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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sobre diferenças e indiferença

Olá!

O que te faz ser único? O que determina que você seja José, e não João? Qual a característica que faz com que você não seja apenas mais um, uma cabeça indistinguível dentro de uma estação de metrô lotada?

Qual é o seu distintivo? Talvez seja algum traço físico – cabeça grande, pé pequeno, nariz torto, boca fina, pescoço grosso, bunda redonda, pernas arqueadas, peito de pombo, cicatriz de vacina, dente saltado, orelha de abano, tudo isso junto ou nenhum dos anteriores.

Mais especificamente, talvez seja seu cabelo – curto mas cobrindo as orelhas, curto e sem cobrir as orelhas, comprido com rabo de cavalo, com modelito mullet (argh!), com modelito chanel, com modelito pigmalion, com mecha branca, com mecha azul, com mecha verde, com mecha multicor, meio baixo, muito baixo, baixíssimo, sem cabelo, com cabelo só onde a natureza manteve, um deles ou vários deles.

Talvez seja algum hábito – colecionar selos, colecionar chaveiros, colecionar decepções, juntar figurinhas, trocar figurinhas, trocar confidências, romper confianças, falar mal dos outros, falar bem dos outros, falar pouco, falar muito, falar nada, olhar pelo buraco da fechadura, jogar papel no chão, ler jornais nas bancas, consultar tarólogos, ouvir música MUITO alto, beber, não beber, sonhar acordado, falar sozinho, sentar no chão, andar descalço – isso, aquilo e isso mais aquilo.

Talvez seja alguma neurose – medo de altura, medo de barata, medo de ladrão, medo de cruzamentos, medo de macumba, medo de gato preto, medo de fogo, medo de água, medo de sentir medo, mania de grandeza, complexo de inferioridade, síndrome do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, bipolaridade, caquexia, caduquice, hiperatividade – um ou muitos.

Talvez seja sua história – um troféu de futebol de salão, o primeiro (ou último) aluno da sala, membro de uma turma de boteco, uma expulsão da escola; um, dois, três, quatro, cinco casamentos; um, dois, três, quatro, cinco divórcios; um, dois, três, quatro, cinco filhos; uma glória pequena seguida de uma grande decepção (ou vice-versa), um bom emprego com um mau salário (existe?), um vício deixado de lado, uma colisão de carro, um livro escrito e esquecido na gaveta, um diploma que nunca veio, um diploma que não serviu para nada – ou outra coisa qualquer.

Talvez seja alguma roupa, principalmente fora de moda – uma camiseta preta com estampa gasta, uma camisa de flanela com os pulsos abertos (metáfora?), uma bermuda cheia de bolsos e vazia de dinheiro, um top que mais parece uma gravata borboleta, uma saia estilo Janis Joplin, um boné virado para trás, uma jaqueta de couro surrada, uma jaqueta de couro novinha, uma jaqueta de couro que não é de couro, uma corrente no pescoço, uma corrente no braço, uma corrente no tornozelo, uma corrente na cintura, uma meia de lã xadrez, um tênis branco sujo, um tênis preto limpo.

Talvez seja uma tendência política: você pode ser de esquerda, de direita, de centro, anarquista, comunista, fascista, democrata cristão, democrata ateu, liberal, conservador, radical, municipalista, federalista, republicano, monárquico – ou não ligue para nada disso.

Talvez seja algum gosto. Talvez você goste de animais.

Seja lá o que for, estas pequenas características constituem o que cada um de nós efetivamente é. Não adianta acharmos que somos tão personalizados a ponto de nos formamos exatamente como queremos, sem influências externas. Devemos ter consciência de que nossa formação de caráter se dá, ainda que involuntariamente, por nossos gostos e preferências, além das influências do meio. Isso se chama aceitação. E é exatamente isso que nos aproxima das pessoas, quando a amizade é desinteressada. O que temos de diferente é que nos torna marcantes. E isso se chama individualidade.

Falei, logo acima, que você talvez goste de animais. Se você gosta mesmo, é uma característica que julgo nobre. A humanidade tripudiou tanto da natureza que hoje a ecologia está na pauta de qualquer tipo de negociação que se faça a nível planetário. Os homens, de tão decantada racionalidade, agora precisam inverter a lógica da dialética entre destruição e preservação por um motivo muito simples: é uma questão de sobrevivência da espécie. Os homens, a duras penas, descobriram que a natureza não foi posta sob seu jugo, mas sob sua tutela. E os homens se viram agora diante de uma encruzilhada: ou cuidam do ambiente, da natureza, de seus ecossistemas, ou passa a contar os anos, os dias e as horas para que o mundo se torne inabitável.

Se você gosta de animais, talvez seja considerado um chato, quase um fanático. Já falei sobre o tema aqui. Há extremistas, é verdade; há gente que não se conscientiza de que, ao mesmo tempo em que defende a natureza, ajuda a queimar algumas toneladas de combustível fóssil, o que tira um pouco da legitimidade da causa. Mas somos humanos em constante aprendizado; e aprendemos que é preciso estabelecer uma relação de real respeito com a natureza, de troca mesmo. Temos cérebro, coloquemo-lo em funcionamento. Uma humanidade que produziu maravilhas como aviões e televisores é capaz de desenvolver formas não agressivas de exploração do ambiente.

Se você gosta de animais, certamente gosta dos lugares onde eles são bem acolhidos. Esse é um distintivo destes lugares, e, assim como as características das pessoas as atraem mutuamente, também os locais tem seus atrativos particulares. Quem gosta de pintura, gosta de galerias; quem gosta de filmes, gosta de cinema; quem gosta de futebol, gosta de estádios.

Desde o começo deste ano, os animais não são mais bem vindos na igreja do padroeiro da ecologia, São Francisco de Assis. O que a fazia distinta, o que a diferenciava das demais, não existe mais. Dizem que o povo não conhece a fundo a história de São Francisco. O que eu sei é que seu nome sempre esteve ligado aos animais, às plantas, à alegria de viver. Não vejo nada mais franciscano do que um pequeno frei, vestido a caráter, tocando uma gaita para as criancinhas, fazendo-as admiradas no encanto simples de ser feliz com o pouco que se tem. As representações de São Francisco sempre incluem um pombo num ombro, um lírio na mão, um cervo e um lobo apascentados ao seu lado, um convívio integrado; mais que isso: um retorno à pureza infantil, a um coração livre da culpa. É isso que eu sei, e é isso que eu entendo. Não sou um doutor nem teólogo, sou só um professor de Filosofia, que neste momento não ensina nem filosofa, apenas opina. Por isso posso estar errado. Mas é isso o que eu intuo, na condição de ser humano. É isso o que me foi ensinado, desde muito pequeno.



O distintivo desfeito estabelece que não há mais diferencial. E, se este não existe, se não há mais diferença, infelizmente só resta a indiferença.

Recomendação de leitura:

Para conhecer um pouco das histórias que se contam sobre São Francisco de Assis, é recomendável ler suas “florzinhas”, a disposição no seguinte endereço eletrônico:

SÃO FRANCISCO. I Fioretti. Disponível em: <http://www.procasp.org.br/subcapitulo.php?cSubcap=58>

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sobre nomes de ruas e perda de identidade

Olá!

Nem só de grandes problemas vive o homem, mas de toda frivolidade que passa diante de si. Pensar nos grandes eventos universais nasce da observação das pequenas coisas, e a observação detalhada exigida pelo pensar filosófico se origina desta prática. Nenhum sistema nasce completo nas cabeças dos gênios. Eles vão sendo depurados através dos detalhes, dos pequenos acontecimentos, das mínimas idéias. Pensar criticamente é pensar em miudezas, na “afiação” da percepção, em levar a sério coisas que pareceriam, em um primeiro olhar, insignificantes. Para fazê-lo, é preciso seguir a regra desejada pelo Professor Paulo Ghiraldelli – vamos desbanalizar o banal.


Farei isso, então. Uma questão bastante pequena, que passa em nosso dia-a-dia de maneira bastante despercebida, diz respeito à nomenclatura das ruas de nossa cidade. Sabemos que o imaginário popular tende a atribuir nomes que elucidam, ao menos parcialmente, a história dos lugares em que vivemos. Esse fenômeno pode ser percebido em nossas conversas e indicações, ao tentar atribuir um referencial aos locais de nosso convívio. 

Quando eu era pequeno, por exemplo, morei em um logradouro conhecido como “rua do Toco”. Pincelando a memória dos mais antigos, descobri que a inusitada denominação se dava por conta de um imenso toco de uma igualmente imensa árvore, sei lá qual, abatida por ocasião do delineamento dos lotes, que tomava a rua de fora a fora, o que dificultava sua travessia, até mesmo a cavalo. Ainda hoje, estas pessoas relembram-se do fato e do toco, e, nesse sentido, o nome da rua acabava por contar uma parte significativa de seu passado, com uma referência bastante forte. Hoje, o nome oficial da rua é Antônio Gomes, que descobri se tratar do antigo proprietário daquelas glebas. Ainda assim há uma parte da história a se desvendar através deste nome, mas temos de convir que de maneira muito mais difusa; menos particularizada, portanto. As novas gerações não sabem da história do toco, e com isso parte da memória da coletividade se vai.

