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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – Epílogo

Olá!


Em todas as séries de viagens que desenvolvi neste espaço, sempre procurei intitulá-las com metáforas marítimas. Para quem gostou destes trilhos perdidos, convido a lê-las, porque têm basicamente o mesmo formato:


Claro que isso tudo se dá porque o oceano traz uma figuração sobre viagem, mas também nos lembra do mistério do desconhecido, das incertezas da partida, de uma certa melancolia de quem ruma sem saber exatamente por que e para que. Desta vez, no entanto, sem fugir de uma retórica que remeta às jornadas, variei de nomenclatura. Fui buscar uma temática ferroviária, que também tem seu encanto, já que os trilhos e o trem que some no horizonte são ferramentas poéticas que nos lembram de como nossos destinos são inevitáveis. Eu já fui jovem, sonhei como qualquer um e escrevi letras de música, achando que poderia impressionar as pessoas. Como eu digo na música Largo da Misericórdia...

“Ao léu, o trem que nunca vem
Sem ele, nada me arrasta
E, se não me arrasta, não tenho porque crer no destino
Só que eu estou aqui, no largo e ao largo
Esperando o trem chegar
Prá sempre de partida”

... com algo que vai entre o desencanto e o rancor. É claro que eu jogo com contradições, um instrumento lírico para dizer que a vida é um negócio louco e transitório. Não creio no destino, mas estou entregue a ele, coisas assim. Então é legal pensar no trem, que custa a chegar, que nem se sabe se vai chegar, se a estação vai acabar antes que ele chegue, que vem como uma miúda fumaça no horizonte, que passa por cima de qualquer coisa que cair em seus trilhos, que ao descarrilar sempre representa desgraça e que desaparece entre as montanhas, deixando para trás apenas o silêncio.

Apenas o silêncio? Não, deixa também a memória. E isso vai ajudar a explicar a inspiração para o nome da série. Estamos em uma região das Gerais repletas de recordações do universo ferroviário, no mais das vezes constituídas por antigas estações, ou o que restou delas, sem nenhum sinal de seus antigos trilhos. De fato, algumas destas estão bem preservadas e ganharam outra destinação, enquanto outras viraram apenas lembranças, especialmente naqueles que, de uma forma ou de outra, tiveram suas vidas ligadas à atividade. Para estes, os trilhos se perderam. Eu quero achá-los.



Eu mesmo não tenho grandes memórias ligadas às linhas férreas. Na cidade grande, o fundo da paisagem é composto por prédios, e não por trilhos que cortam vales. Pior ainda no metrô, um imenso tatu que cruza o subsolo de um lado para o outro, sem nenhum tipo de romantismo. Tirando a burla dos muros da linha para chegar à casa do falecido tio Chico, todas as minhas ligações com o trem são utilitárias: ir e voltar do serviço. Houve uma época em que eu saía de São Caetano do Sul, onde eu trabalhava, para ir até a Vila Prudente, onde eu estudava. Era possível fazer o percurso de ônibus, mas demorava o triplo do tempo que o trem levava para cumprir as duas estações necessárias. Então eu encarava a máquina de ferro no fundo do vale de sua existência. A década de 80 foi um período em que o trem da Santos-Jundiaí vivia sujo, roto, quebrado, barulhento. O consumo de drogas ainda era muito reprimido, mas os vagões eram uma espécie de zona franca, um território livre para festinhas, e recendiam a bafo de pantera. Eu mesmo costumava acender meu inocente Marlboro, para deixar claro que meu cigarro era de baixos teores. Desse jeito, o máximo que poderia acontecer era ser tocado do vagão. Mas nunca aconteceu.

Ah, sim, lembrei de duas coisas bacanas relacionadas ao trem. Uma delas eu já contei aqui, que era quando meu avô me levava ao campo do Nacional, time cuja origem está intimamente ligada à ferrovia que lhe costeia. Hoje a linha é chamada de Rubi ou Diamante, nunca sei bem. Para nós, era simplesmente a linha da Lapa, e descíamos na estação Água Branca. Dali, eram cinco minutos até a Comendador Souza. A outra é muitíssimo remota e são só nuvenzinhas na minha cabeça. Trata-se da única vez que fui com meus pais para o norte do Paraná de trem. Se eu não me engano, a composição partia da Capital com destino a Ourinhos, na divisa. De lá, era preciso baldear para outro trem, da linha federal. Depois, em Londrina ou Maringá, o restante do trajeto era cumprido de ônibus.

