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segunda-feira, 23 de março de 2026

Sobre monumentos involuntários e indesejados indo ao chão (parece) e sentidos de frases usados um pouco melhor

(Nada é permanente nos dias de hoje… como, aliás, nunca foi)

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado e o homem é obrigado por fim a encarar com serenidade suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes”.

Marx

Olá!

Bem ao contrário da vista da Mantiqueira que eu tenho em Taubaté, da janela do meu quarto no centro de São Paulo eu tenho uma velha visão do descaso. Do meu ponto de visada, bem no caminho onde eu poderia enxergar o Parque Dom Pedro, há um colossal esqueleto de um prédio que deveria ter sido uma garagem vertical. É o que a cidade conhece como Caveirão.

Ele é célebre, sempre citado como exemplo quando se quer demonstrar a velocidade de lesma com que as coisas se desenrolam em Terra Papagalli. Trata-se de um antigo projeto de prédio-estacionamento, imaginado quando a questão vagas passou a ser problemática por estas bandas. Não sendo projetada para a maluquice urbana que temos hoje, por sua idade avançada em termos de Brasil, São Paulo se ressente de bolsões competentes de estacionamento, ainda mais que, sendo terra da grana (na mão de poucos), é de carro que a cidade faz seu negocial, e esse tipo de aberração tem sido imaginado já há tempos. Não teria sido muito melhor esteticamente se este armatoste tivesse chegado ao seu uso inicial: seria feio, continuaria encobrindo a visão, reinaria como um marco à miséria do centro da cidade mais rica do país, imperando sobre o Glicério dos cortiços e da Várzea do Carmo das enchentes. Há coisas que nascem mal e não tem muito para onde correr. Mas o fato é que esse entulho armado está embargado desde a década de 70, quando as obras do metrô colocaram em risco suas estruturas. Entre trocas de proprietários e disputas judiciais, esse lugar foi ocupado diversas vezes, infelizmente por pessoas intimamente ligadas ao tráfico e abuso de menores, como bem sabemos nós, moradores das redondezas. Então tínhamos um caldeirão de problemas sociais reunidos em um só lugar, ele mesmo um problema urbano prestes a desabar, fazendo sucumbir as vidas daqueles que procuravam um lugar para morar, para se esconder, para cometer crimes ou, simplesmente, para ficar de chiacchera na calçada enquanto a vida passa.

Depois de décadas de imbróglio, parece que as coisas começam finalmente a tomar um rumo. São incríveis 60 anos que demoraram para um desfecho, que ainda poderiam ter se arrastado por mais tempo ainda. O judiciário, frente ao risco de desabamento, expediu ordem judicial ao proprietário para que ele procedesse a demolição do imóvel, o que foi sucessivamente descumprido, sob a alegação de ausência de recursos, cada vez piorada pelas multas não pagas. Diante disso, a justiça intimou a prefeitura a realizar o serviço e a autorizou a cobrar do proprietário os custos, o que certamente se dará pela desapropriação da área. Pelo projeto inicial, virá um conjunto de prédios de uso misto, o que significa lojas no térreo e moradias acima.

Alguns meses ainda se passaram dessa omelete jurídica, até a coisa ganhar concretude, e ela veio na forma do cercamento da entrada da estrutura, pela frente e pelos fundos, bem como do despejo dos cortiços que lhes são lindeiros. A igreja evangélica foi poupada desse último, mas isso é história para outro momento. E, nestas últimas semanas, finalmente foi possível ver ação: uma equipe da prefeitura começou a instalar os patamares que servirão para dar sustentação à operação de demolição, que, dado ao fato de estar a coisa toda logo acima do túnel do metrô, precisará ser feita na marretada. Perdi a chance de ver uma implosão ao vivo e em cores. Droga…

Pena que o jacarandá que resiste no topo do prédio deve ser a primeira coisa a vir abaixo. Eu o removeria com cuidado e plantaria na frente da obra que for construída no lugar, como prova da tenacidade da natureza e de como é possível surgir beleza dentre os abrolhos. O Caveirão já está há tantos anos não só no meu campo de visão, mas de todo aquele que chega ao centro de SP, que já parecia um espetáculo a ser candidato a patrimônio histórico. Quem vem pela Avenida do Estado ou pela Radial Leste já o vê ao longe, com sua estranha imponência asquerosa, armadura exposta e apodrecida, fruto de um misto inexplicável de pobreza da intenção estética, falta de imaginação na solução urbana e surreal lentidão burocrática. Quem o vê, não entende como é possível que se quisesse erguer um prédio tão horrível, ao mesmo tempo que se assombra com o fato de que tal edifício tenha sido condenado por ameaçar cair há tanto tempo e tenha ficado lá, esperando virar desgraça. É o tipo de coisa que nos faria acreditar que Deus sustenta aquela tralha e evita a hecatombe que seria sua queda, se não fôssemos tão firmes na nossa falta de fé. 

Fosse uma implosão, e tudo iria ao solo em segundos, como ocorreu com prédios vizinhos na praça Clóvis, com nuvens de poeira invadindo as salas e filas de caminhões para remover o entulho. Seria o fim espetacular de algo que, no final das contas, parecia que iria desafiar eternamente as regras da engenharia. E eu lembro de uma frase usada meia solta por aí: “tudo o que é sólido desmancha no ar”, como sinônimo da transitoriedade daquilo que acreditávamos imutável. Ela é uma frase de Karl Marx, usada no conhecidíssimo Manifesto do Partido Comunista*, e é preciso deixar algumas coisas um pouco mais claras sobre ela.

O Manifesto Comunista é uma obra que divide opiniões. Para alguns, um panfletão sindicalista; para outros, a base de uma nova sociedade, ambas defendidas e atacadas com as mesmas altas doses de rancor e reverência. Não dá para conversar com esses ânimos, mas é possível tentar esquecer das dicotomias atuais e chegar a um didatismo desapaixonado. Olhado por um prisma o mais isento possível, o texto é baseado numa análise do processo de Revolução Industrial, ponto culminante da implantação do Capitalismo, passando pelas fases anteriores e com comparações sociais do que seriam as classes dominantes, com a qual se pode concordar ou não. O cerne do livro é detectar no processo histórico a repetição de uma mesma lógica de dominação, passando desde os primórdios da organização política até a chegada da burguesia ao poder. Entretanto, a divisão entre burgueses e proletários, ainda que reproduzindo a mesma estrutura da realidade, tem suas sutilezas que trazem um cenário único: movidos pela expansão do comércio e pela expansão industrial, nunca uma divisão entre classes foi tão acentuada.

A burguesia é revolucionária. Ela transformou o mundo de uma maneira tão radical quanto as guerras e invasões, de modo a modificar todas as relações econômicas e sociais como nunca se viu antes. Sua principal virtude foi desmontar a lógica hereditária dos antigos reinados e a estrutura baseada no sentimentalismo sustentada pela religião. Tudo, absolutamente tudo, virou um conjunto de relações comerciais.

A grande questão é que esse modo de produção capitalista, segundo os autores, precisa se retroalimentar continuamente. A cada vez em que uma transformação do sistema se instala, junto com ela vem uma revolução social. A expansão marítima tornou necessária imensa quantidade de recursos para viagens cada vez mais distantes. A Revolução Industrial transferiu para a fábrica a lenta produção artesanal. A linha de produção hiperespecializou e simplificou tarefas que eram realizadas mais lentamente por funcionários que precisavam conhecer o produto como um todo. E assim andou pela época de Marx, e assim anda até hoje.

Essa contínua transformação impede que as coisas se tornem perenes, mas não as impedem de se afigurar como tendências irrefreáveis. Um produto fabricado com altíssima tecnologia terá sucedâneos que aparentam não ter substitutos. Um celular hoje em dia é tudo, menos um telefone, e cada vez menos há pessoas com linhas fixas em casa, como é meu caso mesmo. Para se obter essas maravilhas eletrônicas a um preço que esteja ao alcance de um número cada vez maior de pessoas, é peremptório que os custos sejam diminuídos em algum canto, e ele se dá exatamente pelo aproveitamento cada vez menor de recursos humanos. 

