(Ser livre pode não ser tão encantador quanto parece)
“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”.
Sartre
Olá!
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Meus poderes proféticos costumam ter o mesmo valor de uma
receita de bêbado. Mas tem vezes que eu acerto algum palpite. Menos na loteria,
onde seria de fato útil, mais na antevisão da vida. Digo isso porque previ,
embora minha casa fosse sempre povoada de gente, que a debandada seria geral em
algum momento, e não deu outra (vejam este
texto). Hoje em dia, eu e a patroa, se quisermos, vivemos em perfeito
isolamento, sem as interações incessantes que havia antigamente. Nada de
chororô, no entanto.
Claro que não falo dos filhos, e acontece que, mesmo no
atual estado, ocorre de vez em quando uma invasão no meu apê. Para estas horas,
é cabível que eu sirva café. Afinal de contas, eu mesmo me autodeclaro um
amante deste consumo, e não faria sentido não oferecer o mesmo para as pessoas
que insistem em me ser caras. Só que, paradoxalmente, os métodos que eu tenho
são todos para extrair três ou quatro xícaras por vez, no máximo. Isso dá um
déficit meio sem graça, porque é preciso dividir o pessoal em turmas.
Para resolver o problema, a solução não é tão complicada: um
método que permita extrações maiores, ora pois. Como estava bem barata, comprei
uma cafeteira de dois compartimentos, que é apelidada de “econômica”.
Seu funcionamento é um misto de cafeteira
italiana link e de cafeteira
de sifão, sendo que seu processo é o de ferver a água no recipiente de
baixo para que ela suba para o recipiente de cima, em um processo de sucção
ocorrido por diferença de pressão, onde estará inserido o pó moído em ponto
médio.
Uma vez tendo subido a água, basta que se desligue o fogo,
para que o processo de filtragem inicie, sendo levado a cabo por uma tela
metálica soldada no meio do trajeto.
Nome do utensílio: Cafeteira econômica
Tipo de técnica: percolação com subida a vácuo
Dificuldade: Baixa
Espessura do pó: Média/grossa
Dinâmica: A água é colocada para ferver no recipiente de baixo, enquanto o pó fica alocado no recipiente de cima, que receberá a água fervente por um processo de sucção. Após a cessação do processo de aquecimento, o café será percolado pela mesma via por onde a água ascendeu, com a filtragem ocorrendo por elemento metálico.
Resíduos: Médios
Temperatura de saída: Alta
Nível de ritual: Médio
Eu fico observando aquele engenho simples e me deslumbro com
a criatividade humana. Não é o método mais complexo que eu já vi, mas uma
solução elementar obtida a partir de pequenas observações dos fenômenos
físicos, que incluem a dinâmica da temperatura, da expansão dos corpos, da
vedação e diferença de pressão e, no final das contas, da própria gravidade. E
isso tudo para cumprir um propósito: obter café. As medidas são precisas. A
base precisa de uma dimensão X para completar Y litros, e a vedação necessita
de uma borracha específica, para suportar determinada temperatura. A gramatura
do elemento filtrante tem que ter espaçamento justo para reter a borra sem
impedir o fluxo, e così via.
Desde o momento em que o fabricante comprou a chapa de
alumínio para forjar o corpo, as gaxetas de vedação, a baquelite do cabo, tudo
já tinha um propósito, um destino, uma finalidade. A cafeteira nasceu para ser
uma cafeteira. Filosoficamente, ela tem uma teleologia: um sentido existencial,
um servir para algo. Evidentemente, se algo nasceu para um propósito, houve
alguém que lhe desse esse sentido.
Mas e o homem? Para que serve um homem? Qual a finalidade de
um homem, se ele não tem um artífice, como tem a cafeteira?
A primeira coisa que precisamos balizar diz respeito ao tal
artífice. Em termos aristotélicos, ele não é a finalidade em si, mas a sua
causa eficiente, a mente pela qual se engendrou um objeto, e a resposta mais
óbvia e consagrada seria Deus. Só que essa é uma afirmação cheia de
dificuldades.
A primeira de todas seria: qual deus? Dentre todos os
panteões possíveis, podemos encontrar aqueles em que a criação é um mero
fenômeno quase fisiológico, como se os deuses fizessem homens sem
justificativas e os deixassem à própria sorte, como pensavam os estoicos.
