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quarta-feira, 12 de março de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o pequeno Jabaquara e a lógica que amarra as pernas dos pequenos

(É possível alguém das beiradas ir parar no centro? Difícil)

“Em questões de dinheiro, todos temos a mesma religião”

Atribuído a Voltaire

Olá!

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Jabaquara é um bairro daqui de São Paulo. Ele ficou especialmente célebre a partir da década de 70, quando virou a última estação da banda sul do metrô e seu pátio de manobras, aquele misterioso local onde os dorminhocos vão passear ao fim das viagens, para acordar perdidos. Essa notabilidade foi acentuada quando foi criado o terminal rodoviário, que substituiu com vantagem a velha rodoviária do Glicério, despejando o mar de ônibus que vai para a Baixada Santista diretamente na Rodovia dos Imigrantes. Isso tudo colocou no mapa um bairro outrora distante, daqueles que demoravam horas e horas de ônibus para chegar. Fiquei mais íntimo de lá quando trabalhei na região, na Água Funda, e volta e meia precisava ir a algum banco ou repartição.

Jabaquara, palavra de origem tupi, significa algo como “esconderijo de negros fugitivos”, e isso explica a função inicial do bairro. Com o decorrer do tempo, acabou se tornando uma espécie de pouso para as pessoas que trafegavam entre a porção central de São Paulo e o extinto município de Santo Amaro de um lado, e a região da Borda do Campo (atual ABC) do outro. Só deixou de ser uma região rural a partir de meados do século XX.

Se você perguntar a um paulistano inespecífico, a primeira resposta à pergunta “o que é Jabaquara” será semelhante a essa, com algumas informações a mais ou a menos. Se a pergunta for a alguém muito letrado, poderá ser acrescido o segundo parágrafo. Mas Jabaquara não é só isso.

Jabaquara é um dos times fundadores da Federação Paulista de Futebol, o primeiro desta série de textos que ainda está na ativa. Vem passeando há décadas pelas divisões inferiores do Estadual, tendo, inclusive, alguns períodos de licenciamento, sempre por apuros financeiros. Seu nome original era Hespanha, pelo óbvio fato de ter sido fundado por imigrantes espanhóis da cidade de Santos, colônia bastante significativa por lá. Sim, o Jabaquara do futebol não tem nada a ver com o bairro paulistano, o que foi um grande engano deste escriba em seus primeiros anos de compreensão futebolística. Foi obrigado a mudar de nome em 1940, por força da legislação que proibiu a utilização de nomes referentes às forças beligerantes na Europa por ocasião da Segunda Guerra Mundial, mesmo ato que obrigou os Palestras Itálias mineiro e paulista a se transformarem em Cruzeiro e Palmeiras, respectivamente, ou o Germânia a virar Pinheiros. Por esta razão, já consta da famosa entrada da federação com seu nome novo, mas as mesmas velhas cores aurirrubras da bandeira espanhola.

O Jabaquara nunca foi campeão paulista, e ostenta apenas os títulos obtidos na região da Baixada Santista. É lembrada mais por ter sido o berço de um dos principais goleiros da história, Gylmar dos Santos Neves, que depois flanou seu talento por Corinthians, Santos e Seleção Brasileira. É o terceiro time da cidade de Santos, uma espécie de xodozinho que todo mundo gosta, mas ninguém leva a sério. Quer dizer… todo mundo que conhece, o que já é mais raro. Claro que os moradores de Santos sabem da existência daquele pequeno estádio na Caneleira, bairro de morros e mangues que não lembram uma cidade praiana, para onde o clube se mudou ao vender a sede do Macuco, esta de fato próxima ao mar, mas todo mundo se pergunta até quando ele dura. Sua estrutura é o mínimo que se espera para não ser um time de várzea, e é quase inacreditável que ainda exista profissionalmente.

O Jabaquara está como está por causa do capitalismo, sem nenhuma crítica direta ao sistema. Vou explicar meu ponto.

O capitalismo é um sistema econômico cuja principal característica está na liberdade de mercado, ou seja, as relações comerciais são regidas por movimentações de dinheiro circulante, que se dão sob uma espécie de algoritmo que faz com que a economia se equilibre e reequilibre espontaneamente, sem a necessidade de intervenções exteriores, notadamente de governos. Isso é proporcionado por alguns pilares básicos: livre iniciativa, livre concorrência, admissibilidade e incentivo ao lucro e acúmulos de capital.

Seu nome deriva do latim caput. Literalmente, esse termo significa “cabeça”, mas é utilizado em seu sentido figurado de “primeiro”, ou de “líder”. Capitalista é, nesse sentido, aquele que detém os meios econômicos para liderar os processos industriais e comerciais, de fazer a roda da economia girar. A interveniência de governos passa a ser considerada prejudicial à economia, por dirigir políticas, retirar fundos da economia e desequilibrar o mercado, de modo a produzir teratologias financeiras, por seu imenso tamanho. O mercado deve se pautar pela lei de oferta e procura, que funciona mais ou menos como alguns princípios da seleção natural. Quando há excessos de um determinado produto, ele tende a ficar mais barato, e isso faz com que seu consumo aumente, até o ponto em que há uma inflexão e, de tanto ser consumido, ele passe a ficar escasso, o que movimentará seu preço para cima, o que fará com que menos pessoas consigam adquiri-los, e, com isso, haja um excesso de produção e os preços novamente baixem, em um movimento pendular infinito. Portanto, enquanto nos seres vivos o impulsionamento da seleção se dá pela necessidade de sobrevivência, no capitalismo a movimentação se dá pelo dinheiro. E, surpresa, em ambos os casos são os melhores adaptados que sobrevivem.

O capitalismo, como o próprio nome diz, favorece aqueles que detêm capital, mormente na forma de acúmulo. E os demais? Como se inserem neste sistema? Com o seu trabalho. Ou trabalha para um capitalista que tem terra, fábrica ou comércio, ou tem algum pequeno negócio onde todas as tarefas são desempenhadas por ele mesmo. Suas ações isoladas não são capazes de modificar a realidade da economia e, por isso, em tese, precisariam atuar em conjunto, algo difícil sem uma guia (como sindicatos e governos). O livre mercado defendido pelos capitalistas, nesse sentido, possui uma certa quantidade de pessoas naturalmente excluídas. São aqueles que estão nas franjas do sistema, que não se adaptam bem a esse modelo de realidade. Eles se encontram até mesmo nos países mais avançados do mundo. Não é preciso ser alguém que não tenha dinheiro ou não goste de trabalhar.

Acho que um dos melhores exemplos que eu posso dar é o pintor que morava no prédio em que habito, o José Camargo. Ele fazia pinturas de um preciosismo ímpar, como sói acontecer com os espíritos mais cuidadosos. Cada tracinho era visto e revisto e apagado e repintado até chegar àquilo que ele julgava ser a sua perfeição. Fazia um estilo majoritariamente impressionista, ao agrado dos transeuntes da Praça da República*, que admiram muito, especulam mais ainda e compram pouco. Para quem anda a esmo, um quadro a trezentos dinheiros é caro, artigo de luxo que se compra uma vez na vida e outra na morte. Para o pintor, é uma pechincha, pois quanto mais esmero se dá na sua produção, menor o tempo restante para fazer mais obras. O Camargo fazia os pequenos quadros de flores e casinhas com raiva, porque era isso o que saía, e ele precisava comprar o seu feijão, mas estava longe de ser a maneira que ele gostava de se expressar. Há uma alma artística e um corpo pragmático, que chora por comida. Ele amava as encomendas em que o comprador apenas dava uma temática, dando-lhe liberdade para criar em cima da ideia geral. Mas essas eram raridade, principalmente quando era dado o orçamento.

Em um exemplo, o Zé cobrava mil reais em um quadro que iria lhe tomar o mês inteiro. À parte do custo dos materiais, imagine-se tendo um salário desses. Dá para viver? Para quem iria comprar, é um objeto caro, cujo único propósito é estético, e que pode ser empurrado ad infinitum. Para quem faz, é praticamente uma miséria, um ganha-pão ingrato que demanda esforço físico e intelectual, mas que não dá sustento. Esqueçam dos renomados: eles são uma ínfima parcela daqueles que têm o talento recompensado. E renome não é sinônimo de talento: Romero Brito, podre de rico, é tão criticado quanto um Paulo Coelho na literatura. Mas seus gatos estilizados vendem como água.

