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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 7ª mirada (2ª parte): São Luiz do Paraitinga - A Cultura e a dúvida: Como viver sentindo a passagem do tempo?

Olá!


O que faz uma cidade ser única? Em São Paulo, por exemplo, a oferta gastronômica e as alternativas acadêmicas, terra de trabalho e correria. Em Santos, as praias. No Circuito das Águas, ora, as águas. Em Ibitinga, os bordados; e assim sucessivamente. São Luiz do Paraitinga tem sua identidade marcada pela inesgotável festividade de seus habitantes.




São Luiz do Paraitinga tem na sua matriz cultural a sua principal característica. Não há praticamente nenhum mês no seu calendário cultural que não abranja algum tipo de festividade, e as marcas dessa febre estão espalhadas por todo o espaço público. A cidade inteira parece um grande trabalho de tear, com urdidura e trama coloridas, começando pelas casinhas que cortam toda a zona urbana.



Outro exemplo é esta escadaria, que é mais um desafio ao término de uma íngreme ladeira, que lhe dá aspecto de uma colcha de retalhos, tão típica da região toda.



Ao chegar mais próximo, um grafite dá mais uma dimensão ao colorido: a teatralidade.



Das incontáveis ladeiras, há muitas referências a um passado que nem é tão remoto assim. Exemplos são os painéis de azulejos do Largo do Teatro (do qual falarei já, já) e da Ladeira das Mercês, que desemboca na capela de mesmo nome. A ladeira retratada, que é o acesso à igreja do Rosário, é praticamente igual ainda hoje.



Festa, música e comida tem uma porosidade entre si. Como tal, é muito difícil de se pensar em uma sem as outras (vide este texto). Por isso mesmo, Paraitinga tem uma curiosidade: não há um, mas DOIS coretos na cidade de 12000 habitantes, sendo um na praça da matriz e outra no calçadão contíguo.



As atividades econômicas da região, além da típica agropecuária, tem muito a ver com o dia-a-dia das próprias pessoas. Nada de grandes indústrias. Há destilarias, como a Mato Dentro, que produz uma cachaça forte, forte, forte de marré, marré, marré, e que ostenta uma série de premiações, situada no interior de uma fazendinha.



Já na praça da matriz, o reforço da vocação etílica, representada por uma adega simbolizada pelo retrato do Pimba, que, curiosamente, é a cara do meu sogrão quando jovem. Atendidos pelo Amauri, ficamos sabendo que o Pimba em questão não é o dono do alambique, mas seu pai (se bem me lembro). A fábrica fica perto, no município de Taubaté. Há cachaça para todos os gostos – branquinha, amarelinha, no carvalho, na umburana, no amendoim, na canela, com frutas e etc.



Há também uma pequena fábrica de farinha de milho, daquelas grossas, que fica no mesmo conjunto do hotel onde ficamos hospedados. A visita à produção é franqueada, de modo que se possa desvendar o mistério dos flocos. Uma moenda tritura o milho, que é filtrado por um túnel poroso. Este fubá é levado a uma chapa circular quentíssima, onde é floculada e ensacada. Bom para saber.



Agora, a comida... Tudo o que é servido aqui é abundante. É preciso certa parcimônia nos pedidos, porque há necessidade de valentia para encarar os “fogados” e costelinhas com quirera, dentro outros. Este abaixo é um dos pratinhos servidos no Barão:



Desculpem-me, mas aqui vou fazer propaganda franca e aberta, e juro que sem remuneração. Um dos melhores lugares que passei em SLP foi um barzinho chamado “Mai será o Binidito?”, colado ao rio Paraitinga e ao Mercado Municipal. Este é o seu distintivo:



É um lugar que junta uma pegada cinematográfica (as paredes são forradas com referências aos filmes rodados na cidade) com produção literária local – e que se pode confortavelmente ler em uma poltrona centenária – e com comida de comer rezando. Aqui, tivemos a felicidade de pegar, de graça, uma jam-session do músico Moreno Overá com um rapaz recém-formado na Europa, de nome Guilherme.



Aqui, a criatividade e a tradição são reunidas no bolinho de arroz com “fogado” (com cachacinha amarelada)...



... e nas diferentes opções de pastel de angu, preparados com requeijão de prato, carne seca, carne moída. A Dani, a Thais e o Pipoca escavam, não sei de onde, cervejas artesanais surpreendentes, como a já recomendada Biéres de la Madona, as cervejas do Gordo e a Lilith. Estão nas vésperas de produzir sua própria cerveja, o que aguardamos com certa apreensão.