Lembrei de mais uma. Quando eu era criança de uns sete ou oito anos, ganhei de Natal aquele que foi um dos presentes mais caros da minha vida: um Hit Train, antecessor do Ferrorama, caro para os padrões do operariado em geral, mas eu devo ter me comportado bem e meus pais acharam que deveriam gastar um pouco mais naquele ano. Era um brinquedo lindo, composto por um trenzinho que simulava uma máquina elétrica com seus respectivos vagões. O aparelhinho era a pilha, e deslizava por uma série de trilhos plásticos, com alavancas para desvio e reversão do movimento do trem. Eu costumava montá-lo por sobre minhas caixinhas de futebol de botão, para dar a sensação de via elevada. Também fazia as curvas passar pela beirada da mesa, de modo a dar sensação de perigo com o tombamento do trem. Numa dessas, a queda fez com que o compartimento das pilhas saltasse, e eu comecei a compreender que os remendos dos trens originais também eram reprodutíveis no mundo imaginário dos atrevidos petizes. Putz, era um brinquedo muito legal... Deveria tê-lo mantido até hoje.

Contei tudo isso para tentar responder à pergunta que tantos fazem: por que as ferrovias praticamente acabaram no Brasil? E por que elas trazem tantas boas lembranças para quem as vivenciou de perto?



É impressionante, mas é só o Brasil sendo o Brasil. Não tem certos absurdos que parecem acontecer só por aqui? Pois é, este é mais um. Em um país de dimensões continentais, é de se esperar que fossem construídos diversos ramais que, em certo momento, se interligassem. Acontece que as linhas foram construídas autonomamente, sem nenhum tipo de planejamento, e cada uma tinha seus parâmetros próprios de construção. Em alguns casos, as plataformas das estações precisavam ser mais altas, dependendo do modelo de vagões adotados. Isso explica porque há estações com altura tão variável. É óbvio que a região em que estamos tem um certo padrão, porque estamos falando somente da RMV – Rede Mineira de Viação. Mas este não é o grande busílis.



A dor de cabeça maior diz respeito à questão das bitolas. Eu já falei sobre o caso em meu texto sobre Bananal, mas vou retomar rapidamente. Bitola é a largura entre as rodas de um trem, o que determina a distância do paralelismo entre os trilhos de uma linha. Digamos que uma máquina tenha bitola de um metro. Isso significa que os trilhos deverão obrigatoriamente estar separados nesta medida. Não é simples? Ocorre que nossos ímpares administradores costumam se preocupar muito com o universo que orbita seus umbigos e esquecem de por a cabeça para fora da toca, e nunca se planejou uma bitola padrão para as nossas linhas férreas. Já ouviu falar de um cara “bitolado”? Isso indica uma pessoa que pensa sempre da mesma maneira, por mais que se mostre que as coisas são diferentes. Os trens também são bitolados, só andam em trilhos com aquela largurinha específica que cismaram, por um motivo muito prosaico – são engenhos sólidos, construídos para serem como são. Não dá para alargá-los ou encolhê-los ao bel prazer do ínclito governante.



Isso quer dizer que um trem não pode passar de uma linha para outra, ficando escravo dos trilhos adequados ao seu tamanho. Isso fazia a atuação de uma composição ficar restrita ao seu próprio ramal, e, para atingir novos destinos, só com transferências: baldeação para passageiros, transbordo para cargas. Isso aumentava um bocado o tempo das viagens e multiplicava seus custos. Pensem, por exemplo, no pessoal e no espaço necessário para tirar todas as toneladas de grãos de uma composição e colocá-las em outra.




Não foi esse o único fator que levou à substituição no modelo de transporte, no entanto. Uma desgraça nunca vem sozinha e uma coisa puxa a outra. O principal motivo para a construção de ferrovias foi o transporte de produtos agrícolas, notadamente o café, tão dominante na primeira metade do século XX. Só que as coisas vêm e vão, e os cafeicultores experimentaram um grave declínio, refletindo na falta de atualização tecnológica das linhas. Com a chegada de Juscelino Kubitschek ao poder, e com a implantação de uma política desenvolvimentista baseada especialmente na chegada da indústria automobilística ao país, mudou-se a matriz de transportes tupiniquim. Afinal de contas, o princípio geral que norteava o governo era que não bastava crescer, era preciso crescer depressa, os tais “cinquenta anos em cinco”. Substituir ferrovias por estradas de rodagem tinha duas grandes vantagens para esse modelo. Por um lado, era muito mais rápido nivelar e asfaltar um terreno do que enchê-lo de dormentes e trilhos. Por outro, dava-se um incentivo e tanto às recém-chegadas montadoras, que venderam caminhões aos borbotões para substituir os antigos trens. Estava aberto o sepulcro da linha férrea.



