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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sobre a complexidade das memórias e como o envelhecimento lhes coloca em xeque

(Os processos mentais estão entre os grandes mistérios da humanidade. E a memória é uma espécie de musa dentre eles)

“Memórias são retratos na parede

Que não se cansam de mudar de lugar”

Picumã - Eu

Olá!

Começo a digitar essas mal traçadas linhas no dia seguinte ao Natal do ano da graça de 2025, e vou concluí-lo no último. No dia de hoje, a patroa recebeu a notícia de que uma tia dela morreu. Era informação que podia demorar dias antigamente, com o favor de um telefone local ligando para um número que recebia o recado como um favor, mas hoje os aplicativos de mensagem instantânea fazem uma transmissão praticamente ao vivo. Morava na pequena cidade de Ibiporã, no norte do Paraná, e não era exatamente uma visita constante, porque não gostavam do agito de São Paulo. Nós também não íamos muito para aquelas redondezas, um pouco por desleixo, um pouco por desinteresse. Mas a tia era cozinheira de mão cheia, e isso tornava sua casa uma atração turística. Como faltava a ela dois dedos abaixo para ser chamada de anã, recebeu o maledicente apelido de Botija, posto pelo próprio marido, esse sim um tio de sangue da consorte, ainda vivo.

Evitamos contar o passamento para minha sogra, para não transformar o ato em pantomima. Ela é daquelas que transformam um evento triste, porém corriqueiro, na encenação de uma tragédia grega, com coro e tudo. Isso inclui pressentimos, galos que cantam tristes e outras mandingas, além da necessidade peremptória de viajar correndo para acompanhar o enterro. Não se faz necessário esse movimento todo, especialmente no intervalo entre as festas. Afinal de contas, o falecimento de uma idosa de 86 anos não deveria causar estrépitos superiores à natural tristeza pela perda, mas até ameaças de desmaio já testemunhamos, então é melhor deixar passar. É mais fácil controlar a raiva posterior da senhora pela intempestividade do comunicado do que seus impulsos teatrais.

Morreu de Alzheimer, dizem os parentes mais diretos. Bem, não se morre de Alzheimer, mas que ele atrapalha muito, atrapalha. As perdas progressivas de importantes funções cognitivas vão levando a quadros de disfagia e imobilidade, que, por sua vez, favorecem a aquisição de infecções e de desnutrição, o que é pedra de campa para quem já tem os problemas típicos da idade. É uma doença misteriosa, cujo principal ataque se dá à memória.

Quem já teve algum avô com Alzheimer sabe o quanto a condição é triste. São pessoas que você ama e quem não tem mais condições de reconhecê-lo, nem aos outros, nem a si próprios. É uma morte que ocorre antes da morte, porque a pessoa só está lá fisicamente, sem sua história e aquelas lembranças que tanto gostamos de ouvir dos mais velhos, como vieram parar aqui, porque tomaram as decisões que tomaram, como conheceram fulano e sicrano, e essas coisas que dão um sabor extra ao jantar de Natal. Mas, para além do sentimentalismo da situação, existe um processo orgânico que deixa de funcionar a contento, e provoca o tão indesejado efeito.

Na minha família, não costumamos precisar de lidar com este mal, por um motivo de pouco alento: a turma morre cedo, antes de se ver acometido por doenças neurológicas. São cânceres e enfartes que puxam a galera para a barca antes que haja tempos de esquecimentos. Então não sei se é um infortúnio ou um privilégio. O único caso que sei foi da exceção: a Tia Antônia, irmã do meu avô, por um curtíssimo período viveu seus dias de demência, exatamente pela morte algo prematura dele, que, sendo temporão, era bem mais jovem e inverteu a lógica dos falecimentos. Nos oito meses entre a morte dos dois, la vieja saiu de uma perfeita lucidez para tudo aquilo que está no paradigma do Alzheimer – perda da memória recente, falta de reconhecimento de parentes, lembrança de gente dos tempos em que ela ainda vivia na Espanha. Foram formas diferentes de agonia, com os tumores expostos do meu avô sendo sucedidos pelo desvanecimento psíquico de sua irmã, minha tia. Tudo triste, mas, segundo os médicos, explicável.

A memória é colocada no cérebro pela ativação de neurônios especializados na retenção de informações. Eles ficam armazenados de acordo com uma série de circunstâncias: a atenção que damos ao fato, sua repetição, as impressões que nos deixam, sua utilidade e assim sucessivamente. Sua relação com o conhecimento é tão íntima que são praticamente sinônimos, porque não basta que as lembranças façam o papel de tijolinhos do saber, mas os próprios nexos causais são frutos da memória. Ou seja, nós não nos lembramos apenas de nomes, fatos ou objetos, mas das maneiras com as quais eles se ligam uns aos outros. O que significa isso? Que o aprendizado se dá pelas cadeias de causa e consequência que extraímos do mundo.

Um exemplo simples para compreender. Quando somos crianças pequenas e ganhamos a famosa primeira bola de nossos pais, procuramos desmioladamente chutá-las com a maior força possível para nossas perninhas, achando que isso aumentará as chances de superar nosso avô-goleiro. Isso se dá pela observação simplista dos jogos que assistimos na tevê ou no campo, sem passar pelo crivo de nossa própria experiência. Entretanto, a percepção de que a banda não toca nesse tom faz com que experimentemos um melhor controle se usarmos chutes mais brandos. Notaremos que às vezes é a boa colocação que leva ao sucesso, e não uma mera pancada. Essa estrutura maior-força-menor-controle estará causalmente colocada para outros esportes, como o vôlei e o basquete e, mais ainda, para inúmeras ações do quotidiano, como o prosaico ato de enfiar um prego na parede com um martelo. Notem que as conexões causais independem dos objetos utilizados e, se estes últimos são os tijolos, a causalidade é a argamassa que liga tudo. Quando algo de diferente acontecer, temos o aprendizado (ou uma dissonância cognitiva).

Acontece que nosso cérebro funciona de maneira parecida (forçando um pouco a barra) de um dos modernos HDs de nossos computadores. A informação é armazenada em um disco através de minúsculos pontos magnetizáveis, que recebem singelos dados: ativo/inativo, ligado/desligado, sensível/insensível, zero ou um. Isoladamente, não significam nada, tendo que estar em um conjunto para ganhar sentido. Também não estão em uma sequência física, podendo existir parte da informação em um canto, e o restante em um setor remoto, no lado oposto, ou completamente fragmentada pelo disco todo. Tudo depende do mapeamento que se faz das localizações da informação pulverizada. A grande questão é que, uma vez perdido um desses pontos, a informação inteira fica ameaçada. Existem mecanismos de recuperação que podem resgatar a informação, com riscos de distorções, no entanto. Só que, uma vez que determinadas quantidades de pontos sejam perdidas, a recuperação se torna inviável. E isso não acontece apenas nos registros dos dados, mas no próprio mapeamento.

Transporte tudo isso para o cérebro. O ponto sensibilizável é o neurônio, menor unidade da guarda de informação. Tanto os dados que coletamos da realidade, quanto os encadeamentos causais estão armazenados neles. Ocorre que eles vão morrendo durante toda a existência de uma pessoa, com a infeliz característica de não serem células que se repõe. Isso é a causa das lentidões mentais típicas dos idosos, mesmo dos mais saudáveis. Se ela tiver um processo degenerativo mais acelerado, como ocorre no Alzheimer, não há como realocar as informações em outros lugares, e o resultado é esse que conhecemos: a perda progressiva das memórias.

