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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Navegações de cabotagem – o Sítio do Pica-pau Amarelo de Taubaté e as oportunidades que não se podem deixar passar

(Ah, mas eu não perderia uma chance dessas...)

“O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.

Francis Bacon

Olá!

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Pelo tempo que frequento Taubaté, até que demorou. Esta terra se vangloria de ser a naturalidade de Monteiro Lobato, considerado até hoje o principal escritor infantil de Ilha da Vera Cruz, ainda que com uma boa dose de polêmica. O epíteto autoproclamado é “Capital Nacional da Literatura Infantil”, justamente pelo filho ilustre. Se o vínculo é efetivamente forte, eu não sei, já que o escritor em questão viveu em várias outras cidades, como a que lhe traz o nome ou Areias, onde foi procurador, e ambas também lhe rendem homenagens, mas o fato é que existe um parque na cidade que recebe o nome de sua magnum opus, Sítio do Pica-pau Amarelo.

O espaço está instalado no que era conhecido como “Chácara do Visconde”, pertencente a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, que veio a ser o avô de Monteiro Lobato. É uma construção típica dos grandes fazendeiros da época, feita em taipa de pilão e pau a pique, material mais comum das construções de então.

Esta casa concentra um acervo de objetos pertencentes a Monteiro Lobato e sua família, distribuídos pelos mais de dez cômodos existentes, incluindo uma certa ambientação de época e um posicionamento original dos móveis e utensílios, como a sala de jantar.

O “quintal” da casa é uma grande área de 20000 m2, que já foi muito maior no passado, e que era cercado de arvoredos. Hoje em dia, o que prepondera são as mangueiras, especialmente produtivas nesta época do ano.

O Sítio do Pica-pau Amarelo é uma série de histórias onde Monteiro Lobato retrata muito de sua infância e traz uma boa dose de sua visão de mundo. Evidentemente, os personagens do Sítio estão espalhados por toda parte, tanto dentro da casa…

… quanto fora dela, a maioria deles no que poderíamos chamar de “tamanho natural”.

A grande vedete, como se pode esperar, é a boneca Emília, alter ego do escritor e o pivô em torno do qual as histórias são contadas.

É através dessa personagem que Monteiro Lobato exterioriza uma boa parte de seus pensamentos e acaba por se inserir em pessoa nas próprias histórias, muitas vezes de forma um tanto polêmica.

Enfim, é um espaço cuja finalidade é contar um pouco sobre a vida do autor e dar informações sobre sua mais conhecida obra.

O espaço tem sua função e é uma daquelas ilhas de paz em uma cidade razoavelmente agitada, já salvaguardada minha origem paulistana. As informações são relevantes e, de fato, trazem um clima de Sítio do Pica-pau Amarelo para quem se acostumou a ler as histórias em tempos escolares. Mas eu sinto uma falta, e preciso falar sobre ela, sem querer que se traga sobre mim nenhuma espécie de ranço ou rancor.

Taubaté, a meu ver, lida muito mal com suas oportunidades turísticas. Não basta colocar um letreiro na entrada principal da cidade e uma estátua de três metros do escritor se não se vê mais nada a respeito da temática cinquenta metros depois. Quando eu viajava para estes lados e via esses artefatos, imaginava que a cidade toda era povoada de referências ao autor e à obra, que ganhou muito impulso a partir da década de 70, quando sua obra infantil virou um imenso sucesso televisivo. Mas não se vê quase nada, a não ser uma figura aqui, um nome de loja ali, uma homenagem acolá.