Pensou-se a longo prazo? Não, né... Mas na Ilha de Vera Cruz costuma ser assim mesmo. Os trens eram realmente lentos, e uma viagem de longo curso era um suplício. Nesse sentido, os ônibus são ágeis, menos barulhentos e possuem mais flexibilidade, podendo mudar de trajeto ao sabor das circunstâncias. O mesmo se aplica aos caminhões para o transporte de cargas. E para se ter uma malha decente precisaríamos substituir quase tudo, padronizando bitolas, reerguendo estações obsoletas, modernizando o maquinário, atualizando os funcionários... As vantagens não apareceriam da noite para o dia, mas, na ponta do lápis, elas seriam grandes. Um trem carrega muito mais do que os maiores caminhões, com risco ínfimo de acidentes e perda de cargas, além do menor potencial poluente. Além disso, bons equipamentos garantem velocidade muito superior à das poéticas, porém ineficientes marias-fumaça. Peço desculpas aos amantes do velho vapor, mas o seu lugar é o museu. E as velhas estações merecem uma nova destinação, mesmo que não esteja relacionada ao seu antigo uso.



Na verdade, o que é mais digno de notar é como esse tipo de reminiscência nos toca a memória afetiva. Embora não tenhamos o costume da resistência, o fato é que há coisas que nos cutucam o fundo da alma, e deixamos elas ir embora. Resta apenas o que lembramos, e por isso estes artefatos são tão importantes. Só que a tal memória afetiva é marota. Vamos ver isso rapidinho.

Endel Tulving é um psicólogo canadense de origem estoniana que se especializou no estudo da memória. Antes da publicação de sua original abordagem, já se dizia de uma tipificação da memória, sendo uma de curto prazo e outra de longo. Na primeira, estariam os dados que usamos no nosso dia-a-dia e que logo são descartados, assim que perdem sua utilidade. Por exemplo, quando pegamos um jornal, damos uma passada rápida pelas manchetes. Aquelas notícias que não nos chamam a atenção são brevemente esquecidas, e damos atenção àquelas mais importantes. Isso acontece porque não há nenhum proveito em reter as informações descartáveis, mas elas passam pela nossa memória, até mesmo porque são a porta de entrada para a memória de longo prazo, aquela que fica retida em nosso cérebro, e que são recordadas na medida em que se fazem necessárias, e estão intimamente ligadas à aprendizagem.

Para Tulving, essa divisão era insuficiente para explicar adequadamente o fenômeno mnemônico. No longo prazo, parecemos ter uma memória intimamente ligada ao conhecimento, e outra aos acontecimentos. Senão vejamos.



Eu posso pedir para vocês enumerarem quantas classes gramaticais conhecem. A lista começará – substantivo, pronome, verbo, artigo, etc. Pode ser que alguém lembre de todas, pode ser que se lembre de uma ou duas. Pode acontecer ainda que não se lembre de nenhuma, mas, a partir de uma dica, todas as classes venham enfileiradas. É um tipo de memória que é dividido internamente em categorias: diga uma cor, diga uma fruta, diga um nome. Essas memórias, portanto, tem uma carga de significados que permite traduzir conhecimento. Por este motivo, é chamada de memória semântica.

Mas, e se agora eu perguntar QUANDO ou ONDE vocês aprenderam o que são as classes gramaticais? Pode ter sido na escola, em casa, na biblioteca. Pode ter sido com professores, com os pais ou com os livros. O fato é que dificilmente alguém se recordará disso. Com perdão aos professores (ou a quem tiver ensinado), os itens da memória semântica não fazem distinção habitual do meio com o qual são absorvidos. Aprender uma classe gramatical não é um acontecimento, apenas um ato cognitivo.

Mas não lembramos de um monte de fatos que acontecem em nossas vidas? Sim, claro. E isso é função de outro tipo de memória, muito mais pessoal que a semântica. É a parte emotiva de nossas lembranças, onde o contexto geral dos acontecimentos é imprescindível para a sua compreensão. É o que se chama de memória episódica, ligada aos eventos de nossas vidas. E como é feito o resgate dessas informações pela memória?

