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sexta-feira, 12 de junho de 2020
Sobre o efeito placebo e o desafio de compreendê-lo
sexta-feira, 29 de maio de 2020
Tentativa simples de explicar a metodologia científica com o uso do futebol
Olá!
#FiqueEmCasa
Tenho dito muitas vezes que o grande problema da Ciência
consiste em não se expressar bem como ela funciona para as pessoas que cruzamos
na rua. Como as coisas na academia são muito reclusas, a maioria da população
pouca compreensão tem daquele mundo em que se imagina ser habitado por seres de
outro planeta, ensimesmados em seus jalecos brancos. Por isso, contra essa
seita de iniciados, a galera se volta com argumentos falhos, mas que parecem
fazer sentido, já que falta justamente esse entendimento que a lógica fácil das
teorias conspiratórias tem. E, com isso, dá-lhe vinagre na garganta para matar
o coronavírus, com um salzinho para arrematar, porque a dedução é simples: o
bicho fica morgando na garganta, e não resistiria a tanta acidez... Para
explicar que isso é rematada bobagem, um infectologista precisaria de dez
laudas para demonstrar tanto as inércias das substâncias quanto os malefícios
às mucosas do trato gástrico, além de expor que a história de que o vírus fica
parado na garganta saiu do rabo da mente sabe-se de que filósofo de
porta de boteco. Mas é preciso sempre tentar, porque ainda não há atividade
humana que tenha mais aval de busca da verdade do que a Ciência, com métodos
bem delineados para que suas pesquisas fujam dos achismos alla terra plana. Entretanto, como a metodologia científica não é a
coisa mais simples de se entender, eu compreendi que é preciso usar elementos
que estejam à mão para que meus poucos leitores absorvam como ela funciona. Por
esse motivo, vou caminhar por uma vereda um pouco mais próxima de nosso
quotidiano. Vamos ver se dá certo.
O futebol não é só uma questão de lazer, mas um campo de
prova onde podemos filosofar a beça, e, inclusive, usar como suporte para
entendermos coisas muito mais sérias. Afinal, como diria o controverso
radialista Milton Neves, o futebol é a coisa mais importante dentre todas as menos
importantes, algo assim. A partir dele, podemos construir uma montanha de
metáforas e elaborar exemplos, como aquele que passo a narrar.
Em um desses clubes da vida, em tempos menos insanos que os atuais, um técnico de futebol começa a planejar seu time para o campeonato que está a beira de começar. Repassando os acertos e desventuras das jornadas pretéritas, recorda-se de um fenômeno que o incomodou deveras, e que pretende revisar a partir de agora: ele percebeu um número muito grande de quedas e escorregões de seus atletas, o que, a princípio, parecia ser um problema do material esportivo utilizado. Eram chuteiras decentes, os jogadores tinham bom preparo físico e o evento se repetia seja qual fosse o tipo de terreno, o que reduzia o espectro de hipóteses. Notou não somente seus atletas estatelados, mas também observou certas condições, como o estado geral dos calçados ao término das partidas e como os campos de treinos eram afetados. Percebeu que, ao término das atividades, a área estava menos prejudicada do que seria esperado. Quem é do ramo sabe o quanto fica diferente um gramado antes e após seu uso. Por isso ele agarrou-se à questão das travas. Para quem não sabe, futebol de campo é praticado sobre a grama, e calçados que não sejam cravejados fazem parecer que você está correndo sobre o sabão. As travas se destinam exatamente a evitar os escorregões, mantendo o intrépido ludopedista de pé. Elas são intercambiáveis, podendo ser rosqueadas ao solado da chuteira ao bel-prazer do usuário. Vejam um modelo mais tradicional:
(Extraído de https:// www.prodirectsoccer.com)
O nosso herói pensou em duas alternativas: utilizar travas
mais duras ou mais altas. Conhecedor empírico da alma humana, sabia que
simplesmente noticiar a troca aos jogadores poderia causar melindres e reações
indesejáveis, agora que os atletas mais se assemelham a estrelas de Hollywood.
Ainda indeciso quanto ao melhor modelo, resolveu a coisa da seguinte maneira:
dividiu o time de acordo com seu posicionamento tático, formando três setores:
o direito, o esquerdo e o central, mais ou menos da seguinte forma:
Desta maneira, a ala direita seria formada pelo lateral-direito, pelo zagueiro-central*, pelo meia-direita e pelo ponta-direita. O lado esquerdo teria o lateral-esquerdo, o quarto-zagueiro, o meia-esquerda e o ponta-esquerda, enquanto a faixa central seria ocupada pelo goleiro, pelo médio-volante e pelo centroavante, respeitando seu desenho tático favorito. Para colocar seu projeto em prática, convocou o roupeiro e instruiu-lhe para que preparasse as chuteiras com travas altas para um setor, travas duras para outro e mantivesse as travas antigas para o terceiro. Além disso, mandou que ele, e apenas ele, registrasse qual setor estava usando o modelo determinado, sem que mais ninguém, nem mesmo o próprio treinador (ele também tinha um bom autoconhecimento), conhecesse a escolha. E, por fim, que a mesma escolha fosse utilizada por todo o campeonato. Após isso, o técnico determinou a um dos preparadores físicos que cuidasse de anotar os números de quedas e de escorregões de cada um dos jogadores, indexados pela sua posição em campo, jogo após jogo. E estes foram muitos. Sendo um campeonato com vinte equipes, em jogos de ida e volta, o torneio teve um total de 38 partidas, em todo tipo de terreno e condições: chuva leve, chuva pesada, sereno noturno, grama rala, grama espessa, grama natural, sintética e mista, chão duro, arenoso, revolvido, esburacado e até mesmo nas famosas mesas de bilhar que viraram nossas recentes arenas. Ao término do campeonato, juntaram-se as anotações do preparador com o gabarito do roupeiro e os números puderam ser analisados, o que fez com que o laborioso treinador pudesse chegar às suas conclusões, e elas não nos importam nem um pouco neste momento, até mesmo porque estamos diante do estudo de um caso fictício. O que nos interessa aqui é que nosso amigo delineou e seguiu um método, que, uma vez seguido à risca, trouxe a ele informações preciosas para melhor gerir seu time, e, mais do que isso, assemelhou-se muito à metodologia científica.