Vejam só outro exemplo: o conhecido Largo do Paissandu era denominado “Tanque do Zuninga”. Daí, logo de cara podemos obter duas informações: que lá havia um tanque utilizado para que os animais dos tropeiros bebessem água e para lavagem do barro que imundiciava as pessoas, e que lá havia algo chamado Zuninga (a designação não permite uma interpretação definitiva: pode tanto se referir a uma pessoa com esse apelido como ao significado da palavra – uma das alcunhas para a popular cachaça). E o nome atual, o que nos diz? Qual a importância que uma batalha da Guerra do Paraguai possui em um local a milhares de quilômetros dali? Certo, este evento foi altamente significativo, teve grande importância histórica para o país inteiro, mas, no miúdo, a história mais direta da comunidade foi simplesmente esquecida. E, dessa forma, a trajetória direta das pessoas, a referência vivencial é deixada para trás, o registro fica sobejamente mais pobre.

Esses nomes nascidos no seio da comunidade a credencia como partícipe da coletividade maior: a cidade. E como o faz?

No post em que comentei sobre o Dia das Mães, já procurei pensar sobre a importância da transmissão da experiência, e do quanto isso é gratificante, demonstrando que a vida possui uma história e um sentido. A única diferença é que o alcance está no conjunto abstrato comunitário: é como se fosse um organismo composto que fizesse o papel da mãe que conta sua história aos filhos, orgulha-se dela e a transmite também aos netos, sobrinhos e filhos dos outros.

Como eu disse, é uma questão menor, mas disso podemos extrair perguntas e lançar argumentos, pensando no porquê de nosso patrimônio histórico ter sido tão vilipendiado com o correr dos tempos: não há incentivo para a manutenção de nossa memória.

As coisas funcionam assim em nossa cidade, infelizmente. São cortes abruptos, sem defesa nem reação. Eu não gostaria que as páginas da minha vida fossem arrancadas desta forma, mas são. Parece pouca coisa. Não é. Suprimir a história é ocultá-la, como se nos causasse vergonha.

Gosto das ruas com nomes como da Várzea, do Curtume, do Seminário, Orfanato (vejam que lindo: o orfanato ainda existe, escondido entre um banco e uma agência de automóveis). O costume popular ainda tenta fazer com que os registros não se apaguem, mas são casos raros - o da Igreja de Santa Ifigênia, que não é de Santa Ifigênia, mas de Nossa Senhora da Conceição, é um exemplo clássico. O poder público, da maneira que age, vem como um autêntico invasor, interpondo em nosso ambiente uma denominação externa, de personalidades totalmente estranhas ao local, e opomos bem pouca resistência a ele, provavelmente por se tratar de aparentes bugigangas.

O que faremos, então? Vamos ocultar no futuro que tivemos um país de população pobre, onde as crianças morriam subnutridas em meio à maior reserva ecológica do planeta? Onde ficará armazenada a dicotomia entre lembrança e resistência preconizada por Adorno? Nesse sentido, a adulteração pura e simples de algo tão banal, como o nome de uma rua, é alienante; principalmente porque tal mecanismo age inicialmente mesmo nessas pequenas amenidades, e extrapolam os limites de nosso senso crítico. Quando vemos, já não sabemos mais de onde viemos e para onde vamos, e muito menos porque sofremos tanto.

Ufa! Bem, espero que com esse pequeno texto eu tenha conseguido comprovar que coisas aparentemente sem importância dizem sobre nós muito mais do que poderíamos supor, se não utilizarmos nosso olhar crítico e devidamente aguçado.

Recomendação de navegação:

Já há algum tempo, a prefeitura de São Paulo disponibilizou um site contendo a origem dos nomes das ruas da cidade. O conteúdo é riquíssimo, e permite que se interaja para o seu aprimoramento. Vale a visita. Se você é de São Paulo, procure descobrir quem foi o patrono de sua rua ou a origem do nome utilizado.

http://www.dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sobre novas imagens e velhas imprensas

Olá!

Neste meu primeiro post de 2012, gostaria de agradecer a todos os que me deram força e audiência no ano passado. Queria ter atingido a marca de 50 textos, mas devido às grandes e pequenas demandas da vida não cheguei nem perto disso. Mas não faz mal, continuamos aí. Mas queria mandar um salve especial para a Renata, para a Deborah e para o Bruno, meus principais leitores e comentadores, principalmente no “ao vivo e em cores”. Isso é muito legal, deixo um grande beijo para vocês.

No ano que acabou, tivemos grandes e graves acontecimentos, como cheguei a comentar aqui, além de outros não tão significativos, mas que igualmente podem levar-nos à reflexão, e fazer perceber que estes assuntos não são tão banais assim, se notarmos que são amostras pinçadas de um grande universo, que funciona semelhantemente tanto no atacado quanto no varejo.
Uma destas pequenas bobagens diz respeito à entrevista da cantora Sandy a uma grande revista de entretenimento masculino. Uma grande (e inútil) polêmica foi criada por conta de sua declaração de que é possível obter prazer com a prática do sexo anal. Nosso foco não será na suposição das práticas sexuais da garota em questão. Afinal, o que ela faz de seus orifícios é problema dela e de quem, por ventura, vier a fruir de suas peripécias.




Sandy construiu sua fama e sua carreira sob a imagem de uma garota inocente e de uma mocinha comportada, daquelas para casar. Acontece que ela cresceu e não quis mais ser vista sob esta ótica. Procurou dar uma revolucionada na carreira: separou-se da bem sucedida parceria com o irmão, mudou radicalmente de estilo musical, passou a usar roupas mais provocantes, fez propaganda de cerveja (da qual não gosta) com um nome bastante sugestivo. 

Não sei avaliar se a estratégia está dando certo, parece que não. É a velha questão da fama que cobra seu preço, como já pude escrever aqui.
A imagem construída tem o mesmo valor de um totem para as sociedades antigas. No caso da sociedade moderna, a pessoa famosa tem várias representações, sendo que duas delas se aplicam ao caso: o modelo de perfeição e o objeto de desejo. Para Sandy, há uma dualidade difícil de deslindar. Ela não consegue se livrar dos moldes perfeccionistas da menina bem comportada, mas por outro lado angariou um fruto do imaginário popular, o de mulher feita que não perdeu seus encantos infanto-juvenis. Em uma sociedade que tem uma alta erotização de sua infância e que, em conseqüência, possui tendência à pedofilia (disso falaremos futuramente com muito mais cuidado), a mistura torna-se mais pegajosa que jaca madura.

Mas o problema torna-se maior quando verificamos que suas tentativas de mudança de imagem são objeto de “conspiração”. Uma afirmação de foro íntimo foi explorada de maneira radical, já que acabou por virar matéria de capa da referida revista, com grande destaque. Ora, a entrevista, da maneira que foi tratada, tornou-se uma grande armadilha. É só uma questão de uso da linguagem, e uma breve manifestação sobre sexualidade ganhou estatuto de verdade inegável. A reação indignada dela e de seus próximos ajudou também a jogar querosene na fogueira, exatamente o que a publicação queria (polêmica = vendas = $$$$$). Por isso, é preciso muito cuidado com as armadilhas da imprensa.

É fácil prever uma coisa dessas. Os limites da ética no jornalismo são um pouco nebulosos. A imprensa obtém uma matéria e transforma-a no que melhor lhe convém. Acreditar em uma imprensa neutra é um conto de fadas, da mesma maneira que o mito da neutralidade científica. As pessoas têm interesses, não adianta fugir disso.

Fato é que a imprensa possui um poderio gigantesco em suas mãos, tanto que para ela foi forjado o termo “Quarto poder”. E, de fato, a imprensa precisa fazer uso de sua tarefa denunciadora e fiscalizadora, e para isso precisa de liberdade. Só que esta não pode ser confundida com um salvo conduto que a permita manipular a informação, sob a pena de tapar a boca de camadas significativas da população, principalmente aquelas com menor poder de discernimento. O caso da Sandy nada mais é do que uma amostra. Muito mais graves são os exemplos que nos vem da literatura e do cinema, como “A Síndrome da China” e “Ausência de Malícia”, mas queria aqui atentar para outra obra, o documentário “Muito além do Cidadão Kane”, que mostra a promiscuidade das relações entre o jornalismo televisivo e o poder no Brasil, com o objetivo de influenciar a opinião pública, destacadamente para delinear os resultados eletivos. Já virou um clássico o caso do debate entre os então presidenciáveis Collor e Lula, onde uma edição de “melhores momentos” favoreceu explicitamente o primeiro, em um momento de claro embate direita X esquerda na primeira eleição presidencial pós-64. A edição dos trechos do debate não contém mentira, mas sim descarada manipulação.

