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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – Epílogo

Olá!


Em todas as séries de viagens que desenvolvi neste espaço, sempre procurei intitulá-las com metáforas marítimas. Para quem gostou destes trilhos perdidos, convido a lê-las, porque têm basicamente o mesmo formato:


Claro que isso tudo se dá porque o oceano traz uma figuração sobre viagem, mas também nos lembra do mistério do desconhecido, das incertezas da partida, de uma certa melancolia de quem ruma sem saber exatamente por que e para que. Desta vez, no entanto, sem fugir de uma retórica que remeta às jornadas, variei de nomenclatura. Fui buscar uma temática ferroviária, que também tem seu encanto, já que os trilhos e o trem que some no horizonte são ferramentas poéticas que nos lembram de como nossos destinos são inevitáveis. Eu já fui jovem, sonhei como qualquer um e escrevi letras de música, achando que poderia impressionar as pessoas. Como eu digo na música Largo da Misericórdia...

“Ao léu, o trem que nunca vem
Sem ele, nada me arrasta
E, se não me arrasta, não tenho porque crer no destino
Só que eu estou aqui, no largo e ao largo
Esperando o trem chegar
Prá sempre de partida”

... com algo que vai entre o desencanto e o rancor. É claro que eu jogo com contradições, um instrumento lírico para dizer que a vida é um negócio louco e transitório. Não creio no destino, mas estou entregue a ele, coisas assim. Então é legal pensar no trem, que custa a chegar, que nem se sabe se vai chegar, se a estação vai acabar antes que ele chegue, que vem como uma miúda fumaça no horizonte, que passa por cima de qualquer coisa que cair em seus trilhos, que ao descarrilar sempre representa desgraça e que desaparece entre as montanhas, deixando para trás apenas o silêncio.

Apenas o silêncio? Não, deixa também a memória. E isso vai ajudar a explicar a inspiração para o nome da série. Estamos em uma região das Gerais repletas de recordações do universo ferroviário, no mais das vezes constituídas por antigas estações, ou o que restou delas, sem nenhum sinal de seus antigos trilhos. De fato, algumas destas estão bem preservadas e ganharam outra destinação, enquanto outras viraram apenas lembranças, especialmente naqueles que, de uma forma ou de outra, tiveram suas vidas ligadas à atividade. Para estes, os trilhos se perderam. Eu quero achá-los.



Eu mesmo não tenho grandes memórias ligadas às linhas férreas. Na cidade grande, o fundo da paisagem é composto por prédios, e não por trilhos que cortam vales. Pior ainda no metrô, um imenso tatu que cruza o subsolo de um lado para o outro, sem nenhum tipo de romantismo. Tirando a burla dos muros da linha para chegar à casa do falecido tio Chico, todas as minhas ligações com o trem são utilitárias: ir e voltar do serviço. Houve uma época em que eu saía de São Caetano do Sul, onde eu trabalhava, para ir até a Vila Prudente, onde eu estudava. Era possível fazer o percurso de ônibus, mas demorava o triplo do tempo que o trem levava para cumprir as duas estações necessárias. Então eu encarava a máquina de ferro no fundo do vale de sua existência. A década de 80 foi um período em que o trem da Santos-Jundiaí vivia sujo, roto, quebrado, barulhento. O consumo de drogas ainda era muito reprimido, mas os vagões eram uma espécie de zona franca, um território livre para festinhas, e recendiam a bafo de pantera. Eu mesmo costumava acender meu inocente Marlboro, para deixar claro que meu cigarro era de baixos teores. Desse jeito, o máximo que poderia acontecer era ser tocado do vagão. Mas nunca aconteceu.

Ah, sim, lembrei de duas coisas bacanas relacionadas ao trem. Uma delas eu já contei aqui, que era quando meu avô me levava ao campo do Nacional, time cuja origem está intimamente ligada à ferrovia que lhe costeia. Hoje a linha é chamada de Rubi ou Diamante, nunca sei bem. Para nós, era simplesmente a linha da Lapa, e descíamos na estação Água Branca. Dali, eram cinco minutos até a Comendador Souza. A outra é muitíssimo remota e são só nuvenzinhas na minha cabeça. Trata-se da única vez que fui com meus pais para o norte do Paraná de trem. Se eu não me engano, a composição partia da Capital com destino a Ourinhos, na divisa. De lá, era preciso baldear para outro trem, da linha federal. Depois, em Londrina ou Maringá, o restante do trajeto era cumprido de ônibus.