Parando para pensar, as novas formas de produção são uma constante na linha evolutiva do modo de produção capitalista, e sentimos isso em nossas mãos. Nos tempos dos inícios da indústria, a grande preocupação era produzir mais e mais, com um custo cada vez menor. Essa lógica não mudou, mas a forma como esse objetivo é perseguido muda muito rapidamente. Vivemos nos dias de hoje algo que os sociólogos chamam de desemprego estrutural. Não se trata mais das inúmeras crises que fazem com que a produção encolha e a desocupação expanda, para logo depois ser retomada a trilha costumeira, mas de um nível tão avançado de automação que o trabalhador se tornou desnecessário. Lembro muito bem de quando fui, aos quatorze anos, trabalhar de office boy em uma grande rede varejista. Os relatórios que buscávamos na matriz para levar ao RH hoje são extraídos de um celular. As inúmeras cartas de cobrança encaminhadas ao correio viraram ameaçadores e-mails. Tudo é virtual e não serviríamos para mais nada nos dias de hoje, com nossas perninhas ágeis e nossas cabecinhas distraídas. Em outra empresa, aos dezesseis, éramos nove no departamento de contabilidade. Pessoas destinadas exclusivamente para fazer faturamento, para calcular correção de patrimônio, para operar a máquina contábil (eu), para cuidar do arquivo, para preencher fichas de lançamentos estão todas hoje subjugadas pelo toque de um botão, que integra todas as informações financeiras de uma empresa instantaneamente. Folha de pagamento, contas pagas, duplicatas a receber, baixas de estoque, absolutamente tudo é integrado nos livros contábeis no exato momento em que acontecem, e ao contador resta somente a parte analítica, quando muito. Mas cuidado, vem vindo mais.

Hoje temos a inteligência artificial que ameaça fazer sucumbir toda a indústria de desenvolvimento de software como conhecemos até hoje. Em um processo de autofagia, a cibernética decreta seu próprio fim e faz desmoronar tudo aquilo que parecia ter vindo para ficar. O contador, que olhava com preocupação a queda nos índices de liquidez, agora tem que olhar com preocupação a necessidade de seu trabalho, frente à capacidade infinita de coligir dados de uma IA que, se ainda não é perfeita, mostra que o horizonte é novo. Até que outro processo inimaginável neste momento vai superar a tão decantada IA, sempre na busca de aperfeiçoamentos para o sistema de acumulação de capital, sempre maximizando ganhos através da economia proporcionada com a mão de obra. O desemprego estrutural é a demonstração de que mesmo um sistema exploratório encontra seu término. Nas épocas de Marx, o pequeno produtor, o artesão e o comerciante miúdo eram transformados em proletários porque não tinham outro caminho a não ser vender sua própria força de trabalho. Hoje, perguntamo-nos se haverá empregos amanhã. Nada é para sempre.

Só que muitas das vezes em que essa frase é usada, há um sentido meio que puxado para o estoico, como, por exemplo, trata Sêneca no seu famoso texto “Sobre a Brevidade do Tempo”, sobre o qual já dei meus pitacos. Neste, a questão das transformações inesperadas se dá em um âmbito ético, mais no sentido de não se desperdiçar momento vivido com sonhos irrealizáveis, mais para o tempus fugit, carpe diem.

Marx dá uma ideia mais de destruição. O Capitalismo funciona sob uma lógica de que todas as relações são efêmeras e podem mudar ao sabor da sua necessidade de se reinventar continuamente. Não são só as artes e ofícios que se transformam, mas as tradições e relações sociais vão na mesma esteira. Reis e sua vassalagem eram um fato tão concreto na Idade Média que nada pareceria romper essas relações tão cheias de mística. O próprio fenômeno burguês surge como uma quebra de hierarquia política: o poder sai das mãos de quem tem direito “divino” para ir para os que têm recursos.

A expansão contínua toma proporções planetárias, extinguindo fronteiras; a natureza é subjugada ao máximo, em uma medida que seus ciclos não mais dão conta, fazendo áreas inteiras modificar-se irremediavelmente. Tudo precisa ser grandioso e rápido, e, no fim, mesmo que velada por uma atmosfera conservadora, para a manutenção do status quo, só resta o reconhecimento de que todas as relações humanas se baseiam no negócio, nas relações comerciais e, no limite, no desigual confronto de classes.

Então percebam como o sentido da famosa frase se dá no âmbito político e econômico, sendo menos genérico do que seu uso “profano” pode fazer crer. Mas esse uso pode ser considerado ilegítimo? Não, né?

O sentido de efemeridade é aplicável a praticamente tudo na vida. Sempre temos situações que achamos hoje serem imutáveis, mas que giram 180 graus de um minuto para o outro. Um prédio vai pelos ares em segundos. Pode parecer insignificante em uma cidade com milhões deles, mas, se eles forem torres gêmeas, mudam o destino do mundo. Ídolos incontestes sucumbem em uma colisão. Era inimaginável que isso acontecesse, e vocês sabem de quem estou falando, mas a solidez não resiste ao vento do acaso. Só que, como podemos ver, embora seja uma interpretação válida da frase em sentido genérico, ela escapa do real contexto para o qual ela foi criada.

Portanto, é uma questão mais de se saber do que se está falando do que vetar seu uso por um capricho ideológico. O importante é saber o que se faz na cozinha para não passar vergonha na sala. E lembremos que nada impede que novas firulas judiciais façam com que os pedaços de concreto não comecem a cair e que a afirmação objeto deste texto seja mais uma vez falseada em nosso insólito país. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Critique somente o que você conhece. O Manifesto Comunista é curtinho e não exige grande ciência para ser lido, além de poder ser baixado de graça na internet.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2000.

*Pois é… você usa uma frase marxista e nem sabia disso.



quarta-feira, 25 de junho de 2025

O café filosófico do quotidiano – uma frase não é o texto todo

(Às vezes pegamos uma pedra e esquecemos de olhar para a montanha inteira)

“Em política, os alemães pensam o que os outros povos fazem. A Alemanha era sua consciência teórica. A abstração e a arrogância de seu pensamento corriam sempre em parelha com a limitação e a mesquinhez de sua realidade”.

Karl Marx

Olá!

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Eu falo muito de café por essas bandas, mas a patroa é igualmente aficionada pelos derivados da rubiácea. Normalmente, trabalhamos em tabelinha, onde eu me fixo mais nos métodos, enquanto ela fica antenada nos grãos em si, achando aqui e ali algumas preciosidades. Acontece que o mundo não é assim tão rígido, razão pela qual ela também curte umas variaçõezinhas no preparo, o que vai desembocar em métodos diferentes. Com isso, também fica de olho nas novidades e faz acréscimos em nossa pequena coleção. Ela acabou trazendo uma peça curiosa, que mistura características de um filtro metálico com uma Clever. Seu nome é Handy Brew.

É um método mais declaradamente para chá, mas que é aplicável a café também, segundo as impressões de alguns baristas que acompanhamos. De fato, ele se acomoda muito bem a esse propósito, mas funciona, como eu já disse, com sistemas aplicáveis confortavelmente a café. Ele se assemelha muito à Clever, que permite reter a água antes da percolação, mas, no lugar de um filtro de papel, aqui se encontra um filtro metálico que faz o mesmo serviço, com a vantagem de coar mais óleos, mas com o deslize de deixar passar mais resíduos.

O resultado é que é possível obter mais de pós renitentes, pelo simples motivo de deixar mais tempo de contato com a água.

O escoamento é feito pelo seu fundo móvel, que libera a percolação assim que se pousa o conjunto em um decanter e ocorre o shut off, nome tucano para escoamento da água.

Nome do utensílio: Bule infusor

Tipo de técnica: infusão

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: De média para grossa

Dinâmica: O pó é depositado no fundo do utensílio, onde será preenchido com água fervente. Após o tempo desejado, o bule será colocado em um decanter para que ocorra o escoamento do líquido

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

Eis um exemplo de uso diverso que acaba sendo distinguido em contextos específicos. A própria caixinha em que o objeto é comercializado indica seu uso para chá, mas nunca o utilizamos dessa forma em casa, sendo, para nós, um método de extração dentre outros. E, sim, gostamos também de chá.

Não é incomum, vou pensando enquanto aguardo meu café, que nossos usos e costumes tergiversem propósitos originais, com o proveito que achemos melhor, mas tem vezes que, de fato, miramos o pé e acertamos o olho.

