(Bem... existe um Mundo das Ideias. Mas como ele se transforma naquilo que vemos e tocamos?)
“O Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria”
Platão
Olá!
Meu filho mais velho tem uma cachorra, cujo nome é Nala.
Ocorre que, tendo o shape de um dachshund, todos chamam ela de Guiça,
aférese para a palavra linguiça, iguaria com formato aproximado da referida
raça. Ela, de fato e de direito, é uma vira-lata, dada a falta de documentações
de origem, e veio para casa do primogênito em um esquema de adoção, mas ela não
seria a primeira figura em que pensaríamos ao nos referirmos aos simpáticos
SRDs. Isso fica para os caramelos e filhos-do-medo-da-noite, como o recém
falecido Homem-Cueca.
Só que, atavicamente, ela contém genes dessa espécie que é
dada a espreitar cantos e buracos em busca de pequenos animais, e acaba por
encontrar algumas coisas inusitadas. No último final de semana, ela apareceu
logo cedo com uma prótese dentária na boca, daquelas de ferrinho, na burlesca
situação de ter dentes entre os dentes. Para além do inesperado e da
consequente galhofa, veio junto o mistério. De onde essa cachorra trouxe a
cremilda?
Bom, eu uso prótese, mas a minha está na boca, já que a
percorri com a língua para confirmar. Além disso, a minha é só de resina. Então
só restam meus sogros, hospedados no escritório/estúdio. Mas eles estão
fechados, e por mais que a cachorra Guiça seja esguia e surpreendente, ela não
é fantasma para atravessar sólidos. Como a resposta ainda demoraria até eles
levantarem, fomos levantando especulações, cada uma mais estapafúrdia que a
outra. Estariam os velhinhos tão doidos que deram a dentadura para a Guiça
brincar? Teria a nefanda cachorra algum pacto com um duende zombeteiro? Estaria
o saci agindo nesta cidade do interior? Seria ela esperta a ponto de conseguir
abrir uma caixa de próteses?
A resposta correta foi de quem disse que meu sogro achou uma
boa ideia deixar o objeto na bancada do banheiro. Desacostumado com a casa,
alguém incerto e não sabido (provavelmente ele mesmo) esbarrou lá e o dente foi
para no chão. Daí, em dois minutos de pesquisa a pequena cachorra achou o
diferente acepipe. Blergh! Lavada e deixada de molho, recuperou seu antigo uso.
Conto essas narrativas todas para trazer um exemplo de como
os mistérios são lidados e processados por nossas cabecinhas. Só que eles só
são mistérios enquanto não são resolvidos, ficando até meio sem graça quando
elucidados. Essa é uma regra? Absolutamente não. Às vezes os desenvolvimentos
de ideias são tão complexos, que, mesmo chegando a uma conclusão, ficamos tão
confusos quanto no início.
Esse é um dos motivos pelos quais quebrei o presente texto
em dois. Trata-se da intrincada teoria das formas de Platão, e é necessário que
se faça a leitura da parte
1 para uma melhor compreensão do que vai se seguir. Perca seus quinze
minutos lá, por favor. O outro motivo é mais por comodidade. Iria ficar muito
longo para ser lido de uma vez só, penso eu.
A coisa parou em um questionamento: como o Mundo das Ideias
é plasmado para a esfera do universo sensível? E também tínhamos um
questionamento sobre as oposições entre ser e não-ser. A assertiva maior de
Parmênides era de que “o ser é e não pode não-ser”. Como funciona esse negócio
em Platão? Aqui, vamos sair um pouco do plano puramente racional e tangenciar
com aspectos mais místicos. Ninguém é de ferro.
Começamos identificando um ponto em comum entre a filosofia
de Platão e a de Parmênides: o Ser é algo eterno e imutável. Só que neste
último o Ser é algo que, além dessas características, identificado com a
realidade última, traz um problema para o Mundo das Ideias de Platão: ele é
único. Se no Hiperurânio temos uma multiplicidade infindável de ideias, como
seria possível a ideia de um não-ser?