Não se enganem com a simplicidade do exemplo, que é meramente didático. O cérebro tem processos extremamente mais complexos que o mapeamento das posições de dados de um HD. É capaz de suprimir faltas de memória através de encadeamentos lógicos, de modo a reconstruir um objeto perdido, ainda que de forma imperfeita, a ponto de formar memórias falsas tão perfeitas que são indiscerníveis da verdade para quem as têm. Por isso comecei este texto com a epígrafe da letra de uma música de minha autoria, que fala mais ou menos sobre isso mesmo: como nossas memórias nos enganam, como nos atormentam e como vão parar em um canto perdido, semelhante àquelas teias de aranha recobertas de poeira, o tal picumã. Se pensarmos nessas trocas imperfeitas, temos uma boa explicação para lapsos que vão se tornando cada vez mais frequentes, até o ponto em que haja completa perda de sentido nos conteúdos mentais.

De certa forma, é por isso que dizemos que os velhos voltam a se tornar crianças. Enquanto estas últimas ainda não tem a cognição completa, nos primeiros ela está perdida, com a evidente desvantagem de não ter mais recuperação. As crianças ainda não têm o equipamento cognitivo todo, e por isso montam suas engraçadas falas desconexas, enquanto os idosos fazem o mesmo pela perda dos mesmos elementos que faltam às crianças. Só que o processo não é exatamente dessa forma. O cérebro do idoso procura desesperadamente solucionar os desencontros por aproximação, e substitui o que seria a informação correta por outra semelhante, e aí acontecem aquelas famosas trocas, onde o velhinho te chama pelo nome de um parente mais antigo, por encontrar algum ponto em comum entre as duas pessoas, e que ainda remanesce em sua memória.

O primado da memória é tão importante que tendemos a valorizá-la em um ponto máximo, admirando quem tem conteúdos de cor, chamando essas pessoas de prodigiosas e outras coisas. O esquecimento é sempre tido como um defeito: é o mal dos distraídos, dos ingratos, daqueles que não ligam para momentos de suma importância para outras pessoas. Mas, conforme já especifiquei neste texto, o esquecimento é tão importante quanto a retenção para nosso correto funcionamento mental. Já imaginou se você conseguisse repetir passo a passo, minuto a minuto, instante a instante tudo o que você fez no dia de ontem? Se não, Jorge Luís Borges já o fez, em seu conto “Funes, o Memorioso”. Ele conta a história de Irineu Funes, um rapaz que passou a recordar mínimos detalhes de tudo o que lia e vivia após sofrer um acidente com um cavalo. O grau de minudência de suas lembranças contrastava com sua incapacidade de abstrair, de generalizar, de correlacionar fatos e lógicas, o que demonstra a inutilidade de um conhecimento meramente enciclopédico. Recordar um dia na íntegra significa revivê-lo na íntegra. O que é melhor? Reviver o ontem como se fosse hoje ou viver o hoje como mais um dia na vida? Extrair (puxar para fora na origem da palavra) um entendimento significa esquecer o que ele tem de particular e reter o que ele tem de universal, e isso é o autêntico conhecimento, não se perdendo em minúcias que só são relevantes para a formação de um contexto eventual.

Não maltratemos o esquecimento como um peso a carregar, porque ele tem suas necessidades. O mal ocorre quando mesmo o conhecimento extraído de nosso contato com o mundo se perde, como acontece com a doença de Alzheimer. Aí, sim, podemos lamentar o destino.

E é exatamente na memória de todos que a conheceram que a pobre tia vai continuar a existir. As pessoas podem acreditar em vida após a morte, em um lugar de benesses e no repouso de um lugar mais tranquilo que essa maluquice chamada de mundo, mas é na memória dos que ficam e nos legados que se deixam que as pessoas materialmente continuam a viver. Deuses são hipóteses, a memória é uma realidade. Os parentes contarão aos seus filhos e seus netos os feitos daquela baixinha que fazia uma carne de sol como ninguém, que era um verdadeiro laudamus no coro de sua igreja e que era referência na cidade inteira, até mesmo no campo do Estrela, o principal time da pequena cidade, que ficava do lado de sua casa. Que tenhamos um 2026 melhor. Bons ventos a todos! 

Recomendação de leitura:

Jorge Luís Borges é um dos grandes escritores latino-americanos, daqueles que não falam de coisas fáceis. O livro que recomendo abaixo contém o conto mencionado e vários outros.

BORGES, Jorge Luís. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 



terça-feira, 1 de abril de 2025

Navegações de cabotagem – a Casa da Memória de Guararema e o que é a memória quando ela volta à cabeça

(Memórias puxam memórias. Mas como elas são os tijolinhos da construção do conhecimento?)

“A memória age como a lente convergente na câmera escura: reduz todas as dimensões e produz, dessa forma, uma imagem bem mais bela do que o original”.

Schopenhauer

Olá!

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Dei uma passeadinha com a patroa para comemorar o aniversário de casamento. Não há novidade nenhuma nisso, mas, como as coisas estão enroladas no meu pedaço, a coisa teve que ser curta e próxima. As mudanças minha para Taubaté e do fedelho mais velho de Curitiba custaram uma exorbitância, e não deu para concretizar grandes projetos.

Acontece que tem lugares agradáveis aqui por perto de São Paulo mesmo. E uma pousada baratinha (mas sem baratas) é suficiente para passar uns momentos legais em boa companhia. Achei uma dessas a cerca de 70 km, na cidade de Guararema, que não é novidade para mim, porque já passei por essas bandas.

Não fiquei só internado na chácara, porém. Fui dar minhas bandas para comer alguma coisa e passear pela agradável cidade, e fui encontrar, bem no centrinho, um pequeno museu de artigos históricos da região, chamado de Casa da Memória.

A intenção é resgatar um pouco da história das famílias que construíram a cidade, muito mais do que contar a história do município em si. Eles dão muita importância em passar essa visão aos visitantes.

Por essa razão, nota-se um tom pessoal em casa um dos objetos que estão expostos nas proteções de vidro, como se fossem coisas que pudéssemos achar nas salas das casas de nossas avós.

São hábitos, costumes e habilidades que cada um dos cidadãos compartilha com o restante de sua comunidade, dando tons de universalidade para quem vem de fora e de comunitarismo para quem é da casa.

As histórias nem sempre são felizes, nem sempre são tristes, mas podem ser sintetizadas nestes objetos que representam tempos de paz e de batalha.

Representam o trabalho dos indivíduos espelhado na sociedade, na medida em que são reconhecidos por todos como objeto comum do passado.

Muitos dos objetos expostos são de meu testemunho também, que foram substituídos por meios mais modernos e mais eficazes. Alguns puxam pela memória a marotagem dos antigos comerciantes, que aproveitavam o material ferroso dos ponteiros para atraí-los com ímãs colocados discretamente no canto dos visores.

Alguns itens são verdadeiramente afetivos, porque lembram nossas avós e madrinhas, nossos tempos de criança e das diversões simples que praticávamos. Era uma forma de brincar de adulto utilizar as máquinas e utensílios para fazer o pão e o café nosso de cada dia.

Enfim, são as pequenas coisas que constroem a memória coletiva de uma população.