Existe um ponto tal em que o que vende é o nome que assina, não a obra em si. Fui a uma exposição de esculturas que tinha peças do estadunidense Jeff Koons, célebre por flertar com o brega o tempo todo, e esse foi o construtor de seu elevado conceito. Ele mesmo lançou a si um desafio: “tudo o que eu faço é reverenciado pela crítica e pelo público. Vamos ver o que acontece se eu pegar anões de jardim e fadas, daqueles que as pessoas compram em lojas baratas, e reproduzi-las igual-que-nem, como se eu as tivesse criado”. O resultado: “Koons revoluciona mais uma vez”, “o kitsch purista de Koons renovando a academia” e outras bravatas semelhantes. Chega um ponto em que o nome se empurra sozinho. São fenômenos do capitalismo.

Quando o Camargo chegou à conclusão de que seu trabalho estava desvinculado do cumprimento de qualquer sonho, foi pragmaticamente ganhar a vida como faxineiro de um prédio. É uma lástima que as coisas cheguem a esse ponto, mas lá também sua verve artística e seu apuro nos detalhes veio trazer problemas. Ele via seu ofício como uma obra de arte, e limpava escadas e corredores com o mesmo critério que utilizava em suas pinturas: qualquer cantinho ficava impecável sob sua alçada, com madeiras polidas, cromos brilhantes, chão e paredes indefectíveis. Isso é uma qualidade, não? No aspecto prático, não. O síndico apreciava o edifício reluzente, mas a velocidade da faxina era inversamente proporcional ao capricho, e isso colidia com a necessidade de uma limpeza mínima em todos os andares. O Camargo era cobrado, mas não conseguia se desvencilhar de seu preciosismo, e o resultado foi sua substituição por alguém mais medíocre, mas que resolvia o problema da limpeza com mais objetividade**.

O Camargo é isso que falamos ser um desencaixe do modelo capitalista. Não é um vagabundo que não quer trabalhar, e sim alguém que não produz em escala comercial, mas, mesmo que fosse, teríamos apenas outra forma de exclusão que se baseia na comercialização de produtos, sendo que um deles é o labor.

Percebam que eu estou evitando juízos de valores. O Zé Camargo existiu, como existem mendigos, e vivia nesse sistema. Não estou dizendo que o capitalismo é bom, nem ruim, apenas fazendo constatações empíricas. Haverá quem diga que tudo no universo tem esse substrato de Lei da Selva, e que o capitalismo nada mais é do que isso transposto à economia, e que faz aperfeiçoar produtos e serviços. Mas, se é uma lei de seleção, ela tem seu percentual de crueldade inerente.

A condição do Jabuca demonstra, plasmando a situação dos marginalizados, como funciona esse sistema também no mundo futebolístico. No estado de São Paulo temos quatro “grandões”, sendo que um deles fica na cidade de Santos, Terra da Liberdade e da Solidariedade. Os meninos que querem começar a carreira procuram primeiro a Vila Belmiro, e não a Caneleira. Vão para lá aqueles que não passaram nas peneiras do Santos, nem da Portuguesa Santista (de quem chegará a vez aqui na série). Resta para o Leão aqueles que ainda não explodiram, ou que nunca vão explodir, e vão procurar ofícios em outras atividades, a grande maioria. Isso acontece porque o Santos atrai mais, pela fama, pela estrutura e, principalmente, pela grana. O Santos, mesmo em percalços financeiros, tem muito mais visibilidade, agentes internacionais, infraestrutura, nome na praça, e uma possibilidade de crescer que o Jabaquara só terá se algum mecenas quiser fazer caridade esportiva, algo muito raro. Quem tem dinheiro, quer uma vitrine mais ampla, e times com a corda no pescoço existem aos borbotões, inclusive já encaminhados em alguma divisão nacional. O Jabaquara está na quarta divisão do Paulista. Não me parece que vá ter atenção de algum endinheirado.

A realidade é que nosso querido Leão da Caneleira só existe ainda porque estamos no Brasil, justamente com seu capitalismo imperfeito. Associações não estarem sujeitas à lei das falências é uma jabuticaba jurídica daquelas exemplares, e, por conta disso, ainda podemos ver a tradição amarela e vermelha em campo. Mas isso não muda o fato de que o Jabaquara está naquela borda mais externa, aquela parte do bolo em que pouco resta além das migalhas que caíram no chão. A realidade é triste, porque se trata de um daqueles onze fundadores, um dos que não sucumbiram por pura teimosia, um dos times que eu mais gosto no futebol, mas a realidade é esta, no futebol e no mundo, e no futebol como espelho do mundo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Escrito por um apaixonado, bancado pelo próprio bolso, é um livro de histórias esparsas e emocionantes, e, apesar de já ser meio antiguinho, faz jus a um time que tem como principal patrimônio a sua história.

SILVEIRA, Sérgio dos Santos. Jabuca dos nossos corações. Santos: Edição do autor, 2002.

* Para quem não é de São Paulo, a tradicionalíssima Praça da República é onde se realiza a feira de artes todos os finais de semana.

** Para não deixar a história sem uma conclusão: o Camargo terminou seus dias ao lado de seu companheiro Luiz, que lhe deu liberdade para compor suas obras. A última delas, inacabada, veio parar em minhas mãos e está hoje na sala de casa. Ele morreu de repente e, romanticamente, seu companheiro se foi um mês depois. Contornos tristes do que, no final das contas, foi um final feliz.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Sobre o ego e o vírus, e o Pequeno guia das grandes falácias - 57º tomo: a poça d'água

 Narciso acha feio o que não é espelho

Caetano Veloso

Olá!

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#UseMascara #FiqueEmCasa #ObrigadoProfissionaisDeSaude

Recrudesceu a pandemia, e daqui da janela vejo que, de fato, o movimento está bem menor nesta rua do centro de SP. Entretanto, há uma pequena aglomeração na esquina com a Tabatinguera. Como o Sindicato dos Bancários tem oferecido almoço para o pessoal de rua, imagino se tratar de um de seus debates, e me recolho novamente à ascese do meu apartamento, para prosseguir com meu comportamento exemplar de esquerdista-comunista-globalista-do-islamismo-internacional. Acontece que, por mais que minha consciência clame pelo eremitismo involuntário, há remédios para tomar, e espero o movimento do sábado diminuir ainda mais para dar aquela corridinha à farmácia, onde metforminas e gliclazidas me aguardam para fazer as vezes de insulina. E lá vou eu para a rua com uma máscara na cara e uma ideia  na cabeça.

Pois bem, e não é que a mesma patota continua ocupando a esquina? Ah, conheço-os… é o pessoal da loja de vidros que ocupou o antigo hotelzinho de viração que funcionava no começo da rua. Eram uns vinte, todos sem máscara e enchendo o balde de cervejas de má qualidade, já há horas do lado de fora do bar, no riso alto dos bêbados que ainda se suportam em pé.

Passo o mais ao largo possível para uma dessas estreitas ruas da metrópole cinzenta, e sigo meu caminho pensando na cena. Se um único desses ébrios for portador do tal coronavírus, agora temos vinte, cada qual o levando para um bairro diferente, em seu ônibus ou vagão, para uma casa que certamente terá mais gente, alguns idosos, e assim uma desgraça se estende mais e mais e mais. Se o cretino federal só atrapalha, o oportunista estadual já está em campanha e o confuso municipal perdeu o rumo, é bem verdade que o próprio povo não ajuda. Ora (direis), e você não estava na rua também? Quem me dera que, num momento desses, todos os que estivessem nas ruas o fizessem por necessidade. Mas perdemos muito da nossa consciência social, e subo a rua pensando exatamente nisso.