Parmênides identifica o Ser com a realidade. Isso é o
bastante para dizer que o Ser é imutável porque não existe uma dualidade
concreta entre o real e o ilusório. O real é o que existe, e as ilusões apenas
estão em uma abstração eivada de erros, especialmente pelos enganos oriundos
dos sentidos. O não-ser, nesse sentido, é nada. Ele é tudo o que é mutável,
inconstante e, in extremis, indizível. É contraditório querer falar
sobre algo que não é, ou seja, que não existe. Portanto, é ilógico que se diga
um não-ser, porque ele não é a pura oposição ao Ser (aquilo que existe), mas é
o nada absoluto, que nem a linguagem alcança.
Com Platão, a concepção de não-ser muda. Como o Mundo das
Ideias é povoado por objetos ideais que representam tudo o que existe, é
inconcebível que o Ser seja pensado como um objeto único, já que cada forma
carrega consigo uma realidade adjacente. Sendo assim, cada uma das ideias é um
Ser, enquanto todas as outras são o seu não-ser específico. Por exemplo: a
forma de uma bola é o Ser da bola, e é o não-ser da trave, da chuteira, do
jogador, do estádio e de tudo o mais. Em resumo, toda ideia, para ser ela mesma,
deve não ser todas as demais.
Mas o que faz com que as ideias se moldem e o que explica
essa multiplicidade de ideias? Afinal de contas, se pensarmos em formas
perfeitas, não seria de se supor que elas se mantivessem sempre iguais a si
mesmas?
Aqui, nós vamos chegar, em boa parte, nas doutrinas não
escritas de Platão, e que chegaram aos nossos dias pela via de seus discípulos,
incluindo Aristóteles. Segundo o que pensava o mestre ateniense, havia dois
princípios originários para todas as formas, o Uno e as Díades. A ideia base é que,
da mesma forma que por trás de tudo o que perceptível no âmbito sensível há uma
forma que lhe define, também para as próprias formas há um fundamento ainda
anterior. Recebe este nome justamente por representar a unidade que todas as
formas compartilham: a existência. O Uno seria então o princípio primeiro, que
ordena, que limita, e que define a forma. Por outro lado, as Díades (cuja
remissão ao número dois representa exatamente a dualidade e indeterminação)
trazem o oposto: oferecer espaço para a indefinição, ou seja, um substrato para
que as emanações do Uno sejam moldadas e gerem uma multiplicidade. A tensão
gerada entre esses dois princípios, bastante semelhante à doutrina taoísta do yin
e yang, gera as formas que habitam o Hiperurânio pela sua constituição
matemática e geométrica, agora definitivamente imutável.
A próxima pergunta a ser respondida diz respeito à transição
entre a forma inteligível e o objeto sensível, ou seja, qual é a maneira que
uma forma se materializa?
O primeiro ponto a ser pensado é que Platão identifica o Uno
fundamental com o Bem. Essa identificação se dá por um motivo muito simples:
sendo o Uno o princípio de toda a perfeição, a mais perfeita de todas as
virtudes, o Bem, só poderia ser identificada com ele. Sendo assim, ambos são
uma mesma e única coisa.
Agora, de que vale o Bem se ele não é plasmado para o
universo sensível? Se ele é o mais aperfeiçoado de todos os valores, como pode
ser prescindido da existência sensível? Para dar materialidade à ideia de Bem,
surge o Demiurgo, o responsável pela tarefa de transformar o inteligível em
sensível. Quem?
O Demiurgo é, em Platão, uma divindade intermediária que se
encarrega de obter matéria do caos primitivo e transformá-la em objetos
sensíveis. Vamos trocar isso em miúdos.
Na formação das ideias que povoam o Hiperurânio, a interação
entre o Uno e as Díades se dá livremente no âmbito inteligível, por intermédio
da oposição de forças entre ambas, o que torna desnecessária qualquer forma de
mediação. Ocorre que na materialização do mundo sensível já é preciso que haja
interação com um substrato concreto, que sustente a perceptibilidade através
das sensações, dadas as limitações desta última, e isso não pode acontecer
espontaneamente.