Parece que possuímos uma espécie de indexador que ajuda a consciência a recuperar a informação armazenada na memória de longo prazo. Mas enquanto o indexador da memória semântica é a categoria temática onde encaixamos o conhecimento, e que funciona por semelhança, na memória episódica o índice é composto pelo tempo. Quando recordamos de um evento qualquer, todo um conjunto de circunstâncias é carregado junto, para que se possa remontar o contexto com o qual ocorreram. Dessa forma, é possível que se desça a um nível de detalhe muito maior na memória episódica do que na semântica. Pense no primeiro beijo: talvez você lembre até a roupa que vestia, o que certamente não ocorrerá se você tentar resgatar o que lhe rodeava quando você aprendeu o que é advérbio. Então o índice “primeiro beijo” vai te levar de volta no tempo, fazendo com que você reviva mentalmente o evento.



É exatamente o que acontece com a memória afetiva do pessoal que viveu sob a sombra das estações ferroviárias e das fumaças das locomotivas, que, nos casos das cidades pequenas, acabam por se tornar mais relevantes. Esses objetos são índices que lhe trazem um conjunto completo de recordações, como a partida de um filho para a cidade grande, um pedido de casamento feito em um de seus vagões, o apito que parecia mais triste no dia em que a avó morreu, ou o simples ruído da descarga do primeiro trem que partia no dia, um pouco mais tarde do galo cantar e que acompanhava o cheirinho de café coado na hora. Dessa forma, a memória afetiva, aquela que nos toca, é consequência da memória episódica.



E por que a memória afetiva é matreira? É que, embora a memória episódica traga uma informação de contexto muito mais detalhada que a semântica, nem todos os seus componentes são resgatados em um mesmo nível. Em outras palavras, as informações não são todas disponibilizadas para a consciência com a mesma vivacidade. Isso significa que a memória afetiva tende a ser distorcida, com ênfase em seus componentes centrais e desvanecimento dos elementos periféricos. Exemplificando, posso pensar que o cheiro do café da minha infância era o melhor do mundo, porque estava acompanhado de um monte de outras coisas que me felicitavam, de eventos positivos. Se eu tomar o café hoje em dia, poderei ter duas reações: decepção em perceber o quanto ele é igual aos outros, ou entrar em um processo de negação, exatamente aquele que diz como as coisas eram boas “naqueles tempos”, e que hoje não valem nada.

Não é verdade. Lembramos com carinho do tempo das marias-fumaça, mas não há sentido em achar que elas eram melhores que os atuais metrôs, mais rápidos, mais seguros, menos poluentes. E mesmo que a usássemos hoje, sentiríamos desconforto em lembrar o quanto eram barulhentas, pesadonas, incômodas. Não que isso seja um mal, mas tudo tem seu tempo certo, e o lugar das memórias e lá mesmo: nas memórias. Por isso, é preciso tomar um pouco de cuidado para não deixar que um saudosismo nos absorva, especialmente quando a nossa vida se encaminha mais para a memória do que para a vivência. Eu, por minha parte, sei de um monte de coisas que não são exatamente como as recordo, e procuro meter o pé na pedra e na lama, vivendo o hoje da melhor maneira possível, porque lembro de tanta coisa que eu sei que não vai voltar, e que, se voltasse, não seria como antes. Bons ventos a todos e até a próxima romaria!!!



Recomendação diversas:

Só em inglês ou nos compêndios de Psicologia. Este aqui está disponível no Google Books:

TULVING, Endel. Elements of Episodic Memory. Gloucestershire: Clarendon, 1983.

Uma belíssima pedida é o site mantido pelo Ralph Mennucci Giesbrecht, que vem pesquisando a tempos sobre as linhas férreas deste Brasilzão de meu Deus, incluindo muita coisa que já desapareceu quase que por completo dos anais de nossa história. Ele tem livros disponíveis para vender, que, assim que o parco orçamento permitir, pretendo comprar. Segue o endereço:


E, claro, todas as cidades deste périplo, todas a distância razoavelmente pouca da Terra da Garoa. Recomendo fortemente para todos aqueles que gostam de um cheiro do mato sem se descolar da história. A quilometragem corresponde ao melhor trajeto de carro possível, na minha humílima opinião.

Maria da Fé – 288 Km
Cristina – 299 Km
Marmelópolis – 255 Km
Delfim Moreira – 234 Km
Piranguinho – 257 Km
Brazópolis – 242 Km
Wenceslau Braz – 249 Km
Itajubá – 262 Km

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 5ª estação: Piranguinho e as mãos do mercado mexendo nos pés-de-moleque

Olá!