Já desde o tempo das ideias liberais francesas que a noção de indivíduo começou a preponderar sobre o organismo social, provavelmente porque antes o indivíduo por excelência era o rei, enquanto os demais componentes da teia social constituíam uma grande massa informe, destinada a lhe proporcionar subsídios para o exercício do poder. Por conta disso, o individualismo tem seu lado bom, porque não só pulveriza os interesses sem uma cabeça, mas também faz com que cada um tenha uma quota de responsabilidade no todo que nos rodeia. Entretanto, a exacerbação do individualismo desmonta exatamente a rede social, na medida em que o que importa não é mais o outro ao meu lado, mas prioritariamente a mim mesmo. Se eu não tenho medo do vírus, ou se eu já tive e não passei mal é o suficiente para que eu não ligue para o colega que enche a cara comigo. Meu interesse é tão mais relevante que o do conjunto social que é como se o mesmo não existisse, e eu possa cometer qualquer tipo de leviandade para satisfazer minhas próprias vontades, pasmem, com as bênçãos da estrutura econômica de uma sociedade baseada na posse. O novo rei é o indivíduo, muito mais egoísta.

Egoísta? Será certo dizer que o novo cidadão ocidental é um egoísta? Ou seria egocêntrico, narcisista? Não é tudo isso um emaranhado de sinônimos? Não sei, vamos estudar.

Já vou informar que aqui farei uma leitura de características, e não juízos críticos sobre correntes boas ou ruins. Certos sistemas políticos e sociais são mais dados a uma perspectiva coletivista, onde o interesse comum suplanta, sem muitas contestações, as prerrogativas individuais. Dessa forma, o que acontece com o todo é mais importante do que às partes isoladas, e isso é característica ideal de regimes socialistas, marxistas ou não, de comunitarismo hippie, de tribalismo indígena e das comunidades cristãs originais, que, como se diz, “tinham tudo em comum”*. Entretanto, o sistema que tirou o mundo do Absolutismo e que o conduziu de forma razoavelmente bem sucedida (em termos econômicos e de progresso técnico) foi o Capitalismo, que se pauta pela lícita propriedade privada e na liberdade de mercado e concorrência, tudo isso bem grosso modo. Embora seja plenamente possível se falar em grupos econômicos, cada uma de suas partes se volta para seus próprios interesses, e o lucro obtido nos negócios se destina aos bolsos de pessoas, que adquirem bens e juntam recursos para si mesmos. Mesmo quando investem em suas empresas, o fazem para multiplicar resultados, que, por sua vez, majoram seus ganhos.


Esses ganhos todos não são voltados à coletividade, mas a indivíduos. O Capitalismo carrega consigo o sonho de cada pessoa de ser livre e independente, de se fazer por si só, de se destacar na multidão. Auferir rendas é o único meio eficaz de se fazer isso em um sistema onde tudo se compra e se vende, e mesmo cidadãos que não possuem meios como os maiores próceres almejam esse mesmo objetivo. Ainda que eu seja pobre, eu sei que o que é bom em nosso meio é obtido por quem está nos andares mais altos do prédio, e isso passa a ser uma meta de vida, mesmo que eu saiba que chegarei, no máximo, à sobreloja. Só que levo apenas a mim mesmo à sobreloja, e não um grupo inteiro, como minha rua, meu bairro, minha classe social. Então a estrutura do Capitalismo tende a desenvolver uma dose importante de individualismo nas pessoas. Como eu disse, esse primado do indivíduo não é ruim por si só: induz responsabilidade na construção de uma ocupação e um tipo de ambição que, no limite certo, pode ser positivo.

Ocorre que a coisa se espalha, e, al di là de uma liberdade de ação, temos a perda da noção de limite. A responsabilidade que deveria ser uma correlação de respeito mútuo se perde e o cidadão se acha absolutamente senhor de suas ações, incluindo as de ter o direito de se embebedar no meio da rua, cuspindo vírus para todos os lados. O nome disso não é individualismo. É egoísmo, mas... só?

Quando falamos na questão do ego, encontramos um pouco de dificuldades, porque há vários termos que são aparentados, mas que não são sinônimos. E corremos o risco de achar que estamos falando sobre alguma coisa quando, na verdade, estamos falando sobre outra. Egoísta, egocêntrico, ególatra, egótico, narcisista... Isso é tudo sinônimo?

Não é. Vamos ter que navegar pelos mares revoltos do ego para tentar definir nosso atual momento social. É meio chato ficar fazendo enumerações, mas não vejo outro meio de tratar do assunto sem dar escorregões nas palavras. Não é exatamente sobre isso que tratamos nos dois últimos textos (aqui e aqui)?

Vamos lá. Todo mundo convive com outras pessoas no mundo, estabelecendo uma série de relações necessárias ao convívio e à sobrevivência. Evidentemente, há um grau com o qual estabelecemos a hierarquia desses relacionamentos: a quem é dada a prioridade nessas relações, que flutua entre o eu e o outro? Seria desejável que sempre houvesse equilíbrio, porque mesmo o mais altruísta dos seres humanos precisa sobreviver, caso contrário estará cometendo alguma espécie de suicídio. Ou seja, mesmo quando reserva para si alguns miolos de pão, esse suposto santo está pensando na sua continuidade no tão judiado planetinha azul.


Se há problemas em ser altruísta, tanto pior naqueles que deslocam o foco de sua relação com o outro para muito perto de si. Esse é exatamente o estado de natureza do todos contra todos preconizado por Thomas Hobbes, como já mencionei neste texto. Ou seja, a ênfase exclusiva no ego tornaria bem mais difícil a nossa sobrevida, porque teríamos uma guerra permanente entre interesses. É por isso que existe o contrato social implícito em nossas sociedades – para que concordemos em abrir mão de algumas vantagens em prol do convívio minimamente garantido entre todos.

Mas é nesses momentos de displicência com a vida alheia que observamos essa propensão em se descartar o cuidado mútuo, o que demonstra a tendência em se pensar em si para além do ponto de equilíbrio. Quando não há alteridade na conduta humana, ou melhor dizendo, quando apresentamos uma deficiência em reconhecer que não somos isolados nem prioritários, começamos a encontrar ferrugens nas engrenagens, que podem receber diversos nomes.

Egoísmo acontece quando uma pessoa quer tudo para si, com zero de empatia pelo destino alheio, a não ser quando este sirva aos seus próprios interesses. Suas necessidades estão sempre em primeiro lugar, denotando um comportamento de certa forma infantil, até mesmo porque a atitude egoísta geralmente nasce quando damos demais ou recusamos em vão o que a criança nos pede. São os seguidores da famosa Lei de Gérson, aqueles que só querem levar vantagem em tudo.

Egocentrismo, como o próprio nome diz, é a colocação de si mesmo no centro das atenções. Não é necessário que lhe falte empatia, como acontece com o egoísta, reconhecendo a necessidade e os direitos dos outros, desde que haja prioridade para si mesmo como uma espécie de divindade, cujos conhecimentos são os maiores e as opiniões são as melhores. O egocêntrico é blindado às opiniões alheias, tão senhor que é de sua superioridade. Mas, até mesmo por uma pretensa alteridade, pode ser concessivo com o restante dos mortais, por se tratar de mais um item do seu monopólio de virtudes.

Egolatria é a adoração por si mesmo, como o próprio nome induz a pensar. O ególatra funde a necessidade de possuir do egoísta com a necessidade de liderança do egocêntrico, fundindo todos os direitos em si próprio, e muitas vezes modificando seu próprio modo de ser para se adequar à condição de “divindade”. A condição de presença nos altares é inescapável ao ególatra – do contrário, sua vida perde o sentido.

Egotismo é um termo bem mais moderno, e representa uma condição psicológica em que um sujeito tem dificuldade em alinhar motivos internos e externos para atribuir causas a seus sucessos e derrotas. A pessoa egótica, por exemplo, pensa que tudo o que acontece de bom na sua vida se dá por seus próprios méritos, enquanto as dores e fracassos ocorrem por azar, por interferência dos outros, por condições que não dependem de sua ação ou vontade. Essa assimetria ator/observador é um dos erros fundamentais de atribuição mais comuns de todos, e já tratei dele neste texto. O que há de diferente com relação ao egoísmo e ao egocentrismo é que o egótico nem sempre quer colher todos os louros sozinho, ou quer tudo para si, mas não suporta receber culpas e assumir responsabilidades pelas suas próprias ações.