Isso tudo porque a Ciência funciona exatamente dessa forma,
com um ato de liberdade do pensamento diante do mundo que se apresenta à nossa
frente que, contraditoriamente, se encerra como "criatividade" aí
mesmo, porque, passada a fase da ideia, daí por diante é só regras.
Só que esse ato de liberdade possui um roteiro. O começo é a
observação de algum fenômeno que se
passa no cosmos: uma estrela desconhecida, uma nova doença ou jogadores que se
espatifam no chão. Diante do espanto, surge a problematização, que costuma ser uma pergunta: o que é aquela
estrela, como se desenvolveu essa doença ou por que os atletas caem? Por fim,
teremos as propostas de solução, ou seja, o levantamento de hipóteses. Estas devem permitir que se estabeleçam
regras gerais verificáveis, ou seja, deverá ser possível que se façam previsões a partir das premissas
utilizadas para a confecção das hipóteses. E, como eu disse antes, acabou o
espaço da liberdade. Isso porque daí por diante principia o processo mais
difícil do método: a coleção de experimentos e de observações.
Vamos andando devagar. Como tudo isso acima pode ser
aplicado ao exemplo que montamos? O treinador tem diante de si o pedaço de
mundo que lhe toca, e nele está se desenrolando um fato que lhe perturba, e
essa é a observação. Poderia passar batido, mas o fato é que o fenômeno lhe
traz algum tipo de incômodo que precisa ser resolvido, e temos a
problematização. Notem como fatos não problematizados não tem significado algum
no que tange à cientificidade, porque estão fora do nascedouro das resoluções
práticas. Estas últimas são o que fazemos quando imaginamos de forma
sistemática os caminhos para desfazer o problema. No caso do treinador, ele
supõe que a melhoria está na mudança das travas, mas não se trata de puro
achismo. Aqui, está sendo aplicado tudo aquilo que discuti no texto
anterior, em que falamos sobre inferências. Na observação dos escorregões,
o técnico percebe uma repetição dos fenômenos, de forma a lhe induzir uma
relação de causa e efeito. Para formar os motivadores do fenômeno, além da
constância nas repetições, usa de observações indiretas abdutivas, como o estado
do campo de treino, que não é uma observação direta. Finalmente, para formular
as hipóteses, é construído um argumento dedutivo, semelhante ao que segue: “as
quedas e escorregões são causados pela inadequação das travas das chuteiras. Se
utilizarmos travas mais duras ou mais altas, o problema será resolvido pelo
aumento da aderência ao gramado”. Para o exame da verdade das premissas, mais
uma vez o técnico usará o método indutivo para aferir a validade de sua
hipótese, repetindo a experiência tantas vezes quanto possível. Dedução,
indução e abdução... As inferências a serviço da produção científica. Não é
interessante? Mas vejam mais: a própria formulação da hipótese já contém uma
previsão, o que é essencial no método científico, porque é dessa
previsibilidade que redundarão os experimentos, a próxima fase da metodologia.
Esse método é chamado de hipotético-dedutivo, o mais comum
dos caminhos científicos. Como pode ser visto, apesar do nome, não se baseia em
deduções, a não ser na formulação da hipótese, que é um dos passos iniciais da
pesquisa. A próxima etapa em geral é a mais longa de todas: o teste das
hipóteses, que é realizado através de experimentação. Deve ser descrita
minuciosamente, porque outra característica básica da pesquisa científica é a
sua reprodutibilidade, ou seja, um outro cientista que queira conferir a
experiência deverá ter todos os elementos que foram levados em consideração,
para que possa corroborar ou refutar a hipótese.
A fase de experimentação é, de longe, a mais detalhada e
mais complexa. Uma série de declarações e descrição dos métodos adotados faz
com que esta fase seja imensamente burocrática, ao menos na aparência. Isso
visa assegurar publicidade e compreensão do que se está fazendo. Muitos
componentes fazem parte dessa discriminação, e esmiúçam cada uma das
características de uma pesquisa. Vamos entender somente alguns, para não ficar
longo demais.
Em nossa pequena aventura, a população total de jogadores
foi dividida em três grupos, sendo que dois desses participarão da experiência
em si, com a inclusão da variável trava de chuteiras, e um servirá para comparar
o desempenho dos demais sem a alteração da única variável testada, utilizando
as travas originais. Os grupos ativos no experimento são chamados de grupos experimentais e o grupo
utilizado para comparação é chamado de grupo
controle.
Esse trabalho todo não é um mero capricho. O treinador
utiliza um método muito comum na medicina e na psicologia, conhecido como cegamento. Neste caso, algumas ou todas
as partes envolvidas na pesquisa desconhecem em que grupo se encontram. Como a
psique humana é povoada de enviesamentos, essa técnica impede que algum dos
membros da pesquisa acabe por modificar a percepção que tem dos experimentos.
