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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Navegações de cabotagem – a Fliart de Taubaté e a Filosofia subjacente ao Jornalismo: uma introdução sobre o tema

(Uma viagenzinha de ônibus pode ser agradável e nos levar a filosofar)

“Considero-me um jornalista, na medida em que aquilo pelo que me interesso é a atualidade, isso que acontece ao nosso redor, isso que somos, o que vem ao mundo.” 

Foucault

Olá!

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Eu tenho um carro. Quando eu era pequeno, embora amasse meus carrinhos de plástico, meu pai não tinha nem um fusquinha, que só foi chegar quando eu já era um rapazola. Ou seja, no rigor, meu pai tinha, eu não. Era comum isso na época, no âmbito do proletariado. O que eu tinha mesmo era a passagem do busão.

Era ônibus para tudo quanto é lado: trabalho, escola, lazer, parentagem, até na namorada. Isso tudo porque a vida era assim: mesmo o metrô era escasso, longe de casa, e, para chegar em um, precisava do outro – do bumba, busão, baú, coletivo, bate-lata, cata-bêbado, autocarro, ônibus.

Eu tenho um carro, mas eis que estou em um revival involuntário, enquanto a barca está no estaleiro, hospitalizada por um mal súbito ocorrido em seu câmbio. E o enrosco é grande. Como um goleiro pego no contrapé na final do campeonato, a dona da casa onde eu morava em Taubaté a pediu de volta, o que me deflagrou um processo inesperado de mudança, e isso me impede de ficar recostado no sofá aguardando a recuperação da prejudicada viatura, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Sem outro remédio, resta ele, o pão de forma, e a ele recorreremos. Afinal, saber usá-lo eu sei. Só não tem a praticidade que eu precisava no momento.

Compro as passagens via aplicativo, o que já é um conforto frente às bilheterias do passado, o que, por si só, já demandava viagem adicional. Eu sei, é verdade, que destinos de grande fluxo, como o Vale do Paraíba, tem saídas frequentes, mas há momentos em que é preciso ser certeiro. É provável que eu encontrasse alguma vaga no tempo para buscar as passagens com alguma antecedência. Mas o fato é que o mundo se modernizou e não abro mão da benesse.

Ônibus convencional, porque o orçamento não é de ferro. Acho que o trajeto é tão curto que nem existem acomodações mais nababescas do que essa, que já tem banco fofo e reclinável. Pegar um beco até Três Lagoas/MS, onde mora meu consogro, já é bem mais dolorido para costas e bolsos. Então nem há tanto do que reclamar.

Transcorrido o trajeto de três horas, aporto na rodoviária de destino já meio alquebrado pelo tempo decorrido, além da expectativa de quem ainda tem que pegar outro ônibus, desta vez da municipalidade, para ainda chegar em casa. Bom de lembrar que Taubaté tem duas rodoviárias: uma espertamente na beira da estrada, outra enfiada lá para o centro, que acabou virando terminal intermunicipal. É na primeira que alongo minhas doloridas pernas.

Até desenrolar tanto a mudança, quanto o conserto, foram bem umas dez idas e voltas. Arrepia meus poucos cabelos perceber que gastei algo em torno de 300 pilas por cabeça. Mas aí relembro que esse valor enche uns quatro tanques da viatura ora danificada, o que corresponde a umas oito idas e vindas. Mas aí eu lembro também que a carga possível tem uma diferença tendente ao infinito, além dos bancos disponíveis a mais. Daí eu tento tolamente espaventar com as mãos esses pensamentos inúteis, porque o gasto já se deu, e continuo, ora, indo e vindo. Mas em uma dessas chegadas, há algo de diferente na rodoviária normalmente modorrenta da terra de Seo Lobato. Bancas, um palco, muitos e muitos livros: é a Fliart - Feira do Livro e Amizade da Rodoviária Tarobá, em sua terceira edição.

A Fliart é aquilo que seu nome denuncia: uma feira de literatura, com suas habituais bancas de livros. A novidade aqui é que a mesma é promovida pela administradora do terminal e pela editora existente no mesmo, e não uma prefeitura ou outra entidade. O proveito se dá pelo fato de que ainda há resistentes que compram livros para entreter dias de viagens, coisa que era de hábito meu, por exemplo, que cansei de estudar no chacoalho do tempo do bumba.

Neste ano, o fenômeno Copa do Mundo fez com o tema de fundo do evento seja o futebol, uma prova de que não somente eu uso o esporte bretão como máquina de exemplos filosóficos, mas que muita gente sabe como é possível cruzar a importância aparentemente desproporcional que muitos dão a ele.

Não é só de venda de livros que vive este evento, mas dos bate-papos e mesas redondas que versam sobre o assunto base. Eu tive a sorte de pegar entrevistas com alguns jogadores importantes com passagem pelo EC Taubaté, sob o tema “A bola me abriu portas”: Paulo Castilho, Toninho Taino e Gilsinho Rezende.

Eu lembrei dos tempos em que o Taubaté ainda jogava na primeira divisão do Paulista, e puxei pela memória os nomes do goleiro Vagner “Gão” e do voluntarioso quarto-zagueiro Botu. São jogadores rememorados até hoje pelos torcedores do Burro da Central. Embora o Taubaté não seja um dos grandões da capital, é um dos tradicionais do interior, e compete com o São José a primazia do Vale do Paraíba.

Como é costume nesses eventos, há um homenageado, e como a temática é futebol, a escolha recaiu sobre José Trajano, um dos principais decanos do esporte bretão ainda em atividade.

Embora seja uma personagem polêmica, especialmente por seus posicionamentos políticos, é inegável sua importância histórica para o jornalismo esportivo. Quando o conceito de TV paga ainda engatinhava no Brasil, ele constituiu toda a estrutura da ESPN, que se tornou célebre como o primeiro canal de esportes realmente bem formado, com campeonatos diversos, programas de debates consagrados, reportagens especiais e pautas bem definidas. Virou uma espécie de referência para o jornalismo esportivo tupiniquim, a ponto de seus livros virarem objetos de pesquisa, mesmo que autobiográficos.

Isso acontece porque ele passou por todas aquelas fases que hoje não existem mais: o repórter que sai às ruas, o redator que traduz os fatos em palavras, o chefe de setor que termina seu trabalho tarde da noite, antes de enviar as palavras para o papel, para produzir os hoje quase inexistentes jornais, que precisavam estar na banca fresquinhos na manhã seguinte.

José Trajano têm uma característica sui generis. Ele é um dos últimos torcedores do América Futebol Clube, ao lado de Alex Escobar e alguns poucos outros, outrora a quinta força do Rio de Janeiro, com seu uniforme rubro e mascote diabólica, e se tornou uma espécie de símbolo da resistência e do amor espontâneo por uma agremiação. Para nós, paulistas, o América tem alguma correspondência com a Portuguesa, embora o escrete carioca tenha uma situação ainda mais precária, mas com peso histórico equivalente.

Trajano é daqueles jornalistas que passaram por todas as funções de uma redação, e, já octogenário, praticou o jornalismo de uma forma diferente do que se pratica hoje, muito mais “analógico”. Era o tempo em que as reportagens eram anotadas em bloquinhos, as notícias eram datilografadas e a tipografia era composta por tipos móveis, com todos os horários bem marcados. Talvez ele pareça anacrônico nos dias de hoje, e por isso mesmo ele caminha agora pelas sendas das análises e da literatura, além do jeitão pseudo-mal-humorado que empresta aos debates esportivos.

Ele vem de um jornalismo que, portanto, está em franca extinção, que vem sendo praticado mais e mais pulverizadamente, repleto de vieses que são colocados aos filtros do leitor, e não do próprio jornalista. Aliás, reclama-se muito da imparcialidade no âmbito jornalístico, mas é impossível que ela exista. Eu, particularmente, acho melhor que se declare abertamente uma tendência ideológica do que pagar de isentão sem o ser, na realidade. Há realmente bastante recursos para se maquiar uma ideologia e, sendo assim, temos mais dificuldades em lidar com a informação dada.

A filosofia e o jornalismo não são dissociados entre si. Ambos têm como matéria-prima a busca pela verdade, ainda que as vias sejam distintas e tenham objetivos laterais diferentes. Por este ponto de semelhança, pode-se perceber que ambos se imiscuem. Ora (direis), a filosofia está sempre na base do conhecimento, e se o jornalismo se pretende possuidor da verdade, não há como escapar desse imbricamento. E é verdade, imaginário interlocutor. Por esse motivo, criaram-se teorias sobre o desenvolvimento jornalístico. Vamos ver como essa coisa começou.

Quando olhamos as notícias dadas em tempo real nos dias de hoje, temos a sensação de que um sonho antigo vem sendo realizado: a interligação instantânea com o mundo inteiro. Por outro, mais tacitamente, entretanto, nos dá a sensação de que tudo é uma imensa fofoca, porque os fatos descritos necessitam de apuração, e isso significa tempo, um tempo que a mensagem imediata não tem. Percebam como, contraditoriamente, temos uma velha solução e um novo problema, porque esperamos, de certa forma, que o jornalista seja nossos olhos perante um fato que não temos condições de acompanhar. Se o fato chega rápido, também chega cambaio, cheio de arestas por aparar. E isso é uma autêntica fonte de falsificações, diretas ou indiretas. E a discussão não é nova.

