(A realidade às vezes é tão difícil de compreender que parece ser impossível de expressar. Se depender da verdade, é mesmo)
“Eu que sempre sonhei acreditar
Só que sonhos envelhecem, sim, e muito mal
Há um espinho na carne no dia de encontrar
O quanto a verdade é irreal”
Eu - Levógiro
Olá!
Quando eu era jovem, tinha uma espécie de encantamento
incomum com a política. Isso se reflete em várias histórias, algumas que já
contei por aqui, outras que ainda estão inéditas. Muito pelo ambiente familiar,
que discutia política como quem discute futebol, um pouco pelo meu interesse um
tanto insólito por filosofia, que esbarra nessa área a todo instante. Eu
participava de eleições de diretórios, escrevia músicas de protesto e me
animava nas tertúlias com os mais velhos, geralmente me opondo a qualquer situação
que estivesse no poder.
Antes até, na fase criança, eu e meus vizinhos juntávamos
alguns dos milhões de santinhos que recobriam o chão das ruas para fazer nossa
eleição particular, uma caixa de papelão com um corte no alto. Eram tempos
daquela democracia dúbia que os generais papagaiavam, que servia para eleger
senadores que eram posteriormente complementados com elementos ditos biônicos,
os suplementares nomeados pelo próprio governo para evitar o risco de minorias
no parlamento. Mas a boca de urna era muito mais livre. E porca. Na nossa
contagem, detectávamos os maiores porcalhões.
Quem me visse naqueles dias e me vê hoje, certamente diria:
“quem te viu e quem te vê”. Ao contrário do que aconteceu com meu avô, que foi
ficando mais e mais radical com o passar dos anos, fui procurando me afastar de
qualquer discussão dessa natureza, por conta do tédio causado pelo apoio
infrutífero das fake news às teses eletivas. Eu meio que me senti
excluído do debate por consciência da sua fundamentação no nada. E, por este
motivo, tenho ficado cada vez mais alijado desse campo. Prefiro sofrer com
futebol.
Só que não posso dizer que não fiquei assustado com as
últimas eleições. Não por conta do surpreendente resultado presidencial, onde
costumamos caminhar para uma dicotomia cada vez mais cristalizada, mas para a
formação do Congresso. Assumamos: nunca fomos bons eleitores. Nunca prestamos
atenção no que dizem nossos parlamentares, nem no que fazem após eleitos. Ou
apoiamos alguém por seus discursos de radicalismo, ou porque simplesmente se trata
de um nome conhecido, que já rondou Brasília por vários e vários mandatos, e
isso sempre nos levou a produzir governos ingovernáveis, pelo simples fato de
que é preciso satisfazer a camarilha que eternamente está lá, que conta com
nossa pouca memória e conservadorismo estranho, e para os cacarecos da vez, que
angariam votos como se fossem protestos válidos. O problema é que rinocerontes
são inelegíveis, mas Tiriricas não.
Mas dessa vez as coisas chegaram a um limite que eu não
esperava há dez anos atrás. A dissonância entre o congresso eleito e a real
representação popular é de uma expressividade nunca dantes vista no impávido
colosso. E isso vai desembocar em leis, em aprovações e desaprovações que
provavelmente contrariarão não somente os desejos, mas as reais necessidades da
população como um todo.
Por que distanciamos o Congresso da representatividade
popular? Como elegemos tantos milionários em um país de povo pobre, por que
temos bancadas específicas de certas religiões que decidirão com vistas em seus
princípios morais, por que há tão poucas mulheres e negros em relação à sua
proporção populacional? E, especialmente, por que a quase plenitude dos
candidatos evocam uma religiosidade que não têm, como se fosse a única
credencial que legitima a sua representatividade?