Desta mesma forma, os usos mais evidentes de obras de filosofia nem sempre são aqueles para os quais elas nasceram. Às vezes a gente pinça uma simples frase e a consagra, e esquece de tudo o mais que foi dito pelo pensador. É exatamente o caso da obra “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, escrita por Karl Marx. Eu mesmo fiz esse exercício, porque quis elucidar o sentido da frase “a religião é o ópio do povo”, neste texto, e não comentei mais nada sobre o livro em questão. Aliás, provavelmente por ser um livro da primeira fase de Marx, publicado postumamente, houve aprimoramento de suas ideias em obras posteriores, o que explica bem ser relegado a um plano inferior, e que termina por ser mais lembrado pela frase famosa (e nem sempre bem compreendida).

Mas sempre há tempo, e eu vou dar um leve repassada nesta obra, que não é tão imatura ou desinteressante quanto pode parecer pelo fato de se ter tornado célebre por uma frase que, além de tudo, fica meio fora do contexto geral. Dispa-se de seus preconceitos e me acompanhe.

Hegel colocou toda a história em uma espiral dialética, como já expliquei aqui, em que a contraposição de um oposto fazia com que a realidade presente se encaminhasse para uma espécie de ponto de equilíbrio, o que consistia em uma nova instância da realidade. Esses ciclos eram contínuos, e sempre uma situação oposta à atual fazia um confronto, até ser resolvida através de uma nova síntese. Assim, do confronto da tirania com a liberdade, surgia uma monarquia constitucional. Só que, como a roda nunca parava de girar, a nova monarquia também é colocada contra uma oposição, e dela surgia uma democracia. Ocorre que, ao se atingir a sociedade burguesa, o ciclo se encerra, plenamente realizada no cume da racionalidade que conduz a história. Hegel considerava esse modelo de sociedade civil como a mais perfeita síntese desta racionalidade, e, com esse estatuto atingido, não há como caminhar para nada mais racional. 

Com o fim da espiral dialética, a sociedade teria atingido o Espírito Absoluto, que, no dizer de Hegel, é o momento de estabilidade em que não se justifica mais que as tensões entre tese e antítese venham a produzir novas sínteses. Tudo isso falando bem por cima.

Sabemos que Hegel usava e abusava do termo “Espírito”, que não tem o sentido místico de alma atribuído pelas religiões, mas do flutuar lógico que espelha as relações entre a consciência e a natureza. Além de difícil, Hegel é extremamente abstrato, distante da natureza própria, o que causa urticárias em um materialista como Marx, que concorda com essa mecânica em um único ponto – há um motor para a realidade. Ele não trata do assunto nessa obra, mas, no seu ponto de vista, este motor é completamente material: a luta de classes, como já discorri aqui, o que fixa o distanciamento sobre ambos os pensadores.

Sendo assim, tudo o que Hegel considerava como o ápice da civilização era, para Marx, resultado de condições históricas contingenciais. Prova disso é como o sistema de garantias constitucionais tão caro à burguesia poderia ser suspenso de acordo com os sabores das circunstâncias que se apresentavam no momento, mas vamos com calma nessa hora.

A sociedade burguesa emerge da falência dos absolutismos, os regimes onde reis (e o clero) governam de acordo com suas vontades, encontrando seu auge intelectual no Iluminismo. Seus ideais pregavam, essencialmente, a liberdade, o que garantiria um progresso maior para as sociedades. Em linhas bem gerais, os regimes absolutos se caracterizam por restrições que atendem interesses daqueles que estão sentados nos tronos, tanto reais, quanto clericais. Como a determinação dos ocupantes do poder se dava essencialmente por linhas sucessórias hereditárias ou colegiadas, tínhamos ferido um dos principais sustentáculos contratualistas, o consentimento dos governados, o que era um permanente fumante sentado no barril de gasolina. Isso acontece porque a concordância no estabelecimento do reinado vai se perdendo com o decorrer do tempo, e o mesmo não se renova com o suceder de gerações. Sendo assim, os conflitos vão se tornando inevitáveis, até que se estabeleça um sistema de garantias constitucionais que evitem a vontade exclusiva de um monarca, mas dos próprios governados: direitos humanos, liberdade de manifestação, laicidade do Estado, tolerância religiosa e política, dentre outros. Essa construção política atende perfeitamente os anseios da classe burguesa e é sob esse contexto que ela chega ao poder. Essa classe, formada especialmente pelos comerciantes que emergem do renascimento das cidades após o feudalismo medieval, passa a dominar cada vez mais os mercados e, para isso, cai como uma luva a ampla liberdade e manutenção de recursos em suas posses. Com o tempo, mais e mais desses meios ficam em suas mãos.

É esse estado de realidade social que Hegel enquadra como chegada ao ápice do Espírito, e que vai, daí por diante, se perpetuar no meio social como sistema perfeito. Contudo, é aqui que Marx aponta seus canhões. Marx define que a filosofia de Hegel nada mais faz do que inverter sujeito e predicado. Ele interpreta que Hegel, ao criar uma entidade mística como o Espírito Absoluto e derivar dele uma teoria de Estado, nada mais está fazendo do que interpretar a sociedade prussiana da época. A chegada da burguesia ao poder é uma das tantas instâncias da realidade dentre outras, regidas pelas circunstâncias históricas e sujeita a mudanças em novos processos dialéticos, porque seu motor continua em funcionamento. Não há um Espírito, há condições sociais.

Com a ascensão da burguesia, antes submetida à monarquia, surge uma nova classe, antes oculta – o proletariado. Eles têm menos meios, já que ao menos os burgueses tinhas recursos financeiros, mas são muito numerosos. Com o crescimento da indústria, os proletários vão se tornando cada vez mais necessários, mas cada vez menos valorizados, sendo que somente através de sua união se consegue construir uma ferramenta da resistência.

E o que temos aqui? Todo o sistema de garantias que os burgueses edificam para sua própria proteção é suspenso quando sua aplicação se volta ao proletariado. Aqui não vale mais a livre associação, quando os operários e camponeses tentam fundar sindicatos; não vale mais a liberdade de manifestação, quando os proletários querem distribuir panfletos; não valem mais os direitos humanos, quando as massas querem melhores condições de vida e trabalho. Se esta é a sociedade ideal hegeliana, qual é o lugar do operariado e do campesinato? Que estabilidade se pode esperar, ou que sociedade sem tensão se tenta conseguir com tal volume de descontentes? O próprio Hegel reconhece que é muito difícil uma solução via Estado moderno para os problemas do proletariado, incluindo a pobreza extrema. Por isso, Marx define que a teoria de Estado de Hegel é uma grande furada, uma tese fundada por e para burgueses.

Baseado na visão do Espírito, Hegel, segundo Marx, trata o Direito como uma entidade abstrata, que tem vida própria e independente da realidade histórica a quem deveria legislar. Mas é a sociedade civil, aquela que existe, que se move, que produz, que constitui a base do Estado e, por consequência, do Direito. Hegel propõe que toda massa proletária faça parte de um Estado alijado, sem direito a participação na sua própria defesa de interesses, um não-Estado dentro de um Estado que, no final das contas, nada tem de diferente com relação à monarquia. Eu lembro de um vizinho nosso que, conformista, sempre dizia que seja no Capitalismo, no Comunismo, na ditadura e fora dela sempre resta ao povo trabalhar, e pouco mais do que isso. Parece mesmo ser essa a ideologia defendida por Hegel, e que Marx tão duramente combate.

Quem está acostumado com a escrita marxista pode estranhar um pouco está obra. Isso se justifica pelo fato de ser um escrito de sua juventude, guardado por anos em uma caixa, e que só foi levado à publicação postumamente. Embora já esteja em acordo com seu ideário consolidado, ainda não tem um conjunto já tão bem apurado, como seria de se esperar em um jovem estudante. Ele vai retomar a temática em livros como A Ideologia Alemã e 18 Brumário de Luís Bonaparte, onde já temos um formato mais próximo ao pensamento final de Marx.

Ao fim e ao cabo, é um livro que perdeu sua força por conta das obras posteriores, mais completas e menos fragmentarias, mas que não deixa de ser um documento histórico digno de registro, que fala mais para nós do que apenas ficar perturbando a religião com uma frase de efeito. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Como eu já citei este livro de Marx em outros textos, achei melhor indicar a obra criticada, do nada fácil Hegel:

HEGEL, Georg. Princípios da Filosofia do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O café filosófico do quotidiano – religião e ópio no torpor da manhã

(Religião e ópio já foram relacionados, e revoltou muita gente. Será que deveria ser assim?) 

“A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo”

Karl Marx 

Olá!