Quando o jornalismo se consolidou como atividade, estávamos no período do Positivismo, corrente de pensamento que via a aplicação de métodos científicos nas atividades humanas como solução para os problemas do progresso. A comunicação e produção de informações precisariam deixar de ser uma tarefa meramente empírica e ter suas estruturas e processos descritos e bem definidos, de maneira a separar o joio do trigo. Sendo assim, para que o jornalismo ganhasse na necessária objetividade científica, era necessário que a imprensa separasse o que era opinião (subjetiva) do que é notícia, o fato objetivo, trazido ao noticiário o máximo possível sem as adições de quem o descreve. Nada de se utilizar qualificativos que expressem qualquer forma de juízo moral, como horrível, interessante, atraente ou qualquer outro designativo que denote valores, apenas o ontológico, o indissociável, o factual. A qualificação deve ser criteriosa, reportando-se o tanto que possível a números mensuráveis. A notícia, como uma mercadoria, deveria ser dada como a exata descrição do que ela é, sem tirar nem pôr.

Qual é o objeto que utilizamos quando queremos ver a nós mesmos, perceber nossas olheiras e cabelos despenteados, nossas características distintivas, notar o desenho de nossos lábios para passar batom, dar aquela penteadinha final no cabelo elegantemente besuntado de gel? Ora, é o espelho. Ele reflete exatamente aquilo que somos, e, por extensão, qualquer coisa que lhe é colocada à frente. O jornalismo, para cumprir o rigor científico de sua época, precisaria retratar com exatidão nas palavras o que foram os acontecimentos e trazer uma distinção muito clara entre o que é fato e o que é opinião. O jornalista, em especial o repórter, deve ser os olhos da sociedade sobre os fatos, desinteressado e neutro, sem filtros.

Acontece que é impossível reportar tudo o que acontece no mundo, e, por mais que se procure ser isento, a própria seleção do que se noticia já é ideológica. Ou, na mais inofensiva das hipóteses, não é neutra. É muito fácil entender isso. Fatos são fatos, são a realidade em si mesma e qualquer atribuição de valor parte de uma pessoa contraria a base da teoria do espelho, porque selecionar as matérias é dizer o que é importante ou não. Mas quem somos nós para identificar o que é importante para uma sociedade ou não?

A metáfora do espelho se mostra perfeita de uma maneira que a teoria não é. Embora o reflexo tenha toda aparência de reproduzir a realidade perfeita, a real é que nenhum espelho o faz sem distorções, por mínimas que sejam. Tanto o espelho de moldura laranja que meu pai se barbeava com sua suspeita navalha, quanto a parede reflexiva irretocável da mais celebrada das blogueiras distorcem a imagem, seja uma leve coloração, um detalhezinho superficial ou mesmo imensos desvios, que fazem ver-se como não se é. Pior, nem sempre voluntariamente, mas às vezes sim.

Exemplo bastante prosaico, e que, por isso mesmo, é próximo à nossa realidade miúda. Na rua em que eu morava, ocorreram duas mortes no mesmíssimo dia: uma senhora quase nonagenária e um rapaz de seus vinte e poucos anos, conhecidíssimo na região por suas atividades pouco republicanas, se é que me entendem. A velhinha apagou como os velhos apagam; já o homem teve uma morte repentina em um jogo de futebol. Tudo isso posto, minha participação na história consistiu em chegar à casa de minha então namorada, atual patroinha, e ver o grande rebuliço na rua. A pergunta inevitável- o que aconteceu? Morreu o N… coitado, levou uma bolada na boca do estômago e foi morrer no hospital. “Ursa estuporada”, como o vulgo chama a perfuração de úlcera péptica, onde o estômago despeja seu conteúdo no restante do organismo. Acidíssimo, faz um mal do cacete, podendo levar à morte, como se viu, ainda mais quando a teima em não se admitir a necessidade de socorro faz postergar o inevitável atendimento médico. Tudo o que se passou girou em torno do desencarne do moço. A pobre senhorinha ficou restrita à despedida de seus poucos familiares. Tudo isso dá duas ideias: a de que os interesses são vinculados à popularidade dos temas e que há uma hierarquia de importâncias entre as notícias dos fatos, mesmo que não exista essa mesma hierarquia entre os fatos em si. Afinal de contas, um fato é um fato, e a importância que cada um deles tem não diz respeito apenas às pessoas que atingem, mas COMO as atingem. Podemos trazer inúmeros outros exemplos: Senna e Ratzenberger, Mariele e motorista, Teori Zavascki e piloto, Rick e empresário, etc. Ocorre que há interesses movimentando a ênfase e a importância dada, bem como ao volume de exposição ofertado. Por mais que se queira exercitar o desinteresse, não há como evitar um crivo subjetivo.

E vamos e venhamos… Jornais são empresas, que, além de tudo, possuem o componente lucro a lhes mover. É romantizar demais que uma reportagem contrária a si mesmo seria fornecida com o mesmo fervor com que se faria ao amiguinho do lado, seu concorrente. Por isso mencionei que uma posição tomada é sempre melhor do que uma atitude sub-reptícia, como faz o homenageado da vez. 

Por isso, e levando em consideração que uma teoria no âmbito científico deve ser a descrição do que se observa na realidade, a teoria do espelho não pode receber tal valor, sendo, no máximo, um guia de intenções ou um código de ética, aquelas coisas raras de se aplicar na prática. Outras teses foram levantadas nesse universo, e são igualmente interessantes. Vou abordá-las quando for conveniente.

Por fim, aproveitei a minha passagem pela Feira e fiz lá minhas comprinhas, dei meus pitacos nos debates e fiquei feliz de ver alguém da área esportiva sendo laureado. Soube que o velho Trajano esteve por lá na abertura do evento, e gostaria de ter estado nesse momento. Quem sabe no ano que vem? Bons ventos a todos.

Recomendações:

Comprei esse livrinho em uma das bancas. É muito pessoal e honesto com relação às memórias, agradável de ler. Ideal para viagens de ônibus.

TRAJANO, José. 1960: Quando as Estrelas Ficaram Vermelhas. São Paulo: Onze Cultural, 2024.

Já a FLIART ocorre anualmente desde 2024, sempre no mês de maio. Para acompanhar as programações do evento, há o seu Instagram, que traz as novidades.

https://www.instagram.com/fliarttaroba/

O endereço da Rodoviária Nova de Taubaté é o seguinte:

 

Terminal Rodoviário de Taubaté

Rua Benedito da Silveira Moraes, s/n, Jardim Ana Emília 

Taubaté/SP

A aproximadamente 130 Km do centro de São Paulo

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A Teologia da Libertação e o objetivo crítico do cristão

(A Teologia da Libertação é muito criticada na igreja justamente porque manda criticar)

“O sacerdote rompe seu ponto de inserção no mundo; sua missão identifica-se com a da Igreja: evangelizar e animar o temporal. Intervir diretamente na ação política é trair sua função. Quanto ao leigo, porém, a situação na Igreja não o faz abandonar sua inserção no mundo. A ele compete, pois, tanto edificar a Igreja quanto construir o mundo.”

Gutiérrez

Olá!

Terra Brasilis é um país predominantemente cristão, mais do que parecia há não muitos anos atrás. O catolicismo praticado aqui era aquele de estatísticas, e as pessoas não eram tão afiliadas como são os evangélicos hoje em dia. Penso no meu pai, nos meus tios e tantos outros parentes e amigos que são batizados coisa e tal, mas que pouco passam disso nas questões de habitualidade, meio chegados a simpatias e superstições que não coadunam exatamente com um riscado religioso. Mas eu não era bem assim.

Antes da minha “conversão”, eu era um frequentador assíduo da Igreja Católica, e, diante da pouca proporção entre aqueles que frequentam e aqueles que arregaçam as mangas, fui pescado para a messe, de modo que acabei por me tornar uma espécie de faz-tudo: músico, catequista e especialmente instrutor de coroinhas. Procuro ser realista, e minha modéstia não impede de dizer: quando eu pego para fazer alguma coisa, sou dedicado e caprichoso. Para ensinar liturgia aos fedelhos, fui me especializar, ora, em liturgia, e, para tanto, fui a cursos e comprei livros, além de observar como as coisas eram feitas em outros lugares, algo que a moderna administração deu o nome de benchmark. Com isso, eu pude explicar tintim por tintim o que significavam velas e incensos, porque fazê-los e seus momentos, para que as coisas não ficassem naquela base meio industrial do “faça o que eu mando”, sem saber por quê. Hoje, fora do âmbito religioso, posso afirmar com toda a certeza de que, dentro das suas crenças, nada é vazio de sentido em uma celebração.

Uma das coisas que eu aprendi é que o serviço de altar tinha uma espiritualidade, e que os acólitos precisavam penetrar neste mundo antes de iniciar seus ofícios, o que era feito através de uma oração no momento da formação da procissão de entrada. Eu confesso que nunca fui muito de rezar, por achar um ato contraditório, mas deixei de usar uma fórmula batida e criei uma oração própria, que dizia algo assim: “Senhor, dai-nos a força para combater o bom combate; a sabedoria para bem te servir e a alegria de estar perto de ti, porque sois o Pai, o Filho e o Espírito Santo”, riscando o rosto com a cruz nestas últimas palavras. Curto e grosso, e ‘bora puxar a procissão. Eram tempos em que eu queria transformar um simples grupo de coroinhas em um espaço de convívio para a molecada que concluía a catequese, mas não tinha o que fazer depois.

Virei a massa com gosto. Fazíamos visitas a outras paróquias, criávamos campanhas para arrecadar fundos, e com isso tínhamos roupas para todas as épocas litúrgicas, fizemos a festa dos coroinhas por ocasião da festa de São Tarcísio, criamos as investiduras dos novos coroinhas e renovação dos velhos, e até mesmo uma banda acabamos por montar, com tudo o que tem direito, e nos chamavam para tocar nos encontros arquidiocesanos.  Nossa canção do grupo dizia:

“Ensina-me, Senhor

A lavar os seus pés pelos pés do meu irmão

Meu Pai, meu Rei, meu Senhor;

Ensina-me, Senhor

A servir teu altar ao servir meu irmão

Meu Pai, meu Rei, meu Mentor;

Ensina-me, Senhor

A beijar o teu rosto ao beijar meu irmão, 

Meu pai, meu rei, Salvador 

Para seguir, para sentir

A luz do teu olhar diante do teu altar”

A nave muitas vezes chorava emocionada com o coral, com uma letra que era pura Teologia da Libertação, a camada renegada do pensamento latino-americano religioso, por ser muito próxima aos movimentos populares na década de 70. Não deixou de ser uma espécie de vingança minha, fazer os conservas se emocionarem com minha cantilena de servir ao irmão. Mas vamos deixar as coisas mais claras.

