecer uma semântica dúbia, que pode carregar mais de um sentido possível. O sentido lato de uma palavra, uma vez escoado seu aspecto meramente concreto, deixa restar seus aspectos profundos, divididos. Um sentido é uma junção de sentidos, e, uma vez devidamente distinguidos, temos um verdadeiro cardápio de significações, que podem ter seus lugares intercambiados.

É como um camaleão que se traveste da cor de fundo onde está localizado. Nós somos capazes de mimetizar significados da mesma forma que o fazemos quando colocamos uma daquelas camisas de recruta, todas manchadas de camuflagem, com a diferença de que não queremos nos fazer ocultos, mas de modificar semanticamente um sentido estrito em algo mais extenso. E isso só é possível porque as coisas têm essências que podem ser mimetizadas. Mimesis é imitação, e, por esse motivo, podemos falar no tal plano do equívoco. Desta forma, a poética e a didática da metáfora ganham um fundo mais especulativo, mais filosófico na acepção da palavra, porque permite entrever um modo de acesso à ontologia dos objetivos envolvidos.

O lado ontológico de um objeto é como o sumo de uma fruta espremida até o bagaço. É a essência de um ser e, como tal, a sua “verdade”. Se pensarmos em termos gramaticais, todos os dados ontológicos de um objeto são suas predicações. Já na ontologia, o que vemos são características gerais que fazem que o Ser seja o que ele é. Exemplo bobo: um burrinho pode ter o pelo de qualquer cor, até mesmo o imaginário azul do Taubaté, mas um dos fatos que o distingue é a existência de pelos. Se eu disser que é alguém é “um burro de tão peludo”, teremos uma metáfora torta, mas ainda assim válida. E é essa a essência que fornece matéria-prima para a formação das metáforas. Não adianta eu trabalhar com metáforas que não são ontológicas, que não dizem respeito ao ser de um objeto, porque teremos um erro ou uma falsificação.

O efeito mimético diz respeito a isso. Uma mimese é um “roubo” de características de um objeto por outro, que só é possível porque duas concessões são feitas: a ambiguidade dos termos e a transgressão categorial que a mesma possibilita. Em miúdos, isso significa que a existência de termos essenciais que possam ser intercambiados possibilita que uma característica seja tomada pela outra. Nossa, nem eu me entendi. Vamos para o exemplo então.

Se eu digo, camonianamente, que o amor é fogo que arde sem se ver, devo assumir que, entre o amor e o fogo há uma ontologia em comum: uma espécie de sofrimento intenso. Ela é ambígua, porque, enquanto esse sentimento é desejável no amor, no fogo ele é físico, e dor de fato. Com essa equivocidade, temos uma mudança de categoria - no sentido lato, o ardor do fogo é ruim, mas no amor ele “aquece”, consome. Por outro lado, o amor não tem características físicas, então como pode arder? É que ele produz sensações psíquicas confusas - por vezes é uma escravidão que prende ao amado de tal forma que parece sufocar, e, nesse sentido, é indissociável da dor, seu habitual oposto.

Sendo assim, porque existe a ambiguidade, é possível mudar a categoria do termo, transferindo, nesse exemplo, uma característica intrinsecamente sensorial para outra completamente abstrata, independente dos sentidos físicos. E isso nos dá a dimensão de como o plano ontológico é complexo, como não se trata de um mero elenco de características gerais de um objeto qualquer. Se esse intercâmbio não é possível, não estamos descendo a esse nível.

Percebem que a metáfora, dessa forma, se torna mais adequada para expressar do que qualquer descrição científica? Isso ocorre porque transferimos algo do âmbito concreto para uma conceituação que não tem equivalente no sensório, e por isso a metáfora é mais que uma mera figura de linguagem, e vai muito além de uma simples força expressiva.

E é exatamente nisso que o burro é mais legal do que qualquer leão. Ele conta história, ele demonstra força e ele é do Taubaté, sua metáfora perfeita quando vista pelo lado certo. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Tomei muita base no escrito abaixo para basear as ideias que expressei neste texto:

RICOEUR, Paul. A Metáfora Viva. São Paulo: Loyola, 2000

 

E a loja do Burro fica dentro de um shopping, no seguinte endereço:

Loja e museu do burro

Av. Dom Pedro I, 7181

Jardim Baronesa

Taubaté/SP

A aproximadamente 135 Km do centro de São Paulo

 

*Acabei de ganhar mais uma, desta vez como presente de aniversário. É a camisa com a qual o Taubaté disputou a mais recente série A2 do Campeonato Paulista.