Deu no que deu. A mesmíssima Globo que atiçou a eleição de Collor acabou por se voltar contra a criatura, sendo o principal órgão a tratar de sua derrocada.
Compreendo até certo ponto o problema de um jornalista diante da reportagem polêmica. Um advogado pode recusar o caso de um criminoso em cuja inocência não acredita. Um psicólogo pode admitir que não possui competência para lidar com um quadro que atravesse suas convicções profissionais. E o jornalista? Deve se omitir? Não é a omissão uma maneira de tomar uma posição? Não divulgar uma informação que o enoje ou afete sua capacidade de julgamento não é também anti-ético?

Por conta disso tudo, e por mais que a imprensa livre seja imprescindível para a democracia, é sempre necessário lançar um olhar crítico para o noticiário veiculado. Várias vezes já vimos a distorção dos fatos, e estes podem ser tremendamente lesivos, ainda mais do que foram para Sandy, a danadinha.

Recomendação de documentário:

HARTOG, Simon. Muito além do cidadão Kane. Documentário. Inglaterra, 1993. 105 min.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ano velho, ano novo

Olá mais uma vez!

Este ano está na boca de acabar. O clima é festivo, já que acabamos de sair do Natal. Ontem, fui dar um rolê geral pela cidade para ver as iluminações, giro este que eu ainda não tinha dado. Tá tudo muito bonito, mesmo. Em especial a Avenida Paulista, onde o trânsito estava muito complicado, mesmo às 23:00, um pouco pelos carros que observavam os enfeites, um pouco pela organização da festa da virada de ano. Mas o sabor já está um pouco de pizza fria (adoro pizza fria!). O Natal já passou e o ano novo não tem o mesmo charme.



Já dei uma dica do que eu penso sobre a virada do ano. É um tanto desmotivada, não tem muuuuuuuuuuito sentido. Uma vez li um artigo da psicanalista Maria Rita Kehl que definia brilhantemente meu pensamento sobre esta data (Pena, não consegui achar o texto). Em resumo, ela questionava o seguinte: se o ano foi bom, por que estamos alegres pelo seu fim? E se o ano foi ruim, o que há a comemorar? É isso mesmo, a virada de ano tem de fato um componente melancólico, com seus fogos que parecem esconjurar o passado ou comemorar a chegada da incerteza.

Não há como não se reportar a Renato Russo, o nosso compositor mais filosófico: não há amanhã. E, por isso mesmo, é preciso amar as pessoas.
Em cada ato, é preciso colocar o amor. Procuro amar as pessoas ao meu redor, embora nem sempre seja possível ou não consiga fazê-lo como devia. Todos os dias, procuro falar “Boa noite” à minha esposa e meus filhos. Faço questão de levá-los até a porta quando vão sair, ou que façam o mesmo comigo. Beijo e abraço meus afilhados efusivamente, cumprimento pessoa por pessoa de meu convívio, tento exemplificar o que espero de cada um deles. Procuro, enfim, estabelecer o melhor convívio ao meu alcance. Tento ajudar a todos os que me pedem. Não sei até quando isso será possível, não há amanhã. Por isso, é imprescindível que o amor seja manifesto hoje.

Sou meio crianção, às vezes perco os parâmetros, mas quando alguém me impõe um limite eu procuro respeitá-lo. É preciso saber que não somente eu tenho sentimentos, e é preciso cuidado para não ultrapassar o ponto.

Ah, Schopenhauer e suas representações... Como é complicado adequar o que é desejado ao que é possível! De toda forma, e já que a data existe e é considerada tão importante, também me vestirei de branco, também brindarei, abraçarei às pessoas que estiverem comigo, as beijarei e desejarei um ano novo melhor. 2011 não foi grande coisa, 2010 foi terrível, é melhor crer que 2012 será verdadeiramente bom, que o amanhã haverá, que me será dada a possibilidade de continuar amando as pessoas como se não houvesse amanhã. 

Não adianta ficar especulando sobre a vontade inesgotável, sua insaciabilidade e conseqüente angústia. Não tenho vocação para asceta.

Um feliz 2012 a todos, fiquem com Deus!

Cultura coletiva e psicopatia

Olá,

Tenho recebido através de e-mail algumas manifestações sobre a conveniência e até mesmo a necessidade social do porte de armas. Compreendo essa posição, em especial em um país com leis frouxas e ineficiência estatal na gestão do combate à violência. Nessas circunstâncias, a defesa pessoal é a única coisa a ser feita mesmo. Porém, é preciso tomar cuidado com o uso indiscriminado de armas e com o acesso da população em geral a elas. As causas da violência são tão amplas que nenhuma lei ou regra será capaz de prever todas as circunstâncias possíveis.

Em abril deste ano, escrevi o texto abaixo em outro blog, baseado nos acontecimentos de triste memória em uma escola fundamental do Rio de Janeiro. Procuro correlacionar o desmanche das instituições coletivas com os casos de violência movidos pela alienação do mundo moderno. O texto está praticamente na íntegra. Vamos a ele:

"Já foi decidido o que será feito com relação à procissão do Domingo de Ramos: não haverá procissão de Domingo de Ramos. Teremos a Virada Cultural.
Peço, no entanto, cinco minutos de atenção.


Será que podemos fazer algum tipo de relação entre o que não acontecerá mais no próximo domingo e o que aconteceu esta semana no Rio de Janeiro?
(Abro parênteses: no dia 07/04/2011, um jovem de nome Wellington Menezes de Oliveira matou 11 crianças em uma escola no Realengo, bairro da cidade do Rio de Janeiro, em um ato muito semelhante a vários casos ocorridos pelo mundo afora, em especial nos EUA).

Infelizmente sim.

Em todos os casos semelhantes ao que aconteceu na escola carioca, só conseguimos achar um ponto em comum: foram delitos praticados por pessoas solitárias. Não é a solidão de quem contempla uma obra de arte, ou se absorve em um livro, ou se põe a refletir seriamente sobre uma questão. É a solidão de quem fracassou.

Que fracasso seria esse? Ora, vivemos em uma sociedade baseada na dicotomia individualismo-sucesso, um sucesso que precisa ser alcançado cada vez mais cedo, sem maturação, sem considerar a hipótese de que as coisas podem não dar certo. E são gerados ídolos como Justin Bieber, Neymar, Sebastian Vettel, Luan Santana, Miley Cyrus. Será que todos nós conseguimos nos enquadrar em um perfil desses?

A verdade é que o sucesso do indivíduo não representa o sucesso do coletivo. E nós perdemos a dimensão do coletivo. A maior prova disso é a Virada Cultural, que será realizada em pleno Domingo de Ramos.

Toda liturgia é realizada por uma comunidade, não existe celebração de uma pessoa só. Nas igrejas, resta um dos últimos espaços públicos que ainda temos ao nosso dispor. Uma cerimônia é sempre a realização de uma coletividade, de uma comunidade, como eram as partidas de futebol feitas na rua, ou uma festa junina, ou um cordão carnavalesco, coisas que já não existem mais. Lá, as gerações mais antigas transmitiam seus valores e seus costumes às gerações que estavam chegando, e assim era escrita a história de uma cidade, de uma etnia, de um povo.

Hoje, temos a Virada Cultural. Cultural... Não creio que veremos os pais levando seus filhos à uma rave, os avós levando seus netos à uma balada. Há uma desagregação, que nem mesmo o fato da formação de grupos de amigos resolve. A tradição se quebrou, a história se rompeu. Uma pista de tecno não é um salão de dança. Cada um dança por si, não há um entrosamento entre pares ou trios, ou pequenos grupos. Podem rir à vontade, mas uma quadrilha caipira contava uma história, era uma dança com significação, por mais ingênua que fosse. E uma rave, o que nos diz? Que legado nos deixará?

Deixará o legado da individualidade. Quem não deixará de participar do começo da Semana Santa por causa da Virada Cultural? Quem participará do coletivo, do comunitário, do compartilhado? A regra será se divertir ao máximo, conseguir tanto prazer quanto for possível. Qual o espaço do coletivo, se a satisfação é individual?

