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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Sobre a diferença essencial entre verdade e realidade (ou: o substrato intrusivo do consenso na concepção da verdade)

(A realidade às vezes é tão difícil de compreender que parece ser impossível de expressar. Se depender da verdade, é mesmo)

“Eu que sempre sonhei acreditar

Só que sonhos envelhecem, sim, e muito mal

Há um espinho na carne no dia de encontrar

O quanto a verdade é irreal” 

Eu - Levógiro

Olá!

Quando eu era jovem, tinha uma espécie de encantamento incomum com a política. Isso se reflete em várias histórias, algumas que já contei por aqui, outras que ainda estão inéditas. Muito pelo ambiente familiar, que discutia política como quem discute futebol, um pouco pelo meu interesse um tanto insólito por filosofia, que esbarra nessa área a todo instante. Eu participava de eleições de diretórios, escrevia músicas de protesto e me animava nas tertúlias com os mais velhos, geralmente me opondo a qualquer situação que estivesse no poder.

Antes até, na fase criança, eu e meus vizinhos juntávamos alguns dos milhões de santinhos que recobriam o chão das ruas para fazer nossa eleição particular, uma caixa de papelão com um corte no alto. Eram tempos daquela democracia dúbia que os generais papagaiavam, que servia para eleger senadores que eram posteriormente complementados com elementos ditos biônicos, os suplementares nomeados pelo próprio governo para evitar o risco de minorias no parlamento. Mas a boca de urna era muito mais livre. E porca. Na nossa contagem, detectávamos os maiores porcalhões.

Quem me visse naqueles dias e me vê hoje, certamente diria: “quem te viu e quem te vê”. Ao contrário do que aconteceu com meu avô, que foi ficando mais e mais radical com o passar dos anos, fui procurando me afastar de qualquer discussão dessa natureza, por conta do tédio causado pelo apoio infrutífero das fake news às teses eletivas. Eu meio que me senti excluído do debate por consciência da sua fundamentação no nada. E, por este motivo, tenho ficado cada vez mais alijado desse campo. Prefiro sofrer com futebol.

Só que não posso dizer que não fiquei assustado com as últimas eleições. Não por conta do surpreendente resultado presidencial, onde costumamos caminhar para uma dicotomia cada vez mais cristalizada, mas para a formação do Congresso. Assumamos: nunca fomos bons eleitores. Nunca prestamos atenção no que dizem nossos parlamentares, nem no que fazem após eleitos. Ou apoiamos alguém por seus discursos de radicalismo, ou porque simplesmente se trata de um nome conhecido, que já rondou Brasília por vários e vários mandatos, e isso sempre nos levou a produzir governos ingovernáveis, pelo simples fato de que é preciso satisfazer a camarilha que eternamente está lá, que conta com nossa pouca memória e conservadorismo estranho, e para os cacarecos da vez, que angariam votos como se fossem protestos válidos. O problema é que rinocerontes são inelegíveis, mas Tiriricas não.

Mas dessa vez as coisas chegaram a um limite que eu não esperava há dez anos atrás. A dissonância entre o congresso eleito e a real representação popular é de uma expressividade nunca dantes vista no impávido colosso. E isso vai desembocar em leis, em aprovações e desaprovações que provavelmente contrariarão não somente os desejos, mas as reais necessidades da população como um todo.

Por que distanciamos o Congresso da representatividade popular? Como elegemos tantos milionários em um país de povo pobre, por que temos bancadas específicas de certas religiões que decidirão com vistas em seus princípios morais, por que há tão poucas mulheres e negros em relação à sua proporção populacional? E, especialmente, por que a quase plenitude dos candidatos evocam uma religiosidade que não têm, como se fosse a única credencial que legitima a sua representatividade?


Talvez tenha a ver com a estrutura religiosa do próprio pensamento, que nos faz vincular a verdade com uma espécie de compromisso com uma transcendência doadora de moral e de sentido para a vida. Já falei sobre o tema neste texto, onde já antevia uma estrutura dada pela história psicológica de uma criança que permanece procurando por alguém superior na hierarquia, como se fosse um pai provedor de tudo, mas preciso tornar a posição mais pessoal e depurada, além de colocá-la em um viés mais epistemológico.