Vamos partir para os principais eventos da cidade, aqueles que a deixaram famosa. Há, evidentemente, a festa junina e algumas festividades que homenageiam os cidadãos famosos, além da festa do Saci, uma espécie de alternativa ao Halloween, mas as que “pegam” mesmo são o Divino e o Carnaval. Vamos dissecá-los um pouco.

A festa do Divino Espírito Santo é oriunda da rememoração do dia de Pentecostes, solenidade católica em que se evoca a vinda do Espírito Santo, da mesma maneira em que é relatado pelo livro dos Atos dos Apóstolos: em uma noite cinquenta dias após a Páscoa, um forte ruído assombra os discípulos de Jesus. Era o Espírito Santo, que lhes vinha em algo semelhante a uma pomba. Por esse motivo, o pássaro cosmopolita é a sua representação mais comum.



A comemoração litúrgica é uma missa quase igual a todas as outras, o que fez com que a festa do Divino praticamente se extinguisse dos grandes centros urbanos. Mas a cultura popular a transforma em uma festividade gigante, especialmente no banquete coletivo. Em SLP, o prato principal é o mesmíssimo “fogado” mencionado anteriormente – carne de segunda que passa a madrugada inteira sendo cozida com temperos e legumes, para estar desfiando no momento do consumo. Além disso, há várias procissões que começam longe, e que vão se aproximando e agregando gente por onde passa. Como em todas as outras cidades da região, aqui também a bandeira do Divino é ponto central da festa, sendo instalada em altos mastros, como esse que se encontrava deitado por ocasião de nossa visita.



Testemunha de toda essa movimentação é Neca Junqueira, artesã da lojinha Tatu Him, que nos contou histórias e mais histórias de inundações e celebrações. Sua loja/casa é a do meio, verdinha. Fica quase que nas escadarias da igreja do Rosário.



Quando visitamos sua loja, havia um pequeno aglomerado de crianças nas tais escadarias. Aos poucos, foram chegando alguns jovens, trazendo uns instrumentos musicais. Todos eles saíam de uma casa situada no chamado Largo do Teatro, que citei agora pouco.



Desta mesma casa, emergem dois bonecões. Um senhor de barba e cartola e uma mulher com cabelos amarelados, ambos vestidos de retalhos de chita. Trata-se da representação de Juca Teles e Nhá Fabiana, representação máxima do Carnaval de marchinhas, o segundo evento ao qual gostaria de me referir.



A Neca nos contou o que estava havendo. Eram as crianças e seus instrutores que, ainda em setembro, já se preparavam para a chegada do reinado de Momo, ensaiando o seu desfile. Diferentemente de outras localidades, aqui não é o samba o fundo musical do Carnaval, mas as assim chamadas marchinhas. E os bonecões são uma espécie de abre-alas dos blocos que tomam as ruas da cidade.



Por esse motivo, os bonecões estão espalhados pela cidade inteira, seja nas ruas...



... seja nos prédios públicos, como o Instituto Elpídio dos Santos...



... seja até mesmo no interior dos comércios.



Mas, como já citei no primeiro texto sobre essa cidade, o Carnaval já foi mal visto por aqui. Rapidamente revisando: o italiano Monsenhor Ignacio Gioia foi nomeado pároco local no início do século XX. Impressionado com a importância dada à festa carnavalesca, onde, segundo se dizia, as moças vinham tomar as cinzas no início da quaresma ainda com os corpos repletos de confetes, baixou proibição a todo cristão da cidade de tomar parte desta perdição, no seu dizer. Dizia coisas como o surgimento de rabos e chifres naqueles que desobedecessem, bem como profetizou a inundação da cidade até os tetos da igreja, caso a sem-vergonhice prosseguisse. Há quem diga que sim, há quem diga que não, mas o fato é que enchentes nunca foram propriamente novidades por aqui.

O padre se foi, mas a imprecação permaneceu ecoando. O caso meio que ficou no plano do folclore, até que uma reportagem da rede globo, no começo da década de 80, foi “cavucar” as memórias das pessoas. O resultado da matéria, exibido em rede nacional, foi tomado como ofensivo pelos luizenses, dado o seu tom jocoso, tipo como se os habitantes ainda tivessem medo de se nascerem chifres em suas cabeças e rabos em seus traseiros. Esse foi o estopim para que o Carnaval de marchinhas voltasse a eclodir, com toda a sua força. Ano após ano, mais e mais blocos iriam se constituindo: Barbosa, Casarão, Lençol, Lobisomem, Bebebum, e muitos outros. O mais famoso deles: Juca Teles.



