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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – Epílogo

Olá!


Em todas as séries de viagens que desenvolvi neste espaço, sempre procurei intitulá-las com metáforas marítimas. Para quem gostou destes trilhos perdidos, convido a lê-las, porque têm basicamente o mesmo formato:


Claro que isso tudo se dá porque o oceano traz uma figuração sobre viagem, mas também nos lembra do mistério do desconhecido, das incertezas da partida, de uma certa melancolia de quem ruma sem saber exatamente por que e para que. Desta vez, no entanto, sem fugir de uma retórica que remeta às jornadas, variei de nomenclatura. Fui buscar uma temática ferroviária, que também tem seu encanto, já que os trilhos e o trem que some no horizonte são ferramentas poéticas que nos lembram de como nossos destinos são inevitáveis. Eu já fui jovem, sonhei como qualquer um e escrevi letras de música, achando que poderia impressionar as pessoas. Como eu digo na música Largo da Misericórdia...

“Ao léu, o trem que nunca vem
Sem ele, nada me arrasta
E, se não me arrasta, não tenho porque crer no destino
Só que eu estou aqui, no largo e ao largo
Esperando o trem chegar
Prá sempre de partida”

... com algo que vai entre o desencanto e o rancor. É claro que eu jogo com contradições, um instrumento lírico para dizer que a vida é um negócio louco e transitório. Não creio no destino, mas estou entregue a ele, coisas assim. Então é legal pensar no trem, que custa a chegar, que nem se sabe se vai chegar, se a estação vai acabar antes que ele chegue, que vem como uma miúda fumaça no horizonte, que passa por cima de qualquer coisa que cair em seus trilhos, que ao descarrilar sempre representa desgraça e que desaparece entre as montanhas, deixando para trás apenas o silêncio.

Apenas o silêncio? Não, deixa também a memória. E isso vai ajudar a explicar a inspiração para o nome da série. Estamos em uma região das Gerais repletas de recordações do universo ferroviário, no mais das vezes constituídas por antigas estações, ou o que restou delas, sem nenhum sinal de seus antigos trilhos. De fato, algumas destas estão bem preservadas e ganharam outra destinação, enquanto outras viraram apenas lembranças, especialmente naqueles que, de uma forma ou de outra, tiveram suas vidas ligadas à atividade. Para estes, os trilhos se perderam. Eu quero achá-los.



Eu mesmo não tenho grandes memórias ligadas às linhas férreas. Na cidade grande, o fundo da paisagem é composto por prédios, e não por trilhos que cortam vales. Pior ainda no metrô, um imenso tatu que cruza o subsolo de um lado para o outro, sem nenhum tipo de romantismo. Tirando a burla dos muros da linha para chegar à casa do falecido tio Chico, todas as minhas ligações com o trem são utilitárias: ir e voltar do serviço. Houve uma época em que eu saía de São Caetano do Sul, onde eu trabalhava, para ir até a Vila Prudente, onde eu estudava. Era possível fazer o percurso de ônibus, mas demorava o triplo do tempo que o trem levava para cumprir as duas estações necessárias. Então eu encarava a máquina de ferro no fundo do vale de sua existência. A década de 80 foi um período em que o trem da Santos-Jundiaí vivia sujo, roto, quebrado, barulhento. O consumo de drogas ainda era muito reprimido, mas os vagões eram uma espécie de zona franca, um território livre para festinhas, e recendiam a bafo de pantera. Eu mesmo costumava acender meu inocente Marlboro, para deixar claro que meu cigarro era de baixos teores. Desse jeito, o máximo que poderia acontecer era ser tocado do vagão. Mas nunca aconteceu.

Ah, sim, lembrei de duas coisas bacanas relacionadas ao trem. Uma delas eu já contei aqui, que era quando meu avô me levava ao campo do Nacional, time cuja origem está intimamente ligada à ferrovia que lhe costeia. Hoje a linha é chamada de Rubi ou Diamante, nunca sei bem. Para nós, era simplesmente a linha da Lapa, e descíamos na estação Água Branca. Dali, eram cinco minutos até a Comendador Souza. A outra é muitíssimo remota e são só nuvenzinhas na minha cabeça. Trata-se da única vez que fui com meus pais para o norte do Paraná de trem. Se eu não me engano, a composição partia da Capital com destino a Ourinhos, na divisa. De lá, era preciso baldear para outro trem, da linha federal. Depois, em Londrina ou Maringá, o restante do trajeto era cumprido de ônibus.