Nós costumamos estabelecer uma relação de sinonímia entre
verdade e realidade, mas elas são coisas completamente distintas. Tudo começa
pela necessidade da linguagem, uma codificação humana de tradução dos fatos e
fenômenos, importante inclusive para o armazenamento da memória e do
processamento de raciocínios. Nossa linguagem é uma coisa tão danada que muitas
vezes parece que ela é a realidade em si mesma, tão capaz de produzir lógica
que ela é, inclusive fazendo a gente jurar que são verdadeiros fatos
que não são reais. Isso acontece porque a linguagem consegue produzir uma
versão de um fato de maneira muito consistente, sem que lhe corresponda em sua
completude. É por isso que somos capazes de produzir obras de ficção:
travestimo-las com tal encadeamento causal que só faltam a elas um pequeno
detalhe – terem acontecido efetivamente. Já se discutiu muito a fundo sobre a
capacidade da linguagem de produzir mundos absolutamente fictícios que são
totalmente críveis, porque sua lógica é subjacente à própria realidade e lhe
serve de mapeamento, como disse Wittgenstein,
ou como as palavras e a arte não criam uma realidade falsa, mas simulacros que
possuem em si poderes próprios de se sustentar logicamente, sem a necessidade
de um espelhamento com fatos concretos, como pensava Deleuze.
Por que a confusão? A realidade é o fenômeno como ele é, sem
tirar nem pôr, sem a dependência de nenhum tipo de intervenção humana ou
consciência a observá-la. Imagine um vulcão explodindo em uma lua perdida no
meio de um sistema planetário lá nos confins do aglomerado de Andrômeda. Nem
sabemos que existe esse cataclismo, mas ele está lá, factual, real, sem nenhum
tipo de interpretação subjetiva. Ele existe independentemente de nosso
conhecimento. Já a verdade é a interpretação de qualquer um destes fenômenos,
por intermédio da linguagem. Não existe verdade sem linguagem, mas a realidade
sim. E aí a coisa entorta. Porque aí já entra a própria dúvida de Pilatos: o
que é a verdade?
Eu já tratei das concepções de verdade neste
texto, e, portanto, não ficarei repetindo tudo de novo, mas vou retomar
alguns pontos para dar substância ao que eu quero sustentar. Embora haja
teorias mais modernas que versem sobre a verdade, o fato é que no substrato de
nosso entendimento ocidental encontramos três tendências de a entender.
A aletheia grega exige o objeto posto diante de nós para cumprir sua tarefa de encontrar correspondência entre o fenômeno e o que se diz do fenômeno, o fato e o que se diz do fato, intermediados por uma linguagem que procura a precisão na descrição. A veritas latina pede coerência entre o fato ocorrido e o fato narrado, novamente intermediados pela linguagem, para que reproduza com a maior exatidão possível os fatos e fenômenos ocorridos de maneira a justificar ao máximo o estado presente de um determinado contexto, enquanto a emunah hebraica fomenta consensos entre expectativa dos eventos e uma linguagem que os traduza. Eles três, unidos, fecham uma perspectiva temporal completa, abarcando passado (veritas), presente (aletheia) e futuro (emunah). Embora a realidade não seja só tempo, é possível perceber como essa conjunção é boa para tentar explicá-la.
Uma maneira de enxergar com mais facilidade é se imaginar
criança e estar sentado com os irmãos e primos ao redor da avó. Quando alguém
pergunta quem são aquelas pessoas na foto preto e branca na parede e a avó
descreve um por um, temos a aletheia; quando outro pergunta como chegaram ao
Brasil, brota a veritas. E se mais algum perguntar para onde foram todos
aqueles parentes mortos, ao falar que estão no céu, a boa velhinha estaria
demonstrando a emunah.
Mas há uma questão pouco perceptível. Embora possamos
traduzir cada uma dessas interpretações da verdade como tendo um substrato
específico a cada uma, a questão é que há apenas uma delas que permeia todas as
outras. Pense por que dizemos que o céu é azul. É porque concordamos que o nome
daquela cor deve ser esse. As traduções em outros idiomas nada mais são do que
isso. O que importa é que estabelecemos que azul é azul. Outra: as casualidades
que fundeiam a coerência de um relato são assim porque concordamos que a lógica
subjacente é tal qual se aplica à descrição de um fato. Ou seja, por trás de
qualquer teoria da verdade, sempre existirá uma parcela de convenção e
consenso.
Ainda que as outras interpretações da verdade possam ter
suas características e validade, o fato é que elas são banhadas de consenso,
porque são fundadas em linguagem, que é consenso puro. Não existe código
linguístico em que não haja um acordo de seu uso e valor em seus alicerces.