Lembrei de mais uma. Quando eu era criança de uns sete ou oito anos, ganhei de Natal aquele que foi um dos presentes mais caros da minha vida: um Hit Train, antecessor do Ferrorama, caro para os padrões do operariado em geral, mas eu devo ter me comportado bem e meus pais acharam que deveriam gastar um pouco mais naquele ano. Era um brinquedo lindo, composto por um trenzinho que simulava uma máquina elétrica com seus respectivos vagões. O aparelhinho era a pilha, e deslizava por uma série de trilhos plásticos, com alavancas para desvio e reversão do movimento do trem. Eu costumava montá-lo por sobre minhas caixinhas de futebol de botão, para dar a sensação de via elevada. Também fazia as curvas passar pela beirada da mesa, de modo a dar sensação de perigo com o tombamento do trem. Numa dessas, a queda fez com que o compartimento das pilhas saltasse, e eu comecei a compreender que os remendos dos trens originais também eram reprodutíveis no mundo imaginário dos atrevidos petizes. Putz, era um brinquedo muito legal... Deveria tê-lo mantido até hoje.

Contei tudo isso para tentar responder à pergunta que tantos fazem: por que as ferrovias praticamente acabaram no Brasil? E por que elas trazem tantas boas lembranças para quem as vivenciou de perto?



É impressionante, mas é só o Brasil sendo o Brasil. Não tem certos absurdos que parecem acontecer só por aqui? Pois é, este é mais um. Em um país de dimensões continentais, é de se esperar que fossem construídos diversos ramais que, em certo momento, se interligassem. Acontece que as linhas foram construídas autonomamente, sem nenhum tipo de planejamento, e cada uma tinha seus parâmetros próprios de construção. Em alguns casos, as plataformas das estações precisavam ser mais altas, dependendo do modelo de vagões adotados. Isso explica porque há estações com altura tão variável. É óbvio que a região em que estamos tem um certo padrão, porque estamos falando somente da RMV – Rede Mineira de Viação. Mas este não é o grande busílis.



A dor de cabeça maior diz respeito à questão das bitolas. Eu já falei sobre o caso em meu texto sobre Bananal, mas vou retomar rapidamente. Bitola é a largura entre as rodas de um trem, o que determina a distância do paralelismo entre os trilhos de uma linha. Digamos que uma máquina tenha bitola de um metro. Isso significa que os trilhos deverão obrigatoriamente estar separados nesta medida. Não é simples? Ocorre que nossos ímpares administradores costumam se preocupar muito com o universo que orbita seus umbigos e esquecem de por a cabeça para fora da toca, e nunca se planejou uma bitola padrão para as nossas linhas férreas. Já ouviu falar de um cara “bitolado”? Isso indica uma pessoa que pensa sempre da mesma maneira, por mais que se mostre que as coisas são diferentes. Os trens também são bitolados, só andam em trilhos com aquela largurinha específica que cismaram, por um motivo muito prosaico – são engenhos sólidos, construídos para serem como são. Não dá para alargá-los ou encolhê-los ao bel prazer do ínclito governante.



Isso quer dizer que um trem não pode passar de uma linha para outra, ficando escravo dos trilhos adequados ao seu tamanho. Isso fazia a atuação de uma composição ficar restrita ao seu próprio ramal, e, para atingir novos destinos, só com transferências: baldeação para passageiros, transbordo para cargas. Isso aumentava um bocado o tempo das viagens e multiplicava seus custos. Pensem, por exemplo, no pessoal e no espaço necessário para tirar todas as toneladas de grãos de uma composição e colocá-las em outra.




Não foi esse o único fator que levou à substituição no modelo de transporte, no entanto. Uma desgraça nunca vem sozinha e uma coisa puxa a outra. O principal motivo para a construção de ferrovias foi o transporte de produtos agrícolas, notadamente o café, tão dominante na primeira metade do século XX. Só que as coisas vêm e vão, e os cafeicultores experimentaram um grave declínio, refletindo na falta de atualização tecnológica das linhas. Com a chegada de Juscelino Kubitschek ao poder, e com a implantação de uma política desenvolvimentista baseada especialmente na chegada da indústria automobilística ao país, mudou-se a matriz de transportes tupiniquim. Afinal de contas, o princípio geral que norteava o governo era que não bastava crescer, era preciso crescer depressa, os tais “cinquenta anos em cinco”. Substituir ferrovias por estradas de rodagem tinha duas grandes vantagens para esse modelo. Por um lado, era muito mais rápido nivelar e asfaltar um terreno do que enchê-lo de dormentes e trilhos. Por outro, dava-se um incentivo e tanto às recém-chegadas montadoras, que venderam caminhões aos borbotões para substituir os antigos trens. Estava aberto o sepulcro da linha férrea.