A quem não tem para si a comunidade, só resta o individualismo. Só que o individualismo traz consigo a solidão. Confundimos individualidade com individualismo. Um homem procura se formar sozinho, mas tem necessidade de se relacionar com o meio, um meio que cobra sucesso a qualquer preço. É preciso saber o quanto cada um consegue suportar de fracasso e solidão. Este rapaz carioca não suportou o peso de sua desgraça. Tenho muito dó do que aconteceu com as crianças, é inevitável que eu me coloque no lugar dos pais delas, tenho filhos e afilhados que acabaram de deixar de ser crianças. Morro de raiva dos Nardonis, do Misael, do Pimenta, do Chambinha e de muitos outros, mas não consigo ter raiva deste rapaz. Parece-me (veja, estou falando de um fato 'fresco', podem aparecer desdobramentos que mudem minha opinião) que o Wellington não teve suporte psicológico para fazer frente às suas dores, enlouqueceu. Não agüentou o fracasso que uma sociedade baseada no valor do indivíduo lhe impôs.

O que teria acontecido se este rapaz tivesse consciência de sua função na comunidade? Será que teríamos assistido a este ato tresloucado?

Uma comunidade tem a força de seus indivíduos somados, adicionado ao que ela por si só representa. A soma das partes, assim, é maior ainda que o todo. Impedir uma procissão de domingo de Ramos não representa apenas um insulto a uma coletividade religiosa. Significa, principalmente, que o nosso organismo social vive de fragmentos esparsos, que não se considera mais em seu todo. A Prefeitura tenta reunir as pessoas uma vez por ano, e, quando o faz, mete os pés pelas mãos, simplesmente desprezando um dos últimos atos que as pessoas ainda tem o prazer de realizar juntas.


PS: não sou contra a Virada Cultural, tanto que pretendo ir a alguns shows, mas lamento profundamente que a política de cultura da Prefeitura se limite a um evento anual, que se baseia mais na resistência física das pessoas do que na formação intelectual e na constituição de uma tradição cultural."

Recomendação de filme:

Por fim, recomendo um filme que investiga a fascinação dos estadunidenses com relação às armas de fogo, e dá enfoque aos casos em que são realizados grandes massacres por psicopatas. A semelhança é mais do que evidente.

MOORE, Michael. Tiros em Columbine. Filme. EUA, 2002. 180 min.

Selvageria e bailes funk

Mas a multidão não acompanhou a canção da garota. (...) A massa se movia devagar, como um único corpo, em direção à máquina que cintilava como prata. No rosto da multidão havia ódio. No rosto da multidão havia  um temor supersticioso. O desejo de aniquilação final estava no rosto da multidão. - Thea Von Harbou, in Metrópolis

Olá!

No final do mês passado, tivemos um caso muito triste que ocorreu em nossa cidade, o linchamento do motorista de ônibus Edmilson dos Reis Alves. Tive uma surpresa muito grande ao ver sua foto estampada nos jornais: eu o conhecia, dos tempos em que morava no Jardim Elba. Não associei seu nome de imediato; existem muitos Edmilsons e, na verdade, conhecia-o por seus apelidos: Paraná, Maringá ou Palmeirense. Peguei ônibus muitas vezes com ele, conversávamos em alguns momentos. Era um cidadão de boa paz, veterano daquela linha (314J – Liberdade/Parque Santa Madalena). Foi arrancado de seu ônibus e espancado porque se sentiu mal ao volante e colidiu com alguns carros e uma moto. Parece que chegou a ferir uma pessoa, o que motivou a barbárie.

Vamos tentar recorrer novamente a Freud para buscar uma explicação (Devo lembrar que escrevo, principalmente, para a juventude. Isso acaba por me levar a falar sobre alguns conceitos básicos. Àqueles mais letrados, peço um pouco de paciência).

Freud desenvolveu uma importantíssima teoria acerca do funcionamento psíquico. Para ele, o equipamento mental possui três divisões, com diferentes funções, a quem denominou de instâncias. A primeira, a mais ancestral, depositária dos instintos e desejos, foi chamada de Id. Nele residem os impulsos inconscientes, sede das atitudes impensadas, do imediato, das taras. É lá que estão situados os desejos, as pulsões agressivas e tudo o mais que nos torna semelhantes aos seres instintivos, que se movem sem articulações abstratas.

Em oposição à impulsividade do Id, temos o poder refreador do Superego, formado pela interiorização dos princípios e regras morais impostas pelo meio em que se vive. Também esta instância é inconsciente, e participa com um sentido de punição e de limitação à ação do Id.

Entre ambos, habita o Ego. Esta é uma instância consciente, racional, que busca estabelecer um equilíbrio entre o poder impulsivo do Id e a ação restritiva do Superego. Com isso, o Ego impede que haja o predomínio de uma das instâncias inconscientes sobre a outra. Um indivíduo com preponderância do Id assemelhar-se-ia a um animal, que busca atender seus instintos impensadamente; se fosse dominado pelo Superego, sofreria uma tal imobilização de suas ações que provavelmente procuraria a ocultação. Nesse sanduíche, portanto, o papel da fina camada de recheio do Ego é tornar a vida possível.



Ora, onde estavam a racionalidade do Ego e a repressão do Superego nesta hora? O assunto é muito complexo, e necessitaria de uma leitura muito mais profunda do que agora, mas vamos lá assim mesmo!

Como disse anteriormente, o Superego se forma a partir das contingências morais impostas pelo ambiente. Elas são absorvidas pelo indivíduo na medida em que suas ações, prioritariamente estabelecidas pelo Id, vão sendo reprimidas no decorrer de sua vida. O Superego breca o Id, e o faz de maneira inconsciente. Como nasce de circunstâncias externas ao indivíduo, é sumamente importante ter em mente que os freios do Superego dependem da sociedade em que se vive, e nesse ponto precisamos ter um olhar antropológico sobre a causa em questão. E, neste ponto, é preciso reconhecer que vivemos em uma cultura da violência. Vejamos alguns exemplos:

1. Em 2005, foi realizado um plebiscito para que se decidisse sobre o desarmamento. Em linhas gerais, sou contrário à consulta popular sobre temas tão pontuais, mas o recado passado foi tremendamente claro: a população brasileira prefere continuar ter à sua disposição um instrumento de defesa do que confiar na eficiência do poder institucionalizado para efetuar essa tarefa. Não discuto o resultado, mas tenho medo de que esse pensamento seja oriundo de uma tendência à violência residente no inconsciente coletivo do brasileiro;

2. Os filmes de ação estão prenhes de derramamento de sangue, de uma forma como nunca se viu antes. Não basta mais supor a situação de violência, é preciso que esta seja escancarada. Se as tripas não estão visíveis, se a cabeça não foi arrancada, se a arma não varou o corpo da vítima, não há satisfação, o filme é fraco, não é para “machos”;

3. O esporte da moda é o MMA, tanto que a própria rede Globo engoliu seus princípios e passou a transmitir estas lutas como eventos grandiosos, em que seu principal locutor é escalado para narrar as lutas. Não compreendo como esses espetáculos podem ser considerados esportes. O grande mérito do esporte está justamente em sua capacidade de exercer um combate simulado, onde a vitória não representa o massacre do adversário, mas sim a superioridade de uma das partes. Esse não é o objetivo do MMA, UFC ou coisa que o valha. O gozo só é atingido se o adversário cai desfalecido no chão. Se isso não é cultura da violência, então não sei qual é o nome.

Diante desse conjunto de circunstâncias, não é de se estranhar que as instâncias psíquicas limitadoras sejam mais laceadas, mais frouxas. E, em um grupo de funkeiros enfurecidos, basta que um deles saia do limite do razoável para que os demais o sigam, em um processo comum no ser humano chamado de mimese.

Mimese quer dizer imitação, e desta palavra originou-se o termo mímica. Já notaram que quando uma pessoa boceja várias outras também o fazem? É a mimese agindo, inconscientemente. O mesmo se presta à moda, às atitudes, é assim que se forma o inconsciente coletivo. Cerca de 20 pessoas, segundo os jornais, agiram no espancamento. Estas 20 pessoas agiram desmedidamente, desproporcionalmente, irracionalmente. E aí vem a minha grande questão: em um grupo de 300 pessoas, 20 foram para a porrada. Ok. E as outras? Por que não intervieram? O motivo é claro: também elas concordaram com a selvageria. E isso é o que mais me preocupa no caso.

Recomendação de leitura:

Como já disse anteriormente, Freud possui uma obra muito completa e complexa sobre a mente humana. Recomendo o seguinte livro para que se possa aprofundar um pouco mais em suas teorias:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.

PS: que pena que o termo "funk" tenha se vulgarizado de tal forma. Tivemos excelentes artistas do gênero, como Parliament-Funkadelic, Earth Wind & Fire, Tim Maia e seu sobrinho Ed Motta...

Sobre as ilhas esparsas pelo oceano da indigência televisiva

Olá!

Eu tinha praticamente acabado este texto, mas dei uma recuada por conta do já famoso caso Rafinha Bastos X Wanessa Camargo, para aguardar os desdobramentos. Exageros de lado a lado e um final mais ou menos triste, na minha opinião. Os defensores do Rafinha dizem que o humor não pode ter limites, ele é transgressivo por natureza. Discordo.