Lembrei de mais uma. Quando eu era criança de uns sete ou oito anos, ganhei de Natal aquele que foi um dos presentes mais caros da minha vida: um Hit Train, antecessor do Ferrorama, caro para os padrões do operariado em geral, mas eu devo ter me comportado bem e meus pais acharam que deveriam gastar um pouco mais naquele ano. Era um brinquedo lindo, composto por um trenzinho que simulava uma máquina elétrica com seus respectivos vagões. O aparelhinho era a pilha, e deslizava por uma série de trilhos plásticos, com alavancas para desvio e reversão do movimento do trem. Eu costumava montá-lo por sobre minhas caixinhas de futebol de botão, para dar a sensação de via elevada. Também fazia as curvas passar pela beirada da mesa, de modo a dar sensação de perigo com o tombamento do trem. Numa dessas, a queda fez com que o compartimento das pilhas saltasse, e eu comecei a compreender que os remendos dos trens originais também eram reprodutíveis no mundo imaginário dos atrevidos petizes. Putz, era um brinquedo muito legal... Deveria tê-lo mantido até hoje.

Contei tudo isso para tentar responder à pergunta que tantos fazem: por que as ferrovias praticamente acabaram no Brasil? E por que elas trazem tantas boas lembranças para quem as vivenciou de perto?



É impressionante, mas é só o Brasil sendo o Brasil. Não tem certos absurdos que parecem acontecer só por aqui? Pois é, este é mais um. Em um país de dimensões continentais, é de se esperar que fossem construídos diversos ramais que, em certo momento, se interligassem. Acontece que as linhas foram construídas autonomamente, sem nenhum tipo de planejamento, e cada uma tinha seus parâmetros próprios de construção. Em alguns casos, as plataformas das estações precisavam ser mais altas, dependendo do modelo de vagões adotados. Isso explica porque há estações com altura tão variável. É óbvio que a região em que estamos tem um certo padrão, porque estamos falando somente da RMV – Rede Mineira de Viação. Mas este não é o grande busílis.



A dor de cabeça maior diz respeito à questão das bitolas. Eu já falei sobre o caso em meu texto sobre Bananal, mas vou retomar rapidamente. Bitola é a largura entre as rodas de um trem, o que determina a distância do paralelismo entre os trilhos de uma linha. Digamos que uma máquina tenha bitola de um metro. Isso significa que os trilhos deverão obrigatoriamente estar separados nesta medida. Não é simples? Ocorre que nossos ímpares administradores costumam se preocupar muito com o universo que orbita seus umbigos e esquecem de por a cabeça para fora da toca, e nunca se planejou uma bitola padrão para as nossas linhas férreas. Já ouviu falar de um cara “bitolado”? Isso indica uma pessoa que pensa sempre da mesma maneira, por mais que se mostre que as coisas são diferentes. Os trens também são bitolados, só andam em trilhos com aquela largurinha específica que cismaram, por um motivo muito prosaico – são engenhos sólidos, construídos para serem como são. Não dá para alargá-los ou encolhê-los ao bel prazer do ínclito governante.



Isso quer dizer que um trem não pode passar de uma linha para outra, ficando escravo dos trilhos adequados ao seu tamanho. Isso fazia a atuação de uma composição ficar restrita ao seu próprio ramal, e, para atingir novos destinos, só com transferências: baldeação para passageiros, transbordo para cargas. Isso aumentava um bocado o tempo das viagens e multiplicava seus custos. Pensem, por exemplo, no pessoal e no espaço necessário para tirar todas as toneladas de grãos de uma composição e colocá-las em outra.