Pensou-se a longo prazo? Não, né... Mas na Ilha de Vera Cruz costuma ser assim mesmo. Os trens eram realmente lentos, e uma viagem de longo curso era um suplício. Nesse sentido, os ônibus são ágeis, menos barulhentos e possuem mais flexibilidade, podendo mudar de trajeto ao sabor das circunstâncias. O mesmo se aplica aos caminhões para o transporte de cargas. E para se ter uma malha decente precisaríamos substituir quase tudo, padronizando bitolas, reerguendo estações obsoletas, modernizando o maquinário, atualizando os funcionários... As vantagens não apareceriam da noite para o dia, mas, na ponta do lápis, elas seriam grandes. Um trem carrega muito mais do que os maiores caminhões, com risco ínfimo de acidentes e perda de cargas, além do menor potencial poluente. Além disso, bons equipamentos garantem velocidade muito superior à das poéticas, porém ineficientes marias-fumaça. Peço desculpas aos amantes do velho vapor, mas o seu lugar é o museu. E as velhas estações merecem uma nova destinação, mesmo que não esteja relacionada ao seu antigo uso.



Na verdade, o que é mais digno de notar é como esse tipo de reminiscência nos toca a memória afetiva. Embora não tenhamos o costume da resistência, o fato é que há coisas que nos cutucam o fundo da alma, e deixamos elas ir embora. Resta apenas o que lembramos, e por isso estes artefatos são tão importantes. Só que a tal memória afetiva é marota. Vamos ver isso rapidinho.

Endel Tulving é um psicólogo canadense de origem estoniana que se especializou no estudo da memória. Antes da publicação de sua original abordagem, já se dizia de uma tipificação da memória, sendo uma de curto prazo e outra de longo. Na primeira, estariam os dados que usamos no nosso dia-a-dia e que logo são descartados, assim que perdem sua utilidade. Por exemplo, quando pegamos um jornal, damos uma passada rápida pelas manchetes. Aquelas notícias que não nos chamam a atenção são brevemente esquecidas, e damos atenção àquelas mais importantes. Isso acontece porque não há nenhum proveito em reter as informações descartáveis, mas elas passam pela nossa memória, até mesmo porque são a porta de entrada para a memória de longo prazo, aquela que fica retida em nosso cérebro, e que são recordadas na medida em que se fazem necessárias, e estão intimamente ligadas à aprendizagem.

Para Tulving, essa divisão era insuficiente para explicar adequadamente o fenômeno mnemônico. No longo prazo, parecemos ter uma memória intimamente ligada ao conhecimento, e outra aos acontecimentos. Senão vejamos.



Eu posso pedir para vocês enumerarem quantas classes gramaticais conhecem. A lista começará – substantivo, pronome, verbo, artigo, etc. Pode ser que alguém lembre de todas, pode ser que se lembre de uma ou duas. Pode acontecer ainda que não se lembre de nenhuma, mas, a partir de uma dica, todas as classes venham enfileiradas. É um tipo de memória que é dividido internamente em categorias: diga uma cor, diga uma fruta, diga um nome. Essas memórias, portanto, tem uma carga de significados que permite traduzir conhecimento. Por este motivo, é chamada de memória semântica.

Mas, e se agora eu perguntar QUANDO ou ONDE vocês aprenderam o que são as classes gramaticais? Pode ter sido na escola, em casa, na biblioteca. Pode ter sido com professores, com os pais ou com os livros. O fato é que dificilmente alguém se recordará disso. Com perdão aos professores (ou a quem tiver ensinado), os itens da memória semântica não fazem distinção habitual do meio com o qual são absorvidos. Aprender uma classe gramatical não é um acontecimento, apenas um ato cognitivo.

Mas não lembramos de um monte de fatos que acontecem em nossas vidas? Sim, claro. E isso é função de outro tipo de memória, muito mais pessoal que a semântica. É a parte emotiva de nossas lembranças, onde o contexto geral dos acontecimentos é imprescindível para a sua compreensão. É o que se chama de memória episódica, ligada aos eventos de nossas vidas. E como é feito o resgate dessas informações pela memória?