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Há certas coisas que são muito antigas, mas como não tem grande tradição local, parecem grandes novidades. É muito difícil você ver uma criança que não conheça papaya, lichia, açaí, cupuaçu… enquanto é igualmente difícil que elas conheçam pitanga, uvaia (chamávamos de orvalho), nêspera, jatobá. Essas frutas “novas” eu não conhecia nenhuma quando criança, o que causa estranheza nos pós-boomers. Isso não significa que algumas surgem ou desaparecem do nada. É só o mundo girando.

Isso se aplica também a vários objetos, que vão e voltam de moda, como as vitrolas que quase todo mundo colocou para correr. O advento do CD, com sua praticidade e quase interminável uso, colocou os antigos vinis no período jurássico, mas que estranhamente voltaram nos últimos tempos, para nossa alegria. Como eu comprava um LP por pagamento, tenho uma boa quantidade deles, e, com isso, passo a voltar a suprir meu catálogo, na medida em que escavo os sebos.

Também aqui teremos imiscuídos os métodos de extração de café. Aquele a quem eu quero me referir era muito presente nos tempos em que era luxuoso utilizar produtos franceses. Era chique ter abat-jours ou peignoirs, muito mais do que lampiões ou camisolas. Quando outras culturas passaram a compartilhar a elegância por excelência, esses produtos encararam uma decadência, ficando bastante restritos a nichos. Mas eis que também nesse universo velhas coisas se tornam modernas, e temos a nova popularização das prensas francesas.

É provavelmente o mais famoso dos métodos de infusão de café, seguido de perto do ibrik para fazer café turco, e se popularizou nos últimos tempos porque permite extrair mais óleos do pó, embora haja como custo uma bebida menos límpida.


Isso acontece porque a filtragem é feita pelo próprio êmbolo que também lhe tampa, de modo a ter um contato razoavelmente longo com a água. Além disso, a trama do filtro do êmbolo não pode ser tão fechada quanto os microporos de um filtro de papel, por inviabilidade técnica. Se assim não fosse, o momento chave da baixa do êmbolo seria impossível.

O que há de bom no resultado é a oleosidade mantida, que dá um corpo diferenciado à bebida, embora haja uma quantidade razoável de resíduos. Não é complicado minimizá-los, bastando uma moagem mais grossa e uma rápida decantação, além de um controle de “perda”, ou seja, não derramar o café já infundido até o fim.


Nome do utensílio: Prensa francesa

Tipo de técnica:  Infusão

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: grossa

Dinâmica: Deposita-se o pó no copo da cafeteira e despeja-se a água fervente, tampando a mistura pelo tempo suficiente para uma extração adequada. Após, baixa-se cuidadosamente o êmbolo até a completa transposição da água, servindo com cuidado para evitar excessos de borra na xícara.

Resíduos: Altos. Convém não despejar a totalidade do líquido nas xícaras 

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: médio/alto

O gostoso da prensa francesa está no momento exatamente após o despejo da água. Como se trata de um método de infusão, é preciso que a água fique algum tempo extraindo as virtudes do grão. Como não é tão hermética quanto uma Eva Solo, há um grande escape de vapores aromáticos, já que a própria forma do método lembra aqueles foguetinhos de fazer inalações. 

E o vapor é inebriante. Enquanto ainda não estamos naquela lucidez da perfeita vigília, há esse estado intermediário em que parece estarmos propensos a algum tipo de contato com as divindades, sei lá. Ora, que bobagem, é só uma sensação estética ativada pelo prazer do aroma agradável como primeiro ingrediente do dia, que fica entre o estímulo e o alívio.

O fato é que há uma mudança de estado, ainda que meramente psicológica. Em outras circunstâncias, e com outras substâncias, esses estados da alteração mental são muito mais realistas, e foram usados para criar obras de artes, fazer previsões do futuro, sempre baseados na mudança de percepção que faz uma espécie de contato com um além-mundo uma transcendência. Em melhores palavras, há um entorpecimento em que vemos as coisas de uma maneira diferente do que são.

A substância símbolo disso é o ópio, usado por literatos, pintores, profetas e tudo o quanto é atividade que se vale do onírico e do suprarreal para produzir suas imagens. Hoje em dia, seus derivados ainda estão francamente em uso, muitos deles legítimos, agora mais para aliviar a dor, mas até guerra o látex da papoula já causou, tal o encanto que provoca em alguns. Da minha parte, meu contato vem das cólicas de rins, que redundam em aplicações de codeína na veia. Acho que não tem nada a ver, mas a sensação de alívio da dor intensa parece causar algum tipo de barato que é concluído com uma bela dose de sono. Que é uma sensação reconfortante, isso é.

É nessa sensação de alívio provocada por um desvio dos sentidos que surgiu na história da filosofia uma de suas frases mais famosas e polêmicas: “a religião é o ópio do povo”, proferida por ele mesmo – Karl Marx. Como a interpretação dessa frase pode prejudicar seu sentido, é preciso tentar entendê-la melhor.

Religião e ópio foram irmanados em um livro cujo objetivo nem era falar sobre o papel da primeira nas sociedades, e sim no que vem depois de que esta passe a ser superada. Mas a afirmativa está na sua introdução e acabou ficando mais famosa que todo o restante do livro. Quem é religioso tem uma visão extremamente negativa da frase, mas eu posso avaliar que essa visão não é tão negativa quanto pode parecer.

Marx traz uma boa parte de sua visão religiosa das ideias de Ludwig Feuerbach, que entende ser a religião moldada pelas estruturas de uma determinada sociedade. Em sua famosa visão, estudar as divindades de um povo significa estudar esse próprio povo. O que significa isso? É que os deuses são os próprios homens magnificados, ou seja, todas as melhores virtudes do próprio homem estão sintetizadas em seus deuses. Se um povo considera a justiça um valor, então o máximo de justiça está no deus cultuado por esse povo. Idem para a misericórdia, para o amor, para a força, isoladas e conjuntas. Portanto, quando você olha para os deuses de uma determinada cultura, é para as qualidades que esse povo preza que você olha.

A novidade que Marx traz para esse aspecto está no seguinte: sendo a religião um produto do próprio homem, não é de se estranhar que ela represente toda sua cosmovisão e sentimentos que tem de si mesmo. Lembremos da materialidade que Marx dá às suas análises, então não haveremos de reconhecer um deus em si no que o homem entende por Deus, uma entidade puramente abstrata, mas o próprio homem colocado como sua autoimagem. Só que essas imagens de si mesmos não se fazem sozinhas, mas na coletividade que é expressa pela estrutura social. Quando uma religião é construída, não a é por um indivíduo, mas pelos consensos obtidos pela soma deles. Quando se fala em uma essência humana, não há que se pensar em disposições metafísicas, mas em um movimento de retorno de sua própria alienação. Deus espelha o homem porque este é a sua realização fantástica, ou seja, sua projeção materializada. Por isso, Marx diz que a religião é o mundo invertido, uma irrealidade pensada a partir de uma realidade alienada.

Tá… embora concordemos que os deuses nada mais são do que o próprio conjunto de virtudes de um povo, no que isso é um mal, já que estamos pensando em valores que são prezados pelas pessoas? A questão é que, na filosofia marxista, as coisas não surgem e somem pela força das marés, mas porque há placas tectônicas em movimentação por baixo de um aparente fluxo histórico. Todas as coisas são como são porque há conflitos de classes que as deixaram assim.

Segundo o pensamento marxista, nada se explica no mundo sem que se compreenda como a luta de classes influencia o rumo dos tempos. O arroz com feijão na sua mesa, o futebol dominical, os comentários das novelas, a música que sua vizinha ouve, o horário em que você faz sua barba, o comprimento da sua saia, tudo está relacionado, em maior ou menor grau, com a luta de classes. Isso inclui o culto que você profere. Este é o motor que faz girar o mundo, na concepção materialista tão própria do marxismo. O nível de consciência com o qual isso acontece é variável, porque dificilmente alguém estende um plano mirabolante em uma mesa e decreta que tais e tais ações serão realizadas para a manutenção do poder, mas sabe-se lançar mão dos recursos que estão ao nosso redor para que isso aconteça.

Quem tem o poder não é quem tem armas. Isso serve para momentos pontuais, porque mesmo que tenham efetivo poder físico, é com a força de persuasão que o poder se perpetua. É muito mais eficiente fazer as pessoas aceitarem seus destinos do que fazê-las viver embaixo de um tacão. Nos momentos em que a opressão se dá pela força, sempre é possível que alguém se mova, e, consciente do tamanho do grupo, produza ao menos dificuldades. Não seria melhor persuadir o povo de que as coisas estão nos seus devidos lugares, que são como são porque tem que ser assim?