Nós costumamos estabelecer uma relação de sinonímia entre verdade e realidade, mas elas são coisas completamente distintas. Tudo começa pela necessidade da linguagem, uma codificação humana de tradução dos fatos e fenômenos, importante inclusive para o armazenamento da memória e do processamento de raciocínios. Nossa linguagem é uma coisa tão danada que muitas vezes parece que ela é a realidade em si mesma, tão capaz de produzir lógica que ela é, inclusive fazendo a gente jurar que são verdadeiros fatos que não são reais. Isso acontece porque a linguagem consegue produzir uma versão de um fato de maneira muito consistente, sem que lhe corresponda em sua completude. É por isso que somos capazes de produzir obras de ficção: travestimo-las com tal encadeamento causal que só faltam a elas um pequeno detalhe – terem acontecido efetivamente. Já se discutiu muito a fundo sobre a capacidade da linguagem de produzir mundos absolutamente fictícios que são totalmente críveis, porque sua lógica é subjacente à própria realidade e lhe serve de mapeamento, como disse Wittgenstein, ou como as palavras e a arte não criam uma realidade falsa, mas simulacros que possuem em si poderes próprios de se sustentar logicamente, sem a necessidade de um espelhamento com fatos concretos, como pensava Deleuze. 

Por que a confusão? A realidade é o fenômeno como ele é, sem tirar nem pôr, sem a dependência de nenhum tipo de intervenção humana ou consciência a observá-la. Imagine um vulcão explodindo em uma lua perdida no meio de um sistema planetário lá nos confins do aglomerado de Andrômeda. Nem sabemos que existe esse cataclismo, mas ele está lá, factual, real, sem nenhum tipo de interpretação subjetiva. Ele existe independentemente de nosso conhecimento. Já a verdade é a interpretação de qualquer um destes fenômenos, por intermédio da linguagem. Não existe verdade sem linguagem, mas a realidade sim. E aí a coisa entorta. Porque aí já entra a própria dúvida de Pilatos: o que é a verdade?

Eu já tratei das concepções de verdade neste texto, e, portanto, não ficarei repetindo tudo de novo, mas vou retomar alguns pontos para dar substância ao que eu quero sustentar. Embora haja teorias mais modernas que versem sobre a verdade, o fato é que no substrato de nosso entendimento ocidental encontramos três tendências de a entender. 

A aletheia grega exige o objeto posto diante de nós para cumprir sua tarefa de encontrar correspondência entre o fenômeno e o que se diz do fenômeno, o fato e o que se diz do fato, intermediados por uma linguagem que procura a precisão na descrição. A veritas latina pede coerência entre o fato ocorrido e o fato narrado, novamente intermediados pela linguagem, para que reproduza com a maior exatidão possível os fatos e fenômenos ocorridos de maneira a justificar ao máximo o estado presente de um determinado contexto, enquanto a emunah hebraica fomenta consensos entre expectativa dos eventos e uma linguagem que os traduza. Eles três, unidos, fecham uma perspectiva temporal completa, abarcando passado (veritas), presente (aletheia) e futuro (emunah). Embora a realidade não seja só tempo, é possível perceber como essa conjunção é boa para tentar explicá-la.

Uma maneira de enxergar com mais facilidade é se imaginar criança e estar sentado com os irmãos e primos ao redor da avó. Quando alguém pergunta quem são aquelas pessoas na foto preto e branca na parede e a avó descreve um por um, temos a aletheia; quando outro pergunta como chegaram ao Brasil, brota a veritas. E se mais algum perguntar para onde foram todos aqueles parentes mortos, ao falar que estão no céu, a boa velhinha estaria demonstrando a emunah. 

Mas há uma questão pouco perceptível. Embora possamos traduzir cada uma dessas interpretações da verdade como tendo um substrato específico a cada uma, a questão é que há apenas uma delas que permeia todas as outras. Pense por que dizemos que o céu é azul. É porque concordamos que o nome daquela cor deve ser esse. As traduções em outros idiomas nada mais são do que isso. O que importa é que estabelecemos que azul é azul. Outra: as casualidades que fundeiam a coerência de um relato são assim porque concordamos que a lógica subjacente é tal qual se aplica à descrição de um fato. Ou seja, por trás de qualquer teoria da verdade, sempre existirá uma parcela de convenção e consenso.

Ainda que as outras interpretações da verdade possam ter suas características e validade, o fato é que elas são banhadas de consenso, porque são fundadas em linguagem, que é consenso puro. Não existe código linguístico em que não haja um acordo de seu uso e valor em seus alicerces.