No caso do exemplo, um jogador poderia se sentir incomodado ao saber que está
utilizando uma trava diferente da habitual, e isso pode afetar seu desempenho.
Da mesma forma, o profissional que contabiliza as quedas pode prestar mais
atenção aos atletas que estão no grupo experimental do que no grupo controle,
fazendo as estatísticas ficar furadas. Nestes casos, temos a possibilidade de
um efeito placebo nos indivíduos observados (tema que abordarei no próximo
post) e de viés de confirmação nos pesquisadores (conforme já tratei neste
texto).
Pesquisas podem utilizar estudos descritivos ou analíticos.
Nos primeiros, o objetivo é determinar o que é o fenômeno observado em si, e
servem, como o nome diz, para descrever como, onde, com quem e porque, ou seja,
busca identificar estaticamente o objeto de estudo. Já no estudo analítico, a
meta é validar uma hipótese dinâmica, que busca modificar uma situação
fenomênica. Uma mesma pesquisa pode incluir os dois estudos, determinando o que
é um fenômeno e buscando uma solução para ele, se cabível. No caso do nosso
time, há uma intenção dinâmica, ou seja, buscar uma solução, e não uma mera
descrição, para as quedas dos atletas, então podemos dizer se tratar de um
estudo analítico.
Outro aspecto da pesquisa diz respeito à questão de como se
utilizar da linha do tempo na avaliação dos acontecimentos. O método transversal vê todos os fatos ocorrendo
em um único momento, enquanto o método longitudinal
é aquele que ocorre durante um determinado período. Se fôssemos considerar cada
um dos jogos observados individualmente, teríamos uma pesquisa transversal em
nosso exemplo. Acontece que a mesma segue por todo o período do campeonato,
seguindo a régua temporal que avança em direção ao término da temporada. Por
isso, nosso caro amigo estabeleceu a longitudinalidade em seu estudo.
Mais um ângulo da pesquisa diz respeito às fontes de dados
da experimentação. No nosso exemplo, como o fenômeno dos cai-cai é observado
diretamente, dizemos que as informações vêm de uma fonte primária, ou seja, é o próprio campo observacional que está gerando
os dados; no caso, a análise direta das partidas jogadas. Mas também
poder-se-ia utilizar fontes secundárias,
pelo aproveitamento de pesquisas feitas anteriormente ou por observação
indireta, como o uso das mesmas chuteiras por outras equipes.
Outro enfoque se dá na questão da independência das amostras.
Na comparação do desempenho das camadas estabelecidas pelo roupeiro, levamos em
consideração o que fez um grupo em relação a outro, e não de indivíduo por
indivíduo. Isso significa que não importa individualmente as quantidades de
tropeços, mas a média que obtemos de cada setor. Quando isso ocorre, temos
grupos não pareados. Para termos
grupos pareados, necessitaríamos
fazer uma correlação direta entre os componentes, como, por exemplo, confrontar
os números do lateral-esquerdo com o lateral-direito, do meia-esquerda com o
meia-direita e assim por diante. Como temos três grupos escolhidos
aleatoriamente, o pareamento não faz sentido, neste caso.
Mais uma perspectiva. Qual é o nível de abrangência do
estudo? Quando uma pesquisa necessita extrair dados com foco direto em um
membro, dizemos que ela tem nível individual.
Por outro lado, se o que está sendo estudado é um conjunto de membros, seu
nível é agrupado. Aqui, temos uma
pegadinha. Embora a coleta de dados seja em cima do indivíduo, no nosso caso
exemplo o que nos importará são medidas agregadas, ou seja, médias e proporções
oriundas de variações individuais. Por isso, o nível da pesquisa do nosso caso
é agrupado.
Outra coisa é a extensão da pesquisa. A validade interna de um experimento diz respeito
a uma verdade que pode ser estabelecida ao âmbito restrito da população
pesquisada, o que é exatamente o caso de nosso exemplo. Percebam que, para
obter validade externa, é preciso
que o pesquisador esteja convencido da transponibilidade de seus resultados a
uma população mais extensa, sendo os mesmos considerados válidos para qualquer
clube de futebol, no nosso caso, evidentemente.
Acham que acabou? Tem mais. Com relação ao tipo de dado que
é apurado, uma pesquisa pode ser quantitativa
ou qualitativa. O primeiro caso usa
Estatística e Matemática para obter medidas, com grande aceitação em Ciências Exatas.
Já a pesquisa qualitativa possui um forte componente subjetivo, onde não há uma
padronização muito evidente, o que é amplamente utilizado em Ciências Humanas,
mas não só. Muitas análises na área de saúde utilizam os dois métodos, às vezes
concomitantemente. É óbvio que o incansável treinador utiliza sua pesquisa com
fins quantitativos, pois seu molde utiliza contagens, sem considerar
depoimentos e outras subjetividades.
Tá bom, né? Paro por aqui, mas saibam que essa é só uma
amostra de itens que precisam ser descritos em fase das experimentações de uma
pesquisa.
