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terça-feira, 28 de março de 2023

Pequeno guia das grandes falácias – 66º tomo: o continuum (falácia da barba)

(Entre dois extremos, há um universo de camadas que buscam o infinito. Como se apegar a qualquer uma delas?) 

Olá!

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Tem certas coisas na vida que só fazemos na base da coação, algumas delas social. Isso significa que não precisamos ter uma arma na cabeça impondo uma rendição, mas uma pressão que o mundo exerce sobre nós, sob pena de sermos colocados no submundo dos desencaixados. É o caso do ato de se barbear. Isso para mim, claro. Eu não tenho uma barba muito espessa, mas os pelos são grossos, e isso dá aquela juvenil infestação de perebas se eu me atrever a fazê-la diariamente. É irritante, é feio, não gosto.


Só que não tem remédio. As convenções estabelecem que barba por fazer é coisa de malandro e, por isso, precisei chegar a uma fórmula redutora de danos. Em primeiro lugar, mantive uma barba, ao invés de rapá-la toda, porque isso evita que as pontas recém-nascidas se escancarem como em um rosto limpo, dando aquela aparência de Homer Simpson. Depois, consegui estabelecer uma relação de tolerância com minha própria pele, e cheguei em uma agenda de consenso: fazer a barba em um dia, descansar dois. É isso que faz navegar entre os tênues limites do aceitável.

Acontece que hoje eu me deparei com um dilema inusitado. Desde o início da pandemia, visitas presenciais no cliente rarearam bastante, já que as reuniões remotas se tornaram o padrão saudável. Entretanto, há aquelas em que há exigência da presença, nem sempre bem justificadas, como o contato olho no olho, a força das palavras e outros esoterismos, mas, no final das contas, eu sou um subordinado. Nos dois dias anteriores à agenda, vejo-me diante do espelho com o incômodo estado intermediário entre o fazer e o não fazer.

A encruzilhada é a seguinte: é domingo, dia inevitável de barba. Fazê-la à noite rende uma segunda elegante e uma terça claudicante. Para o dia-a-dia, vá lá. Mas para ver os diletos fregueses, já se torna um tanto relaxado. Sim, eu sou largado, mas as conveniências sociais fazem parte do ganha-pão. Não posso deixar de fazer hoje, porque estou com aquela alegre aparência de chihuahua, só que aí eu não tenho como deixar de repetir a ação antes da terça, ou seja, na segunda. E aí minha pele de bebê não resiste a tanto assédio. 

A solução foi simples, embora eu não curta muito: acordar mais cedo e fazer a barba na segunda pela manhã, o que a deixou ainda tolerável (com o truque da barba maior preexistente) para a terça, e vida que segue. O resto, puras impressões psicológicas, como se uma estranha força natural estivesse forçando meus pelos mais rapidamente nesta segunda inglória, como se imediatamente após as navalhadas já estivessem brotando os malvados folículos, em um hirsutismo instantâneo e momentâneo inexplicável pela ciência, como se eu tivesse a necessidade de me rebarbar imediatamente após passar a ardida loção.

A barba é, de fato, uma coisa esquisita. Como ela nunca para de crescer, dizer que a temos feita é algo inalcançável. De fato, se você chegar ao nível microscópico, verá na aguçada lente que o processo de crescimento é ininterrupto, ao ponto de se achar que, mesmo após a morte, ela persiste em seu mister. O que ocorre, na verdade, é que os tecidos relaxados do defunto recente tendem a se encolher, o que faz com que pelos já germinados ainda dentro da pele ponham-se para fora dos poros, dando a macabra sensação de que ainda há algo vivo naquele presunto que ali jaz. Sendo tudo isso assim, dizer que fizemos a barba é uma mera convenção e, como tal, fácil de ser alvo de contestações.

Tudo isso não é problema significativo, mas pode acabar se tornando. Isso acontece porque a barba é um exemplo lúdico para coisas bem mais sérias, que são igualmente difíceis de determinar, mas que não vão apenas te deixar com cara de descuidado. Quer um exemplo?