A Teologia da Libertação é um movimento que nasceu a partir do Concílio Vaticano II, que ocorreu entre 1962 e 1965, dando um enorme chacoalhão nas bases católicas. Embora o ponto mais visível dessa imensa reforma tenha sido a adoção das línguas nacionais na Liturgia, em substituição ao vetusto e incompreensível latim, o fato é que sua filosofia de fundo era bem mais profunda.

Colocar as pessoas para entenderem o que era dito em uma igreja já era um sinal de abertura para o mundo. O aggiornamento proposto por João XXIII nascia pela própria comunicação, e, ao adotar uma postura de opção preferencial pelos pobres, o Concílio sinalizou para os locais onde a pobreza efetivamente ocorria que sua voz precisava ser ouvida.

Com isso, ganharam muita força as conferências episcopais, reuniões de bispos de uma determinada região para estudar e propor ações com a ótica local. O efeito mais imediato foi uma visão menos eurocêntrica, que encarasse a realidade das próprias comunidades, porque é uma lógica simples: a Itália e a França não têm a mesma realidade do Panamá ou da Argentina. O então chamado Terceiro Mundo era a legítima parte para reconhecer a própria realidade, e não os mais estáveis economicamente europeus. Além disso, o poderio econômico e militar não garantiu a paz na terra. Pelo contrário, a posição da Igreja Católica durante o teatro da Segunda Guerra foi algo vexatório, dada a subserviência ao regime fascista e a quase indiferença perante o genocídio nazista. Era preciso uma resposta e ela veio no formato de um concílio onde se desse a aproximação com camadas populares.

É nesse seio que nasce a Teologia da Libertação (doravante TL), uma proposta mais voltada à práxis que as antigas ideias tomistas de espiritualidade e oração. A principal característica é a proposta de saída do templo para as ruas: a comunhão não está apenas no altar, mas nos pobres e nos necessitados em geral. Segundo a TL, o grande problema da igreja era cuidar de um espírito, esquecendo que ele é indissociável do corpo, não em um sentido profano, mas de reconhecer que existem necessidades básicas que precisam ser supridas. Essa prática não pode ser dissociada de fatos concretos, especialmente participação crítica na vida política.

Qual seria a caridade que um cristão deveria atingir? Elevar uma pessoa não corresponde a elevar uma classe inteira, então de pouco valem doações e assistências que não vão reverter situações sociais de injustiça. As condições materiais, para além da pobreza, estabelecem quem terá níveis maiores ou menores de liberdade. Só que os grilhões são invisíveis quando não há condições de se criticar a própria condição. Por isso os teólogos da libertação entendem que é pela conscientização que os fieis mais necessitados podem encontrar o caminho salvífico como um todo, e não apenas em indivíduos.

É óbvio que a conjunção de ação e direcionamento aos necessitados iria colidir com uma posição mais conservadora, de quem usa a igreja como meio de espiritualidade, e não de suprimento de necessidades materiais. A TL é acusada, na essência, de trazer o marxismo para as estruturas dos altares, embora o motivo mais aparente seja exposto como uma negação da importância do culto, uma espécie de voltar as costas para a religião em si mesma. Outro fator que aproxima a TL do marxismo é uma espécie de adoção da Tese Onze*. É preciso que o Cristianismo seja uma prática dos fiéis, e não só um objetivo espiritual. Ou, melhor dizendo, na práxis espiritual do cristão deve estar a práxis material, que lhe dá valor de verdade. Não deixa de ser realidade, mas o próprio Vaticano reconhece o movimento libertário como algo multifacetado, e não só uma versão comunista com uma cruz no pescoço.

A maneira concreta que foi posta em prática pela igreja latino-americana foi a criação das CEB’s – Comunidades Eclesiais de Base, que utilizavam uma metodologia bastante simples: fazer a leitura de trechos do Evangelho e compará-lo com a vida real dos fiéis, de modo que pudesse ser possível traçar paralelos e verificar se a mensagem bíblica estava sendo colocada em prática. Eu estudei em escolinha de CEB e não virei um comunista comedor de criancinhas por causa disso. Aprendi a rezar no começo das aulas e a ficar de pé quando o padre entrava na sala, isso sim.

Eu, como um antigo frequentador da igreja, seja na nave ou nos fundos do altar, posso dizer que a questão da TL nunca foi declaradamente aberta, por isso consegui introduzir tema correlato a ela sem que o pessoal percebesse, porque nunca foi um tema bem compreendido no próprio seio dos fiéis comuns. Apenas se tinha a noção de que o Papa não gostava dela e era o suficiente. A coisa só pegou mais relevo, de fato, quando o frei Leonardo Boff teve um cala-boca oficial (silêncio obsequioso, em tucanês) decretado justo por conta dos ideários da TL.

Pois bem. Uma das principais críticas à TL se dá no âmbito da reinvenção da roda. Segundo esses críticos, a igreja já possuía muito do que é preconizado pela TL através da doutrina social da igreja, desde a Rerum Novarum expedida pelo papado em 1891. Sendo assim, há redundância de propostas entre ambos, e daí bastaria se reiterar a importância de uma através da outra.

Não sei até onde a crítica faz sentido. Embora seja fato que desde a Rerum Novarum já se fale em justiça social para os mais pobres, também é fato que ela insta as classes mais abastadas a cuidarem daqueles mais necessitados, mas trabalha muito pouco com o senso de conscientização dos próprios necessitados. A TL prega o espírito crítico justamente para que quem esteja na parte de baixo da tabela tome consciência de sua situação e não só reze para Deus, mas que saiba reivindicar direitos.

Outra crítica pesada diz respeito à origem do conceito de luta de classes, o marxismo, que é ateu e que vê a religião como um mal. Não há como ser confiável uma doutrina que estabelece o confronto e que tem nas suas bases uma contrariedade justamente contra aquilo que se é.

Há aqui também uma certa implicância, embora eu entenda o princípio geral do temor. Colocar a luta de classes como motor da história social de uma comunidade, independentemente de seu tamanho, não é um desqualificador, de per si, porque ele não pressupõe uma caminhada para o ateísmo, mas uma metodologia de pesquisa da realidade, que pode ocorrer sem se levar em conta o substrato religioso, ou até mesmo ele. Desta forma, o materialismo histórico-dialético não precisa forçosamente ser contrário à religião. Eu mesmo acho que a luta de classes, isoladamente, não dá conta de explicar todo e qualquer fenômeno histórico, porque ele sempre tende a verticalizar as relações, e sabemos que elas também ocorrem na horizontal, com disputas que ficam no âmbito da mesma classe social.

Enfim, eu até entendo a resistência que se faz a uma politização excessiva das igrejas, que o espaço para o culto precisa existir de fato, porque, se ele não existir, no âmbito religioso, de fato não fará sentido se dizer que se professa uma religião, e sim uma atividade partidária ou coisa semelhante. Mas eu não entendo a virulência e a demonização de uma abordagem que, ao fim e ao cabo, tenta relembrar que Jesus, pelo que se diz, andava com as prostitutas, com os aleijados, com os bêbados, com os cuspidos, escarrados, pelados debaixo das pontes. Com os excluídos, enfim. Ele mesmo, pobre e em terra dominada, era também um excluído, que pregava perdão e concórdia. Isso é o que menos existe nesta história toda.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não critique sem conhecer. O primeiro livro que trouxe o assunto da TL à baila é muito simples de ler e compreender, e está disponível gratuitamente na internet.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1975.

*A tese onze é a seguinte: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”.




terça-feira, 8 de setembro de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 3 (Santo Agostinho e a conversão das ideias divinas)

(As ideias de Platão não pararam nele mesmo, sendo que um dos seus grandes adaptadores foi Santo Agostinho)

“Pois as ideias são certas formas principais, ou razões estáveis e imutáveis das coisas, que elas mesmas não foram formadas e por isso são eternas e se mantêm sempre do mesmo modo, e que estão contidas na inteligência divina”

Santo Agostinho

Olá!

Esta não é uma série, mas um texto gigante que eu quebrei em três. Propus-me a descrever sinteticamente a teoria das formas de Platão, que durante a existência deste blog menciono à beça, mas essa é uma intenção que não se materializa, porque simplicidade não existe no mestre grego, razão pela qual, para não exceder o limite da chatice, resolvi particionar em módulos mais ou menos concisos e coerentes. Vamos ver o que vocês acham.

Primeira parte – a segunda navegação

Segunda parte – o Demiurgo

Existe uma lei fundamental da física que diz o seguinte: no universo nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. É o princípio de Lavoisier, que pode ser percebido em qualquer fenômeno natural. O que se acha que é perdido, na verdade, é disperso ou vira outra coisa, muitas vezes de modo pouco perceptível, e se espalha até chegar em pequenos planetinhas azuis, como o nosso. Se caminhar pelas sendas do jocoso, chegaremos a uma espécie de corolário torto na voz do Chacrinha, o apresentador popular que fez muito sucesso entre as décadas de 50 e 80, como podem atestar seus pais e avós: nada de cria, tudo se copia. Como faria Nietzsche, não podemos tomar essa assertiva como verdade absoluta, mas que lhe assiste um fundo de razão…ah, isso há mesmo.