Isso não se consegue unicamente com o diálogo, mas com a esperança de que haverá dias melhores para aqueles que se encaixarem em um determinado padrão. E isso não precisa ser reflexo da realidade, mas só no que se pensa ser a realidade.

Um bom exemplo está nas inúmeras palavras sobre a riqueza e a pobreza. Diz-se que aos pobres pertencem o céu, e, com isso, as pessoas nessa condição têm um subterfúgio para se confirmarem felizes no pós-morte. Mas pense um pouquinho, sem abdicar de sua fé, do que seria sua vida se nada do que preconizam as religiões existisse. Assuma isso como um mero exercício mental. Tudo o que o mundo te dá e te tira está na medida da justiça? Tudo o que as pessoas dão e recebem está em perfeito balanceamento? Há equilíbrio entre o que uns têm e outros não? Se você respondeu “não” a essas perguntas, precisamos de fato refletir e criticar nossa própria realidade.

Então temos dois caminhos na concepção de religião. A primeira é a do entorpecimento que retira o senso crítico do cidadão. Com o convencimento de que ele tem algo que vai além do mundo material, ele deixa de valorizar esse mesmo mundo material, e as suas condições reais passam a ser secundárias. Se ele sofre, se deve, se é miserável, tudo serve a um propósito maior, que é o mundo além da matéria prometido pelas religiões. Criticar a religião é criticar a própria realidade da qual ela é espelho.

Já a segunda é a do lenitivo, do entorpecimento que faz suportar a dor. Não é expresso por Marx com todas as letras, mas eu consigo enxergar esse aspecto. O cidadão busca na religião um alívio contra a vida de merda que leva, da mesma forma que procura um copo de cachaça ou… uma pipada no ópio, como era mais comum nos tempos da revolução Industrial. Nesse sentido, às vezes a religião é tudo o que a pessoa tem, a tábua de salvação à qual se agarra e uma razão para se continuar a viver, ainda que faça uma visão crítica de sua própria realidade.

Se observarmos esses dois ângulos, conseguiremos compreender como há religiões, inclusive vertentes cristãs, que não veem o marxismo como fumaça nos olhos, mas como uma leitura material da estrutura exploratória que acontece na realidade. É óbvio que elas sublimam toda a crítica por conta da fé no reconforto e esperança futuros, mas não retiram o valores quando aplicados a outras formas de alienação: o deus-mercado, o deus-dinheiro.

O que há de mais claro: Marx, seguindo sua filosofia da práxis, queria que a religião deixasse de ser estudada para que os problemas reais viessem à mesa. A questão fica mais fácil quando pensada em termos de futebol. O Botafogo acaba de ser campeão da Libertadores, o único dos times ditos grandes que ainda não tinha esse título. O Botafogo da década de 60 era um time de sonho, com Garrincha, Didi, Amarildo, Nilton Santos, Quarentinha, Zagallo. Não chegou a títulos maiores porque havia um Santos com um craque chamado Pelé à sua frente. Era um time de sonho e nos sonhos ficou, com vários campeonatos cariocas e uma Taça Brasil, e é tudo. O time atual não tem a mística daquele de 60 anos atrás, mas tem a Libertadores. Na prática, sempre ficará o aspecto religioso do time de craques, mas quem teve o troféu é este time, que provavelmente já estará muito alterado no ano que vem. Outro caso é a mítica seleção brasileira de 1982. Dizem que ela é lembrada como se fosse campeã, mas a quarta estrela na camisa não veio com eles, mas foi bordada pelo pragmático time de 1994. Isso tudo significa que o aspecto metafísico tem um valor meramente relativo: quando você quer resolver problemas práticos, é para a realidade que você olha, tangível, observável, manifesta, concreta, sólida, palpável, imanente. Portanto, a religião-ópio nada mais é do que a expressão de sua filosofia da práxis, expressa ao máximo em sua célebre tese onze: Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

Com relação ao que diz em si o livro contra Hegel, fica para outro momento. Já as teses sobre Feuerbach, idem. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

MARX, Karl. Crítica da Filosofia de Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Navegações de cabotagem – a Colônia Witmarsum de Palmeira originando pensamentos sobre plus valia

(Até que ponto trabalhamos para nós mesmos?)

“Na verdade, o vendedor da força de trabalho, como o vendedor de qualquer outra mercadoria, realiza seu valor de troca e aliena seu valor de uso. Ele não pode obter um sem abrir mão do outro. O valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, pertence tão pouco a seu vendedor quanto o valor de uso do óleo pertence ao comerciante que o vendeu. O possuidor de dinheiro pagou o valor de um dia de força de trabalho; a ele pertence, portanto, o valor de uso dessa força de trabalho durante um dia, isto é, o trabalho de uma jornada”.

Marx

Olá!

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Quando pensamos em grandes cidades, logo vem em mente, por consequência, as cidades-satélites, que são aquelas que orbitam ao redor de um grande centro. Lembrando de Rio e São Paulo, os extremos chegam a ponto de haver geógrafos que entendem que ambas as regiões metropolitanas se tocam, de forma a constituir uma megalópole.

Em Curitiba, a coisa não chega a tanto. Como o Vale do Ribeira é mais preservado e menos desenvolvido que o Vale do Paraíba, não há uma ligação tão evidente quanto no caminho que liga Rio e São Paulo. Quem vai pela Dutra, não percebe claros tão grandes quanto quem vai pela Régis, e isso faz com que ambas as metrópoles sejam mais isoladas. Mas, ainda assim, Curitiba é uma grande metrópole, que tem seus satélites. Algumas são cidades altamente industrializadas, enquanto outras mantêm um ar tipicamente rural. E ainda dentro dessas há daquelas comunidades que possuem características absolutamente próprias, fazendo com que se tornem únicas. É o caso da Colônia Witmarsum, de quem tratarei agora.

A Colônia é um distrito do município de Palmeira, para onde migraram agricultores de origem alemã de religião menonita, uma classificação de igreja protestante que fez o protesto dentro do protesto. Explico melhor. Os menonitas são anabatistas, crentes que acreditam que o batismo realizado em crianças não tem valor, porque não se trata de uma escolha própria. Sendo assim, os anabatistas fazem o rebatismo de seus fiéis, para que o sacramento tenha efeitos concretos. A igreja menonita é o centro para onde converge todo o bairro.

Por conta de sua doutrina, os menonitas conseguiram a proeza de desagradar tanto os católicos, quanto os protestantes tradicionais, e foram perseguidos por ambos. Isso fez com que se desse uma busca pelo isolamento, o que levou a uma comunidade muito fechada, de alta manutenção da própria cultura. Por esse motivo, os elementos de origem alemã estão espalhados por toda a parte.

Eles se estabeleceram de forma a trabalhar a terra com as técnicas que conheciam, dada a aproximação climática desta região paranaense dos Campos Gerais com a ambientação temperada do centro europeu.

O nome Witmarsum, em língua germânica, significa “estrela azul”. Poderia ser estendido para o azul do céu local, resplandecente naquele dia.

A colônia se juntou em torno de uma cooperativa, que dá conta da maior parte da produção agrícola e de muitos produtos típicos que tem pegado um certo renome. Como são oriundos da Alemanha, há os artigos que são muito próprios daquela cultura, como é a óbvia cerveja.

Mas também existem itens que não são muito comuns em Terra Brasilis. É muito utilizado o ruibarbo, planta típica das margens do Rio Volga, de difícil preparo, dada a toxicidade de suas folhas, mas com sabor bem próprio em seus talos. Aqui, são consumidos in natura ou na forma de chás, ou ainda em preparados de frutas, como geleias.

Aliás, aqui temos a oportunidade única de “enfrentar” a culinária alemã, com seus porcos, linguiças e curtidos. Eu, particularmente, me divirto até os extremos com essas comidas que fogem do dia-a-dia, e com as cores e sabores que se apresentam nas mesas tipicamente fartas dos europeus.

São de fato vários os locais que reproduzem esse conjunto, mesmo com o distanciamento razoável que não estamos acostumados nas cidades maiores. Aqui há um misto de comida e repouso, propício para quem não vai comer pouco.


Outro atrativo culinário que atrai bastante gente são os cafés coloniais, típicos da região Sul. São diversos pães e massas que se alternam com inesperadas salsichas e outros embutidos, incluindo também culinárias da Itália, da Espanha e de Portugal.

