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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Navegações de cabotagem – a Fliart de Taubaté e a Filosofia subjacente ao Jornalismo: uma introdução sobre o tema

(Uma viagenzinha de ônibus pode ser agradável e nos levar a filosofar)

“Considero-me um jornalista, na medida em que aquilo pelo que me interesso é a atualidade, isso que acontece ao nosso redor, isso que somos, o que vem ao mundo.” 

Foucault

Olá!

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Eu tenho um carro. Quando eu era pequeno, embora amasse meus carrinhos de plástico, meu pai não tinha nem um fusquinha, que só foi chegar quando eu já era um rapazola. Ou seja, no rigor, meu pai tinha, eu não. Era comum isso na época, no âmbito do proletariado. O que eu tinha mesmo era a passagem do busão.

Era ônibus para tudo quanto é lado: trabalho, escola, lazer, parentagem, até na namorada. Isso tudo porque a vida era assim: mesmo o metrô era escasso, longe de casa, e, para chegar em um, precisava do outro – do bumba, busão, baú, coletivo, bate-lata, cata-bêbado, autocarro, ônibus.

Eu tenho um carro, mas eis que estou em um revival involuntário, enquanto a barca está no estaleiro, hospitalizada por um mal súbito ocorrido em seu câmbio. E o enrosco é grande. Como um goleiro pego no contrapé na final do campeonato, a dona da casa onde eu morava em Taubaté a pediu de volta, o que me deflagrou um processo inesperado de mudança, e isso me impede de ficar recostado no sofá aguardando a recuperação da prejudicada viatura, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Sem outro remédio, resta ele, o pão de forma, e a ele recorreremos. Afinal, saber usá-lo eu sei. Só não tem a praticidade que eu precisava no momento.

Compro as passagens via aplicativo, o que já é um conforto frente às bilheterias do passado, o que, por si só, já demandava viagem adicional. Eu sei, é verdade, que destinos de grande fluxo, como o Vale do Paraíba, tem saídas frequentes, mas há momentos em que é preciso ser certeiro. É provável que eu encontrasse alguma vaga no tempo para buscar as passagens com alguma antecedência. Mas o fato é que o mundo se modernizou e não abro mão da benesse.

Ônibus convencional, porque o orçamento não é de ferro. Acho que o trajeto é tão curto que nem existem acomodações mais nababescas do que essa, que já tem banco fofo e reclinável. Pegar um beco até Três Lagoas/MS, onde mora meu consogro, já é bem mais dolorido para costas e bolsos. Então nem há tanto do que reclamar.

Transcorrido o trajeto de três horas, aporto na rodoviária de destino já meio alquebrado pelo tempo decorrido, além da expectativa de quem ainda tem que pegar outro ônibus, desta vez da municipalidade, para ainda chegar em casa. Bom de lembrar que Taubaté tem duas rodoviárias: uma espertamente na beira da estrada, outra enfiada lá para o centro, que acabou virando terminal intermunicipal. É na primeira que alongo minhas doloridas pernas.

Até desenrolar tanto a mudança, quanto o conserto, foram bem umas dez idas e voltas. Arrepia meus poucos cabelos perceber que gastei algo em torno de 300 pilas por cabeça. Mas aí relembro que esse valor enche uns quatro tanques da viatura ora danificada, o que corresponde a umas oito idas e vindas. Mas aí eu lembro também que a carga possível tem uma diferença tendente ao infinito, além dos bancos disponíveis a mais. Daí eu tento tolamente espaventar com as mãos esses pensamentos inúteis, porque o gasto já se deu, e continuo, ora, indo e vindo. Mas em uma dessas chegadas, há algo de diferente na rodoviária normalmente modorrenta da terra de Seo Lobato. Bancas, um palco, muitos e muitos livros: é a Fliart - Feira do Livro e Amizade da Rodoviária Tarobá, em sua terceira edição.

