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domingo, 25 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 6ª estação: Brazópolis observando o universo e as armadilhas da realidade e do senso comum

Olá!


O dia em que fui para Piranguinho estava muito, mas muito quente, em completa oposição aos demais dias desta até então úmida aventura. É aquela famosa anedota dos extremos: tá reclamando? Vai prá Cuba! Mas eu acho que Cuba é ainda mais quente do que o Sul de Minas, então me dou por satisfeito. Meu carro não tem um ar condicionado dos mais ferozes, embora beba um combustível lascado. Mas, ainda assim, é um ar condicionado, que vence em frialdade o scirocco tupiniquim que vem das meras janelas abertas. Portanto, vamos fechá-las para amplificar o aroma das paçocas e pés-de-moleque e pegar estrada novamente. Para quem está com fome (estamos próximos do meio-dia), é meio torturante, ainda mais sabendo que a quantidade de açúcar que transporto nesses acepipes é suficiente para levar ao coma qualquer diabético de minha nacionalidade, eu incluso. É o meio caminho entre a ironia e a contradição.

O rumo já é conhecido de vocês, caso tenham lido meu texto anterior. Como eu já expliquei em outros textos, mais notadamente naquele que relato minha viagem a Monte Alegre do Sul, eu gosto de bebericar uma branquinha, bem de leve. Nem em sonho eu bebo antes de dirigir, e, para isso, tenho na patroa uma sommelier competente, para depois curtir de boa na lagoa. Estou na rota de Brazópolis, terra de morros e vales que parecem infinitos, terra natal do meu colega João Francisco, que sempre traz um queijinho para nosso deleite. O conceito de “plano” parece inexistir por aqui.


Substituindo o nome anterior do lugarejo, que era São Caetano da Vargem Grande, o topônimo é homenagem ao Coronel Francisco Braz, o mesmo que nomeia a praça da matriz de Piranguinho, pai do presidente Wenceslau, um dos políticos que fez parte da dobradinha café-com-leite, a alternância combinada no poder entre paulistas e mineiros. Bom, acho que estou me repetindo, mas preciso deixar este texto minimamente autônomo. O busto que lhe faz memória está situado na praça da igreja matriz.


Esta última, cujo padroeiro é São Caetano di Thiene, originalmente era uma capela de fazenda, que abarcava a região em que hoje está instalada a praça. Infelizmente, estávamos em pleno dia de Nossa Senhora Aparecida, motivadora do feriado, e as atenções estavam voltadas para outro ponto da cidade, que veremos mais tarde. Por aqui, a matriz encontrava-se fechada, mas a bela feitura de seu exterior faz imaginar que sua parte interna também seja agradável de se ver.


Pude perceber que a cidade tem muitas construções antigas, algumas delas datadas do século XIX. Em um exemplo, há o prédio do Grêmio Operário 1º de Novembro, que congrega algumas atividades sociais, como time de futebol e concursos de misses. Pelo que conseguir levantar a custo, pelo menos até 2013 ainda estava ativo.


Ainda na categoria “edifícios”, o prédio mais curioso de todos é, sem dúvidas, o castelinho em cujo frontispício estão os dizeres Vila Dona Benedita de Faria Pioli. Diz-se que o proprietário desejava morar em um castelo, e resolveu homenagear a senhora sua mãe. Hoje em dia, após muitas considerações sobre espectros e assombrações, o espaço é aproveitado como arquivo municipal.


Em outro ponto da cidade, já quase no caminho do distrito de Luminosa, há os restos mortais do que um dia foram os depósitos da ferrovia da cidade.


Bom... A partir deste ponto, pegamos a estradinha de terra que leva ao nosso objetivo primaz neste périplo a Brazópolis: caçar a boa bebida que provamos em Delfim Moreira. Luminosa é um patrimônio de dois ou três quarteirões, perdido no meio de morros e plantações.


O lugarejo é muito próximo à divisa com o estado de São Paulo. Do lado de lá das montanhas abaixo, está situada a cidade paulista de São Bento do Sapucaí, produtora de mosaicos e azeite à qual já visitei e mencionei em meu blog.


A construção mais notável é a igreja de Nossa Senhora das Candeias, que é o centro espiritual da rota chamada Caminho da Fé, que se inicia em Águas da Prata e desemboca no santuário nacional de Aparecida. Trata-se de uma gigantesca trilha que corta montes e vales para ser feita a pé ou, no máximo, de bicicleta, serpenteando 322 Km em seu eixo principal por altitudes que chegam a mais de 1800 metros.


Na entrada do pequeno núcleo urbano fica o sítio que abriga o alambique Luminosa, onde também é servida comida de fogão a lenha e outras bebidas. Seu acervo de cachaças é vasto, com misturas de todo tipo.


A produção é feita de forma quase que totalmente artesanal, com os destiladores, fornos e tanques expostos para visitação, além de toda a infinidade de garrafas colocadas no próprio armazém, com amostras de degustação de todos os produtos, feita orgulhosamente pelo seu dono, o Guido. Haja fígado.


A grande atração, além das puras, é a cachaça de banana, mas há muita variedade disponível, com algumas um tanto exóticas. Na rosa-sol, por exemplo, vai cravo, canela e mais alguma coisa que eu esqueci. Boa.


De volta para o centro do município, fomos dar um rolê pela região do santuário de Nossa Senhora Aparecida, com o objetivo de descolar uns acepipes nas barracas típicas. É um ponto muito alto e bonito de Brazópolis, onde não pontua apenas o templo, mas os belos e grandes prédios da Escola Técnica.


A igreja, como sói acontecer nessas datas comemorativas, estava plena e absoluta, enfeitada de ponta a ponta e preparada para receber fieis e nem tanto, alguns interessados em render culto, santificar ex-votos, outros para pedir e agradecer, e outros ainda para satisfazer a curiosidade e comer alguma boa pamonha.


A réplica da imagem da santa, que, à moda do santuário nacional, possui uma passagem por detrás do altar, também estava preparada para receber seus visitantes. No momento em que passei por esse lugar, imperava uma certa modorra, dado o imenso calor e o período pós-prandial (hora da siesta, em espanhol rudimentar, com acento aberto no “e”), mas o segundo turno de visitações estava previsto para a fresca do fim de tarde/começo da noite.


A marca principal de Brazópolis, no entanto, está no campo das Ciências, em especial da Astronomia. Aqui fica sediado o Observatório do Pico dos Dias, onde estão instalados os maiores telescópios do território tupiniquim. O precitado pico fica localizado a quase 1900 metros de altitude, e é gerido pelo LNA – Laboratório Nacional de Astrofísica. Para chegar lá, percorre-se uma estrada de terra com 12 km de extensão, que inicia no portal abaixo, no bairro de Bonsucesso.


