(O Mundo das Ideias é tão central na filosofia de Platão que é inevitável tratar dele com mais cuidado)
“O que me parece é que se existe algo belo além do belo em si, só poderá ser belo por participar do belo em si”
Platão
Olá!
Não é de propósito (quase nunca). Embora tenhamos uma
invasão de anglicismos em Patropi para qualquer assunto que tratemos, na área
de Informática a questão é inerente, já que vem da gringa as ferramentas de
produção desse tipo de produto, o que se torna ainda pior quando a coisa aporta
nas quinquilharias técnicas. Então é muito fácil de escorregar para jargões que
fazem os circunstantes nos olharem como quem vê uma mulher barbada num desses
circos da velha guarda.
Explico: recentemente, veio uma reclamação do meu cliente “favorito”.
Onde está o relatório X que eu pedi para desenvolver? Era mais uma daquelas
baboseiras que alguém de alta patente quer, e mais ninguém. O problema é que
essas coisas vão caindo no esquecimento até que alguém lembra da história, e a
cobrança vem a cavalo, ou seja, na forma de coice. Vamos lá para o e-mail.
Expliquei que a tal funcionalidade tinha ficado em um branch
apartado, e que seria preciso fazer um novo merge para que fosse
possível fazer um deploy praticável, e colocar para homologar de novo. Se
você entendeu, é porque é coleguinha. Já o figurão não entendeu nada, achou que
eu estava o enrolando e queria esclarecimentos em português. Vamos lá para a
reunião.
Expliquei calmamente. Em desenvolvimento de sistemas,
fazemos uma cópia do módulo que temos em uso para um ambiente onde não haverá
problemas em ser mexido, e, uma vez validado, pode substituir a versão
disponível para todo mundo. A dita cuja estava em um desses ramais para ser
testada (branch). Como o tempo passou e ninguém homologou, outras versões foram
sendo sobrepostas, de modo que não era mais possível simplesmente colocar essa
versão em uso, porque todos os outros desenvolvimentos posteriores seriam perdidos.
Era necessário então juntar a parte do código com a velha funcionalidade em
outra versão (merge), para disponibilizar a aplicação em um ambiente (deploy) testar
tudo de novo e, desta vez sem colocar na gaveta, botar para uso. Nem é tão
complicado assim. Só que EU sei disso, mas o cliente não.
O grande busílis é que estamos tão habituados com nosso
próprio linguajar que acabamos esquecendo que, fora de nossa toca, as pessoas
não são obrigadas a saber do que estamos falando, e nos colocam na conta de
arrogantes, iniciáticos e, pior ainda, enrolões. Não é diferente na Filosofia.
Por esta razão, é costumeiro que eu tagarele sobre vários
termos como se estivesse em plena Grécia antiga, e todo mundo estivesse
entendendo com perfeição minha chiacchera. Só que, para estes, eu estou
falando literalmente em grego. Em um esforço de contextualização e pesquisa, é
possível compreender o que quero dizer, mas vamos combinar que eu preciso de um
esteio para indicar onde falei melhor sobre determinados temas. Já senti a
mesma necessidade quando falava inúmeras vezes sobre a arché, e, para deixar
todos sem dúvidas, fiz uma espécie de ensaio-glossário que eu indico sempre que
vou tratar do assunto (este).
O mesmo se repete com o Mundo das Ideias platônico, que me referencio à
exaustão, e ficar fazendo retomadas, ainda que breves, torna-se cansativo.
Então achei dever de ofício dar uma boa explicação sobre o conceito e fazer as
devidas remissões quando necessário. Vamos içar as velas, partir para a segunda
navegação.
Antes da virada ética ocorrida no pensamento grego ocorrida
a partir dos sofistas, sabemos que o principal motor da especulação filosófica
estava na tentativa de detectar um substrato comum a toda a realidade. Platão
vai partir da premissa de que os raciocínios dos filósofos da physis
foram insuficientes para carregar conclusões sobre as essências. Mas o que
procuravam estes? Eles buscavam no próprio universo as causas para explicar a
realidade, com as explicações mais diversas possíveis, em um elemento a quem
deram o nome de arché. Não se trata de um empreendimento despido de
valor, já que foi a primeira vez em que se buscou pesquisar a realidade sem a
interveniência de entidades ad hoc, mas através de encadeamentos lógicos, que
conduzissem a uma resposta mais consistente. A própria diversidade dessas
proposituras comprova a aspereza da tarefa, e a atuação dos naturalistas mais
se aproximou de uma Ciência natural do que propriamente de uma filosofia.