Quando estávamos em Delfim Moreira, ao cair da noite, encostamo-nos em um barzinho para comer qualquer petiscaria que estivesse disponível. Era estilo botecão mesmo, com balcão de fórmica e mesinha de madeira recoberta por aquelas toalhas xadrezes, baleiro rotatório, estufa para salgados, potes de sardinha enrolada e demais que-tais. Apesar disso, não estava repleto de bêbados, como sói acontecer no nosso imaginário, e sim com uma luz meio fraca, tipo daquelas de fim de expediente. Não era possível fazer grandes exigências porque estávamos mais sujos do que poleiro de galinha (exagero), então ficamos na base do queijinho minas e da azeitoninha. Tudo de bom, tudo de bem, quando o dono da tasca ofereceu uma especialidade da região: cachaça artesanal. Eu costumo ficar ressabiado com esse tipo de assertiva, otimista demais, mas sou bem educado e provei o pretencioso preparado. E era realmente bom, sabor suave, sem aquele travo arrepiante que denuncia a bebida de má qualidade, mais próxima dos derivados de petróleo do que dos destilados de cana. Na verdade, posso dizer que era uma pinga realmente notável, e me interessei por saber mais. O dono me mostrou o rótulo: Luminosa, um distrito da municipalidade de Brazópolis. É longe? Não. Então vamos para lá.

Isso não foi no mesmo dia. Brazópolis fica a oeste de Itajubá, onde ficamos hospedados, lado oposto a Delfim Moreira. O tempo bem mais firme foi um convidativo para sairmos mais cedo, e, no meio do caminho, há uma cidade que tem uma tradição e um mote poderosos: Piranguinho.


Piranguinho tem um nome que é composto pela palavra tupi pyranga, que quer dizer vermelho, e complementada pelo sufixo í, que dá a conotação de diminutivo, e se refere a um tipo de pedra vermelha outrora comum no município. Eles se autoproclamam a “Capital Nacional do Pé-de-moleque”, mas falo já, já sobre isso.


A cidade possui uma praça central bastante calma, que homenageia o Coronel Braz, o velho advogado e político Francisco Braz, pai do presidente Wenceslau, muito influente em toda a região (e, em certo momento, no Brasil inteiro). A igreja matriz atual é dedicada a Sant’ana, que, na tradição da igreja Católica, é avó de Jesus.


Esta igreja tinha outro padroeiro, mas não sei por qual motivo, o mesmo foi “destituído”. Tratava-se de São Benedito, o mais célebre dos santos negros, antigo cozinheiro de um convento franciscano. A referência ao seu antigo padroado está do lado de fora da igreja, e me pareceu bastante sincrético: as mãos de um africano que toca o seu atabaque, algo tão típico dos cultos do candomblé.


No restante da praça, além do belo arvoredo e dos velhos costumeiros dos bancos, mais dois pontos a serem notados. O inevitável coreto...


... e o monumento Abraço, feito em bronze, para homenagear a construção da primeira igreja da localidade. O próprio monumento é sincrético, por mencionar todos os homens e mulheres de todas as raças que ajudaram a edificar Piranguinho.


Mas, como eu já disse, o carro-chefe daqui é o pé-de-moleque, doce feito classicamente de amendoim agregado com calda de açúcar, um daqueles petiscos bons para quebrar os dentes, como o torresmo e o quebra-queixo, mas que, segundo os produtores locais, não segue exatamente os cânones da sua manufatura, aquela mera rocha doce. Aqui o processo também incluiria a moagem do grão e o uso de rapadura.


A explicação para a preferência por este doce faz remissões antigas. Dos tempos em que ainda operavam ferrovias na região, mais precisamente. De fato, Piranguinho possui uma estação bem preservada no distrito de Olegário Maciel e a ponte de ferro sobre o rio Sapucaí, por onde o trem a ligava ao município de Itajubá.


Estamos no começo do século XX e as famílias complementavam sua renda com pequenos negócios, que incluíam a venda de produtos artesanais nos vagões dos trens durante suas paradas. Na estação de Piranguinho, um dos mais bem aceitos era exatamente o pé-de-moleque, que era vendido em tabuleiros, na maioria das vezes por crianças.


O nome do doce tem duas explicações, nenhuma delas firme suficiente para fixar uma “jurisprudência”. Na primeira, fala-se dos garotos que ficavam olhando as cozinheiras pelas janelas, atraídos pelo seu aroma inebriante. Algumas delas, ao ver as cabecinhas tímidas e os olhos gordos, diziam “pede, moleque. Pede, moleque” esperando a demanda pelo bocado. Na segunda, faz-se uma alusão à aspereza típica da guloseima, que lembraria um pé grosseiro das crianças que andavam descalças para toda parte onde iam (a versão moderna chamada pé-de-moça, feita com amendoim moído mais fino, remete a essa mesma lógica). Logo na entrada da cidade, uma estátua lembra, com exagero óbvio no pé, tanto o meio de venda quanto os próprios vendedores.