O nome oficial deste lugar tem o acréscimo de “Dona Nini”. Pelo que vi no site da prefeitura, é uma senhora exemplar que sintetiza todas as virtudes do morador comum de Guararema. Desta forma, ao invés de homenagear algum grandão que nunca nem de longe lidou com objetos prosaicos como os expostos, buscou-se dar relevo ao próprio povo que formou a cidade. 

É meio brega esse meio quase sentimentalismo, mas é que essas coisas da memória estão no nosso dia-a-dia, e podem ser percebidas nos mais simples fatos. Mas não são somente uma coleção de objetos que nos trazem afeto e conforto, ou que nos fazem pensar nas coisas boas do passado. A memória, e talvez essa seja a sua melhor função, é o repositório de informações que utilizamos para adquirir conhecimento. Basta que pensemos em uma mera operação matemática, do tipo 2+2=4. Para fazê-la, vamos resgatar elementos abstratos de nossa memória, como os conceitos de algarismos, de seus valores, de operações de adição e de igualdade. Mas também buscamos fatores concretos: quando pegamos o lápis para rabiscar a conta no papel, resgatamos o desenho dos números e dos operadores, por exemplo. Então percebam que todo o fluxo de dados que percorre a consciência tem como elemento primário a busca de informações na memória. Uma informação nova é armazenada na memória, e quando é trazida de volta é uma reminiscência.

Isso não foi percebido apenas nos dias de hoje, mas há registros esparsos desde há muito, e que redundou em interessantes discussões na Antiguidade Clássica, representadas especialmente na oposição das visões de Platão e Aristóteles.

Platão entendia que as memórias eram elementos inatos que eram reavivados de acordo com racionalidade. Segundo ele pensava, todos nascemos com a capacidade intelectual de acessar as formas perfeitas do mundo das ideias, porque a alma é eterna e carrega consigo, aprioristicamente, todos os conhecimentos do universo. Quando encarna, entretanto, a alma passa a conviver com os sentidos, que distorcem a cognição. Isso acontece porque permanece na alma a capacidade de reconhecer as formas das coisas, mas que somente são captadas na materialização imperfeita da concretude. Parece coisa de espírita, e talvez seja mesmo.

Mas o que são essas tais formas? Lembram das discussões dos filósofos da physis, que buscavam o elemento essencial de todas as coisas, a sua substância, a sua arché? Eles buscavam a essência em uma materialidade que fosse comum a tudo, enquanto Platão faz sua teoria em um outro sentido: não é a matéria que explica a natureza, mas a sua forma, ou seja, um paradigma que é comum a todos os existentes daquela espécie que é absorvida. Dessa forma, quando olhamos para uma banana (estou olhando para uma banana na feira da Água Branca), independentemente de ser nanica, prata, ouro, maçã, figo, pão, São Tomé, da terra ou vermelha, captamos a forma “banana” e a reconhecemos como tal. 

E como um contribuinte pode fazer para considerar conhecer? Aí cabe a atitude filosófica de abstrair o objeto concreto e resgatá-lo do modelo ideal. A banana que vejo sobre a banca é uma concreção do modelo banana, assim como todas as outras que lá estão. A cada exemplar, tenho um resgate, e lá eu devo saber que há algo que é próprio de cada uma das bananas e algo que é comum a todas elas. Por exemplo: umas são mais curvas, outras menos. Se eu for usar instrumentos, perceberei que mesmo aquelas que parecem idênticas possuem discretas diferenças em seu ângulo de curvatura (a tal ilusão dos sentidos que Platão tanto fala). O que é comum a todas e que as caracteriza como tal é a existência da curvatura, e isso pertence à sua forma. Essa forma reside em nós previamente, acessíveis unicamente através do intelecto.

Sendo assim, todas as vezes que captamos um novo objeto, nada mais fazemos do que restituir os modelos que previamente conhecemos no mundo das ideias. Esse é o processo de reminiscência platônico, que considera a memória algo eterno e permanente, assim como seria a própria alma.

Já Aristóteles vira essa lógica de cabeça para baixo. Os processos cognitivos também se baseiam em memória e reminiscência, mas de maneira totalmente diferente.

A primeira coisa que Aristóteles estabelece é que não existe um mundo intelectual destacado da própria realidade, mas somente a realidade em si mesma. Isso implica em sua teoria do conhecimento: se você quer conhecer as coisas, você precisa ir até às próprias coisas. E você não pode ir até às próprias coisas se não for para vê-las, para ouvi-las, para respirá-las, para senti-las. E isso tudo só é acessível através dos sentidos, com tudo o que há de defeitos neles. Desta forma, estava estabelecido o primeiro confronto entre idealismo e realismo da história conhecida. Platão certamente se virou na cova ao saber das teses de seu pupilo.

Aristóteles entende que somente com a memória somos capazes de estabelecer juízos. O seu processo consiste em gravações de imagens mentais derivadas dos contatos com os objetos. Quando percebemos alguma coisa, fixamos a conformidade deste objeto em nossa mente como se fosse uma escrita, de modo a criar um registro que só não é permanente porque o tempo pode fazê-lo desvanecer. De todo modo, é com essas imagens mentais que se articula o nosso raciocínio. Se o contato com o objeto não é suficiente para criar a imagem, então ele não estará no nosso campo cognitivo.

Dessa forma, a memória é, para Aristóteles, tanto uma operação cognitiva quanto uma condição orgânica. É indispensável à memória que ela funcione bem, e, embora não se conhecesse os processos de Alzheimer nos tempos de Aristóteles, é um bom exemplo que podemos ter para entendermos como a memória precisa estar funcional para exercer suas funções.

Agora, com relação ao modo como a mente opera com os conteúdos da memória, precisamos compreender alguns conceitos aristotélicos que diferem um pouco daquilo que usamos hoje em dia no senso comum: imaginação, fantasia e fantasma.

Quando buscamos uma imagem mental em nossa memória para compor um raciocínio, o que temos de resultado não é algo exatamente igual ao objeto com o qual tomamos contato através dos sentidos. Ela depende do quão bem gravada ficou a representação do objeto. Algumas vezes, comparando com uma impressora a jato, a tinta está acabando e a impressão sai toda falhada. Em outras vezes, pegamos o papel com a mão molhada e a impressão é borrada. De qualquer forma, a imagem armazenada não é igual à imagem real. Sendo assim, entre o objeto colhido pela sensibilidade e a imagem mental que temos armazenada da memória temos um processo de resgate denominado fantasia, ou seja, a operação mental com os fantasmas, ou seja de novo, as representações dos objetos sensíveis. Em miúdos, quando você olha uma hipotética xícara de café, você guarda isso na memória em forma de imagem que, quando maior o detalhe obtido, maior será a fidelidade da gravação. Ao rememorar essa xícara, a mente obtém não a xícara em si mesma, mas uma cópia da imagem mental que servirá para realizar suas operações mentais, e essa cópia tem suas diferenças com o original, e damos a ela o nome de fantasma. Toda essa operação é a fantasia, a capacidade que o cérebro tem de operar com fantasmas.

Aristóteles informa ainda que não há como produzir conhecimento sem que se faça uso de imagens, que é parte integrante da intelecção, no final das contas, porque as imagens constituem os seus tijolinhos. A imaginação é a atividade voluntária de resgatar os conteúdos da memória e adicioná-los aos raciocínios de forma a produzir encadeamentos lógicos. Sem imaginação, não temos como dar elementos para a produção de conhecimento.