Embora Platão não exatamente menospreze os experimentos
mentais dos filósofos da natureza, o fato é que ele considerava suas propostas
ineficazes. Segundo o que ele dizia, os pré-socráticos tentavam explicar o
físico pelo físico, o natural pelo natural, entrando em um ciclo vicioso que
sempre redundava em se imobilizar, como se fosse uma nau no meio de um oceano
sem ventos porque, no entender do mestre, o universo tem dois planos, e os
naturalistas somente conseguiam apreciar a totalidade das aparências, deixando
para trás a totalidade da realidade. Quando isso acontece, é preciso ir além e
recorrer aos remos, iniciando a belíssima metáfora da segunda navegação, que
ele se entendia responsável por trilhar.
E qual seriam os remos dessa segunda navegação? Partindo da
premissa de que o móbile do conhecimento até então eram os sentidos que
percebiam o universo, era preciso colocar uma premissa fundamental: os sentidos
não são garantia de conhecimento, haja vista às abundantes distorções que os
mesmos sofrem. E essas são, de fato, incontáveis. Portanto, a saída é
reconhecer que, se há uma verdade, ela está no campo do racional, do
inteligível.
Os exemplos que Platão dá são bastante ilustrativos. Um
deles diz respeito à prisão de Sócrates. Por que Sócrates se encontra preso? Se
olharmos pelo plano puramente material, é porque ele está, resumidamente, com
seus músculos e ossos contritos em um espaço cercado. Percebam que qualquer
disposição moral ou substrato eidético está excluído dessa resposta,
demonstrando sua insuficiência. A resposta que esperamos está além da mera
disposição física: Sócrates está preso porque foi condenado pelos atenienses e
lá ele próprio se mantém porque entende ser importante permanecer fiel ao
compromisso com a justiça. E tudo isso não é perceptível pelo uso dos sentidos,
tais justificativas operam a nível intelectual. Ou seja, as causas reais vão
além das causas físicas, e isso não funciona sem passar pela racionalidade.
Essa materialidade não seria a realidade em si mesma, mas as ferramentas que
constituem seu aspecto concrescível.
Ok, até aqui, beleza. Mas o que seriam essas “coisas” que
transcendem a materialidade? Onde podemos encontrar esse conjunto de conceitos
e valores que dão mais caracterização ao universo do que sua própria existência
sensível? No pensamento de Platão, justificar o sensível pelo sensível
significa se manter em uma perspectiva de engano, porque a sensibilidade é
extremamente variável e enganosa. Para se chegar a um lugar onde os erros dos
sentidos podem ser superados, é preciso observar a própria racionalidade pura,
ou seja, o pensamento no seu mais elevado grau. É por aí que é possível
enxergar as coisas em sua estrutura mais fundamental, inalcançável unicamente
pelo plano do sensível. Platão sintetiza o termo Eidos, que pode ser traduzido
por Ideia, mas com um sentido mais aproximado de Forma. Trata-se daquilo que o
intelecto pensa quando despido de qualquer aspecto material. Para captarmos o
que ele quer dizer, vamos tentar pensar em uma pessoa muito bonita, mas que,
por ter passado pelos percalços da vida, já não é mais bela, independentemente
do motivo. Nós sabemos que essa pessoa era bonita, e também sabemos que não é
mais bonita, porque temos, intelectualmente, o conhecimento do que é a beleza
em si mesma. Essa beleza-em-si não se perde com o tempo, nem com os azares da
vida, porque ela não pertence unicamente à pessoa que era bela e deixou de ser,
mas à ideia de beleza. Essa ideia, embora seja sujeita a mudanças no tempo,
indica que temos a capacidade mental de possuir uma ideia de belo, seja ela
qual for. Ainda que hoje tenhamos que corpos marombados sejam o belo, isso é só
uma contingência, ligada à sensibilidade. O que há de absoluto é que há
o belo, que captamos o belo. A maneira com a qual enxergamos coisas
belas pode mudar hoje e amanhã, mas sempre enxergaremos coisas belas.
Para simplificar ainda mais as coisas, pense em uma bola.
Materialmente, ela é feita de que? Ordinariamente, de couro. Mas o couro resume
a bola? Se sim, então ele resume a vaca, a jaqueta, o banco do carro, o sofá, o
cinto, o sapato. Ou seja: não, não é materialmente que você define qualquer
coisa. Por outro lado, você pode ver uma bola desenhada, uma bola esculpida, uma
bola imaginada e, ora vejam, uma bola real, e você sabe que tem uma bola diante
de si. Portanto, segundo Platão, o que define uma essência é a sua forma, o seu
eidos. E ele vai além do sensível, ele reside no seu intelecto.