Parece que possuímos uma espécie de indexador que ajuda a consciência a recuperar a informação armazenada na memória de longo prazo. Mas enquanto o indexador da memória semântica é a categoria temática onde encaixamos o conhecimento, e que funciona por semelhança, na memória episódica o índice é composto pelo tempo. Quando recordamos de um evento qualquer, todo um conjunto de circunstâncias é carregado junto, para que se possa remontar o contexto com o qual ocorreram. Dessa forma, é possível que se desça a um nível de detalhe muito maior na memória episódica do que na semântica. Pense no primeiro beijo: talvez você lembre até a roupa que vestia, o que certamente não ocorrerá se você tentar resgatar o que lhe rodeava quando você aprendeu o que é advérbio. Então o índice “primeiro beijo” vai te levar de volta no tempo, fazendo com que você reviva mentalmente o evento.



É exatamente o que acontece com a memória afetiva do pessoal que viveu sob a sombra das estações ferroviárias e das fumaças das locomotivas, que, nos casos das cidades pequenas, acabam por se tornar mais relevantes. Esses objetos são índices que lhe trazem um conjunto completo de recordações, como a partida de um filho para a cidade grande, um pedido de casamento feito em um de seus vagões, o apito que parecia mais triste no dia em que a avó morreu, ou o simples ruído da descarga do primeiro trem que partia no dia, um pouco mais tarde do galo cantar e que acompanhava o cheirinho de café coado na hora. Dessa forma, a memória afetiva, aquela que nos toca, é consequência da memória episódica.



E por que a memória afetiva é matreira? É que, embora a memória episódica traga uma informação de contexto muito mais detalhada que a semântica, nem todos os seus componentes são resgatados em um mesmo nível. Em outras palavras, as informações não são todas disponibilizadas para a consciência com a mesma vivacidade. Isso significa que a memória afetiva tende a ser distorcida, com ênfase em seus componentes centrais e desvanecimento dos elementos periféricos. Exemplificando, posso pensar que o cheiro do café da minha infância era o melhor do mundo, porque estava acompanhado de um monte de outras coisas que me felicitavam, de eventos positivos. Se eu tomar o café hoje em dia, poderei ter duas reações: decepção em perceber o quanto ele é igual aos outros, ou entrar em um processo de negação, exatamente aquele que diz como as coisas eram boas “naqueles tempos”, e que hoje não valem nada.

Não é verdade. Lembramos com carinho do tempo das marias-fumaça, mas não há sentido em achar que elas eram melhores que os atuais metrôs, mais rápidos, mais seguros, menos poluentes. E mesmo que a usássemos hoje, sentiríamos desconforto em lembrar o quanto eram barulhentas, pesadonas, incômodas. Não que isso seja um mal, mas tudo tem seu tempo certo, e o lugar das memórias e lá mesmo: nas memórias. Por isso, é preciso tomar um pouco de cuidado para não deixar que um saudosismo nos absorva, especialmente quando a nossa vida se encaminha mais para a memória do que para a vivência. Eu, por minha parte, sei de um monte de coisas que não são exatamente como as recordo, e procuro meter o pé na pedra e na lama, vivendo o hoje da melhor maneira possível, porque lembro de tanta coisa que eu sei que não vai voltar, e que, se voltasse, não seria como antes. Bons ventos a todos e até a próxima romaria!!!



Recomendação diversas:

Só em inglês ou nos compêndios de Psicologia. Este aqui está disponível no Google Books:

TULVING, Endel. Elements of Episodic Memory. Gloucestershire: Clarendon, 1983.

Uma belíssima pedida é o site mantido pelo Ralph Mennucci Giesbrecht, que vem pesquisando a tempos sobre as linhas férreas deste Brasilzão de meu Deus, incluindo muita coisa que já desapareceu quase que por completo dos anais de nossa história. Ele tem livros disponíveis para vender, que, assim que o parco orçamento permitir, pretendo comprar. Segue o endereço:


E, claro, todas as cidades deste périplo, todas a distância razoavelmente pouca da Terra da Garoa. Recomendo fortemente para todos aqueles que gostam de um cheiro do mato sem se descolar da história. A quilometragem corresponde ao melhor trajeto de carro possível, na minha humílima opinião.