Por fim, narcisismo é um fenômeno da vaidade. O narcisista coloca-se como possuidor por excelência das virtudes, como faz o egocêntrico. Entretanto, ao contrário dos demais, o narcisista convive com um peso: conseguir a aprovação de quem lhe rodeia. Ou seja, o outro é relevante para o narcísico, na medida em que ele se alimenta da aprovação desse meio. São os famosos “biscoiteiros” das redes sociais, que ficam doentes quando alguém não lhe comenta as fotos ou curte os comentários.

Então... Nossa sociedade seria individualista, egoísta, egocêntrica, ególatra, egotista ou narcisista? No meu entender, infelizmente, todas essas coisas. Não preciso nem perder muito tempo explicando e dando exemplos, mas vamos lá. O cidadão no Capitalismo tem que se fazer por si mesmo e suportar adversários que concorrem pelo mesmo espaço, gerando egoísmo. Um dos meios pelos quais se demarcam os territórios por onde um homem prepondera é a intensa publicidade, gerando egocentrismo. Os modos de ser precisam ser adaptados ao que reza o sistema, de modo a criar um primado do vencedor, gerando egolatria. Não há espaço para falhas e o fracasso é insuportável, gerando egotismo. E o termômetro do sucesso nesse meio é a aprovação e a admiração de outrem, gerando narcisismo.

Isso tudo é tão interiorizado em nossas próprias cabeças que mesmo a nossa lógica acaba sendo sensivelmente torcida, gerando linhas de pensamento altamente individualizantes. Um dos bons exemplos é a recente falácia da poça d’água, uma demonstração de que achamos que o mundo foi construído especialmente para nós, sem dimensionar o quanto de caótico é o universo, o quanto de cruel é a natureza e o quanto de imprevisível é o destino.


Mas como funciona o argumento da poça d’água? E de onde vem esse nome estranho?

Vem da mente do escritor inglês Douglas Adams, o criador da série Guia do Mochileiro das Galáxias, que mistura humor e ficção científica, adorada pelos nerds de todo o mundo. Em um dos pontos de seu último livro, O Salmão da Dúvida, ele tenta explicar como pode ter sido o surgimentos dos deuses na cultura humana. Em um momento, entende ele, passamos a ter uma perspectiva egoísta de nossa existência, como se esta fosse perfeitamente moldada para nós mesmos, e, para dar uma visão melhor do que quer dizer, cria a alegoria da poça d’água, que translitero abaixo:

“Isso é o mesmo que imaginar uma poça acordando uma bela manhã e pensando: ‘Que mundo interessante este em que eu vivo – que buraco interessante este em que eu vivo – estou muito bem-acomodada nele, não? Na verdade, me encaixo tão incrivelmente bem aqui que ele só pode ter sido feito para mim!’ Esta é uma ideia tão poderosa que, mesmo enquanto o sol vai subindo no céu e o ar ficando cada vez mais quente, e mesmo enquanto a poça vai ficando menor e menor, ela ainda se agarra desesperadamente à noção de que tudo vai ficar bem, porque este mundo foi feito para que ela existisse, foi criado com esse propósito; e então acaba sendo pega de surpresa pelo momento em que enfim desaparece”.

De fato, somente um ato de extremo egocentrismo pode nos fazer pensar que um universo de extensão imensurável, que nem sabemos se é único, e colocados em meio a uma natureza selvagem, com nosso corpo pouco apropriado ao combate, onde sobrevivemos mais porque tivemos a sorte que nosso vizinho não teve em ser devorado pelas feras, ou em que somos corroídos por vírus ou cânceres, é feito em exata medida para nós.

A falácia da poça d’água consiste exatamente em atribuir predestinação ou planejamento de entidades exteriores a eventos que derivam da natureza e do acaso. A poça d’água tem o formato que tem porque ela se adequou ao meio onde vive, porque se moldou, e não porque alguém criou um encaixe perfeito. Retirada de lá, ela se adaptará de forma diferente ao novo meio em que se encontrar: no subsolo para onde vazará, no céu para onde evaporará, ou em outra cavidade onde tomará outra forma.

Assim são também os homens. Embora queiramos forçar uma teleologia, um propósito para nossas vidas, o fato é que nada comprova que tenhamos lugares especiais no universo. E, se as coisas são como são, nada nos indica que é porque alguém do lado de fora as fez assim. São, de fato, os mecanismos adaptativos que nos desenharam ao decorrer de longos e longos anos, e mesmo que não tenha sido isso, não torna automaticamente verdadeiro outro motivo, com menos lógica e provas ainda. Nesse sentido, a poça d’água é uma espécie de apelo à ignorância, onde atribuímos obrigatoriamente a outrem (um deus, um ET, uma energia) uma causa que não tem uma explicação. Não se trata da negação da existência de deus, mas da simples argumentação de que pretensas complexidades são uma prova inequívoca de que tudo foi construído por um artífice. E mais ainda. Pode ser mais uma ferida ferida narcísica, mas não somos tão importantes quanto gostaríamos de ser. Tem um vírus aí para nos provar.

Portanto, é preciso que não sejamos egoístas, egocêntricos ou seja lá o que for. Nós temos pouco a aproveitar nessa combalida Terra de Santa Cruz, e não podemos nos colocar nos altares de nosso ego, sempre lembrando que todos aqueles que estão ao redor têm o direito de manter a saúde muito maior que o direito particular de se encher a cara. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Os nerds vão me odiar, mas eu não curti muito a série Guia do Mochileiro das Galáxias. Compreendo completamente as intenções o autor, mas talvez seu humor seja muito britânico para que eu o compreenda corretamente. Isso não quer dizer que eu o ache ruim, apenas não bateu comigo. Entretanto, segue sua indicação, naturalmente, principalmente por conta de sua referência direta.

ADAMS, Douglas. O Salmão da Dúvida. São Paulo: Arqueiro, 2014.

 * “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um” At 4, 32-35.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 5ª estação: Piranguinho e as mãos do mercado mexendo nos pés-de-moleque

Olá!


Quando estávamos em Delfim Moreira, ao cair da noite, encostamo-nos em um barzinho para comer qualquer petiscaria que estivesse disponível. Era estilo botecão mesmo, com balcão de fórmica e mesinha de madeira recoberta por aquelas toalhas xadrezes, baleiro rotatório, estufa para salgados, potes de sardinha enrolada e demais que-tais. Apesar disso, não estava repleto de bêbados, como sói acontecer no nosso imaginário, e sim com uma luz meio fraca, tipo daquelas de fim de expediente. Não era possível fazer grandes exigências porque estávamos mais sujos do que poleiro de galinha (exagero), então ficamos na base do queijinho minas e da azeitoninha. Tudo de bom, tudo de bem, quando o dono da tasca ofereceu uma especialidade da região: cachaça artesanal. Eu costumo ficar ressabiado com esse tipo de assertiva, otimista demais, mas sou bem educado e provei o pretencioso preparado. E era realmente bom, sabor suave, sem aquele travo arrepiante que denuncia a bebida de má qualidade, mais próxima dos derivados de petróleo do que dos destilados de cana. Na verdade, posso dizer que era uma pinga realmente notável, e me interessei por saber mais. O dono me mostrou o rótulo: Luminosa, um distrito da municipalidade de Brazópolis. É longe? Não. Então vamos para lá.

Isso não foi no mesmo dia. Brazópolis fica a oeste de Itajubá, onde ficamos hospedados, lado oposto a Delfim Moreira. O tempo bem mais firme foi um convidativo para sairmos mais cedo, e, no meio do caminho, há uma cidade que tem uma tradição e um mote poderosos: Piranguinho.


Piranguinho tem um nome que é composto pela palavra tupi pyranga, que quer dizer vermelho, e complementada pelo sufixo í, que dá a conotação de diminutivo, e se refere a um tipo de pedra vermelha outrora comum no município. Eles se autoproclamam a “Capital Nacional do Pé-de-moleque”, mas falo já, já sobre isso.