É uma referência ao agitador cultural Benedito de Souza Pinto, que era famoso até a década de 60 por conta de suas manifestações populares, como a Malhação de Judas. Ele adotou o pseudônimo exatamente por conta da transgressão à “moral e bons costumes”, ainda mais pelo fato de ser funcionário do judiciário. Mas ele carregava consigo a alma festeira adormecida naquelas pessoas, e a recriação do Carnaval luizense foi resgatar esta figura que levou praticamente sozinho o que restava dos velhos tempos.



Em todos os estandartes dos blocos, além dos dísticos habituais, como as máscaras teatrais e o megafone de lata, há uma intrigante pergunta: “Como viver sentindo a passagem do tempo?”. Muito interessante ver um questionamento tão profundo em algo voltado à frivolidade, o que é prova de preconceito meu.

Há dificuldade até mesmo em interpretar certeiramente o verdadeiro sentido da pergunta. Será que tem o âmbito de manifestar uma vontade (algo como: “Quero sentir a passagem do tempo. Como fazê-lo?”) ou uma angústia (“Como conseguir viver mesmo sentindo a passagem do tempo”)? Isso porque o tempo é um tema complexo demais, e vou tentar responder ao desafio jucateliano ao meu modo.

Bem, a primeira coisa necessária é tentar entender o que é o tempo, e já aqui a barca naufraga. Muita gente boa tentou fazê-lo, inclusive da maneira que expus neste espaço, aqui e aqui. Em resumo: Santo Agostinho dá uma resposta universal. Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é; se alguém perguntar, eu já não sei. Ou seja, o tempo é inefável; foge da razão e está no campo subjetivo da intuição. Cada um tem sua própria percepção de tempo, como bem disse Bergson. Leiam os dois posts que indiquei. São breves e deixam as coisas bem claras.

Mas não precisamos nos reter apenas a estes dois pensamentos. Se pensarmos o tempo nos termos da Física, veremos que os estudos da relatividade de Einstein levaram à fusão dos conceitos de espaço e tempo, algo muito-muito-muito complexo, e que, aqui, abordaremos apenas o essencial necessário para desenvolvê-lo. O contínuo espaço-tempo é algo como um sistema de coordenadas quadridimensional. Neste sistema estão incluídas as facilmente perceptíveis dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) e é adicionada a variável do tempo, um eixo através do qual as demais dimensões trafegam. Cada ponto neste sistema é um evento, ou seja, algo que ocorre em momento e local específico. Ocorre que todo esse sistema depende de um referencial para ser aplicado. Afinal, algo tem distância em relação a algo; algo tem duração em relação a algo, ok? Digamos que uma pessoa parada observa um avião. Para ela, o avião está em movimento. Para quem está dentro do avião, o referencial muda: estão parados, e quem se apresenta em movimento é a pessoa da terra firme, que se afasta rapidamente. Se observarmos tudo isso de fora do planeta, perceberemos outro fenômeno – nem um, nem outro estão parados. Ambos se movem com o giro da Terra, e esta gira em torno do Sol, que gira com o braço da galáxia, e assim por diante. A cada novo referencial, temos um novo eixo do tempo no sistema, e este contínuo é percebido de maneira diferente, por menor que seja tal diferença.

Pudemos notar que, mesmo na Física, a percepção de tempo não tem uniformidade, porque depende de referenciais. Em nossa imprecisa consciência, a questão se agrava. Perceber a passagem do tempo significa sentir seu fluxo, e isso significa perceber a movimentação entre o futuro que se espera, o passado que se rememora e o presente que acontece. Ou seja, o tempo se realiza no presente. A aporia maior está em limitar o que é este estranho personagem.

Vamos vasculhar alguns dados do pensamento histórico. Zenon de Cítio, o principal dos estoicos (vide aqui), parecia um cara brincalhão, dado a fazer joguinhos de paradoxos, como aquele em que dizia que um arqueiro, ao disparar sua flecha, jamais a veria chegar ao seu alvo. Isso porque, antes de chegar ao seu destino, a flecha precisaria percorrer metade de seu trajeto, e, antes disso, a metade da metade, e a metade da metade da metade, e così via. Como cada percurso poderia ser dividido em dois, teríamos uma divisibilidade infinita. Ou seja, o movimento nada mais seria do que uma ilusão. Coube a Marcos Cínico* resolver essa parada de um jeito muito fácil e prático, apesar de dolorido. Correndo, dá de cara com a parede, em um extremo do empirismo. Deve ter doído, mas lhe autorizou a ridicularizar a posição de Zenon, que, na real, deveria estar troçando da galera**.