Maria da Fé – 288 Km
Cristina – 299 Km
Marmelópolis – 255 Km
Delfim Moreira – 234 Km
Piranguinho – 257 Km
Brazópolis – 242 Km
Wenceslau Braz – 249 Km
Itajubá – 262 Km

domingo, 25 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 6ª estação: Brazópolis observando o universo e as armadilhas da realidade e do senso comum

Olá!


O dia em que fui para Piranguinho estava muito, mas muito quente, em completa oposição aos demais dias desta até então úmida aventura. É aquela famosa anedota dos extremos: tá reclamando? Vai prá Cuba! Mas eu acho que Cuba é ainda mais quente do que o Sul de Minas, então me dou por satisfeito. Meu carro não tem um ar condicionado dos mais ferozes, embora beba um combustível lascado. Mas, ainda assim, é um ar condicionado, que vence em frialdade o scirocco tupiniquim que vem das meras janelas abertas. Portanto, vamos fechá-las para amplificar o aroma das paçocas e pés-de-moleque e pegar estrada novamente. Para quem está com fome (estamos próximos do meio-dia), é meio torturante, ainda mais sabendo que a quantidade de açúcar que transporto nesses acepipes é suficiente para levar ao coma qualquer diabético de minha nacionalidade, eu incluso. É o meio caminho entre a ironia e a contradição.

O rumo já é conhecido de vocês, caso tenham lido meu texto anterior. Como eu já expliquei em outros textos, mais notadamente naquele que relato minha viagem a Monte Alegre do Sul, eu gosto de bebericar uma branquinha, bem de leve. Nem em sonho eu bebo antes de dirigir, e, para isso, tenho na patroa uma sommelier competente, para depois curtir de boa na lagoa. Estou na rota de Brazópolis, terra de morros e vales que parecem infinitos, terra natal do meu colega João Francisco, que sempre traz um queijinho para nosso deleite. O conceito de “plano” parece inexistir por aqui.


Substituindo o nome anterior do lugarejo, que era São Caetano da Vargem Grande, o topônimo é homenagem ao Coronel Francisco Braz, o mesmo que nomeia a praça da matriz de Piranguinho, pai do presidente Wenceslau, um dos políticos que fez parte da dobradinha café-com-leite, a alternância combinada no poder entre paulistas e mineiros. Bom, acho que estou me repetindo, mas preciso deixar este texto minimamente autônomo. O busto que lhe faz memória está situado na praça da igreja matriz.


Esta última, cujo padroeiro é São Caetano di Thiene, originalmente era uma capela de fazenda, que abarcava a região em que hoje está instalada a praça. Infelizmente, estávamos em pleno dia de Nossa Senhora Aparecida, motivadora do feriado, e as atenções estavam voltadas para outro ponto da cidade, que veremos mais tarde. Por aqui, a matriz encontrava-se fechada, mas a bela feitura de seu exterior faz imaginar que sua parte interna também seja agradável de se ver.


Pude perceber que a cidade tem muitas construções antigas, algumas delas datadas do século XIX. Em um exemplo, há o prédio do Grêmio Operário 1º de Novembro, que congrega algumas atividades sociais, como time de futebol e concursos de misses. Pelo que conseguir levantar a custo, pelo menos até 2013 ainda estava ativo.


Ainda na categoria “edifícios”, o prédio mais curioso de todos é, sem dúvidas, o castelinho em cujo frontispício estão os dizeres Vila Dona Benedita de Faria Pioli. Diz-se que o proprietário desejava morar em um castelo, e resolveu homenagear a senhora sua mãe. Hoje em dia, após muitas considerações sobre espectros e assombrações, o espaço é aproveitado como arquivo municipal.


Em outro ponto da cidade, já quase no caminho do distrito de Luminosa, há os restos mortais do que um dia foram os depósitos da ferrovia da cidade.


Bom... A partir deste ponto, pegamos a estradinha de terra que leva ao nosso objetivo primaz neste périplo a Brazópolis: caçar a boa bebida que provamos em Delfim Moreira. Luminosa é um patrimônio de dois ou três quarteirões, perdido no meio de morros e plantações.


O lugarejo é muito próximo à divisa com o estado de São Paulo. Do lado de lá das montanhas abaixo, está situada a cidade paulista de São Bento do Sapucaí, produtora de mosaicos e azeite à qual já visitei e mencionei em meu blog.


A construção mais notável é a igreja de Nossa Senhora das Candeias, que é o centro espiritual da rota chamada Caminho da Fé, que se inicia em Águas da Prata e desemboca no santuário nacional de Aparecida. Trata-se de uma gigantesca trilha que corta montes e vales para ser feita a pé ou, no máximo, de bicicleta, serpenteando 322 Km em seu eixo principal por altitudes que chegam a mais de 1800 metros.


