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terça-feira, 25 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 2 (o Demiurgo)

(Bem... existe um Mundo das Ideias. Mas como ele se transforma naquilo que vemos e tocamos?)

“O Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria”

Platão

Olá!

Meu filho mais velho tem uma cachorra, cujo nome é Nala. Ocorre que, tendo o shape de um dachshund, todos chamam ela de Guiça, aférese para a palavra linguiça, iguaria com formato aproximado da referida raça. Ela, de fato e de direito, é uma vira-lata, dada a falta de documentações de origem, e veio para casa do primogênito em um esquema de adoção, mas ela não seria a primeira figura em que pensaríamos ao nos referirmos aos simpáticos SRDs. Isso fica para os caramelos e filhos-do-medo-da-noite, como o recém falecido Homem-Cueca.

Só que, atavicamente, ela contém genes dessa espécie que é dada a espreitar cantos e buracos em busca de pequenos animais, e acaba por encontrar algumas coisas inusitadas. No último final de semana, ela apareceu logo cedo com uma prótese dentária na boca, daquelas de ferrinho, na burlesca situação de ter dentes entre os dentes. Para além do inesperado e da consequente galhofa, veio junto o mistério. De onde essa cachorra trouxe a cremilda?

Bom, eu uso prótese, mas a minha está na boca, já que a percorri com a língua para confirmar. Além disso, a minha é só de resina. Então só restam meus sogros, hospedados no escritório/estúdio. Mas eles estão fechados, e por mais que a cachorra Guiça seja esguia e surpreendente, ela não é fantasma para atravessar sólidos. Como a resposta ainda demoraria até eles levantarem, fomos levantando especulações, cada uma mais estapafúrdia que a outra. Estariam os velhinhos tão doidos que deram a dentadura para a Guiça brincar? Teria a nefanda cachorra algum pacto com um duende zombeteiro? Estaria o saci agindo nesta cidade do interior? Seria ela esperta a ponto de conseguir abrir uma caixa de próteses?

A resposta correta foi de quem disse que meu sogro achou uma boa ideia deixar o objeto na bancada do banheiro. Desacostumado com a casa, alguém incerto e não sabido (provavelmente ele mesmo) esbarrou lá e o dente foi para no chão. Daí, em dois minutos de pesquisa a pequena cachorra achou o diferente acepipe. Blergh! Lavada e deixada de molho, recuperou seu antigo uso.

Conto essas narrativas todas para trazer um exemplo de como os mistérios são lidados e processados por nossas cabecinhas. Só que eles só são mistérios enquanto não são resolvidos, ficando até meio sem graça quando elucidados. Essa é uma regra? Absolutamente não. Às vezes os desenvolvimentos de ideias são tão complexos, que, mesmo chegando a uma conclusão, ficamos tão confusos quanto no início.

Esse é um dos motivos pelos quais quebrei o presente texto em dois. Trata-se da intrincada teoria das formas de Platão, e é necessário que se faça a leitura da parte 1 para uma melhor compreensão do que vai se seguir. Perca seus quinze minutos lá, por favor. O outro motivo é mais por comodidade. Iria ficar muito longo para ser lido de uma vez só, penso eu.

A coisa parou em um questionamento: como o Mundo das Ideias é plasmado para a esfera do universo sensível? E também tínhamos um questionamento sobre as oposições entre ser e não-ser. A assertiva maior de Parmênides era de que “o ser é e não pode não-ser”. Como funciona esse negócio em Platão? Aqui, vamos sair um pouco do plano puramente racional e tangenciar com aspectos mais místicos. Ninguém é de ferro.

Começamos identificando um ponto em comum entre a filosofia de Platão e a de Parmênides: o Ser é algo eterno e imutável. Só que neste último o Ser é algo que, além dessas características, identificado com a realidade última, traz um problema para o Mundo das Ideias de Platão: ele é único. Se no Hiperurânio temos uma multiplicidade infindável de ideias, como seria possível a ideia de um não-ser?