Mas a divisibilidade infinita era um grande problema para que fosse possível estabelecer o que é o presente. Qual seria o seu “tamanho”? Encarando esse enigma, David Hume afirmou que a divisibilidade infinita não pode ser aplicada ao tempo. Há uma espécie de “átomo” do tempo que é o mínimo necessário para configurar um momento, um intervalo mínimo que permite a percepção da temporalidade. Enfim, a quantidade mínima necessária para que percebamos que algo ocorreu. Ora, mas não podemos ter a metade de um momento, ou até menos que isso? Sim, podemos; o diabo é que a percepção não está nas próprias coisas, mas no sujeito. O tempo não é nada sem o sujeito que o percebe. Notem então que há uma dissonância entre o tempo que acontece no cosmos e o tempo que conseguimos sentir. Notem mais ainda:  que um evento físico que ocorre no universo jamais é o mesmo que é produzido psicologicamente. Em Hume temos o belíssimo exemplo do instrumento de sopro e o instrumento de corda. Ele fala que aquilo que sentimos (e aqui insiro a sensação de temporalidade) não é como uma flauta, que cessa sua sonoridade assim que se para de soprar. Antes disso, assemelha-se a uma lira, cuja corda permanece em vibração após ser tangida, produzindo uma sensação sonora que se alonga até seu completo sumiço. O tempo cósmico, portanto, tem a exata medida de seus eventos, enquanto o tempo subjetivo, o tempo que verdadeiramente importa, este dura muito mais que o próprio evento, porque o sujeito tem algo chamado afeto***, algo próprio ao ser humano. Há uma assimetria entre o fenômeno ocorrido e as suas consequências, e o tempo dos afetos é mais duradouro do que o tempo de articulação com o mundo.

Pensemos no seguinte, para ficar mais claro. Um rapaz faz uma proposta indecorosa a uma moça qualquer. Como resposta, voa um belo tapa na sua cara, daqueles dados com as costas das mãos. O tempo físico do ato dura centésimos de segundo – o exato momento do encontro da mão da indignada moça ao rosto do indigitado canalha. Mas o tempo da dor, da decepção pelo fracasso do sacripanta, da revolta pelo acinte da menina, tudo isso dura muito mais, e causa muito mais efeitos do que o mero ato físico.

Diante disso, chego à conclusão de que o tempo, para ser sentido, nada mais é necessário do que perceber seu fluxo através daquilo que nos afeta. Cada pequeno ato que ocorre ao nosso redor é mais um ponto que se fixa no sistema de coordenadas de nossa vida, e que se transforma em referenciais. Por cada um deles mediremos memórias do passado e expectativas do futuro.

Eterno fluxo... Heráclito, o mestre do devir! Nunca tomamos banho no mesmo rio (mesmo – ou principalmente – que seja o Paraitinga). Nós não seremos mais os mesmos, nem o rio será o mesmo, ainda que daqui a um minuto, ou um momento indivisível. O tempo nada mais é do que a sucessão de nossas mudanças, o nosso próprio fluxo ininterrupto.

O tempo é indissociável da filosofia de Heráclito. Enquanto os demais pré-socráticos discutiam qual seria o elemento primordial que comporia os seres (vide), Heráclito institui a doutrina do panta rhei. Tudo flui, o próprio fluxo é o Ser, porque nada persiste em si mesmo imutável, no polo oposto do que Parmênides pensava. Ele usa a imagem do banho no rio para dar o exemplo mais clássico do fluxo eterno, mas é no fogo que ele vê em sua frente o grande elemento de transformação, e o adota como arché, talvez mais simbolicamente do que como elemento concreto.

E por mais que Parmênides possa estar correto em afirmar que há uma essência nos seres que os fazem ser imutáveis, o fato é que isso nos foge aos sentidos. O mundo sensível, aquele que nos afeta, é um continuum em que se entrelaçam o tempo instantâneo dos acontecimentos com o fluxo ininterrupto com o qual somos afetados pelos mesmos. Essa é, para mim, a mais bela maneira de sentir a passagem do tempo.