Na entrada do pequeno núcleo urbano fica o sítio que abriga o alambique Luminosa, onde também é servida comida de fogão a lenha e outras bebidas. Seu acervo de cachaças é vasto, com misturas de todo tipo.


A produção é feita de forma quase que totalmente artesanal, com os destiladores, fornos e tanques expostos para visitação, além de toda a infinidade de garrafas colocadas no próprio armazém, com amostras de degustação de todos os produtos, feita orgulhosamente pelo seu dono, o Guido. Haja fígado.


A grande atração, além das puras, é a cachaça de banana, mas há muita variedade disponível, com algumas um tanto exóticas. Na rosa-sol, por exemplo, vai cravo, canela e mais alguma coisa que eu esqueci. Boa.


De volta para o centro do município, fomos dar um rolê pela região do santuário de Nossa Senhora Aparecida, com o objetivo de descolar uns acepipes nas barracas típicas. É um ponto muito alto e bonito de Brazópolis, onde não pontua apenas o templo, mas os belos e grandes prédios da Escola Técnica.


A igreja, como sói acontecer nessas datas comemorativas, estava plena e absoluta, enfeitada de ponta a ponta e preparada para receber fieis e nem tanto, alguns interessados em render culto, santificar ex-votos, outros para pedir e agradecer, e outros ainda para satisfazer a curiosidade e comer alguma boa pamonha.


A réplica da imagem da santa, que, à moda do santuário nacional, possui uma passagem por detrás do altar, também estava preparada para receber seus visitantes. No momento em que passei por esse lugar, imperava uma certa modorra, dado o imenso calor e o período pós-prandial (hora da siesta, em espanhol rudimentar, com acento aberto no “e”), mas o segundo turno de visitações estava previsto para a fresca do fim de tarde/começo da noite.


A marca principal de Brazópolis, no entanto, está no campo das Ciências, em especial da Astronomia. Aqui fica sediado o Observatório do Pico dos Dias, onde estão instalados os maiores telescópios do território tupiniquim. O precitado pico fica localizado a quase 1900 metros de altitude, e é gerido pelo LNA – Laboratório Nacional de Astrofísica. Para chegar lá, percorre-se uma estrada de terra com 12 km de extensão, que inicia no portal abaixo, no bairro de Bonsucesso.


O caminho para o observatório, por si só, já vale a caminhada. Lá está, por exemplo, a Falésia dos Olhos, um paredão que é ponto de escalada. Para os menos ousados, dá para chegar ao sopé da pedra através de trilhas pela área rural à sua frente ou pela vertente superior.


O lugar também é chamado de Pedra da Cruz por conta do cruzeiro que guarnece o paredão.


Minha intenção era brasileiríssima. Eu sabia que a subida ao Pico dos Dias somente pode ser feita em dias de tempo firme e com agendamento prévio, mas a expectativa de tirar umas boas fotos era tentadora. Achava que, se utilizasse as palavras corretas e me propusesse a vencer os últimos cinco quilômetros a pé, talvez me deixassem chegar até o ponto mais alto, mesmo que nem me aproximasse dos prédios de pesquisa. O problema é que não havia viv’alma para que eu gastasse meu português, e tentar entrar pelo meio do mato era, no meu entender, transgressão demais. Paciência, fica para a próxima.


Só a vista daquela altitude toda, no final das contas, já valeu o ingresso. Daqui, é possível ter uma ideia da extensão do vale que fica aos pés do observatório, e da grande quantidade de bananeiras que o pessoal planta no local.


O que é possível fazer é mirar os laboratórios à distância, com os típicos formatos arredondados de suas cúpulas. Todo mês de setembro, aproveitando o estio, o LNA promove um festival durante uma semana para visitação monitorada, além de alguns dias em que a presença noturna de visitantes é admitida, mediante inscrição e sorteio. Já está na minha agenda.