Por ocasião do aniversário do lugarejo, é realizada uma festa com uma semelhança ao aniversário de São Paulo, o tradicional bolo do Bixiga. Para quem não é da Terra da Garoa, explico. No bairro do Bixiga, é feito um bolo cujo tamanho aumenta um metro por ano, para que cada um represente um ano na idade da cidade. Por isso, no último mês de janeiro foi feito um bolo com 458 metros de comprimento, comemorando os seus 458 anos. Aqui em Piranguinho, o bolo é substituído por pé-de-moleque, naturalmente. Isso produziu o maior pé-de-moleque do mundo, atualmente com 23 metros, como conta esta placa na Praça da Paz. Não se trata de espelhar a idade, mas, a cada ano, procura-se superar o récorde anterior.


Muito embora ainda seja possível encontrar quem produza o pé-de-moleque artesanalmente, a maioria das iguarias encontradas é oriunda de fábricas, que modernizaram o negócio. Algumas delas são resultado do crescimento dos postos de venda, que emprestam seu nome ao empreendimento como um todo.


Além disso, os produtos se diversificaram muito. Os pés-de moleque estão mais sofisticados, feitos com chocolate e leite condensado. Há outros produtos de amendoim também, como cajuzinho, paçoca e o grão in natura, para acompanhar uma boa cerveja.


O comércio da iguaria foi evoluindo com o tempo. Dos meninos ambulantes, especialmente após o fim da linha de ferro, passou-se a vender o produto nas barracas, que são distintas por cores. A bem dizer da verdade, algumas delas cresceram tanto que já não podem receber o nome de barraca, mas de shoppings do amendoim, como é o caso da barraca amarela...


... e da laranja, que diversificaram bem mais a grade de produtos, e vendem bebidas, mel, rapadura e outros quitutes.


A barraca vermelha se manteve mais fiel ao amendoim, aperfeiçoando-se, porém, no quesito gourmetização, produzindo, inclusive, manteiga de amendoim, base para coisas como Amendocrem© e batida. Lembro que meu primeiro porre foi na base de batida de amendoim, que é docinha e engana muito, viu?


Algumas das barracas são verdadeiramente representantes deste nome, mas, como ficam na beira da estrada, possuem um movimento considerável. Nesta categoria, há a barraca roxa...


... e a barraca azul, que vende uns cajuzões gigantes.


Já as barracas que estão fora da rodovia são bem menores, pelo óbvio motivo de que o fluxo de veículos é igualmente menor. Ou seja, é preciso intencionalmente entrar na cidade para acessá-las. Como eu estava a passeio, nada que me importunasse, até porque cada uma delas tem sua sutileza. Nessa categoria, temos a barraca prata...


... a barraca verde, que também vende boas cocadas...


... e a barraca branca, onde encontramos trufas de amendoim, doce-mais-doce-do-que-doce-de-batata-doce.


Um registro e um protesto. Inexiste pé-de-moleque diet, ajudando a nós, diabéticos, a formar uma nova minoria social que se sente excluída neste universo de rapadura. A única coisa que se pode achar é aquela paçoquinha comprável a quilo na Sé e na Luz, ótimas, mas que tem dois defeitos: não é caseira e não é de Piranguinho. Acho que aquele que conseguir desenvolver uma fórmula que use ao menos frutose, menos devastadora para a gente de sangue doce, fará um bom negócio. Afinal de contas, poderá atingir também outros nichos, como a galera fitness e pessoal que tenha outras restrições ao consumo de açúcar. É um bom mercado a explorar.

Mercado... Hoje em dia falamos mais e mais dele, como uma panaceia universal que irá resolver todos os problemas da humanidade, mandando para o inferno da miséria apenas aqueles que não merecem sobreviver no mundo do empreendedorismo. Mas esse é o típico papo do senso comum, variável com o tempo e com o vento. É preciso olhar um pouco mais sobre o nascimento do conceito para usá-lo com sabedoria. Vamos fazê-lo agora, e a partir de seu criador, o escocês Adam Smith.