Recomendações de leitura:

Hume não é propriamente um filósofo fácil, nem de ler, nem de engolir. Isso porque seu ceticismo é praticamente absoluto, o que beira a uma completa ausência de confiança em qualquer coisa que seja. Mas ele, na verdade, é muito sagaz. Vale a leitura.

HUME, David. Investigação sobre o Entendimento Humano. São Paulo: Unesp, 1999.

O livro abaixo é um guia completo sobre o desenvolvimento do Carnaval luizense. Imperdível, apesar de, lamentavelmente, não ter sido editado por nenhuma editora de renome.

SILVA, Degiovani Lopes; VIEIRA, Maria Alice F. do Amaral. São Luiz do Paraitinga sem Rabo e sem Chifre. A Evolução do Carnaval das Marchinhas na Terra de Juca Teles do Sertão das Cotias. São Paulo: Edição do Autor, 2012.

* A escola cínica não tem nada a ver com o cinismo da maneira que utilizamos hoje. Os cínicos filosofavam por uma vida simples, como a de um cão (kynos – cão em grego), onde apenas as necessidades mais essenciais deveriam ser satisfeitas. Certamente terei boas oportunidades de falar melhor sobre eles.

** E estava mesmo: Zenon apenas demonstrava como a matemática não consegue dar conta de toda a realidade.

*** Lembrando que afeto, em Filosofia, significa não só amor que temos por outras pessoas, mas algo capaz de nos produzir qualquer mudança.

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 7ª mirada (1ª parte): São Luiz do Paraitinga - A História sob as águas e o ciclo existencial

Olá!


Na noite da virada do ano de 2009 para 2010, as fortes chuvas que ocorriam naquele verão produziriam um alagamento como poucas vezes foi visto antes, muito embora não fossem de todo incomuns. Naquele momento, a água não transpôs somente o leito do rio, mas atingiu as casas da cidade em uma altura que mesmo os mais antigos não conseguiam recolher dos alfarrábios de suas memórias. E, da noite para o dia, as casas de pau-a-pique foram cedendo uma a uma, impotentes diante da força da natureza. No paroxismo, desaba a igreja matriz, uma queda física e carregada de simbolismo, que levou consigo muitas das construções que insistiam em se manter de pé, na poderosa onda que se formou. Estou falando de São Luiz do Paraitinga, que se tornou o ponto central de toda a viagem que reportei até agora.



Mas, começando pelo começo. Sendo uma cidade com turismo mais estruturado, há uma oferta mais abundante de vagas para os velejadores de terra firme. Ocorre que, mesmo fora de época, a cidade abriga eventos com muita frequência, o que torna arriscada uma viagem sem reservas. Não foi o nosso caso. Ficamos hospedados no hotel do Donizete, que, além de todo o serviço de hotelaria, é também um bom conhecedor de todos os meandros da cidade, o que garante boas dicas de atividades.



O São Luiz do nome da cidade é um santo da igreja católica, um bispo da cidade de Toulouse (mais comumente chamado de Tolosa por estas plagas) de origem nobre, que viveu longos anos de sua vida preso, por conta de intrigas palacianas. Renunciou à vida na corte para ingressar em um convento franciscano, até ser nomeado bispo, cargo que exerceu até sua morte. Desculpem pela péssima foto, mas foi a única que tirei de sua imagem.


Já o Paraitinga refere-se ao rio que recorta o município. Este rio, cujo nome significa “águas claras”, unindo-se ao rio Paraibuna, dá origem ao rio Paraíba do Sul, o que já falei no texto sobre Paraibuna. É um rio de porte mediano, com as clássicas várzeas lhe acompanhando de lado a lado, o que explica muito do desastre que ocorreu por aqui.


Sim, a cidade de São Luiz do Paraitinga foi construída com a mesma lógica de todas as outras que se originaram de pousos de tropeiros. O mais importante era estar próximo da água: para beber, para alimentar os animais, para se lavar, mesmo para fazer pequenas navegações. Como eram pontos de passagem, ninguém se preocupava muito com inundações das várzeas. Mas o fato é que as cidades que foram sendo construídas ao redor dessas rotas não podiam se distanciar muito, pelas óbvias questões práticas. É o caso, por exemplo, dos mercados. Eram necessariamente erigidos perto dos pousos, sob pena de não cumprir seu papel. Vejam abaixo o mercado de SLP, de 1902. Sua parte de trás dá exatamente para as margens do rio, e ficou completamente encoberto pela enchente:


No caso específico da cidade, além do óbvio comércio que ainda remanesce (modestamente demais), no Mercado se encontra o principal polo de problemas sociais. É um lugarejo que fica aos seus fundos, chamado de “roda de fogo”, onde se concentram os alcoólatras e usuários de droga. Em minha passagem, ninguém me causou nenhum tipo de problema. Devo lembrar que, para quem mora no centro de São Paulo, o problema de SLP parece risível. Até mesmo por isso, seria interessante um melhor olhar do poder público sobre o assunto.