A cidade possui uma praça central bastante calma, que homenageia o Coronel Braz, o velho advogado e político Francisco Braz, pai do presidente Wenceslau, muito influente em toda a região (e, em certo momento, no Brasil inteiro). A igreja matriz atual é dedicada a Sant’ana, que, na tradição da igreja Católica, é avó de Jesus.


Esta igreja tinha outro padroeiro, mas não sei por qual motivo, o mesmo foi “destituído”. Tratava-se de São Benedito, o mais célebre dos santos negros, antigo cozinheiro de um convento franciscano. A referência ao seu antigo padroado está do lado de fora da igreja, e me pareceu bastante sincrético: as mãos de um africano que toca o seu atabaque, algo tão típico dos cultos do candomblé.


No restante da praça, além do belo arvoredo e dos velhos costumeiros dos bancos, mais dois pontos a serem notados. O inevitável coreto...


... e o monumento Abraço, feito em bronze, para homenagear a construção da primeira igreja da localidade. O próprio monumento é sincrético, por mencionar todos os homens e mulheres de todas as raças que ajudaram a edificar Piranguinho.


Mas, como eu já disse, o carro-chefe daqui é o pé-de-moleque, doce feito classicamente de amendoim agregado com calda de açúcar, um daqueles petiscos bons para quebrar os dentes, como o torresmo e o quebra-queixo, mas que, segundo os produtores locais, não segue exatamente os cânones da sua manufatura, aquela mera rocha doce. Aqui o processo também incluiria a moagem do grão e o uso de rapadura.


A explicação para a preferência por este doce faz remissões antigas. Dos tempos em que ainda operavam ferrovias na região, mais precisamente. De fato, Piranguinho possui uma estação bem preservada no distrito de Olegário Maciel e a ponte de ferro sobre o rio Sapucaí, por onde o trem a ligava ao município de Itajubá.


Estamos no começo do século XX e as famílias complementavam sua renda com pequenos negócios, que incluíam a venda de produtos artesanais nos vagões dos trens durante suas paradas. Na estação de Piranguinho, um dos mais bem aceitos era exatamente o pé-de-moleque, que era vendido em tabuleiros, na maioria das vezes por crianças.


O nome do doce tem duas explicações, nenhuma delas firme suficiente para fixar uma “jurisprudência”. Na primeira, fala-se dos garotos que ficavam olhando as cozinheiras pelas janelas, atraídos pelo seu aroma inebriante. Algumas delas, ao ver as cabecinhas tímidas e os olhos gordos, diziam “pede, moleque. Pede, moleque” esperando a demanda pelo bocado. Na segunda, faz-se uma alusão à aspereza típica da guloseima, que lembraria um pé grosseiro das crianças que andavam descalças para toda parte onde iam (a versão moderna chamada pé-de-moça, feita com amendoim moído mais fino, remete a essa mesma lógica). Logo na entrada da cidade, uma estátua lembra, com exagero óbvio no pé, tanto o meio de venda quanto os próprios vendedores.


Por ocasião do aniversário do lugarejo, é realizada uma festa com uma semelhança ao aniversário de São Paulo, o tradicional bolo do Bixiga. Para quem não é da Terra da Garoa, explico. No bairro do Bixiga, é feito um bolo cujo tamanho aumenta um metro por ano, para que cada um represente um ano na idade da cidade. Por isso, no último mês de janeiro foi feito um bolo com 458 metros de comprimento, comemorando os seus 458 anos. Aqui em Piranguinho, o bolo é substituído por pé-de-moleque, naturalmente. Isso produziu o maior pé-de-moleque do mundo, atualmente com 23 metros, como conta esta placa na Praça da Paz. Não se trata de espelhar a idade, mas, a cada ano, procura-se superar o récorde anterior.


Muito embora ainda seja possível encontrar quem produza o pé-de-moleque artesanalmente, a maioria das iguarias encontradas é oriunda de fábricas, que modernizaram o negócio. Algumas delas são resultado do crescimento dos postos de venda, que emprestam seu nome ao empreendimento como um todo.


Além disso, os produtos se diversificaram muito. Os pés-de moleque estão mais sofisticados, feitos com chocolate e leite condensado. Há outros produtos de amendoim também, como cajuzinho, paçoca e o grão in natura, para acompanhar uma boa cerveja.


O comércio da iguaria foi evoluindo com o tempo. Dos meninos ambulantes, especialmente após o fim da linha de ferro, passou-se a vender o produto nas barracas, que são distintas por cores. A bem dizer da verdade, algumas delas cresceram tanto que já não podem receber o nome de barraca, mas de shoppings do amendoim, como é o caso da barraca amarela...


... e da laranja, que diversificaram bem mais a grade de produtos, e vendem bebidas, mel, rapadura e outros quitutes.


A barraca vermelha se manteve mais fiel ao amendoim, aperfeiçoando-se, porém, no quesito gourmetização, produzindo, inclusive, manteiga de amendoim, base para coisas como Amendocrem© e batida. Lembro que meu primeiro porre foi na base de batida de amendoim, que é docinha e engana muito, viu?


Algumas das barracas são verdadeiramente representantes deste nome, mas, como ficam na beira da estrada, possuem um movimento considerável. Nesta categoria, há a barraca roxa...


... e a barraca azul, que vende uns cajuzões gigantes.


Já as barracas que estão fora da rodovia são bem menores, pelo óbvio motivo de que o fluxo de veículos é igualmente menor. Ou seja, é preciso intencionalmente entrar na cidade para acessá-las. Como eu estava a passeio, nada que me importunasse, até porque cada uma delas tem sua sutileza. Nessa categoria, temos a barraca prata...


... a barraca verde, que também vende boas cocadas...


... e a barraca branca, onde encontramos trufas de amendoim, doce-mais-doce-do-que-doce-de-batata-doce.


Um registro e um protesto. Inexiste pé-de-moleque diet, ajudando a nós, diabéticos, a formar uma nova minoria social que se sente excluída neste universo de rapadura. A única coisa que se pode achar é aquela paçoquinha comprável a quilo na Sé e na Luz, ótimas, mas que tem dois defeitos: não é caseira e não é de Piranguinho. Acho que aquele que conseguir desenvolver uma fórmula que use ao menos frutose, menos devastadora para a gente de sangue doce, fará um bom negócio. Afinal de contas, poderá atingir também outros nichos, como a galera fitness e pessoal que tenha outras restrições ao consumo de açúcar. É um bom mercado a explorar.

Mercado... Hoje em dia falamos mais e mais dele, como uma panaceia universal que irá resolver todos os problemas da humanidade, mandando para o inferno da miséria apenas aqueles que não merecem sobreviver no mundo do empreendedorismo. Mas esse é o típico papo do senso comum, variável com o tempo e com o vento. É preciso olhar um pouco mais sobre o nascimento do conceito para usá-lo com sabedoria. Vamos fazê-lo agora, e a partir de seu criador, o escocês Adam Smith.

Estamos no século XVIII, às voltas com uma mentalidade de mudanças, mais especificamente nas vésperas da Revolução Francesa. Já não há mais clima para a permanência de sistemas monárquicos absolutistas, que mantém as pompas e circunstâncias de uma camada extremamente privilegiada e segura o crescimento de outras classes, que possuem cada vez mais tecnologia para produzir e enriquecer (a burguesia) ou a miséria de sempre (o proletariado). O problema não era só as bases políticas, mas também o formato econômico e monetário. A maioria dos países adotava uma política mercantilista, que se apoiava em forte intervenção do Estado na economia, principalmente na administração de metais preciosos que tinham valor de moeda. Sua doutrina principal era a soma zero, que significava que, a cada ganho que alguém tem, há outra pessoa obrigatoriamente perdendo. Como o sustento do aparato da corte se dava pela extração de dinheiro da economia, e esse era o lado positivo da conta, a banda negativa era custeada por quem produzia. Desta forma, um Estado muito grande retirava recursos demais do meio circulante.