A Fliart é aquilo que seu nome denuncia: uma feira de literatura, com suas habituais bancas de livros. A novidade aqui é que a mesma é promovida pela administradora do terminal e pela editora existente no mesmo, e não uma prefeitura ou outra entidade. O proveito se dá pelo fato de que ainda há resistentes que compram livros para entreter dias de viagens, coisa que era de hábito meu, por exemplo, que cansei de estudar no chacoalho do tempo do bumba.

Neste ano, o fenômeno Copa do Mundo fez com o tema de fundo do evento seja o futebol, uma prova de que não somente eu uso o esporte bretão como máquina de exemplos filosóficos, mas que muita gente sabe como é possível cruzar a importância aparentemente desproporcional que muitos dão a ele.

Não é só de venda de livros que vive este evento, mas dos bate-papos e mesas redondas que versam sobre o assunto base. Eu tive a sorte de pegar entrevistas com alguns jogadores importantes com passagem pelo EC Taubaté, sob o tema “A bola me abriu portas”: Paulo Castilho, Toninho Taino e Gilsinho Rezende.

Eu lembrei dos tempos em que o Taubaté ainda jogava na primeira divisão do Paulista, e puxei pela memória os nomes do goleiro Vagner “Gão” e do voluntarioso quarto-zagueiro Botu. São jogadores rememorados até hoje pelos torcedores do Burro da Central. Embora o Taubaté não seja um dos grandões da capital, é um dos tradicionais do interior, e compete com o São José a primazia do Vale do Paraíba.

Como é costume nesses eventos, há um homenageado, e como a temática é futebol, a escolha recaiu sobre José Trajano, um dos principais decanos do esporte bretão ainda em atividade.

Embora seja uma personagem polêmica, especialmente por seus posicionamentos políticos, é inegável sua importância histórica para o jornalismo esportivo. Quando o conceito de TV paga ainda engatinhava no Brasil, ele constituiu toda a estrutura da ESPN, que se tornou célebre como o primeiro canal de esportes realmente bem formado, com campeonatos diversos, programas de debates consagrados, reportagens especiais e pautas bem definidas. Virou uma espécie de referência para o jornalismo esportivo tupiniquim, a ponto de seus livros virarem objetos de pesquisa, mesmo que autobiográficos.

Isso acontece porque ele passou por todas aquelas fases que hoje não existem mais: o repórter que sai às ruas, o redator que traduz os fatos em palavras, o chefe de setor que termina seu trabalho tarde da noite, antes de enviar as palavras para o papel, para produzir os hoje quase inexistentes jornais, que precisavam estar na banca fresquinhos na manhã seguinte.

José Trajano têm uma característica sui generis. Ele é um dos últimos torcedores do América Futebol Clube, ao lado de Alex Escobar e alguns poucos outros, outrora a quinta força do Rio de Janeiro, com seu uniforme rubro e mascote diabólica, e se tornou uma espécie de símbolo da resistência e do amor espontâneo por uma agremiação. Para nós, paulistas, o América tem alguma correspondência com a Portuguesa, embora o escrete carioca tenha uma situação ainda mais precária, mas com peso histórico equivalente.

Trajano é daqueles jornalistas que passaram por todas as funções de uma redação, e, já octogenário, praticou o jornalismo de uma forma diferente do que se pratica hoje, muito mais “analógico”. Era o tempo em que as reportagens eram anotadas em bloquinhos, as notícias eram datilografadas e a tipografia era composta por tipos móveis, com todos os horários bem marcados. Talvez ele pareça anacrônico nos dias de hoje, e por isso mesmo ele caminha agora pelas sendas das análises e da literatura, além do jeitão pseudo-mal-humorado que empresta aos debates esportivos.

Ele vem de um jornalismo que, portanto, está em franca extinção, que vem sendo praticado mais e mais pulverizadamente, repleto de vieses que são colocados aos filtros do leitor, e não do próprio jornalista. Aliás, reclama-se muito da imparcialidade no âmbito jornalístico, mas é impossível que ela exista. Eu, particularmente, acho melhor que se declare abertamente uma tendência ideológica do que pagar de isentão sem o ser, na realidade. Há realmente bastante recursos para se maquiar uma ideologia e, sendo assim, temos mais dificuldades em lidar com a informação dada.

A filosofia e o jornalismo não são dissociados entre si. Ambos têm como matéria-prima a busca pela verdade, ainda que as vias sejam distintas e tenham objetivos laterais diferentes. Por este ponto de semelhança, pode-se perceber que ambos se imiscuem. Ora (direis), a filosofia está sempre na base do conhecimento, e se o jornalismo se pretende possuidor da verdade, não há como escapar desse imbricamento. E é verdade, imaginário interlocutor. Por esse motivo, criaram-se teorias sobre o desenvolvimento jornalístico. Vamos ver como essa coisa começou.

Quando olhamos as notícias dadas em tempo real nos dias de hoje, temos a sensação de que um sonho antigo vem sendo realizado: a interligação instantânea com o mundo inteiro. Por outro, mais tacitamente, entretanto, nos dá a sensação de que tudo é uma imensa fofoca, porque os fatos descritos necessitam de apuração, e isso significa tempo, um tempo que a mensagem imediata não tem. Percebam como, contraditoriamente, temos uma velha solução e um novo problema, porque esperamos, de certa forma, que o jornalista seja nossos olhos perante um fato que não temos condições de acompanhar. Se o fato chega rápido, também chega cambaio, cheio de arestas por aparar. E isso é uma autêntica fonte de falsificações, diretas ou indiretas. E a discussão não é nova.

Quando o jornalismo se consolidou como atividade, estávamos no período do Positivismo, corrente de pensamento que via a aplicação de métodos científicos nas atividades humanas como solução para os problemas do progresso. A comunicação e produção de informações precisariam deixar de ser uma tarefa meramente empírica e ter suas estruturas e processos descritos e bem definidos, de maneira a separar o joio do trigo. Sendo assim, para que o jornalismo ganhasse na necessária objetividade científica, era necessário que a imprensa separasse o que era opinião (subjetiva) do que é notícia, o fato objetivo, trazido ao noticiário o máximo possível sem as adições de quem o descreve. Nada de se utilizar qualificativos que expressem qualquer forma de juízo moral, como horrível, interessante, atraente ou qualquer outro designativo que denote valores, apenas o ontológico, o indissociável, o factual. A qualificação deve ser criteriosa, reportando-se o tanto que possível a números mensuráveis. A notícia, como uma mercadoria, deveria ser dada como a exata descrição do que ela é, sem tirar nem pôr.

Qual é o objeto que utilizamos quando queremos ver a nós mesmos, perceber nossas olheiras e cabelos despenteados, nossas características distintivas, notar o desenho de nossos lábios para passar batom, dar aquela penteadinha final no cabelo elegantemente besuntado de gel? Ora, é o espelho. Ele reflete exatamente aquilo que somos, e, por extensão, qualquer coisa que lhe é colocada à frente. O jornalismo, para cumprir o rigor científico de sua época, precisaria retratar com exatidão nas palavras o que foram os acontecimentos e trazer uma distinção muito clara entre o que é fato e o que é opinião. O jornalista, em especial o repórter, deve ser os olhos da sociedade sobre os fatos, desinteressado e neutro, sem filtros.

Acontece que é impossível reportar tudo o que acontece no mundo, e, por mais que se procure ser isento, a própria seleção do que se noticia já é ideológica. Ou, na mais inofensiva das hipóteses, não é neutra. É muito fácil entender isso. Fatos são fatos, são a realidade em si mesma e qualquer atribuição de valor parte de uma pessoa contraria a base da teoria do espelho, porque selecionar as matérias é dizer o que é importante ou não. Mas quem somos nós para identificar o que é importante para uma sociedade ou não?

A metáfora do espelho se mostra perfeita de uma maneira que a teoria não é. Embora o reflexo tenha toda aparência de reproduzir a realidade perfeita, a real é que nenhum espelho o faz sem distorções, por mínimas que sejam. Tanto o espelho de moldura laranja que meu pai se barbeava com sua suspeita navalha, quanto a parede reflexiva irretocável da mais celebrada das blogueiras distorcem a imagem, seja uma leve coloração, um detalhezinho superficial ou mesmo imensos desvios, que fazem ver-se como não se é. Pior, nem sempre voluntariamente, mas às vezes sim.