Após as experiências, é o momento de se analisar os dados
obtidos, para que ocorram os descartes e
confirmações. É necessário tabulá-los e verificar se corroboram ou
contradizem as hipóteses, sendo necessário fazer revisões nas provas e
reformulações nas premissas, se for o caso. É um momento extremamente delicado,
porque a apuração das informações deve seguir uma lógica rígida e,
especialmente, desapaixonada. A boa pesquisa leva isso em conta: descartar
idiossincrasias e ater-se aos resultados. Imagine que o treinador invoque com
as travas altas, mas que o resultado aponte que elas não mudam em nada no
comportamento do grupo. De que vale ele bater o pé? Que adiantou todo o esforço
de uma temporada inteira? Além disso, é preciso mensurar a suficiência dos
dados. Imaginem que, em um ano especialmente seco, nenhum dos 38 jogos tenha
sido disputado em campo molhado. Será preciso ponderar se a pesquisa deverá ser
estendida por mais uma temporada ou que outra forma de experimento seja
cotejada, marcando amistosos para um dia que se saiba chuvoso. Também é
possível restringir o escopo da pesquisa, diminuindo seu alcance. Dessa forma,
será introduzida uma exceção na hipótese inicial, dizendo que a mesma não se
aplica a dias de chuva.
Terminados os longos relatórios de análise, a fase seguinte
é a bolachinha mais gostosa do pacote: a conclusão.
Seu objetivo é manifestar o resultado da pesquisa, ou seja, se estas respondem
adequadamente às hipóteses levantadas. É preciso deixar consignado que uma
conclusão negativa também é digna de ser divulgada. Caso as travas não façam
nenhuma diferença com relação à chuteira original, é bastante importante tornar
pública essa informação, para que se torne parte do patrimônio intelectivo da
humanidade. Uma pesquisa honesta, por sinal, declara seus resultados até mesmo
quando for inconclusiva, porque seus dados poderão ser ponto de partida para pesquisas
mais abrangentes. Quando a resposta à hipótese é obtida positivamente, teremos
uma teoria. Leiam mais sobre isso neste
meu outro texto, quando sou mais específico com relação a essas
nomenclaturas.
Saindo agora do horizonte fictício de nosso exemplo, é
preciso explicar como os resultados de uma pesquisa se tornam públicos. Embora
eu já tenha registrado este tema neste
texto, é preciso abordá-lo para dar um fecho firme a todo meu esforço. A
divulgação é feita através de revistas científicas. Muitas delas são renomadas,
como a Nature, Science ou Lancet, mas todas elas seguem os mesmos ritos. O
conteúdo dos relatórios de pesquisa é analisado por outros cientistas, eméritos
no ofício, e que determinarão se todos os critérios foram corretamente
atendidos. Eles emitirão um parecer que deve ser parte integrante da
publicação. Isso é muito importante para que se meça a aderência da proposta
aos ditames científico-acadêmicos. E para que uma publicação receba o carimbo
de cientificidade ela necessita atender os seguintes critérios (dependendo do
tipo de pesquisa, outros quesitos necessitam ser atendidos):
Falseabilidade: é
necessário que a conclusão seja falseável, ou seja, que possa ser provada
falsa. Esse é o critério mais significativo no consenso científico atual. Já
falei sobre o tema em vários textos, mas os mais interessantes são este
e este.
Verificabilidade:
as experiências realizadas precisam ser reprodutíveis para que possam ser
verificadas por qualquer cientista que se proponha a conferir os resultados.
Abertura à comunidade:
é o princípio da publicidade em si. Todos os dados devem estar disponíveis,
constando as hipóteses, métodos e resultados. Enfim, um completo tim-tim por
tim-tim de como os procedimentos foram desenvolvidos.
Especificidade:
reza que a pesquisa e seus relatórios devem ser precisos, de modo a abarcar um objeto
específico e não fugir dele, além de não se aplicar explicações ad hoc para justificar conclusões
nebulosas.
Ética: os
experimentos devem expor detalhadamente qualquer risco que os participantes
possam correr. Estes riscos também não podem ser excessivos e é preciso garantir
o sigilo dos observados.
Ufa! Quanta coisa... É por isso que a metodologia científica
não é simples de entender. Mais difícil ainda é compreender como a
transitoriedade é uma marca intrínseca à Ciência. Uma teoria é sempre uma
tentativa de explicar um fenômeno, e não há prova definitiva nesse sentido,
porque sempre operamos com os dados empíricos que temos na mão. A cada vez que
uma novidade surge, pode falsear tudo aquilo que conhecíamos e nos levar
novamente ao ponto zero. E isso é desagradável para o senso comum, que espera respostas
claras e definitivas, o que a Ciência não pode dar. Essa é sua fraqueza e sua
virtude, e convém que saibamos que é desse jeito que colocamos satélites no
espaço, curamos doenças milenares e colocamos computadores diante de nossos
olhos.
Bons ventos a todos!!!
Recomendação de leitura:
Uma boa obra sobre método científico vai indicada abaixo, embora
tenha a complexidade esperada para o assunto ao qual se volta:
LAKATOS, Eva; MARCONI, Marina. Fundamentos de Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 2003.
*Ora, direis, como um zagueiro-central pode estar na sua camada direita? Se você está fazendo essa pergunta, certamente é muito jovem. Você não está errado, mas nós, já carentes de cabelos, acostumamo-nos a manter esse nome para o beque que joga mais à direita do miolo de zaga, enquanto aquele à esquerda é o quarto-zagueiro, designação que também não faz mais nenhum sentido.
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Inferências diversas como matéria-prima para a metodologia científica, ou tempos de saber melhor como funciona a Ciência
Olá!
#FiqueEmCasa
Eu tenho reiteradas vezes neste espaço mencionado como é
frequente a maneira como as Ciências vêm sendo colocadas contra a parede nesses
loucos tempos em que vivemos. Tem sido até cansativo falar mais de uma vez
sobre os mesmos temas, mas eu falo com a liberdade de quem tem a consciência
leve de já ter escrito não só sobre os seus prós, mas também sobre os seus
contras, inclusive sobre uma
certa arrogância da comunidade científica. Então não posso negar que, a parte
toda a dor, sofrimento e desconforto que o coronavírus tem causado para nossa
gente, tenho lá no fundo uma satisfaçãozinha em ver tanto maluco na expectativa
de que essa mesma Ciência lhes traga uma resposta e, de preferência, uma cura.