Há alguns parâmetros que precisam ser seguidos, sim. Mesmo na guerra, os combatentes não bombardeiam as unidades da Cruz Vermelha, sob a desculpa de que estão tentando atender soldados inimigos. Idem quanto à honra e a segurança das pessoas. Espalhar um boato maldoso sobre uma pessoa, causar o mal a ela e depois se desculpar sob o escudo da liberdade do humor não é algo admissível. É irresponsável. Portanto, é preciso ter consciência de que se deve pagar o preço ético por sua subversão.

O pior de tudo é que foi apenas uma piada de mau gosto, sem propósito algum. Foi uma piada que, se feita em um boteco (e é feita aos milhares, sabemos disso), não teria consequência alguma, pois não sairia do campo do privado. Não procurou atingir a pessoa como artista (?), como filha de um famoso, como uma patricinha ou outra coisa qualquer. Atirar contra os políticos em questão de honestidade, por exemplo, tem todo o sentido. A classe faz por merecer, como podemos observar desde sempre nos noticiários. Mas não é o caso em questão. Por isso, vejo excesso em ambos os lados. Bastaria Rafinha pedir desculpas pelo inconveniente (como ele mesmo fez com a Daniela Albuquerque), e não precisaria gerar um processo judicial, sempre dolorosos, se houvesse alguma complacência do lado da Wanessa.

Bom, mas vamos ao texto em si. Há uns tempos atrás, comentei neste e neste post que gosto da programação da TV Cultura, e que os melhores programas da televisão brasileira são produzidos lá. Há vida inteligente fora do canal 2?
Há. Pouca, mas há. E o principal representante destes oásis nos desertos das idéias é capitaneado pela argentina Eyeworks, pelo CQC e seu melhor derivado: A Liga.


Vejam bem. Não há novidade propriamente dita nestes programas. Começando pelo Marcelo Tas, que desde o começo da década de 80 já fazia seu personagem Ernesto Varela embaraçar políticos, empresários e dirigentes esportivos com as perguntas mais cáusticas e inconvenientes. O mesmo vale para A Liga, importada do modelo argentino utilizado pela citada Eyeworks.

Qual é a mágica do formato, então?

Evidentemente, não há apenas um fator que influencia a qualidade dos programas. O fato de aliar humorismo e jornalismo abre aos repórteres/comediantes do CQC a possibilidade de chegar em pontos onde o jornalismo convencional não se permite. A reportagem sobre a televisão doada a uma escola em Barueri, que foi desviada para a casa de uma funcionária é um exemplo bem acabado do que estou falando. Procurem no Youtube e vejam. Não dá para imaginar a Globo mostrando uma reportagem deste tipo no Jornal Nacional. O reverso da medalha é que estas reportagens não são levadas tão a sério quanto deveriam, justamente por sua veia humorística. Acho que ainda vemos a realidade nacional pelos olhos da Vênus Platinada, e qualquer modelo que se oponha é visto com descrença. Mas os fatos são graves e reais, deveriam ser levados mais a sério, independentemente da abordagem ser sisuda ou humorística.

A Liga é mais temática, mais investigativa e melhor ainda como programa de televisão. Suas matérias investem no submundo de maneira menos sensacionalista do que fazem os Datenas da vida, mas muito mais próximas de nosso dia-a-dia do que as abobrinhas dos Domingos Espetaculares e Fantásticos (eca!). Afinal, a reportagem de relevo é aquela que gera conseqüências, como ocorreu na fantástica matéria sobre o trabalho escravo de bolivianos para as grandes confecções, inclusive multinacionais (pincelei esse assunto mui rapidamente neste post). A Zara, empresa espanhola que subcontratava prestação de serviços para sua marca, passou a ser muito mais criteriosa na escolha de seus parceiros após a exibição do programa, e essa é uma função social importante do jornalismo: denunciar à opinião pública que há crimes e contravenções sendo cometidas contra seres humanos.

Mas como A Liga consegue aproximação e desenvolvimento em temas tão polêmicos? Penso em muitos fatores, mas acho que a grande sacada é a inclusão do rapper Thayde na equipe de apresentadores. Com sua experiência nos diversos guetos oriunda de sua cultura rap, é de se supor que a sua opinião é decisiva no momento de conduzir a pauta. Isso é muito inteligente, principalmente se levarmos em conta que uma equipe jornalística/artística é composta em sua maioria por membros da classe média. Imagino que Thayde sabe, ao menos intuitivamente, os lugares e os momentos certos de encontrar os elementos adequados para desvencilhar os nós das reportagens às quais eles se propõem. Basta observar que muitas das matérias passam pela periferia, pelo centro degradado, pelo cortiço e pela favela. Ele fornece, desta forma, o “rebolado” necessário para pensar estas situações.

É por essas e por outras que a diferença entre as reportagens pasteurizadas do Globo Repórter e as desafiadoras d’A Liga são tão abissais.

Recomendação de audiência:

Procurem trechos dos programas citados no Youtube, em especial a reportagem sobre o sumiço da televisão na escola de Barueri. É nojento.

http://www.youtube.com/watch?v=8JEPp758JDE


PS: A bela ilhota que peguei para ilustrar este texto vem do endereço abaixo:

http://www.italia.it/fileadmin/src/img/cluster_gallery/mare/elba/Isola_d_Elba_-_Isola_di_Palmaiola.jpg

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal: três pontos para serem debatidos

Olá!

Tá chegando o Natal, época festiva em que a cidade fica ainda mais virada de cabeça prá baixo do que já é normalmente, por conta da correria das compras de presentes e guloseimas, já devidamente aí embutidas aquelas destinadas à virada do ano. Muitas atitudes, muitos modos diferentes de comemorar a data. Uns gostam mais, outros ligam pouco, mas quase ninguém é indiferente. O que o Natal representa para você?




Hoje vou mais de opinião e menos de Filosofia metódica. Para mim, há três pontos interessantes para observar nessa época do ano.

Primeiro: Há tempos que o Natal recebeu uma nova significação. Os princípios religiosos foram meio que deixados para trás, como exige nossa sociedade que vai a caminho da secularização. O grande barato agora são as regras de consumo, nossa nova (tá bom, nem tão nova assim) divindade. Vamos relembrar nossos cadernos de catecismo (não os do Carlos Zéfiro): o Natal é a data de nascimento do menino Jesus, que o cristianismo coloca como ente divino. O que é feito para celebrá-lo? Quase nada, percebo eu.

Em tempos em que a religião católica era preponderante no Brasil, a chamada “missa do Galo” era uma das comemorações mais centrais do ano litúrgico. Era celebrada à meia-noite, e estendida aos primeiros minutos da madrugada, em uma ritualização semelhante à espera do nascimento do Filho tão esperado. O culto espelhava a história do acontecimento, imbuía nas pessoas um espírito de pertença a essa história. A protestantização e sua conseqüente iconoclastia tiraram muito do caráter coletivo da celebração memorial do nascimento de Cristo, e minou as defesas do sentimento religioso para sua manutenção. O Catolicismo se enfraqueceu diante de um mundo cada vez menos espiritualizado, se desatualizou e já não consegue oferecer uma resposta atual à mecânica liberal-capitalista, que tomou de assalto esta e outras celebrações, como a Páscoa e seus chocolates. A distribuição de presentes era coisa secundária, derivada da visita dos Reis Magos, mas é isso que restou de fundo religioso, devidamente acomodada aos ditames comerciais. A própria figura do Papai Noel é originada de um santo, Nicolau de Mira, mas da figura original só resta a cor predominante das roupas, o vermelho.

Segundo, já que falamos de presentes: Tenho observado uma relação diferente entre o imaginário das pessoas e sua efetiva aplicação. Trocando em miúdos, percebo que as pessoas desprezam seus sentidos de criatividade e de ousadia em detrimento de uma maior segurança. Vamos ser claros, vai! As pessoas arriscam muito menos com presentes. Os amigos secretos das empresas são constituídos por um sem-fim de vales: vale-livro, vale-CD, vale-compras, vale-isso, vale-aquilo... Por que será, hein? Eu entendo que grande parte da graça em dar um presente está justamente em tentar adivinhar o que agrada à pessoa que o recebe, mede a percepção que eu tenho sobre os gostos e hábitos do outro e, no limite, demonstra uma preocupação maior de mim para com o próximo. Não é o caso de procurar, por exemplo, “puxar o saco” de determinado cidadão, mas de procurar respeitar um determinado modo de ser, de “esvaziar” meus gostos e preferências para tentar entrever a visão alheia. Creio que esse é um excelente exercício! Já pensou se tentássemos pensar um pouco mais com a cabeça dos outros, quantos problemas não conseguiríamos evitar? Mas estamos cada vez mais preferindo evitar um risco que PODEMOS correr. Errar um presente não é uma desgraça, é um aprendizado. É, de certa forma, um recado que mandamos, uma sugestão que damos. Por que não posso comprar um perfume para uma pessoa? Ah, perfume é pessoal demais. Ora, o que não é pessoal, cara-pálida? Mesmo na ditadura dos vales nós corremos riscos. Vale-livro para quem tem tio dono de livraria, já pensou que bacana?