Fantasmas não são aparições noturnas, mas concretizações de imagens mentais; fantasia não é devaneio intangível, mas processos de resgate de memórias, e imaginação não está ligada à criatividade, mas ao uso das imagens na composição dos pensamentos. E isso tudo ajuda a explicar o mecanismo das reminiscências em Aristóteles, completamente dissonante da eidética platônica. A reminiscência é uma atividade tipicamente humana de produzir conhecimento a partir da experiência vivida, do depósito de informações obtidos a partir do universo em si mesmo, e não de uma eternidade adquirida diretamente das almas, independentemente da matéria, como quereria seu mestre. Ou seja, as formas que estariam no mundo das ideias, na verdade estão no próprio intelecto que constrói o conhecimento, e a reminiscência é a maneira com a qual as formas são trazidas ao plano mental para efetuar suas relações lógicas e causais.

Talvez os religiosos gostem mais de Platão, e cientistas, de Aristóteles, por conta da primazia que cada um dá à metafísica e à materialidade, respectivamente. Entretanto, isso não pode ser estabelecido como uma regra. O mais importante é que cada um deu uma guia-mestra para a maneira com a qual a memória e seu resgate podem ser trabalhados no âmbito filosófico de modo a trazer reflexos no pensamento até os dias de hoje. Platão não falava de extrações do universo ideal de artefatos, então a Casa da Memória está mais para aqueles que apreciam Aristóteles e sua agregação de conhecimento através das imagens. Afinal de contas, saber juntar um ponteiro de balança com um ímã é conhecimento que salva alguns cobres do desanimado adquirente de batatas. Bons ventos a todos!

Recomendações:

O principal tratado de Aristóteles (mas não o único) sobre o tema vem do livrinho abaixo, que está em um contexto bem mais geral, mas que é daqueles que a gente lê em uma sentada só. 

ARISTÓTELES. Da Memória e Reminiscência. São Paulo: Loja Kindle, 2018. E-Book.


Com relação ao equipamento, segue o seu endereço. Vale a visita, bem como a todo o restante da cidade.

Casa da Memória Antonia Guilherme Franco (Dona Nini)

R. Dona Laurinda, 138

Centro

Guararema/SP 

A aproximadamente 75 km do centro de São Paulo

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O Futebol e suas diferentes filosofias: o efêmero Comercial e os motivos pelos quais deveríamos preservar melhor a História

(Como é possível um clube de futebol do centro da maior cidade da América Latina desaparecer como que por encanto?)

“É preciso esquecer para viver. A vida é esquecimento; cumpre abrir espaço para o que está por vir”.

Miguel de Unamuno

Olá!

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No prédio em que habito, havia uma senhorinha nonagenária, falecida faz poucos dias. Minha patroinha é quem tomava conta dela, o que as faziam relativamente íntimas. O nome dela era Madalena e parecia uma daquelas vovós fofinhas, que fazem bolinhos de chuva ao primeiro neto que aparece em sua porta, mesmo que faça sol saarauí. É um histórico ledo engano. Al di là de sua aparente fofura, tínhamos uma senhora arisca como um canário, e mal-humorada como um urso. Não à toa, ela foi bedel até os setenta anos, quando, expulsa pela sua idade regulamentar, foi aposentada compulsoriamente.

Era daquelas catoliconas ferrenhas, que viam pecado em tudo, e por isso mesmo não se dedicava a mais nada além de rezar seus incontáveis terços. Era complicado presenteá-la: qualquer livro deveria ter o nihil obstat da autoridade eclesiástica, qualquer quadro deveria ser de santidades e qualquer música deveria ser gregoriana. Aliás, por força dos vencimentos parcos, nunca se interessou por comprar um radinho de pilha sequer. E passava seus dias em silêncio, cumprindo o dela e exigindo o dos outros, o que lhe rendeu não poucas brigas, com o que era muito mal vista neste insólito condomínio. É bem verdade que ensurdeceu de uns cinco anos para cá, o que diminuiu muito a tertúlia e possibilitou um acréscimo de volume das nossas vitrolas. Ainda assim, manteve-se em solidão quase absoluta, quebrada pelos cuidados da patroa e um ou outro encontro de corredor.

Mas o mundo, em seu giro incessante, não cansa de nos trazer surpresas. Dê um livro para um cachorro. Pode ser sagrado como uma Bíblia, lírico como Camões, filosófico como Shakespeare, raro como os pergaminhos do Mar Morto. Sua reação provavelmente será mijar em cima deles, após criteriosa cafungada. É mais ou menos a mesma coisa que a dona Madalena faria com qualquer coisa relacionada a futebol, mais uma fonte de pecados originada de xingamentos, festas desregradas, interesses escusos e sexo, essa coisa criada unicamente para que se dê encaminhamento firme às hostes satânicas. Estranhamente, ela conta ter recordação de um clube na praça Clóvis, do qual não lembrava o nome, mais parecido com uma associação de moços do que propriamente com um lugar para prática desportiva. Nada muito claro, nem preciso, mas, conhecendo a figura como eu conheço, compreendo ser um prodígio. Um dia, a patroa veio me contando essa história, e achei quase impossível que a dona Madalena conhecesse o Comercial, um clube que eu mesmo só conheço pela placa da Federação Paulista.

Falei o nome, a consorte foi confirmar. “Comercial, é isso mesmo! Um antro de desocupados que só queria saber de blá-blá-blá…” e por aí afora, na voz da não-doce velhinha, lembrando-se das vezes em que cruzava com a saída dos tais desocupados do clube em questão. É provável que ela conhecesse o time pelo tanto que a perturbasse, e não por sua galhardia esportiva propriamente dita. Nem tudo no mundo é surpreendente.

Foi então que o bichinho histórico-filosófico começou a me causar coceiras. Que coisa estranha a ausência de referências sobre esse time inconsueto. As buscas na internet causavam fácil confusão com os xarás de Ribeirão Preto e de Campo Grande, bem mais famosos e ainda existentes. Pouquíssima coisa se tem sobre o time da praça Clóvis Bevilácqua, local onde hoje se pode imaginar tudo, menos um futebolzinho sendo jogado, seja pela reles população (eu incluso), seja pelo fluxo laboral. Vejo os mendigos tenteando o esporte bretão, e o término é sempre o mesmo, com rudimentos de bolas indo parar na Rangel, onde é laminada pelos pesados ônibus. As publicações que relembram o antigo escrete geralmente são mais ligadas a estatísticas de suas atuações e algumas informações pontuais: sua fundação, a cessação de participações nos campeonatos, algumas escalações, as cores do seu uniforme. Eu bem que gosto desses times pequenos, como já falei neste espaço, muito por conta do amor que meu avô tinha pelas andanças nos campos menores, mas é impraticável achar a camisa de um fantasma. Como quem não tem cão caça com papel transfer, tratei eu mesmo de produzir minha camisa do Comercial do capital, o time fantasma:

Era um time de outros tempos. Não tinha uma sede social onde se pudessem praticar treinos, fazer exercícios, ensaiar jogadas ou qualquer coisa semelhante, a não ser fazer pequenas reuniões e desenrolar um carteado. Ela literalmente capitaneado pelo capitão Oberdan de Nicola, que o comandava com mão de ferro, como sói acontecer com militares. Até dele é difícil encontrar referências. Uma pesquisa na internet indica para uma rua na Água Branca e pouca coisa a mais.