Nesse caso, não há de se falar em finalidade, já que ela necessita de alguma
forma de intenção. Por outro lado, qualquer explicação para a intenção de um
artífice, como o deus abraâmico, esbarra nos “para quês” subsequentes. Se Deus
criou os homens para louvá-lo, parece a nós uma falta de autossuficiência. Se
os criou para povoar o mundo, a pergunta retrocede - para que o mundo? Idem
quando se diz que o objetivo era uma criatura que lhe administrasse as outras
criaturas - para que as criaturas? E ainda que admitamos a interferência de uma
divindade, de qual delas? Qual dos inúmeros mitos de criação seria o
verdadeiro, se não temos nenhum tipo de condição de os trazermos novamente à
atualidade? Sendo assim, vamos patinar e patinar, sem nenhum tipo de resposta
satisfatória.
Precisamos partir de uma premissa fundamental, portanto:
somos fenômenos naturais, que não tem uma causa eficiente que passe dos nossos
ascendentes e que delineie nosso destino, haja vista que uma finalidade
pressupõe ações em uma direção específica. É possível que pensemos que o
propósito reprodutivo é para os nossos pais, mas não para nós mesmos. Um dia
eles irão, e, seguindo uma lógica natural, antes de nós (os meus já foram), daí
que o propósito precisa estar em nós mesmos. E eis o problema que o existencialismo
se propôs a enfrentar.
Se é verdade que não temos uma causa eficiente, também é
possível inferir que não temos uma finalidade específica, como é o caso da
tesoura usada por Sartre ou da cafeteira usada por mim. Uma cafeteira é uma
cafeteira desde o momento em que esteve na mente do engenheiro que a projetou.
É perfeitamente possível que ela deixe de ser uma cafeteira e vire um vaso,
mas, neste caso, temos o mesmíssimo processo de engenho que cria um uso: há um
propósito em lhe colocar terra e planta e, neste momento, há uma teleologia
diversificada - um trânsito entre propósitos. Idem com uma tesoura usada como
arma branca. Ainda que por insignificantes segundos, alguém vislumbrou um novo
propósito para o utensílio, fazendo-o passar pelo crivo do engenho. Sendo
assim, podemos inferir que tudo isso já tinha uma essência que, a partir do
momento em que ganha concretude, passa a complementá-la, tendo agora uma
existência. É perfeitamente possível que essa essência nunca se concretize e,
nesses termos, a precedência dela sobre a existência ganha lógica.
Com o ser humano, não podemos dizer a mesma coisa. Uma
pessoa nasce sem uma causa específica, e somente pela aquisição de sua
subjetividade vai se tornar aquilo que ele é. Nada há a priori na constituição
de um ser humano. Nele, a lógica se inverte e a existência precede a essência.
Um ser humano se constrói a partir do seu mundo e dos propósitos que visa
seguir. Os antigos metafísicos procuravam um tal de natureza humana, algo que
preexistisse ao homem, exatamente aquilo que a concepção existencialista nega
até a raiz da medula.
Pense no seguinte: por que consideramos qualquer escritor
importante? Porque ele escreveu, vendeu seus livros, auferiu seus ganhos,
obteve consagração. Isso somente é possível quando vinculado ao ato de
escrever, à realidade do escritor, à existência do ato de escrever. Na
essência, o escritor simplesmente não existe. É possível falar de conceitos que
caracterizam um escritor, mas não o há sem a escrita concreta, existente. Essa
lógica se aplica a qualquer atividade humana: professores, operários, jogadores
de futebol, médicos. Eles não são nada disso na essência se não estão na
concretude da existência. Cada um, a partir da própria subjetividade, realiza e
concretiza, o que só é possível estando no mundo. É na vida que se molda o ser.