E terceiro, já que falamos de Papai Noel: não tenho nada de especial contra o bom velhinho, por isso mesmo acho bom deixar bem claro à criançada seu verdadeiro papel no Natal: o legendário. Nunca me agradou a idéia de iludir meus filhos com a história de um senhor de barbas brancas vindo do pólo Norte que traz um saco de presentes para dar para as crianças boazinhas. Em primeiro lugar, isso é uma chantagem para exercer a (falta de) autoridade: eu compro sua obediência e você não precisa fazê-lo por minha ordem, mas em troca de um presente. Em segundo lugar, há o eterno problema da realização de um desejo que nem sempre é tangível. Não me refiro à arapuca do presente caro – isso se remedeia com o aumento da mentira, basta dizer que o Papai Noel estava com dificuldades financeiras – mas ao “presente” que o afeto pede: as crianças não têm articulação intelectual suficiente para discernir que é inócuo pedir concórdia entre os pais, ressurreição dos avós mortos, carinho do genitor ausente, mas a criança coloca tanta fé naquele mito que uma decepção pode marcá-la para o resto da vida. E não devemos subestimar a capacidade da criança em odiar. Tanto quanto o Papai Noel, a criança desprovida de sentimentos negativos é mítica. Para que, então, tratar da criança com uma mentira?

Ah, mas isso é estimulador para a fantasia da criança! Ora, que besteira. A criança CRIA as suas fantasias e articula com elas, SEM necessidade de que as incutamos em suas cabeças. O efeito é contrário. Vender uma ilusão pré-fabricada é justamente apostar na incapacidade da criança em produzir seu próprio imaginário.

Por esses motivos, optei por não atribuir ao Papai Noel o presente de Natal aos meus filhos. Prefiro fazer um agradecimento a Deus pela oportunidade de termos aquilo que pudemos ter.

O que eu acho do Natal, portanto? Ora, eu adoro o Natal. É um momento lindo, em que pensamos na caridade e na solidariedade, na união. Não repilo o Papai Noel neste sentido. É um símbolo belíssimo, se remontarmos suas origens: a da doação gratuita, sem necessidade de um relacionamento íntimo para a obtenção do amor. Gosto muito da alegria das luzes e dos enfeites, do espírito de reconciliação, do eterno recomeço, das pessoas reunidas em torno da mesa, da consciência do alimento como manifestação do sagrado. Gosto demais dos presépios, representação maior do Natal, último resquício material da religiosidade destes tempos de compras apressadas.

Por tudo isso, desejo sinceramente aos meus colaboradores, leitores, visitantes eventuais e a toda humanidade um feliz Natal. Em especial, aos jovens que lêem estas mal traçadas linhas e encontram nelas motivos para pensar, concordar, discordar, pedir mais. Que todos possam se encontrar mais felizes, e que possam visualizar na alegria alheia uma parte integrante da sua própria alegria.

Recomendação de leitura:

Para não passar em branco, indico um grande clássico de motivo natalino para meus seguidores. Trata-se de um conto de Charles Dickens, muitíssimo conhecido, e que talvez não seja novidade, mas que tem uma abordagem interessante na medida em que reputa como secundária a chave monetária para um bom convívio com o outro.

DICKENS, Charles. Um conto de Natal. LPM: São Paulo, 2003.

Agradeço à Ná, à Rê, ao Lucas, ao Azul, ao Bruno e ao Felipe por comporem o presépio que ilustra este texto.

sábado, 19 de novembro de 2011

Banquetes e filmes de arte

Olá!

A Filosofia tem a capacidade de dialogar com qualquer tipo de assunto. Sendo assim, quando falamos em obra de arte, tudo é passível de análise, desde a mais primorosa sinfonia até o mais medíocre fanque (recuso-me a chamá-lo de funk, estilo de gente como Parliament, Tim Maia, Earth Wind & Fire e até mesmo Red Hot). Para detectar se uma peça tem real valor artístico ou não, é simples. Quando a obra é boa, discute-se seu valor intrínseco, ela é o próprio objeto do debate (concordando ou não). Se é ruim, discute-se o contexto em que ela surgiu, como foi possível gerar uma porcaria deste naipe, que sociedade é essa que produz tal aberração e outras avenças. O importante é: em minhas andanças acadêmicas, deparei-me com uma série de obras de arte surpreendentes. De fato, a arte é o grande campo da liberdade, e sem dúvida é irmã de sangue da Filosofia, no sentido em que consegue dar modelos às doutrinas filosóficas (e, em uma relação dialógica, ser objeto de estudo mútuo) e tratar dos temas filosóficos de maneira mais, digamos, compreensível. Por isso, a obra de arte é imprescindível ao professor de Filosofia que leva a sério sua área de conhecimento e seus alunos.

Muitos filósofos, como Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche levaram a arte tão a sério que julgaram impossível viver sem ela, reputaram-na como método para sobreviver, para não justificar o suicídio. A arte teria o papel de oferecer suporte a uma vida que deve ser negada, dominada pela vontade e suas imprecisas representações, para ficar no exemplo de Schopenhauer.

Um bom exemplo para ilustrar como a arte pode dar significado à vida é dado pela obra-prima do dinamarquês Gabriel Axel, “A festa de Babette”. É um filme que contém alguns elementos típicos do cinema europeu: ritmo contido, leitura psicológica dos personagens, relação coerente entre a ficção e os fatos históricos. Mas o filme vai além. É uma belíssima interpretação das amarras dogmáticas e do quanto um artista dá valor à sua criação. Nietzsche amaria, com certeza.


(Atenção: daqui para baixo vou revelar itens importantes do enredo do filme – é o famoso spoiler – se alguém se interessar em assisti-lo, é melhor parar por aqui, e depois continuar a ler o texto).

O cerne do enredo está na fuga da personagem central, a precitada Babette, cozinheira francesa, por conta dos combates oriundos da Comuna de Paris (vide abaixo um pequeno resumo do que foi este evento). Ela se desloca à Escandinávia, onde é acolhida por uma pequena comunidade luterana ultraconservadora, que vive em um sistema de reclusão quase eremítico, de relações endêmicas e avesso ao externo. O ambiente é opressivo, mas as pessoas parecem conformadas com sua situação, temerosas que são de incorrer nos menores pecados. Tal ambiente não é especialmente propício a Babette, oriunda de um país católico e tido como “moderno demais” para comunidade tão diversa.

Acontece que, após 14 anos de convívio, Babette fica sabendo que ganhou um prêmio na loteria francesa, solucionando assim seus impedimentos para regressar a Paris. No entanto, como modo de agradecer sua acolhida, decide preparar um autêntico banquete francês para os membros do povoado, que se preparam para a homenagem do centenário de seu fundador.

O efeito inicial é uma desconfiança generalizada. A dogmatização faz com que os moradores da aldeia tenham certeza de que estarão cometendo pecado mortal ao se entregar aos prazeres terrenos. Alguns chegam a pensar em sortilégios, em ação demoníaca.

Curiosamente é do próprio externo que chega a solução. O militar oriundo da comunidade, de tanta confiança de seus co-irmãos, quebra a resistência dos comensais, que lentamente começam a desturvar sua visão, até atingir um clima de catarse geral. A festa inicia-se de verdade, uma verdadeira celebração à vida. Nietzsche, neste momento, certamente choraria de emoção.

O desfecho do filme se dá com o clima de despedida após o banquete. Mas Babette não vai mais embora: ela gastou todo o prêmio na confecção das iguarias, na compra do melhor vinho, até mesmo na decoração. Questiona-se que motivos a levaram a fazê-lo. A resposta é desconcertante. O que importa para ela é executar sua arte, disponibilizar seu talento. Isso vale mais do que qualquer dinheiro. Sua gratidão vai além da acolhida recebida – a aldeia é sua platéia, o receptor de uma estética que lhe é cara. Todos os valores típicos – o dinheiro, a pátria, a liberdade – são secundários para o verdadeiro artista. São passageiros, a criação é o que fica. Mais ainda: é a visão de mundo particular, única, personalizante, sua marca no mundo, exclusiva. É a arte reconhecida como motivo da vida. Agora sim, Nietzsche desmaiaria.

O filme, no final das contas, é um libelo contra o preconceito, contra as posições dogmáticas, a favor da vida e da estética. Belíssimo.

Recomendação de cinema:

AXEL, Gabriel. A festa de Babette. Filme. Dinamarca, 1987. 102 min.