Mas a estrutura era de um time de várzea metido à besta. Não tinha um estádio, treinava onde dava e possuía somente a sede que eu mencionei mais acima, em salão alugado. Mesmo para a época em que surgiu, sua organização era amadora, somente sendo possível por força da influência política do capitão e pela desistência dos times das ligas amadoras, em um momento em que ainda não se tinha a primazia absoluta do futebol nas praças esportivas. Por conta de sua pequenez, era visto como um adversário inofensivo, e conhecido como “o mais simpático”, uma espécie de time para o qual todos reservavam alguma torcida.

O fato inescapável, entretanto, é que foi um dos fundadores da Federação Paulista. Faz parte dos onze daquela placa da Barra Funda porque possui sua importância histórica. Quer dizer… deveria ter. Não se consegue achar quase nada dele, a não ser a curiosidade de constar na placa de tantas agremiações famosas no mundo inteiro, ou de outras que ainda são ao menos encontráveis. O Comercial é uma demonstração de como somos desleixados com a nossa história, resumida pelo seu derradeiro desaparecimento.

Um belo dia, o proprietário do prédio onde ficava a última salinha que abrigava seus troféus e registros, diante da falta de pagamentos, mandou meter um pé de cabra na porta e baixou tudo em um caminhão para doar e jogar no lixo, e tudo aquilo que podia render uma parte importante da história do nosso futebol partiu irremediavelmente. Fotos, fichas, estatutos, troféus, medalhas, camisas, tudo foi para a lata do lixo da história. O que choca não é a necessidade de se resgatar o imóvel propriamente dito, mas a completa indiferença sobre o que estava indo fora. O dono nem apresenta consciência do que estava indo para o vinagre, o que o coloca como representante geral de nossa maneira de encarar o mundo. O último endereço, de onde seu espólio foi removido como escolho, é na parte morta da Sé, um prédio que faz parte da decadência geral do Centro:

Depois queremos dizer que somos o país do futebol… Mas aí vem um tipo de pergunta que pode ser incômoda: qual seria o proveito de se manter a memória de um clube como o Comercial?

A resposta óbvia não é a que eu quero dar. Dizer que conhecer o passado evita erros para o futuro é uma verdade, mas não preciso repetir isso. Só que não colocamos em prática esse ensinamento. E por que precisamos ser pragmáticos sempre? Por que precisamos de uma utilidade para tudo?

Cito um exemplo, repetido, mas proveitoso. Têm sido comuns os testes para verificação genética, não mais aqueles que afligiam os pais fugidios em programas do Ratinho da vida, mas sim os que se dedicam a rastrear as ascendências do curioso consulente, como eu. No meu resultado, não deu quase nada que eu não esperasse: um monte de genes italianos, uma parte grande de ibéricos e algumas pontinhas judaicas e árabes, comuns entre os mediterrâneos. Mas o espantoso foi uma porção meio grande de genética armênia, cujo parentesco não encontro nos meus alfarrábios. Tentando achar ainda alguma coisa com os poucos macróbios da família, não achei rigorosamente nada, a não ser o vizinho seo Poladian, detto “o turco” (sobre essa contradição, leia mais aqui). Ora, vizinhos não são parentes, e maldosamente eu poderia pensar em escapadelas da nonna, mas o tanto de armênio encontrado também não daria o percentual de neto, então culpar a avó de maldades é injusto.

A princípio, pode-se observar que, primordialmente, o propósito de um exame desse tipo nada tem de essencial para a sobrevivência ou para o conforto, a não ser conhecer os rastros genéticos de um contribuinte qualquer, mas ele fala muito mais do que meramente produzir especulações sobre a dignidade da vozinha. Em primeiro lugar, é que a extensão de um exame desses dá aspectos de saúde da pessoa que o faz, traçando um mapeamento das tendências que a predisposição genética fornece às doenças dessa categoria. E não tem como dizer que isso não é importante.

Mas a parte útil, no final das contas, pode importar menos que a parte divertida. Se eu vir que tenho uma tendência ao câncer do pulmão, lembrarei que fumei por mais de vinte anos e colocarei uma espada sobre a minha cabeça. Se eu não tiver o psicológico em dia, de repente entro em parafuso, e mesmo tendo feito todos os abusos desfavoráveis, posso terminar os dias tendo pulmões de lobo mau, enquanto minhas origens não são hipotéticas, mas reais. Entretanto, não há como não admitir que o aspecto pragmático não esteja presente.

Ora (direis), isso é jogar sujo, porque daí está se dando uma utilidade prática ao exame e está se saindo do aspecto histórico para ficar em um aspecto bem presente. Como meu insuportável interlocutor imaginário tem razão, sou obrigado a dar outro tipo de demonstração.

O curso superior de filosofia tem aspectos iguais aos de qualquer outro, composto de entusiasmo e açodamento. É comum alunos de medicina querendo clinicar, ou futuros causídicos defendendo e atacando, ou ainda aprendizes de desenvolvimento que viajam em seus notebooks tentando invadir a Nasa. Não é diferente com estudantes de filosofia, que querem aplicar respostas rápidas ao seu quotidiano, e achar soluções para os grandes problemas da humanidade como quem decide se quer pudim ou maria-mole de sobremesa. Para fazer isso, querem partir de cabeça para as temáticas que mais lhe atraem, como questões éticas, metafísicas, existenciais, e assim por diante. Todas as vezes em que isso acontece, nós damos de cara com paredes cognitivas, que são as dificuldades de compreender como algo chegou a ser como é. Eu lanço a pergunta fundamental da epistemologia e lá eu já sofro a primeira queda: temos conhecimento inato ou só aprendemos pela experiência? Se eu não voltar à história da filosofia desde o começo, eu poderei estar arrogando a mim uma conclusão que já existe há séculos, há milênios talvez. Isso acontece com a essência das coisas, a ética da felicidade, os conceitos de beleza e bem, o que é o ser humano. Não se estuda filosofia se não se estudar a história da filosofia. No máximo, o que se conseguirá fazer é papagaiar falso conhecimento, e, no mínimo, repetir conhecimento já existente.

Ok, pode-se dizer então que as grandes questões conduzem as grandes pesquisas, e ater-se a pequenos detalhes é irrelevante. Não, crianças.

Quando se olha para os primórdios da filosofia, é bastante comum encontrar informações que parecem cacos de cerâmica arqueológicos. Um pedacinho aqui, um pedacinho ali, e se projeta toda uma ânfora ou um vaso. Quanto mais caquinhos encontrarmos, melhor será a precisão do suposto artefato. Cada pequeno vestígio dá uma conformação melhor ao objeto todo, por menor que seja. Quase todos os primeiros filósofos são como esses pequenos pedaços, mas quando você olha para Parmênides, percebe que a meia dúzia de fragmentos que ele deixou é um dos pontos de inflexão mais expressivos da história da filosofia. Naqueles poucos versos que nos restaram aparece uma concepção absolutamente original sobre a metafísica das essências, aquela ideia de permanência que torna as coisas identificáveis e associáveis a qualquer tempo e em qualquer lugar. E Parmênides, com as poucas palavras que restaram de seu patrimônio, influencia a metafísica até hoje.