Daí, partamos às consequências. A matriz grega é aplicável fundamentalmente aos fatos postos, à descrição dos objetos e a uma tentativa de descrever a realidade por correspondência: algo é o que é porque ela é de uma determinada forma, o que é a base para a Ciência. A vertente latina busca descrever os acontecimentos tais quais ocorreram, e já não os tem à frente, valendo-se da qualidade do discurso para assegurar a veracidade, o que é ótimo para a História e tudo o que derivar dela. Por fim, a fundamentação hebraica tem um forte componente na confiança das convenções e dos consensos, que prescindem de um objeto posto para criar uma expectativa de verdade, e temos que ela é muito aplicável à Religião. O que representa tudo isso?

Notem que, se o consenso está estruturalmente estabelecido como base para a linguagem, e que esta é imprescindível para qualquer expressão que queira sintetizar uma verdade, temos também estruturalmente uma propensão ao pensamento religioso. Por mais estranho que possa parecer, estamos sempre abertos ao consenso, porque sem ele sequer temos uma linguagem para processar nossos pensamentos. Então somos meio que fabricados para confiar e, in extremis, ter fé. Porque emunah é exatamente isso – uma promessa de fidelidade, a garantia de que a verdade está contida na palavra. Novamente: parece frágil, mas é a expressão de verdade disponível em qualquer situação, da mais prosaica conversa com as avós, até a convenção de aceitarmos que a ciência é exercida pela academia, e que a lei deve ser seguida por todos os cidadãos.

Vejam bem. O consenso não é um mal em si, mas uma necessidade inevitável. Sem consenso, não chegamos às mínimas condições de viver socialmente, o que foi a regra estabelecida pela sobrevivência para nossa espécie. Mas ele é relativamente pobre para assentar uma correspondência efetiva com a realidade, porque basta haver a concordância entre as partes para que algo ganhe o estatuto de verdadeiro. É plenamente possível concordar com algo falso.

Isso justifica, ao menos em parte, a estrutura religiosa de pensamento que temos, ainda que não acreditemos nem ao menos no centroavante do time de preferência. Nossa busca por consensos faz com que nossas decisões se assemelhem a ritos, seja porque dizemos amém (sinônimo de emunah) juntos, seja porque tendemos a ser exclusivistas com relação aos acertos de nossos grupos, sem levar em conta a possibilidade de que o outro também pode estar certo. Consensos nascem e consensos morrem, é bom de se dizer. Mas essa força cola mais que Superbonder©. E traz esse espírito de Fla-Flu ou de comportamento de manada, onde os gritos de guerra movem mais do que livros acadêmicos e opiniões racionais.

Notam como só uma racionalidade muito bem treinada consegue resistir a essa estrutura automatizada? Nós temos políticos e times de futebol na cabeça da mesma forma que religiões, a quem estamos dispostos a doar a vida, dependendo das circunstâncias. Eu até consigo imaginar que alguém teve o seguinte raciocínio: elegemos um congresso para lá de conservador, portanto é mais inteligente não colocar na presidência um despreparado cheio de acusações e repleto de poder, mas alguém que já conheça todos os meandros, já que não é função fácil de exercer; o próprio congresso conservador se encarregará de limitá-lo, mesmo que tenha posições com as quais eu não concordo. Mas esse exemplo de racionalização é raríssimo. Buscamos, ainda que pela via do subconsciente, os consensos que foram moldados pela nossa característica de agregação. E isso passa por futebol, por política, por religião.

Em resumo: a realidade existe independentemente de nós; já a verdade depende de uma consciência que interaja com a realidade. A realidade não depende da verdade, e a verdade não dá conta de refletir a realidade. Entretanto, e justamente por esse “defeito”, a verdade não é unívoca. E suas matrizes se entrelaçam e conflitam, sendo que a mais basilar de todas é aquela baseada no consenso, que, no final das contas, é a mais pobre cognitivamente e a mais rica comunitariamente. O que isso redunda? Embora não sejam as melhores respostas, as atividades baseadas em consenso são as que estão mais nos subterrâneos do entendimento humano. Inclusive sem deixar de lado suas ameaçadoras placas tectônicas. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Já que mencionei, vai aqui a indicação completa do texto de Deleuze.

DELEUZE, Gilles. Platão e o Simulacro. In: Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1974.


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