O caminho para o observatório, por si só, já vale a caminhada. Lá está, por exemplo, a Falésia dos Olhos, um paredão que é ponto de escalada. Para os menos ousados, dá para chegar ao sopé da pedra através de trilhas pela área rural à sua frente ou pela vertente superior.


O lugar também é chamado de Pedra da Cruz por conta do cruzeiro que guarnece o paredão.


Minha intenção era brasileiríssima. Eu sabia que a subida ao Pico dos Dias somente pode ser feita em dias de tempo firme e com agendamento prévio, mas a expectativa de tirar umas boas fotos era tentadora. Achava que, se utilizasse as palavras corretas e me propusesse a vencer os últimos cinco quilômetros a pé, talvez me deixassem chegar até o ponto mais alto, mesmo que nem me aproximasse dos prédios de pesquisa. O problema é que não havia viv’alma para que eu gastasse meu português, e tentar entrar pelo meio do mato era, no meu entender, transgressão demais. Paciência, fica para a próxima.


Só a vista daquela altitude toda, no final das contas, já valeu o ingresso. Daqui, é possível ter uma ideia da extensão do vale que fica aos pés do observatório, e da grande quantidade de bananeiras que o pessoal planta no local.


O que é possível fazer é mirar os laboratórios à distância, com os típicos formatos arredondados de suas cúpulas. Todo mês de setembro, aproveitando o estio, o LNA promove um festival durante uma semana para visitação monitorada, além de alguns dias em que a presença noturna de visitantes é admitida, mediante inscrição e sorteio. Já está na minha agenda.


Quando nos deparamos com tamanha parafernália, é quase inevitável que pensemos naqueles estereótipos dos malucos de jaleco, que parecem viver absortos em seus pensamentos e que não tem outra diversão a não ser procurar minúsculas agulhas nos palheiros celestes. Esse tipo de desconhecimento ajuda a sedimentar a dificuldade que as pessoas têm em compreender o que efetivamente é a Ciência. Já tratei muito do tema por aqui, inclusive combatendo uma certa prepotência que os cientistas têm em se considerar mais possuidores de conhecimento do que outros meios de saber, mas o fato é que, por muitas vezes, essa antipatia nasce justamente a partir do senso comum ou de uma certa “impiedade”. A Ciência lida com problemas muito sérios, coisas que versam sobre vida e morte, e decretar que fosfoetanolamina e pinga-com-banana tem o mesmo efeito sobre as células cancerosas faz com que tentemos, muitas vezes, nos enganar para manter esperanças.

É pena não ter podido subir aos telescópios. Eu já estava escrevendo este texto na cabeça exatamente no momento em que apertava em vão o botão do interfone. Eu sou da área de Filosofia, mas sempre temos em nós um misto de curiosidade e sede de conhecimento que forma uma espécie de espírito científico, que, aliás, é a mola propulsora de metodologias, inclusive. Ainda que pareçam coisas herméticas, restritas a ambientes como este.

O fato é que os métodos científicos sempre foram objetos de difícil consenso. Vou apresentar hoje as teorias do filósofo e literato francês Gaston Bachelard, que discutiu justamente o problema do senso comum diante do conhecimento científico. Mas é preciso puxar o fio da meada. Acompanhem, porque é interessante.

Até o fim da Idade Média, o saber científico estava situado em um patamar inferior aos ditames metafísicos da Religião. Afinal de contas, muita coisa de difícil explicação caía na caixinha fácil dos misteriosos desígnios divinos. A partir de René Descartes e Francis Bacon, no entanto, novas correntes de pensamento mudaram o estatuto da visão que temos sobre a realidade. O primeiro lança a ideia da dúvida metódica, em que nada pode ser assumido como verdadeiro se não passar pelo crivo da evidência, em um processo dirigido pelo próprio raciocínio humano. Já o segundo forma as bases do experimentalismo, de modo a se estabelecer a necessidade de um método que abarque e cerque todas as possibilidades necessárias de serem testadas em um determinado fenômeno. Descartes cria o que chamamos de racionalismo, e Bacon, por sua vez, o empirismo. A partir daí, surge uma longa discussão sobre o primado epistemológico de ambos. Será a razão a principal fonte de conhecimento, ou essa tarefa deve ser atribuída à experiência?

Quem resolve o enigma é Immanuel Kant. Tanto intelecto quanto observação tem seu valor no processo gnosiológico. Do primeiro, temos as estruturas mentais que permitem a absorção do conhecimento; do segundo, obtemos os objetos que formam seu conteúdo. É impossível um viver sem o outro. Desta forma, as filosofias seguintes já tinham uma base bem fixada para desenvolver outros temas. Uma delas, dado o desenvolvimento humano que levou as técnicas e as ciências ao ápice, dava ênfase total ao processo científico como conhecimento válido, de modo que áreas nunca dantes abarcadas pela teia científica passassem a ser incluídas no seu bojo, como o estudo das sociedades e da moral. Era o Positivismo, predominante no século XIX, que, se por um lado tinha a vantagem de seu otimismo com relação aos avanços, por outro reforçou a ênfase no método empírico, o que diminuiu o valor da razão para as Ciências.

O processo empírico das observações tinha como pano de fundo a indução. Tantas vezes um fenômeno ocorre da mesma forma, que supomos que sempre ele se repetirá. Como corolário, a Filosofia da Ciência que brotou do Positivismo adota um princípio de verificação que exclui qualquer valor de verdade de saberes não palpáveis. A coisa funcionava mais ou menos bem até surgirem teorias científicas de altíssima complexidade e abstração. É aí que entra Bachelard.

Nosso caro francês pensava que, estando as coisas dessa maneira, a Teoria da Relatividade de Einstein ou a Física Quântica de Max Planck seriam uma mera filosofia da physis, algo muito semelhante como as elucubrações sobre a arché dos velhos pré-socráticos. Estes cientistas foram criadores de modelos que fugiam da experimentação direta, com altíssimo índice de abstração, e que quebravam fortemente paradigmas anteriormente bastante sólidos. Para se ter um exemplo, as teses einsteinianas modificavam substancialmente as consagradas leis de gravidade de Newton, sem, no entanto, invalidá-las quando pensamos em termos empíricos. De fato, as leis de Newton conseguem corroboração experimental de maneira muito mais simples e intuitiva, mas não conseguem atingir grandes limites, como acontece quando a velocidade da luz é implicada em um cálculo. A física de Einstein resolve estes problemas de forma teórica, sem existirem recursos para desenvolver experimentos com as tecnologias disponíveis. Podemos perceber hoje em dia que suas descobertas vêm sendo progressivamente comprovadas, como é o caso recente das ondas gravitacionais, mas, de fato, para um modelo científico que exija a verificação, não há como considerá-las como tal.

