(Ah, mas eu não perderia uma chance dessas...)
“O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.
Francis Bacon
Olá!
Pelo tempo que frequento Taubaté, até que demorou. Esta
terra se vangloria de ser a naturalidade de Monteiro Lobato, considerado até
hoje o principal escritor infantil de Ilha da Vera Cruz, ainda que com uma boa
dose de polêmica. O epíteto autoproclamado é “Capital Nacional da Literatura
Infantil”, justamente pelo filho ilustre. Se o vínculo é efetivamente forte, eu
não sei, já que o escritor em questão viveu em várias outras cidades, como a
que lhe traz
o nome ou Areias, onde
foi procurador, e ambas também lhe rendem homenagens, mas o fato é que
existe um parque na cidade que recebe o nome de sua magnum opus, Sítio
do Pica-pau Amarelo.
O espaço está instalado no que era conhecido como “Chácara
do Visconde”, pertencente a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé,
que veio a ser o avô de Monteiro Lobato. É uma construção típica dos grandes
fazendeiros da época, feita em taipa de pilão e pau a pique, material mais
comum das construções de então.
Esta casa concentra um acervo de objetos pertencentes a
Monteiro Lobato e sua família, distribuídos pelos mais de dez cômodos
existentes, incluindo uma certa ambientação de época e um posicionamento
original dos móveis e utensílios, como a sala de jantar.
O “quintal” da casa é uma grande área de 20000 m2, que já
foi muito maior no passado, e que era cercado de arvoredos. Hoje em dia, o que
prepondera são as mangueiras, especialmente produtivas nesta época do ano.
O Sítio do Pica-pau Amarelo é uma série de histórias onde Monteiro
Lobato retrata muito de sua infância e traz uma boa dose de sua visão de mundo.
Evidentemente, os personagens do Sítio estão espalhados por toda parte, tanto
dentro da casa…
… quanto fora dela, a maioria deles no que poderíamos chamar
de “tamanho natural”.
A grande vedete, como se pode esperar, é a boneca Emília,
alter ego do escritor e o pivô em torno do qual as histórias são contadas.
É através dessa personagem que Monteiro Lobato exterioriza
uma boa parte de seus pensamentos e acaba por se inserir em pessoa nas próprias
histórias, muitas vezes de forma um tanto polêmica.
Enfim, é um espaço cuja finalidade é contar um pouco sobre a
vida do autor e dar informações sobre sua mais conhecida obra.
O espaço tem sua função e é uma daquelas ilhas de paz em uma
cidade razoavelmente agitada, já salvaguardada minha origem paulistana. As
informações são relevantes e, de fato, trazem um clima de Sítio do Pica-pau
Amarelo para quem se acostumou a ler as histórias em tempos escolares. Mas eu
sinto uma falta, e preciso falar sobre ela, sem querer que se traga sobre mim
nenhuma espécie de ranço ou rancor.
Taubaté, a meu ver, lida muito mal com suas oportunidades
turísticas. Não basta colocar um letreiro na entrada principal da cidade e uma
estátua de três metros do escritor se não se vê mais nada a respeito da
temática cinquenta metros depois. Quando eu viajava para estes lados e via
esses artefatos, imaginava que a cidade toda era povoada de referências ao
autor e à obra, que ganhou muito impulso a partir da década de 70, quando sua
obra infantil virou um imenso sucesso televisivo. Mas não se vê quase nada, a
não ser uma figura aqui, um nome de loja ali, uma homenagem acolá.
Outras cidades capitalizaram fatos e fizeram limonadas a
partir de limões históricos, ou seja, transformaram situações que se mostravam
jocosas ou humilhantes em oportunidades de mudar o transcurso da história.