(A Comuna de Paris foi um governo de origem proletária que assumiu o poder após a queda do imperador Napoleão III. Teve a duração de 40 dias, e teve seus membros massacrados em sangrentos combates, que resultaram em cerca de 80000 execuções).

Sobre o envelhecimento e a sensação de que a morte nem é tão ruim assim

Olá!

Tenho duas sensações bastante estranhas em minha vida. A primeira é que, de alguma forma, não agrada ao universo que eu vá à praia. Não é possível um tempo frio e chuvoso destes no meio de novembro, por quatro dias seguidos. A segunda é a sensação de envelhecer. Tenho uma série de idéias soltas, que, em seu conjunto, acabam por pautar minha vida e minha conduta, mas que não são exclusividades minhas. Outros já as pensaram e sistematizaram. Quantas delas não são derivadas da intuição de que o tempo passa?

Percebo que os dias correm incessantemente todas as vezes em que vejo aumentar a distância que há entre minhas velhas opiniões e o modo de ser dos mais jovens. Também ocorre o mesmo quando não mais consigo acompanhar seus ritmos frenéticos, ou quando não posso corresponder às suas expectativas. Uma das experiências mais curiosas tem paralelo com a estética: há momentos em que você fala como um poeta e é visto como um quadro – olhares voltados para você, mas silenciosos, inertes, como se nada do que você fala estivesse sendo absorvido. Há um descompasso de linguagem, de interesses, sei lá. É um desnível de épocas, quer me parecer. Envelhecimento, para sintetizar.


Pensar na vida é, essencialmente, pensar em seu vazio. É melhor não fazê-lo muito seriamente, sob a pena de concluir que seu motivo é uma dialética entre a busca e a fuga da morte. Falamos muito sobre o futuro, mas o que é ele? Podemos falar em objetivos, em etapas da vida, em planos; é interessante como todos estes projetos se modificam com o passar do tempo. Já tive a oportunidade de falar sobre a angústia dos pais diante da crescente independência dos filhos, neste post. E essa angústia amplia-se na medida em que os marcos característicos de uma existência vão passando. Por exemplo: uma criança, ao nascer, tem diante de si uma série de eventos típicos para ocorrer no transcurso de sua vida – a tomada tresloucada de informações na primeira infância, a primeira ida à escola, os primeiros namoros, a entrada na faculdade, os primeiros encontros sexuais, a formatura, o primeiro emprego, o casamento, os filhos, a compra da casa... São marcos, objetivos traçados que vão sendo cumpridos, não necessariamente nesta ordem. Eu já passei pela maioria deles. O que resta de referências, de pontos a chegar? São poucos os que vão restando, e o maior deles, o único inevitável, vai se aproximando.

Já tive muitos momentos em que a morte me causou medo, e outros em que ela me pareceu uma solução. Não, não penso em suicídio neste momento, longe disso. É algo como se eu não me importasse muito se um médico me dissesse que eu tenho uma doença incurável, que eu tivesse pouco tempo de vida.

Será que só eu tenho essa sensação? Ela é algo anormal? Para Freud, não.

Freud pensa o psiquismo em termos de pulsões. A mais característica e conhecida é chamada de princípio do prazer. O homem busca, instintiva e inconscientemente, a satisfação de seus desejos, ou seja, ainda que não tenha plena consciência de seus atos, eles são guiados para a obtenção de prazer, um distintivo que valida sua razão de existir.

(Aqui, apenas para recordar, Freud nada mais faz que aperfeiçoar idéias de Schopenhauer, ainda que não o admita).

Os desejos têm objetos. Não existe um desejo de “nada”. Portanto, a satisfação de um prazer é a realização de um objetivo. Ocorre que um objeto pode ser perdido, um desejo pode não ser satisfeito. Essa perda é trabalhada pela estrutura mental através de uma busca de reequilíbrio, um restabelecimento da paz anterior ao fenômeno em questão. Ora, se há um princípio de prazer que impulsiona a pulsão sexual (Eros – Deus do amor e da vida na mitologia grega), que Freud considerava como a ativadora do processo psíquico, há um princípio de destruição do desejo não realizado, que é a pulsão de morte (Tânatos – Deus da morte – Freud era cheio dessas gracinhas).

Essa pulsão trabalha em oposição à incessante atividade do Eros, de busca de satisfação de desejos. É disparada, em geral, diante de um choque de realidade: a consciência capta a não-realização do prazer, sua extrema dificuldade ou sua impossibilidade. Há, então, uma busca por estabilização, por um retorno ao status original, uma destruição dos resíduos do desejo, em geral por uma transferência do fracasso. Nada é mais estável do que a morte, do que o inanimado. É por isso que esta pulsão tem este nome. Em última instância, e de certa forma, a morte é uma garantia de obtenção de sucesso pelo Eros: não há desprazer onde não há vida.

Esta é uma das teorias mais controversas de Freud, que foi contestada, revista ou complementada por cientistas como Wilhelm Reich e Jacques Lacan, mas que parece ter seus reflexos em nossas vidas. De fato, esta “vontade de morrer” nada mais me parece do que um misto de fuga e de defesa diante de uma vida que já não possui os mesmos índices de expectativa de tempos passados. Não tem relação (necessariamente) com depressão ou coisas do tipo. É fruto da tensão natural existente em nosso equipamento psíquico, que se expande quando os projetos de vida são mais breves e mais incertos.


Recomendação de leitura:

A teoria é muitíssimo mais complexa do que as poucas palavras que coloquei aqui podem fazer supor, e lembrando que a interpreto livremente. É muito interessante ler o seguinte livro para compreendê-la melhor.

FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sobre Lula, SUS e autoritarismo

Olá!

Tenho acompanhado com apreensão o desenrolar da campanha "Lula, vai se tratar no SUS" que tem se desenvolvido nos últimos tempos em redes sociais. O caso merece uma análise, porque tem alta adesão e traz uma amostra do pensamento de nossa sociedade. Poderia dizer que a campanha é injusta, nojenta e burra, porque em última instância trata-se de um ser humano que vive uma situação difícil, da qual muitos de nós já passamos, direta ou indiretamente. Mas prefiro ver a atitude por um outro ângulo: ela é autoritária.




Em primeiro lugar, precisamos levar em conta a trajetória política do ex-presidente. Não é preciso amá-lo nem odiá-lo, mas sim levar em conta que se trata de um retirante nordestino, com pouquíssima formação acadêmica, que passou pela dificuldade de ser um operário, e que vem influenciando nossa política desde o tempo em que era um líder sindical, ainda nos tempos da ditadura, quando manifestar seus pensamentos e objetivos constituía ainda um perigo real, físico mesmo. Esse mesmo homem chegou à Presidência, foi reeleito e fez sua sucessora, e ainda hoje é referência quando se pensa na política do Brasil. Nesse sentido, sua carreira é absolutamente brilhante, a despeito do que se pense de suas ideias e de seus resultados. Espero ter sido compreendido.

Já tivemos inúmeros políticos que se trataram de doenças graves em hospitais particulares, no Brasil e no exterior. Por que o seu caso provoca tanto escândalo?

Quem pensou em luta de classes acertou em cheio. Nossas elites ainda não são democráticas no sentido pleno da palavra, ainda não estão preparadas para suportar a ascensão social dos mais pobres, e Lula é um modelo perfeito e bem acabado daquilo que não conseguem compreender. Ao recomendar que Lula faça seu tratamento no SUS, acabam revelando que é este o lugar que desejam para toda uma classe social. E essa atitude é autoritária, porque reflete uma efetiva demonstração de desejo da manutenção de seu status quo. E apenas para ela. Não se deseja uma nova elite, ou uma elite mais numerosa. É uma atitude extremamente agressiva, e, como tal, portadora de uma verdade por vezes indesejável, inconfessável, mas inevitável, como pensava Michel Foucault (vide este post).

Isso revela dois problemas. O primeiro é o próprio fruto do autoritarismo. Nosso último período ditatorial foi derivado de um ledo engano da classe política. Achava-se que os militares tomariam o poder constitucionalmente eleito para entregá-lo de mão beijada. Triste ilusão, de igualmente tristes consequências. Vivemos um período sangrento, cuja real dimensão não conhecemos de todo até hoje. Ora, o autoritarismo atrai autoritarismo. Os acontecimentos no mundo árabe estão aí, para não deixar ninguém mentir. É que, ao admitir-se a violação da ordem legal, derruba-se o estado de direito e valida-se a exceção, a violência e a insegurança jurídica. Acho engraçado que existam pessoas que elogiem o regime ditatorial, em especial aqueles que não o vivenciaram. Talvez não reflitam adequadamente. Nossa elite intelectual não coincide com nossa elite econômica, seus anseios são diferentes. Esse SUS que reputam por ineficiente e inadequado é fruto direto do desmonte das políticas sociais ocorrido justamente na ditadura. Os militares entregaram aos civis um país quebrado, próximo da ingovernabilidade. Só pudemos encontrar algum respiro verdadeiramente democrático a partir do governo Fernando Henrique, que, apesar de minhas grandes restrições, começou um processo de estabilidade econômica que tem permitido algumas melhorias sociais. É bom lembrar que a transição de seu governo para a gestão Lula foi feita de maneira absolutamente republicana e democrática, ao permitir que os técnicos do novo governo se instalassem e tomassem pé da situação ainda antes do início de seus mandatos.