Outras cidades capitalizaram fatos e fizeram limonadas a partir de limões históricos, ou seja, transformaram situações que se mostravam jocosas ou humilhantes em oportunidades de mudar o transcurso da história. Penso em Itu, de quem já falei aqui, mas que reitero em apertada síntese: ainda na era do rádio, o humorista Francisco Flaviano de Almeida lançou o personagem Simplício, um homem do interior cujo principal mote era exagerar nos tamanhos das coisas de sua terra natal, a precitada Itu. A ironia estava no fato da cidade ser (então) pequena até no nome, e o sucesso da piada ressoou na fama do lugar. Ao invés de sentir humilhação, toda sorte de gigantismo foi sendo instalado: o semáforo, o orelhão, uma praça completa. O comércio veio junto e os souvenires são encontrados em toda parte: chinelos, chaveiros, sorvetes, fósforos e tudo o mais que se pensar. Quem vai a Itu hoje já vai em busca de um atrativo que a cidade não tinha, chegando até mesmo a esquecer sua importância republicana.

Outro caso diz respeito a Varginha, nas Minas Gerais. Uma história confusa, envolvendo três meninas que supostamente teriam avistado um ET, conciliada com uma mistura explosiva de fatos mal explicados e teorias da conspiração fizeram dessa cidade ao sul de Minas Gerais uma capital nacional da ufologia. A chance de cair na ridicularização era grande: parece que o tal do ET era um mendigo se aliviando. Hoje em dia, passados exatos 30 anos, a cidade absorveu toda a curiosidade que se voltou a ela e possui toda sorte de equipamentos que fazem referência a marcianos, naves espaciais e qualquer temática relacionada a OVNIs, incluindo até mesmo repartições públicas.

Taubaté não tem nada disso com relação ao Sítio. Resignada, a cidade tem se sujeitado a ser conhecida como a capital da mentira: tudo o que é de falsificado é “de Taubaté”, a Xuxa, o Batman, o parkour, tudo capitaneado pela célebre grávida e inaugurado pela Velhinha de Taubaté, a última cidadã brasileira a acreditar no governo da ditadura, criação do cronista Luís Fernando Veríssimo, antevendo uma credulidade ingênua dos habitantes desta terra. A cidade, segundo o autor, foi escolhida aleatoriamente por ser lugar pacato, mas é mais do que certo de que há uma sombra de Jeca Tatu nessa opção, mesmo que inconscientemente.

São Luís do Paraitinga e seu carnaval de chifre e rabo, São Thomé das Letras e suas bruxas… São muitos os exemplos de cidades que apareceram no mapa por conta de um pequeno episódio, de uma história perdida, de um evento qualquer que chamou a atenção do país, mas que foi aproveitado pelos governos e moradores para justificar sua existência e, melhor ainda, trazer dividendos.

Quer saber? Se eu fosse do corpo gestor (o atual prefeito se autodenomina gestor) de Taubaté, não somente daria uma estilingada na ênfase ao Sítio, mas também exploraria ao máximo essa história da grávida. Parece politicamente incorreto, mas ninguém precisaria passar por humilhação. Uma grande feira de roupas para gestantes poderia ser o pontapé inicial para uma divertida nova vocação para a cidade. A princípio, roupas vindas de polos produtores, para depois o próprio mercado se encarregar de trazer produção para cá. Isso seria uma espécie de impulso inicial, para que o próprio mercado se desenvolvesse na esteira. Afinal, a cidade tem tradição têxtil, tendo em vista o tradicional apito da Companhia Têxtil Industrial - CTI, que até hoje é disparado como se ainda chamasse seus funcionários.

E a grávida? Ela é viva e, pelo visto, não se sente disposta a fazer ressurgir essa história toda. Afinal de contas, Taubaté voltou para o mapa pela sua história surreal*, e se deu pela chave da ridicularização, o que é indigesto para quem vive aqui, e isso eu sinto ao abordar o tema com os mais antigos. No final das contas, se tudo for lidado com habilidade, ela pode ser a mais beneficiada de todos. Um acordo de uso de imagem traria tranquilidade financeira e reverteria a imagem negativa que ela possui até hoje, especialmente porque traria bom humor para um tema que é tratado com vergonha, por ela e pela população. Uma espécie de padroeira que estaria presente na feira e teria oportunidade única de se redimir com seus concidadãos, além de tirar todo o peso de seus atos. Limão, limonada, sacaram? Eu só não sou rico por preguiça.