O sentido mais extenso dessa subjetividade está na projeção
de um ser humano para toda a humanidade. Ao se fazer tal como é, uma pessoa não
constrói apenas mais uma vida dentre outras, mas a sua própria visão de como a
humanidade deve ser. É uma escolha que passa da individualidade, porque
dizemos: isso que eu escolhi ser é aquilo que, dadas as condições em que estou,
é o que há de melhor para a humanidade toda, e, nesse sentido, a formação da
subjetividade é essencialmente ética. Por exemplo, quando eu opto por casar com
uma pessoa do mesmo sexo, eu estou assumindo que essa é uma das possibilidades
para toda a humanidade, e não somente para mim mesmo. É um belíssimo ponto de
contato com o imperativo categórico kantiano. Leiam aqui
para entender melhor.
Percebem o tamanho da responsabilidade que isso traz? Não só
você é o artífice de si mesmo, como também é um legislador universal. E isso
tudo se dá por um único motivo. O ser humano, ao contrário de qualquer ser cuja
essência preceda a sua existência, é capaz de escolhas. Sua essência, ou seja,
seus elementos constitutivos e característicos só vão se dar depois de sua
livre construção. Não há como adquirir sua essência se ele não tem existência.
Não adianta eu achar que meu filho será médico se ele não fizer a sua escolha;
ao menos, de me obedecer.
Daí que temos o tão clássico desamparo dos existencialistas.
Sem uma divindade a que possamos nos agarrar, sem uma moral preestabelecida
para guiar nossos passos, sem uma metafísica que nos desenhe, mas possuidores
da capacidade de escolha, somos plenos de liberdade. Não uma liberdade
absoluta, física, porque isso é impossível, mas uma liberdade de opção, de
formar o próprio futuro. Ora (direis), existe algo mais incerto do que o
futuro? Pois é… é exatamente esse o motivo de tanta geração de angústia. Sartre
diz que até ao procurarmos um aconselhamento sobre o rumo a seguir já constitui
uma escolha: se você colocar sua situação a um padre, por exemplo, já escolheu
o tipo de conselho que quer ouvir. Mais ainda: aceitar ou não o conselho é
opção de quem o ouve. Portanto, cada passo que damos constitui uma escolha
livre, e somos incertos do que teremos pela frente. “Ah, mas posso transgredir
uma lei”, dirás. É uma escolha. “Ah, mas posso cometer um pecado”. É outra
escolha. Vivemos fazendo escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher.
E o que isso tem a ver com a angústia? Só tudo. Desde o
momento em que nos vemos defronte a uma escolha qualquer, somos obrigados a
adotar uma responsabilidade. Obrigados, eu disse, e isso já é doloroso em
muitas das vezes. Não precisa ser em grandes questões: escolher entre a picanha
e a alface pode fazer toda a diferença para o prazer e para a saúde,
respectivamente - a velha questão da vida breve e intensa confrontada com a
vida longa e simplificada. Tudo, absolutamente tudo é fruto de decisões, e a angústia
nada mais é do que um grito contra o desconforto que isso nos gera, porque ele
acontece sempre, sem possibilidade de ser diferente.
É bem verdade que o ambiente onde vivemos interfere em muito
nas nossas decisões, mas elas não deixam de ser decisões por causa disso. Elas
podem nos levar para qualquer lugar e, avistando o paradigma de validade
universal, é uma assunção única de responsabilidade. E isso é a companheira
inseparável da liberdade: somos condenados a ser livres.
Bem pesado e bem medido, parece uma filosofia tão pessimista
quanto a de Schopenhauer. Essa sensação se radicaliza quando Sartre afirma que
“o inferno são os outros”, algo que, na casca, parece uma ode à solidão. A
verdade é que, embora a subjetividade seja a característica humana mais
marcante, é a interação entre a minha e a do outro que limita o exercício
concomitante das liberdades, e é essa a forma com a qual se dá a existência da
vida e das sociedades. É claro que, de uma perspectiva otimista de afirmar a
liberdade como valor mais fundamental, deriva-se para uma liberdade
obrigatória, punitiva, com peso de condenação, o arremate só poderia ser
frustrante: todos têm liberdade e este é meu maior impedimento. Mas essa é a
vida, com um sentido que precisa ser doado por nós mesmos, por mais absurdo que
isso possa parecer.
Um bom café coado no vácuo bolado pelo engenho humano e bons
ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Rápido e bem explicado, sem os rodeios tão típicos dos
franceses do século XX.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo.
São Paulo: Vozes, 2014.



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