Quando nos deparamos com tamanha parafernália, é quase inevitável que pensemos naqueles estereótipos dos malucos de jaleco, que parecem viver absortos em seus pensamentos e que não tem outra diversão a não ser procurar minúsculas agulhas nos palheiros celestes. Esse tipo de desconhecimento ajuda a sedimentar a dificuldade que as pessoas têm em compreender o que efetivamente é a Ciência. Já tratei muito do tema por aqui, inclusive combatendo uma certa prepotência que os cientistas têm em se considerar mais possuidores de conhecimento do que outros meios de saber, mas o fato é que, por muitas vezes, essa antipatia nasce justamente a partir do senso comum ou de uma certa “impiedade”. A Ciência lida com problemas muito sérios, coisas que versam sobre vida e morte, e decretar que fosfoetanolamina e pinga-com-banana tem o mesmo efeito sobre as células cancerosas faz com que tentemos, muitas vezes, nos enganar para manter esperanças.

É pena não ter podido subir aos telescópios. Eu já estava escrevendo este texto na cabeça exatamente no momento em que apertava em vão o botão do interfone. Eu sou da área de Filosofia, mas sempre temos em nós um misto de curiosidade e sede de conhecimento que forma uma espécie de espírito científico, que, aliás, é a mola propulsora de metodologias, inclusive. Ainda que pareçam coisas herméticas, restritas a ambientes como este.

O fato é que os métodos científicos sempre foram objetos de difícil consenso. Vou apresentar hoje as teorias do filósofo e literato francês Gaston Bachelard, que discutiu justamente o problema do senso comum diante do conhecimento científico. Mas é preciso puxar o fio da meada. Acompanhem, porque é interessante.

Até o fim da Idade Média, o saber científico estava situado em um patamar inferior aos ditames metafísicos da Religião. Afinal de contas, muita coisa de difícil explicação caía na caixinha fácil dos misteriosos desígnios divinos. A partir de René Descartes e Francis Bacon, no entanto, novas correntes de pensamento mudaram o estatuto da visão que temos sobre a realidade. O primeiro lança a ideia da dúvida metódica, em que nada pode ser assumido como verdadeiro se não passar pelo crivo da evidência, em um processo dirigido pelo próprio raciocínio humano. Já o segundo forma as bases do experimentalismo, de modo a se estabelecer a necessidade de um método que abarque e cerque todas as possibilidades necessárias de serem testadas em um determinado fenômeno. Descartes cria o que chamamos de racionalismo, e Bacon, por sua vez, o empirismo. A partir daí, surge uma longa discussão sobre o primado epistemológico de ambos. Será a razão a principal fonte de conhecimento, ou essa tarefa deve ser atribuída à experiência?

Quem resolve o enigma é Immanuel Kant. Tanto intelecto quanto observação tem seu valor no processo gnosiológico. Do primeiro, temos as estruturas mentais que permitem a absorção do conhecimento; do segundo, obtemos os objetos que formam seu conteúdo. É impossível um viver sem o outro. Desta forma, as filosofias seguintes já tinham uma base bem fixada para desenvolver outros temas. Uma delas, dado o desenvolvimento humano que levou as técnicas e as ciências ao ápice, dava ênfase total ao processo científico como conhecimento válido, de modo que áreas nunca dantes abarcadas pela teia científica passassem a ser incluídas no seu bojo, como o estudo das sociedades e da moral. Era o Positivismo, predominante no século XIX, que, se por um lado tinha a vantagem de seu otimismo com relação aos avanços, por outro reforçou a ênfase no método empírico, o que diminuiu o valor da razão para as Ciências.

O processo empírico das observações tinha como pano de fundo a indução. Tantas vezes um fenômeno ocorre da mesma forma, que supomos que sempre ele se repetirá. Como corolário, a Filosofia da Ciência que brotou do Positivismo adota um princípio de verificação que exclui qualquer valor de verdade de saberes não palpáveis. A coisa funcionava mais ou menos bem até surgirem teorias científicas de altíssima complexidade e abstração. É aí que entra Bachelard.

Nosso caro francês pensava que, estando as coisas dessa maneira, a Teoria da Relatividade de Einstein ou a Física Quântica de Max Planck seriam uma mera filosofia da physis, algo muito semelhante como as elucubrações sobre a arché dos velhos pré-socráticos. Estes cientistas foram criadores de modelos que fugiam da experimentação direta, com altíssimo índice de abstração, e que quebravam fortemente paradigmas anteriormente bastante sólidos. Para se ter um exemplo, as teses einsteinianas modificavam substancialmente as consagradas leis de gravidade de Newton, sem, no entanto, invalidá-las quando pensamos em termos empíricos. De fato, as leis de Newton conseguem corroboração experimental de maneira muito mais simples e intuitiva, mas não conseguem atingir grandes limites, como acontece quando a velocidade da luz é implicada em um cálculo. A física de Einstein resolve estes problemas de forma teórica, sem existirem recursos para desenvolver experimentos com as tecnologias disponíveis. Podemos perceber hoje em dia que suas descobertas vêm sendo progressivamente comprovadas, como é o caso recente das ondas gravitacionais, mas, de fato, para um modelo científico que exija a verificação, não há como considerá-las como tal.