Não foi esse o único fator que levou à substituição no modelo de transporte, no entanto. Uma desgraça nunca vem sozinha e uma coisa puxa a outra. O principal motivo para a construção de ferrovias foi o transporte de produtos agrícolas, notadamente o café, tão dominante na primeira metade do século XX. Só que as coisas vêm e vão, e os cafeicultores experimentaram um grave declínio, refletindo na falta de atualização tecnológica das linhas. Com a chegada de Juscelino Kubitschek ao poder, e com a implantação de uma política desenvolvimentista baseada especialmente na chegada da indústria automobilística ao país, mudou-se a matriz de transportes tupiniquim. Afinal de contas, o princípio geral que norteava o governo era que não bastava crescer, era preciso crescer depressa, os tais “cinquenta anos em cinco”. Substituir ferrovias por estradas de rodagem tinha duas grandes vantagens para esse modelo. Por um lado, era muito mais rápido nivelar e asfaltar um terreno do que enchê-lo de dormentes e trilhos. Por outro, dava-se um incentivo e tanto às recém-chegadas montadoras, que venderam caminhões aos borbotões para substituir os antigos trens. Estava aberto o sepulcro da linha férrea.



Pensou-se a longo prazo? Não, né... Mas na Ilha de Vera Cruz costuma ser assim mesmo. Os trens eram realmente lentos, e uma viagem de longo curso era um suplício. Nesse sentido, os ônibus são ágeis, menos barulhentos e possuem mais flexibilidade, podendo mudar de trajeto ao sabor das circunstâncias. O mesmo se aplica aos caminhões para o transporte de cargas. E para se ter uma malha decente precisaríamos substituir quase tudo, padronizando bitolas, reerguendo estações obsoletas, modernizando o maquinário, atualizando os funcionários... As vantagens não apareceriam da noite para o dia, mas, na ponta do lápis, elas seriam grandes. Um trem carrega muito mais do que os maiores caminhões, com risco ínfimo de acidentes e perda de cargas, além do menor potencial poluente. Além disso, bons equipamentos garantem velocidade muito superior à das poéticas, porém ineficientes marias-fumaça. Peço desculpas aos amantes do velho vapor, mas o seu lugar é o museu. E as velhas estações merecem uma nova destinação, mesmo que não esteja relacionada ao seu antigo uso.



Na verdade, o que é mais digno de notar é como esse tipo de reminiscência nos toca a memória afetiva. Embora não tenhamos o costume da resistência, o fato é que há coisas que nos cutucam o fundo da alma, e deixamos elas ir embora. Resta apenas o que lembramos, e por isso estes artefatos são tão importantes. Só que a tal memória afetiva é marota. Vamos ver isso rapidinho.

Endel Tulving é um psicólogo canadense de origem estoniana que se especializou no estudo da memória. Antes da publicação de sua original abordagem, já se dizia de uma tipificação da memória, sendo uma de curto prazo e outra de longo. Na primeira, estariam os dados que usamos no nosso dia-a-dia e que logo são descartados, assim que perdem sua utilidade. Por exemplo, quando pegamos um jornal, damos uma passada rápida pelas manchetes. Aquelas notícias que não nos chamam a atenção são brevemente esquecidas, e damos atenção àquelas mais importantes. Isso acontece porque não há nenhum proveito em reter as informações descartáveis, mas elas passam pela nossa memória, até mesmo porque são a porta de entrada para a memória de longo prazo, aquela que fica retida em nosso cérebro, e que são recordadas na medida em que se fazem necessárias, e estão intimamente ligadas à aprendizagem.

Para Tulving, essa divisão era insuficiente para explicar adequadamente o fenômeno mnemônico. No longo prazo, parecemos ter uma memória intimamente ligada ao conhecimento, e outra aos acontecimentos. Senão vejamos.



Eu posso pedir para vocês enumerarem quantas classes gramaticais conhecem. A lista começará – substantivo, pronome, verbo, artigo, etc. Pode ser que alguém lembre de todas, pode ser que se lembre de uma ou duas. Pode acontecer ainda que não se lembre de nenhuma, mas, a partir de uma dica, todas as classes venham enfileiradas. É um tipo de memória que é dividido internamente em categorias: diga uma cor, diga uma fruta, diga um nome. Essas memórias, portanto, tem uma carga de significados que permite traduzir conhecimento. Por este motivo, é chamada de memória semântica.

Mas, e se agora eu perguntar QUANDO ou ONDE vocês aprenderam o que são as classes gramaticais? Pode ter sido na escola, em casa, na biblioteca. Pode ter sido com professores, com os pais ou com os livros. O fato é que dificilmente alguém se recordará disso. Com perdão aos professores (ou a quem tiver ensinado), os itens da memória semântica não fazem distinção habitual do meio com o qual são absorvidos. Aprender uma classe gramatical não é um acontecimento, apenas um ato cognitivo.