Parmênides identifica o Ser com a realidade. Isso é o bastante para dizer que o Ser é imutável porque não existe uma dualidade concreta entre o real e o ilusório. O real é o que existe, e as ilusões apenas estão em uma abstração eivada de erros, especialmente pelos enganos oriundos dos sentidos. O não-ser, nesse sentido, é nada. Ele é tudo o que é mutável, inconstante e, in extremis, indizível. É contraditório querer falar sobre algo que não é, ou seja, que não existe. Portanto, é ilógico que se diga um não-ser, porque ele não é a pura oposição ao Ser (aquilo que existe), mas é o nada absoluto, que nem a linguagem alcança.

Com Platão, a concepção de não-ser muda. Como o Mundo das Ideias é povoado por objetos ideais que representam tudo o que existe, é inconcebível que o Ser seja pensado como um objeto único, já que cada forma carrega consigo uma realidade adjacente. Sendo assim, cada uma das ideias é um Ser, enquanto todas as outras são o seu não-ser específico. Por exemplo: a forma de uma bola é o Ser da bola, e é o não-ser da trave, da chuteira, do jogador, do estádio e de tudo o mais. Em resumo, toda ideia, para ser ela mesma, deve não ser todas as demais. 

Mas o que faz com que as ideias se moldem e o que explica essa multiplicidade de ideias? Afinal de contas, se pensarmos em formas perfeitas, não seria de se supor que elas se mantivessem sempre iguais a si mesmas?

Aqui, nós vamos chegar, em boa parte, nas doutrinas não escritas de Platão, e que chegaram aos nossos dias pela via de seus discípulos, incluindo Aristóteles. Segundo o que pensava o mestre ateniense, havia dois princípios originários para todas as formas, o Uno e as Díades. A ideia base é que, da mesma forma que por trás de tudo o que perceptível no âmbito sensível há uma forma que lhe define, também para as próprias formas há um fundamento ainda anterior. Recebe este nome justamente por representar a unidade que todas as formas compartilham: a existência. O Uno seria então o princípio primeiro, que ordena, que limita, e que define a forma. Por outro lado, as Díades (cuja remissão ao número dois representa exatamente a dualidade e indeterminação) trazem o oposto: oferecer espaço para a indefinição, ou seja, um substrato para que as emanações do Uno sejam moldadas e gerem uma multiplicidade. A tensão gerada entre esses dois princípios, bastante semelhante à doutrina taoísta do yin e yang, gera as formas que habitam o Hiperurânio pela sua constituição matemática e geométrica, agora definitivamente imutável.

A próxima pergunta a ser respondida diz respeito à transição entre a forma inteligível e o objeto sensível, ou seja, qual é a maneira que uma forma se materializa?

O primeiro ponto a ser pensado é que Platão identifica o Uno fundamental com o Bem. Essa identificação se dá por um motivo muito simples: sendo o Uno o princípio de toda a perfeição, a mais perfeita de todas as virtudes, o Bem, só poderia ser identificada com ele. Sendo assim, ambos são uma mesma e única coisa.

Agora, de que vale o Bem se ele não é plasmado para o universo sensível? Se ele é o mais aperfeiçoado de todos os valores, como pode ser prescindido da existência sensível? Para dar materialidade à ideia de Bem, surge o Demiurgo, o responsável pela tarefa de transformar o inteligível em sensível. Quem?

O Demiurgo é, em Platão, uma divindade intermediária que se encarrega de obter matéria do caos primitivo e transformá-la em objetos sensíveis. Vamos trocar isso em miúdos.

Na formação das ideias que povoam o Hiperurânio, a interação entre o Uno e as Díades se dá livremente no âmbito inteligível, por intermédio da oposição de forças entre ambas, o que torna desnecessária qualquer forma de mediação. Ocorre que na materialização do mundo sensível já é preciso que haja interação com um substrato concreto, que sustente a perceptibilidade através das sensações, dadas as limitações desta última, e isso não pode acontecer espontaneamente.