No entanto, ainda permanece uma ignorância sem limites (que vemos inclusive em
altos escalões), e o pessoal esgota estoques de medicamentos que não tem
nenhuma comprovação de eficácia contra a marota doença, como é o caso da
cloroquina, deixando pacientes de lupus e malária descobertos em seus
tratamentos, e para quem o fármaco é comprovadamente eficaz. Além disso,
a explosão de compras de álcool gel e máscaras dá uma boa mostra do nosso
egoísmo, sem contar alguns governos poderosos que resolveram brincar de piratas
de respiradores, passando por cima não somente de acordos comerciais, mas de um
mínimo de alteridade. Como todas essas coisas ainda estão acontecendo, e
certamente ficarão marcadas em nossas mentes, quero crer que as pessoas
passarão a olhar com um pouco mais de confiança para a Ciência, e vou por em
prática uma vontade antiga, mas que eu estava desanimado em fazer. Em um
serviço de utilidade pública, vou tentar didaticamente explicar o que é o
método científico.
Ora, direis, essa não é tarefa de cientistas? Que pode um
pobre professor de Filosofia querer explicar melhor do que um praticante do
ofício? Não, cara-pálida. Um cientista não está preocupado com o
desenvolvimento de um método, mas em segui-lo. A tarefa de discernir qual é a
segurança que se espera para o conhecimento da verdade possível é, sim, tarefa
da Filosofia, mais especificamente da Filosofia da Ciência, como discorri neste
texto. Portanto, a tarefa é cabível e importante de fazer. Ainda que meu
alcance seja muito pequeno, entendo que faz parte de meu mister e de meu
sacerdócio. Se uma só cabeça se puser a pensar por conta de meus escritos, me
dou por contente.
No entanto, a faina não é tão simples assim, e eu preciso, a
guisa de introdução, falar sobre a questão das inferências, porque essa é a
base de todo o pensamento lógico, o carpete no qual a miss científica deve
desfilar. Vou dedicar este post a esse assunto, para depois, no próximo, e já
bem fundamentado, partir para o método em si. Vamos lá!
Por mais que quase nunca estejamos concentrados neste tipo de coisa, nosso pensamento tem uma espécie de esqueleto, que faz com que nossas reações diante do mundo sigam mais ou menos uma mesma lógica. Pensa só: você vê carne e cerveja na geladeira. Do estranhamento inicial, você puxa elementos que possam justificar aquela infrequente presença em dias de tanta carestia. Olha para o calendário e averigua alguma data especial, tenta lembrar-se de um aniversário, ou de um fato memorável... No final das contas, o mistério é resolvido pela patroa: com essas reprises de final de copa do mundo, ela quis dar uma recriada no clima e comprou o almoço de então – o tal churrasco e cerveja. Então temos a percepção de um fenômeno e os diversos mecanismos mentais que tentam decifrar a charada. Fazemos isso o tempo todo e, claro, não ficamos raciocinando sobre o raciocínio.
Quando lançamos perguntas ao universo, acontece a mesma
coisa, com o acompanhamento da nossa velha sanha por conhecimento. O problema
está na definição deste último, que tem uma familiaridade quase que incômoda
com a verdade demonstrável. Afinal de contas, creio que ninguém gosta de
suspeitar se o estranho aditivo contido naquele misterioso vidrinho do armário
é tempero ou veneno. Por isso é bom conhecer – uma questão de sobrevivência, e
não mera curiosidade.
Acontece que, de acordo com o nível de precisão que queremos
para nossas respostas, aumenta proporcionalmente o rigor com o qual precisamos
construir nossos raciocínios. Se a coisa chega ao ponto de se buscar respostas
científicas, mais se precisará ser metódico com os pensamentos. A Ciência
sempre está preocupada em localizar a verdade, o conhecimento certo e seguro. E
como se mede a verdade? Através das inferências.
Inferência é um
nome que se dá para as operações mentais em que se pode atribuir um valor de
verdade a uma proposição, que, por sua vez, como sua própria etimologia nos
denuncia, é uma proposta, uma sugestão, algo que se apresenta para dar uma
resposta, mas que é passível de receber um valor crítico de “sim” ou “não”.
Quando se faz uma proposição, faz-se uma submissão a um juízo, e é justamente
colocando-a em uma inferência que o fazemos.
Estou no filosofês, e vou usar nosso exemplinho acima para
traduzir em português. Quando eu vejo os acepipes e não sei sua origem e
destino, começo a fazer especulações: é aniversário? É festa? É almoço
especial? Cada uma delas é uma proposição, ou seja, eu proponho uma resposta para
a dúvida, que, no final das contas, vem no término de uma cadeia de
constatações e raciocínios obtidos a partir da realidade: a carne e a cerveja encontradas
na geladeira. As proposições completas seriam mais ou menos assim:
Neste esqueminha, temos as observações iniciais e quatro hipóteses levantadas, sendo que conseguimos comprovação da última. Cada quadradinho representa uma proposição, que pode ser verdadeira ou falsa. Não são só as respostas finais que devem receber juízo de valor, mas cada um dos passos. Por exemplo, é necessário que de fato tenham sido vistas as guloseimas na geladeira, porque poderia ter sido uma ilusão de ótica, ou poderiam não ser para o bico do contribuinte; também é preciso que a churrascada efetivamente represente um motivo de festa para aquela família. Gaúchos comem churrasco no dia-a-dia, como é o caso do feijão preto dos cariocas, do cuscuz dos baianos, do açaí dos paraenses. É preciso que tudo isso faça sentido antes de se chegar no ponto das hipóteses, cada uma delas também mensuráveis e capazes de ganhar um valor de verdade. Então uma inferência é isso: uma espécie de passo a passo mental, onde a validade de cada um deles leva o raciocínio adiante.