Mas não lembramos de um monte de fatos que acontecem em nossas vidas? Sim, claro. E isso é função de outro tipo de memória, muito mais pessoal que a semântica. É a parte emotiva de nossas lembranças, onde o contexto geral dos acontecimentos é imprescindível para a sua compreensão. É o que se chama de memória episódica, ligada aos eventos de nossas vidas. E como é feito o resgate dessas informações pela memória?

Parece que possuímos uma espécie de indexador que ajuda a consciência a recuperar a informação armazenada na memória de longo prazo. Mas enquanto o indexador da memória semântica é a categoria temática onde encaixamos o conhecimento, e que funciona por semelhança, na memória episódica o índice é composto pelo tempo. Quando recordamos de um evento qualquer, todo um conjunto de circunstâncias é carregado junto, para que se possa remontar o contexto com o qual ocorreram. Dessa forma, é possível que se desça a um nível de detalhe muito maior na memória episódica do que na semântica. Pense no primeiro beijo: talvez você lembre até a roupa que vestia, o que certamente não ocorrerá se você tentar resgatar o que lhe rodeava quando você aprendeu o que é advérbio. Então o índice “primeiro beijo” vai te levar de volta no tempo, fazendo com que você reviva mentalmente o evento.



É exatamente o que acontece com a memória afetiva do pessoal que viveu sob a sombra das estações ferroviárias e das fumaças das locomotivas, que, nos casos das cidades pequenas, acabam por se tornar mais relevantes. Esses objetos são índices que lhe trazem um conjunto completo de recordações, como a partida de um filho para a cidade grande, um pedido de casamento feito em um de seus vagões, o apito que parecia mais triste no dia em que a avó morreu, ou o simples ruído da descarga do primeiro trem que partia no dia, um pouco mais tarde do galo cantar e que acompanhava o cheirinho de café coado na hora. Dessa forma, a memória afetiva, aquela que nos toca, é consequência da memória episódica.



E por que a memória afetiva é matreira? É que, embora a memória episódica traga uma informação de contexto muito mais detalhada que a semântica, nem todos os seus componentes são resgatados em um mesmo nível. Em outras palavras, as informações não são todas disponibilizadas para a consciência com a mesma vivacidade. Isso significa que a memória afetiva tende a ser distorcida, com ênfase em seus componentes centrais e desvanecimento dos elementos periféricos. Exemplificando, posso pensar que o cheiro do café da minha infância era o melhor do mundo, porque estava acompanhado de um monte de outras coisas que me felicitavam, de eventos positivos. Se eu tomar o café hoje em dia, poderei ter duas reações: decepção em perceber o quanto ele é igual aos outros, ou entrar em um processo de negação, exatamente aquele que diz como as coisas eram boas “naqueles tempos”, e que hoje não valem nada.

Não é verdade. Lembramos com carinho do tempo das marias-fumaça, mas não há sentido em achar que elas eram melhores que os atuais metrôs, mais rápidos, mais seguros, menos poluentes. E mesmo que a usássemos hoje, sentiríamos desconforto em lembrar o quanto eram barulhentas, pesadonas, incômodas. Não que isso seja um mal, mas tudo tem seu tempo certo, e o lugar das memórias e lá mesmo: nas memórias. Por isso, é preciso tomar um pouco de cuidado para não deixar que um saudosismo nos absorva, especialmente quando a nossa vida se encaminha mais para a memória do que para a vivência. Eu, por minha parte, sei de um monte de coisas que não são exatamente como as recordo, e procuro meter o pé na pedra e na lama, vivendo o hoje da melhor maneira possível, porque lembro de tanta coisa que eu sei que não vai voltar, e que, se voltasse, não seria como antes. Bons ventos a todos e até a próxima romaria!!!



Recomendação diversas:

Só em inglês ou nos compêndios de Psicologia. Este aqui está disponível no Google Books:

TULVING, Endel. Elements of Episodic Memory. Gloucestershire: Clarendon, 1983.