A questão é que isso não é obrigatoriamente ruim. Um corpus de ideias, por exemplo, pode ser aproveitado e transformado em outro, como se o anterior passasse a dica para o mais novo. É algo assim que aconteceu com a adaptação que Santo Agostinho fez com as ideias platônicas, o que, de certa forma, ajudou a consolidar o conhecimento que temos do mestre grego. Aliás, foi sob sua perspectiva que as ideias platônicas foram mais trazidas para a realidade do ocidente.

O Cristianismo adentrava seu quarto século de existência em uma posição que nunca tivera antes: a de religião oficial do Império Romano, posição obtida, com leves estrépitos, desde que o imperador Teodósio publicou o Édito de Tessalônica. Até então, vivia entre ameaças de expurgos e intervalos incertos de calmaria, de modo que seu interesse único era de sobrevivência. A partir da pacificação, foi possível organizar as ideias e se delinear um efetivo corpo filosófico de fundo, ou seja, o que fundamenta e dá substância àquilo em que se acredita.

Era evidente que o Judaísmo originário já devia lhe oferecer uma boa quantidade de doutrinas fundamentais, mas também era evidente que um bom pacote de mudanças precisava ser sistematizado, senão, ora essa, seria ainda o velho Judaísmo. Embora alguns concílios esparsos tenham dado algumas balizas iniciais, não se tinha um direcionamento filosófico mais preciso, que pudesse fundamentar o que se pensavam ser fatos divinos. Esses primeiros pensadores buscavam conciliar filosofia com teologia, ou seja, dar fundamento filosófico ao Cristianismo nascente e estudar mais acuradamente o fenômeno divino. Receberam o nome de Padres da Igreja, não porque fossem sacerdotes de fato (quase sempre eram), mas porque eram “pais” da intelectualidade primordial. Eram caracterizados por constituir a ortodoxia inicial, especialmente pelo combate às heresias – consideradas divergências que levariam à incorrência de erros doutrinários. Essa corrente foi, por conta desse termo, denominada Patrística.

O mais proeminente desses pensadores foi Santo Agostinho, bispo de Hipona, no norte da África. Já dono de um vasto repertório filosófico antes de sua conversão ao Cristianismo, o númida fez uma complexa adaptação das teorias de Platão, ajudando, inclusive, a dissolver algumas das aporias que elas carregavam. 

A metafísica de Platão se fundava em uma característica dualista. A realidade não estaria concentrada apenas no plano físico, dominado pelas imperfeições e apreendido pelos sentidos, mas também em uma dimensão inteligível, onde seria possível, através do exercício intelectual, chegar às formas ideais. Mas havia uma questão que ficou meio pendurada em uma explicação um tanto cambaia, que obrigatoriamente carregava um misticismo que fugia do autêntico espírito racional platônico. Não se consegue definir muito bem o que seria uma alegoria e o que seria efetivamente uma explicação definitiva. Trata-se da figura do Demiurgo.

Em rápidas palavras, o Demiurgo é uma divindade que fica em um caminho intermediário entre a sensibilidade e a intelecção, e sua grande tarefa é plasmar as formas perfeitas do Hiperurânio no universo sensível que nós tão bem conhecemos. O grande problema do Demiurgo é que ele não é onipotente, onisciente, onipresente, onibenevolente, oni-os-cambau, mas limitado em sua ação, tanto na utilização das formas, quanto na aplicação dos objetos.

Quais são estes limites? O Demiurgo trabalha com dois elementos que estão fora do seu pleno controle. O primeiro está acima dele, e é exatamente o Mundo das Ideias, já que ele as capta, mas não as cria. Não sendo um senhor absoluto, ele fica condicionado à preexistência de uma forma para dar ato ao seu labor. E o segundo, que está abaixo dele, são as limitações materiais da matéria amorfa que tem para lidar. Pensem naquelas gelecas infantis e tente fazer algo minimamente consistente: é uma má comparação do que há à disposição do Demiurgo para moldar o universo, e não dá bom – um objeto nunca é a reprodução exata de uma ideia. Dessa forma, mesmo movido pela ideia de que faz as materializações em nome do Bem, racional e livremente, é uma atividade de artífice, não de criador.

A transformação agostiniana se dará pela compreensão de uma via adicional da derivação de uma coisa em outra. Para o bispo, são três as possibilidades de que surjam realidades. A primeira é a geração, num processo óbvio: é de uma semente que surge uma flor, de um pai que surge um filho, onde há a doação de substância de um ser que a repassa a outro. A segunda é a fabricação, exatamente o que faz o Demiurgo: a partir de uma matéria-prima externa ao artífice é produzido um artefato, como qualquer peça ou artesanato manufaturados por mãos humanas. A terceira via é a da criação a partir do nada absoluto, dito ex nihilo em latim, que independe de qualquer preexistência, seja de uma unidade geradora ou fabricadora. Desta forma, sem necessitar de uma doação de si mesmo ou de manipulação de matéria externa, a criação é a premissa absoluta para explicar o surgimento do mundo sensível. É um conceito ligado diretamente à infinitude divina, porque há um salto causal na questão da preexistência, que, uma vez levada à regressão infinita, sempre necessitaria de uma causa original, o que se torna dispensável quando se obtém algo ex nihilo sui et subiecti, ou seja, a partir do nada, de si mesmo e do sujeito – da própria substância ou de substância alheia.

Mas o universo sensível permanece sendo imperfeito. Isso ocorre porque, em oposição à eternidade e imutabilidade de Deus, a obra criada degenera. Se as criaturas guardassem as mesmas características de Deus, seriam elas mesmas Deus, o que é absurdo. Portanto, elas possuem mutabilidade e limitações, embora, na composição do todo universal, elas representem a harmonia universal exatamente em suas imperfeições.

Notem que o encaixe é bastante confortável. Platão relaciona o Uno ao Bem, o que é facilmente acomodável com o conceito de um deus benevolente e que por motu proprio decide transpor sua perfeição ao universo palpável. Também com a solução do Uno, vem a concepção agostiniana de tempo. Como Deus é um Ser eterno, ele se desconecta da questão temporal, porque a justificativa para sua eternidade é exatamente a ausência de dependência de movimento. Sendo eternamente igual a si mesmo, o tempo vem como sustentação do movimento, desnecessária para Deus, mas imprescindível para os objetos criados, que não são eternos. Assim, juntamente com o restante do universo, Deus cria também o tempo.

Resta dimensionar o papel das ideias platônicas nos conceitos agostinianos. Como sabemos, Platão diferencia o mundo sensível do inteligível, de maneira a apartar um do outro. As fabricações do artífice, o Demiurgo, são reproduções imperfeitas do Mundo das Ideias por conta das limitações do material com o qual nossa aflita divindade precisa lidar. Ele lança mão das ideias existentes no Hiperurânio para as plasmar para que nós, caniços pensantes, possamos divertir nossas sensibilidades. O processo em Santo Agostinho é o mesmo? Quase isso, mas tem várias sutilezas.

Em primeiro lugar, o Mundo da Ideias platônico, o repositório de onde o Demiurgo retira as formas para as traduzir em objetos sensíveis é, em Santo Agostinho, transferido para a mente de Deus. De fato, o pensador de Tagaste concorda com Platão no sentido de que é incabível haver ideias únicas, porque não há como conceber, em seu próprio exemplo, que a ideia de homem e de cavalo tenham sido concebidas pelos mesmos princípios racionais. Isso indica que, estruturalmente, os conceitos de ideias em Platão encontram identidade com o Mundo das Ideias divinas de Agostinho, com a diferença de que não há instâncias distintas que criam as Ideias e que as plasmam na realidade, como acontece com o universo platônico. Mas não se trata de uma simples substituição, e sim por uma concepção que guarda sua originalidade.

Segundo pensava Agostinho, a criação divina não se dá aos poucos, mas toda ao mesmo tempo, junto com o tempo, com a racionalidade, com a lógica e tudo o mais que se pode perceber no universo sensível. Mas o fato concreto é que vemos o surgimento constante de novos objetos e novas vidas que nunca havíamos registrado anteriormente. Isso contradiz a ponderação de que tudo tenha sido criado concomitantemente.

A resposta está na forma de razão seminal. Segundo pensa Agostinho, no momento da criação, ao lado de tudo o que se construiu naquele momento, também foram criadas as possibilidades para que tudo o mais que pudesse surgir no universo tivesse “sementes” preestabelecidas que determinariam como esses objetos vão ser. Sendo assim, essa razão seminal é o que estabelece que de pássaros não nascerão lagartos. É uma potencialidade ativa que permite que o universo e a história tenham surgido no princípio dos tempos, ainda que só vejam a luz no seu momento certo, provocada pela movimentação da realidade.

Sendo assim, embora a criação tenha se dado toda de forma simultânea, ela não se concretizou toda instantaneamente. Além dos efetivos fenômenos, vieram juntas as infinitas possibilidades de concretização, o que explica toda a variabilidade que conseguimos observar na natureza. Não somente está colocado o mundo concreto, mas a totalidade do tempo, com tudo o que existiu, existe e existirá.

No final das contas, fico pensando se Santo Agostinho não faz um gigantesco ad hoc para forçar uma lógica teísta onde ela não existe. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que ele vasculha nos gregos, cultura preponderante há pouco (no seu momento histórico) e de onde se poderia extrair ideias que já fossem boas o suficiente, ao invés de ficar maquinando todo um sentido complexo, e, no mais, o faz à luz de sua fé, o que não é condenável por si só. Eu mesmo já achei ótimas teses, principalmente porque incluíam parcelas importantes de um pensamento que precisava incluir uma divindade nas engrenagens universais, e isso é muito bem-feito pelo santo. E também não devemos esquecer que ele não está revertendo teses eminentemente científicas em uma nova teologia, em especial pelo fato de que Platão não prescinde de deidades para arquitetar sua teoria do conhecimento, e, com isso, a adaptação de Santo Agostinho nada mais faz do que adaptá-las (e aperfeiçoá-las em certo sentido) à sua fé, ao que ele acreditava e precisava de justificação. Não é preciso concordar, apenas compreender. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Este é um endereço eletrônico onde se pode encontrar os principais tópicos agostinianos relativos à sua epistemologia:

AGOSTINHO, Santo. Oitenta e Três Questões Diversas. Disponível em: https://www.liriocatolico.com.br/santo_agostinho/obras/exegeticas/83_questoes/apresentacao/ Acesso em 05.09.2026.



terça-feira, 25 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 2 (o Demiurgo)

(Bem... existe um Mundo das Ideias. Mas como ele se transforma naquilo que vemos e tocamos?)