Claro que a Ciência não se vale de carnes e cervejas em dias
de futebol para preencher seus cânones, mas, conforme a minha proposta, fiz uma
simplificação bem grosseira sobre os mesmos raciocínios que utilizamos todas as
vezes em que queremos obter conhecimento seguro. Mas a coisa não é tão simples
assim, obviamente. Há diferenças na maneira como o raciocínio lógico tem suas
formas, e, de acordo com o foco no qual este raciocínio se dirige, teremos uma
forma diferente. Em metodologia científica, utilizam-se três destas formas de
raciocínios lógicos: a dedução, a indução e a abdução. Isoladamente, não são
capazes de produzir todo o encadeamento lógico necessário para que a
metodologia científica se consolide, mas, uma vez articuladas entre si, cada
uma com seu respectivo papel, fazem com que a mágica (mágica não, em
Ciência não há mágica) coisa aconteça. Vamos a elas.
1 – Dedução
No campo argumentativo, temos uma dedução quando, a partir
da colocação de premissas, chegamos a uma determinada conclusão, o que chamamos
de consequência lógica. Mas o que são essas tais de premissas? Com origem no
latim, essa palavra vem de praemissa,
que significa “colocar antes”. Isso nos indica que uma premissa é um dado, uma
informação ou uma proposição que permite o desenvolvimento de uma lógica
conclusiva. As premissas são ideias que movimentam um raciocínio na busca de um
desfecho, e na forma dedutiva elas são a matéria-prima da conclusão que lhes
seguem.
Vamos ao nosso exemplo anterior. É possível montar o
raciocínio da seguinte forma:
Só fazemos churrasco
em casa quando há uma data especial
Há material para
churrasco na geladeira
Logo, temos uma data
especial
O pulo do gato da dedução consiste em garantir que a
veracidade das premissas sempre assegura a verdade da conclusão. Como
corolário, temos que uma premissa falsa torna a conclusão necessariamente
falsa. Sempre que isso acontecer, temos um argumento válido, ainda que não seja
verdadeiro. Note que o grande propósito da dedução está, por conseguinte, em
sua mecânica – que sempre assegura lógica na conclusão.
Sem dúvidas, o modelo mais clássico de dedução vem dos silogismos
aristotélicos, que encadeiam uma premissa maior, mais geral, a uma premissa
menor, mais particular, que são amarradas por um termo médio que não aparece na
conclusão. No exemplo, esse termo médio é “churrasco”, por aparecer nas duas
premissas e não aparecer na conclusão, mas não existe só esse modelo de
dedução, que podem costurar várias premissas para desfechar a conclusão. O
importante é que seja sempre mantida sua validade. Se, por exemplo, o argumento
fosse mudado para...
Só fazemos churrasco
em casa quando há uma data especial
NÃO há material para
churrasco na geladeira
Logo, temos uma data
especial
... então teríamos um problema lógico, que costuma ser
chamado de non sequitur (“não segue
que”, em latim). Por que? Porque, sendo verdadeiras as premissas, a conclusão é
falsa. Desta forma, esse é um caso de argumento inválido.
Como vimos até agora, a dedução tem o propósito de possuir
uma estrutura lógica válida, o que não quer dizer que ele é verdadeiro. Afinal
de contas, qualquer das premissas que for falsa (ou ambas) fará com que a
conclusão seja falsa, e aí não teremos grandes resultados à nossa frente. Por
isso, a dedução realmente boa tem como característica não só sua validade, mas
também sua solidez, que ocorre
quando temos diante de nós premissas verdadeiras produzindo conclusão
verdadeira.
A dedução, apesar de ser tão bonitinha, não passa imune de
problemas. O principal deles é que a conclusão já está implícita nas premissas,
ou seja, nada mais é do que a definição analítica de uma informação que nós já
temos, no final das contas. Isso acontece porque, embora não seja uma regra
100% válida, uma dedução parte de uma afirmação mais abrangente, por vezes
universal, e passa por uma afirmação mais restrita, ou seja, mais particular.
Seguindo esse fluxo, a conclusão nada mais é do que uma proposição que já
estava contida implicitamente nas proposições anteriores. O resultado é que não
temos nenhuma informação nova, a não ser a análise de um fenômeno que já estava
desvendado. Isso nem sempre é um problema, porque muitas vezes, em Ciências, o
que queremos mesmo é desvendar mistérios. Mas a propositura de uma dedução para
descobrir novas aplicações nem sempre é a mais indicada. E há ainda o problema
de que as premissas em uma dedução são tomadas como axiomas – verdades
consensuais. Se um desses postulados cair, cai toda a solidez dedutiva, já que
uma premissa falsa torna a conclusão igualmente falsa.