Penso em Itu, de quem já falei aqui,
mas que reitero em apertada síntese: ainda na era do rádio, o humorista
Francisco Flaviano de Almeida lançou o personagem Simplício, um homem do
interior cujo principal mote era exagerar nos tamanhos das coisas de sua terra
natal, a precitada Itu. A ironia estava no fato da cidade ser (então) pequena
até no nome, e o sucesso da piada ressoou na fama do lugar. Ao invés de sentir
humilhação, toda sorte de gigantismo foi sendo instalado: o semáforo, o
orelhão, uma praça completa. O comércio veio junto e os souvenires são
encontrados em toda parte: chinelos, chaveiros, sorvetes, fósforos e tudo o
mais que se pensar. Quem vai a Itu hoje já vai em busca de um atrativo que a
cidade não tinha, chegando até mesmo a esquecer sua importância republicana.
Outro caso diz respeito a Varginha, nas Minas Gerais. Uma
história confusa, envolvendo três meninas que supostamente teriam avistado um
ET, conciliada com uma mistura explosiva de fatos mal explicados e teorias da
conspiração fizeram dessa cidade ao sul de Minas Gerais uma capital nacional da
ufologia. A chance de cair na ridicularização era grande: parece que o tal do
ET era um mendigo se aliviando. Hoje em dia, passados exatos 30 anos, a cidade
absorveu toda a curiosidade que se voltou a ela e possui toda sorte de
equipamentos que fazem referência a marcianos, naves espaciais e qualquer
temática relacionada a OVNIs, incluindo até mesmo repartições públicas.
Taubaté não tem nada disso com relação ao Sítio. Resignada,
a cidade tem se sujeitado a ser conhecida como a capital da mentira: tudo o que
é de falsificado é “de Taubaté”, a Xuxa, o Batman, o parkour, tudo capitaneado
pela célebre grávida e inaugurado pela Velhinha de Taubaté, a última cidadã
brasileira a acreditar no governo da ditadura, criação do cronista Luís
Fernando Veríssimo, antevendo uma credulidade ingênua dos habitantes desta
terra. A cidade, segundo o autor, foi escolhida aleatoriamente por ser lugar
pacato, mas é mais do que certo de que há uma sombra de Jeca Tatu nessa opção,
mesmo que inconscientemente.
São
Luís do Paraitinga e seu carnaval de chifre e rabo, São
Thomé das Letras e suas bruxas… São muitos os exemplos de cidades que
apareceram no mapa por conta de um pequeno episódio, de uma história perdida,
de um evento qualquer que chamou a atenção do país, mas que foi aproveitado
pelos governos e moradores para justificar sua existência e, melhor ainda,
trazer dividendos.
Quer saber? Se eu fosse do corpo gestor (o atual prefeito se
autodenomina gestor) de Taubaté, não somente daria uma estilingada na ênfase ao
Sítio, mas também exploraria ao máximo essa história da grávida. Parece
politicamente incorreto, mas ninguém precisaria passar por humilhação. Uma
grande feira de roupas para gestantes poderia ser o pontapé inicial para uma
divertida nova vocação para a cidade. A princípio, roupas vindas de polos
produtores, para depois o próprio mercado se encarregar de trazer produção para
cá. Isso seria uma espécie de impulso inicial, para que o próprio mercado se
desenvolvesse na esteira. Afinal, a cidade tem tradição têxtil, tendo em vista
o tradicional apito da Companhia Têxtil Industrial - CTI, que até hoje é
disparado como se ainda chamasse seus funcionários.
E a grávida? Ela é viva e, pelo visto, não se sente disposta
a fazer ressurgir essa história toda. Afinal de contas, Taubaté voltou para o
mapa pela sua história surreal*, e se deu pela chave da ridicularização, o que
é indigesto para quem vive aqui, e isso eu sinto ao abordar o tema com os mais
antigos. No final das contas, se tudo for lidado com habilidade, ela pode ser a
mais beneficiada de todos. Um acordo de uso de imagem traria tranquilidade
financeira e reverteria a imagem negativa que ela possui até hoje,
especialmente porque traria bom humor para um tema que é tratado com vergonha,
por ela e pela população. Uma espécie de padroeira que estaria presente na
feira e teria oportunidade única de se redimir com seus concidadãos, além de
tirar todo o peso de seus atos. Limão, limonada, sacaram? Eu só não sou rico
por preguiça.