Falando de maneira mais séria, é o custo de oportunidade sendo colocado como exemplo com toda a força. Esse é um dos poucos termos que eu lembro dos tempos em que estava na faculdade de contábeis, matéria que eu detestava a despeito do excelente professor Maurício, por conta de contas e mais contas. Ele diz respeito a tudo aquilo que deixamos de ganhar ao fazer opção por uma determinada atividade econômica. Os exemplos são fáceis, e vou tirá-los de mim mesmo. Ao renunciar continuar tocando em bandas, eu tive a oportunidade de melhorar meus estudos e aperfeiçoar meus conhecimentos, o que me deu melhores condições para encarar a própria vida, que segue claudicante, mas segue. Mas, embora fosse possível prever que a carreira musical não daria em nada, não é algo que podemos nos assegurar. Poderia dar um daqueles encaixes que acontecem de vez em quando no universo e hoje eu estivesse em um daqueles iates aportados em Mônaco, deitado nas glórias de uma carreira de sucesso.

Mas o custo de oportunidade não se dá em suposições vazias, como essa. Para ter uma efetiva dimensão do que se deixa de ganhar, é preciso compreender onde se pode chegar, e, para isso, é preciso ter uma melhor ideia dos recursos disponíveis e de sua aplicação. Uma garagem, por exemplo, comporta uma oficina ou um salão de beleza, nunca os dois. Compreender qual o melhor uso significa dimensionar os ganhos de um ou de outro, e isso é muito mais complexo do que pode parecer. Uma oficina pode parecer trazer maiores ganhos, mas isso se houver público suficiente para seu uso em tempo integral. Por outro lado, o valor agregado do salão pode ser melhor, e, mesmo tratando de cifras mais miúdas, produzam um resultado mais exuberante. O que importa é: quanto se deixará de ganhar com a oficina se instalarmos o salão? Esse é o custo de oportunidade, um valor implícito e de difícil aferição, mas que existe.

Ocorre que esse custo não é somente econômico, mas social, ambiental e qualquer outro aspecto em que uma opção implica em uma renúncia. Tudo o que poderia se deixar de ganhar com obtenção de empregos, por exemplo, faz parte do custo de oportunidade de deixar passar batido símbolos fortes que uma cidade carrega. E eu percebo o tamanho do que se deixa de lado, especialmente pelo fato de ter vindo recentemente de fora, e trago essas percepções justamente por afinidade a esta terra. Vim morar aqui por ter gostado do lugar, e quero vê-lo cada vez melhor. A oportunidade é uma limonada, o custo é o limão. 

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não sou muito versado nas artes da economia, então fui na biblioteca pegar umas referências melhores e encontrei esse livro, que me deu uma boa clareada nas ideias.

MANKIW, Gregory. Introdução à economia. Princípios de micro e macroeconomia. São Paulo: Atlas, 2001.

E tem também o parque, bem próximo da região central de Taubaté. É sempre melhor visitá-lo nas férias e nos finais de semana, em que as feirinhas e as apresentações teatrais acontecem.

Sítio do Pica-pau Amarelo - Museu Monteiro Lobato 

Avenida Monteiro Lobato, sem número 

Chácara do Visconde

Taubaté/SP 

A aproximadamente 130 km do centro de São Paulo.

*Para quem não sabe da história: em 2012, surgiu a história de uma grávida de quadrigêmeas em Taubaté. O insólito da situação não estava na gravidez em si, rara, mas não raríssima, mas do formato de bola de praia que a barriga da suposta gestante, evidentemente falsa, mas que rendeu horas e mais horas de reportagens na televisão de baixa seriedade. Eu, sinceramente, tenho uma opinião que beira a teoria da conspiração: a própria emissora que mais divulgou o caso foi a principal “armadora” da história toda, ao perceber os índices de audiência que poderia obter a partir do absurdo da situação.

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