Daí, partamos às consequências. A matriz grega é aplicável
fundamentalmente aos fatos postos, à descrição dos objetos e a uma tentativa de
descrever a realidade por correspondência: algo é o que é porque ela é de uma
determinada forma, o que é a base para a Ciência. A vertente latina busca
descrever os acontecimentos tais quais ocorreram, e já não os tem à frente,
valendo-se da qualidade do discurso para assegurar a veracidade, o que é ótimo
para a História e tudo o que derivar dela. Por fim, a fundamentação hebraica
tem um forte componente na confiança das convenções e dos consensos, que
prescindem de um objeto posto para criar uma expectativa de verdade, e temos
que ela é muito aplicável à Religião. O que representa tudo isso?
Notem que, se o consenso está estruturalmente estabelecido
como base para a linguagem, e que esta é imprescindível para qualquer expressão
que queira sintetizar uma verdade, temos também estruturalmente uma propensão
ao pensamento religioso. Por mais estranho que possa parecer, estamos sempre
abertos ao consenso, porque sem ele sequer temos uma linguagem para processar
nossos pensamentos. Então somos meio que fabricados para confiar e, in
extremis, ter fé. Porque emunah é exatamente isso – uma promessa de
fidelidade, a garantia de que a verdade está contida na palavra. Novamente:
parece frágil, mas é a expressão de verdade disponível em qualquer situação, da
mais prosaica conversa com as avós, até a convenção de aceitarmos que a ciência
é exercida pela academia, e que a lei deve ser seguida por todos os cidadãos.
Vejam bem. O consenso não é um mal em si, mas uma
necessidade inevitável. Sem consenso, não chegamos às mínimas condições de
viver socialmente, o que foi a regra estabelecida pela sobrevivência para nossa
espécie. Mas ele é relativamente pobre para assentar uma correspondência
efetiva com a realidade, porque basta haver a concordância entre as partes para
que algo ganhe o estatuto de verdadeiro. É plenamente possível concordar com
algo falso.
Isso justifica, ao menos em parte, a estrutura religiosa de
pensamento que temos, ainda que não acreditemos nem ao menos no centroavante do
time de preferência. Nossa busca por consensos faz com que nossas decisões se
assemelhem a ritos, seja porque dizemos amém (sinônimo de emunah) juntos, seja
porque tendemos a ser exclusivistas com relação aos acertos de nossos grupos,
sem levar em conta a possibilidade de que o outro também pode estar certo.
Consensos nascem e consensos morrem, é bom de se dizer. Mas essa força cola
mais que Superbonder©. E traz esse espírito de Fla-Flu ou de comportamento
de manada, onde os gritos de guerra movem mais do que livros acadêmicos e
opiniões racionais.
Notam como só uma racionalidade muito bem treinada consegue
resistir a essa estrutura automatizada? Nós temos políticos e times de futebol
na cabeça da mesma forma que religiões, a quem estamos dispostos a doar a vida,
dependendo das circunstâncias. Eu até consigo imaginar que alguém teve o
seguinte raciocínio: elegemos um congresso para lá de conservador, portanto é
mais inteligente não colocar na presidência um despreparado cheio de acusações
e repleto de poder, mas alguém que já conheça todos os meandros, já que não é
função fácil de exercer; o próprio congresso conservador se encarregará de
limitá-lo, mesmo que tenha posições com as quais eu não concordo. Mas esse
exemplo de racionalização é raríssimo. Buscamos, ainda que pela via do
subconsciente, os consensos que foram moldados pela nossa característica de
agregação. E isso passa por futebol, por política, por religião.
Em resumo: a realidade existe independentemente de nós; já a
verdade depende de uma consciência que interaja com a realidade. A realidade
não depende da verdade, e a verdade não dá conta de refletir a realidade.
Entretanto, e justamente por esse “defeito”, a verdade não é unívoca. E suas
matrizes se entrelaçam e conflitam, sendo que a mais basilar de todas é aquela
baseada no consenso, que, no final das contas, é a mais pobre cognitivamente e
a mais rica comunitariamente. O que isso redunda? Embora não sejam as melhores
respostas, as atividades baseadas em consenso são as que estão mais nos
subterrâneos do entendimento humano. Inclusive sem deixar de lado suas
ameaçadoras placas tectônicas. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Já que mencionei, vai aqui a indicação completa do texto de
Deleuze.
DELEUZE, Gilles. Platão e o Simulacro. In: Lógica
do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1974.

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