Antes de voltar novamente o foco para o centro nervoso deste texto, cumpre lembrar que São Luiz tem referências bastante claras a seus filhos ilustres, como no caso do coreto maior, que se chama Elpídio dos Santos e que fica na praça Osvaldo Cruz. São, respectivamente, um músico de renome e um dos principais sanitaristas do país, ambos nascidos por aqui. Há ainda o geógrafo Aziz Ab’Saber, de morte mais recente, e talvez por isso ainda não existam referências e reverências tão significativas em seu nome.


A casa onde ambos residiram viraram locais turísticos, sendo que a de Elpídio dos Santos será comentada em minha postagem seguinte, quando versarei sobre a cultura popular local. Já a casa de Osvaldo Cruz abriga um museu, no qual está incorporado o terreno que contém uma pequena pracinha de eventos e um bosque. Infelizmente, não conseguimos acessar o museu pelos cinco dias em que estivemos na cidade, inclusive no final de semana. Mas, pelo menos por fora, está bem conservado.


Retomemos os acontecimentos. Um dos maiores estragos da inundação de 2010 foi a queda da igreja matriz de São Luiz de Tolosa, que mencionei acima. O nível das águas jamais havia subido tanto. Desta vez, toda a área central foi praticamente coberta. Da visão que temos abaixo, quase nem os tetos das casas de dois pavimentos ainda podiam ser enxergados.


Tirei a foto seguinte de um livro que retrata o drama dos moradores. Foto de foto é uma maravilha, né? Mas dá para se ter uma boa ideia do volume de água que invadiu a cidade. Podem acreditar, o rio Paraitinga está aí na foto, indistinguível. Percebam um grande prédio à direita da foto que já perdeu seu frontão. Trata-se da igreja matriz, ainda não inteiramente quedada.


Vejam a igreja reconstruída, com seu desenho original. É uma igreja de aparência robusta, mas que tinha um grave defeito: era feita em taipa de pilão. Muito grossas, poderia ser que resistissem a uma colisão de uma jamanta, mas a água abundante tratou de liquefazer suas bases e levá-las ao chão. Tipo assim: gigante dos pés de barro.


No detalhe, as escadarias de pedra do adro da igreja, para uma melhor percepção da altura que as águas precisaram vencer.


Terra de ladeiras, a cidade tinha rotas de fuga para catástrofes desta monta, o que talvez tenha sido a causa das perdas unicamente materiais. Sim, felizmente não houve mortes.


Estes registros foram obtidos a partir dos vários morros que rodeiam a várzea do rio, como o morro do Cruzeiro e o mirante da Torre, que ficaram a salvo da enchente pelos mais que evidentes motivos. A propósito, a subida para as torres de rádio é bastante íngreme, começando por uma escadaria de uns 200 degraus...


... que adentra por uma comunidade, desembocando em uma trilha de mato baixo, conduzindo até as tais antenas...


... e que propiciam pores-do-sol deste naipe, onde é possível ter uma ampla visão da mancha urbana da cidade:


Vamos retornar ao assunto mais uma vez. As águas que chegaram à igreja matriz primeiramente danificaram os alicerces do campanário, levando-o abaixo com sino, relógio e tudo o mais. A foto abaixo foi tirada na ladeira ao lado, que conduz a outra igreja, mais acima. Talvez seja o registro mais famoso da tragédia: o exato momento da queda da torre.


A igreja do alto da ladeira é a igreja do Rosário, em arquitetura gótica destoante com o restante da cidade, que acabou se tornando casa dos desabrigados nos dias seguintes à inundação.


Algum tempo após, todo o restante da igreja foi ao chão, causando uma grande onda que derrubou muitas das casas que ainda resistiam. Após a reconstrução, alguns restos das paredes originais foram mantidas como memória, enquanto as novas foram refeitas com material menos suscetível aos humores do rio.