Ok. Então vamos agora pensar nesse Mundo das Ideias, a quem
Platão dá o nome de Hiperurânio. Puxando unicamente pela etimologia, temos aqui
dois termos em grego. O primeiro, bastante comum em nosso dia-a-dia, significa
algo que está acima, que vai além. Um hipermercado, por exemplo, é um
estabelecimento comercial que está acima do que convencionamos a entender por
mercado, porque, além dos produtos típicos, há praça de alimentação, posto de
combustível, amplo estacionamento, serviços diversos como chaveiros e caixas
eletrônicos. Portanto, algo que ultrapassa um conceito inicialmente dado. Já o
termo urânio faz remissão ao Deus Urano, o mesmo que nomeia o planeta gasoso lá
nos confins do sistema solar, e que era o regente dos céus, pensados aqui como
firmamento. Então todos os fenômenos celestes, como estrelas, cometas e asteroides
são regidos por essa divindade, no entender dos gregos. Só que o sentido que
Platão dá aqui não é exatamente de “acima dos céus” como algo que está
fisicamente para além da abóbada celeste, mas de ponto mais distante que pode
ser percebido pelos sentidos. Esse é o limite do que alcança nossa visão, ou
seja, o mundo dos sentidos, e o intelecto tem a capacidade de perceber o que
está além destes. O Hiperurânio não é um lugar efetivamente material, mas
aquilo que o suprassumo da alma, a inteligência, consegue captar como efetiva
realidade dos seres, já devidamente desvinculados dos entes, suas porções
materializadas.
Nós reconhecemos nos objetos concretos do mundo sensível um
ponto de contato com as suas ideias essenciais em um processo que Platão dava o
nome de methexis, que pode ser traduzido por “participação”. De um certo
modo, a ideia do objeto é mais geral do que o objeto concreto, porque carrega o
cerne da forma, mas tem suas características peculiares, típicas da captação
dos sentidos: cores, configuração, peso e etc. Essa participação, portanto, é a
porção de forma ideal que um objeto concreto carrega e que pode ser percebido
nos demais entes do mesmo ser.
Pensando em algo mais abstrato, relembro de uma ocasião em
que eu estava no Parque
Tingui, em Curitiba. A cena era a seguinte: é comum sentar-se na beira do
lago que fica na parte baixa do parque, e muita gente faz isso para comer
alguma coisa, onde eu estava também, certa feita. A uns cinquenta metros de
distância, um casal prepara-se para tirar seu cachorro da coleira.
Instantaneamente, o bicho pega um impulso e se atira na água como se fosse um salva-vidas
no desespero do cumprimento de sua missão. Um salto elegante e um tchipum
final. Ele saiu do lago pulando nas quatro patas pulando como um carneiro,
quase como se estivesse gargalhando, numa expressão de alegria pura. Pensando
em termos platônicos, esta não é a alegria em si mesma, porque ainda precisamos
de um veículo para materializá-la, mas é uma de suas concreções possíveis,
porque a alegria do cachorro, esta sim, participa da alegria ideal, hiperurânica.
Podemos então começar a pensar na simetria entre Platão e os
principais pensadores ontológicos da fase naturalista. O mundo sensível,
sujeito a mudanças no decorrer do tempo, tem correspondência ao fluxo de Heráclito,
porque corresponde ao universo das imperfeições e da impermanência, enquanto o
Mundo das Ideias tem ligação com o Ser de Parmênides,
muito mais próximo das essências das coisas. Platão traz a síntese de todo o
pensamento naturalista e vai além dele. O universo do devir é um verdadeiro
turbilhão que oferece aos sentidos toda forma de apresentação dos mais
diferentes fenômenos, que, por sua vez, continuam guardando em si uma ideia do
que ele é em si mesmo, independentemente da materialidade que ele assume. Esta
é a porção permanente e imutável de tudo o que há no universo.
No Hiperurânio, portanto, estão todas as ideias de todas as
coisas existentes no universo, em sua forma perfeita. É de se compreender que
haja uma multiplicidade bastante grande dessas ideias por lá, haja vista a
imensa quantidade de objetos que percebemos no universo sensível, incluindo aí
aqueles abstratos, porque as ideias não são só de objetos físicos, mas de
princípios morais, de valores estéticos, de propriedades matemáticas e assim
sucessivamente. Essas ideias não se deterioram como os entes, são eternas e incorruptíveis.
Mas há um problema a resolver que é a do não-ser. De fato, o problema proposto
pela filosofia de Parmênides é a famosa frase enigmático: o Ser é e não pode
não-ser; o não-ser não é e não pode ser. Sendo assim, como poderíamos afirmar
que uma Ideia é e não pode não-ser, sendo que existem inúmeras no Hiperurânio?
Outra pergunta bastante inquietante é sobre a transição
entre o intelectual e o sensível. Como aquilo que está no Mundo das Ideias é
plasmado para o universo sensível?
Aqui, vamos descer aos subníveis verdadeiramente complexos
dessa filosofia das formas, mas não vou fazê-lo agora, porque vai ficar muito
longo. Deixo para fazê-lo em breve, para que eu chegue no meu objetivo. Fiquem
de olho no blog para complementar a segunda navegação. Bons ventos a todos!
PLATÃO. Fédon. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