As insurgências derivadas do pensamento revolucionário incluíam essa aversão aos privilégios dos reis, que empobreciam a maior parte da população. Claro: se a riqueza de um país é medida em ouro, quem o detém deixa os outros sem nada. Os princípios liberais clássicos, no entanto, viam o mundo sob outro escopo. Estamos em pleno Iluminismo, o movimento que mudou o eixo das relações humanas, que teorizou uma mudança da humanidade em busca do aperfeiçoamento. A sua palavra chave é liberdade: liberdade de dogmas, liberdade de tiranias, liberdade de escolha.

O polo de oposição ao mercantilismo e ao absolutismo que lhe dava sustentação veio do liberalismo econômico, cujo maior mentor era Adam Smith. O horizonte de fundo de sua teoria vem de uma constatação moral. Os homens são essencialmente egoístas. Quando alguém lhe vende alguma coisa, não o faz por benemerência, ou por entender que o desenho social necessita de gente que venda e gente que compre, mas porque quer melhorar suas condições materiais. Então é desse jeito que a banda tem que tocar.

Isso é um mal em si? Nada disso, diz Smith. É justamente dessa vontade de crescer como indivíduos que os seres humanos procuram produzir mercadorias cada vez melhores, e isso é o impulso básico do desenvolvimento da tecnologia. Como esse tipo de mecanismo pode girar se os indivíduos estão submetidos a leis que cercam todos os aspectos de suas vidas? Somente com liberdade econômica pode-se chegar ao maior desenvolvimento possível, e para isso a ênfase do modelo econômico precisa trafegar da instituição para o indivíduo.

O conceito mais famoso de Adam Smith é a mão invisível do mercado. Segundo ele, a economia de um país possui um estado de equilíbrio que deriva da lei de oferta e procura, e que dispensa todo o tipo de intervenções. A coisa funciona assim: o preço de uma determinada mercadoria está vinculado à sua disponibilidade. Isso é fácil de ver na feira. Quando é época de manga, ela passa a ser oferecida por vários feirantes e seu preço cai. Assim que a safra acaba e a fruta vai rareando, seu preço começa a subir, e somente aqueles doentes por manga se propõe a pagar o preço mais alto. A diminuição do consumo faz com que o preço se estabilize, até chegar uma nova época de colheita e o preço caia novamente. Além disso, há a concorrência. O preço base da manga é mais ou menos o mesmo. O que os feirantes podem fazer para que a freguesa opte pela sua? Descontos nas quantidades maiores, a entrega de um brinde, dúzias de treze, frutas já lavadas e outros artifícios que atraem os compradores. De uma forma ou de outra, pelo trabalho ou pelo engenho, é oferecida uma vantagem ao adquirente, repassando o ciclo do egoísmo: não é só quem vende que quer se locupletar; quem compra também quer fazer um bom negócio. Nesse sentido, os metais preciosos que davam lastro ao mercantilismo eram mercadorias como outras quaisquer, passíveis de variações no preço de acordo com sua oferta e sua procura. O valor intrínseco do enriquecimento de um país é o trabalho de seus indivíduos, realizado sem amarras externas. Esse é o princípio basilar do Capitalismo.

A mão invisível seria a metáfora para esse equilíbrio natural entre as forças econômicas. Todas as vezes que um Estado intervém na economia, esse equilíbrio é quebrado e o mercado deixa de funcionar como deve. O egoísmo humano persiste, e procurará meios desvinculados do trabalho legítimo para prosperar, como a corrupção, por exemplo. Por este motivo, o mercado e a concorrência devem ser livres.

Mas a doutrina de livre mercado não pode ser imune a críticas, como parece ser a proposta dos neoliberais de plantão. Em primeiro lugar, e sem juízo de valor, a livre concorrência traz em si a doença da contradição. Monopólios e oligopólios são derivações possíveis no mundo dos negócios. Preços combinados são prática comum: a OPEP, por exemplo, não pratica livre concorrência, mas nasce de seu contexto. Sempre é possível que os feirantes se juntem para combinar o preço da manga. Ou seja, o livre mercado pode atuar, de per si, para impedir a livre concorrência, já que a livre associação também está no rol das liberdades do indivíduo. Para evitar esta circunstância, criam-se leis anticartel, o que é, ora vejam, uma intervenção estatal.

Outra coisa importante a notar é que o mercado funciona bem em países com economias sólidas e população com um nível aceitável de renda. É muito difícil imaginar que países com alta concentração de renda, como é o caso da Terra de Santa Cruz, possam oferecer oportunidades razoáveis para quem deseje empreender, em que pese nossa carga tributária elevada (e de péssimo retorno). Por fim, há ainda a questão de que atribuir áreas problemáticas, como a preservação do patrimônio histórico e o meio ambiente, dificilmente seriam bem geridas pela iniciativa privada, por conta do confronto de interesses. Uma construção histórica, mas totalmente não-funcional, situada em local privilegiado comercialmente deveria ser tratada de que forma pelo mercado? É óbvio que os interesses econômicos prevaleceriam, porque são mesmo importantes, mas mesmo países com alto índice de liberdade econômica têm interesses históricos. Mas o dono do terreno onde está a obra pode cismar de simplesmente derrubá-la para vender o terreno. Se isso te parece absurdo, a intervenção estatal é a solução para o problema. O mesmo se aplica quando pensamos nas áreas ainda preservadas de vegetação original. Ou estão lá porque o Estado é dono delas, ou porque há leis que obrigam sua permanência. Presença estatal, de uma forma ou de outra.

A mão do mercado explica, em boa parte, a diferença entre as barracas de Piranguinho. As barracas grandes, como a amarela e a laranja, tem mais procura por uma série de fatores: porque são mais tradicionais, mais bem localizadas, mais sortidas, mais divulgadas. Cresceram e prosperaram. A pequena barraca prata é menos procurada, e talvez não encante como as outras, talvez terá uma história mais curta, mas isso não impede que tenha o melhor dos produtos. Suas trufas são prova de criatividade, e é isso que essa estranha divindade talvez premie, fazendo-a crescer. O deus-mercado não é previsível em sua totalidade; seus humores variam mais que o tempo de São Paulo, e todas as vezes que vemos uma portinha fechando sentimos um pouco de sua crueldade e indiferença pelos sonhos que se encerram junto com o negócio. O Capitalismo não é para idealistas. Sonhos, só os de consumo. 

Adam Smith não foi um insensível que não tenha detectado estes fatores, e não quis dar uma solução final para a economia de qualquer país. Ele tinha a Inglaterra e a Europa continental à sua frente para analisar, e não tinha um horizonte meramente técnico, sendo notável seu interesse humanista, quando afirmava que havia, de fato, um estrato populacional que precisava de socorro estatal para sobreviver em ambiente capitalista. Mas também é preciso um pouco de consciência na quantidade de incenso a ser acendida à frente de seus altares. Como eu disse, para que o liberalismo funcione bem, é preciso propiciar opções viáveis às pessoas. É muito diferente viver em São Paulo ou em Piranguinho. É diferente ser pobre em São Paulo ou em Piranguinho. O liberalismo é uma forma válida para enriquecer um país, mas não podemos esquecer que países como Japão e Coréia do Sul cresceram sob forte intervenção estatal na economia, e ninguém pode afirmar que são modelos de fracasso. Como seria São Paulo liberal ou Piranguinho liberal? Até que ponto as barracas maiores não engoliriam de vez as menores? São pontos a se cuidar antes de erguer uma bandeira que muito pouco conhecemos em Terra Brasilis. Pode funcionar? Pode. Pode não? Também pode. Se eu tivesse que fazer uma aposta, seria na segunda hipótese, mas esse é papo para outro momento. Por ora, vou comer uma paçoquinha da 25 fazendo de conta se tratar de uma autêntica peça piranguinhense, enquanto a patroa se delicia de verdade. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Tem muita gente que se diz liberal sem entender o que significa o termo, e, pasmem, há muita gente que o critica sem também saber nada sobre ele. O antídoto é ler. Por isso, recomendo o livro de cabeceira que toda pessoa interessada em Economia deveria ler. Indico o primeiro volume, porque a obra é extensa. Caso gere interesse, leia os demais livros da obra.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. Volume 1. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Col. Os Economistas.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Dos dias em que o vento nos afasta do mar - 6º sopro: São Lourenço e as armadilhas do desencantamento do mundo

Olá!