Aqui, uma reminiscência infantil. Meu avô tinha uma minúscula oficina eletrônica, e a dona da garagem que ele alugava era a Kathi, uma alemã legítima, que nos enchia de doces mergulhados no mel todas as vezes em que os fazia. Vinha no pratinho com papel amarrado com um barbante, que meu avô, pouco diligente, fazia chegar todo melecado em casa. O cheiro dessas casas recende a esses dias. 

Por fim, há as casas de “badulaques”, que não são badulaques, mas delicadas peças que são verdadeiras obras de arte, como esses relógios cuco de parede.

O lugar é lindo. Parece que estamos em uma vila europeia, com todos os lugares bem cuidados, jardinagem em dia e limpeza impecável. A comida é convidativa e dá gosto de se entrar nas lojinhas em geral. Mas tudo é caro, muito caro. Dificilmente se come com menos de cem moedas a cabeça, o café colonial é na faixa dos cinquentinha e os artigos para venda custam um rim. Os tais dos cucos são todos acima de 700 reais, o que não é qualquer dinheiro, convenhamos, mesmo que efetivamente valham isso.

E aí gente se põe a pensar: não sei se o esquema de cooperativa funciona ainda, se se aplica somente à produção agrícola ou se também o pequeno comércio está sob regime de cooperação. De toda forma, penso se todo o fluxo de mercadorias tem algum reflexo no bolso dos funcionários ou se temos o mesmo tradicional funcionamento das redes de alimentação das grandes cidades. Sabemos que os preços, nesse caso, não se refletem no bolso da brigada.

É assim que funciona o mercado, e eu não vou me imiscuir em temas que entendo muito pouco. Mas eu vejo muita gente dizendo que isso é o mais-valia que os marxistas tanto se apegam, que a diferença que iria para o bolso do trabalhador vai direto para o bolso do proprietário, e que a tal mais-valia expressa o tamanho do lucro. Não é bem assim, e cumpre falar sobre o tema, especialmente porque “O Capital” é uma obra muito extensa, mesmo se devidamente fatiada, e para compreendê-la bem é preciso paciência e, especialmente, espírito livre.

Primeiramente, vamos fazer aquele velho disclaimer. Este ensaio vai falar sobre marxismo, e isso não significa que vai enaltecê-lo, mas esclarecê-lo, nos limites deste humilde escriba, porque vou tratar de um termo onde há confusão. A coisa chegou a um ponto de que as diferentes teses que são elaboradas atualmente sobre Marx terem estabelecido a distinção “marxista”, quando se refere a adeptos das ideias do alemão, e “marxiano”, quando a intenção é se referir ao conjunto filosófico do mesmo pensador. Portanto, estar escrevendo sobre um conceito de Marx não significa que eu seja ou não seja marxista, mas que trato de filosofia, e, por isso, não posso deixar de lado temas importantes que o abordem. Se quiserem contestar, os comentários estão aí, desde que se faça de maneira respeitosa, combinado?

Falei um pouco sobre valor de uso e valor de troca neste post, e só vou repassar rapidinho o tema. Nós usamos as coisas, e isso lhes dá um valor, porque elas são importantes e precisamos delas. Entretanto, esse valor não as põe em condições de serem comercializadas, porque há um outro valor, mais abstrato, que é o valor que tal coisa tem perante a sociedade, e que chamamos de valor de troca. Eu posso amar de paixão meu velho violãozinho, onde aprendi meus primeiros acordes, e, para mim, seu valor é inestimável, mas não consigo pagar o precitado café colonial se eu tentar vendê-lo, tão fodido deteriorado que se encontra. O valor de troca se originou há muito tempo atrás, quando o nascente comércio era feito na base do escambo, palavra esta um sinônimo de troca. Mercadorias muito diferentes eram trocadas entre si, sem qualquer correlação quantitativa, como, por exemplo, trocar vinte quilos de batata por dois metros de tecido.

Ok, compreendemos que mercadorias diferentes compartilham valores de troca, cada um em sua proporção. Mas o que faz com que uma sociedade determine o valor de troca de cada uma delas?

Pensemos assim: uma florzinha ordinária que eu colha de um terreno baldio não dá trabalho algum e qualquer um pode fazer o mesmo. Já uma flor plantada em uma estufa, que pode florescer em qualquer época do ano, com cuidados de adubação e proteção de pragas, que fica acondicionada em local ideal para mantê-la madura por mais tempo e assim por diante, envolve muito mais trabalho, e, naturalmente, as pessoas reconhecem e valorizam o esforço aplicado naquele produto. Há diferenciais: maior frescor, disponibilidade imediata, perfeição formal, e via discorrendo. Por isso, seu valor de troca faz sentido. Sendo assim, essa flor possuirá um valor de troca que é igual ao valor de troca de outro produto qualquer, e seus produtores poderiam fazer o intercâmbio de modo socialmente aceito. Quando toda a sociedade consagra esses valores, eles ganham aspecto simbólico e podem ser substituídos por moedas. E assim nos aproximamos da realidade que temos até hoje.

Pois bem. Se estamos entendendo que o que iguala o valor de troca entre duas mercadorias absolutamente diferentes é a quantidade de trabalho socialmente aceito, então podemos concluir que a força de trabalho é um dos componentes centrais na formação de um preço. Ocorre que o trabalhador, nessa relação de insumos, é o único elemento que caracteriza a mercadoria como tal, porque nada pode ser considerado mercadoria se não há alguma forma de trabalho humano aplicada a ela. Se está solta na natureza e posso pegá-la a qualquer hora, não é mercadoria.

Enfim, podemos compreender que a principal mercadoria é a que menos nos damos conta que existe quando olhamos para uma: a força de trabalho. É a única que a imensa maioria tem ao seu dispor para entrar no mercado. Ela tem uma condição especial, que podemos aplicar ao raciocínio anterior: se todo valor de troca se baseia no trabalho aplicado à matéria-prima, é com a mercadoria força de trabalho que se tem a fonte dos valores de mercado. Afinal, não dissemos que é o valor do trabalho aplicado que iguala as mercadorias das mãos distintas mercadorias? Portanto, não é uma mercadoria que possui só seu próprio valor, mas a característica de produzir mais valores.

Ocorre que, quando um empresário contrata mão de obra, vai pagá-la por um valor determinado. Comprou a mercadoria que é a força de trabalho de uma pessoa, a sua capacidade de produzir valor, e vai consumi-la até o ponto em que o trabalhador já terá suprido sua própria manutenção. Mas o consumo dessa mercadoria não para nesse ponto. Ela continuará, para além do que custa o trabalhador, e seu trabalho começará a multiplicar os valores do dono dos meios de produção. O seu expediente é vendido por oito horas, mas quatro horas seriam suficientes para suprir suas necessidades. O que vai além disso é usado para gerar mais e mais valor ao capitalista que investe. Isso é o conceito de mais-valia, ou, na forma latina que prefiro, de plus valia.

Por que a plus valia não é simplesmente um dos fatores do lucro? Porque o capitalismo possui um caráter auto-expansivo, isso é intrínseco a ele. O aumento de produção é um dos focos não somente para o consequente aumento da lucratividade, mas para que se aumente a participação no mercado. Isso tudo se procura obter através de dois caminhos: um aumento na quantidade do tempo trabalhado ou na diminuição do tempo necessário para a obtenção da mercadoria. O primeiro é o plus valia absoluto e o segundo é o plus valia relativo.

O plus valia absoluto, como é fácil de entrever, é o aumento do número de horas exercidas pelo trabalhador. Vamos começar nos lembrando que se vivia em uma época com uma legislação trabalhista praticamente inexistente, com os empregos sendo oferecidos com baixa proteção e quase nenhuma possibilidade de negociação. Portanto, a jornada de trabalho era uma questão arbitrária. Se o trabalhador do exemplo cumpria quatro horas para suas necessidades e outras quatro para produzir mercadorias que não lhe aumentavam os ganhos, com a extensão da jornada esse acréscimo se tornava ainda maior.

Já o plus valia relativo depende de um aperfeiçoamento das tecnologias que permitem que a produtividade se amplifique sem haver correspondência nos ganhos do funcionário. Imagine uma máquina que permitisse produzir cinco bolas por hora e passe a produzir dez. Em uma mesma jornada de trabalho, um trabalhador produziria o dobro do que foi contratado, sem que, no entanto, isso reflita dinheiro no seu bolso.