O segundo problema diz respeito às reais condições de atendimento do SUS. Conhecemos as filas e as denúncias, e não ficamos satisfeitos com elas. Mas, em alguns aspectos, somos exemplos para outros países. Para tanto, peço a leitura atenta deste depoimento. Não preciso acrescentar mais nada, mas gostaria de mencionar estes dois exemplos extraídos de minha vivência, quem vem ao encontro dos objetivos deste blog.

O primeiro diz respeito a alguns hospitais que são referências, e que atendem pelo SUS: o HC, o Dante Pazzanese, o Pérola Byington. Estivemos em visita ao Hospital A. C. Camargo, o famoso hospital do câncer, em sua ala infantil. Lá há atendimento a particulares e ao SUS. Não há nenhum, mas nenhum mesmo, tipo de diferença entre o tratamento oferecido para um ou para o outro. Um quadrinho aqui, uma mesinha lá: é todo o privilégio adicional que os particulares tem em relação ao atendimento público.

Já o segundo é mais pessoal. Minha mãe começou tratamento contra o câncer enfrentando um monte de dificuldades: começando por exames não cobertos pelo convênio, passando por processos judiciais para conseguir uma porcaria de uma alça de ressecção e horas e mais horas de telefone, internet e visitas pessoais para conseguir a autorização para a aplicação da imunoterapia. A única participação do SUS nesta história toda foi o fornecimento dos medicamentos, que foram conseguidos NA HORA, sem nenhuma burocracia.

As pessoas tem a tendência de achar que as coisas administradas pela iniciativa privada são mais eficientes, o que não é uma verdade absoluta, principalmente quando há risco de prejuízo. Aí, sim, a grande roda do capital gira e o ser humano é posto em um plano inferior. Passa-se, então, do autoritarismo para a burrice, a nojeira e o preconceito sobre os quais não quis falar no começo desta postagem. E, então, nascem campanhas como estas, onde as pessoas acham divertido zombar da desgraça dos outros.

Recomendação de navegação:

O link acima aponta para um texto de Nina Crintzs, que escreve bem prá burro e que eu gostaria de deixar recomendado, ainda que suas postagens sejam relativamente raras.

Purple Sofa
https://purplesofa.wordpress.com/

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Continuando: sobre o tempo e as relações entre ética e metafísica

Olá!

Em meu post anterior, comecei a discutir a questão do tempo e da memória a partir do filme "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Coloquei a visão patrística de Santo Agostinho, que compara o tempo à música, e que reputa-o como eminentemente psicológico ou espiritual.

O mesmo faz o pensador francês Henri Bergson, que traz interessantes teorias sobre o tempo que, a bem da verdade, complementam e enriquecem as ideias de Santo Agostinho. Para ele, na maneira como olhamos o tempo há um equívoco: procuramos observar espacialmente algo que não tem dimensões. Dividir o tempo significa dividi-lo em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos. Essa segmentação é precisa - cada segundo é igual a outro segundo, seguindo assim uma premissa científica. Ok, o tempo assim dividido realmente se presta à ciência, que necessita de métricas para o estudo dos fenômenos. O problema é para quando vamos além dos limites das ciências.

Um exemplo, então: já leram Machado de Assis? Gostaram de "Memórias Póstumas de Brás Cubas"? É um dos livros mais adotados nos exames vestibulares. Pois bem, como a maioria das pessoas o lê por obrigação, costuma ser uma leitura arrastada, demorada, empurrada goela abaixo. Como seria se a pessoa obtivesse prazer nessa leitura? Ora, haveria fluência, atenção. Digamos que duas pessoas com o mesmo nível de leitura se colocassem a ler este livro ao mesmo tempo, e terminassem também juntos. Falando em termos científicos, os tempos são iguais e pronto. Mas para a pessoa que leu com prazer o tempo percebido é bem menor. De onde vem essa impressão? Que tempo interior é esse, que faz com que o mesmo fenômeno seja tão distinto em circunstâncias iguais?

Para explicar essa situação, Bergson pensa nas instâncias da consciência; temos, em primeiro lugar, o instinto. Este é uma espécie de regra pronta para a solução imediata de um problema. É como quando um piano cai sobre nossa cabeça: não adianta nada, mas erguemos os braços para nos defender. Depois, temos a inteligência, que procura avaliar as relações entre as coisas antes de atuar. Para tanto, a inteligência espacializa o tempo, procura dispô-lo em compartimentos contínuos e separados. Voltando ao piano, se houver tempo suficiente, a inteligência avalia a distância, impede a ação do instinto, formula a hipótese do desvio, compreende qual o melhor ponto para a fuga, a velocidade com a qual isso deve ser feito e aciona os membros competentes para a execução da tarefa (óbvio que, para tanto, o piano deve cair de um prédio beeeeeeeeeeeeem alto). Em ambas as instâncias, podemos fazer uma medida do tempo, normalmente em segundos. Mas quem diz à consciência que tudo se deu rapidamente ou foi demorado? Quem diz quanto a experiencia "durou"? Essa percepção é a intuição. Somente com ela podemos dizer qual foi a duração (durée) do fenômeno. No caso do livro de Machado, podemos dizer que é a intuição que diz se a leitura foi breve ou demorada. A intuição não é espacializadora, ela capta o evento como um todo, e assim o transmite à consciência. Como a intuição é diferente de pessoa para pessoa, podemos dizer que ela é única, personalíssima, identificadora.

Para ilustrar a diferença entre a inteligência e a intuição, Bergson lança mão de um exemplo maravilhoso: a inteligência assemelha-se a um colar de pérolas, que são ligadas por um fio, mas são compartimentalizadas. Cada pérola é um evento, bem delineados e distintos entre si. Há um espaço que as delimita e sequencializa, isoladamente. Já a intuição é como um novelo de lã, contínuo, sem interrupções, compõe um todo, onde as experiências passadas estão sobrepostas pelos acontecimentos mais recentes, mas em um continuum: em nenhum momento o passado mais interiorizado deixa de estar à disposição da consciência, e pode, inconscientemente, ser resgatado. Como em Santo Agostinho, essa presença perene dos tempos no presente é psicológica, espiritual, inerente ao ser humano.



É nesse ponto em que podemos voltar ao filme, e com uma novidade: o cruzamento entre memória e conduta.

No campo ético, o resgate da memória motiva um momento de decisão para Amélie. Para tanto, ela acompanha de que modo se dará a reação de Dominique (o menino que ocultou os pertences, agora um homem maduro) ao rever seus objetos perdidos. Caso essa reatividade seja positiva, Amélie tomará como valor a contribuição ao próximo como chave de sua atitude ética. Nesse caso, podemos fazer remissões à ética judaico-cristã de amor ao próximo e também ao imperativo categórico da ética do dever de Kant, já que a escolha de Amélie terá por fim a constituição de uma verdade universal para si própria, mas é melhor se prender à grande sacada do filme, que é a seguinte: A escolha ética de Amélie será tomada em cima de uma constatação metafísica: qual é a importância do tempo nas escolhas do indivíduo? A memória eternamente presente é uma chave para se desvendar a verdade sobre a conduta das pessoas, inclusive daquelas que não estão diretamente implicadas com meu próprio resgate, ou minha própria expectativa. Afinal, sobre a decisão de um terceiro com relação ao seu próprio passado ela pautará sua conduta ética. Os desdobramentos seguintes em sua vida já são uma consequência desta decisão.

O filme não se limita a isto. É visível, no decorrer do filme, o desenvolvimento das habilidades sociais da personagem central, ao construir por si mesma a sua rede de relacionamentos, embora seja inevitável a percepção de suas dificuldades em virtude do déficit educacional ocorrido em sua tenra idade. Mas vou ficar na questão do tempo e deixar os demais assuntos para outra oportunidade.


Recomendação de audiência:
Esse entrelaçamento entre metafísica e ética é absolutamente original, por isso recomendo fortemente o filme.

JEUNET, Jean-Pierre. O fabuloso destino de Amélie Poulain. Filme. França, 2001. 120 min.


Recomendação de leitura:
Henri Bergson, além de grande filósofo contemporâneo, é também excelente escritor, tanto que foi agraciado com o prêmio Nobel de literatura em 1927. Sua principal obra com relação a problemas metafísicos é:

BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2001.