Bachelard combate a vertente positivista e estabelece que a Filosofia da Ciência precisa atuar com um condão histórico, de modo a se atualizar da mesma forma que as próprias Ciências. São inúmeras as vezes que novas descobertas rompem com todo o conhecimento estabelecido até o momento em que ocorrem. Em seu pensamento, a verdade nada mais é do que a retificação de um erro anterior, que, por sua vez, também se tornará um erro que deverá ser corrigido por uma nova verdade, e assim sucessivamente, ad aeternum. A verdade é histórica, assim como a Ciência deve ser e a Filosofia da Ciência também. Isso inclui sua metodologia.

Antecipando-se a Thomas Kuhn, que vislumbrou uma metodologia da crise nas Ciências, Bachelard entende que a Epistemologia deve caminhar dentre rupturas. Sua resistência maior, chamada por ele de obstáculos epistemológicos, vem de uma espécie de continuidade entre o conhecimento científico e o senso comum: queremos que a Ciência nos forneça explicações de maneira tão palpável quanto nossa avó explica a receita de bolinho de chuva (está chovendo hoje). Quais são, portanto, esses obstáculos epistemológicos ao espírito científico?

O primeiro é a própria realidade. Como captamos intuitivamente o universo ao nosso redor, temos tremenda dificuldade em compreender uma explicação que fuja ao alcance dos nossos sentidos. Pensemos nas teorias sobre os átomos, por exemplo. Enquanto acompanhamos a realidade, a explicação de que qualquer material é divisível até o ponto em que isso não seja mais possível é bastante intuitiva. Afinal de contas, o processo de divisão pode chegar a um ponto em que não seja mais perceptível, mas basta dar continuidade na mesma lógica para que tal processo avance mentalmente: um átomo é uma minipartícula absolutamente sólida. Essa é a sensação que nos dá a realidade. Mas a ideia de que o átomo não é sólido, mas formado de subpartículas, algumas concentradas em um núcleo, outras circulando ao seu redor, com a imensa maioria de seu espaço ocupado por vácuo, que possuem diferentes órbitas e níveis, e que mesmo o que poderia ser considerado matéria em seu interior é, hipoteticamente, uma forma de energia, foge completamente à realidade circunstante.

O segundo é o senso comum, traduzido pela noção de que este é uma forma de conhecimento em continuidade com a Ciência, tendo apenas uma diferença de profundidade. Bachelard insiste que não há nenhum tipo de encadeamento entre senso comum e conhecimento científico. O senso comum existe para que vivamos nossa vida, encaremos nossa realidade; a Ciência guiada por ele é imbuída de um monte de penduricalhos que somente lhe atrapalham. Obviamente, esta ideia está relacionada à primeira, de que a realidade nos é dada para ser interpretada. Mas nossas opiniões e preconceitos se imiscuem silenciosamente por todos os aspectos de nossas vidas, de modo até mesmo a turvar nossas pesquisas mais rígidas metodologicamente. O mero empirismo, apesar de jamais poder ser descartado como ferramenta de pesquisa, induz-nos a nos convencer bovinamente e consolidar nosso senso comum, constituindo-se em bela armadilha epistemológica.

A regra de ouro bachelardiana é que o racional deve ter primazia sobre o real. Isso significa que Bachelard é um novo racionalista? Não. Seu objetivo é fixar que o cientista não é um mero receptáculo para dados empíricos, mas um sujeito na relação do conhecimento. A Ciência nunca é definitiva, necessita de constantes correções e é preciso ter consciência de que qualquer nova hipótese é uma tentativa de aproximação, mas que depende da abstração do pesquisador, para que não se crave no imobilismo.

É tentando dar alimento a esse espírito científico que eu subi as montanhas de Brazópolis e lá observei observatórios, não tão perto quanto gostaria, mas não tão longe que se fizesse cessar minha inspiração. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Bachelard não é exatamente um filósofo fácil, mas sua verve contestadora encanta. Vou recomendar seu livro que trata mais diretamente da questão aqui abordada.

BACHELARD, Gaston. O Novo Espírito Científico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 5ª estação: Piranguinho e as mãos do mercado mexendo nos pés-de-moleque

Olá!


Quando estávamos em Delfim Moreira, ao cair da noite, encostamo-nos em um barzinho para comer qualquer petiscaria que estivesse disponível. Era estilo botecão mesmo, com balcão de fórmica e mesinha de madeira recoberta por aquelas toalhas xadrezes, baleiro rotatório, estufa para salgados, potes de sardinha enrolada e demais que-tais. Apesar disso, não estava repleto de bêbados, como sói acontecer no nosso imaginário, e sim com uma luz meio fraca, tipo daquelas de fim de expediente. Não era possível fazer grandes exigências porque estávamos mais sujos do que poleiro de galinha (exagero), então ficamos na base do queijinho minas e da azeitoninha. Tudo de bom, tudo de bem, quando o dono da tasca ofereceu uma especialidade da região: cachaça artesanal. Eu costumo ficar ressabiado com esse tipo de assertiva, otimista demais, mas sou bem educado e provei o pretencioso preparado. E era realmente bom, sabor suave, sem aquele travo arrepiante que denuncia a bebida de má qualidade, mais próxima dos derivados de petróleo do que dos destilados de cana. Na verdade, posso dizer que era uma pinga realmente notável, e me interessei por saber mais. O dono me mostrou o rótulo: Luminosa, um distrito da municipalidade de Brazópolis. É longe? Não. Então vamos para lá.

Isso não foi no mesmo dia. Brazópolis fica a oeste de Itajubá, onde ficamos hospedados, lado oposto a Delfim Moreira. O tempo bem mais firme foi um convidativo para sairmos mais cedo, e, no meio do caminho, há uma cidade que tem uma tradição e um mote poderosos: Piranguinho.


Piranguinho tem um nome que é composto pela palavra tupi pyranga, que quer dizer vermelho, e complementada pelo sufixo í, que dá a conotação de diminutivo, e se refere a um tipo de pedra vermelha outrora comum no município. Eles se autoproclamam a “Capital Nacional do Pé-de-moleque”, mas falo já, já sobre isso.