2 – Indução
Pois bem. Se a dedução é boa para dar firmeza às nossas
conclusões, porém não nos fornece nada além do que já podemos capturar a partir
das premissas, é preciso que exista uma forma de sistematização dos
conhecimentos aquisitivos. E como esse tipo de coisa acontece em nossa vida
natural? Através da observação contínua e da repetição dos fenômenos, e de uma
forma de raciocínio que os sintetize. Vejam bem. Digamos que você seja chegado
em bater uma bolinha, mas esteja precisando aperfeiçoar seu chute a gol. Para
fazer isso, vai até o campinho treinar várias vezes. Você percebe que várias
modalidades de tiro ao gol são eficientes, mas a melhor delas é quando você
chuta com o lado externo do pé, a famosa trivela, de maneira a perceber uma
curva que se produz quando o golpe é proferido certeiramente. Todas as vezes em
que o chute é aplicado condizentemente, a bola descreve uma trajetória que
deflete para o lado oposto ao giro do corpo. Em miúdos: a bola faz uma curva em
direção à meta, e um chute que aparentemente iria pela linha de fundo morre no
fundo das redes. Chuta-se uma e o fenômeno acontece; duas, também, e três, e
quatro, e cinco... Forma-se assim uma linha de tendência, que nos INDUZ a crer
que todas as vezes em que uma trivela for bem pega na orelha da bola, teremos
essa mesma descrição da curva. De um jeito meio brejeiro, descrevi como
funciona a indução.
Percebam que o fundamento da indução não está em um
encadeamento puramente lógico, como ocorre na dedução, mas na observação e na
experimentação. Cada fenômeno é observado de forma a constituir uma espécie de
catálogo de novas informações, de modo a formar um arcabouço que dê suporte à
conclusão atingida. A indução é, pois, uma ferramenta empírica.
Notaram como na indução o mais importante está na definição
de uma regra, e não no desenho do argumento em si? Se por um lado isso permite
a aquisição de conhecimento novo, por outro carrega consigo a falta de firmeza
que a dedução tem. Voltando ao nosso exemplo, imaginemos que, uma vez bem
treinado, o nosso herói-atacante vá por em prática suas novas habilidades, e
tendo uma falta em distância compatível, vá arriscar uma de suas trivelas.
Afinal de contas, a curva descrita tanto faz a bola contornar a barreira quanto
sair do alcance do aflito guarda-metas. Acontece que, embora o disparo saia
como manda o manual, a pelota vai em uma jocosa linha reta, indo parar na zona
morta, próximo à bandeirinha do corner. Ora, ora, ora... o que pode ter havido?
Essa é a desgraça e a vantagem da indução. Ela nunca consegue
elaborar argumentos definitivos. Quando juntamos mais e mais evidências, temos
uma probabilidade cada vez maior de que a conclusão esteja correta, mas nunca
temos a certeza absoluta. Deste modo, a trivela de nosso embasbacado atacante
funciona bem até que um ventinho ordinário compense o efeito do giro da bola
para fazer com que a mesma caminhe vergonhosamente reta, desfazendo a tese em
segundos. É por isso que não se fala em argumento indutivo válido, mas forte.
Porém, por outro lado, como a conclusão indutiva nunca é derradeira, sempre
podemos receber informações novas, e aprofundar o conhecimento que tínhamos
anteriormente, o que dificilmente conseguimos com o raciocínio dedutivo.
Aprendemos, no exemplo, que o vento influencia na trajetória da bola, assim
como outras observações farão concluir que o mesmo ocorre com diferentes
pressões internas, com o número de gomos, com a consistência do terreno, com a
chuva, e così via. Por isso, a
indução não é monotônica como a dedução, além de ser ampliativa, no sentido de
possibilitar o aprimoramento do conhecimento.
A indução é menos preocupada com a forma, e mais com os
percentuais de acerto de suas previsões. A cada novo resultado que corrobora a
ideia inicial, mais forte fica o argumento defendido, até que seja esperado
caminhar para uma generalização. Um espectro pequeno de itens investigados faz
uma indução fraca, que vai ampliando seu grau de força na medida em que ganha
novas corroborações. Mas ela é sempre escrava de sua limitação de alcance, como
acontece com as pesquisas eleitorais (um levantamento aponta uma tendência; a
pesquisa definitiva vem das urnas), já que não consegue estabelecer uma
universalidade, pelo simples fato de não conseguir vislumbrar todas as
possibilidades de um determinado fenômeno. Quando um deles desmente a hipótese
a que se chega, é preciso refazê-la, ou até mesmo descartá-la. Quando eu falar
sobre a metodologia científica em si, vai ficar mais fácil de entender, mas a
indução nunca traz um resultado definitivo.
3 – Abdução
Vamos criar uma outra estorinha para dar pano de fundo ao
que falaremos agora. Você acorda com uma dor de cabeça daquelas de soltar a
tampa do crânio para que o cérebro pule fora. Ao tentar se levantar, tem a
impressão de que deu com a cabeça em um trilho de ferro. Voltando a se
recostar, fica se perguntando o que pode ter acontecido, e faz um inventário de
causas possíveis. “Poxa, eu fui no estádio ontem... Será que foi o sanduíche de
pernil? Será que foi a gritaria na torcida? Será que eu fiquei muito tenso? Será
que eu peguei um vírus na multidão? Será que eu tomei friagem? Será que eu
desloquei um osso da cabeça? Será que é um castigo de Deus?”. São sete
hipóteses diferentes para justificar o mal que lhe acomete, esquecendo-se de
uma oitava, a bebedeira dionisíaca que você tomou na saída da contenda. É
notável que todas essas hipóteses têm graus diferentes de probabilidade.
Realmente, um bel’ porre é uma explicação muito mais plausível do que um vírus
de efeito imediato ou de uma divindade mal humorada que não goste do esporte
bretão. Fazer a seleção da melhor hipótese possível a partir de uma relação de
causalidade é o que faz a abdução, que, como se pode notar, não tem o mesmo
sentido atribuído às capturas de humanos por OVNI’s.