O que determina a maioridade? A resposta é simples: a lei. Mas como se chegou à idade da responsabilidade (lembrando que há diversas idades mínimas espalhadas pela legislação)? Eu pesquisei por toda a internet, e não achei uma resposta que tivesse cunho científico, o que me leva a crer que o principal componente é a tradição, algumas vezes ligada ao exercício da religião, já que vários ritos de passagem estão ligados à idade do gajo. Sempre é muito difícil determinar o ponto exato em que uma pessoa passa a ter efetiva responsabilidade pelos seus atos ou adquire capacidade suficiente para exercer uma função. Ninguém acorda de manhã e se vê revestido de novos hábitos e conhecimentos que dão uma guinada substancial na vida: poder dirigir, ser preso, eleger e ser eleito.

O caso é que a lei resolve a questão na canetada, porque sua arbitrariedade, no caso, é de rigor. Não há como avaliar caso a caso a capacidade e a responsabilidade de cada pessoa, por isso é estabelecido um parâmetro o mais próximo possível considerando fatores que rodeiam um contribuinte. Por exemplo, aos 18 anos há tempo na média para que alguém tenha estudado e obtido um ofício, e que este lhe permitirá se sustentar, ao menos em tese.

Na prática, contudo, essa régua é móvel. Haverá gente que, aos vinte anos, conseguiria gerir o país de melhor forma que ineptos de 67 anos. Como não dá para aferir essa condição, cravam-se 35 anos para que certo cidadão possa ser presidente. Mas essa condição existe, independente da conveniência social da imposição arbitrária. E há algum ponto na vida em que nos tornaremos mais capacitados e mais responsáveis. Só que essa é uma condição em que não é possível detectar o ponto exato de virada, porque não são coisas que acontecem de uma vez, como acontece com a barba que acabo de fazer e já vai crescendo novamente. Podemos estar perfeitamente aptos para dirigir em um momento, e somente preparados para casar em outro, para ingressar no serviço público em outro ainda.

Outro belíssimo exemplo costuma dar mais discussão ainda: quando podemos afirmar que principia a vida? Aqui, a mistureba de conceitos tende ao infinito. Uma resposta intuitiva seria dizer que é no nascimento, mas logo de cara esbarramos em uma pilha de problemas. Certo: aqui também temos o arbítrio legal, e, ao menos no Brasil, alguém ganha direitos ao sair do ventre de sua mãe. Mas quando vamos à espinhosa questão do aborto*, essa definição já não se aplica. Daí, a definição de vida vai ganhando uma plasticidade quase artística, e a continuidade de que estou falando se mistura a si mesma. Uma definição que se costuma utilizar é a transição do embrião para o feto, o que acontece após X semanas de gestação. Na real, o que determina que um embrião agora é um feto não é seu tempo de existência, mas um conjunto de amadurecimentos tais que caracterizam o trânsito. Mas como mensurar o momento exato em que uma quantidade de células deixou de ser um amontoado e virou um órgão definido? No limite, podemos descer até o nível molecular e isso é impossível de fazer. Outra definição é a capacidade de que o feto consiga viver autonomamente, sem ligações corpóreas com sua mãe. Mais uma vez, é possível imaginar esse momento nos milésimos de segundo: se o feto se desligar de sua mãe no instante X, virá a óbito; se for no instante X+0,001 segundo, já conseguirá sobreviver. Uma posição que é mais confortável é o momento da concepção, o exato ponto em que um espermatozoide invade um óvulo, mas também aqui a definição é insegura, porque a regressão não é nem impossível, nem absurda. Estes dois componentes, comumente, são considerados construtores da vida, mas não é um absurdo inequívoco considerá-los vivos. E a regressão pode ser feita ab ovo, o que, aí sim, é absurdo. Sendo assim, a continuidade, também aqui, impossibilita determinar um momento exato.

Tudo isso resulta em uma zona cinzenta que tramita entre dois extremos, e, como pudemos ver, nem sempre se consegue determinar com exatidão o ponto exato onde nos encontramos, e isso é um perigo em forma de falácia.

Imagine a seguinte situação: precisamos tratar de um câncer. A boa lógica indica que devemos procurar um médico, que fará uma avaliação e indicará o melhor tratamento possível. Se não for na senda da enganação, médico nenhum no mundo vai te dar certeza de cura, e sabemos o quanto a progressão da doença é agressiva. Isso leva uma pessoa a procurar outras rotas.