A cidade possui uma praça central bastante calma, que homenageia o Coronel Braz, o velho advogado e político Francisco Braz, pai do presidente Wenceslau, muito influente em toda a região (e, em certo momento, no Brasil inteiro). A igreja matriz atual é dedicada a Sant’ana, que, na tradição da igreja Católica, é avó de Jesus.


Esta igreja tinha outro padroeiro, mas não sei por qual motivo, o mesmo foi “destituído”. Tratava-se de São Benedito, o mais célebre dos santos negros, antigo cozinheiro de um convento franciscano. A referência ao seu antigo padroado está do lado de fora da igreja, e me pareceu bastante sincrético: as mãos de um africano que toca o seu atabaque, algo tão típico dos cultos do candomblé.


No restante da praça, além do belo arvoredo e dos velhos costumeiros dos bancos, mais dois pontos a serem notados. O inevitável coreto...


... e o monumento Abraço, feito em bronze, para homenagear a construção da primeira igreja da localidade. O próprio monumento é sincrético, por mencionar todos os homens e mulheres de todas as raças que ajudaram a edificar Piranguinho.


Mas, como eu já disse, o carro-chefe daqui é o pé-de-moleque, doce feito classicamente de amendoim agregado com calda de açúcar, um daqueles petiscos bons para quebrar os dentes, como o torresmo e o quebra-queixo, mas que, segundo os produtores locais, não segue exatamente os cânones da sua manufatura, aquela mera rocha doce. Aqui o processo também incluiria a moagem do grão e o uso de rapadura.


A explicação para a preferência por este doce faz remissões antigas. Dos tempos em que ainda operavam ferrovias na região, mais precisamente. De fato, Piranguinho possui uma estação bem preservada no distrito de Olegário Maciel e a ponte de ferro sobre o rio Sapucaí, por onde o trem a ligava ao município de Itajubá.


Estamos no começo do século XX e as famílias complementavam sua renda com pequenos negócios, que incluíam a venda de produtos artesanais nos vagões dos trens durante suas paradas. Na estação de Piranguinho, um dos mais bem aceitos era exatamente o pé-de-moleque, que era vendido em tabuleiros, na maioria das vezes por crianças.


O nome do doce tem duas explicações, nenhuma delas firme suficiente para fixar uma “jurisprudência”. Na primeira, fala-se dos garotos que ficavam olhando as cozinheiras pelas janelas, atraídos pelo seu aroma inebriante. Algumas delas, ao ver as cabecinhas tímidas e os olhos gordos, diziam “pede, moleque. Pede, moleque” esperando a demanda pelo bocado. Na segunda, faz-se uma alusão à aspereza típica da guloseima, que lembraria um pé grosseiro das crianças que andavam descalças para toda parte onde iam (a versão moderna chamada pé-de-moça, feita com amendoim moído mais fino, remete a essa mesma lógica). Logo na entrada da cidade, uma estátua lembra, com exagero óbvio no pé, tanto o meio de venda quanto os próprios vendedores.


Por ocasião do aniversário do lugarejo, é realizada uma festa com uma semelhança ao aniversário de São Paulo, o tradicional bolo do Bixiga. Para quem não é da Terra da Garoa, explico. No bairro do Bixiga, é feito um bolo cujo tamanho aumenta um metro por ano, para que cada um represente um ano na idade da cidade. Por isso, no último mês de janeiro foi feito um bolo com 458 metros de comprimento, comemorando os seus 458 anos. Aqui em Piranguinho, o bolo é substituído por pé-de-moleque, naturalmente. Isso produziu o maior pé-de-moleque do mundo, atualmente com 23 metros, como conta esta placa na Praça da Paz. Não se trata de espelhar a idade, mas, a cada ano, procura-se superar o récorde anterior.


Muito embora ainda seja possível encontrar quem produza o pé-de-moleque artesanalmente, a maioria das iguarias encontradas é oriunda de fábricas, que modernizaram o negócio. Algumas delas são resultado do crescimento dos postos de venda, que emprestam seu nome ao empreendimento como um todo.


Além disso, os produtos se diversificaram muito. Os pés-de moleque estão mais sofisticados, feitos com chocolate e leite condensado. Há outros produtos de amendoim também, como cajuzinho, paçoca e o grão in natura, para acompanhar uma boa cerveja.


O comércio da iguaria foi evoluindo com o tempo. Dos meninos ambulantes, especialmente após o fim da linha de ferro, passou-se a vender o produto nas barracas, que são distintas por cores. A bem dizer da verdade, algumas delas cresceram tanto que já não podem receber o nome de barraca, mas de shoppings do amendoim, como é o caso da barraca amarela...


... e da laranja, que diversificaram bem mais a grade de produtos, e vendem bebidas, mel, rapadura e outros quitutes.


A barraca vermelha se manteve mais fiel ao amendoim, aperfeiçoando-se, porém, no quesito gourmetização, produzindo, inclusive, manteiga de amendoim, base para coisas como Amendocrem© e batida. Lembro que meu primeiro porre foi na base de batida de amendoim, que é docinha e engana muito, viu?


Algumas das barracas são verdadeiramente representantes deste nome, mas, como ficam na beira da estrada, possuem um movimento considerável. Nesta categoria, há a barraca roxa...


... e a barraca azul, que vende uns cajuzões gigantes.


Já as barracas que estão fora da rodovia são bem menores, pelo óbvio motivo de que o fluxo de veículos é igualmente menor. Ou seja, é preciso intencionalmente entrar na cidade para acessá-las. Como eu estava a passeio, nada que me importunasse, até porque cada uma delas tem sua sutileza. Nessa categoria, temos a barraca prata...


... a barraca verde, que também vende boas cocadas...


... e a barraca branca, onde encontramos trufas de amendoim, doce-mais-doce-do-que-doce-de-batata-doce.


Um registro e um protesto. Inexiste pé-de-moleque diet, ajudando a nós, diabéticos, a formar uma nova minoria social que se sente excluída neste universo de rapadura. A única coisa que se pode achar é aquela paçoquinha comprável a quilo na Sé e na Luz, ótimas, mas que tem dois defeitos: não é caseira e não é de Piranguinho. Acho que aquele que conseguir desenvolver uma fórmula que use ao menos frutose, menos devastadora para a gente de sangue doce, fará um bom negócio. Afinal de contas, poderá atingir também outros nichos, como a galera fitness e pessoal que tenha outras restrições ao consumo de açúcar. É um bom mercado a explorar.