“O Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria”

Platão

Olá!

Meu filho mais velho tem uma cachorra, cujo nome é Nala. Ocorre que, tendo o shape de um dachshund, todos chamam ela de Guiça, aférese para a palavra linguiça, iguaria com formato aproximado da referida raça. Ela, de fato e de direito, é uma vira-lata, dada a falta de documentações de origem, e veio para casa do primogênito em um esquema de adoção, mas ela não seria a primeira figura em que pensaríamos ao nos referirmos aos simpáticos SRDs. Isso fica para os caramelos e filhos-do-medo-da-noite, como o recém falecido Homem-Cueca.

Só que, atavicamente, ela contém genes dessa espécie que é dada a espreitar cantos e buracos em busca de pequenos animais, e acaba por encontrar algumas coisas inusitadas. No último final de semana, ela apareceu logo cedo com uma prótese dentária na boca, daquelas de ferrinho, na burlesca situação de ter dentes entre os dentes. Para além do inesperado e da consequente galhofa, veio junto o mistério. De onde essa cachorra trouxe a cremilda?

Bom, eu uso prótese, mas a minha está na boca, já que a percorri com a língua para confirmar. Além disso, a minha é só de resina. Então só restam meus sogros, hospedados no escritório/estúdio. Mas eles estão fechados, e por mais que a cachorra Guiça seja esguia e surpreendente, ela não é fantasma para atravessar sólidos. Como a resposta ainda demoraria até eles levantarem, fomos levantando especulações, cada uma mais estapafúrdia que a outra. Estariam os velhinhos tão doidos que deram a dentadura para a Guiça brincar? Teria a nefanda cachorra algum pacto com um duende zombeteiro? Estaria o saci agindo nesta cidade do interior? Seria ela esperta a ponto de conseguir abrir uma caixa de próteses?

A resposta correta foi de quem disse que meu sogro achou uma boa ideia deixar o objeto na bancada do banheiro. Desacostumado com a casa, alguém incerto e não sabido (provavelmente ele mesmo) esbarrou lá e o dente foi para no chão. Daí, em dois minutos de pesquisa a pequena cachorra achou o diferente acepipe. Blergh! Lavada e deixada de molho, recuperou seu antigo uso.

Conto essas narrativas todas para trazer um exemplo de como os mistérios são lidados e processados por nossas cabecinhas. Só que eles só são mistérios enquanto não são resolvidos, ficando até meio sem graça quando elucidados. Essa é uma regra? Absolutamente não. Às vezes os desenvolvimentos de ideias são tão complexos, que, mesmo chegando a uma conclusão, ficamos tão confusos quanto no início.

Esse é um dos motivos pelos quais quebrei o presente texto em dois. Trata-se da intrincada teoria das formas de Platão, e é necessário que se faça a leitura da parte 1 para uma melhor compreensão do que vai se seguir. Perca seus quinze minutos lá, por favor. O outro motivo é mais por comodidade. Iria ficar muito longo para ser lido de uma vez só, penso eu.

A coisa parou em um questionamento: como o Mundo das Ideias é plasmado para a esfera do universo sensível? E também tínhamos um questionamento sobre as oposições entre ser e não-ser. A assertiva maior de Parmênides era de que “o ser é e não pode não-ser”. Como funciona esse negócio em Platão? Aqui, vamos sair um pouco do plano puramente racional e tangenciar com aspectos mais místicos. Ninguém é de ferro.

Começamos identificando um ponto em comum entre a filosofia de Platão e a de Parmênides: o Ser é algo eterno e imutável. Só que neste último o Ser é algo que, além dessas características, identificado com a realidade última, traz um problema para o Mundo das Ideias de Platão: ele é único. Se no Hiperurânio temos uma multiplicidade infindável de ideias, como seria possível a ideia de um não-ser?

Parmênides identifica o Ser com a realidade. Isso é o bastante para dizer que o Ser é imutável porque não existe uma dualidade concreta entre o real e o ilusório. O real é o que existe, e as ilusões apenas estão em uma abstração eivada de erros, especialmente pelos enganos oriundos dos sentidos. O não-ser, nesse sentido, é nada. Ele é tudo o que é mutável, inconstante e, in extremis, indizível. É contraditório querer falar sobre algo que não é, ou seja, que não existe. Portanto, é ilógico que se diga um não-ser, porque ele não é a pura oposição ao Ser (aquilo que existe), mas é o nada absoluto, que nem a linguagem alcança.

Com Platão, a concepção de não-ser muda. Como o Mundo das Ideias é povoado por objetos ideais que representam tudo o que existe, é inconcebível que o Ser seja pensado como um objeto único, já que cada forma carrega consigo uma realidade adjacente. Sendo assim, cada uma das ideias é um Ser, enquanto todas as outras são o seu não-ser específico. Por exemplo: a forma de uma bola é o Ser da bola, e é o não-ser da trave, da chuteira, do jogador, do estádio e de tudo o mais. Em resumo, toda ideia, para ser ela mesma, deve não ser todas as demais. 

Mas o que faz com que as ideias se moldem e o que explica essa multiplicidade de ideias? Afinal de contas, se pensarmos em formas perfeitas, não seria de se supor que elas se mantivessem sempre iguais a si mesmas?

Aqui, nós vamos chegar, em boa parte, nas doutrinas não escritas de Platão, e que chegaram aos nossos dias pela via de seus discípulos, incluindo Aristóteles. Segundo o que pensava o mestre ateniense, havia dois princípios originários para todas as formas, o Uno e as Díades. A ideia base é que, da mesma forma que por trás de tudo o que perceptível no âmbito sensível há uma forma que lhe define, também para as próprias formas há um fundamento ainda anterior. Recebe este nome justamente por representar a unidade que todas as formas compartilham: a existência. O Uno seria então o princípio primeiro, que ordena, que limita, e que define a forma. Por outro lado, as Díades (cuja remissão ao número dois representa exatamente a dualidade e indeterminação) trazem o oposto: oferecer espaço para a indefinição, ou seja, um substrato para que as emanações do Uno sejam moldadas e gerem uma multiplicidade. A tensão gerada entre esses dois princípios, bastante semelhante à doutrina taoísta do yin e yang, gera as formas que habitam o Hiperurânio pela sua constituição matemática e geométrica, agora definitivamente imutável.

A próxima pergunta a ser respondida diz respeito à transição entre a forma inteligível e o objeto sensível, ou seja, qual é a maneira que uma forma se materializa?

O primeiro ponto a ser pensado é que Platão identifica o Uno fundamental com o Bem. Essa identificação se dá por um motivo muito simples: sendo o Uno o princípio de toda a perfeição, a mais perfeita de todas as virtudes, o Bem, só poderia ser identificada com ele. Sendo assim, ambos são uma mesma e única coisa.

Agora, de que vale o Bem se ele não é plasmado para o universo sensível? Se ele é o mais aperfeiçoado de todos os valores, como pode ser prescindido da existência sensível? Para dar materialidade à ideia de Bem, surge o Demiurgo, o responsável pela tarefa de transformar o inteligível em sensível. Quem?

O Demiurgo é, em Platão, uma divindade intermediária que se encarrega de obter matéria do caos primitivo e transformá-la em objetos sensíveis. Vamos trocar isso em miúdos.

Na formação das ideias que povoam o Hiperurânio, a interação entre o Uno e as Díades se dá livremente no âmbito inteligível, por intermédio da oposição de forças entre ambas, o que torna desnecessária qualquer forma de mediação. Ocorre que na materialização do mundo sensível já é preciso que haja interação com um substrato concreto, que sustente a perceptibilidade através das sensações, dadas as limitações desta última, e isso não pode acontecer espontaneamente.

A substância material de que são feitas as coisas no mundo sensível é a ananché, diferente de todos os elementos visíveis e caracterizada por ser amorfa e invisível, movida pela necessidade, ou seja, um princípio cego que é causa errante. De um modo bem grosseiro, é como se fosse um cimentão indefinido e caótico, e que o trabalho do pedreiro fosse dar ordem nessa meleca informe. E esse pedreiro existe: é o tal do Demiurgo. Além disso, há uma espacialidade por onde esse princípio material é formatado pelo princípio inteligível, denominada por Platão de chora (pronuncia-se córa). E, ok, mantendo a má metáfora, é o terreno por onde o pedreiro-demiurgo assenta os objetos moldados. Ninguém disse que é fácil de entender.

O Demiurgo é um deus que foge ao conceito abraâmico, que possui todos aqueles atributos já tão decantados de infalibilidade, onisciência e blá-blá-blá. O Demiurgo é um artífice (a tradução de seu nome seria algo como “trabalhador público” – no sentido de levar os objetos à sensibilidade universal) que se propõe a transformar o Bem que representa o Uno em realidade sensível, dando-lhe plena existência, tanto inteligível, quanto sensível. Sem essa completude, o Bem não seria o Bem, porque lhe faltaria um atributo essencial: a existência.