Também foram resgatadas várias peças e moldes que compunham o todo da construção, e elas mesmas acabaram por se tornar espaço e objetos de culto, além de explicar o que era e o que se tornou a igreja matriz.


Outro prédio histórico que veio abaixo foi a capela das Mercês, templo mais antigo de SLP, construída no mesmo material da maioria das edificações. Na foto abaixo, temos a igreja já devidamente reconstruída.


Por ocasião de nossa visita, estavam próximas as festividades de 202 anos de inauguração da capela, tão velha quanto o município, e que tem uma curiosa e relativamente rara imagem de Santa Maria grávida. Também a imagem foi objeto de restauração. Não conseguimos fotografá-la ao vivo e em cores, porque a capela só abre às segundas. Fica registrada a foto que tirei do cartaz de divulgação da festa da padroeira.


A imagem que dá melhor dimensão do que foi o volume das águas é a que segue. Este prédio fica situado em uma praça ao lado da matriz, onde foi formado um calçadão e são realizadas feirinhas de artesanato. Há, inclusive, um segundo coreto, menor que o principal. No edifício, funciona um restaurante, cujo proprietário resolveu pintar na parede lateral a altura onde a água chegou.


Apesar da rápida reconstrução, há ainda muitas edificações que permanecem semidestruídas. Algumas delas precisam ser mantidas escoradas.


Neste prédio, por exemplo, dá para observar claramente o problema das construções em pau-a-pique.


Aproximando o olhar, é possível observar como o barro das paredes se desfez, deixando à mostra o madeiramento da estrutura, extremamente fragilizado sem o revestimento que lhe dá consistência. Vejam que é uma parede do segundo pavimento, demonstrando mais uma vez o quanto subiu o nível do rio.


Alguns dos prédios que ainda estão de pé, mas que não foram completamente reformados, são de importância histórica inestimável. Percebam a sutileza deste prédio, elevado em relação ao solo e que possui seus elementos vazados comprovando a existência de porão. Também aqui temos uma arquitetura única nos elementos decorativos de suas esquadrias, com arco abobadado em forma de pétalas e aberturas abauladas. São espécimes únicos no conjunto.


Tudo o que relatei até aqui é uma amostra dos estragos e da reconstrução do Centro Histórico. Muitos outros prédios acabaram por não ser reconstruídos, e há vários terrenos que ficaram vazios. Também em outras localidades se deu o desmantelamento das edificações, mas que não receberam a mesma atenção, como várias casas da localidade conhecida como Várzea do Passarinho, situada na entrada secundária da cidade, próxima à Rod. Osvaldo Cruz.

Apesar da monstruosidade da enchente e suas consequências, não foi a primeira vez que uma invasão das águas causou estragos na cidade. Conta-se que a chegada de um novo pároco a SLP, Monsenhor Ignacio Gioia, nos princípios do século XX, prenunciou a inundação da cidade se os carnavais não deixassem de ser festejados, coisas do diabo que causariam o surgimento de rabos e chifres em quem os praticassem. Em tempos onde os padres eram autoridades máximas das pequenas comarcas do interior, a ameaça teve o resultado desejado: o Carnaval virou uma data como outra qualquer, sem festejos nem farras. Não adiantou nada, óbvio. Em 1967, um terço da população ficou desabrigada e a tradição dos carnavais ainda não havia voltado. Em 2013, novo susto: mais de 200 pessoas ficaram desabrigadas em outra estripulia cometida pelo rio. Ou seja, inundações são mais ou menos habituais neste lugar. Vou contar melhor esta história no próximo texto.

A história da inundação de SLP comoveu todo o Brasil, e, num raro rasgo de generosidade coletiva, muitos donativos e auxílios chegaram à cidade. Mesmo com o alto custo, a empatia causada por uma cidade que ameaçava desaparecer, com toda a sua história e tradição, fez com que o município rapidamente se reconstruísse, muito em função do orgulho de seus habitantes.

Mas toda ferida deixa cicatriz. E as pessoas da cidade ainda hoje olham para o céu e, da mesma forma que as nuvens fazem com o Sol, parecem ter sua confiança encoberta. Alimentado pela catástrofe ainda recente, há um véu de preocupação todas as vezes em que uma chuva se inicia mais grossa. Isso é possível de capturar tanto nos olhares quanto nas histórias que são contadas tão abundantemente quanto a chuva que cai.