Aqui, poderíamos pensar que a assertiva sobre o plus valia ser sinônimo de lucro se completa, e podemos tirar uma bela soneca após um almoço tão opíparo. Mas se a coisa se limitasse a isso, teríamos uma situação permanente que nos manteria no momento da análise marxiana: no século XIX. Se o plus valia fosse a remuneração de um magnata, ele seria mais e mais ostentoso, enquanto sua fábrica ficaria envelhecida e ultrapassada tecnologicamente. Mas o que ocorre de fato é a retroalimentação do capital. É preciso que haja reinvestimento no próprio negócio, caso contrário a chance de se sucumbir à concorrência, um dos pilares do capitalismo, é praticamente inexorável. Aquele que não conseguir dar conta de se sustentar perante os concorrentes é engolido por eles, fazendo com que o capital se acumule nas mãos de cada vez menos milionários, estes cada vez mais ricos. Evidentemente, estamos falando do contexto do século XIX, mas é acaso que conglomerados tão gigantes venham se formando por todo o mundo? Não sei dizer, mas o fenômeno foi detectado e parece fazer sentido.

O plus valia é, portanto, o tanto de trabalho que se extrai de um operário, camponês ou qualquer outro produtor para fazer girar a roda do capital. Se trabalhasse para si mesmo, o trabalhador teria muito mais retorno das mercadorias nas mãos. Como não tem, o operário se aliena do fruto do seu trabalho, mas toda a estrutura que sustenta essa realidade vai ser analisada em outro momento, embora tenha dado alguma pinceladinha neste post.

Em conclusão, não conheço os sistemas de cooperação que existem neste lugar. Eu gostaria muito que fosse um modelo a ser aplicado ao mundo, que refletisse no bem-estar de cada um o fruto do seu trabalho, que pudesse ser um espelho onde nos enxergássemos menos sozinhos, mas acho que estou sendo um pouco utópico. Isso juntaria a beleza do lugar com a beleza de sua sociedade. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Para não ter que ler a volumosa obra de Marx, é possível começar pelo resumo feito pelo seu amigo de longa data, Engels. Segue a indicação.

ENGELS, Friedrich. Resumo de O Capital. São Paulo: Boitempo, 2023.

E alguns dados da Colônia em si mesma.

Colônia Witmarsum

Palmeira - PR

A aproximadamente 490 Km do centro de São Paulo

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

De volta às águas e trilhos que ficaram para trás – 8º lugar: Itanhandu e o mundo real como base da História

(Como são explicadas as mudanças do mundo? É preciso olhar para fora ou está tudo aqui dentro mesmo?)

“Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina sua consciência”

Marx

Olá!

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Quando vim para as Terras Altas da Mantiqueira pela primeira vez, meu fluxo incluiu alguns vai-e-vem. De Passa-Quatro para Itamonte, de Itamonte para Passa-Quatro, e depois de novo e de novo. Não vou ficar explicando essas idas e vindas, sendo suficiente saber que, entre ambas, tinha uma cidade com uma bela fábrica na beira da estrada, e que eu pensava em entrar, sem nunca o fazer. Com o espírito de resgate deste novo périplo, chegou a hora. Vamos conhecer Itanhandu.

O curioso nome da cidade significa “ema de pedra” em tupi-guarani, embora haja outras interpretações possíveis no site da prefeitura (aqui). De toda forma, está correlacionado à bacia hidrográfica à qual a cidade pertence, em especial ao quase onipresente Rio Verde. Esse fato não passou desapercebido na praça central da cidade, onde vemos a ema que abre este texto.

Itanhandu está naquele pedaço mineiro que foi parte do teatro de combates da Revolução Constitucionalista. Para um paulista como eu, é um tanto estranho perceber como há vanglória em um evento de desunião de um país, mas, vá lá que seja, faz parte da história e precisamos compreendê-lo bem.

A igreja matriz é dedicada, mais uma vez, a Nossa Senhora da Conceição. Essa santa é popular no Brasil por derivação direta da devoção dos portugueses, mas, de lá, a questão parece um tanto difusa, não se apegando a um evento tão direto quanto a contada aparição da Santa na Cova de Iria, em Fátima.

Dentro da igreja, relembramos de dois santos praticamente endêmicos desta redondeza: a Nhá Chica (leiam este texto para saber mais)...

… e o Padre Vítor, famoso por ser o primeiro escravo a ganhar os galardões da beatitude.

Estamos em uma cidade que fazia parte do traçado da antiga rede mineira de ferrovias, que causa saudades em tanta gente (leia mais aqui), e a cidade ainda mantém em boas condições a sua estação. O que está em más condições é a qualidade da minha foto.

Na ponte que cruza o Rio Verde, há um pequeno memorial. Este rio, que repeti tantas vezes nessa jornada, tem em Itanhandu as suas nascentes, e a parte rural tem boas trilhas e cachoeiras, especialmente a do Vô Delfim, a mais popular delas.

Mas e a tal fábrica? É uma empresa de laticínios, que produz tudo o que o leite pode dar, em um esquema muito diferente daqueles que são desenvolvidos pelos pequenos produtores.

Enquanto nos pequenos sítios a produção se fecha em um ou dois produtos, no máximo, aqui o que impera é a variedade, sendo que toda a região vende esses produtos, menos românticos, mas mais em conta.

Nos hotéis, por exemplo, é uma presença quase obrigatória a sua manteiguinha, vendida em pequenos tabletes, para uma refeição única. Até mesmo uma cachacinha se acha por lá.

São todos produtos bons, e, embora seja uma indústria, dá aquele arzinho de campo que seduz a gente. Só que, em uma terra conhecida pelos artigos artesanais, feitos por produtores que receberam seus conhecimentos dos pais e que não sabem se os passarão para os filhos, é um pouco estranha a presença de uma fábrica desse tamanho, uma coisa quase contraditória. Mas é desse material que a realidade é feita, de idas e vindas em que não notamos o que está no meio do caminho, e nem o que está por trás das coisas. Talvez devêssemos dar mais atenção a esses detalhes, porque eles dizem muito e explicam tudo.

Se vocês prestarem bem atenção, para além da poesia das coisas que eu falei, há uma proposta para lançar o olhar para a realidade que vai além do mero senso comum, ainda que de forma muito rudimentar. É um método, uma maneira predefinida para se atingir um objetivo. Quando combinamos esse olhar com a análise social, não há como não pensar na metodologia de Karl Marx. Ora, ora, não saia do texto agora, nem sinta raiva, porque eu não sou marxista e não há como excluir sua importância para a filosofia. Mas todas as vezes que eu vou falar deste pensador preciso fazer um rápido disclaimer, para não atiçar a raiva de cabeças mais suscetíveis. Apenas tente compreender de maneira neutra como funciona sua proposta, e, depois, concorde ou discorde. Vamos tentar?

Quando um aluno de universidade ou pós-graduação está para concluir seu curso, ele precisa passar pelo crivo do horrífico TCC, com seu terrível orientador e sua amedrontadora banca. Normalmente, é preciso declarar a metodologia aplicada nos trabalhos, o que é típico para quase todos os cursos: pesquisa de campo, revisão bibliográfica, experimento laboratorial e assim por diante. Nos trabalhos de filosofia, é necessária uma declaração adicional, que é a abordagem de pesquisa filosófica. São várias, sendo que as mais comuns são a fenomenologia, a hermenêutica, o positivismo e as dialéticas, sendo que aqui o caminho se bifurca: há a via hegeliana ou a abordagem marxista, o materialismo histórico-dialético. É sobre esse último que eu vou me debruçar.

Normalmente, os manuais de filosofia costumam destrinchar esse termo para fazer a explicação, mas há um probleminha. A sequência que o nome da metodologia tem fica um pouco invertida, no meu humilde entender. Seria melhor se falássemos em uma dialética material-histórica. Isso porque o fluxo dialético é o seu grande fundamento.

Quando nós observamos qualquer fenômeno em nossa vida, temos a tendência em recortar átomos de tempo, como se aquilo que temos diante dos nossos olhos fosse um retrato que se bastasse em si mesmo. Como exemplo, vou falar de algo que vi agora pouco, ao cair da noite. Da janela do meu quarto, olho para a esquerda e vejo uns cinco ou seis meninos correndo atrás de uma bola. Há a mãe de um deles em vigilância, enquanto dedilha seu celular perto da porta do bar da esquina. Ah, conheço-a; é a manicure do meu prédio sem metafísica*. Os meninos são seus filhos, além do menino da peruana que vende quinquilharias no Brás e os do cachorro louco do segundo andar. Fico observando os passes ainda meio destrambelhados e os gritos intensos, que se multiplicam ao vazar o goleiro (que usa chinelos à guisa de luvas) e atingir em cheio as barulhentas portas de ferro das lojas de essências, causando estrépito e alvoroço, incluindo do cachorro de um deles.