Então o Demiurgo toma o modelo ideal de um objeto qualquer do Hiperurânio, e molda a massa informe fisicamente, tornando-a perceptível aos sentidos. Mas não é tão simples assim, de ir pegando ideias, a massinha e a chora e sair moldando a realidade sensível. A primeira coisa que o demiurgo fez foi plasmar o próprio mundo. Lembrando que originariamente a intenção do artífice é ordenar algo que se encontra em desordem, dotou todo o cosmos de uma espécie de inteligência compartilhada, a quem foi dado o nome de anima mundi (vide). Dessa forma, existe uma espécie de alma compartilhada em tudo o que existe no universo, que são seus princípios inteligíveis. Tudo carrega uma porção de eternidade, pela sua methexis (participação) com formas ideias imperecíveis e inamovíveis. Notem que o mundo inteligível, sendo eterno, não tem passado, nem futuro, porque está desencaixado da dimensão do tempo. Daí que Platão nomina o tempo e encaixa o mundo sensível como a face móvel da eternidade, que é gerada e caminha para a transformação. O tempo nasce com a anima mundi e com a materialidade do cosmos, porque ele inexiste no campo do inteligível.

As coisas sensíveis, entretanto, não são perfeitas como são perfeitas as formas do mundo inteligível. Isso porque a espacialidade da chora e a matéria que lhe compõe é amorfa e moldável, e, exatamente por tomar qualquer modelo, não é perfeita em si mesmo, representando, por si só, um limite para a ação do Demiurgo. Lembremos que este não é um deus ao modo abraâmico e, portanto, sujeito às limitações físicas que o universo lhe impõe. Dessa forma, ele plasma o mundo inteligível da melhor maneira possível, e não de maneira absolutamente perfeita. E isso explica a falta de confiabilidade dos sentidos.

Neste final, podemos perceber como Platão, ainda que tentando se manter fixado a alguma lógica, acaba descambando para explicações míticas. Como eu afirmei em outros textos (alegoria da caverna e mito de Er), Platão realmente usava esses expedientes para trazer didática aos seus ensinamentos, mas é um pouco mais difícil de dissociar a doutrina do Demiurgo de especificidades da crença. E, até mesmo por isso, Santo Agostinho pode utilizar o platonismo como base para sua patrística. Quer saber? Vou falar sobre isso também, mas não agora, para não fazer exatamente o que procurei evitar: alongar demais o post.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O livro abaixo é aquele em que Platão fala mais amiudadamente sobre o demiurgo e suas façanhas:

PLATÃO. Timeu. In: Timeu/Crítias. Lisboa: Instituto de Estudos Filosóficos, 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/111656254/Plata_o_Timeu_Cri_tias. Acesso em: 21.08.2026.



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 1 (a segunda navegação)

 (O Mundo das Ideias é tão central na filosofia de Platão que é inevitável tratar dele com mais cuidado)

“O que me parece é que se existe algo belo além do belo em si, só poderá ser belo por participar do belo em si”

Platão

Olá!

Não é de propósito (quase nunca). Embora tenhamos uma invasão de anglicismos em Patropi para qualquer assunto que tratemos, na área de Informática a questão é inerente, já que vem da gringa as ferramentas de produção desse tipo de produto, o que se torna ainda pior quando a coisa aporta nas quinquilharias técnicas. Então é muito fácil de escorregar para jargões que fazem os circunstantes nos olharem como quem vê uma mulher barbada num desses circos da velha guarda.

Explico: recentemente, veio uma reclamação do meu cliente “favorito”. Onde está o relatório X que eu pedi para desenvolver? Era mais uma daquelas baboseiras que alguém de alta patente quer, e mais ninguém. O problema é que essas coisas vão caindo no esquecimento até que alguém lembra da história, e a cobrança vem a cavalo, ou seja, na forma de coice. Vamos lá para o e-mail.

Expliquei que a tal funcionalidade tinha ficado em um branch apartado, e que seria preciso fazer um novo merge para que fosse possível fazer um deploy praticável, e colocar para homologar de novo. Se você entendeu, é porque é coleguinha. Já o figurão não entendeu nada, achou que eu estava o enrolando e queria esclarecimentos em português. Vamos lá para a reunião.

Expliquei calmamente. Em desenvolvimento de sistemas, fazemos uma cópia do módulo que temos em uso para um ambiente onde não haverá problemas em ser mexido, e, uma vez validado, pode substituir a versão disponível para todo mundo. A dita cuja estava em um desses ramais para ser testada (branch). Como o tempo passou e ninguém homologou, outras versões foram sendo sobrepostas, de modo que não era mais possível simplesmente colocar essa versão em uso, porque todos os outros desenvolvimentos posteriores seriam perdidos. Era necessário então juntar a parte do código com a velha funcionalidade em outra versão (merge), para disponibilizar a aplicação em um ambiente (deploy) testar tudo de novo e, desta vez sem colocar na gaveta, botar para uso. Nem é tão complicado assim. Só que EU sei disso, mas o cliente não.

O grande busílis é que estamos tão habituados com nosso próprio linguajar que acabamos esquecendo que, fora de nossa toca, as pessoas não são obrigadas a saber do que estamos falando, e nos colocam na conta de arrogantes, iniciáticos e, pior ainda, enrolões. Não é diferente na Filosofia.

Por esta razão, é costumeiro que eu tagarele sobre vários termos como se estivesse em plena Grécia antiga, e todo mundo estivesse entendendo com perfeição minha chiacchera. Só que, para estes, eu estou falando literalmente em grego. Em um esforço de contextualização e pesquisa, é possível compreender o que quero dizer, mas vamos combinar que eu preciso de um esteio para indicar onde falei melhor sobre determinados temas. Já senti a mesma necessidade quando falava inúmeras vezes sobre a arché, e, para deixar todos sem dúvidas, fiz uma espécie de ensaio-glossário que eu indico sempre que vou tratar do assunto (este). O mesmo se repete com o Mundo das Ideias platônico, que me referencio à exaustão, e ficar fazendo retomadas, ainda que breves, torna-se cansativo. Então achei dever de ofício dar uma boa explicação sobre o conceito e fazer as devidas remissões quando necessário. Vamos içar as velas, partir para a segunda navegação.

Antes da virada ética ocorrida no pensamento grego ocorrida a partir dos sofistas, sabemos que o principal motor da especulação filosófica estava na tentativa de detectar um substrato comum a toda a realidade. Platão vai partir da premissa de que os raciocínios dos filósofos da physis foram insuficientes para carregar conclusões sobre as essências. Mas o que procuravam estes? Eles buscavam no próprio universo as causas para explicar a realidade, com as explicações mais diversas possíveis, em um elemento a quem deram o nome de arché. Não se trata de um empreendimento despido de valor, já que foi a primeira vez em que se buscou pesquisar a realidade sem a interveniência de entidades ad hoc, mas através de encadeamentos lógicos, que conduzissem a uma resposta mais consistente. A própria diversidade dessas proposituras comprova a aspereza da tarefa, e a atuação dos naturalistas mais se aproximou de uma Ciência natural do que propriamente de uma filosofia.

Embora Platão não exatamente menospreze os experimentos mentais dos filósofos da natureza, o fato é que ele considerava suas propostas ineficazes. Segundo o que ele dizia, os pré-socráticos tentavam explicar o físico pelo físico, o natural pelo natural, entrando em um ciclo vicioso que sempre redundava em se imobilizar, como se fosse uma nau no meio de um oceano sem ventos porque, no entender do mestre, o universo tem dois planos, e os naturalistas somente conseguiam apreciar a totalidade das aparências, deixando para trás a totalidade da realidade. Quando isso acontece, é preciso ir além e recorrer aos remos, iniciando a belíssima metáfora da segunda navegação, que ele se entendia responsável por trilhar.

E qual seriam os remos dessa segunda navegação? Partindo da premissa de que o móbile do conhecimento até então eram os sentidos que percebiam o universo, era preciso colocar uma premissa fundamental: os sentidos não são garantia de conhecimento, haja vista às abundantes distorções que os mesmos sofrem. E essas são, de fato, incontáveis. Portanto, a saída é reconhecer que, se há uma verdade, ela está no campo do racional, do inteligível.

Os exemplos que Platão dá são bastante ilustrativos. Um deles diz respeito à prisão de Sócrates. Por que Sócrates se encontra preso? Se olharmos pelo plano puramente material, é porque ele está, resumidamente, com seus músculos e ossos contritos em um espaço cercado. Percebam que qualquer disposição moral ou substrato eidético está excluído dessa resposta, demonstrando sua insuficiência. A resposta que esperamos está além da mera disposição física: Sócrates está preso porque foi condenado pelos atenienses e lá ele próprio se mantém porque entende ser importante permanecer fiel ao compromisso com a justiça. E tudo isso não é perceptível pelo uso dos sentidos, tais justificativas operam a nível intelectual. Ou seja, as causas reais vão além das causas físicas, e isso não funciona sem passar pela racionalidade. Essa materialidade não seria a realidade em si mesma, mas as ferramentas que constituem seu aspecto concrescível.