A substância material de que são feitas as coisas no mundo
sensível é a ananché, diferente de todos os elementos visíveis e
caracterizada por ser amorfa e invisível, movida pela necessidade, ou seja, um
princípio cego que é causa errante. De um modo bem grosseiro, é como se fosse
um cimentão indefinido e caótico, e que o trabalho do pedreiro fosse dar ordem
nessa meleca informe. E esse pedreiro existe: é o tal do Demiurgo. Além disso,
há uma espacialidade por onde esse princípio material é formatado pelo
princípio inteligível, denominada por Platão de chora (pronuncia-se
córa). E, ok, mantendo a má metáfora, é o terreno por onde o pedreiro-demiurgo
assenta os objetos moldados. Ninguém disse que é fácil de entender.
O Demiurgo é um deus que foge ao conceito abraâmico, que
possui todos aqueles atributos já tão decantados de infalibilidade, onisciência
e blá-blá-blá. O Demiurgo é um artífice (a tradução de seu nome seria algo como
“trabalhador público” – no sentido de levar os objetos à sensibilidade
universal) que se propõe a transformar o Bem que representa o Uno em realidade
sensível, dando-lhe plena existência, tanto inteligível, quanto sensível. Sem
essa completude, o Bem não seria o Bem, porque lhe faltaria um atributo
essencial: a existência.
Então o Demiurgo toma o modelo ideal de um objeto qualquer
do Hiperurânio, e molda a massa informe fisicamente, tornando-a perceptível aos
sentidos. Mas não é tão simples assim, de ir pegando ideias, a massinha e a
chora e sair moldando a realidade sensível. A primeira coisa que o demiurgo fez
foi plasmar o próprio mundo. Lembrando que originariamente a intenção do
artífice é ordenar algo que se encontra em desordem, dotou todo o cosmos de uma
espécie de inteligência compartilhada, a quem foi dado o nome de anima mundi
(vide).
Dessa forma, existe uma espécie de alma compartilhada em tudo o que existe no
universo, que são seus princípios inteligíveis. Tudo carrega uma porção de
eternidade, pela sua methexis (participação) com formas ideias imperecíveis e
inamovíveis. Notem que o mundo inteligível, sendo eterno, não tem passado, nem
futuro, porque está desencaixado da dimensão do tempo. Daí que Platão nomina o
tempo e encaixa o mundo sensível como a face móvel da eternidade, que é gerada
e caminha para a transformação. O tempo nasce com a anima mundi e com a
materialidade do cosmos, porque ele inexiste no campo do inteligível.
As coisas sensíveis, entretanto, não são perfeitas como são
perfeitas as formas do mundo inteligível. Isso porque a espacialidade da chora
e a matéria que lhe compõe é amorfa e moldável, e, exatamente por tomar
qualquer modelo, não é perfeita em si mesmo, representando, por si só, um
limite para a ação do Demiurgo. Lembremos que este não é um deus ao modo
abraâmico e, portanto, sujeito às limitações físicas que o universo lhe impõe.
Dessa forma, ele plasma o mundo inteligível da melhor maneira possível, e não
de maneira absolutamente perfeita. E isso explica a falta de confiabilidade dos
sentidos.
Neste final, podemos perceber como Platão, ainda que
tentando se manter fixado a alguma lógica, acaba descambando para explicações
míticas. Como eu afirmei em outros textos (alegoria
da caverna e mito
de Er), Platão realmente usava esses expedientes para trazer didática aos
seus ensinamentos, mas é um pouco mais difícil de dissociar a doutrina do Demiurgo
de especificidades da crença. E, até mesmo por isso, Santo Agostinho pode
utilizar o platonismo como base para sua patrística. Quer saber? Vou falar
sobre isso também, mas não agora, para não fazer exatamente o que procurei evitar:
alongar demais o post.
Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
O livro abaixo é aquele em que Platão fala mais
amiudadamente sobre o demiurgo e suas façanhas:
PLATÃO. Timeu. In: Timeu/Crítias. Lisboa: Instituto de
Estudos Filosóficos, 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/111656254/Plata_o_Timeu_Cri_tias.
Acesso em: 21.08.2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário