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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Tentativa simples de explicar a metodologia científica com o uso do futebol

Olá!

#FiqueEmCasa

Tenho dito muitas vezes que o grande problema da Ciência consiste em não se expressar bem como ela funciona para as pessoas que cruzamos na rua. Como as coisas na academia são muito reclusas, a maioria da população pouca compreensão tem daquele mundo em que se imagina ser habitado por seres de outro planeta, ensimesmados em seus jalecos brancos. Por isso, contra essa seita de iniciados, a galera se volta com argumentos falhos, mas que parecem fazer sentido, já que falta justamente esse entendimento que a lógica fácil das teorias conspiratórias tem. E, com isso, dá-lhe vinagre na garganta para matar o coronavírus, com um salzinho para arrematar, porque a dedução é simples: o bicho fica morgando na garganta, e não resistiria a tanta acidez... Para explicar que isso é rematada bobagem, um infectologista precisaria de dez laudas para demonstrar tanto as inércias das substâncias quanto os malefícios às mucosas do trato gástrico, além de expor que a história de que o vírus fica parado na garganta saiu do rabo da mente sabe-se de que filósofo de porta de boteco. Mas é preciso sempre tentar, porque ainda não há atividade humana que tenha mais aval de busca da verdade do que a Ciência, com métodos bem delineados para que suas pesquisas fujam dos achismos alla terra plana. Entretanto, como a metodologia científica não é a coisa mais simples de se entender, eu compreendi que é preciso usar elementos que estejam à mão para que meus poucos leitores absorvam como ela funciona. Por esse motivo, vou caminhar por uma vereda um pouco mais próxima de nosso quotidiano. Vamos ver se dá certo.

O futebol não é só uma questão de lazer, mas um campo de prova onde podemos filosofar a beça, e, inclusive, usar como suporte para entendermos coisas muito mais sérias. Afinal, como diria o controverso radialista Milton Neves, o futebol é a coisa mais importante dentre todas as menos importantes, algo assim. A partir dele, podemos construir uma montanha de metáforas e elaborar exemplos, como aquele que passo a narrar.



Em um desses clubes da vida, em tempos menos insanos que os atuais, um técnico de futebol começa a planejar seu time para o campeonato que está a beira de começar. Repassando os acertos e desventuras das jornadas pretéritas, recorda-se de um fenômeno que o incomodou deveras, e que pretende revisar a partir de agora: ele percebeu um número muito grande de quedas e escorregões de seus atletas, o que, a princípio, parecia ser um problema do material esportivo utilizado. Eram chuteiras decentes, os jogadores tinham bom preparo físico e o evento se repetia seja qual fosse o tipo de terreno, o que reduzia o espectro de hipóteses. Notou não somente seus atletas estatelados, mas também observou certas condições, como o estado geral dos calçados ao término das partidas e como os campos de treinos eram afetados. Percebeu que, ao término das atividades, a área estava menos prejudicada do que seria esperado. Quem é do ramo sabe o quanto fica diferente um gramado antes e após seu uso. Por isso ele agarrou-se à questão das travas. Para quem não sabe, futebol de campo é praticado sobre a grama, e calçados que não sejam cravejados fazem parecer que você está correndo sobre o sabão. As travas se destinam exatamente a evitar os escorregões, mantendo o intrépido ludopedista de pé. Elas são intercambiáveis, podendo ser rosqueadas ao solado da chuteira ao bel-prazer do usuário. Vejam um modelo mais tradicional:

(Extraído de https:// www.prodirectsoccer.com)

O nosso herói pensou em duas alternativas: utilizar travas mais duras ou mais altas. Conhecedor empírico da alma humana, sabia que simplesmente noticiar a troca aos jogadores poderia causar melindres e reações indesejáveis, agora que os atletas mais se assemelham a estrelas de Hollywood. Ainda indeciso quanto ao melhor modelo, resolveu a coisa da seguinte maneira: dividiu o time de acordo com seu posicionamento tático, formando três setores: o direito, o esquerdo e o central, mais ou menos da seguinte forma:


Desta maneira, a ala direita seria formada pelo lateral-direito, pelo zagueiro-central*, pelo meia-direita e pelo ponta-direita. O lado esquerdo teria o lateral-esquerdo, o quarto-zagueiro, o meia-esquerda e o ponta-esquerda, enquanto a faixa central seria ocupada pelo goleiro, pelo médio-volante e pelo centroavante, respeitando seu desenho tático favorito. Para colocar seu projeto em prática, convocou o roupeiro e instruiu-lhe para que preparasse as chuteiras com travas altas para um setor, travas duras para outro e mantivesse as travas antigas para o terceiro. Além disso, mandou que ele, e apenas ele, registrasse qual setor estava usando o modelo determinado, sem que mais ninguém, nem mesmo o próprio treinador (ele também tinha um bom autoconhecimento), conhecesse a escolha. E, por fim, que a mesma escolha fosse utilizada por todo o campeonato. Após isso, o técnico determinou a um dos preparadores físicos que cuidasse de anotar os números de quedas e de escorregões de cada um dos jogadores, indexados pela sua posição em campo, jogo após jogo. E estes foram muitos. Sendo um campeonato com vinte equipes, em jogos de ida e volta, o torneio teve um total de 38 partidas, em todo tipo de terreno e condições: chuva leve, chuva pesada, sereno noturno, grama rala, grama espessa, grama natural, sintética e mista, chão duro, arenoso, revolvido, esburacado e até mesmo nas famosas mesas de bilhar que viraram nossas recentes arenas. Ao término do campeonato, juntaram-se as anotações do preparador com o gabarito do roupeiro e os números puderam ser analisados, o que fez com que o laborioso treinador pudesse chegar às suas conclusões, e elas não nos importam nem um pouco neste momento, até mesmo porque estamos diante do estudo de um caso fictício. O que nos interessa aqui é que nosso amigo delineou e seguiu um método, que, uma vez seguido à risca, trouxe a ele informações preciosas para melhor gerir seu time, e, mais do que isso, assemelhou-se muito à metodologia científica.

Isso tudo porque a Ciência funciona exatamente dessa forma, com um ato de liberdade do pensamento diante do mundo que se apresenta à nossa frente que, contraditoriamente, se encerra como "criatividade" aí mesmo, porque, passada a fase da ideia, daí por diante é só regras.

Só que esse ato de liberdade possui um roteiro. O começo é a observação de algum fenômeno que se passa no cosmos: uma estrela desconhecida, uma nova doença ou jogadores que se espatifam no chão. Diante do espanto, surge a problematização, que costuma ser uma pergunta: o que é aquela estrela, como se desenvolveu essa doença ou por que os atletas caem? Por fim, teremos as propostas de solução, ou seja, o levantamento de hipóteses. Estas devem permitir que se estabeleçam regras gerais verificáveis, ou seja, deverá ser possível que se façam previsões a partir das premissas utilizadas para a confecção das hipóteses. E, como eu disse antes, acabou o espaço da liberdade. Isso porque daí por diante principia o processo mais difícil do método: a coleção de experimentos e de observações.

Vamos andando devagar. Como tudo isso acima pode ser aplicado ao exemplo que montamos? O treinador tem diante de si o pedaço de mundo que lhe toca, e nele está se desenrolando um fato que lhe perturba, e essa é a observação. Poderia passar batido, mas o fato é que o fenômeno lhe traz algum tipo de incômodo que precisa ser resolvido, e temos a problematização. Notem como fatos não problematizados não tem significado algum no que tange à cientificidade, porque estão fora do nascedouro das resoluções práticas. Estas últimas são o que fazemos quando imaginamos de forma sistemática os caminhos para desfazer o problema. No caso do treinador, ele supõe que a melhoria está na mudança das travas, mas não se trata de puro achismo. Aqui, está sendo aplicado tudo aquilo que discuti no texto anterior, em que falamos sobre inferências. Na observação dos escorregões, o técnico percebe uma repetição dos fenômenos, de forma a lhe induzir uma relação de causa e efeito. Para formar os motivadores do fenômeno, além da constância nas repetições, usa de observações indiretas abdutivas, como o estado do campo de treino, que não é uma observação direta. Finalmente, para formular as hipóteses, é construído um argumento dedutivo, semelhante ao que segue: “as quedas e escorregões são causados pela inadequação das travas das chuteiras. Se utilizarmos travas mais duras ou mais altas, o problema será resolvido pelo aumento da aderência ao gramado”. Para o exame da verdade das premissas, mais uma vez o técnico usará o método indutivo para aferir a validade de sua hipótese, repetindo a experiência tantas vezes quanto possível. Dedução, indução e abdução... As inferências a serviço da produção científica. Não é interessante? Mas vejam mais: a própria formulação da hipótese já contém uma previsão, o que é essencial no método científico, porque é dessa previsibilidade que redundarão os experimentos, a próxima fase da metodologia.

Esse método é chamado de hipotético-dedutivo, o mais comum dos caminhos científicos. Como pode ser visto, apesar do nome, não se baseia em deduções, a não ser na formulação da hipótese, que é um dos passos iniciais da pesquisa. A próxima etapa em geral é a mais longa de todas: o teste das hipóteses, que é realizado através de experimentação. Deve ser descrita minuciosamente, porque outra característica básica da pesquisa científica é a sua reprodutibilidade, ou seja, um outro cientista que queira conferir a experiência deverá ter todos os elementos que foram levados em consideração, para que possa corroborar ou refutar a hipótese.

A fase de experimentação é, de longe, a mais detalhada e mais complexa. Uma série de declarações e descrição dos métodos adotados faz com que esta fase seja imensamente burocrática, ao menos na aparência. Isso visa assegurar publicidade e compreensão do que se está fazendo. Muitos componentes fazem parte dessa discriminação, e esmiúçam cada uma das características de uma pesquisa. Vamos entender somente alguns, para não ficar longo demais.

Em nossa pequena aventura, a população total de jogadores foi dividida em três grupos, sendo que dois desses participarão da experiência em si, com a inclusão da variável trava de chuteiras, e um servirá para comparar o desempenho dos demais sem a alteração da única variável testada, utilizando as travas originais. Os grupos ativos no experimento são chamados de grupos experimentais e o grupo utilizado para comparação é chamado de grupo controle.

Esse trabalho todo não é um mero capricho. O treinador utiliza um método muito comum na medicina e na psicologia, conhecido como cegamento. Neste caso, algumas ou todas as partes envolvidas na pesquisa desconhecem em que grupo se encontram. Como a psique humana é povoada de enviesamentos, essa técnica impede que algum dos membros da pesquisa acabe por modificar a percepção que tem dos experimentos. No caso do exemplo, um jogador poderia se sentir incomodado ao saber que está utilizando uma trava diferente da habitual, e isso pode afetar seu desempenho. Da mesma forma, o profissional que contabiliza as quedas pode prestar mais atenção aos atletas que estão no grupo experimental do que no grupo controle, fazendo as estatísticas ficar furadas. Nestes casos, temos a possibilidade de um efeito placebo nos indivíduos observados (tema que abordarei no próximo post) e de viés de confirmação nos pesquisadores (conforme já tratei neste texto).

Pesquisas podem utilizar estudos descritivos ou analíticos. Nos primeiros, o objetivo é determinar o que é o fenômeno observado em si, e servem, como o nome diz, para descrever como, onde, com quem e porque, ou seja, busca identificar estaticamente o objeto de estudo. Já no estudo analítico, a meta é validar uma hipótese dinâmica, que busca modificar uma situação fenomênica. Uma mesma pesquisa pode incluir os dois estudos, determinando o que é um fenômeno e buscando uma solução para ele, se cabível. No caso do nosso time, há uma intenção dinâmica, ou seja, buscar uma solução, e não uma mera descrição, para as quedas dos atletas, então podemos dizer se tratar de um estudo analítico.

Outro aspecto da pesquisa diz respeito à questão de como se utilizar da linha do tempo na avaliação dos acontecimentos. O método transversal vê todos os fatos ocorrendo em um único momento, enquanto o método longitudinal é aquele que ocorre durante um determinado período. Se fôssemos considerar cada um dos jogos observados individualmente, teríamos uma pesquisa transversal em nosso exemplo. Acontece que a mesma segue por todo o período do campeonato, seguindo a régua temporal que avança em direção ao término da temporada. Por isso, nosso caro amigo estabeleceu a longitudinalidade em seu estudo.

Mais um ângulo da pesquisa diz respeito às fontes de dados da experimentação. No nosso exemplo, como o fenômeno dos cai-cai é observado diretamente, dizemos que as informações vêm de uma fonte primária, ou seja, é o próprio campo observacional que está gerando os dados; no caso, a análise direta das partidas jogadas. Mas também poder-se-ia utilizar fontes secundárias, pelo aproveitamento de pesquisas feitas anteriormente ou por observação indireta, como o uso das mesmas chuteiras por outras equipes.

Outro enfoque se dá na questão da independência das amostras. Na comparação do desempenho das camadas estabelecidas pelo roupeiro, levamos em consideração o que fez um grupo em relação a outro, e não de indivíduo por indivíduo. Isso significa que não importa individualmente as quantidades de tropeços, mas a média que obtemos de cada setor. Quando isso ocorre, temos grupos não pareados. Para termos grupos pareados, necessitaríamos fazer uma correlação direta entre os componentes, como, por exemplo, confrontar os números do lateral-esquerdo com o lateral-direito, do meia-esquerda com o meia-direita e assim por diante. Como temos três grupos escolhidos aleatoriamente, o pareamento não faz sentido, neste caso.

Mais uma perspectiva. Qual é o nível de abrangência do estudo? Quando uma pesquisa necessita extrair dados com foco direto em um membro, dizemos que ela tem nível individual. Por outro lado, se o que está sendo estudado é um conjunto de membros, seu nível é agrupado. Aqui, temos uma pegadinha. Embora a coleta de dados seja em cima do indivíduo, no nosso caso exemplo o que nos importará são medidas agregadas, ou seja, médias e proporções oriundas de variações individuais. Por isso, o nível da pesquisa do nosso caso é agrupado.

Outra coisa é a extensão da pesquisa. A validade interna de um experimento diz respeito a uma verdade que pode ser estabelecida ao âmbito restrito da população pesquisada, o que é exatamente o caso de nosso exemplo. Percebam que, para obter validade externa, é preciso que o pesquisador esteja convencido da transponibilidade de seus resultados a uma população mais extensa, sendo os mesmos considerados válidos para qualquer clube de futebol, no nosso caso, evidentemente.

Acham que acabou? Tem mais. Com relação ao tipo de dado que é apurado, uma pesquisa pode ser quantitativa ou qualitativa. O primeiro caso usa Estatística e Matemática para obter medidas, com grande aceitação em Ciências Exatas. Já a pesquisa qualitativa possui um forte componente subjetivo, onde não há uma padronização muito evidente, o que é amplamente utilizado em Ciências Humanas, mas não só. Muitas análises na área de saúde utilizam os dois métodos, às vezes concomitantemente. É óbvio que o incansável treinador utiliza sua pesquisa com fins quantitativos, pois seu molde utiliza contagens, sem considerar depoimentos e outras subjetividades.

Tá bom, né? Paro por aqui, mas saibam que essa é só uma amostra de itens que precisam ser descritos em fase das experimentações de uma pesquisa.

Após as experiências, é o momento de se analisar os dados obtidos, para que ocorram os descartes e confirmações. É necessário tabulá-los e verificar se corroboram ou contradizem as hipóteses, sendo necessário fazer revisões nas provas e reformulações nas premissas, se for o caso. É um momento extremamente delicado, porque a apuração das informações deve seguir uma lógica rígida e, especialmente, desapaixonada. A boa pesquisa leva isso em conta: descartar idiossincrasias e ater-se aos resultados. Imagine que o treinador invoque com as travas altas, mas que o resultado aponte que elas não mudam em nada no comportamento do grupo. De que vale ele bater o pé? Que adiantou todo o esforço de uma temporada inteira? Além disso, é preciso mensurar a suficiência dos dados. Imaginem que, em um ano especialmente seco, nenhum dos 38 jogos tenha sido disputado em campo molhado. Será preciso ponderar se a pesquisa deverá ser estendida por mais uma temporada ou que outra forma de experimento seja cotejada, marcando amistosos para um dia que se saiba chuvoso. Também é possível restringir o escopo da pesquisa, diminuindo seu alcance. Dessa forma, será introduzida uma exceção na hipótese inicial, dizendo que a mesma não se aplica a dias de chuva.

Terminados os longos relatórios de análise, a fase seguinte é a bolachinha mais gostosa do pacote: a conclusão. Seu objetivo é manifestar o resultado da pesquisa, ou seja, se estas respondem adequadamente às hipóteses levantadas. É preciso deixar consignado que uma conclusão negativa também é digna de ser divulgada. Caso as travas não façam nenhuma diferença com relação à chuteira original, é bastante importante tornar pública essa informação, para que se torne parte do patrimônio intelectivo da humanidade. Uma pesquisa honesta, por sinal, declara seus resultados até mesmo quando for inconclusiva, porque seus dados poderão ser ponto de partida para pesquisas mais abrangentes. Quando a resposta à hipótese é obtida positivamente, teremos uma teoria. Leiam mais sobre isso neste meu outro texto, quando sou mais específico com relação a essas nomenclaturas.

Saindo agora do horizonte fictício de nosso exemplo, é preciso explicar como os resultados de uma pesquisa se tornam públicos. Embora eu já tenha registrado este tema neste texto, é preciso abordá-lo para dar um fecho firme a todo meu esforço. A divulgação é feita através de revistas científicas. Muitas delas são renomadas, como a Nature, Science ou Lancet, mas todas elas seguem os mesmos ritos. O conteúdo dos relatórios de pesquisa é analisado por outros cientistas, eméritos no ofício, e que determinarão se todos os critérios foram corretamente atendidos. Eles emitirão um parecer que deve ser parte integrante da publicação. Isso é muito importante para que se meça a aderência da proposta aos ditames científico-acadêmicos. E para que uma publicação receba o carimbo de cientificidade ela necessita atender os seguintes critérios (dependendo do tipo de pesquisa, outros quesitos necessitam ser atendidos):

Falseabilidade: é necessário que a conclusão seja falseável, ou seja, que possa ser provada falsa. Esse é o critério mais significativo no consenso científico atual. Já falei sobre o tema em vários textos, mas os mais interessantes são este e este.

Verificabilidade: as experiências realizadas precisam ser reprodutíveis para que possam ser verificadas por qualquer cientista que se proponha a conferir os resultados.

Abertura à comunidade: é o princípio da publicidade em si. Todos os dados devem estar disponíveis, constando as hipóteses, métodos e resultados. Enfim, um completo tim-tim por tim-tim de como os procedimentos foram desenvolvidos.

Especificidade: reza que a pesquisa e seus relatórios devem ser precisos, de modo a abarcar um objeto específico e não fugir dele, além de não se aplicar explicações ad hoc para justificar conclusões nebulosas.

Ética: os experimentos devem expor detalhadamente qualquer risco que os participantes possam correr. Estes riscos também não podem ser excessivos e é preciso garantir o sigilo dos observados.

Ufa! Quanta coisa... É por isso que a metodologia científica não é simples de entender. Mais difícil ainda é compreender como a transitoriedade é uma marca intrínseca à Ciência. Uma teoria é sempre uma tentativa de explicar um fenômeno, e não há prova definitiva nesse sentido, porque sempre operamos com os dados empíricos que temos na mão. A cada vez que uma novidade surge, pode falsear tudo aquilo que conhecíamos e nos levar novamente ao ponto zero. E isso é desagradável para o senso comum, que espera respostas claras e definitivas, o que a Ciência não pode dar. Essa é sua fraqueza e sua virtude, e convém que saibamos que é desse jeito que colocamos satélites no espaço, curamos doenças milenares e colocamos computadores diante de nossos olhos.

Bons ventos a todos!!!

Recomendação de leitura:

Uma boa obra sobre método científico vai indicada abaixo, embora tenha a complexidade esperada para o assunto ao qual se volta:

LAKATOS, Eva; MARCONI, Marina. Fundamentos de Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 2003.

*Ora, direis, como um zagueiro-central pode estar na sua camada direita? Se você está fazendo essa pergunta, certamente é muito jovem. Você não está errado, mas nós, já carentes de cabelos, acostumamo-nos a manter esse nome para o beque que joga mais à direita do miolo de zaga, enquanto aquele à esquerda é o quarto-zagueiro, designação que também não faz mais nenhum sentido.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Inferências diversas como matéria-prima para a metodologia científica, ou tempos de saber melhor como funciona a Ciência

Olá!

#FiqueEmCasa

Eu tenho reiteradas vezes neste espaço mencionado como é frequente a maneira como as Ciências vêm sendo colocadas contra a parede nesses loucos tempos em que vivemos. Tem sido até cansativo falar mais de uma vez sobre os mesmos temas, mas eu falo com a liberdade de quem tem a consciência leve de já ter escrito não só sobre os seus prós, mas também sobre os seus contras, inclusive sobre uma certa arrogância da comunidade científica. Então não posso negar que, a parte toda a dor, sofrimento e desconforto que o coronavírus tem causado para nossa gente, tenho lá no fundo uma satisfaçãozinha em ver tanto maluco na expectativa de que essa mesma Ciência lhes traga uma resposta e, de preferência, uma cura. No entanto, ainda permanece uma ignorância sem limites (que vemos inclusive em altos escalões), e o pessoal esgota estoques de medicamentos que não tem nenhuma comprovação de eficácia contra a marota doença, como é o caso da cloroquina, deixando pacientes de lupus e malária descobertos em seus tratamentos, e para quem o fármaco é comprovadamente eficaz.  Além disso, a explosão de compras de álcool gel e máscaras dá uma boa mostra do nosso egoísmo, sem contar alguns governos poderosos que resolveram brincar de piratas de respiradores, passando por cima não somente de acordos comerciais, mas de um mínimo de alteridade. Como todas essas coisas ainda estão acontecendo, e certamente ficarão marcadas em nossas mentes, quero crer que as pessoas passarão a olhar com um pouco mais de confiança para a Ciência, e vou por em prática uma vontade antiga, mas que eu estava desanimado em fazer. Em um serviço de utilidade pública, vou tentar didaticamente explicar o que é o método científico.

Ora, direis, essa não é tarefa de cientistas? Que pode um pobre professor de Filosofia querer explicar melhor do que um praticante do ofício? Não, cara-pálida. Um cientista não está preocupado com o desenvolvimento de um método, mas em segui-lo. A tarefa de discernir qual é a segurança que se espera para o conhecimento da verdade possível é, sim, tarefa da Filosofia, mais especificamente da Filosofia da Ciência, como discorri neste texto. Portanto, a tarefa é cabível e importante de fazer. Ainda que meu alcance seja muito pequeno, entendo que faz parte de meu mister e de meu sacerdócio. Se uma só cabeça se puser a pensar por conta de meus escritos, me dou por contente.

No entanto, a faina não é tão simples assim, e eu preciso, a guisa de introdução, falar sobre a questão das inferências, porque essa é a base de todo o pensamento lógico, o carpete no qual a miss científica deve desfilar. Vou dedicar este post a esse assunto, para depois, no próximo, e já bem fundamentado, partir para o método em si. Vamos lá!


Por mais que quase nunca estejamos concentrados neste tipo de coisa, nosso pensamento tem uma espécie de esqueleto, que faz com que nossas reações diante do mundo sigam mais ou menos uma mesma lógica. Pensa só: você vê carne e cerveja na geladeira. Do estranhamento inicial, você puxa elementos que possam justificar aquela infrequente presença em dias de tanta carestia. Olha para o calendário e averigua alguma data especial, tenta lembrar-se de um aniversário, ou de um fato memorável... No final das contas, o mistério é resolvido pela patroa: com essas reprises de final de copa do mundo, ela quis dar uma recriada no clima e comprou o almoço de então – o tal churrasco e cerveja. Então temos a percepção de um fenômeno e os diversos mecanismos mentais que tentam decifrar a charada. Fazemos isso o tempo todo e, claro, não ficamos raciocinando sobre o raciocínio.

Quando lançamos perguntas ao universo, acontece a mesma coisa, com o acompanhamento da nossa velha sanha por conhecimento. O problema está na definição deste último, que tem uma familiaridade quase que incômoda com a verdade demonstrável. Afinal de contas, creio que ninguém gosta de suspeitar se o estranho aditivo contido naquele misterioso vidrinho do armário é tempero ou veneno. Por isso é bom conhecer – uma questão de sobrevivência, e não mera curiosidade.

Acontece que, de acordo com o nível de precisão que queremos para nossas respostas, aumenta proporcionalmente o rigor com o qual precisamos construir nossos raciocínios. Se a coisa chega ao ponto de se buscar respostas científicas, mais se precisará ser metódico com os pensamentos. A Ciência sempre está preocupada em localizar a verdade, o conhecimento certo e seguro. E como se mede a verdade? Através das inferências.

Inferência é um nome que se dá para as operações mentais em que se pode atribuir um valor de verdade a uma proposição, que, por sua vez, como sua própria etimologia nos denuncia, é uma proposta, uma sugestão, algo que se apresenta para dar uma resposta, mas que é passível de receber um valor crítico de “sim” ou “não”. Quando se faz uma proposição, faz-se uma submissão a um juízo, e é justamente colocando-a em uma inferência que o fazemos.

Estou no filosofês, e vou usar nosso exemplinho acima para traduzir em português. Quando eu vejo os acepipes e não sei sua origem e destino, começo a fazer especulações: é aniversário? É festa? É almoço especial? Cada uma delas é uma proposição, ou seja, eu proponho uma resposta para a dúvida, que, no final das contas, vem no término de uma cadeia de constatações e raciocínios obtidos a partir da realidade: a carne e a cerveja encontradas na geladeira. As proposições completas seriam mais ou menos assim:


Neste esqueminha, temos as observações iniciais e quatro hipóteses levantadas, sendo que conseguimos comprovação da última. Cada quadradinho representa uma proposição, que pode ser verdadeira ou falsa.  Não são só as respostas finais que devem receber juízo de valor, mas cada um dos passos. Por exemplo, é necessário que de fato tenham sido vistas as guloseimas na geladeira, porque poderia ter sido uma ilusão de ótica, ou poderiam não ser para o bico do contribuinte; também é preciso que a churrascada efetivamente represente um motivo de festa para aquela família. Gaúchos comem churrasco no dia-a-dia, como é o caso do feijão preto dos cariocas, do cuscuz dos baianos, do açaí dos paraenses. É preciso que tudo isso faça sentido antes de se chegar no ponto das hipóteses, cada uma delas também mensuráveis e capazes de ganhar um valor de verdade. Então uma inferência é isso: uma espécie de passo a passo mental, onde a validade de cada um deles leva o raciocínio adiante.

Claro que a Ciência não se vale de carnes e cervejas em dias de futebol para preencher seus cânones, mas, conforme a minha proposta, fiz uma simplificação bem grosseira sobre os mesmos raciocínios que utilizamos todas as vezes em que queremos obter conhecimento seguro. Mas a coisa não é tão simples assim, obviamente. Há diferenças na maneira como o raciocínio lógico tem suas formas, e, de acordo com o foco no qual este raciocínio se dirige, teremos uma forma diferente. Em metodologia científica, utilizam-se três destas formas de raciocínios lógicos: a dedução, a indução e a abdução. Isoladamente, não são capazes de produzir todo o encadeamento lógico necessário para que a metodologia científica se consolide, mas, uma vez articuladas entre si, cada uma com seu respectivo papel, fazem com que a mágica (mágica não, em Ciência não há mágica) coisa aconteça. Vamos a elas.

1 – Dedução

No campo argumentativo, temos uma dedução quando, a partir da colocação de premissas, chegamos a uma determinada conclusão, o que chamamos de consequência lógica. Mas o que são essas tais de premissas? Com origem no latim, essa palavra vem de praemissa, que significa “colocar antes”. Isso nos indica que uma premissa é um dado, uma informação ou uma proposição que permite o desenvolvimento de uma lógica conclusiva. As premissas são ideias que movimentam um raciocínio na busca de um desfecho, e na forma dedutiva elas são a matéria-prima da conclusão que lhes seguem.

Vamos ao nosso exemplo anterior. É possível montar o raciocínio da seguinte forma:

Só fazemos churrasco em casa quando há uma data especial

Há material para churrasco na geladeira

Logo, temos uma data especial

O pulo do gato da dedução consiste em garantir que a veracidade das premissas sempre assegura a verdade da conclusão. Como corolário, temos que uma premissa falsa torna a conclusão necessariamente falsa. Sempre que isso acontecer, temos um argumento válido, ainda que não seja verdadeiro. Note que o grande propósito da dedução está, por conseguinte, em sua mecânica – que sempre assegura lógica na conclusão.

Sem dúvidas, o modelo mais clássico de dedução vem dos silogismos aristotélicos, que encadeiam uma premissa maior, mais geral, a uma premissa menor, mais particular, que são amarradas por um termo médio que não aparece na conclusão. No exemplo, esse termo médio é “churrasco”, por aparecer nas duas premissas e não aparecer na conclusão, mas não existe só esse modelo de dedução, que podem costurar várias premissas para desfechar a conclusão. O importante é que seja sempre mantida sua validade. Se, por exemplo, o argumento fosse mudado para...

Só fazemos churrasco em casa quando há uma data especial

NÃO há material para churrasco na geladeira

Logo, temos uma data especial

... então teríamos um problema lógico, que costuma ser chamado de non sequitur (“não segue que”, em latim). Por que? Porque, sendo verdadeiras as premissas, a conclusão é falsa. Desta forma, esse é um caso de argumento inválido.

Como vimos até agora, a dedução tem o propósito de possuir uma estrutura lógica válida, o que não quer dizer que ele é verdadeiro. Afinal de contas, qualquer das premissas que for falsa (ou ambas) fará com que a conclusão seja falsa, e aí não teremos grandes resultados à nossa frente. Por isso, a dedução realmente boa tem como característica não só sua validade, mas também sua solidez, que ocorre quando temos diante de nós premissas verdadeiras produzindo conclusão verdadeira.

A dedução, apesar de ser tão bonitinha, não passa imune de problemas. O principal deles é que a conclusão já está implícita nas premissas, ou seja, nada mais é do que a definição analítica de uma informação que nós já temos, no final das contas. Isso acontece porque, embora não seja uma regra 100% válida, uma dedução parte de uma afirmação mais abrangente, por vezes universal, e passa por uma afirmação mais restrita, ou seja, mais particular. Seguindo esse fluxo, a conclusão nada mais é do que uma proposição que já estava contida implicitamente nas proposições anteriores. O resultado é que não temos nenhuma informação nova, a não ser a análise de um fenômeno que já estava desvendado. Isso nem sempre é um problema, porque muitas vezes, em Ciências, o que queremos mesmo é desvendar mistérios. Mas a propositura de uma dedução para descobrir novas aplicações nem sempre é a mais indicada. E há ainda o problema de que as premissas em uma dedução são tomadas como axiomas – verdades consensuais. Se um desses postulados cair, cai toda a solidez dedutiva, já que uma premissa falsa torna a conclusão igualmente falsa.

2 – Indução

Pois bem. Se a dedução é boa para dar firmeza às nossas conclusões, porém não nos fornece nada além do que já podemos capturar a partir das premissas, é preciso que exista uma forma de sistematização dos conhecimentos aquisitivos. E como esse tipo de coisa acontece em nossa vida natural? Através da observação contínua e da repetição dos fenômenos, e de uma forma de raciocínio que os sintetize. Vejam bem. Digamos que você seja chegado em bater uma bolinha, mas esteja precisando aperfeiçoar seu chute a gol. Para fazer isso, vai até o campinho treinar várias vezes. Você percebe que várias modalidades de tiro ao gol são eficientes, mas a melhor delas é quando você chuta com o lado externo do pé, a famosa trivela, de maneira a perceber uma curva que se produz quando o golpe é proferido certeiramente. Todas as vezes em que o chute é aplicado condizentemente, a bola descreve uma trajetória que deflete para o lado oposto ao giro do corpo. Em miúdos: a bola faz uma curva em direção à meta, e um chute que aparentemente iria pela linha de fundo morre no fundo das redes. Chuta-se uma e o fenômeno acontece; duas, também, e três, e quatro, e cinco... Forma-se assim uma linha de tendência, que nos INDUZ a crer que todas as vezes em que uma trivela for bem pega na orelha da bola, teremos essa mesma descrição da curva. De um jeito meio brejeiro, descrevi como funciona a indução.

Percebam que o fundamento da indução não está em um encadeamento puramente lógico, como ocorre na dedução, mas na observação e na experimentação. Cada fenômeno é observado de forma a constituir uma espécie de catálogo de novas informações, de modo a formar um arcabouço que dê suporte à conclusão atingida. A indução é, pois, uma ferramenta empírica.

Notaram como na indução o mais importante está na definição de uma regra, e não no desenho do argumento em si? Se por um lado isso permite a aquisição de conhecimento novo, por outro carrega consigo a falta de firmeza que a dedução tem. Voltando ao nosso exemplo, imaginemos que, uma vez bem treinado, o nosso herói-atacante vá por em prática suas novas habilidades, e tendo uma falta em distância compatível, vá arriscar uma de suas trivelas. Afinal de contas, a curva descrita tanto faz a bola contornar a barreira quanto sair do alcance do aflito guarda-metas. Acontece que, embora o disparo saia como manda o manual, a pelota vai em uma jocosa linha reta, indo parar na zona morta, próximo à bandeirinha do corner. Ora, ora, ora... o que pode ter havido?

Essa é a desgraça e a vantagem da indução. Ela nunca consegue elaborar argumentos definitivos. Quando juntamos mais e mais evidências, temos uma probabilidade cada vez maior de que a conclusão esteja correta, mas nunca temos a certeza absoluta. Deste modo, a trivela de nosso embasbacado atacante funciona bem até que um ventinho ordinário compense o efeito do giro da bola para fazer com que a mesma caminhe vergonhosamente reta, desfazendo a tese em segundos. É por isso que não se fala em argumento indutivo válido, mas forte. Porém, por outro lado, como a conclusão indutiva nunca é derradeira, sempre podemos receber informações novas, e aprofundar o conhecimento que tínhamos anteriormente, o que dificilmente conseguimos com o raciocínio dedutivo. Aprendemos, no exemplo, que o vento influencia na trajetória da bola, assim como outras observações farão concluir que o mesmo ocorre com diferentes pressões internas, com o número de gomos, com a consistência do terreno, com a chuva, e così via. Por isso, a indução não é monotônica como a dedução, além de ser ampliativa, no sentido de possibilitar o aprimoramento do conhecimento.

A indução é menos preocupada com a forma, e mais com os percentuais de acerto de suas previsões. A cada novo resultado que corrobora a ideia inicial, mais forte fica o argumento defendido, até que seja esperado caminhar para uma generalização. Um espectro pequeno de itens investigados faz uma indução fraca, que vai ampliando seu grau de força na medida em que ganha novas corroborações. Mas ela é sempre escrava de sua limitação de alcance, como acontece com as pesquisas eleitorais (um levantamento aponta uma tendência; a pesquisa definitiva vem das urnas), já que não consegue estabelecer uma universalidade, pelo simples fato de não conseguir vislumbrar todas as possibilidades de um determinado fenômeno. Quando um deles desmente a hipótese a que se chega, é preciso refazê-la, ou até mesmo descartá-la. Quando eu falar sobre a metodologia científica em si, vai ficar mais fácil de entender, mas a indução nunca traz um resultado definitivo.

3 – Abdução

Vamos criar uma outra estorinha para dar pano de fundo ao que falaremos agora. Você acorda com uma dor de cabeça daquelas de soltar a tampa do crânio para que o cérebro pule fora. Ao tentar se levantar, tem a impressão de que deu com a cabeça em um trilho de ferro. Voltando a se recostar, fica se perguntando o que pode ter acontecido, e faz um inventário de causas possíveis. “Poxa, eu fui no estádio ontem... Será que foi o sanduíche de pernil? Será que foi a gritaria na torcida? Será que eu fiquei muito tenso? Será que eu peguei um vírus na multidão? Será que eu tomei friagem? Será que eu desloquei um osso da cabeça? Será que é um castigo de Deus?”. São sete hipóteses diferentes para justificar o mal que lhe acomete, esquecendo-se de uma oitava, a bebedeira dionisíaca que você tomou na saída da contenda. É notável que todas essas hipóteses têm graus diferentes de probabilidade. Realmente, um bel’ porre é uma explicação muito mais plausível do que um vírus de efeito imediato ou de uma divindade mal humorada que não goste do esporte bretão. Fazer a seleção da melhor hipótese possível a partir de uma relação de causalidade é o que faz a abdução, que, como se pode notar, não tem o mesmo sentido atribuído às capturas de humanos por OVNI’s.

O processo abdutivo tem parentesco tanto com a dedução quanto com a indução. Da primeira, por formar algo como um silogismo na relação de causalidade que busca explicitar; da segunda, por tratar de formar hipóteses através de observações. Mas o que melhor caracteriza a abdução é o seu caráter indireto, ou seja, não se calca na observação direta de uma cadeia de causas e efeitos. É como se percorresse o caminho inverso das outras duas – você precisa buscar as premissas de uma conclusão já obtida. No exemplo da dor de cabeça, essa é a conclusão. As hipóteses colocadas são candidatas a premissas.

A abdução nada mais é o do que o ponto em que nos defrontamos com a maior possibilidade de “criatividade” nas Ciências, à medida que a formulação de hipóteses não tem limites técnicos. Isso somente será colocado na comparação com as demais hipóteses, e a adoção de uma delas será pelo critério de melhor aproximação com o que poderíamos reputar por verdade. Sabemos do seu largo uso pelo simples fato de que muitos dos fenômenos abordados pelas Ciências não são observáveis diretamente. Inúmeras teorias nasceram de abduções e foram se desenvolvendo por observações indiretas. Ninguém estava lá no átomo primordial no momento do Big Bang, nem estava em algum lugar perdido da África no momento em que uma mutação específica fez com que um certo bípede implume ganhasse a capacidade de raciocinar. Por esses motivos, o raciocínio abdutivo faz parte do nosso próprio espírito científico.

Mas como podemos estabelecer critérios de comparação entre as diferentes hipóteses? De uma maneira muito simples, poderíamos afirmar que a melhor explicação é aquela que gera menos perguntas. A hipótese do deus que não gosta de futebol é muito complexa: começa pelo próprio questionamento na existência dessa deidade, passa pela questão de ser a apreciação do esporte um pecado, e porque o é, e termina necessitando de um completo compêndio de Teologia que, no final das contas, pode ser insuficiente para nos convencer. O deslocamento do osso craniano é pouco provável, porque nosso contribuinte estaria em provável coma. As outras hipóteses são mais plausíveis: a tensão e o barulho dariam dor de cabeça mesmo, mas é mais provável que seria imediata; a sanduba poderia até estar deteriorada (o que já gera uma dúvida), mas a borracheira omitida parece a mais plausível de todas: pouca lembrança, efeito postergado, mal estar típico... Nada de questionamentos adicionais.

Mas se quisermos pensar um pouco mais tecnicamente, diríamos que as diferentes hipóteses possuem virtudes explicativas, ou seja, capacidade de propiciar elementos mais coerentes. São muitas as virtudes explicativas de um argumento e não estão sistematizadas em um tratado. Portanto, vou listar apenas algumas, porque a coisa já está ficando muito comprida:

Simplicidade: a principal delas, derivada da famosa navalha de Ockham, que nos enuncia que deve ser levada em conta sempre as explicações mais simples e que movimentem o menor número de variáveis possíveis.

Profundidade: é aquela explicação que dá um número mais rico de detalhes acerca de um determinado fenômeno.

Precisão: é a hipótese que “acerta mais na mosca”, ou seja, deixa poucas arestas a serem desbastadas por outras explicações.

Conservadorismo: nada a ver com posições políticas. Neste caso, é o esclarecimento que mexa menos com a visão geral que temos das demais coisas.

Abrangência: é a explicação que, dentro de um conjunto de fenômenos, consegue elucidar a maior quantidade possível deles.

Aderência ao conhecimento de fundo: trata-se da explanação que faz melhor uso de conhecimentos já consolidados, sem o aproveitamento de soluções ad hoc, por exemplo.

Analogia: capacidade de se aplicar a mesma solução para outros problemas com a mesma natureza.

Experimentabilidade: é a propriedade de permitir a execução de testes, para que se verifique se o argumento não é falho. Liga-se, de certo modo, à falseabilidade dos métodos científicos.

Vemos o quanto a abdução é proveitosa para a especulação e para a criação de hipóteses, mas ela não é livre de problemas. Um deles é a questão do peso das virtudes explicativas. Afinal de contas, cada caso é um caso e os critérios para aferição dessas virtudes é muito difícil de consubstanciar. Qual seria um bom critério de desempate? A abrangência ou a profundidade? É muito subjetivo esse julgamento. Outro problema é que, de todas as explicações possíveis, talvez existam aquelas que não são cotejadas e que seriam melhores do que aquelas imaginadas. É o caso do bonitão do nosso exemplo, que deixou de considerar a bebedeira como possibilidade. Mas, no entanto, é nessa capacidade de se achegar à verdade por aproximação que este modelo de argumento é importante.

Ufa! Gostaram da temática das inferências? Por fim, só para arrematar: os três paradigmas que tratamos aqui tem nomes bem parecidos, e são derivados do latim ducere, que significa “conduzir”. Dessa forma, dedução significa “conduzir para fora”; indução, “conduzir para dentro” e abdução quer dizer “conduzir de fora para dentro”, coisa parecida. Bons ventos a todos!!!

Recomendação de leitura:

Vai para Charles Sanders Pierce, filósofo pragmático e lógico que me ajudou bastante com este post (Não confundir com a indicação que fiz neste texto).

PEIRCE, Charles. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1993.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Bandas femininas descobertas em quarentena e o feminismo que ainda tem a muito a trilhar [Pequeno guia das grandes falácias - 50º tomo: o apelo à vaidade (argumentum ad vanitatem)]

Olá!

#FiqueEmCasa

No animal, a gratuidade, a variedade das atividades do macho permanecem vãs porque nenhum projeto o habita; quando não serve à espécie, o que faz não é nada; ao passo que, servindo à espécie, o macho humano molda a face do mundo, cria instrumentos novos, inventa, forja o futuro. Pondo-se como soberano, ele encontra a cumplicidade da própria mulher, porque ela é também um existente, ela é habitada pela transcendência e seu projeto não está na repetição, mas na sua superação em vista de um futuro diferente; ela acha no fundo de seu ser a confirmação das pretensões masculinas. Associa-se aos homens nas festas que celebram os êxitos e as vitórias dos machos. Sua desgraça consiste em ter sido biologicamente votada a repetir a Vida, quando a seus próprios olhos a Vida não apresenta em si suas razões de ser e essas razões são mais importantes do que a própria vida.

Simone de Beauvoir


Esses tempos de coronavírus são essencialmente crivados de paradoxos. Por um lado, por exemplo, acabo de concluir que não me dou com o tão propalado home office. Seja pela falta de uma cadeira ergonômica, seja pela inépcia em trabalhar com o incômodo teclado de um notebook, o fato é que todos esses dias têm sido de dores nas costas, embora eu nem cogite desobedecer ao resguardo. Por outro, tem sido uma oportunidade sem preço para reencontrar uma porção de músicas que eu não ouvia há muitos e muitos anos. Claro que com a disponibilidade de internet o acervo ficou enriquecido com vitaminas e ferro, mas comecei fazendo revisitas. Fui atrás de dinossauros como o Vanilla Fudge, que começou a apontar a psicodelia vigente na década de 60 na direção das distorções típicas do hard rock; como o Blue Cheer e o MC5, com seus respectivos proto-metal e proto-punk; como o Iron Butterfly, Taste, Cream, Free, Ten Years After... Vocês acham que é muita velharia? Mas eu não tenho quinze aninhos, e não tendo grandes perspectivas de retorno ao batente físico, meio que concluí que seria bom reavivar o subconsciente com coisas já conhecidas. Não seria má ideia me inteirar um pouco mais das novidades, mas elas vieram, de certa forma. Como o algoritmo do YouTube procura seguir tendências, foi me indicando uma série de vídeos desta mesma faixa etária e corrente musical, e um monte de música que eu não conhecia foi se descortinando. Era coisa inalcançável para mim na juventude, que dependia da boa vontade das gravadoras em lançar discos ou, principalmente, das rádios em divulgar. Mesmo emissoras dedicadas ao rock não eram profusas em coisas do tempo do ronca, com exceção daquelas mais conhecidas. E olha que eu conhecia uma galera que tinha grandes coleções, além de ser atrevido o suficiente para ficar escavando raridades que não iria comprar em lojas como Baratos Afins e Grilo Falante, e até mesmo por isso eu tinha um conhecimento minimamente decente sobre o cenário.

Fui dando chance a cada uma das bandas que o guru digital colocava automaticamente na agulha de minha picape virtual. Muita coisa boa de fato, e outras nem tanto. Grannie, Orang-utan, Farm, Murphy Blend, Green Bullfrog, Dogfeet e outras, todas pequenas preciosidades que ficaram perdidas no tempo e que vão me distraindo os ouvidos enquanto eu tento me entender com Skype, VPN et caterva. Mas uma em especial me gruda a atenção. É a banda Fanny, composta por quatro garotas que tocavam e cantavam, uma grande raridade para a época*. Para não dizer que eu não me lembrava delas de jeito nenhum, eu sabia da existência da guitarrista Patti Quatro, irmã menos famosa da baixista e vocalista Suzi Quatro, e que ela tinha feito uma passagem relâmpago por algum comboio em meados da década de 70. Esse comboio é a tal banda Fanny. Como eu já fazia na época de juventude e algum novo conjunto me encantava, fui correr atrás de toda informação possível, como componentes, discografia, trabalhos anteriores e posteriores. Faziam um som que ia no meio-termo entre o rock mais n’roll e o balanço da Motown**, passando por algumas baladinhas, é bem verdade, mas usando de peso em boa parte de suas músicas, especialmente com as vozes rasgadas da baixista e da tecladista, resultando em uma mistura das mais interessantes, com bons corais. São musicistas competentes, com as filipinas irmãs Jean e June Millington no baixo e na guitarra, a batera Alice de Buhr e a tecladista Nickel Barclay, todas se revezando nos vocais.


Sim, você que é mais malandrinho no inglês poderá dizer que o nome Fanny é 
uma gíria para “partes pudendas femininas”, e você estará certo. Mas, segundo as próprias integrantes, a ideia não é atribuir conotação sexual pura e simples, e sim de fazer pairar um espírito feminino sobre a banda. Elas não faziam um tipão rockeira sensual, como eram as Runaways, ou brucutus motoqueiras, como a Girlschool. Vestiam-se sem grande apuro, quase como hippies. Estavam longe do padrão de beleza esperado para um conjunto que pretendesse vender vaidade, mas elas só queriam apresentar sua música. Aliás, segundo elas mesmas declaram, a pressão para adotar uma atitude mais sensualizada nas músicas e nas apresentações foi o principal fator a minar a existência da banda, que queria o mesmo que seus congêneres masculinos: expor sua arte e vender seus discos. Apesar de terem feito algum sucesso no começo dos anos 70, hoje estão quase esquecidas.

Parei para tratar da bola por um momento (ao som de Fanny). Se pensarmos em precursores do rock’n’roll, teremos vasto material à disposição. Se buscarmos a raiz feminina do movimento, aí lascou. Quando pensamos na questão do feminismo, temos a tendência irrefreável de achar que hoje as coisas são melhores que antigamente. Talvez seja verdade, mas as coisas estão tão imiscuídas em nossas mentes que poucas vezes percebemos esse tipo de coisa, por mais que tentemos ser cabeça aberta. Vejam vocês: já há um bom tempo atrás, escrevi um texto em que falava sobre palavrões.  Vou transliterar o primeiro parágrafo para ficar mais fácil de entender onde quero chegar.

“Praça da Liberdade. Lugar interessante, geleia cultural que agrega e mistura muitas tribos, em especial os divertidíssimos cosplayers. Terra invadida pelos jovens, novíssima Ágora repleta de cores, música e... palavrões!!! Infinitos, variados, ditos em alto e bom som, capazes de arrancar a casca de um carvalho, principalmente quando saídos dos delicados lábios carmins das frágeis e indefesas jovenzinhas, prontas para dar aula ao mais carrancudo dos carroceiros”.

Retirado todo o ouropel e o sarcasmo da frase acima, o que teremos é a afirmação da surpresa por ver meninas falando palavrões. E por quê?

Eu não me considero machista. Eu lavo louça, passo roupa, varro chão e faço quiches. Eu uso rosa e a patroa usa azul, para desespero do ministério dos direitos humanos***. Aliás, as diretrizes orçamentárias do lar doce lar são ditadas pela cara-metade, independentemente do tamanho da renda. No entanto, já falei sobre o tempo mais de cinco vezes, sobre arché mais de dez vezes, sobre ciência mais de vinte vezes, sobre futebol mais de trinta vezes, mas eu só falei sobre feminismo duas míseras vezes, uma sob mero contexto histórico (aqui) e outra cheia de senões (aqui). Com essa observação, e sentindo-me autoprovocado, resolvi aproveitar as larguezas temporais do covid-19 e me pus a contar as citações que fiz neste blog, desde o tempo do morro cheio de mato até hoje. São 391 autores homens contra 30 mulheres, bem menos de dez por cento. São constatações que caem de repente à nossa frente, como se fosse uma pedra. Então a real é que eu sou machista e nem percebo? Sim. A sociedade é assim.

Vou dar um exemplo de como certos fenômenos quase imperceptíveis acontecem sem nos darmos conta de como ele está presente em nosso dia-a-dia. Coloquemos no centro das atenções minha falecida madrinha, a tia Nena. A coisa toda se dá na anual e onerosa época de Natal. Como a vida era apertada e a família insistia em se reunir inteira, era infactível comprar um presente para cada um, mesmo que fosse pequeno. Desta forma, a festança sempre se baseou mais nas proteínas e carboidratos do que na distribuição de regalos. Acontece que crianças pequenas são um problema (eu incluso) e satisfazer onze petizes não era exatamente fácil. A solução para o rombo era a adoção de um amigo secreto: ao invés de comprar uma arquibancada de porcarias insignificantes, comprava-se uma única porcaria um pouco melhor. Quem quisesse dar presentes avulsos, que os colocasse no pé da árvore de Natal, para gáudio de seu futuro proprietário.

É óbvio que, sendo um só o presente garantido para se receber, havia o risco de se ter um sonoro mal-me-quer nas mãos, e morrer com o mico preto não é legal, por mais que sejamos compreensivos. Para evitar os dissabores, ficava exposta uma tabuleta na sala da tia Nena com o nome de todo mundo envolvido. Lá, cada um indicava as preferências para o ano. Não valia especificar detalhadamente o intento, apenas abrir as possibilidades: perfume, camisa, calçado, tudo bem genérico, senão não tinha graça (vejam minhas opiniões sobre Natal neste antiquíssimo post). Para a tia Nena, a demanda era sempre a mesma: panelas e utilidades domésticas. Minha mãe só não virava na cova porque ela ainda era viva. Dizia para ela pedir alguma coisa de prazeroso, de bonito, de confortável, não de trabalho. Nunca adiantou. Enquanto durou o sistema, estava lá cravado na pedra – panelas. A madrinha se justificava dizendo que lhe fazia gosto cozinhar para as manadas que lhe acorriam todo fim de semana, que era esse seu papel na família, e que era feliz assim. Cosa fare?

Essa é só uma história das milhões em que mulheres se conformam com o lugar que lhe é reservado. É bem verdade que se trata de uma realidade em movimento, e que as coisas não estão exatamente iguais à década de 70, momento em que o jeito Tia Nena de ser ia começar a ser desmontado, mas tudo vai tão lentamente que dá tempo de embranquecer os cabelos. Medimos a sociedade pela régua dos homens, essa é a verdade. O mundo é todo acomodado de acordo com o protagonismo masculino, e ainda hoje há um certo exotismo em ver meninas mandando bala no rock’n’roll.

Quando faço essas simples afirmações, devo dizer que não partiram puramente do oco da minha cabeça, mas do cruzamento entre a realidade que encaro com o pensamento da segunda onda do feminismo, Simone de Beauvoir à frente. Nas primeiras manifestações mais sólidas, ocorridas pelo final do século XIX, o movimento feminista reivindicava basicamente alguns direitos fundamentais, como voto, representação parlamentar, educação, trabalho... Coisas que parecem surreais hoje em dia. Aos poucos, com o atendimento sofrido de algumas demandas, o foco foi mudando um pouquinho, de modo a não se discutir mais direitos fundamentais, e sim qual era o papel das mulheres na mecânica social. É exatamente neste contexto que Beauvoir fala.

Sua obra O Segundo Sexo investiga as diferenças biológicas, psicológicas e materiais entre homens e mulheres, para concluir que apenas motivações sociais podiam explicar as diferenças de papeis na vida de ambos os sexos. Sua síntese é a seguinte: o ser humano não se iguala a um animal qualquer, e sua posição no cosmos transcende seu mero papel biológico. O ser humano abstrai, sonha, se autoconfigura, vislumbra para si um futuro, vai para além de suas funções como organismo. Entretanto, quando se leva em consideração quais são os humanos a quem se permite habitualmente essa transcendência, vê-se que há uma clara linha dividindo os dois sexos. A própria manifestação do feminismo já nos faz perceber que é do masculino que parte a normatização – não faz sentido se manifestar quem detém o padrão. Se quem define o universo é o homem, então a mulher sempre é colocada em relação a esse parâmetro. A mulher é o que Beauvoir chama de “o Outro”. E daí ela configura toda uma relação de subordinação que formata o que uma mulher é. Para muito além do que sua própria natureza lhe forma, ser uma mulher é muito mais uma conformidade a normas impositivas. Nada do que é o destino feminino parte de si mesmas, mas daquilo que foi prefigurado para elas: os cuidados da casa, a subserviência, a criação dos filhos. Nada depende de suas vocações ou de suas vontades. Daí sua célebre frase, que diz que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher.

Só que nossa cara Simone era da escola existencialista, como seu companheiro Sartre, e isso significa que o primado de seu pensamento incluía um papel muito forte para o quesito liberdade. Diante da colocação ao papel de objeto que é dado à mulher, é preciso reconhecer o círculo vicioso em que a prende nessa situação. Ela é colocada como uma entidade sem autonomia, e se reconhece assim, pela educação massiva que recebeu desde sua puberdade, quando se diferenciava mais claramente de um menino. Daí para frente, a mulher tende a perder sua face pública, que é exercida pelo marido, o “cabeça do casal”. Poderíamos pensar tanto o universo masculino quanto o feminino como construções sociais, o que aparentemente faria o nivelamento da coisa, mas isso é uma ilusão, por um motivo muito simples: quem coloca os tijolinhos dessa construção são os homens. O horizonte de perspectivas é mais ou menos semelhante – quando se opta pelo casamento, o homem tem o papel de provedor e a mulher de administradora. Porém, para que cumpram seu papel, um obtém o sustento para a família através do mundo inteiro; a outra, reduz seu universo ao lar. Desta forma, não há que se falar em funções iguais. O homem tem tarefas que não são fáceis, é certo, mas que lhe amarram muito menos que a mulher. Aqui, a discussão é menos de “dureza” e mais de horizontes.

Para se igualar aos demais humanos, a mulher não pode abrir mão de sua liberdade. E como fazer isso? Através do reconhecimento de sua existência, caracterizada principalmente pela sua capacidade de fazer opções, como qualquer ser humano faz. É especialmente através do trabalho que se consegue essa autonomia na vida que se reflete diretamente em suas escolhas. Como a própria Beauvoir diz, “desde que ela deixa de seu uma parasita, o sistema baseado em sua dependência desmorona”. E, especialmente, não nenhuma contradição entre ser autônoma e ser mulher.

Por fim, é impossível não notar como existe resistência ainda nos dias de hoje às demandas femininas. Há exageros? Há, mas eles não são suficientes para explicar tanta encrenca com a causa. A alienação busca ser mantida principalmente através de processos de ridicularização das demandas, com a afirmação de que feminismo é coisa de mulheres mal resolvidas, tanto sexualmente quanto esteticamente, e com isso apelam para uma pretensa vaidade, que é atribuída bovinamente às mulheres, como se homens não fossem igualmente vaidosos. Esse é o apelo à vaidade, ou argumentum ad vanitatem, uma falácia informal de dispersão e relevância que busca desviar de um determinado assunto com base na vaidade da pessoa. Vocês sabem, né? O exemplo vem de uma frase minha mesmo, citada logo acima. “Como uma menina tão jovem e bonita fala tantos palavrões?”, para apelar para aquele sentimento de amor-próprio que a situa fora dos chamados “bons modos”.

É isso. Bons ventos a todos nestes tempos de covid-19 e tentem se manter quietinhos em seus cantos. Duvido que pessoas tão eivadas de bom senso não sejam capazes de compreender isso.

Recomendações:

Simone de Beauvoir é referência para qualquer trabalho em que se queira abordar o feminismo. Como é um movimento ainda aceito aos tropeções, muita gente falará bobagem ao se pronunciar sobre ela. Confie no que ela escreveu, não no que escreveram sobre ela. Este é seu livro máster, um belíssimo calhamaço:

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Com relação à banda Fanny, segue sua curta e completa discografia:

Fanny (1970)
Charity Ball (1971)
Fanny Hill (1972)
Mother’s Pride (1973)
Rock and Roll Survivors (1974), com Patti Quatro

Os três primeiros são os melhores. Segue uma listinha de boas músicas para ouvir no YouTube: os hard blues You’re the One, Special Care e I Just Realized , os boogies Changing Horses e Charity Ball, a balada Old Hat, os hardões Blind Alley, Hey Bulldog e Young and Dumb, os bons trabalhos vocais de Badge e Bitter Wine e os slides de Ain’t That Peculiar, mostrando as habilidades obtidas no ukulelê. Vale a experiência.

Um site em inglês que traz as mais preciosas informações sobre a banda tem o seguinte endereço eletrônico:


* na verdade, é raro até hoje.

** Motown é o nome de uma gravadora de Detroit, a principal cidade automobilística dos Estados Unidos durante muitos anos. Este nome é a condensação de motor town, cidade dos motores, e tal gravadora se especializou em música de origem negra, como o soul, o spirituals e o rhythm’n’blues. Da mistura entre estes estilos, criou-se uma sonoridade própria, de arranjos muito refinados.

*** Para quem ler este texto no futuro, vivíamos o sombrio e jocoso tempo da ministra Damares Alves, que se autointitulava “terrivelmente cristã”, e que se dizia contrária à ideologia de gênero.

quinta-feira, 26 de março de 2020

O amor nos tempos do coronavírus

"O amor se torna maior e mais nobre na calamidade”

Gabo, O Amor nos Tempos do Cólera


Olá!

Se alguma vez eu falei que vivi tempos bicudos, rapaziada... Apaga tudo. Que perrengue lascado! As notícias se atropelam de tal forma que nem sei mais direito a sequência. Tudo o que consigo resumir, e isso vale para agora-agora-agora, é que no meu emprego as grávidas e os velhos foram mandados para casa na sexta-feira treze. Simbólico e significativo. Na segunda seguinte, redução de jornada para seis horas; na terça, metade da turma em trabalho remoto, e na quarta todo mundo trabalhando de casa, ficando meia dúzia de infelizes revezando nos plantões, até a proibição total de acesso ao prédio na sexta, dia 20. Eu, ecdemomaníaco diagnosticado, me ajeito quase claustrofóbico com um detestável notebook na mesinha da sala. Salva a companhia da patroa e da filha mais nova, a moringa de água fresca e o café passado na hora.

Já tinha encarado algumas epidemias antes. Quando eu era bem pequeno e ainda estava no prezinho, passei a mais séria que eu tinha visto até hoje. Houve um surto de meningite que ceifou muitas vidas, especialmente de crianças. Entre estas, estava aquela que viria a ser minha cunhada, irmã da consorte, se poupada houvesse sido. Dizia-se que era uma doença que, quando não matava, deixava algum tipo de sequela, aleijando e/ou retardando. Enquanto o governo militar procurava minimizar a epidemia (qualificando os casos como um mero surto – leiam mais aqui) e adiava a vacinação, nossos pais se viravam como podiam. Antes de ir para a rua, penduravam um patuá contendo cânfora por dentro da gola de nossas camisas. Imaginava-se que os vapores evolados tinham a propriedade de afastar os vírus, o que eu penso hoje se tratar de uma mezinha tão válida quanto um benzimento. Mas nada foi meramente parecido com o que estamos vivenciando agora.

Reavivando esse tipo de memória, vou completando a segunda semana de resguardo. Mas esse é o ponto culminante (por ora) da trajetória e da tragédia do coronavírus em meu diminuto universo – ficar enclausurado em casa, com medo de um ser microscópico, que nem é um bicho, nem uma planta, nem uma pedra. Um vírus, a forma mais elementar de vida que existe no combalido planetinha azul. Uma cápsula de proteína que envolve uma cadeia de ácidos nucleicos, e que invade uma célula saudável para se reproduzir. É isso um vírus, uma estranha entidade no limiar entre os seres vivos e os brutos, e que toca o terror em tanta gente. Antes disso tudo, porém, algumas medidas já vinham sendo tomadas: lavar as mãos, tossir no lenço, não se aglomerar e evitar contato.

Isso tudo é muito estranho. Aqui no Brasil, somos muito acostumados a essa coisa do contato físico, com beijos, uma mão no rosto carinhosa, um abraço seguido por tapinhas na barriga, ou, no mínimo dos mínimos, um aperto de mão. O inimigo da vez nos proíbe de tudo isso, até mesmo e principalmente nas avós, vítimas prediletas do “bichinho” que parece mais a cabeça do Fudêncio* do que a coroa que seu formato diz representar. E isso me parece o ponto que mais toca nossos afetos. A perspectiva da morte não é algo quotidiano, e ninguém vai todo dia pegar fila no mercado ou na farmácia atrás de “arcogel”. Mas cumprimentar... Beijo-abraço-aperto-de-mão... O namastê hindu, por mais afetuoso e elegante que seja, é um substituto quase que melancólico para um povo quem tem como virtude a capacidade de tratar um novato como se fosse um velho amigo. O que será de nosso amor quando a espuma desse vagalhão desmanchar?


Vejamos. A designação amor é, na verdade, um guarda-chuva que abarca uma quantidade meio grande de sentimentos que são unidos pelo ponto em comum da sensação de afeto positivo, ou seja, um querer bem. Percebam de cara, portanto, que é muito difícil estabelecer uma definição de dicionário para o amor. E, de fato, é um tanto complexo estabelecer qual é a cola que une pessoas tão distantes entre si. O ideal, nessas coisas de Filosofia, é apelar para os gregos, que sabiam das coisas e já deram parâmetros para todo o pensamento ocidental.

Já de cara podemos notar que não existe só uma forma de amar, muito embora as diferentes modalidades do amor possam receber nomes distintos, dependendo especialmente do objeto para o qual nosso sentimento se volta. Se formos detalhistas em excesso, veremos que os gregos tratam da questão sob inúmeros vieses, o que vai deixar este texto meio longo e chato. Vamos reduzir a conversa a três deles, os mais clássicos e que abrangem todos os outros. Vamos falar de eros, de philia e de ágape.

Falar em eros nos remete automaticamente ao deus grego do amor, filho de Afrodite e Ares, ou Vênus e Marte na versão romana. Afrodite é a divindade da sexualidade, dos corpos perfeitos e da perpetuação da vida, enquanto Ares é o deus da guerra, da violência e da virilidade. A combinação da personalidade de ambos fez de Eros (Cupido para os romanos) a personificação da volúpia e do desejo incessante. Essas suas características fizeram-no emprestar o nome a um tipo de amor de toque, romântico, aquela coisa de amantes mesmo, e que pressupõe envolvimento físico. Todos nós que já namoramos um dia sabemos muito bem o que isso significa: é gostoso à beça, mas não nos dá sossego, especialmente na ausência. Por trás do amor erótico, há muito das moções do desejo, e por conta disso, todas as demandas deste vem junto: a impulsividade, a instintividade, sendo, por vezes, quase patológico. É, é isso mesmo. Pathos serve tanto para designar o sofrimento quanto a paixão. O apaixonado adoece de seu amor: pensa a todo tempo, quer a todo tempo. No entanto, o amor erótico não é pura e simplesmente sexo. Aquele beijinho de bom-dia é a ponta mais inocente do eros nosso de cada dia, e que serve de conexão para a próxima face do amor. O centro do amor erótico está essencialmente no interesse próprio. Quando amamos eroticamente, estamos preocupados, primordialmente, com o nosso próprio bem, o cumprimento de nosso desejo. Por este motivo, o foco do eros é egoísta, voltado para o próprio amante e a posse do objeto do desejo. Nada disso é essencialmente ruim, e faz parte integrante da dinâmica dos relacionamentos.

Vamos falar agora da philia. Aqui, nós vamos desacoplar o elemento erótico e inserir um mutualismo obrigatório. No eros, é possível que apenas uma das partes, o sujeito, seja ativo na busca pelo desejo. Já na philia, teremos um compartilhamento no querer bem, e por isso mesmo é o tipo do amor de amigo, em que o companheirismo toma o lugar da proximidade física. A amizade não se reveste de desejo, ao menos da mesma forma que em eros. É aqui onde encontramos a lealdade e fraternidade entre os grupos, como no sentimento pátrio ou nas famílias. Percebam, meus caros, que enquanto o eros tem uma linha vertical, com a clara definição entre um sujeito desejante e um objeto desejado (embora possa ser recíproco), na philia temos uma relação horizontalizada, e é nisso que nos reconhecemos gregários: há uma relação de complementaridade que não é de rigor no eros. Afinal de contas, digamos que em um casal não há necessariamente dois amantes, mas entre dois amigos há sempre uma relação de reciprocidade, senão não seriam amigos**.

Agora, existe uma terceira abordagem do amor que é chamada de ágape. Neste caso, já não é necessária a corporeidade do eros e nem o interesse comum da philia. O ágape é o amor desinteressado, aquele que não aguarda retorno nem compartilhamento. Temos aqui um completo desprendimento com relação ao proveito – nem o individualismo erótico, nem a mútua simbiose amical. Muitos religiosos dizem que é exatamente este o amor que deus tem para com suas criaturas***. Isso quer dizer que ele é inaplicável ao pensamento dos ateus? Não. É aquele sentimento que envolve a comiseração ao vermos um desassistido, a ternura em observar crianças brincando na rua, a empatia que nos une aos distantes, o amor colocado em ação. Em outras palavras, a caridade. A verticalidade volta, mas com o sinal trocado. Aqui, o foco do amor está todo no objeto. O sujeito funciona como uma espécie de doador do sentimento, sem esperar nada em troca. Altruísmo puro.

Paixão, amizade e caridade... um atuando no plano físico, outro no social e o último no espiritual. Nossas formas de amor não são unívocas em cada relação, mas misturadas. É evidente que o primeiro pensamento que temos nos amores eróticos são as relações sexuais, mas esta se dá naquele momento efêmero, que não exclui a amizade entre ambos (ou no trio, quarteto, sei lá). Idem quando dirigimos uma ação que atinge a coletividade. Nela não está apenas pessoas que nunca vi, e que o faço desinteressadamente, mas também lá eu tenho meus amigos e meus amores eróticos, o que demonstra que o sentido de fraternidade é mais abrangente do que somente uma das modalidades pode atingir.

E tudo isso com o coronavírus? Bem...

Nesta área da informática em que milito, há uma predominância masculina que vem sendo equilibrada muito aos poucos. Naquela rota que eu faço entre o elevador que me deixa no andar em que trabalho, com mais de setenta pessoas, passo ao lado de duas ou três analistas, a quem cumprimento com um beijinho no rosto. Com relação aos demais, temos quase que um código interno de se cumprimentar com um toque e um soco nas mãos, meio que no estilo do basquete ianque. Além disso, eventualmente um abraço e, mais eventualmente ainda, um beijo no rosto (porque esse tempo está passando). Gozações mútuas entre corinthianos e palmeirenses, uma chacota para a novíssima tatuagem do webdesigner (como cabem tantas em um único ser?) e alguns comentários sobre roupas estranhas e cabelos esquisitos. Só depois disso, encho a caneca com água e vou destravar minha máquina. Nestes dias próximos ao recolhimento total, uma pesada aura de desconfiança recíproca baixou como um muro entre todos. O máximo de afeto era o protocolar bom-dia e um aceno de mão, decretando que o carinho recíproco era risco de vida.

Quando toda a poeira baixar, o que é que vai sobrar? Em tese, o rio da vida voltará para seu curso, mas é cedo para dizer isso ainda. Hoje podemos até achar engraçadinho trabalhar de casa, mas, na medida em que o tempo passar e as costas começarem a doer, a reposição das peças ficar por nossa conta, a falta de um happy hour incomodar as gargantas secas, ou pior ainda, o bicho desgraçado nos pegar, a nós ou aos nossos, e deles fizer estragos, o tamanho do trauma vai ficando imponderável. Como reagiremos a tudo isso, a todas as perdas, a todo tédio, a toda dor? Pode ser que criemos uma nova reverência, distante e segura, que nos afaste do colega que soltar um espirro mal dado. E, com isso, o vírus nos levará uma boa parte não só de nossa saúde, mas de nossa identidade. Nossa philia poderá se manter como era, só que mais distante, menos táctil, mais creditícia, menos calorosa, mais segura, menos próxima, mais chocha, menos amorosa.

Por outro lado, se nos arriscamos a perder em eros, podemos ganhar em ágape. É claro que, ao concordar com a reclusão, estamos pensando inicialmente em nós mesmos, e, em seguida, nos nossos velhinhos e doentes particulares. Mas é óbvio que a adesão como cidadãos inclui uma solidariedade com o próximo como poucas vezes tivemos oportunidade no Brasil. Em um momento onde esperamos sinceramente que um líder nos guie, vemos que há um estúpido onde não deveria estar. Ao lado dele, um corpo de empresários que insistem em se preocupar com a economia, que menosprezam os perigos da doença, e não se importam com a saúde de todos, a não ser de seus lucrativos negócios. Estão em desespero com os bolsos cheios e, acostumados a comprar almas e convicções, relativizam a vida humana como se fosse possível mensurá-la em dólares, dizendo que as perdas são inevitáveis, e que se gire a roda da grana então. Eles têm um amor erótico pelo próprio dinheiro, devem ter sonhos pornográficos com seus cofres, e o imbecil-mor faz coro com eles. Dessa forma, só temos nós mesmos para nos defender, além dos governadores e prefeitos que assumem seu real papel, substituindo o idiota que não governa para o povo****.

(Aliás, que belo tapa na cara das ideias do liberalismo extremo, estado mínimo, e demais que-tais, hein? Mas, quanto a isso, vamos aguardar um pouco mais para voltar a escrever).

É dessa nossa miséria particular, combinada com a desgraça mundial, que uma conduta independente de uma ideologia pré-fabricada vai emergindo, retomando o bom senso e a confiança na Ciência, e que nascerá um novo conjunto de relações sociais. A cada vez que nos propomos a nos isolar, damos mostras de que nosso mergulho na monotonia é uma oferenda para todos aqueles que estão mais expostos ao risco, ou que tenham uma situação de saúde mais complicada. Ficar em casa, lavar as mãos, espirrar no cotovelo, tudo isso são atitudes que desenvolvem justamente nosso amor mais difícil e raro, o amor ágape. Talvez saiamos dessa catástrofe toda com um pouco menos de contato, mas muito mais solidários. Tomara que seja ao menos assim. Bons ventos a todos.

Recomendações de leitura:

Um dos primeiros tratados sobre o amor veio de nosso mestre Platão, com a curiosa figura do andrógino, as duas partes que se completam mutuamente. O Banquete é uma das obras fundantes da Filosofia ocidental. Vale a pena conhecer.

PLATÃO. O Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2015.

O livro de quem chupei descaradamente o titulo do texto é uma das grandes obras de um de meus escritores favoritos. O cólera não é uma virose, mas uma infecção pelo vibrião colérico, uma bactéria. Seus sintomas são muito piores do que o da coronavirose: a pessoa literalmente se esvai em merda, agravada por vômitos e cãibras. É uma doença que vai na contramão de nosso caso atual. Enquanto o coronavírus grassa pelas classes mais altas, que tem dinheiro para longas viagens, o cólera se dá nas aldeias mais miseráveis deste mundão, lugares com deficiência em saneamento básico e acúmulo de eflúvios patogênicos. O conteúdo crítico da obra de Marquez vai muito além, portanto, do que a história de um amor à primeira vista que demorou 50 anos para se concretizar. Só lendo para entender.

MARQUEZ, Gabriel G. O Amor nos Tempos do Cólera. Rio de Janeiro: Record, 1985.

* Fudêncio e seus amigos foi o grande desenho animado de Terra Brasilis. Para quem não conheceu a série, era uma turma de amigos de uma escola liderada por um menino punk que só fala mimimi, mimimi, mimimi, mas que era perfeitamente compreendido por seus colegas. Ácido e crítico até a raiz da medula, tinha tudo o que você puder pensar de errado. Mas era excelente.

** Este termo, como designa uma atratividade, foi distorcido por completo para nominar toda sorte de compulsão anômala, como acontece em pedofilia, parafilia, zoofilia e etc. Entretanto, outros usos estão mais próximos da verdadeira etimologia, como filantropia, filosofia e tantos outros.

*** Estranho esse modo de amar desinteressadamente quando o primeiro mandamento ordena “amar a Deus sobre todas as coisas”.

**** Não que eles sejam muito melhores, que agem no oportunismo, mas, independentemente da intenção eleitoreira ou não, estão se movimentando. Isso é um fato inegável e o mínimo que se pode esperar de um dirigente.

Retirei a imagem do coração quebrado do site br.freepik.com