Não vou dizer que o Comercial teria mudado o futebol paulista se sua história fosse mais bem conhecida. Não vou dizer que haveria títulos mudando de mãos, ou que regras diferentes seriam adotadas, ou se uma lógica distinta no mercado de jogadores seria implantada. Mas a história do Comercial é tão única que nos evidencia algo muito nosso: o quanto cuidamos mal de nosso passado. Gostamos das glórias, e elas são boas, é verdade. Mas as escórias também existem, e fazem diferença. O Comercial não deveria ser tão fantasmagórico quanto é, porque lá passaram craques como Nardo, Alan, Gino Orlando e Dino Sani, este último campeão mundial em 1958, consagrado no trio de ferro da capital. Foi fundado em 1939 a partir da desistência do Luzitano em participar dos campeonatos da APEA, e estava lá quando a Federação Paulista foi fundada, participando dos campeonatos até 1961, quando a criação dos acessos e rebaixamentos colocou o time na última divisão de então. Fundiu-se por um período com o São Bento de São Caetano, e isso é tudo o que temos de sua história, porque não há mais onde buscar informações.

E, para além de qualquer utilidade, é como minha partezinha armênia, que eu sei agora existir, mas não sei de onde veio. Não me serve para nada, não fará com que eu ganhe um único dia de vida, não aumentará meu saldo bancário em um único cruzado, não mudará meu arroz-com feijão diário, mas traz tempero. Muda minha história, as histórias que contarei para meus filhos e netos, e me ensina um pouco mais sobre mim mesmo. Deveria ser assim com o Comercial, e ainda que não tenhamos mais como resgatar seu ferro-velho, que tenhamos aprendido uma lição e não deixemos de lado nossa história, para não nos lamentarmos depois e dizermos que nos mesmos fomos esquecidos. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Um curta-metragem precioso que resgata um mínimo dos registros históricos do Comercial e de alguns dos personagens que chegaram a conhecê-lo.

COMERCIAL F.C. – A EQUIPE FANTASMA. Direção: Ugo Giorgetti. São Paulo: SescTV, 2014. HD.

Este livro é uma coletânea das estatísticas do Comercial, sem grandes informações narrativas, mas com dados importantes para se compreender o tamanho do clube. Está disponível no Museu do Futebol.

DIOGI, Júlio B.; STELLA Jr, Rodolfo. Comercial: Histórico Estatístico do Comercial Futebol Clube. São Paulo, 2016.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Cartas náuticas para marinheiros de terra firme - 13º relato: Jaguariúna e o esquecimento como necessidade

Olá!


E eu tirei um fim de semana para ser criança. Crianção mesmo, daqueles bobos, que ficam correndo de lá para cá, cutucando as pessoas e atrapalhando seus afazeres e seu repouso. Tudo isso dentro de um trem, daqueles puxados a maria-fumaça.

Explico melhor. Todo ano, eu aproveito o fim de semana mais próximo do dia 13/01 para comemorar o aniversário de casamento com a patroa. Algumas vezes comemos fora, em outras fazemos alguma viagenzinha. Não tenho grande paciência em fazer turismo nessa época do ano, de muito movimento e pouco proveito, por isso mesmo a volta é mais curta. Este ano, o dia treze calhou no próprio domingo, e fomos enfrentar o sol venusiano que tem nos torrado nos últimos dias para completar o Circuito das Águas Paulista. Só faltava Jaguariúna, a cidade do rio negro das onças, e é para lá que embarcamos em nosso quase-totalmente-pago Bedelho*. Queríamos fazer o célebre caminho férreo da antiga Companhia Mogiana, que vai até Campinas.


Estávamos hospedados em outra cidade, mais especificamente Monte Alegre do Sul, tomando uma fresca após o sábado de sol a pino. Saímos logo cedo para Jaguariúna, objetivando conhecer um pouco mais da cidade antes de se mandar para a região da estação ferroviária. Acontece que encontramos um lugar tão propício para estacionar que resolvemos ficar andando um pouco mais a pé. Passamos meio que de passagem pela praça da matriz, a igreja de Santa Maria, com seu adro e coreto costumeiros. Havia missa, e resolvemos não encher o saco de ninguém com nossos flashes.


Logo em seguida a um café, descemos até a rua Amazonas, intervalo da Rodovia João Beira que contém a principal atração fixa da cidade, a estação ferroviária. Tenho uma triste memória deste lugar: foi aqui que tomei minha primeira multa fora da cidade de São Paulo, surpreendido por um radar de 40 Km/h em uma avenida de quatro faixas. O prédio é um modelo de boa conservação.


É evidente que há modernidades instaladas para facilitar a vida dos transeuntes, já que o lugar é muito frequentado, mas, dentro do que é possível, todo o ar do passado é mantido também pelos equipamentos, como as janelinhas de compra das passagens, os bancos de madeira e os relógios analógicos em pleno funcionamento.


Há ainda a caixa d’água utilizada outrora para suprir os mais de cinco mil litros necessários ao funcionamento de uma única locomotiva, hoje ao lado da lanchonete instalada nos fundos da estação. Notem que as pessoas ainda podem optar por fazer um mais familiar e menos caro piquenique. Não chegamos a tanto: optamos pelo sorvete italiano mesmo.


A estação não é somente a gare de onde partem e chegam os trens turísticos, mas é um núcleo de memória completo. Por isso mesmo, é conhecido como Centro Cultural Zi Cavalcanti. Um dos salões da estação hospeda o Museu Ferroviário, que contém peças, equipamentos e vestimentas necessárias ao desempenho das funções específicas.


Como alguns exemplos, posso mencionar as diversas maquetes e miniaturas de locomotivas e vagões espalhados pelas paredes do museu...


... e destas curiosas pilhas, muito semelhantes àquelas que usávamos em brinquedos e radinhos, só que muito maiores. “As amarelinhas” eram os artefatos produzidos pela Ray-o-vac, como estas abaixo; havia também as Eveready, a “pilha do gato”, e as National, “Hi-top e Hyper”. Às vezes eu lembro de cada coisa...


Uma das coisas mais legais do Centro Cultural é um vagão em que o turista pode se vestir com uns simulacros de roupas de época para fazer fotografias (cobradas, evidentemente). Eles possuem uma gama bem grande de vestimentas, que servem para todo mundo se sentir em uma novela das seis, sejam adultos ou crianças.


Evidentemente, no entanto, a cereja do bolo é o passeio de locomotiva a vapor. Saudade para os idosos, curiosidade para as crianças, fico exatamente no meio termo: andei um bom tanto de trem, mas nunca de maria-fumaça; portanto, trem para mim não são só os rápidos metrôs, mas não chega a ser uma antiguidade, como essa máquina que estava pronta para puxar nossos vagões.


O trajeto é mais ou menos longo, com a duração de três horas e meia, aproximadamente. Como pega pontos bem íngremes, ele não é feito todo de equipamento a vapor, mas de locomotiva a óleo também. Nesta foto abaixo, temos, lado a lado, as duas máquinas utilizadas para nos conduzir até Campinas. A azul é a diesel, e mesmo que não possua todo o romantismo da locomotiva mais antiga, tem uma beleza muito digna. O distintivo é lindo.


Embarcamos no carro 04, embora eu tenha feito questão de pegar a patroa pela mão e puxá-la para percorrer todos os vagões em uso, perturbando a paz alheia. Percebam que é possível sair de um vagão e entrar em outro, o que é uma novidade para os atuais metrôs. Minha esperança era chegar até o vagão da fornalha, mas os condutores, preparados para abestados como eu, tratam de deixar o primeiro vagão devidamente trancado.