Minha mãe dizia que o tratamento do câncer era sempre mutilatório, antes ainda de ser acometida por este mesmo mal. Sua doença começou pela bexiga, que precisou ter sua capacidade reduzida pela metade. Tia Nica teve câncer no seio, e lá foi seu seio. Prima Cláudia teve câncer de útero, e lá foi seu útero. Tio Antônio teve câncer de pulmão, e lá foi seu pulmão. Até mesmo o insólito Homem-Cueca, atualmente taubateano (embora seja carapicuibano de nascimento), passou há uns nove meses por uma cirurgia para retirar mastocitomas da pele, sendo que um deles estava entre seus dedos da pata, e lá se foram os dois. 



Teria razão a progenitora? Uma cura sempre inclui uma perda corporal? Não totalmente. Embora realizar amplas extrações faça parte do protocolo de tratamento, o fato é que as rádio e quimioterapias atuam também para conter a expansão. O próprio cão, se deixado à própria sorte, a essa hora teria muito mais focos espalhados pelo corpo, tornando o tratamento muito mais difícil. Por enquanto, um bom tempo depois de operado, parece que está tudo bem com o vira-lata, ainda que com dois dedos a menos na pata da frente.

Acontece que, como nunca há a certeza de cura, é razoavelmente natural que se tentem alternativas menos canônicas de tratamento, desde novas drogas que não passaram por testes, passando por ervas da sabedoria popular e chegando a combinações esdrúxulas de beberagens, isso tudo sem contar os apelos para a senda espiritual. Em alguns casos, fia-se mais nesses do que nas preconizações científicas, a ponto de se abandonar tratamentos para se dedicar às bizarrices de um charlatão.

"Se ninguém tem certeza de nada, então vale qualquer tentativa", é o pensamento. Equivocado, certamente. Eu já disse que o desespero é um guia de conduta, mesmo que cego, e é compreensível que se apele para rotas alternativas quando o diagnóstico não traz boas notícias. Mas não se pode equiparar o que um médico diz com aquilo que um beberrão na porta de um boteco receita. Por caprichos da probabilidade, pode até ser que uma caipirinha de uísque com babosa possua, de fato, algum efeito profilático sobre certos tumores, mas qual é a chance de que isso seja verdade? Em quem a racionalidade mandaria confiar?

Para democraticamente demonstrar como essa linha é embaçada, teve um caso correlato na família ainda no mês passado. Um tio da patroa estava se sentindo doente, e foi no posto de saúde da pequena cidade em que vivia. Com os resultados na mão, o médico disse se tratar de câncer em estágio avançado. Todo mundo ficou meio em choque, mas uma das parentes sacou o revólver contra o doutor: "é um clínico geral que não sabe de nada… precisa levar no especialista em Londrina ". Tinha razão a revoltada parenta, mas alto lá. O médico que fez a análise tem formação, sabe interpretar o que diz um exame e não pode ser colocado na condição de mané, como faz crer a assertiva. Se fosse eu, informata metido a filósofo que lesse o emaranhado de letras e cravasse o diagnóstico, teria plena razão a indigitada. Mas esse não é o caso, já que o doutor clínico tem autorização social e conhecimento aferido para opinar. Por essa razão, esse argumento de continuidade tem não só dois lados, mas infinitos.

Portanto, a principal característica da falácia continuum é qualificar qualquer posição em um amplo espectro de possibilidades como tendo o mesmo valor. Isso é evidentemente falso, porque há níveis de precisão mesmo em um diagnóstico impreciso. A palavra de um médico vale mais no âmbito científico, assim como um teólogo terá mais peso em termos de religião, ou um estatístico terá maior aporte em questões de probabilidade, e nada disso pode ser comparado com palpiteiros. Há uma escala de valor nas afirmações de quem vive sobre um determinado assunto, que supera opiniões infundadas, ainda que devamos ter dosagens com as “carteiradas” do argumento de autoridade (vide). Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Vou dar uma recomendação literária, de longe um dos livros que eu mais gostei de ler na vida. Aqui, vemos toda a força das zonas cinzentas, da indefinição das repetições e dos ciclos que parecem eternos. Vale muito a pena ler o quanto antes.

MARQUEZ, Gabriel Garcia. Cem Anos de Solidão. Rio de Janeiro: Record, 2010.

* Se existe um tema em que eu não consigo me definir por completo, é nesse. Para saber mais, leiam este texto.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (13 – Filosofia da Arte)

Olá!