A substância material de que são feitas as coisas no mundo sensível é a ananché, diferente de todos os elementos visíveis e caracterizada por ser amorfa e invisível, movida pela necessidade, ou seja, um princípio cego que é causa errante. De um modo bem grosseiro, é como se fosse um cimentão indefinido e caótico, e que o trabalho do pedreiro fosse dar ordem nessa meleca informe. E esse pedreiro existe: é o tal do Demiurgo. Além disso, há uma espacialidade por onde esse princípio material é formatado pelo princípio inteligível, denominada por Platão de chora (pronuncia-se córa). E, ok, mantendo a má metáfora, é o terreno por onde o pedreiro-demiurgo assenta os objetos moldados. Ninguém disse que é fácil de entender.

O Demiurgo é um deus que foge ao conceito abraâmico, que possui todos aqueles atributos já tão decantados de infalibilidade, onisciência e blá-blá-blá. O Demiurgo é um artífice (a tradução de seu nome seria algo como “trabalhador público” – no sentido de levar os objetos à sensibilidade universal) que se propõe a transformar o Bem que representa o Uno em realidade sensível, dando-lhe plena existência, tanto inteligível, quanto sensível. Sem essa completude, o Bem não seria o Bem, porque lhe faltaria um atributo essencial: a existência.

Então o Demiurgo toma o modelo ideal de um objeto qualquer do Hiperurânio, e molda a massa informe fisicamente, tornando-a perceptível aos sentidos. Mas não é tão simples assim, de ir pegando ideias, a massinha e a chora e sair moldando a realidade sensível. A primeira coisa que o demiurgo fez foi plasmar o próprio mundo. Lembrando que originariamente a intenção do artífice é ordenar algo que se encontra em desordem, dotou todo o cosmos de uma espécie de inteligência compartilhada, a quem foi dado o nome de anima mundi (vide). Dessa forma, existe uma espécie de alma compartilhada em tudo o que existe no universo, que são seus princípios inteligíveis. Tudo carrega uma porção de eternidade, pela sua methexis (participação) com formas ideias imperecíveis e inamovíveis. Notem que o mundo inteligível, sendo eterno, não tem passado, nem futuro, porque está desencaixado da dimensão do tempo. Daí que Platão nomina o tempo e encaixa o mundo sensível como a face móvel da eternidade, que é gerada e caminha para a transformação. O tempo nasce com a anima mundi e com a materialidade do cosmos, porque ele inexiste no campo do inteligível.

As coisas sensíveis, entretanto, não são perfeitas como são perfeitas as formas do mundo inteligível. Isso porque a espacialidade da chora e a matéria que lhe compõe é amorfa e moldável, e, exatamente por tomar qualquer modelo, não é perfeita em si mesmo, representando, por si só, um limite para a ação do Demiurgo. Lembremos que este não é um deus ao modo abraâmico e, portanto, sujeito às limitações físicas que o universo lhe impõe. Dessa forma, ele plasma o mundo inteligível da melhor maneira possível, e não de maneira absolutamente perfeita. E isso explica a falta de confiabilidade dos sentidos.

Neste final, podemos perceber como Platão, ainda que tentando se manter fixado a alguma lógica, acaba descambando para explicações míticas. Como eu afirmei em outros textos (alegoria da caverna e mito de Er), Platão realmente usava esses expedientes para trazer didática aos seus ensinamentos, mas é um pouco mais difícil de dissociar a doutrina do Demiurgo de especificidades da crença. E, até mesmo por isso, Santo Agostinho pode utilizar o platonismo como base para sua patrística. Quer saber? Vou falar sobre isso também, mas não agora, para não fazer exatamente o que procurei evitar: alongar demais o post.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O livro abaixo é aquele em que Platão fala mais amiudadamente sobre o demiurgo e suas façanhas:

PLATÃO. Timeu. In: Timeu/Crítias. Lisboa: Instituto de Estudos Filosóficos, 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/111656254/Plata_o_Timeu_Cri_tias. Acesso em: 21.08.2026.



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