Uma belíssima pedida é o site mantido pelo Ralph Mennucci Giesbrecht, que vem pesquisando a tempos sobre as linhas férreas deste Brasilzão de meu Deus, incluindo muita coisa que já desapareceu quase que por completo dos anais de nossa história. Ele tem livros disponíveis para vender, que, assim que o parco orçamento permitir, pretendo comprar. Segue o endereço:


E, claro, todas as cidades deste périplo, todas a distância razoavelmente pouca da Terra da Garoa. Recomendo fortemente para todos aqueles que gostam de um cheiro do mato sem se descolar da história. A quilometragem corresponde ao melhor trajeto de carro possível, na minha humílima opinião.

Maria da Fé – 288 Km
Cristina – 299 Km
Marmelópolis – 255 Km
Delfim Moreira – 234 Km
Piranguinho – 257 Km
Brazópolis – 242 Km
Wenceslau Braz – 249 Km
Itajubá – 262 Km

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 4ª estação: Delfim Moreira e as trilhas tão significativas quanto os cumes

Olá!


Eu faço força para acreditar na meteorologia, mas ela não me ajuda. Pouco antes de viajar, fui consultar um site de previsão do tempo, que me garantia clima firme para os primeiros dias da minha folga, e chuva intensa a partir do momento que passo a relatar agora. O resultado foi exatamente o inverso: muita chuva nos três primeiros dias, e, embora o céu se mantivesse com o cenho carregado, parecia estar mais estável hoje. Ora, direis, você só presta atenção quando a previsão é furada. Quantas e quantas vezes os esforçados meteorologistas acertaram seus vaticínios e você fez vista grossa? Eu sei, eu sei... O nome disso é viés de confirmação e é um efeito extremamente comum no psicológico humano. Já prometi falar sobre isso mais de uma vez, mas também não será agora. Vou me limitar a reconhecer que o trabalho de previsão climática é importante e mais acerta do que erra, mas há um velho ditado que preconiza: se faz sol, leve o guarda-chuva; se chove, faça como melhor lhe convier. Imbuído neste espírito, deixei o guarda-chuva no porta-malas e me mandei para Delfim Moreira.


Quando fui para Marmelópolis, já havia passado por aqui, onde cheguei a aventar a hipótese de me hospedar. Acabei optando por Itajubá por uma questão de praticidade (e preço), mas gostei bastante do lugar. O nome da cidade remete a um dos presidentes da Primeira República, e que nasceu na região (mais precisamente na já relatada cidade de Cristina). É um dos políticos que fez parte da alternância entre paulistas e mineiros no poder central do Brasil, como já narrei em meu texto sobre Passa Quatro. O nome original do local era Descoberto do Itagybá, nome dado pelos bandeirantes que desbravaram aquele território, muito maior do que o atual. A esta porção é que reservaram o nome de Delfim Moreira, registrado em sua antiga estação de trem.


Assim como em Marmelópolis, o negócio de processamento de frutas era próspero por aqui. Isso levou grandes indústrias para a região, todas desativadas hoje, dadas as dificuldades de transporte e a desvalorização do preço dos marmelos e goiabas. A antiga fábrica da CICA é a mais bem conservada delas, e abriga equipamentos culturais, bem ao lado da prefeitura. Lembro de seu slogan: “se é CICA, bons produtos indica”.


Outro grande empreendimento era a indústria Peixe, da qual nada localizei. O que há, em razoável estado de conservação, é a Colombo (“a qualidade de sempre”), famosa por sua geleia de mocotó. Um bom tapinha a deixaria em ordem. Dos doces, só restaram as receitas caseiras e a produção artesanal.


A cidade é toda em desnível, dada sua posição em área montanhosa. A própria igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Soledade, fica a meio caminho entre o alto de um monte e o fundo do vale, e, ao contrário do que costuma ocorrer, fica em posição longitudinal em relação à via principal.


Mais incomum ainda é sua torre, muito alta e destacada do corpo principal da igreja. Gostaria de ter entrado nela para conhecê-la, mas estava tudo fechado. À frente, e complementando o conjunto, o indefectível coreto.


Talvez a explicação para o fechamento estivesse no outro lado da cidade, onde fica uma igreja cuja padroeira é Nossa Senhora Aparecida. Bem na véspera do feriado, os preparativos para a festa estavam fervendo, com montagem de barracas e equipamentos de fazer comida.


Ao contrário do que havíamos feito no dia anterior, achamos melhor não estorvar ninguém com papos furados e fomos explorar outro nicho da cidade, bem mais recente: a cerveja artesanal. Na rua da estação, existe a cervejaria Hop, de visual moderninho, e que só abre nos finais de semana.


E bem perto da última igreja há a cervejaria mais famosa de Delfim Moreira, a Kraemerfass. A casa é construída toda sob temática alemã, com sua arquitetura típica, e a microfábrica fica lá mesmo, em um dos predinhos erguidos em tijolinhos.


A cerveja é realmente boa, principalmente a dunkel, mais escura. Aqui, estamos degustando uma tipo Viena. Ingenuamente, perguntei para a mocinha que nos atendeu porque eles não fazem cerveja do tipo IPA, tão saborosa e na moda. A resposta foi simples: IPA é uma cerveja inglesa, e a casa é de inspiração alemã. Toma, burro.


Estou me perdendo cronologicamente. A história da cerveja foi à noite, mas antes disso, durante o dia, fomos aproveitar o estio para andar pela parte campestre. Para quem vem de Itajubá, bem antes do núcleo urbano, há a cachoeira do Ninho da Águia, pedregosa e cercada de mata densa.


Fica inscrita em uma propriedade que se trata de um clube de campo, construído às margens do rio Santo Antônio, próximo ao distrito de Água Limpa, onde também se pode encontrar piscinas, quiosques, espreguiçadeiras e um grande restaurante.


Espelhando o relevo da região, o curso d’água se move por grandes desníveis, o que gera uma grande quantidade de saltos e quedas. É bonito de ver e perigoso de entrar, embora haja alguns remansos possíveis, como este abaixo.


O lugar mistura ambientações naturais e construídas. Há trilhas que levam ao topo da cachoeira, entrecruzando flora nativa. Estando lá, dá para perceber o formato circular que acaba por inspirar o nome dado ao local.


O rio Santo Antônio tem uma série de ilhotas ligadas por pinguelas, o que permite observar as várias bromélias que estão lá plantadas, em simbiose com as árvores hospedeiras, que abrigam borboletas às dúzias.


Eu e a patroa ficamos bem uma hora sentados admirando o belo lugar, e aproveitamos para pegar umas dicas. Bem mais próxima do centro, fica a cachoeira do Itagybá, mais rústica e embutida em meio natural. É bem verdade que se trata de propriedade particular, mas o acesso é franqueado livremente através de trilha.


O caminho até a cachoeira, apesar de não ser longo, é lindo. Está crivado de bichos de toda espécie, em especial por grilos e gafanhotos, em uma mata que vai se adensando à medida que se aproxima da margem da queda d’água.


A cachoeira é suprida pelas águas do ribeirão do Taboão. Aqui, finalmente, foi possível gelar as costas, e ficamos um bom tempo observando a água que corre e o cantar dos passarinhos.


Tudo muito romântico, mas o pessoal da cidade nos cantou a bola: se você quer ver como o Itagybá é bonito, precisa pegar as trilhas e vê-lo do alto, o que fiz. Para tanto, há um conjunto de trilhas que se chama Cruz das Almas. Credo! É um caminho que tem trechos de mata bem fechada, com algumas ladeiras um bocado íngremes.


Não sei exatamente porque o monte tem esse nome. Devo supor que é por causa do cemitério que fica nas imediações, mas não dá para ter certeza, porque não fica tão perto assim. De qualquer forma, há várias cruzes dispostas pelo caminho, meio no estilão Vila Formosa. Credo2!


Quando me disseram da existência de uma gruta a meio caminho do topo, imaginei uma caverna ou uma escavação na pedra, alla São Thomé das Letras, por isso fiquei procurando a tal. Na verdade, é uma construção em pedras, onde se encontra uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes (a mesma de Maria da Fé).


No ponto culminante, depois de uns dois quilômetros de caminhada (acho), temos aquilo que é o maior distintivo desta mata: um grande cruzeiro fabricado em ferro, ornado internamente com várias cruzes menores. Em tese, deveria ser visível ao longe, mas a selva mais cerrada não permite essa facilidade.


Pois é daqui, depois de passar pelo buraco de uma cerca de arame farpado, que é possível vislumbrar a cachoeira do Itagybá por cima, dando uma ideia muito mais precisa de sua dimensão. Realmente, o conjunto de quedas visto de perto não dá ideia exata de real tamanho.


Ainda andamos pelos lados dos bairros de São Bernardo e do Barreirinho, mas a garoa que voltou a me perturbar pode não ter sido suficiente para me impedir de amassar barro, mas achei pouco salutar para minha máquina ficar sendo molhada a esmo. Mas a formiga filosófica veio me fazer coceiras na consciência. Muitas das trilhas prometem te levar para algum lugar em que você espera confirmar o que pensa encontrar. Outras, você encontra algo oposto, inesperado, regozijante ou decepcionante. Outras ainda te levam nem se sabe bem para onde. Essas sendas por vezes tortuosas, por vezes nebulosas, por vezes circulares, por vezes objetivas e por vezes ilusórias são a melhor metáfora que consigo encontrar para os caminhos do conhecimento. E, na medida em que chegamos ao seu fim, percebemos que há sempre mais e mais caminho. É possível haver limite? É possível a totalidade do conhecimento?

A resposta é: não sei. Mas estou longe de ser o primeiro a afirmar isso. Há mais de 2000 anos os sofistas já faziam da impossibilidade de conhecer um instrumento para se voltar os olhos à retórica e ao seu proveito para a vida política, pouco ligando para um verdadeiro valor absoluto da realidade. Mas é um pouco depois, no período do Helenismo, que o ceticismo foi elevado a categoria ética, através do pensamento do grego Pirro, da cidade de Élida.

Não se sabe muita coisa sobre sua formação, mas Pirro era um homem de cultura em sua terra. Em um determinado momento, tomou parte da expedição de Alexandre Magno para o Oriente. Por lá, conheceu civilizações tão consolidadas quanto a grega, como os persas, os afegães e os indianos. Todos estes povos possuíam seus sábios e sistemas de conhecimento, o que logo fez com que Pirro e companheiros confrontassem tudo aquilo que sabiam com esses novos saberes. Estando bem longe de um espírito dogmático, Pirro percebeu que, mesmo com premissas e conclusões bastante diversas do que obtinham os gregos, os sistemas de pensamento orientais eram igualmente válidos. Sua conclusão era a mesma dos sofistas – é impossível conhecer, não existe essa coisa da plena certeza. Sua novidade está na transposição da categoria epistemológica para abordar a predisposição ética. Vamos vê-la.

É inegável que os seres possuem uma natureza e que essa natureza possua em si mesmo uma verdade. Afinal de contas, as coisas estão aí, para que possamos percebê-las. Mas quais são as nossas condições de atingir essa verdade? Como vejo as estrelas e posso assegurar o que elas são de fato? Como designo seguramente o que é um ser humano, além de um bípede implume? Para que fosse possível chegar a qualquer conclusão indisputável, seria necessário que a ferramenta humana que dispomos, a razão, estivesse livre de qualquer tipo de filtro ou interferência, como os dogmas que aprendemos ou as opiniões que adquirimos. O problema é que tal pureza do intelecto é inatingível. Cada um de nós possui um tal conjunto de perspectivas que nos tornam únicos, e uma minúscula fração de divergência nos juízos é suficiente para que a ambiguidade se estabeleça. Pirro não deixou nada escrito, mas outro cético, Enesidemo, sintetizou em dez pontos o que torna instável a razão. O rolo é que também não temos registros dos saberes de Enesidemo, então nos resta aquilo que foi coligido por outros céticos, como Sexto Empírico, que registrou esses tropos. A premissa básica é movida pela percepção que vem dos sentidos.

1. Os homens não são diferentes dos animais na questão da percepção. No entanto, os sentidos são muito distintos quando pensamos em sua acurácia. O cão tem olfato privilegiado, assim como o morcego tem audição insuperável e a águia, uma visão muito aguçada. Isso faz com que cada espécie viva adquira o cosmos de modo diferente da outra;

2. Cada homem é constitucionalmente diferente do outro. Uns são mais altos, outros mais baixos; uns são mais gordos, outros mais magros; uns mais ossudos, outros mais débeis. Esses pares dicotômicos podem ser levados à exaustão e combinados entre si, de modo infinito;

3. Cada órgão do sentido tem características próprias. É de se supor que a visão e a audição consigam captar sensações à distância, enquanto o tato e o paladar necessitam de contato para obtê-las. Além disso, é de se imaginar que há órgãos mais desenvolvidos que outros em diferentes pessoas, o que faz com que percebam melhor;

4. A disposição de um indivíduo muda a forma como ele apreende os objetos. Uma pessoa sonolenta não vê as coisas do mesmo modo que alguém bem desperto. Um medicamento pode turvar a vista da pessoa, e sua apreensão é outra com relação a um momento saudável;

5. A posição do objeto influencia na perspectiva que temos sobre ele. É diferente ver algo de perto ou à distância, centralizado ou lateralmente, no mesmo plano ou acima dele (lembram dos pontos de vista da cachoeira do Itagybá?);

6. Os objetos nunca são apresentados puros diante de nós, exigindo um esforço fenomenológico para isolá-los. No entanto, é sempre árduo de fazê-lo. Um simples iogurte, por exemplo, pode estar em uma mesa, uma gôndola ou uma geladeira, só ou com outros alimentos; pode ser provado antes ou após o almoço, ou em jejum; pode ser colhido com uma colher de plástico ou de metal, ou bebido direto no copo. Ou seja, a sensação é sempre uma mistura ou uma combinação de sensações;

7. A quantidade e a forma com as quais um determinado objeto se apresenta a nós interfere diretamente na maneira com a qual o apreendemos. De fato, é bem simples imaginar as diferenças entre vapor, gelo e água líquida. Tudo é água, mas apresentada em diferentes estados, com diferentes maneiras de serem percebidas pelos sentidos;

8. Há uma relação entre o objeto que é estudado e o sujeito que o pesquisa. É mais possível conseguir neutralidade quando algo não me diz tanto respeito, mas isso afeta o meu interesse, que se torna menor. A recíproca é verdadeira. Imagine que estou pesquisando sobre o meu todo-poderoso Timão. Enviesadamente, vou pesquisar tudo o que estiver ao meu alcance, até o fundilho do baú. Se a tarefa for analisar o XV de Itapipoca, talvez eu consiga fazer um bom trabalho, mas haverá o limite do seu cumprimento, e pronto;

9. A frequência com que ocorrem os fenômenos também interferem na maneira como os absorvemos. Uma novidade pode aumentar muito o meu interesse, mas sei pouco sobre ela, e talvez demore muito para que se obtenha uma nova experiência;

10. Finalmente e mais importante. Os homens são persuadidos em suas idiossincrasias por seus costumes e opiniões. Achamos estranhas a poligamia e a poliandria? Há povos que não pensam assim. Tem costumes que derivam de crenças e vertem para leis motivados por suas próprias histórias e razões, alheias a nós, e assim nascem aparatos dogmáticos como as Religiões, que ditam regras imutáveis e discricionárias.

O que temos é a acatalepsia, termo grego usado pelos pirrônicos para indicar a impossibilidade de se chegar a verdade. No entender dos céticos, qualquer argumento pode ser contraposto por outro, com igual peso e validade. Não há, por conseguinte, uma hierarquia possível entre definições de verdade, porque sempre haverá a influência dos dez tropos citados acima. Quando postos diante de todas estas encruzilhadas, o cético conclui que só resta a suspensão do juízo, a epoché. Este é o único caminho para uma tranquilidade que sustente a paz de espírito.

Se a vida boa é uma procura constante pela verdade, ela se torna igualmente impossível. Mas, se a verdade é inatingível, isso não significa que o caminho não exista. Ele é trilhado através de uma “arte” desinteressada por um objetivo escravizante, um constante duvidar que representa, no fundo, uma liberdade de escolha quando nos vemos diante das opções. Se a nossa preocupação não é com o objetivo final, o prazer passa a residir no próprio meio em que o buscamos, como a trilha que se percorre sem a necessidade de se ter um porquê. A beleza está no próprio caminho, assim como nas veredas de Delfim Moreira.

Recomendação de leitura:

Como se pode deduzir do que eu mencionei acima, é muito raro encontrar escritos de uma época tão distante. Pirro não nos legou escritos, mas Sexto Empírico sintetizou o pensamento da escola cética de modo a termos um retrato consistente daquilo que eles podem nos ensinar.

EMPÍRICO, Sexto. Contra os Retóricos. São Paulo: Unesp, 2013.