Estamos no século XVIII, às voltas com uma mentalidade de mudanças, mais especificamente nas vésperas da Revolução Francesa. Já não há mais clima para a permanência de sistemas monárquicos absolutistas, que mantém as pompas e circunstâncias de uma camada extremamente privilegiada e segura o crescimento de outras classes, que possuem cada vez mais tecnologia para produzir e enriquecer (a burguesia) ou a miséria de sempre (o proletariado). O problema não era só as bases políticas, mas também o formato econômico e monetário. A maioria dos países adotava uma política mercantilista, que se apoiava em forte intervenção do Estado na economia, principalmente na administração de metais preciosos que tinham valor de moeda. Sua doutrina principal era a soma zero, que significava que, a cada ganho que alguém tem, há outra pessoa obrigatoriamente perdendo. Como o sustento do aparato da corte se dava pela extração de dinheiro da economia, e esse era o lado positivo da conta, a banda negativa era custeada por quem produzia. Desta forma, um Estado muito grande retirava recursos demais do meio circulante.

As insurgências derivadas do pensamento revolucionário incluíam essa aversão aos privilégios dos reis, que empobreciam a maior parte da população. Claro: se a riqueza de um país é medida em ouro, quem o detém deixa os outros sem nada. Os princípios liberais clássicos, no entanto, viam o mundo sob outro escopo. Estamos em pleno Iluminismo, o movimento que mudou o eixo das relações humanas, que teorizou uma mudança da humanidade em busca do aperfeiçoamento. A sua palavra chave é liberdade: liberdade de dogmas, liberdade de tiranias, liberdade de escolha.

O polo de oposição ao mercantilismo e ao absolutismo que lhe dava sustentação veio do liberalismo econômico, cujo maior mentor era Adam Smith. O horizonte de fundo de sua teoria vem de uma constatação moral. Os homens são essencialmente egoístas. Quando alguém lhe vende alguma coisa, não o faz por benemerência, ou por entender que o desenho social necessita de gente que venda e gente que compre, mas porque quer melhorar suas condições materiais. Então é desse jeito que a banda tem que tocar.

Isso é um mal em si? Nada disso, diz Smith. É justamente dessa vontade de crescer como indivíduos que os seres humanos procuram produzir mercadorias cada vez melhores, e isso é o impulso básico do desenvolvimento da tecnologia. Como esse tipo de mecanismo pode girar se os indivíduos estão submetidos a leis que cercam todos os aspectos de suas vidas? Somente com liberdade econômica pode-se chegar ao maior desenvolvimento possível, e para isso a ênfase do modelo econômico precisa trafegar da instituição para o indivíduo.

O conceito mais famoso de Adam Smith é a mão invisível do mercado. Segundo ele, a economia de um país possui um estado de equilíbrio que deriva da lei de oferta e procura, e que dispensa todo o tipo de intervenções. A coisa funciona assim: o preço de uma determinada mercadoria está vinculado à sua disponibilidade. Isso é fácil de ver na feira. Quando é época de manga, ela passa a ser oferecida por vários feirantes e seu preço cai. Assim que a safra acaba e a fruta vai rareando, seu preço começa a subir, e somente aqueles doentes por manga se propõe a pagar o preço mais alto. A diminuição do consumo faz com que o preço se estabilize, até chegar uma nova época de colheita e o preço caia novamente. Além disso, há a concorrência. O preço base da manga é mais ou menos o mesmo. O que os feirantes podem fazer para que a freguesa opte pela sua? Descontos nas quantidades maiores, a entrega de um brinde, dúzias de treze, frutas já lavadas e outros artifícios que atraem os compradores. De uma forma ou de outra, pelo trabalho ou pelo engenho, é oferecida uma vantagem ao adquirente, repassando o ciclo do egoísmo: não é só quem vende que quer se locupletar; quem compra também quer fazer um bom negócio. Nesse sentido, os metais preciosos que davam lastro ao mercantilismo eram mercadorias como outras quaisquer, passíveis de variações no preço de acordo com sua oferta e sua procura. O valor intrínseco do enriquecimento de um país é o trabalho de seus indivíduos, realizado sem amarras externas. Esse é o princípio basilar do Capitalismo.

A mão invisível seria a metáfora para esse equilíbrio natural entre as forças econômicas. Todas as vezes que um Estado intervém na economia, esse equilíbrio é quebrado e o mercado deixa de funcionar como deve. O egoísmo humano persiste, e procurará meios desvinculados do trabalho legítimo para prosperar, como a corrupção, por exemplo. Por este motivo, o mercado e a concorrência devem ser livres.