Um pouco antes da partida, já com os vagões praticamente plenos, e eu fui fazer a foto clássica da janelinha. Talvez a minha inabilidade seja a responsável, mas aqui é possível perceber pelo volume de luz o quanto o astro-rei estava disposto a arrancar a pele dos pobres turistas.


O momento da saída da estação é um dos ápices da viagem, com as composições que saem e as que ficam acionando seus barulhentos apitos. Há um viaduto de contorno por sobre a avenida que faz com o trem pegue sua rota, entremeada pela região rural de Jaguariúna e Campinas.


Uma das primeiras paisagens que é avistada no caminho é o rio Jaguari, que ajuda a denominar a cidade, e que a abastece. A ponte por sobre ele é alta e completamente invisível para quem está no interior do trem.


A partir daí, o percurso vai se entremeando basicamente por duas espécies de panorama: os longos corredores de mata de ambos os lados (os comissários – ferromoços – informaram que sempre há riscos de faíscas que podem meter fogo na quiçaça. Credo)...


... e as terras cultivadas, algumas delas cheias de história. Essa fazenda abaixo, por exemplo, é pertencente à família Paes de Barros, a mesma da famosa avenida da Mooca, a pátria da qual me exilei. Estamos em plena rota do café do século XIX, e este era um eixo de muita riqueza.


No interior do trem, além dos sorvetes e souvenires, um trio passa de vagão em vagão para animar a galera com músicas de outrora. É o trio Maria Fumaça. A arquibancada acompanha batucando nos bancos de couro, e alguns passageiros mais descoladinhos chegam a ensaiar uns passinhos balouçantes.


No fundo da composição, o vagão-restaurante (chamado de Pullman). Fui arrastando a patroa de fora a fora do trem para chegar até aqui e tomar uma água, pelo puro prazer de dizer “cheguei aqui”. Não há nada de tão especial – talvez tomar sopa fosse um pouco mais complexo no sacolejo.


O trajeto até Campinas inclui, além da própria estação de Jaguariúna, outras cinco. A primeira delas é a estação Carlos Gomes, que é utilizada como uma espécie de oficina mecânica onde são feitos os reparos de locomotivas e vagões, e lá está repleto de equipamentos para consertar.


A estação seguinte é a Desembargador Furtado, e, de todas, é a que está mais estragadinha. Em termos de construção, ok, parece estar sólida e facilmente reparável, mas ainda precisa ser devidamente revitalizada.


Depois, temos a estação do Tanquinho, que tem esse nome porque aqui existia uma espécie de “lava-rápido” para os equipamentos da linha. É aqui onde é feita a parada para os meio-passeios, uma das opções disponíveis. Eu fiz o caro (porém compensatório) percurso completo.


Nesta mesma estação, existe um pequeno museu das telecomunicações, que contém telégrafos, centrais telefônicas, aparelhos e outros que-tais. Estava com a porta encostada, e eu estava babando para dar uma olhada. Nada como uma criança numa hora dessas: uma menina mais atrevida um pouco chegou empurrando a porta e abrindo tudo para a massa ignara invadir. Fiz feio? Fiz feio, mas registrei o que eu queria, em nome do conhecimento.


A penúltima estação antes do destino final é a Pedro Américo, que homenageia o dono da imensa Fazenda São Pedro, que permitiu a passagem da linha de ferro por suas terras, evitando assim os custos da desapropriação ou uma volta gigantesca.



A última estação, na cidade de Campinas, chama-se Anhumas, um rio da região. É aqui que embarcam as pessoas que fazem o trajeto contrário, e onde o pessoal da ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária dá diversas explicações sobre o funcionamento das máquinas, da manutenção da ferrovia e de sua história.



Em uma das marias-fumaças, a justa homenagem ao idealizador deste projeto de conservação, o francês Patrick Dollinger, que desde 1977 reuniu pessoas e recursos para levar a cabo a tarefa de manter o que fosse possível da história ferroviária do país, algo que é relativamente comum na Europa, mas que no Brasil...



Na volta, fiz menos reportagens e apreciei um pouco melhor os cenários, ainda mais que, pelo acordo assinado com a patroa, eu fui na janelinha. Estávamos de volta a Jaguariúna mais ou menos às 16:30. Dava tempo suficiente para passear pela feirinha de artesanato da estação e ainda subir até o Parque dos Lagos, uma espécie de Ibirapuera local.



São dois lagos entremeados por uma via pública, o que divide o parque em dois, e que podem ser intercambiados por um túnel. Deu tempo de refrescar a garganta antes de pegar a estrada de volta, ainda com clima saarauí.



Vamos fazer uma análise dos três tipos de pessoas que eu encontrei nessa viagem. Há as crianças, que se divertem enquanto o tédio não bate; há os bobos-alegres como eu, que procuram aproveitar a oportunidade rara de encontrar uma ponte entre o ontem e o hoje. E há aqueles de mais idade, que tem uma atitude de nostalgia. São, de longe, os mais emocionados com o passeio, que terminam com uma mescla de gratidão por poder reviver um pouco de seu passado e a melancolia de ter ciência de que o seu tempo, assim como as locomotivas, estão ficando para trás.

Já falei neste texto sobre a maneira como as memórias são resgatadas de maneira pouco confiável, o que acaba ocasionando aquela sensação de que “antigamente as coisas eram boas”. Neste outro, mostrei como até mesmo podemos reconstruir maliciosamente nossa memória, de modo a constituir fatos totalmente novos como se fossem reais. Mas há ainda outro ponto importante, que parece controverso: tão importante quanto lembrar é esquecer. É vital até.

A memória é uma coisa difícil de rastrear. Se fizermos bastante força para tentar evocar nossa primeira recordação, vamos lembrar de algumas coisas marcantes ou prosaicas, não há muito como controlar. De uma forma ou de outra, essa lembrança se dará por volta dos três ou quatro anos. Mas isso não significa que seja, de fato, a primeira coisa que está em nossas reservas mentais. Na verdade, há registros de cheiros e sabores desde que nascemos, provavelmente do leite de nossas mães. Não conseguimos lembrar disso porque não tínhamos a linguagem suficientemente desenvolvida, mas não acontece às vezes de termos a sensação de que há algo a lembrar em uma determinada circunstância? Nada mais pode ser do que um registro de uma sensação que obtivemos em um momento anterior à nossa maturidade linguística, e que acabou ficando solta, mas ainda assim existente.

Mas ok, essa memória difusa deixa de fazer sentido a partir do momento em que temos desenvolvimento intelectual suficiente para fazer conexões linguísticas, mas ainda assim não temos nossa memória toda presente, o tempo todo. Uma parte da memória se esvai rapidamente, de modo a ter três destinos: extinção, repressão ou esquecimento puro.

Os dois primeiros não são esquecimentos de verdade. Elas ficam reservados na memória para uma eventual necessidade ou por um acidente que as faça vir novamente à tona. No caso da extinção, é aquilo de mais comum que acontece. Temos espaços na nossa memória de trabalho para que possamos operar o nosso dia-a-dia e coisas mais triviais. Na medida em que não são mais estimuladas, as memórias que ocupam esse espaço vão sendo extintas, não no sentido de ser apagadas, mas de dar lugar para outros pensamentos ativos, e ficam prontas para serem evocadas no momento adequado. É como um pôster do seu time que você tira da parede. Todos os dias, você entrava e saía de casa e via o escrete imbatível, mas a peça envelheceu e você decide recolhê-la. Por um tempo, haverá o estranhamento com a ausência, até que a parede vazia vai fazer parte de sua nova rotina e os onze cavaleiros serão extintos de sua memória. Mas bastará uma reportagem, um bate-papo, uma nova final para que o seu pôster seja resgatado na sua mente. Portanto, não é um esquecimento de fato, mas uma retenção mnemônica.