Se o ciclo das águas costuma negar piedade aos habitantes de SLP, qual é a mágica que explica sua permanência e seu apego às suas casas e coisas? Com tantos montes e colinas, por que não se pôr à salvo, como fizeram Redenção e Natividade da Serra? Essa história de queda e reconstrução não se assemelha ao Mito de Sísifo*, o rei que desafiou os deuses e que ganhou como pena eterna a carga de uma rocha ao alto da montanha, para vê-la rolar morro abaixo todas as vezes em que o pobre chegava ao cume?

Sim, o mito de Sísifo, visto pela ótica de Albert Camus, filósofo e escritor francês de origem argelina, é um retrato do absurdo da existência. Sísifo sabe que vai arrebentar seus músculos morro acima, carregando seu pesado rochedo, ralando seus pés e seus ombros, banhando-se em suor, muitas vezes em sangue de suas feridas. E sabe que tudo isso será inútil, um trabalho que vai começar outra vez, e outra, e outra...

Não soubesse que todo o seu trabalho seria reiniciado eternamente e não existiria o castigo, apenas a própria vida, cíclica, ininterrupta. O absurdo, portanto, reside na consciência. Mas, enquanto arrasta sua pedra, Sísifo não pensa; somente se preocupa em chegar ao topo. É na perda, ou seja, na pedra que rola morro abaixo, que ele tem a oportunidade de se defrontar com o absurdo de seu destino. É uma conclusão tipicamente existencialista, a corrente filosófica que faz da consciência diante do mundo sua matéria-prima, com suas angústias e solidões, muito embora Camus resistisse a ser incluído no rol dos autores desta tendência, tão em voga nos meados do século XX.

Talvez isso ajude a explicar o fato de tanto amor dos luizenses por sua cidade. É claro que eles têm consciência dos riscos de que o rio não se comporte como um senhor de boa índole, mas a imprevisibilidade da história lhes permite arriscar. Sísifo obtém sua pena porque é apaixonado pela vida, desafia os deuses e a ordem natural das coisas. Sua tarefa infinita é o preço que ele aceitou pagar por sua paixão.

Cada subida é uma esperança de que um dia a pedra não role mais, ainda que se saiba que isso vai ocorrer. O mesmo acontece a cada reconstrução que se faça: a esperança, ou mesmo um certo “foda-se”, de que os dias vindouros serão melhores. O destino de Sísifo foi uma escolha pessoal, e SLP faz isso também, não lamenta seus porvires, porque o absurdo é desmanchado quando reconhecido. Não há outro caminho quanto nos colocamos à frente do absurdo, a não ser que resolvamos descer do ônibus planetário ainda em movimento. Diante do ciclo infinito e inexorável, nada há a fazer senão dar de ombros, retomar a pedra e subir novamente o morro. Nesse aspecto, e ao contrário do que pode parecer, Camus tem sombras de otimismo. Nada melhor do que sustentar que a vida segue.

Não vou cair na tentação de me restringir a um único texto para falar sobre São Luiz do Paraitinga. Vou abrir ainda mais dois textos, abordando aspectos culturais e religiosos. Convido a todos que tiveram paciência até agora para visitá-los também.

Recomendação de leitura:

O Mito de Sísifo, mesmo tratando de temas tão densos quanto o absurdo da vida e a problemática do suicídio, é um livro bom demais de ler. Curto e conciso, otimamente escrito, feito por um literato que o torna levemente lírico, é o tipo de recomendação que faço sem pestanejar.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil, 2005.

Um bom livro para conhecer a história deste município com nível satisfatório de profundidade, é o que segue.

CAMPOS, Judas T. de (Coord.). A Imperial São Luiz do Paraitinga. História, Cultura e Educação. Taubaté: Unitau, 2011.

* Sísifo foi um rei mitológico de uma região grega chamada Corinto. Driblou duas vezes a morte: na primeira, ofereceu a Tânatos, o deus da morte, um colar em honra à sua beleza, mas se tratava de uma coleira que o deixou aprisionado. Na segunda, estando prestes a morrer, ordenou à sua esposa que não enterrasse seu corpo. Por conta dessa profanação, Sísifo clamou a Hades, deus do inferno, que o permitisse se vingar de sua esposa. Sendo-lhe permitido o retorno ao corpo, aproveitou para fugir, o que não foi possível de fazer para sempre. Sua pena foi carregar eternamente ao cimo de uma alta montanha um enorme rochedo. Logo que terminava a extenuante tarefa, o rochedo rolava escarpa abaixo e Sísifo era obrigado a descer mais uma vez e reiniciar a carga.