Bachelard combate a vertente positivista e estabelece que a Filosofia da Ciência precisa atuar com um condão histórico, de modo a se atualizar da mesma forma que as próprias Ciências. São inúmeras as vezes que novas descobertas rompem com todo o conhecimento estabelecido até o momento em que ocorrem. Em seu pensamento, a verdade nada mais é do que a retificação de um erro anterior, que, por sua vez, também se tornará um erro que deverá ser corrigido por uma nova verdade, e assim sucessivamente, ad aeternum. A verdade é histórica, assim como a Ciência deve ser e a Filosofia da Ciência também. Isso inclui sua metodologia.

Antecipando-se a Thomas Kuhn, que vislumbrou uma metodologia da crise nas Ciências, Bachelard entende que a Epistemologia deve caminhar dentre rupturas. Sua resistência maior, chamada por ele de obstáculos epistemológicos, vem de uma espécie de continuidade entre o conhecimento científico e o senso comum: queremos que a Ciência nos forneça explicações de maneira tão palpável quanto nossa avó explica a receita de bolinho de chuva (está chovendo hoje). Quais são, portanto, esses obstáculos epistemológicos ao espírito científico?

O primeiro é a própria realidade. Como captamos intuitivamente o universo ao nosso redor, temos tremenda dificuldade em compreender uma explicação que fuja ao alcance dos nossos sentidos. Pensemos nas teorias sobre os átomos, por exemplo. Enquanto acompanhamos a realidade, a explicação de que qualquer material é divisível até o ponto em que isso não seja mais possível é bastante intuitiva. Afinal de contas, o processo de divisão pode chegar a um ponto em que não seja mais perceptível, mas basta dar continuidade na mesma lógica para que tal processo avance mentalmente: um átomo é uma minipartícula absolutamente sólida. Essa é a sensação que nos dá a realidade. Mas a ideia de que o átomo não é sólido, mas formado de subpartículas, algumas concentradas em um núcleo, outras circulando ao seu redor, com a imensa maioria de seu espaço ocupado por vácuo, que possuem diferentes órbitas e níveis, e que mesmo o que poderia ser considerado matéria em seu interior é, hipoteticamente, uma forma de energia, foge completamente à realidade circunstante.

O segundo é o senso comum, traduzido pela noção de que este é uma forma de conhecimento em continuidade com a Ciência, tendo apenas uma diferença de profundidade. Bachelard insiste que não há nenhum tipo de encadeamento entre senso comum e conhecimento científico. O senso comum existe para que vivamos nossa vida, encaremos nossa realidade; a Ciência guiada por ele é imbuída de um monte de penduricalhos que somente lhe atrapalham. Obviamente, esta ideia está relacionada à primeira, de que a realidade nos é dada para ser interpretada. Mas nossas opiniões e preconceitos se imiscuem silenciosamente por todos os aspectos de nossas vidas, de modo até mesmo a turvar nossas pesquisas mais rígidas metodologicamente. O mero empirismo, apesar de jamais poder ser descartado como ferramenta de pesquisa, induz-nos a nos convencer bovinamente e consolidar nosso senso comum, constituindo-se em bela armadilha epistemológica.

A regra de ouro bachelardiana é que o racional deve ter primazia sobre o real. Isso significa que Bachelard é um novo racionalista? Não. Seu objetivo é fixar que o cientista não é um mero receptáculo para dados empíricos, mas um sujeito na relação do conhecimento. A Ciência nunca é definitiva, necessita de constantes correções e é preciso ter consciência de que qualquer nova hipótese é uma tentativa de aproximação, mas que depende da abstração do pesquisador, para que não se crave no imobilismo.

É tentando dar alimento a esse espírito científico que eu subi as montanhas de Brazópolis e lá observei observatórios, não tão perto quanto gostaria, mas não tão longe que se fizesse cessar minha inspiração. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Bachelard não é exatamente um filósofo fácil, mas sua verve contestadora encanta. Vou recomendar seu livro que trata mais diretamente da questão aqui abordada.

BACHELARD, Gaston. O Novo Espírito Científico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000.