O processo abdutivo tem parentesco tanto com a dedução
quanto com a indução. Da primeira, por formar algo como um silogismo na relação
de causalidade que busca explicitar; da segunda, por tratar de formar hipóteses
através de observações. Mas o que melhor caracteriza a abdução é o seu caráter
indireto, ou seja, não se calca na observação direta de uma cadeia de causas e
efeitos. É como se percorresse o caminho inverso das outras duas – você precisa
buscar as premissas de uma conclusão já obtida. No exemplo da dor de cabeça, essa
é a conclusão. As hipóteses colocadas são candidatas a premissas.
A abdução nada mais é o do que o ponto em que nos
defrontamos com a maior possibilidade de “criatividade” nas Ciências, à medida
que a formulação de hipóteses não tem limites técnicos. Isso somente será
colocado na comparação com as demais hipóteses, e a adoção de uma delas será
pelo critério de melhor aproximação com o que poderíamos reputar por verdade.
Sabemos do seu largo uso pelo simples fato de que muitos dos fenômenos
abordados pelas Ciências não são observáveis diretamente. Inúmeras teorias
nasceram de abduções e foram se desenvolvendo por observações indiretas. Ninguém
estava lá no átomo primordial no momento do Big Bang, nem estava em algum lugar
perdido da África no momento em que uma mutação específica fez com que um certo
bípede implume ganhasse a capacidade de raciocinar. Por esses motivos, o
raciocínio abdutivo faz parte do nosso próprio espírito científico.
Mas como podemos estabelecer critérios de comparação entre
as diferentes hipóteses? De uma maneira muito simples, poderíamos afirmar que a
melhor explicação é aquela que gera menos perguntas. A hipótese do deus que não
gosta de futebol é muito complexa: começa pelo próprio questionamento na
existência dessa deidade, passa pela questão de ser a apreciação do esporte um
pecado, e porque o é, e termina necessitando de um completo compêndio de Teologia
que, no final das contas, pode ser insuficiente para nos convencer. O
deslocamento do osso craniano é pouco provável, porque nosso contribuinte
estaria em provável coma. As outras hipóteses são mais plausíveis: a tensão e o
barulho dariam dor de cabeça mesmo, mas é mais provável que seria imediata; a
sanduba poderia até estar deteriorada (o que já gera uma dúvida), mas a
borracheira omitida parece a mais plausível de todas: pouca lembrança, efeito
postergado, mal estar típico... Nada de questionamentos adicionais.
Mas se quisermos pensar um pouco mais tecnicamente, diríamos
que as diferentes hipóteses possuem virtudes
explicativas, ou seja, capacidade de propiciar elementos mais coerentes.
São muitas as virtudes explicativas de um argumento e não estão sistematizadas
em um tratado. Portanto, vou listar apenas algumas, porque a coisa já está
ficando muito comprida:
Simplicidade: a
principal delas, derivada da famosa navalha
de Ockham, que nos enuncia que deve ser levada em conta sempre as explicações
mais simples e que movimentem o menor número de variáveis possíveis.
Profundidade: é
aquela explicação que dá um número mais rico de detalhes acerca de um
determinado fenômeno.
Precisão: é a
hipótese que “acerta mais na mosca”, ou seja, deixa poucas arestas a serem
desbastadas por outras explicações.
Conservadorismo:
nada a ver com posições políticas. Neste caso, é o esclarecimento que mexa
menos com a visão geral que temos das demais coisas.
Abrangência: é a
explicação que, dentro de um conjunto de fenômenos, consegue elucidar a maior
quantidade possível deles.
Aderência ao
conhecimento de fundo: trata-se da explanação que faz melhor uso de
conhecimentos já consolidados, sem o aproveitamento de soluções ad
hoc, por exemplo.
Analogia:
capacidade de se aplicar a mesma solução para outros problemas com a mesma
natureza.
Experimentabilidade:
é a propriedade de permitir a execução de testes, para que se verifique se o
argumento não é falho. Liga-se, de certo modo, à falseabilidade
dos métodos científicos.
Vemos o quanto a abdução é proveitosa para a especulação e
para a criação de hipóteses, mas ela não é livre de problemas. Um deles é a
questão do peso das virtudes explicativas. Afinal de contas, cada caso é um
caso e os critérios para aferição dessas virtudes é muito difícil de
consubstanciar. Qual seria um bom critério de desempate? A abrangência ou a
profundidade? É muito subjetivo esse julgamento. Outro problema é que, de todas
as explicações possíveis, talvez existam aquelas que não são cotejadas e que
seriam melhores do que aquelas imaginadas. É o caso do bonitão do nosso
exemplo, que deixou de considerar a bebedeira como possibilidade. Mas, no entanto,
é nessa capacidade de se achegar à verdade por aproximação que este modelo de
argumento é importante.
Ufa! Gostaram da temática das inferências? Por fim, só para
arrematar: os três paradigmas que tratamos aqui tem nomes bem parecidos, e são
derivados do latim ducere, que
significa “conduzir”. Dessa forma, dedução significa “conduzir para fora”; indução,
“conduzir para dentro” e abdução quer dizer “conduzir de fora para dentro”,
coisa parecida. Bons ventos a todos!!!
Recomendação de leitura:
Vai para Charles Sanders Pierce, filósofo pragmático e
lógico que me ajudou bastante com este post (Não confundir com a indicação que
fiz neste
texto).
PEIRCE, Charles. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1993.