Mercado... Hoje em dia falamos mais e mais dele, como uma panaceia universal que irá resolver todos os problemas da humanidade, mandando para o inferno da miséria apenas aqueles que não merecem sobreviver no mundo do empreendedorismo. Mas esse é o típico papo do senso comum, variável com o tempo e com o vento. É preciso olhar um pouco mais sobre o nascimento do conceito para usá-lo com sabedoria. Vamos fazê-lo agora, e a partir de seu criador, o escocês Adam Smith.

Estamos no século XVIII, às voltas com uma mentalidade de mudanças, mais especificamente nas vésperas da Revolução Francesa. Já não há mais clima para a permanência de sistemas monárquicos absolutistas, que mantém as pompas e circunstâncias de uma camada extremamente privilegiada e segura o crescimento de outras classes, que possuem cada vez mais tecnologia para produzir e enriquecer (a burguesia) ou a miséria de sempre (o proletariado). O problema não era só as bases políticas, mas também o formato econômico e monetário. A maioria dos países adotava uma política mercantilista, que se apoiava em forte intervenção do Estado na economia, principalmente na administração de metais preciosos que tinham valor de moeda. Sua doutrina principal era a soma zero, que significava que, a cada ganho que alguém tem, há outra pessoa obrigatoriamente perdendo. Como o sustento do aparato da corte se dava pela extração de dinheiro da economia, e esse era o lado positivo da conta, a banda negativa era custeada por quem produzia. Desta forma, um Estado muito grande retirava recursos demais do meio circulante.

As insurgências derivadas do pensamento revolucionário incluíam essa aversão aos privilégios dos reis, que empobreciam a maior parte da população. Claro: se a riqueza de um país é medida em ouro, quem o detém deixa os outros sem nada. Os princípios liberais clássicos, no entanto, viam o mundo sob outro escopo. Estamos em pleno Iluminismo, o movimento que mudou o eixo das relações humanas, que teorizou uma mudança da humanidade em busca do aperfeiçoamento. A sua palavra chave é liberdade: liberdade de dogmas, liberdade de tiranias, liberdade de escolha.

O polo de oposição ao mercantilismo e ao absolutismo que lhe dava sustentação veio do liberalismo econômico, cujo maior mentor era Adam Smith. O horizonte de fundo de sua teoria vem de uma constatação moral. Os homens são essencialmente egoístas. Quando alguém lhe vende alguma coisa, não o faz por benemerência, ou por entender que o desenho social necessita de gente que venda e gente que compre, mas porque quer melhorar suas condições materiais. Então é desse jeito que a banda tem que tocar.

Isso é um mal em si? Nada disso, diz Smith. É justamente dessa vontade de crescer como indivíduos que os seres humanos procuram produzir mercadorias cada vez melhores, e isso é o impulso básico do desenvolvimento da tecnologia. Como esse tipo de mecanismo pode girar se os indivíduos estão submetidos a leis que cercam todos os aspectos de suas vidas? Somente com liberdade econômica pode-se chegar ao maior desenvolvimento possível, e para isso a ênfase do modelo econômico precisa trafegar da instituição para o indivíduo.

O conceito mais famoso de Adam Smith é a mão invisível do mercado. Segundo ele, a economia de um país possui um estado de equilíbrio que deriva da lei de oferta e procura, e que dispensa todo o tipo de intervenções. A coisa funciona assim: o preço de uma determinada mercadoria está vinculado à sua disponibilidade. Isso é fácil de ver na feira. Quando é época de manga, ela passa a ser oferecida por vários feirantes e seu preço cai. Assim que a safra acaba e a fruta vai rareando, seu preço começa a subir, e somente aqueles doentes por manga se propõe a pagar o preço mais alto. A diminuição do consumo faz com que o preço se estabilize, até chegar uma nova época de colheita e o preço caia novamente. Além disso, há a concorrência. O preço base da manga é mais ou menos o mesmo. O que os feirantes podem fazer para que a freguesa opte pela sua? Descontos nas quantidades maiores, a entrega de um brinde, dúzias de treze, frutas já lavadas e outros artifícios que atraem os compradores. De uma forma ou de outra, pelo trabalho ou pelo engenho, é oferecida uma vantagem ao adquirente, repassando o ciclo do egoísmo: não é só quem vende que quer se locupletar; quem compra também quer fazer um bom negócio. Nesse sentido, os metais preciosos que davam lastro ao mercantilismo eram mercadorias como outras quaisquer, passíveis de variações no preço de acordo com sua oferta e sua procura. O valor intrínseco do enriquecimento de um país é o trabalho de seus indivíduos, realizado sem amarras externas. Esse é o princípio basilar do Capitalismo.

A mão invisível seria a metáfora para esse equilíbrio natural entre as forças econômicas. Todas as vezes que um Estado intervém na economia, esse equilíbrio é quebrado e o mercado deixa de funcionar como deve. O egoísmo humano persiste, e procurará meios desvinculados do trabalho legítimo para prosperar, como a corrupção, por exemplo. Por este motivo, o mercado e a concorrência devem ser livres.

Mas a doutrina de livre mercado não pode ser imune a críticas, como parece ser a proposta dos neoliberais de plantão. Em primeiro lugar, e sem juízo de valor, a livre concorrência traz em si a doença da contradição. Monopólios e oligopólios são derivações possíveis no mundo dos negócios. Preços combinados são prática comum: a OPEP, por exemplo, não pratica livre concorrência, mas nasce de seu contexto. Sempre é possível que os feirantes se juntem para combinar o preço da manga. Ou seja, o livre mercado pode atuar, de per si, para impedir a livre concorrência, já que a livre associação também está no rol das liberdades do indivíduo. Para evitar esta circunstância, criam-se leis anticartel, o que é, ora vejam, uma intervenção estatal.

Outra coisa importante a notar é que o mercado funciona bem em países com economias sólidas e população com um nível aceitável de renda. É muito difícil imaginar que países com alta concentração de renda, como é o caso da Terra de Santa Cruz, possam oferecer oportunidades razoáveis para quem deseje empreender, em que pese nossa carga tributária elevada (e de péssimo retorno). Por fim, há ainda a questão de que atribuir áreas problemáticas, como a preservação do patrimônio histórico e o meio ambiente, dificilmente seriam bem geridas pela iniciativa privada, por conta do confronto de interesses. Uma construção histórica, mas totalmente não-funcional, situada em local privilegiado comercialmente deveria ser tratada de que forma pelo mercado? É óbvio que os interesses econômicos prevaleceriam, porque são mesmo importantes, mas mesmo países com alto índice de liberdade econômica têm interesses históricos. Mas o dono do terreno onde está a obra pode cismar de simplesmente derrubá-la para vender o terreno. Se isso te parece absurdo, a intervenção estatal é a solução para o problema. O mesmo se aplica quando pensamos nas áreas ainda preservadas de vegetação original. Ou estão lá porque o Estado é dono delas, ou porque há leis que obrigam sua permanência. Presença estatal, de uma forma ou de outra.