Ok, até aqui, beleza. Mas o que seriam essas “coisas” que transcendem a materialidade? Onde podemos encontrar esse conjunto de conceitos e valores que dão mais caracterização ao universo do que sua própria existência sensível? No pensamento de Platão, justificar o sensível pelo sensível significa se manter em uma perspectiva de engano, porque a sensibilidade é extremamente variável e enganosa. Para se chegar a um lugar onde os erros dos sentidos podem ser superados, é preciso observar a própria racionalidade pura, ou seja, o pensamento no seu mais elevado grau. É por aí que é possível enxergar as coisas em sua estrutura mais fundamental, inalcançável unicamente pelo plano do sensível. Platão sintetiza o termo Eidos, que pode ser traduzido por Ideia, mas com um sentido mais aproximado de Forma. Trata-se daquilo que o intelecto pensa quando despido de qualquer aspecto material. Para captarmos o que ele quer dizer, vamos tentar pensar em uma pessoa muito bonita, mas que, por ter passado pelos percalços da vida, já não é mais bela, independentemente do motivo. Nós sabemos que essa pessoa era bonita, e também sabemos que não é mais bonita, porque temos, intelectualmente, o conhecimento do que é a beleza em si mesma. Essa beleza-em-si não se perde com o tempo, nem com os azares da vida, porque ela não pertence unicamente à pessoa que era bela e deixou de ser, mas à ideia de beleza. Essa ideia, embora seja sujeita a mudanças no tempo, indica que temos a capacidade mental de possuir uma ideia de belo, seja ela qual for. Ainda que hoje tenhamos que corpos marombados sejam o belo, isso é só uma contingência, ligada à sensibilidade. O que há de absoluto é que há o belo, que captamos o belo. A maneira com a qual enxergamos coisas belas pode mudar hoje e amanhã, mas sempre enxergaremos coisas belas.

Para simplificar ainda mais as coisas, pense em uma bola. Materialmente, ela é feita de que? Ordinariamente, de couro. Mas o couro resume a bola? Se sim, então ele resume a vaca, a jaqueta, o banco do carro, o sofá, o cinto, o sapato. Ou seja: não, não é materialmente que você define qualquer coisa. Por outro lado, você pode ver uma bola desenhada, uma bola esculpida, uma bola imaginada e, ora vejam, uma bola real, e você sabe que tem uma bola diante de si. Portanto, segundo Platão, o que define uma essência é a sua forma, o seu eidos. E ele vai além do sensível, ele reside no seu intelecto.

Ok. Então vamos agora pensar nesse Mundo das Ideias, a quem Platão dá o nome de Hiperurânio. Puxando unicamente pela etimologia, temos aqui dois termos em grego. O primeiro, bastante comum em nosso dia-a-dia, significa algo que está acima, que vai além. Um hipermercado, por exemplo, é um estabelecimento comercial que está acima do que convencionamos a entender por mercado, porque, além dos produtos típicos, há praça de alimentação, posto de combustível, amplo estacionamento, serviços diversos como chaveiros e caixas eletrônicos. Portanto, algo que ultrapassa um conceito inicialmente dado. Já o termo urânio faz remissão ao Deus Urano, o mesmo que nomeia o planeta gasoso lá nos confins do sistema solar, e que era o regente dos céus, pensados aqui como firmamento. Então todos os fenômenos celestes, como estrelas, cometas e asteroides são regidos por essa divindade, no entender dos gregos. Só que o sentido que Platão dá aqui não é exatamente de “acima dos céus” como algo que está fisicamente para além da abóbada celeste, mas de ponto mais distante que pode ser percebido pelos sentidos. Esse é o limite do que alcança nossa visão, ou seja, o mundo dos sentidos, e o intelecto tem a capacidade de perceber o que está além destes. O Hiperurânio não é um lugar efetivamente material, mas aquilo que o suprassumo da alma, a inteligência, consegue captar como efetiva realidade dos seres, já devidamente desvinculados dos entes, suas porções materializadas.

Nós reconhecemos nos objetos concretos do mundo sensível um ponto de contato com as suas ideias essenciais em um processo que Platão dava o nome de methexis, que pode ser traduzido por “participação”. De um certo modo, a ideia do objeto é mais geral do que o objeto concreto, porque carrega o cerne da forma, mas tem suas características peculiares, típicas da captação dos sentidos: cores, configuração, peso e etc. Essa participação, portanto, é a porção de forma ideal que um objeto concreto carrega e que pode ser percebido nos demais entes do mesmo ser.

Pensando em algo mais abstrato, relembro de uma ocasião em que eu estava no Parque Tingui, em Curitiba. A cena era a seguinte: é comum sentar-se na beira do lago que fica na parte baixa do parque, e muita gente faz isso para comer alguma coisa, onde eu estava também, certa feita. A uns cinquenta metros de distância, um casal prepara-se para tirar seu cachorro da coleira. Instantaneamente, o bicho pega um impulso e se atira na água como se fosse um salva-vidas no desespero do cumprimento de sua missão. Um salto elegante e um tchipum final. Ele saiu do lago pulando nas quatro patas pulando como um carneiro, quase como se estivesse gargalhando, numa expressão de alegria pura. Pensando em termos platônicos, esta não é a alegria em si mesma, porque ainda precisamos de um veículo para materializá-la, mas é uma de suas concreções possíveis, porque a alegria do cachorro, esta sim, participa da alegria ideal, hiperurânica.

Podemos então começar a pensar na simetria entre Platão e os principais pensadores ontológicos da fase naturalista. O mundo sensível, sujeito a mudanças no decorrer do tempo, tem correspondência ao fluxo de Heráclito, porque corresponde ao universo das imperfeições e da impermanência, enquanto o Mundo das Ideias tem ligação com o Ser de Parmênides, muito mais próximo das essências das coisas. Platão traz a síntese de todo o pensamento naturalista e vai além dele. O universo do devir é um verdadeiro turbilhão que oferece aos sentidos toda forma de apresentação dos mais diferentes fenômenos, que, por sua vez, continuam guardando em si uma ideia do que ele é em si mesmo, independentemente da materialidade que ele assume. Esta é a porção permanente e imutável de tudo o que há no universo.

No Hiperurânio, portanto, estão todas as ideias de todas as coisas existentes no universo, em sua forma perfeita. É de se compreender que haja uma multiplicidade bastante grande dessas ideias por lá, haja vista a imensa quantidade de objetos que percebemos no universo sensível, incluindo aí aqueles abstratos, porque as ideias não são só de objetos físicos, mas de princípios morais, de valores estéticos, de propriedades matemáticas e assim sucessivamente. Essas ideias não se deterioram como os entes, são eternas e incorruptíveis. Mas há um problema a resolver que é a do não-ser. De fato, o problema proposto pela filosofia de Parmênides é a famosa frase enigmático: o Ser é e não pode não-ser; o não-ser não é e não pode ser. Sendo assim, como poderíamos afirmar que uma Ideia é e não pode não-ser, sendo que existem inúmeras no Hiperurânio?

Outra pergunta bastante inquietante é sobre a transição entre o intelectual e o sensível. Como aquilo que está no Mundo das Ideias é plasmado para o universo sensível?

Aqui, vamos descer aos subníveis verdadeiramente complexos dessa filosofia das formas, mas não vou fazê-lo agora, porque vai ficar muito longo. Deixo para fazê-lo em breve, para que eu chegue no meu objetivo. Fiquem de olho no blog para complementar a segunda navegação. Bons ventos a todos!

 Recomendação de leitura:

Esta é a obra onde Platão fala de suas segunda navegação:

PLATÃO. Fédon. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.



terça-feira, 28 de julho de 2026

O café filosófico do quotidiano – Como os mitos expressam suas verdades

(Nem sempre um mito é só uma historinha. Ele pode servir como concretização de sistemas de ideias complexos)

“E depois de obtermos as recompensas da justiça seremos como os vencedores que recolhem os prêmios. Tanto aqui, quanto no percurso de mil anos que acabamos de descrever”.

Platão 

Olá!

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Eu nasci em um tempo de transformação. Ainda muita coisa pertencia ao meio mais analógico da vida, mas já havia algumas coisas que despontavam no mundo digital, como os relógios de cristal líquido e o apoio da informática no mundo empresarial, ainda na forma de um computador que armazenava todos os processos mais complexos, enquanto o trivial continuava na base das fichas. E isso, de certa forma, era traspassado para a vida quotidiana. É certo que o ressurgimento de LP’s demonstra que certos retrocessos acabam por se tornar desejáveis, mas no cômputo geral a escala tecnológica é um caminho sem volta. A não ser que surjam ondas de revival e ressuscitem objetos que achávamos mortos. É o caso desse belo método trapezoidal cerâmico, que achei bem barato numa dessas casas orientais.


Ele não é uma mera reprodução dos Melittões que usávamos para agilizar os coadores de pano na minha época de criança, mas um utensílio que teve alguns melhoramentos. Em primeiro lugar, seu material (cerâmica esmaltada) facilita a limpeza e favorece um escoamento com menos aderência.

Além disso, sua base possui três furos de calibre mediano, que visa corrigir o problema clássico dessa arquitetura: a retenção da filtragem e consequente aumento da adstringência e do amargor. Sem contar que é bastante elegante.



Nome do utensílio: porta-filtro cerâmico trapezoidal

Tipo de técnica: percolação com filtragem por elemento de papel

Dificuldade: baixa

Espessura do pó: média

Dinâmica: introduz-se um filtro de papel de tamanho apropriado no porta-filtro, com dobra cruzada nas costuras, para depois realizar-se um escaldamento no mesmo. Deposita-se café moído em ponto médio no filtro. Despeja-se água suficiente apenas para umedecer todo o pó (blooming). Após cerca de trinta segundos, realizam-se ataques de modo a não ultrapassar o limite do filtro ou do porta-filtro.

Resíduos: nenhum

Temperatura de saída: média

Nível de ritual: baixo-médio

Diante do bombardeio de métodos baseados na estrutura V60 (Origami, Mugen, Waals, Fluire, Cone Coffee), talvez essas novas concepções de filtro trapezoidal representem uma espécie de novo ciclo para o método. Um sistema que funcionou bem por tanto tempo pode encontrar nova subsistência. É assim que o mundo gira, e, sendo assim, ele próprio é cíclico.

Essa ideia de universo cíclico já é muito antiga nos conceitos filosóficos, e deriva da compreensão empírica de eternos reinícios. “Depois da tempestade, vem a bonança”, diz um antigo ditado anônimo, que nos passa essa noção de que sempre é possível prever a repetibilidade dos fenômenos. Como é preciso que se obtenham explicações sobre os mais diversos deles, também a ressurgência da vida se enxergou em formato circular. Como não é detectável por meios empíricos, tomou aspecto religioso, e veio a claro na forma da mitologia grega.