Falando de maneira mais séria, é o custo de oportunidade
sendo colocado como exemplo com toda a força. Esse é um dos poucos termos que
eu lembro dos tempos em que estava na faculdade de contábeis, matéria que eu
detestava a despeito do excelente professor Maurício, por conta de contas e
mais contas. Ele diz respeito a tudo aquilo que deixamos de ganhar ao fazer
opção por uma determinada atividade econômica. Os exemplos são fáceis, e vou
tirá-los de mim mesmo. Ao renunciar continuar tocando em bandas, eu tive a
oportunidade de melhorar meus estudos e aperfeiçoar meus conhecimentos, o que
me deu melhores condições para encarar a própria vida, que segue claudicante,
mas segue. Mas, embora fosse possível prever que a carreira musical não daria
em nada, não é algo que podemos nos assegurar. Poderia dar um daqueles encaixes
que acontecem de vez em quando no universo e hoje eu estivesse em um daqueles
iates aportados em Mônaco, deitado nas glórias de uma carreira de sucesso.
Mas o custo de oportunidade não se dá em suposições vazias,
como essa. Para ter uma efetiva dimensão do que se deixa de ganhar, é preciso
compreender onde se pode chegar, e, para isso, é preciso ter uma melhor ideia
dos recursos disponíveis e de sua aplicação. Uma garagem, por exemplo, comporta
uma oficina ou um salão de beleza, nunca os dois. Compreender qual o melhor uso
significa dimensionar os ganhos de um ou de outro, e isso é muito mais complexo
do que pode parecer. Uma oficina pode parecer trazer maiores ganhos, mas isso
se houver público suficiente para seu uso em tempo integral. Por outro lado, o
valor agregado do salão pode ser melhor, e, mesmo tratando de cifras mais
miúdas, produzam um resultado mais exuberante. O que importa é: quanto se
deixará de ganhar com a oficina se instalarmos o salão? Esse é o custo de
oportunidade, um valor implícito e de difícil aferição, mas que existe.
Ocorre que esse custo não é somente econômico, mas social,
ambiental e qualquer outro aspecto em que uma opção implica em uma renúncia.
Tudo o que poderia se deixar de ganhar com obtenção de empregos, por exemplo,
faz parte do custo de oportunidade de deixar passar batido símbolos fortes que
uma cidade carrega. E eu percebo o tamanho do que se deixa de lado,
especialmente pelo fato de ter vindo recentemente de fora, e trago essas
percepções justamente por afinidade a esta terra. Vim morar aqui por ter
gostado do lugar, e quero vê-lo cada vez melhor. A oportunidade é uma limonada,
o custo é o limão.
Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Não sou muito versado nas artes da economia, então fui na
biblioteca pegar umas referências melhores e encontrei esse livro, que me deu
uma boa clareada nas ideias.
MANKIW, Gregory. Introdução à economia. Princípios de
micro e macroeconomia. São Paulo: Atlas, 2001.
E tem também o parque, bem próximo da região central de
Taubaté. É sempre melhor visitá-lo nas férias e nos finais de semana, em que as
feirinhas e as apresentações teatrais acontecem.
Sítio do Pica-pau Amarelo - Museu Monteiro Lobato
Avenida Monteiro Lobato, sem número
Chácara do Visconde
Taubaté/SP
A aproximadamente 130 km do centro de São Paulo.
*Para quem não sabe da história: em 2012, surgiu a história
de uma grávida de quadrigêmeas em Taubaté. O insólito da situação não estava na
gravidez em si, rara, mas não raríssima, mas do formato de bola de praia que a
barriga da suposta gestante, evidentemente falsa, mas que rendeu horas e mais
horas de reportagens na televisão de baixa seriedade. Eu, sinceramente, tenho
uma opinião que beira a teoria da conspiração: a própria emissora que mais
divulgou o caso foi a principal “armadora” da história toda, ao perceber os
índices de audiência que poderia obter a partir do absurdo da situação.









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