A mão do mercado explica, em boa parte, a diferença entre as barracas de Piranguinho. As barracas grandes, como a amarela e a laranja, tem mais procura por uma série de fatores: porque são mais tradicionais, mais bem localizadas, mais sortidas, mais divulgadas. Cresceram e prosperaram. A pequena barraca prata é menos procurada, e talvez não encante como as outras, talvez terá uma história mais curta, mas isso não impede que tenha o melhor dos produtos. Suas trufas são prova de criatividade, e é isso que essa estranha divindade talvez premie, fazendo-a crescer. O deus-mercado não é previsível em sua totalidade; seus humores variam mais que o tempo de São Paulo, e todas as vezes que vemos uma portinha fechando sentimos um pouco de sua crueldade e indiferença pelos sonhos que se encerram junto com o negócio. O Capitalismo não é para idealistas. Sonhos, só os de consumo. 

Adam Smith não foi um insensível que não tenha detectado estes fatores, e não quis dar uma solução final para a economia de qualquer país. Ele tinha a Inglaterra e a Europa continental à sua frente para analisar, e não tinha um horizonte meramente técnico, sendo notável seu interesse humanista, quando afirmava que havia, de fato, um estrato populacional que precisava de socorro estatal para sobreviver em ambiente capitalista. Mas também é preciso um pouco de consciência na quantidade de incenso a ser acendida à frente de seus altares. Como eu disse, para que o liberalismo funcione bem, é preciso propiciar opções viáveis às pessoas. É muito diferente viver em São Paulo ou em Piranguinho. É diferente ser pobre em São Paulo ou em Piranguinho. O liberalismo é uma forma válida para enriquecer um país, mas não podemos esquecer que países como Japão e Coréia do Sul cresceram sob forte intervenção estatal na economia, e ninguém pode afirmar que são modelos de fracasso. Como seria São Paulo liberal ou Piranguinho liberal? Até que ponto as barracas maiores não engoliriam de vez as menores? São pontos a se cuidar antes de erguer uma bandeira que muito pouco conhecemos em Terra Brasilis. Pode funcionar? Pode. Pode não? Também pode. Se eu tivesse que fazer uma aposta, seria na segunda hipótese, mas esse é papo para outro momento. Por ora, vou comer uma paçoquinha da 25 fazendo de conta se tratar de uma autêntica peça piranguinhense, enquanto a patroa se delicia de verdade. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Tem muita gente que se diz liberal sem entender o que significa o termo, e, pasmem, há muita gente que o critica sem também saber nada sobre ele. O antídoto é ler. Por isso, recomendo o livro de cabeceira que toda pessoa interessada em Economia deveria ler. Indico o primeiro volume, porque a obra é extensa. Caso gere interesse, leia os demais livros da obra.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. Volume 1. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Col. Os Economistas.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 4ª estação: Delfim Moreira e as trilhas tão significativas quanto os cumes

Olá!


Eu faço força para acreditar na meteorologia, mas ela não me ajuda. Pouco antes de viajar, fui consultar um site de previsão do tempo, que me garantia clima firme para os primeiros dias da minha folga, e chuva intensa a partir do momento que passo a relatar agora. O resultado foi exatamente o inverso: muita chuva nos três primeiros dias, e, embora o céu se mantivesse com o cenho carregado, parecia estar mais estável hoje. Ora, direis, você só presta atenção quando a previsão é furada. Quantas e quantas vezes os esforçados meteorologistas acertaram seus vaticínios e você fez vista grossa? Eu sei, eu sei... O nome disso é viés de confirmação e é um efeito extremamente comum no psicológico humano. Já prometi falar sobre isso mais de uma vez, mas também não será agora. Vou me limitar a reconhecer que o trabalho de previsão climática é importante e mais acerta do que erra, mas há um velho ditado que preconiza: se faz sol, leve o guarda-chuva; se chove, faça como melhor lhe convier. Imbuído neste espírito, deixei o guarda-chuva no porta-malas e me mandei para Delfim Moreira.


Quando fui para Marmelópolis, já havia passado por aqui, onde cheguei a aventar a hipótese de me hospedar. Acabei optando por Itajubá por uma questão de praticidade (e preço), mas gostei bastante do lugar. O nome da cidade remete a um dos presidentes da Primeira República, e que nasceu na região (mais precisamente na já relatada cidade de Cristina). É um dos políticos que fez parte da alternância entre paulistas e mineiros no poder central do Brasil, como já narrei em meu texto sobre Passa Quatro. O nome original do local era Descoberto do Itagybá, nome dado pelos bandeirantes que desbravaram aquele território, muito maior do que o atual. A esta porção é que reservaram o nome de Delfim Moreira, registrado em sua antiga estação de trem.


Assim como em Marmelópolis, o negócio de processamento de frutas era próspero por aqui. Isso levou grandes indústrias para a região, todas desativadas hoje, dadas as dificuldades de transporte e a desvalorização do preço dos marmelos e goiabas. A antiga fábrica da CICA é a mais bem conservada delas, e abriga equipamentos culturais, bem ao lado da prefeitura. Lembro de seu slogan: “se é CICA, bons produtos indica”.


Outro grande empreendimento era a indústria Peixe, da qual nada localizei. O que há, em razoável estado de conservação, é a Colombo (“a qualidade de sempre”), famosa por sua geleia de mocotó. Um bom tapinha a deixaria em ordem. Dos doces, só restaram as receitas caseiras e a produção artesanal.


A cidade é toda em desnível, dada sua posição em área montanhosa. A própria igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Soledade, fica a meio caminho entre o alto de um monte e o fundo do vale, e, ao contrário do que costuma ocorrer, fica em posição longitudinal em relação à via principal.


Mais incomum ainda é sua torre, muito alta e destacada do corpo principal da igreja. Gostaria de ter entrado nela para conhecê-la, mas estava tudo fechado. À frente, e complementando o conjunto, o indefectível coreto.