Exemplo bastante prosaico, e que, por isso mesmo, é próximo à nossa realidade miúda. Na rua em que eu morava, ocorreram duas mortes no mesmíssimo dia: uma senhora quase nonagenária e um rapaz de seus vinte e poucos anos, conhecidíssimo na região por suas atividades pouco republicanas, se é que me entendem. A velhinha apagou como os velhos apagam; já o homem teve uma morte repentina em um jogo de futebol. Tudo isso posto, minha participação na história consistiu em chegar à casa de minha então namorada, atual patroinha, e ver o grande rebuliço na rua. A pergunta inevitável- o que aconteceu? Morreu o N… coitado, levou uma bolada na boca do estômago e foi morrer no hospital. “Ursa estuporada”, como o vulgo chama a perfuração de úlcera péptica, onde o estômago despeja seu conteúdo no restante do organismo. Acidíssimo, faz um mal do cacete, podendo levar à morte, como se viu, ainda mais quando a teima em não se admitir a necessidade de socorro faz postergar o inevitável atendimento médico. Tudo o que se passou girou em torno do desencarne do moço. A pobre senhorinha ficou restrita à despedida de seus poucos familiares. Tudo isso dá duas ideias: a de que os interesses são vinculados à popularidade dos temas e que há uma hierarquia de importâncias entre as notícias dos fatos, mesmo que não exista essa mesma hierarquia entre os fatos em si. Afinal de contas, um fato é um fato, e a importância que cada um deles tem não diz respeito apenas às pessoas que atingem, mas COMO as atingem. Podemos trazer inúmeros outros exemplos: Senna e Ratzenberger, Mariele e motorista, Teori Zavascki e piloto, Rick e empresário, etc. Ocorre que há interesses movimentando a ênfase e a importância dada, bem como ao volume de exposição ofertado. Por mais que se queira exercitar o desinteresse, não há como evitar um crivo subjetivo.

E vamos e venhamos… Jornais são empresas, que, além de tudo, possuem o componente lucro a lhes mover. É romantizar demais que uma reportagem contrária a si mesmo seria fornecida com o mesmo fervor com que se faria ao amiguinho do lado, seu concorrente. Por isso mencionei que uma posição tomada é sempre melhor do que uma atitude sub-reptícia, como faz o homenageado da vez. 

Por isso, e levando em consideração que uma teoria no âmbito científico deve ser a descrição do que se observa na realidade, a teoria do espelho não pode receber tal valor, sendo, no máximo, um guia de intenções ou um código de ética, aquelas coisas raras de se aplicar na prática. Outras teses foram levantadas nesse universo, e são igualmente interessantes. Vou abordá-las quando for conveniente.

Por fim, aproveitei a minha passagem pela Feira e fiz lá minhas comprinhas, dei meus pitacos nos debates e fiquei feliz de ver alguém da área esportiva sendo laureado. Soube que o velho Trajano esteve por lá na abertura do evento, e gostaria de ter estado nesse momento. Quem sabe no ano que vem? Bons ventos a todos.

Recomendações:

Comprei esse livrinho em uma das bancas. É muito pessoal e honesto com relação às memórias, agradável de ler. Ideal para viagens de ônibus.

TRAJANO, José. 1960: Quando as Estrelas Ficaram Vermelhas. São Paulo: Onze Cultural, 2024.

Já a FLIART ocorre anualmente desde 2024, sempre no mês de maio. Para acompanhar as programações do evento, há o seu Instagram, que traz as novidades.

https://www.instagram.com/fliarttaroba/

O endereço da Rodoviária Nova de Taubaté é o seguinte:

 

Terminal Rodoviário de Taubaté

Rua Benedito da Silveira Moraes, s/n, Jardim Ana Emília 

Taubaté/SP

A aproximadamente 130 Km do centro de São Paulo