Na repressão, mecanismo muito estudado por Freud, um determinado fato ou circunstância é “jogado fora” da memória por uma questão de autoproteção, em especial quando causa grande incômodo para a pessoa. Às vezes tratamos de nos forçar a esquecer, tentando pensar em outra coisa, mas o próprio cérebro se encarrega de executar essa tarefa, depositando a memória desagradável no inconsciente. É evidente que novas experiências dolorosas podem fazer aflorar a memória reprimida no consciente, o que demonstra que este também não é um esquecimento na acepção da palavra.

Mas o fato é que esquecemos, para o nosso próprio bem. Existe uma condição patológica que faz com que as memórias não se apaguem, extremamente limitante. É o stress pós-traumático, um transtorno onde uma experiência traumática de natureza grave fica registrada de maneira tão indelével na consciência da pessoa que são frequentes as recorrências do acontecimento a nível mental, como nos sonhos, nos sustos frequentes, na equiparação de situações semelhantes. Isso faz com que a vida da pessoa se torne tremendamente limitada, cercada por recidivas que não se apagam da memória. Imaginemos alguém que sofreu um sequestro violento, onde tenha sofrido abusos e torturas. Se essa pessoa não receber um acompanhamento psicoterapêutico sério, poderá ter suas memórias traumáticas evocadas a cada instante: a cada notícia sobre o mesmo tema, a cada carro semelhante ao que lhe levou, a cada canto escuro como seu cativeiro, a cada pedaço de comida como a que lhe trazia sobrevida, a cada grito como o que lhe berravam. Se nossas memórias não se apagassem naturalmente, viveríamos, todos nós, em um stress pós-traumático permanente.

A própria dinâmica do stress pós-traumático, no entanto, ajuda-nos a entender o que é um esquecimento de verdade e o que não é. As memórias estarão tão mais propícias a ser esquecidas quanto menos ligadas a um contexto de emoção estiverem, o que é extremamente intenso na situação da perturbação mencionada. Mas é um fenômeno muito fácil de experimentar sem grandes consequências. Vou usar exemplos pessoais. Eu lembro muito bem do “7 x 1”. E você também, que sabe bem do que estou dizendo, a não ser que não seja brasileiro ou alemão (ou argentino). Lembro de muitos detalhes. Assisti os jogos anteriores da Copa nos mais diversos lugares: no apartamento das minhas afilhadas comendo pipoca, no meu vizinho tomando cerveja, no meu sogro, que me devolveu a visita no jogo seguinte. Até mesmo no hospital, com minha mãe moribunda, assisti a um dos jogos. No malfadado dia do malogro, acabei ficando sozinho em casa mesmo. Peguei um saco de batatinhas, uma garrafa de cerveja e liguei a tevê do quarto, esticando os joelhos na cama. Lembro que eu estava confiante em uma alienada tradição de que a Alemanha era a maior freguesa do Brasil no futebol de alto nível, e achava que isso ia pesar. Lembro do primeiro gol, inclusive que cocei a cabeça e arranquei uma casquinha dela, o que me fez um pequeníssimo sangramento. Lembro também do inacreditável sacode, quatro gols em seis minutos, e que a patroa foi lavar a louça, puta da vida. Eu tirei a camisa do Timão que vestia, para preservar sua dignidade. É uma daquelas cor de vinho, linda de morrer, com o São Jorge tatuado, a única terceira camisa que eu gostei de verdade. Não a pendurei no mancebo, coloquei-a direto na gaveta, tão pouco o tempo que a vesti. Depois do jogo, finalizado o massacre, estranhamente fui atrás de todas as resenhas possíveis, na tevê, no rádio e na internet. Até ouvir a frase-síntese de todo aquele vexame, se não me engano proferida por José Trajano: “Agora Barbosa** pode descansar em paz”.

Pois bem. Semana passada, o Corinthians jogou contra o São Caetano e eu não me lembro de mais nada, a não ser que vi a partida no mesmo quarto (por uma questão de hábito) e que ela terminou 1 a 1. Se eu estava de camisa, se eu estava descalço, se minha patroa falou mal da vizinha, se o cachorro dormiu nos meus pés, se eu fui antes ou depois no banheiro, não lembro mais nada disso, e nem tenho condições de lembrar. São esquecimentos reais, porque não havia nenhuma emoção em especial para retê-los, como na vergonha de 2014. Era um jogo comum de campeonato, que a gente não assiste no campo porque o ingresso está com o preço exorbitante. A emoção faz uma espécie de lastro que prende toda a cadeia de acontecimentos em um mesmo arcabouço, como se fosse um galho com suas folhas. O vexame de 2014 teve toda uma carga emocional para fixar as circunstâncias que lhe cercavam; a estreia do campeonato paulista, não.

Isso ajuda a explicar um pouco a reação mais emotiva dos mais velhos. O resgate feito de suas memórias traz apenas coisas boas. O tédio das longas viagens, o incômodo do balanço diário, a obrigação de ir e vir ao trabalho ainda que não se queira, todos ficaram pelo caminho, na cova rasa do esquecimento real, ou, no mínimo, sem extrair os cadáveres da repressão ou o mofo da extinção. O esquecimento, no caso, torna doces suas memórias, e ajuda a explicar porque cada coisa no funcionamento de nossos corpos e nossas cabeças são, por si só, fascinantes. Daqui a alguns anos, talvez, quando eu pensar em Jaguariúna, queira repetir a jornada, quem sabe com eventuais netos, para lembrar das fotos e da viagem, e esquecer do calor causticante, único senão que poderia me desanimar.

Recomendação de leitura:

O professor Iván Izquierdo é um argentino naturalizado brasileiro que se especializou no estudo das memórias. Fez algo que é muito bom para nós, membros da plebe rude: traduziu um tema extremamente complexo em termos simples, facilmente compreensíveis. Recomendo fortemente.

IZQUIERDO, Iván. A Arte de Esquecer. Cérebro e Memória. Rio de Janeiro: Vieira e Lent, 2010.

* É um Prisma 2010 verde, que tem se portado muito bem em quase todos os terrenos cruéis que o enfiei (daí o apelido). Se os ventos monetários se mostrarem propícios, devo despachá-lo ainda este ano, porque as coisas são assim mesmo: é um bem a quem trato com um carinho ilusório. Daqui a pouco, não vale mais nada e lá vou eu fazer financiamentos imensos para comprar algo pouquinha coisa melhor.

** Para quem não sabe, Barbosa era o goleiro da seleção brasileira na Copa de 1950, igualmente disputada no Brasil. O resultado foi um vice-campeonato, com uma derrota por virada diante do Uruguai. Barbosa foi considerado o maior culpado, devido a uma suposta falha no segundo gol dos cisplatinos: o atacante Ghiggia entrou de fianco na área brasileira, e o infeliz guarda-redes se preparou para cortar o evidente cruzamento, que não veio – o chute direto entrou no cantinho esquerdo da meta. Barbosa carregou o peso da derrota até sua morte, no ano 2000. Diante do fiasco acachapante de 2014, sua memória foi devidamente (e tarde demais) redimida.