Olhando assim, parece que temos nada mais, nada menos, que nosso prosaico quotidiano, sem grandes novidades no front. Mas um olhar um pouco mais acurado vai fazer com que levantemos inúmeras questões. Por que aqueles meninos estão brincando na rua, e não em uma quadra, ou clube? Por que é necessário ter uma mãe vigiando a brincadeira dos meninos? Até mesmo pode-se perguntar por que o menino no gol está com os chinelos nas mãos, ao invés de luvas. Todos esses questionamentos desnudam as relações de causalidade que levaram àquele momento que observo, tornando claro que houve um sem-número de componentes que a fizeram ficar como é. Não há nada na realidade que não entre em uma relação de anterioridade:  as coisas são como são porque uma série de fatores antes desembocaram nelas. Em suma: a realidade é processo, e o momento nada mais é do que um estrato desse processo.

Mas agora olhemos com mais cuidado para a tola cena em si. Esse cantinho do centro de São Paulo foi apelidado carinhosamente de Faixa de Gaza. Esse nome se dá pelo “pega prá capar” que acontece entre “noias” e polícia, ou, às vezes entre eles mesmos em sua eterna briga pelas pedras. De que processo esse estágio atual faz parte? Da degradação do centro de São Paulo, que, embora completamente estruturado, não atrai habitantes definitivos; dos erros das políticas públicas, que não soube dar destinação a grandes áreas que perderam seu uso, com o mais clássico de todos sendo a antiga Rodoviária da Luz; do aumento do tráfico e da adição de novas drogas, bem mais viciantes e problemáticas, como o crack e o recente k9; da indefinição de políticas de habitação popular; do desinteresse pela parte dos proprietários de imóveis em dar manutenção adequada aos seus bens, e, como esses, muitos outros fatores. Cada um deles, uma vez isolados, também estão inseridos em uma rede de causas e consequências que tem seus próprios fluxos, e a análise tende ao infinito, como se pode perceber.

Por outro lado, a cena em si demonstra uma tranquilidade prosaica, uma certa estabilidade. Mas ela carrega em si mesma todas as condições para ocorrer desequilíbrios. A mãe se obriga a estar lá pela insegurança da Faixa de Gaza, que a usam pela ausência de espaços públicos mais adequados, ou pela impossibilidade de pagar por uma quadra fechada. Mesmo o menino com mãos de chinelo demonstra a falta de condições materiais de ter uma luva, e não apenas o sonho inocente de ser um goleiro de renome. Toda disposição situacional é prenhe de contradições, e aqui vamos encontrar as instâncias dialéticas.

Neste ponto, as teorias de Marx e Engels mostram sua dependência com relação à dialética hegeliana. Já nela, detecta-se a realidade que carrega suas próprias contradições, e como é o trânsito entre elas que movimenta o mundo. Como sabemos, os marxistas têm fortes críticas ao capitalismo, e, de fato, podemos detectar algumas de suas ambiguidades com facilidade. Um dos seus pilares, por exemplo, é a livre concorrência, que determina que as empresas e pessoas poderão utilizar livremente os recursos que desejarem para exercerem suas atividades e conseguirem comerciar, desde que respeitados os limites da lei. Esses limites são óbvios: não se deve escravizar trabalhadores, não se deve explorar atividades ilícitas, e assim sucessivamente. Entretanto, a livre concorrência tem uma doença interna: um dos players pode crescer a tal ponto de se tornar monopolista no mercado. Não há nenhum crime sendo cometido, a não ser o próprio exercício da livre concorrência. Por exemplo, se um empresário tem fôlego financeiro para baixar seus preços a ponto de extinguir a concorrência, não estará descumprindo regras do próprio sistema. Idem quando as empresas de determinado setor se associam para impedir que os preços de seus produtos não baixem além de um certo limite. Para impedir que esses fenômenos ocorram, criam-se leis antidumping, antitruste e assim por diante. Esses nomes em inglês denunciam que não se trata de eventos do nosso capitalismo tupiniquim, mas do centro nervoso do capitalismo mundial, Estados Unidos à frente. Leis são antítese da liberdade econômica, mas que precisam existir para garanti-la. Percebem a contradição?

Isso não é uma exclusividade do capitalismo, mas de todo e qualquer sistema que se observe, porque a estrutura dialética está na medula da realidade. A questão que divide Marx e Engels de Hegel está no fato de que, para este último, a mola propulsora da realidade é o Espírito, uma espécie de fusão entre razão e natureza, que tem um certo caráter metafísico, já que sua definição, como se pode ver, não exclui alguma forma de idealização. No marxismo, esse impulso é outro, baseado no real concreto. Não se trata da exclusão pura e simples de instâncias metafísicas, mas da conscientização de que, independentemente delas, as coisas se desenrolam no mundo palpável, imanente, concreto, material. É na materialidade que se escreve a história e se dão os conflitos dialéticos. Sendo assim, o motor da história somente poderia se dar no plano do material, e Marx e Engels entendem que é o desequilíbrio entre as classes sociais este impulsionador. Patrícios e plebeus, suseranos e vassalos, brâmanes e sudras, esparciatas e hilotas, burgueses e proletários sempre vivem em um estado de tensão, porque há uma permanente diferença entre as condições materiais de cada uma dessas classes: quem tem privilégios, quer mantê-los; quem não os têm, quer obtê-los. Como em todas as sociedades há esse desnível e esse confronto, tudo o que acontece na esfera social se deve, de uma forma ou de outra, a esse fermento.

Perceberam como não há nada de metafísico, espiritual ou idealizado na proposta marxista? Como a análise deve se dar no plano material, com a realidade concreta exposta aos olhos? Eis porque a dialética de Marx e Engels é chamada de materialista, independentemente da existência ou não de qualquer instância transcendental.

Estando as coisas nesse ponto, vamos perceber uma guinada de volta ao pensamento hegeliano. Embora Hegel baseie sua ideia de progresso no idealismo e nas representações, o fato é que ele não exclui a historicidade dos fatos. Mais ainda: ele disserta firmemente sobre o modo como a própria razão é histórica, ou seja, sensível à transformação da realidade e ela mesma sujeita a mudanças no tempo. Entretanto, no campo do marxismo teremos um reposicionamento da consciência, que corresponde a momentos históricos determinados, ou seja, adaptados ao seu próprio tempo. A consciência é entrelaçada com a própria história: a maneira como ela enxerga o mundo está condicionada ao modo como foi historicamente inscrita nas mentes. Metafísica, religião e ética possuem seus valores em razão da variação dos conflitos sociais, se tivermos em vista que a característica fundante das sociedades é a necessidade da interação com a natureza através do trabalho.

É óbvio que, como qualquer outra metodologia, também aqui temos calcanhares de Aquiles. No caso, o materialismo torna boba qualquer pesquisa metafísica, objeto que efetivamente faz parte da filosofia. Talvez a práxis que fundeia o marxismo faça com que não haja muito sentido, mas objetos intangíveis não podem ser proibidos de ser pesquisados. Outra questão é que colocar a régua da luta de classes como único motor da história por vezes faz um efeito de turbilhão, ao invés de espiral dialética, partindo da premissa de todos os aspectos que podem afetar qualquer situação social do mundo, que, pelo princípio de causa e consequência podem chegar ab ovo. Por fim, o materialismo histórico-dialético exige muita habilidade para não se cair em situações forçadas, em antíteses que não existem e em sínteses absurdas. Um marxista empedernido que quer usar a metodologia sem bagagem suficiente pode produzir textos risíveis, totalmente desvinculados da realidade que persegue. E não é isso que se espera de uma boa análise.

Pois bem. Dialeticamente, abasteci minha mochila térmica de objetos materialmente industrializados enquanto vivo propagando as benesses da manufatura artesanal, e venho aqui para contar historicamente meus volteios para vocês. Bons ventos a todos, porque amanhã é dia de ir embora.

Recomendação de leitura:

Marx e Engels tratam de sua metodologia em várias obras. Vou recomendar justamente aquela de onde extraí a epígrafe.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008 

* Entendedores entenderão