Talvez a explicação para o fechamento estivesse no outro lado da cidade, onde fica uma igreja cuja padroeira é Nossa Senhora Aparecida. Bem na véspera do feriado, os preparativos para a festa estavam fervendo, com montagem de barracas e equipamentos de fazer comida.


Ao contrário do que havíamos feito no dia anterior, achamos melhor não estorvar ninguém com papos furados e fomos explorar outro nicho da cidade, bem mais recente: a cerveja artesanal. Na rua da estação, existe a cervejaria Hop, de visual moderninho, e que só abre nos finais de semana.


E bem perto da última igreja há a cervejaria mais famosa de Delfim Moreira, a Kraemerfass. A casa é construída toda sob temática alemã, com sua arquitetura típica, e a microfábrica fica lá mesmo, em um dos predinhos erguidos em tijolinhos.


A cerveja é realmente boa, principalmente a dunkel, mais escura. Aqui, estamos degustando uma tipo Viena. Ingenuamente, perguntei para a mocinha que nos atendeu porque eles não fazem cerveja do tipo IPA, tão saborosa e na moda. A resposta foi simples: IPA é uma cerveja inglesa, e a casa é de inspiração alemã. Toma, burro.


Estou me perdendo cronologicamente. A história da cerveja foi à noite, mas antes disso, durante o dia, fomos aproveitar o estio para andar pela parte campestre. Para quem vem de Itajubá, bem antes do núcleo urbano, há a cachoeira do Ninho da Águia, pedregosa e cercada de mata densa.


Fica inscrita em uma propriedade que se trata de um clube de campo, construído às margens do rio Santo Antônio, próximo ao distrito de Água Limpa, onde também se pode encontrar piscinas, quiosques, espreguiçadeiras e um grande restaurante.


Espelhando o relevo da região, o curso d’água se move por grandes desníveis, o que gera uma grande quantidade de saltos e quedas. É bonito de ver e perigoso de entrar, embora haja alguns remansos possíveis, como este abaixo.


O lugar mistura ambientações naturais e construídas. Há trilhas que levam ao topo da cachoeira, entrecruzando flora nativa. Estando lá, dá para perceber o formato circular que acaba por inspirar o nome dado ao local.


O rio Santo Antônio tem uma série de ilhotas ligadas por pinguelas, o que permite observar as várias bromélias que estão lá plantadas, em simbiose com as árvores hospedeiras, que abrigam borboletas às dúzias.


Eu e a patroa ficamos bem uma hora sentados admirando o belo lugar, e aproveitamos para pegar umas dicas. Bem mais próxima do centro, fica a cachoeira do Itagybá, mais rústica e embutida em meio natural. É bem verdade que se trata de propriedade particular, mas o acesso é franqueado livremente através de trilha.


O caminho até a cachoeira, apesar de não ser longo, é lindo. Está crivado de bichos de toda espécie, em especial por grilos e gafanhotos, em uma mata que vai se adensando à medida que se aproxima da margem da queda d’água.


A cachoeira é suprida pelas águas do ribeirão do Taboão. Aqui, finalmente, foi possível gelar as costas, e ficamos um bom tempo observando a água que corre e o cantar dos passarinhos.


Tudo muito romântico, mas o pessoal da cidade nos cantou a bola: se você quer ver como o Itagybá é bonito, precisa pegar as trilhas e vê-lo do alto, o que fiz. Para tanto, há um conjunto de trilhas que se chama Cruz das Almas. Credo! É um caminho que tem trechos de mata bem fechada, com algumas ladeiras um bocado íngremes.


Não sei exatamente porque o monte tem esse nome. Devo supor que é por causa do cemitério que fica nas imediações, mas não dá para ter certeza, porque não fica tão perto assim. De qualquer forma, há várias cruzes dispostas pelo caminho, meio no estilão Vila Formosa. Credo2!


Quando me disseram da existência de uma gruta a meio caminho do topo, imaginei uma caverna ou uma escavação na pedra, alla São Thomé das Letras, por isso fiquei procurando a tal. Na verdade, é uma construção em pedras, onde se encontra uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes (a mesma de Maria da Fé).


No ponto culminante, depois de uns dois quilômetros de caminhada (acho), temos aquilo que é o maior distintivo desta mata: um grande cruzeiro fabricado em ferro, ornado internamente com várias cruzes menores. Em tese, deveria ser visível ao longe, mas a selva mais cerrada não permite essa facilidade.


Pois é daqui, depois de passar pelo buraco de uma cerca de arame farpado, que é possível vislumbrar a cachoeira do Itagybá por cima, dando uma ideia muito mais precisa de sua dimensão. Realmente, o conjunto de quedas visto de perto não dá ideia exata de real tamanho.


Ainda andamos pelos lados dos bairros de São Bernardo e do Barreirinho, mas a garoa que voltou a me perturbar pode não ter sido suficiente para me impedir de amassar barro, mas achei pouco salutar para minha máquina ficar sendo molhada a esmo. Mas a formiga filosófica veio me fazer coceiras na consciência. Muitas das trilhas prometem te levar para algum lugar em que você espera confirmar o que pensa encontrar. Outras, você encontra algo oposto, inesperado, regozijante ou decepcionante. Outras ainda te levam nem se sabe bem para onde. Essas sendas por vezes tortuosas, por vezes nebulosas, por vezes circulares, por vezes objetivas e por vezes ilusórias são a melhor metáfora que consigo encontrar para os caminhos do conhecimento. E, na medida em que chegamos ao seu fim, percebemos que há sempre mais e mais caminho. É possível haver limite? É possível a totalidade do conhecimento?

A resposta é: não sei. Mas estou longe de ser o primeiro a afirmar isso. Há mais de 2000 anos os sofistas já faziam da impossibilidade de conhecer um instrumento para se voltar os olhos à retórica e ao seu proveito para a vida política, pouco ligando para um verdadeiro valor absoluto da realidade. Mas é um pouco depois, no período do Helenismo, que o ceticismo foi elevado a categoria ética, através do pensamento do grego Pirro, da cidade de Élida.

Não se sabe muita coisa sobre sua formação, mas Pirro era um homem de cultura em sua terra. Em um determinado momento, tomou parte da expedição de Alexandre Magno para o Oriente. Por lá, conheceu civilizações tão consolidadas quanto a grega, como os persas, os afegães e os indianos. Todos estes povos possuíam seus sábios e sistemas de conhecimento, o que logo fez com que Pirro e companheiros confrontassem tudo aquilo que sabiam com esses novos saberes. Estando bem longe de um espírito dogmático, Pirro percebeu que, mesmo com premissas e conclusões bastante diversas do que obtinham os gregos, os sistemas de pensamento orientais eram igualmente válidos. Sua conclusão era a mesma dos sofistas – é impossível conhecer, não existe essa coisa da plena certeza. Sua novidade está na transposição da categoria epistemológica para abordar a predisposição ética. Vamos vê-la.

É inegável que os seres possuem uma natureza e que essa natureza possua em si mesmo uma verdade. Afinal de contas, as coisas estão aí, para que possamos percebê-las. Mas quais são as nossas condições de atingir essa verdade? Como vejo as estrelas e posso assegurar o que elas são de fato? Como designo seguramente o que é um ser humano, além de um bípede implume? Para que fosse possível chegar a qualquer conclusão indisputável, seria necessário que a ferramenta humana que dispomos, a razão, estivesse livre de qualquer tipo de filtro ou interferência, como os dogmas que aprendemos ou as opiniões que adquirimos. O problema é que tal pureza do intelecto é inatingível. Cada um de nós possui um tal conjunto de perspectivas que nos tornam únicos, e uma minúscula fração de divergência nos juízos é suficiente para que a ambiguidade se estabeleça. Pirro não deixou nada escrito, mas outro cético, Enesidemo, sintetizou em dez pontos o que torna instável a razão. O rolo é que também não temos registros dos saberes de Enesidemo, então nos resta aquilo que foi coligido por outros céticos, como Sexto Empírico, que registrou esses tropos. A premissa básica é movida pela percepção que vem dos sentidos.

1. Os homens não são diferentes dos animais na questão da percepção. No entanto, os sentidos são muito distintos quando pensamos em sua acurácia. O cão tem olfato privilegiado, assim como o morcego tem audição insuperável e a águia, uma visão muito aguçada. Isso faz com que cada espécie viva adquira o cosmos de modo diferente da outra;

2. Cada homem é constitucionalmente diferente do outro. Uns são mais altos, outros mais baixos; uns são mais gordos, outros mais magros; uns mais ossudos, outros mais débeis. Esses pares dicotômicos podem ser levados à exaustão e combinados entre si, de modo infinito;

3. Cada órgão do sentido tem características próprias. É de se supor que a visão e a audição consigam captar sensações à distância, enquanto o tato e o paladar necessitam de contato para obtê-las. Além disso, é de se imaginar que há órgãos mais desenvolvidos que outros em diferentes pessoas, o que faz com que percebam melhor;

4. A disposição de um indivíduo muda a forma como ele apreende os objetos. Uma pessoa sonolenta não vê as coisas do mesmo modo que alguém bem desperto. Um medicamento pode turvar a vista da pessoa, e sua apreensão é outra com relação a um momento saudável;

5. A posição do objeto influencia na perspectiva que temos sobre ele. É diferente ver algo de perto ou à distância, centralizado ou lateralmente, no mesmo plano ou acima dele (lembram dos pontos de vista da cachoeira do Itagybá?);

6. Os objetos nunca são apresentados puros diante de nós, exigindo um esforço fenomenológico para isolá-los. No entanto, é sempre árduo de fazê-lo. Um simples iogurte, por exemplo, pode estar em uma mesa, uma gôndola ou uma geladeira, só ou com outros alimentos; pode ser provado antes ou após o almoço, ou em jejum; pode ser colhido com uma colher de plástico ou de metal, ou bebido direto no copo. Ou seja, a sensação é sempre uma mistura ou uma combinação de sensações;

7. A quantidade e a forma com as quais um determinado objeto se apresenta a nós interfere diretamente na maneira com a qual o apreendemos. De fato, é bem simples imaginar as diferenças entre vapor, gelo e água líquida. Tudo é água, mas apresentada em diferentes estados, com diferentes maneiras de serem percebidas pelos sentidos;

8. Há uma relação entre o objeto que é estudado e o sujeito que o pesquisa. É mais possível conseguir neutralidade quando algo não me diz tanto respeito, mas isso afeta o meu interesse, que se torna menor. A recíproca é verdadeira. Imagine que estou pesquisando sobre o meu todo-poderoso Timão. Enviesadamente, vou pesquisar tudo o que estiver ao meu alcance, até o fundilho do baú. Se a tarefa for analisar o XV de Itapipoca, talvez eu consiga fazer um bom trabalho, mas haverá o limite do seu cumprimento, e pronto;

9. A frequência com que ocorrem os fenômenos também interferem na maneira como os absorvemos. Uma novidade pode aumentar muito o meu interesse, mas sei pouco sobre ela, e talvez demore muito para que se obtenha uma nova experiência;

10. Finalmente e mais importante. Os homens são persuadidos em suas idiossincrasias por seus costumes e opiniões. Achamos estranhas a poligamia e a poliandria? Há povos que não pensam assim. Tem costumes que derivam de crenças e vertem para leis motivados por suas próprias histórias e razões, alheias a nós, e assim nascem aparatos dogmáticos como as Religiões, que ditam regras imutáveis e discricionárias.

O que temos é a acatalepsia, termo grego usado pelos pirrônicos para indicar a impossibilidade de se chegar a verdade. No entender dos céticos, qualquer argumento pode ser contraposto por outro, com igual peso e validade. Não há, por conseguinte, uma hierarquia possível entre definições de verdade, porque sempre haverá a influência dos dez tropos citados acima. Quando postos diante de todas estas encruzilhadas, o cético conclui que só resta a suspensão do juízo, a epoché. Este é o único caminho para uma tranquilidade que sustente a paz de espírito.

Se a vida boa é uma procura constante pela verdade, ela se torna igualmente impossível. Mas, se a verdade é inatingível, isso não significa que o caminho não exista. Ele é trilhado através de uma “arte” desinteressada por um objetivo escravizante, um constante duvidar que representa, no fundo, uma liberdade de escolha quando nos vemos diante das opções. Se a nossa preocupação não é com o objetivo final, o prazer passa a residir no próprio meio em que o buscamos, como a trilha que se percorre sem a necessidade de se ter um porquê. A beleza está no próprio caminho, assim como nas veredas de Delfim Moreira.

Recomendação de leitura:

Como se pode deduzir do que eu mencionei acima, é muito raro encontrar escritos de uma época tão distante. Pirro não nos legou escritos, mas Sexto Empírico sintetizou o pensamento da escola cética de modo a termos um retrato consistente daquilo que eles podem nos ensinar.

EMPÍRICO, Sexto. Contra os Retóricos. São Paulo: Unesp, 2013.