Mas a doutrina de livre mercado não pode ser imune a críticas, como parece ser a proposta dos neoliberais de plantão. Em primeiro lugar, e sem juízo de valor, a livre concorrência traz em si a doença da contradição. Monopólios e oligopólios são derivações possíveis no mundo dos negócios. Preços combinados são prática comum: a OPEP, por exemplo, não pratica livre concorrência, mas nasce de seu contexto. Sempre é possível que os feirantes se juntem para combinar o preço da manga. Ou seja, o livre mercado pode atuar, de per si, para impedir a livre concorrência, já que a livre associação também está no rol das liberdades do indivíduo. Para evitar esta circunstância, criam-se leis anticartel, o que é, ora vejam, uma intervenção estatal.

Outra coisa importante a notar é que o mercado funciona bem em países com economias sólidas e população com um nível aceitável de renda. É muito difícil imaginar que países com alta concentração de renda, como é o caso da Terra de Santa Cruz, possam oferecer oportunidades razoáveis para quem deseje empreender, em que pese nossa carga tributária elevada (e de péssimo retorno). Por fim, há ainda a questão de que atribuir áreas problemáticas, como a preservação do patrimônio histórico e o meio ambiente, dificilmente seriam bem geridas pela iniciativa privada, por conta do confronto de interesses. Uma construção histórica, mas totalmente não-funcional, situada em local privilegiado comercialmente deveria ser tratada de que forma pelo mercado? É óbvio que os interesses econômicos prevaleceriam, porque são mesmo importantes, mas mesmo países com alto índice de liberdade econômica têm interesses históricos. Mas o dono do terreno onde está a obra pode cismar de simplesmente derrubá-la para vender o terreno. Se isso te parece absurdo, a intervenção estatal é a solução para o problema. O mesmo se aplica quando pensamos nas áreas ainda preservadas de vegetação original. Ou estão lá porque o Estado é dono delas, ou porque há leis que obrigam sua permanência. Presença estatal, de uma forma ou de outra.

A mão do mercado explica, em boa parte, a diferença entre as barracas de Piranguinho. As barracas grandes, como a amarela e a laranja, tem mais procura por uma série de fatores: porque são mais tradicionais, mais bem localizadas, mais sortidas, mais divulgadas. Cresceram e prosperaram. A pequena barraca prata é menos procurada, e talvez não encante como as outras, talvez terá uma história mais curta, mas isso não impede que tenha o melhor dos produtos. Suas trufas são prova de criatividade, e é isso que essa estranha divindade talvez premie, fazendo-a crescer. O deus-mercado não é previsível em sua totalidade; seus humores variam mais que o tempo de São Paulo, e todas as vezes que vemos uma portinha fechando sentimos um pouco de sua crueldade e indiferença pelos sonhos que se encerram junto com o negócio. O Capitalismo não é para idealistas. Sonhos, só os de consumo. 

Adam Smith não foi um insensível que não tenha detectado estes fatores, e não quis dar uma solução final para a economia de qualquer país. Ele tinha a Inglaterra e a Europa continental à sua frente para analisar, e não tinha um horizonte meramente técnico, sendo notável seu interesse humanista, quando afirmava que havia, de fato, um estrato populacional que precisava de socorro estatal para sobreviver em ambiente capitalista. Mas também é preciso um pouco de consciência na quantidade de incenso a ser acendida à frente de seus altares. Como eu disse, para que o liberalismo funcione bem, é preciso propiciar opções viáveis às pessoas. É muito diferente viver em São Paulo ou em Piranguinho. É diferente ser pobre em São Paulo ou em Piranguinho. O liberalismo é uma forma válida para enriquecer um país, mas não podemos esquecer que países como Japão e Coréia do Sul cresceram sob forte intervenção estatal na economia, e ninguém pode afirmar que são modelos de fracasso. Como seria São Paulo liberal ou Piranguinho liberal? Até que ponto as barracas maiores não engoliriam de vez as menores? São pontos a se cuidar antes de erguer uma bandeira que muito pouco conhecemos em Terra Brasilis. Pode funcionar? Pode. Pode não? Também pode. Se eu tivesse que fazer uma aposta, seria na segunda hipótese, mas esse é papo para outro momento. Por ora, vou comer uma paçoquinha da 25 fazendo de conta se tratar de uma autêntica peça piranguinhense, enquanto a patroa se delicia de verdade. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Tem muita gente que se diz liberal sem entender o que significa o termo, e, pasmem, há muita gente que o critica sem também saber nada sobre ele. O antídoto é ler. Por isso, recomendo o livro de cabeceira que toda pessoa interessada em Economia deveria ler. Indico o primeiro volume, porque a obra é extensa. Caso gere interesse, leia os demais livros da obra.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. Volume 1. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Col. Os Economistas.