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Ainda em recuperação das emoções e desventuras no antiquário em Cambuquira, a articulação para os rumos a serem tomados no dia seguinte apontaram minha barca para a maior cidade da região, que é o polo por onde toda a redondeza orbita, já que é significativamente mais populosa e, por efeito, mais equipada de comércio e serviços. Trata-se de São Lourenço.


O nome remete ao padroeiro da cidade, dada a sua data de criação, que coincide com a suposta ocasião de seu martírio. Conta-se que, a exemplo de tantos cristãos dos primeiros séculos, o diácono Lourenço não quis renegar sua fé, o que, à época, representava uma sentença de morte. O ponto notável é que, embora tendo sido morto queimado, novamente como outros tantos, não foi exposto diretamente às chamas, mas colocado em uma espécie de grelha. Morbidamente: ao invés de cristão na brasa, temos aqui cristão na chapa. Minha liberdade na brincadeira tem eco no próprio relato de sua paixão, onde se diz que o mesmo Lourenço, ao já se encontrar bastante queimado de um lado, sugeriu aos carrascos que o virassem do outro, para assar por igual. Quem disse que o bom humor não pode estar presente até nos momentos difíceis? Sua basílica é essa aí:


Ainda no campo da religiosidade, tenho mais duas observações a fazer. Na primeira, temos um curioso templo, de uma entidade da qual eu nunca havia ouvido falar: a Sociedade Brasileira de Eubiose. É uma instituição daquelas que costumamos chamar de esotéricas, apesar da flagrante generalização. Eubiose significa algo como “bom modo de viver”, e junta ciência, filosofia e religião. À parte disso tudo, é um lugar bem belo, com um jeitão meio grego, eu achei.


A outra diz respeito a uma singela capela dedicada a Nhá Chica, nas cercanias do perímetro urbano. Há inúmeras representações de santos em estilo naïf, tornando a construção uma coisa única, formando uma coleção de mosaicos de cacos de ladrilhos. A princípio, eu tinha entendido que a capela tinha sido erigida pela própria beata, mas depois vi que não. Bem, no momento certo falarei mais sobre ela.


São Lourenço extravasa muito da questão da religiosidade. Um dos mais admiráveis equipamentos culturais de lá é o sistema ferroviário, que preserva bem conservados uma estação inaugurada em 1884...


... e uma linha operante de caráter turístico, ligando São Lourenço ao município de Soledade de Minas, com preço assombroso (o que não foi exatamente um problema, dada sua operação unicamente em fins de semana). É tudo à moda antiga, com locomotivas a vapor. Esta da foto já foi aposentada, sendo apresentada apenas como objeto museológico.


Ainda nas vizinhanças da estação, fica situado o Educandário São Lourenço, uma escola ainda ativa que funciona em prédio histórico, gerida pela Igreja Católica, dando uniformidade ao conjunto arquitetônico da região.


Históricas também são as árvores da praça. Segundo se diz, são as mesmas que a florestaram na ocasião da construção da gare. As raízes de concreto, que se estendem em forma de mão na direção delas representam a proteção à natureza e à história, e foram idealizadas pelos alunos do educandário retro.


Só que São Lourenço tem um elemento turístico ainda mais característico – o gigantesco Parque de Águas, que abraça mais de 400 mil metros quadrados de paisagismo, área verde, lagoas e fontes, além de outras veredas, como o caminho do bambuzal.


Um dos principais equipamentos do parque, sem dúvida, é o balneário, onde a água é utilizada para práticas estéticas e medicinais. O prédio é imponente, regendo toda a área do lago.


O lago, aliás, não só é morada de uma montanha de garças e patos, mas é ponto de lazer, porque é navegável. Há diversidade – pedalinhos, caiaques, miniescuna e botes...


... como o que eu e a patroa fretamos por uma hora. Não sou atleta, longe disso, e é meio confuso nas primeiras remadas, mas depois pega-se o jeito e dá para fazer altos rolês pelas águas, sempre bem acompanhados.


Também aqui dentro há lugar para as manifestações religiosas. Além de uma imagem tida como milagrosa de Nossa Senhora dos Remédios, cheia de ex-votos e agradecimentos, o parque é sede da ermida do Bom Jesus do Monte, onde moram religiosos, e por isso seu acesso é restrito. Mas há um elevatório onde os fiéis podes dirigir suas preces ao céu e ter uma visão um pouco mais ampla daquele setor.


Dentro do parque, há alguns animais que vivem soltos, como vários passarinhos, borboletas e alguns macaquinhos sauá, com sua longa cauda preênsil. Alguns deles são expeditos o bastante para se aproximar dos caminhos artificiais e ganhar suas frutas.


O centro das atenções, naturalmente, está nas fontes. O parque tem nove delas, entre gasosas, sulfurosas, magnesianas e etc. Todas elas ficam acomodadas em construções semelhantes a quiosques, e são canalizadas por bicas, de acordo com suas propriedades medicinais. Ficam espalhadas por toda parte, para dar uma melhor dinâmica na caminhada.


Há fartas descrições das propriedades de cada uma delas, em painéis explicativos, o que é muito legal. Há inclusive avisos para aquelas que precisam ser consumidas com parcimônia. A fonte ferruginosa, por exemplo, chega a ter a água levemente turva, o que indica grande quantidade de elementos em suspensão. É bom não ir com muita sede à fonte (ai!).


Em um dos quiosques, há uma curiosidade: um bico de gás, que muitas pessoas procuram alegando benesses respiratórias. Algumas reclamam se sentir mal ao respirar, outras dizem sentir uma renovação do fluxo de energia. Eu e a patroa demos nossa cafungada, e somos unânimes: ainda que por somatização (vide), dá um levíssimo barato.


Todas as cabanas que guarnecem as fontes são de bela feitura. Pudera. Há uma Nestlé por trás da sua manutenção, sem crítica. Esta aqui é uma das mais visitadas:


Há também um “lado de lá” do parque. Acessível por intermédio de um túnel, um novo quarteirão está sendo formatado para expandir a obra. Por ora, há um jardim japonês já completo...


... e uma fonte sulfurosa, cuja água, por motivos óbvios, tem um cheirinho meio demoníaco. Esta é a parte do parque II que ainda está sofrendo um processo de ajuste na paisagem. De fato, a fonte está apenas funcional, ao contrário do que acontece na gleba principal.


Falando em projeto paisagístico, este parque é mais complexo do que o de Lambari, minimalista, e o de Cambuquira, bucólico. Como o espaço permite, o pessoal que cuidou desse aspecto teve mais liberdade e pode viajar mais na maionese. Foram buscar na mitologia grega as figuras das ninfas, divindades menores, todas elas femininas e que representam os espíritos da natureza.


As ninfas não representam uma classe uniforme. Há várias espécies delas, sempre de forma etérea, como se constituíssem a alma do ambiente em que habitam. Há ninfas das selvas, das montanhas, dos vales, dos ventos e de tudo o que se pensar em termos de ambiente. Aquelas que povoam os mundos aquáticos, como as que temos aqui, são chamadas de náiades.


Também as náiades não são um bloco fechado. Como os ambientes aquáticos são bastante diversos entre si, como oceanos, rios, lagos e etc., existem náiades específicas das fontes, que lhes emprestam os dons de cura e saciedade: as crinéias.


As crinéias mais famosas foram Aganipe, filha do deus-rio Ternesso, mãe de Dânae e habitante da fonte de mesmo nome, no sopé do monte Hélicon; e Salmácis, caso único em que uma divindade feminina tenta violentar um outro deus, Hermafrodito, o filho de Hermes e Afrodite. São representações da beleza e da perfeita integração entre homem e natureza, como as demais ninfas.