Na época em que estava no fim do ginasial*, era hábito entre os filhos de peão, como eu, procurar os cursos técnicos integrados, para estudar à noite e já se destinar a um emprego. Para ingressar em uma delas, era preciso fazer um vestibulinho, sendo que algumas das vagas eram tão concorridas quanto aquelas dos vestibulares de “gente grande”. A maioria era oferecida pelo governo, como a Federal e as ETE’s, mas também havia acesso gratuito provido pela iniciativa privada, como as bolsas oferecidas pela excelência no concurso, por empresas como a Antárctica e seu prestigiado curso de Química, o SENAI, e o Liceu de Artes e Ofícios. Deste último, muito antigo, veio-me uma curiosidade. Sua grade falava em Edificações, Mecânica de Motores, Eletrotécnica... todos ofícios, na minha jovial concepção, mas nada das tais artes.

Perguntei a quem sabia: meu compadre e seus amigos, já versados nessas coisas de secundarismo. Entre compungidos e sarcásticos, explicaram a mim que, em termos industriais, não havia muita diferença entre artes e ofícios, e que eu, safra nova, ainda aprenderia melhor essas sutilezas. E eles tinham razão. O termo latino ars significa habilidade em produzir artefatos, da mesma forma que a palavra grega techné, e isso não se circunscreve, como se pode notar, unicamente ao campo de objetos desprovidos de utilidade ou destinados ao enlevo. Mas essa designação mais ampla do léxico se perde quando imputamos aspectos estéticos à sua produção, e a Arte passa a ser algo distinto. Ou não? O que é essa tal de Arte? Essa é a pergunta primordial da Filosofia da Arte.


Oportunamente já tratei de estabelecer distinção entre Filosofia da Arte e 
Estética, muito comumente confundidas. É que o objeto de ambas é semelhante, porque se imbricam – de uma forma ou de outra, ambas buscam o conhecimento sensível, além do fato de que a Arte trafega pelo âmbito da Estética mesmo. Mas há distinções que precisam ficar realmente claras.

Talvez pudéssemos ter dificuldades para incluir a Arte como uma fonte de conhecimento. Mas o fato é que arte e cultura são inapartáveis, e isso as tornam ferramentas intercambiáveis para o conhecimento de uma e outra. Não se explica a cultura de um determinado povo sem olhar para a maneira como pratica suas manifestações artísticas, e nem se entende a arte de uma determinada comunidade sem que se entenda seu desenho cultural. A produção artística da Idade Média, por exemplo, era quase toda destinada à Religião. Isso é um indicativo imprescindível de um determinado contexto cultural: por um lado, uma religiosidade espraiada por um meio onde não haviam alternativas nas dificuldades a não ser esperar a piedade divina. Há guerra? Que Deus nos ampare. Há doença? Que Deus nos proteja. Há fome? Que Deus nos sustente. Além disso, é uma prova de que a divindade possui um estatuto tão elevado naquela cultura que é necessário envidar os esforços mais preciosos para se referenciar a ela, e sabemos o quanto a arte medieval é grandiosa, tanto na construção de igrejas quanto em seu adorno. Mais ainda: a arte daquela época demonstra onde residia o poder e o quanto ele era magnificente, com o empenho de recursos quase ilimitados para a produção de pompa e circunstância. Isso denota, de uma só vez, o sentimento de desamparo e submissão, a reverência e a noção das relações de poder, política inclusa.

Isso tudo acontece porque, apesar da noção inicial que temos de Arte como portadora de beleza, o fato é que ela é muito mais do que isso, e, por isso mesmo, independente da mera apreciação estética. A Arte é um duto por onde se propagam e comunicam-se ideias, que, naturalmente, não carregam consigo apenas o ideal estético do belo, mas toda sorte de expressões de sentimentos. Muitas vezes os discursos lógicos e bem construídos dos acadêmicos são menos eficazes para expressar costumes e tradições de uma sociedade do que os modos como se constroem as narrativas contidas nas expressões artísticas.

Sabem por quê? A arte é uma autêntica ferramenta da liberdade, e é só nesse âmbito que é possível dar vazão total àquilo que se quer e que se pensa. É a síntese do pensamento inalcançável pelas demais pretensões ao conhecimento. Vejam como as Ciências precisam se balizar por provas, por contraprovas, por experimentos bem sucedidos ou fracassados, por anos e anos de observação e por um empirismo quase doentio. É verdade que provê a melhor estrutura possível para se aproximar da realidade, mas é preciso toda uma instrumentalização ao seu redor, que tolhe muito do que nos é cabível pensar. Já a Filosofia possui um grau de liberdade maior, porque sua pauta é a especulação e a lógica, cadarços mais laceados para os sapatos no caminho da criatividade, mas ainda assim cadarços. A Religião, por sua vez, tem uma posição contraditória. É livre para criar seus mitos e configurá-los de modo a explicar o mundo sem provas e até mesmo sem lógica, mas uma vez fechado seu escopo, torna-se inamovível, em um jogo dicotômico de certo ou errado tão exacerbado que toda expressão nova fica do lado de fora (às vezes, no inferno). 

Com a Arte não acontece nada disso. Ela cria, ela imita, ela interpreta, cria a imitação, imita a interpretação, interpreta a criação. Ela representa e dá voz, através de suas técnicas, a todo o espectro do que pensa o artista e sua sociedade, do trivial ao catártico, e do apolíneo ao dionisíaco, sem limites materiais, já que ela é canto, é poesia, é dança, é expressão. Às vezes, expressão em forma pura, como acontece com a música e com a dança, que se valem só da beleza para existir, e não da funcionalidade da arquitetura, da plasticidade da pintura e da escultura, da narrativa da literatura, do teatro e do cinema.

Pois bem. Já chegamos à conclusão de como arte e cultura se imiscuem. Por tabela, isso nos carrega à ideia de que a arte é atividade tipicamente humana, porque ela, para o ser, precisa ser intencional. Meus canários, por exemplo, me acordam todo dia de maneira sincronizada. O mais velho dá o sinal para os demais, como se fosse o regente, e sai de cena. Um deles tem o tal canto-campainha, rapidíssimo e linear, bastante longo e persistente, e outro tem um canto mais costurado, com alternância entre graves e agudos, em um desenho melódico mais complexo. Parece que um faz a base e outro o solo, e é lindíssimo, gerando uma impressão estética muito marcante. Estética, sim; artística, não. Não é arte. É parte da natureza dos bichinhos, que concorrem entre si pelas fêmeas, no viveiro ali do lado, e não pelo julgamento estético que possamos eventualmente fazer. O mesmo se aplica à casa do joão-de-barro, ao balé dos pavões e à performance dos golfinhos. Não buscam uma intenção estética para sua atividade, como faz o homem. Desta forma, a Arte tem um permanente viés antropológico, sempre dizendo alguma coisa, em primeira instância, do artista que a produz e, em segundo plano, da sociedade que o molda e que por ele é moldada.

É claro que esta concepção de Arte não foi sempre igual e também não é unívoca. Da mesma forma como já falei neste texto, há uma certa arenga entre aqueles que acham que basta a aplicação do talento para que qualquer coisa possa ganhar qualificativos artísticos e aqueles que depuram um desinteresse utilitário na sua produção, uma espécie de carregar do lema “a arte só se justifica pela arte”. Portanto, a discussão está no pote: ele é arte como um todo ou a arte está só nos seus mosaicos e craquelados? O pote foi fabricado pelo artista ou pelo artífice? É arte ou é ofício? O artesanato pode ser arte? Se víssemos as coisas no tempo dos gregos antigos, veríamos que a Arte está no próprio ato da produção do artefato. É a sinonímia entre artes e ofícios que citei lá no comecinho. Só que sua transformação conceitual foi se dando à medida que o apuro no plano estético se tornava mais relevante que seu propósito prático. É como se sua beleza fosse mais significativa que sua utilidade. Desse progressivo afastamento é que foi nascendo essa ideia de arte pela arte. Que, diga-se, não é impassível de críticas. E de gente cascuda. Platão, por exemplo, não via a Arte como demonstração do talento, mas de afastamento da realidade. Em seu cosmos dual, o conhecimento verdadeiro estava instalado no mundo das ideias, e o mundo perceptível pelos sentidos eram suas cópias imperfeitas, contingentes e acidentais. Sendo para Platão a arte uma imitação, ela não seria mais que uma cópia da cópia, ainda mais imperfeita e distante da realidade atingível pelo intelecto. Seria a réplica de uma concreção produzida com os desvios dos sentidos de um artista, o que é plenamente indesejável para a obtenção de conhecimento seguro. O que Platão talvez não considerasse é a capacidade do artista de produzir uma visão já depurada, e às vezes mais clara, de uma relação cognitiva com um objeto, ou seja, da arte vista como interpretação, e não como imitação.

É bem o caso da ficção. Na concepção platônica, ela é mentira e pronto. Já seu discípulo e sucedâneo Aristóteles percebe a mancada e a importância que tem a tragédia baseada na Mitologia, capaz de produzir a catarse, como procurei espelhar neste texto. Não há uma realidade necessária no mito; a realidade está no efeito catártico, que purifica a alma dos audientes pela situação trágica construída e vivenciada pelo herói, um ser imaginário.

E é exatamente no jogo de interpretação e reconstrução de realidades que está o grande conhecimento possível de ser produzido pela Arte. Peguemos o livro Crônica de uma Morte Anunciada, do genial Gabriel Garcia Márquez. Uma obra pequena, para ser lida em poucas horas, consegue nos dar uma visão clara sobre um tema universal: as sobreposições de versões dos fatos e a perspectiva pessoal. Um compêndio de Psicologia, preso às restrições científicas, tem muito mais dificuldade de pôr a claro a questão do subjetivismo na interpretação dos fatos, movidos não só por questões concretas, mas também pelo desejo de vingança, pela indiferença, pelo rigor moral, ou seja, por sentimentos que não têm como fugir do individual. Cada maneira de ver os propósitos e desfechos são particulares. O mestre em Psicologia teria um trabalho de anos; Gabo, em cento e poucas páginas, com acesso a mais gente e mais saboroso de se ler. Falta-lhe o rigor científico, mas a função da Arte é outra: a sua verdade está em revelar uma fórmula de pensamento, que é a verdade daquele indivíduo, daquela situação e daquela comunidade, e não um conhecimento testável.

É claro que muito da magia da relação artística está no polo de quem a absorve. A arte não para unicamente no artista, ela é fruída por alguém. Como eu falei neste texto, há uma espécie de experiência cultural no momento em que alguém é colocado diante da obra de arte e lhe tira proveito ou não. No instante em que se contempla desinteressadamente o artefato artístico é que essa interação cognitiva pode acontecer. E, sim, aqui entra muito da visão pessoal e da carga educacional que uma pessoa possui. É óbvio que alguém que possua em seu arcabouço toda a obra de Shakespeare bem absorvida dificilmente vai se impressionar com Harry Potter. Mas não há nenhuma regra fechada nisso. É perfeitamente possível que uma leitura mais leve traga exatamente o que a pessoa quer: uma experiência simples de prazer. Ainda que haja quem queira estabelecer cagação de regras cânones para diferenciar o que é ou não é arte, o fato é que nada é mais antidogmático do que esta atividade humana. Ao artista cabe dizer o que é a obra, como pensa o filósofo Wollheim, e cabe a nós concordar ou não, guiados pelo nosso conhecimento e pelo nosso juízo de gosto. Afinal, há quem goste de alecrim e há quem deteste. Há quem goste do perfume do alecrim e odeie o sabor (eu). Nisso também reside a liberdade artística: estar perante a obra e ter a prerrogativa do escrutínio.

Gostar ou não gostar modifica em alguma coisa a obra de arte? Não posso ter nas mãos um bastão com o qual eu determine se algo é arte ou não, baseado simplesmente em minhas preferências. O que eu posso fazer é dizer se gosto ou não de uma determinada peça, ou até mesmo fazer um juízo comparativo, apreciando mais uma do que outra, mas dogma e liberdade não combinam, e é preciso tirar o autoritarismo da contemplação estética.

Recomendações:

Conforme citei no corpo deste texto, segue a indicação do livro do velho Gabo, um dos meus autores favoritos.

MARQUEZ, Gabriel G. Crônica de uma Morte Anunciada. São Paulo: Record, 1981.

Vou recomendar também um canal muito bom do YouTube. Trata-se do Vivieuvi, da Vivian Villanova, que traz notícias do mundo artístico e discute muitas questões afeitas à Filosofia da Arte, em um ambiente eivado de cultura, como deve mesmo ser a Arte.

https://www.youtube.com/channel/UCxIruXzvzmLkaH-a-QGnnKQ

* Ginasial era o modo como se chamava o atual Fundamental II. Já Colegial é o atual Ensino Médio.