O mito de Er é um dos mais conhecidos no âmbito da Filosofia. Veio a público especialmente pela letra de Platão. Antes de cuidar de seu significado, é preciso contá-lo, e vou tentar fazê-lo da maneira mais sintética possível, mas, antes ainda, é preciso pincelar um pouco sobre o significado dos mitos nas narrativas platônicas, visto que as mesmas são abundantes e parecem um contrassenso quando se lembra da objetividade requerida pela razão.

Platão utiliza o mito pelo mesmo motivo que eu uso exemplos e mais exemplos de minhas próprias aventuras neste humilde espaço. Embora toda a racionalidade seja a melhor ferramenta para se obter a aproximação com a realidade em si mesma, sempre se pode notar que ela pode ser um esqueleto, ou uma estrutura, mas carece a ela uma característica: o real palpável. Todas as vezes em que eu reduzir um fenômeno a fórmulas matemáticas, vai faltar uma “carne” para revestir esses ossos, e o mito, ainda que não seja uma realidade efetivamente existente, tem o condão de se apropriar da liberdade criativa para emoldurar a realidade exatamente como queremos. Sendo assim, o mito em Platão não tem o aspecto dogmático de quem se guia por uma fé, mas de complementaridade ao raciocínio construído pelo logos, na função de adjutor. É bem isso que se pode perceber no mito de Er, onde trataremos de aspectos escatológicos e éticos. Mas passemos à sua sinopse.

Conta-se que Er era um soldado da Panfília (atual Armênia) que morreu em combate, junto a diversos companheiros de espada. Restou junto da carnificina de batalha, com outros também mortos, mas foi o único cujo corpo, passados dez dias, permanecia incorrupto. Embora isso causasse admiração, foi encaminhado para as exéquias da mesma forma. Sendo feitos os preparatórios para sua cremação, eis que o gajo volta à vida, para a surpresa geral. Estando acordado, passou a relatar tudo o que vira no seu sono profundo.

Assim que sua alma abandonou seu corpo jazente, foi para um prado tranquilo onde se podia ver quatro aberturas, sendo duas no céu e duas na terra, que tinham o propósito de permitir o ir e vir das almas. Aqueles que eram justos, pegavam o caminho que subia aos céus, enquanto aos iníquos cabia descer às profundezas da terra. Era o Hades, uma espécie de inferno regido pelo deus de mesmo nome, no qual a parte mais profunda era o Tártaro, como uma masmorra onde ficavam os criminosos mais graves.

Esse trabalho de despacho era feito por juízes que se encarregavam de avaliar feitos e culpas de cada um que se lhe compareciam à frente. Disseram a Er para registrar todos os fatos, porque caberia a ele retornar à vida para contar aos outros homens como funcionava o além-vida.

Os recém mortos, portanto, seguiam pelas aberturas que conduziam ao céu ou às profundezas, enquanto os seus respectivos pares serviam para os regressos das almas. Estes que voltavam o faziam para reencarnar. Os que subiam do subterrâneo lamentavam as agruras que passaram, os que desciam dos céus cantavam seus dias felizes. Faziam-no porque ou cumpriam penas de mil anos, ou porque completavam mil anos de regozijo, tudo em função da vida anterior que haviam levado na terra.

Estes que regressavam carregavam consigo os rastros de suas experiências extraterrenas. Os que vinham do céu diziam das maravilhas que lá viveram, enquanto os que subiam do Hades davam graças por ter encerrado o sofrimento. De volta ao prado, as almas que retornarão à vida terrena vão dar de frente com as três Moiras, filhas da Necessidade, de quem sinto-me na obrigação de redigir um texto mais específico, o que farei em breve. Elas são Láquesis (passado), Cloto (presente) e Átropos (futuro), sendo que é a primeira que professa às almas o que haverá de acontecer: serão apresentados a elas vários modelos de destinos – vidas humanas e animais, com livre escolha de cada uma delas. Cada alma escolherá o caminho que percorrerá em sua nova existência. São vidas que tanto podem ser venturosas quanto pacíficas, tirânicas ou pastoris, guerreiras ou filosóficas.

Após a escolha, Láquesis nomeava um daimon para acompanhar a alma encarnante por toda a sua vida, que era urdida por Cloto e tornada irreversível por Átropos. Esse daimon, cuja palavra é a origem do termo demônio, não tem nada a ver com a visão cristã de espírito de maldade ou assecla de Lúcifer. O daimon é uma espécie de guia espiritual que seguirá o renascido em suas trilhas para garantir a execução do destino escolhido. Para nos trazer uma imagem, o daimon estaria atuando naqueles momentos em que temos uma intuição sobre o que devemos fazer nessas encruzilhadas da vida, de modo a nos manter no destino por nós mesmos escolhido perante as moiras. 

Após esse processo, as almas são encaminhadas para o Vale do Esquecimento, onde tomarão as águas do Rio Âmelas antes de reencarnar. Essa sorvedura tem o propósito de fazer esquecer as vidas passadas, para que a nova vida não seja contaminada pelas experiências passadas. Quem bebia demais, esquecia inclusive os vínculos com o Hiperurânio, tornando-se um tolo. Aqueles que bebiam apenas um pouco mantinham boa parte do conhecimento adquirido através das existências sucessivas.

A princípio, o mito de Er parece mais uma entre outras mitologias religiosas sobre o post-mortem, e realmente o é. A escatologia platônica está fortemente calcada na visão órfica, que pressupõe um dualismo corpo-alma e a eternidade dessa última, além da possibilidade de reencarnação e do tráfego entre planos distintos. A ideia de regresso à vida vem da ideia das religiões de mistério que intuíam muitos dos fenômenos humanos a partir da observação de acontecimentos naturais. Assim como uma planta morre em um ciclo, ela renasce por intermédio de suas sementes, o que também ocorreria com os seres sencientes. Inclusive, uma das hipóteses de reencarnação segundo Platão é parecida com a metafísica budista – há a possibilidade de se reencarnar como um animal. A ingestão das águas do Rio Âmelas representaria a ausência de lembranças das vidas passadas, embora aqueles que eram prudentes bebessem menos, o que lhes fazia manter uma tênue recordação, não dos fatos em si, mas das estruturas sapienciais que podiam ser revestidas por novas ocorrências, e este era o que poderia ser considerado o sábio na sua vida atual.

Mas o que está efetivamente sedimentado no mito de Er são os eixos éticos da filosofia clássica. Aqui, encontramos uma discussão bastante profunda com relação ao peso da justiça, que veio refletir inclusive no posterior Cristianismo. Qual é a responsabilidade moral que um indivíduo tem de praticar a justiça? A resposta do mito se dá na forma de prêmio ou punição que não são movidos pelo acaso, uma vez que eles são obtidos a partir de escolhas. Não se pode atribuir à sorte ou a uma divindade o destino que se obteve, vez que ele, desde a origem, é formatado por cadeias de causas e consequências disparadas por nossas opções de vida. Ou seja, muito antes dos existencialistas, Platão já colocava o peso das escolhas sobre o próprio indivíduo. Tudo o que é imputado para alguém de fora – acaso, divindade, outras pessoas – tem unicamente o encargo psicológico de tirar de si as culpas. Percebam que os paradigmas colocados por Láquesis ao retornante são proposituras, e não imposições. Embora não exista a opção de não reencarnar, é perfeitamente possível à alma optar por condutas morais mais perfeitas do que sua mera vontade pode guiar, já que a liberdade de escolha nesse caso é plena. O daimon escolhido para companhia estará em função desta mesma escolha, portanto não deverá ser a ele também imputada nenhuma responsabilidade pela escolha. Esse é o modo com o qual Platão desenha sua ética individual – o indivíduo é completamente responsável pelas suas escolhas, tem livre-arbítrio para tanto e disso deriva sua sorte e seu destino.

O mito de Er sintetiza também uma teoria das reminiscências platônica que não apenas casa com princípios de reencarnação que foram adotados muito mais tarde por espíritas, mas é também uma alegoria sobre o funcionamento de sua epistemologia. Relembrando do princípio geral de que os raciocínios nascem a partir de contatos intelectuais com o mundo das ideias, onde todas as formas são perfeitas, podemos nos perguntar por que não os retemos se estivemos em outras existências. O fato de se beber demais da água do esquecimento alegoriza justamente a atitude que não é filosófica: quem se embriaga com a água sintetiza unicamente a força do momento e da necessidade, sem refletir sobre a prudência da moderação e do cuidado intelectual. Dessa forma, a atitude racional de se manter o máximo de reminiscências melhora o aporte intelectivo em detrimento da supressão de uma necessidade ocasional. E com isso vem a máxima platônica de que aprender é relembrar. Por isso, Platão era um racionalista puro: tudo o que uma pessoa aprende já reside nela mesma, bastando que esse conhecimento seja ativado através da escalada do raciocínio, como Sócrates fez com o experimento intelectualidade do escravo (também vem texto sobre isso por aí).

Sendo assim, crianças, podemos perceber como as aparências enganam. Um mito não é só uma história da carochinha, nem uma mentirinha para ajudar a aquietar as crianças, mas, sendo bem utilizado, é uma ferramenta didática das mais efetivas. E também pudemos ver aqui como algo tão quotidiano quanto um porta-filtros revisitado pode conduzir a discussões que estão nas raízes dos problemas filosóficos há milênios. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O Mito de Er está na célebre República, então a recomendaremos novamente, sem qualquer constrangimento. Aprendam, jovens, que, se vocês quiserem tomar contato mais íntimo com a filosofia ocidental, esta leitura é inescapável.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2014.