Como são interessantes as construções míticas, não? Com poesia e arte, todos os povos sempre buscaram dar explicação não só aos seus sentimentos e aflições, seus destinos e futuros, mas mesmo aos pequenos aspectos práticos de suas vidas. Nesta minha viagem a São Lourenço, enquanto caçava alguma coisa dietética nas abundantes prateleiras de abundantes doces de abundante açúcar, encontrei um pequeno livro (indicado nas recomendações) que conta o mito tupi da criação da Serra da Mantiqueira. Uma história lindíssima, lírica, e que satisfez por muito tempo o imaginário dos povos que o contavam. Não tendo à sua disposição um aporte científico, justificavam a existência de seu meio através de um sistema intrincado de contos e lendas. Em síntese: o Sol vagava pelo mundo em sua eterna alternância com a Lua, quando avistou em um pequeno lugarejo uma mulher linda, pela qual se apaixonou. Diante de tanta beleza, o Sol deixou de se pôr, para contemplar sua paixão, secando os rios e gretando a terra. A Lua, revoltada, foi apelar a Tupã, o deus supremo, que condenou a jovem que se atreveu a apaixonar o Sol. Atirou-a ao fundo de um vale, ao redor do qual havia uma imensa cadeia de montanhas, e a escondeu na escuridão que se formou. O Sol, todas as tardes, avermelhava-se de tristeza e ia se afundar no mar, por detrás do horizonte. Vendo a sua tristeza, também a Lua se comoveu, chorando as estrelas que povoam o céu, enquanto a índia de nome perdido no tempo chorava todas as noites por não mais poder ver o seu amado. Daí, o nome Mantiqueira, a "serra que chora" em língua tupi. Vai dizer que não é bonito?

Mas o mundo moderno, com exceção das religiões fortemente institucionalizadas, abandonou a narrativa mítica, apesar de sua beleza intrínseca. Por que?

Penso que tinha razão nosso caro Nietzsche quando afirmou que o homem perdeu a capacidade de suplantar a si mesmo ao abandonar a formação de uma mitologia nos moldes da tragédia grega (revivida pela pobre Lusa, como descrevi neste texto). Mas o bigodão acha que o sacrifício do pensamento estético se deu por força de uma mudança de paradigma epistemológico, ao se adotar o racionalismo extremo proposto por Sócrates. Mas há mais de um caminho para analisar a questão. Vou seguir o itinerário sociológico de Max Weber para tentar fazer uma outra compreensão do abandono dos mitos.

Weber percebe como a religião morde seu próprio rabo quando surge o novo paradigma proposto pelo Protestantismo. Inicialmente, o Cristianismo baseia-se fortemente na ideia de que o mundo terreno é uma instância passageira, de onde os fiéis deveriam buscar simplesmente ferramentas que pudessem garantir suas salvações: boas ações, boas palavras e bons pensamentos. Este mundo não é o Reino de Deus prometido pelos profetas, em suma. É um terreno de castigo, longínquo do paraíso edênico. Ele tem mais a atrapalhar do que a ajudar, com suas tentações e oferecimentos às vaidades humanas. Além disso, o mundo é um lugar de provação, onde o trabalho é uma atividade vista como um castigo divino: comerás teu pão com o suor do teu rosto. Não à toa, a palavra trabalho tem origem no latim tripalium, três paus, que eram um instrumento de tortura.

Com o advento da Reforma Protestante, há uma mudança na filosofia salvífica e, de embalo, no modus vivendi do cristão. Weber nota que a mudança mais radical se dá através não dos ditames de Lutero, primeiro reformador bem-sucedido, mas da interpretação de Calvino.

Ao contrário do que pensava a corrente dominante do Cristianismo, Calvino entende que a salvação não se dá pelo conjunto da obra de um ser humano, mas da livre vontade de Deus. A tese é a seguinte: Deus é um ser superior a toda a humanidade, que lhe é totalmente subordinada. É impensável que a criatura possa prescrever condições ao seu criador. Sendo assim, Deus admite ao seu lado quem ele bem entender, e não há nada que o homem possa fazer para mudar isso. É a doutrina da predestinação: o homem já tem seu destino escrito e definido.

Mas isso traz uma dificuldade aparentemente insanável. Se já se está marcado por um destino imutável, dependente exclusivamente da vontade divina, como fazer para se ter noção de quem pode ou não ser salvo? Calvino diz que Deus dá “dicas” de suas escolhas – o homem escolhido é próspero, ele tem recompensas já em sua vida terrena. Assim, se os negócios vão bem, se a terra é produtiva, se a freguesia cresce, se os bens se acumulam, isso é manifestação inequívoca da benesse divina. De cara, esse pensamento tira o aspecto pecaminoso que o Catolicismo atribuía ao lucro e à sua variante mais mesquinha, a usura. Sendo a prosperidade uma manifestação da vontade de Deus e o lucro sendo seu principal propulsor, nada há de errado nele.

Essa filosofia religiosa caiu como uma luva para o contemporâneo capitalismo que florescia. Devidamente escusado de seus pecados, os capitalistas encontravam o conforto antes inexistente para a prática de suas atividades, o que, inclusive, desmistificava a visão negativa que se dava ao trabalho.

Weber nota uma coisa interessante, derivada disso tudo: os católicos se preocupam com uma educação humanista, enquanto os protestantes dão maior importância à educação técnica, e uma das consequências aparentes é que os negócios vão todos caindo nas mãos destes últimos. Eles estão melhores acomodados com a posição individualizada da dicotomia protestantismo-capitalismo. Lembrem-se: sendo escolha única de Deus, a salvação se aplica a indivíduos, e não a grupos. A comunidade agora é menos importante do que o indivíduo, que passa a olhar muito mais a si mesmo. O individualismo passa a ser a doutrina subjacente tanto à religião quanto ao sistema econômico, com o trabalho como bandeira a ser carregada. Quase que por uma motivação psicológica, a propensão ao trabalho do protestante vira uma ética do dever laboral – o trabalho não só não é mais um castigo, como ele é uma obrigação, um espaço do qual Deus se utiliza para manifestar suas decisões.

E é aí que nasce o busílis. Ao preconizar um mundo já delineado, cuja única ação tem por propósito dar vazão àquilo que já está decidido, tem-se que praticamente apenas o trabalho é a oferta que se tem a fazer a Deus. Uma vida ascética não tem mais valor, um culto aos santos e a imitação de suas vidas não tem mais valor, incensos e velas não tem mais valor, narrativas míticas (a não ser aquela chancelada pelo seu livro sagrado) não tem mais valor. O mundo perde por completo seu aspecto mágico e passa a se pautar unicamente pela “racionalidade”. É o que Weber chama de desencantamento do mundo, que não tem o sentido de desilusão ou desapontamento que o termo parece dar, mas de exclusão de todo o misticismo.

Só que é exatamente aí que o parafuso quebra na próxima volta. Da mesma forma que o capitalismo encontra no calvinismo sua cara-metade religiosa, também este vai se constituindo em restante do aspecto místico a ser descartado. Em um mundo cada vez mais laico, e com os progressos científicos cada vez mais substituindo a necessidade de orações, e com o paradoxo dos prósperos de outras religiões, e com o malabarismo lógico para conciliar (sem sucesso) predestinação e livre arbítrio, o fato é que a ética do capitalismo baseado no calvinismo aproveita-lhe apenas o esqueleto, como se fosse um fóssil. E a cobra morde o próprio rabo. O desencantamento do mundo mostra ainda mais uma vez suas garras, sufocando o próprio movimento religioso que lhe deu origem.

E nesse meio tempo já se perdeu todo o lirismo das diferentes mitologias... O mundo desencantado de tudo seria o cúmulo da chatice, não fosse a arte, mas isso é tema para outro momento.

Recomendações de leitura:

Basilar na Sociologia, o livro abaixo representa o suprassumo da visão weberiana sobre a influência da Religião na vida da sociedade. Se o assunto interessar, não deixe de ler.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 2000.

Também referenciei o livrinho que encontrei em São Lourenço sobre o mito do surgimento da serra da Mantiqueira. É ótimo para crianças, porque é todo ilustrado pela própria autora, mas que serve muito bem para exemplificar a poética a que me refiro neste texto.

BAJGIELMAN, Selma. Lenda da Mantiqueira. São Lourenço: Novo Mundo, 2014.