Marcadores

Mostrando postagens com marcador Revolução científica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revolução científica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Navegações de cabotagem – o Jardim Botânico de Curitiba e as rupturas nas Ciências

(A Ciência anda na base dos tropeções ou zune como um novo sedan? Se temos uma Revolução Científica, não me parece que as coisas tenham sido assim tranquilas) 

Olá!

Clique aqui para ler mais textos sobre meus bate-e-volta

Dizem que ninguém vai a Roma se não pediu benção ao papa. Bom, primeiro que o Vaticano é um estado autônomo, mesmo que se constitua de um grande quarteirão encravado na capital italiana. Mas o sentido da frase é outra, e pode ser transposta para Curitiba da seguinte forma – ninguém veio a Curitiba se não foi ao Jardim Botânico. E é fato, é um lugar muito bonito e bem cuidado, embora outros locais também possam ser enquadrados como cartão postal da cidade.

Como venho contando nos últimos textos (este e este), vim ver meu piá mais velho, que se mudou para estas plagas ainda no começo do ano, mas somente agora, com o ciclo vacinal completo, senti-me encorajado a dar uma conhecida na cidade. Fiz pouco, é verdade e esperei o último momento para dar uma corridinha aqui, porque Curitiba faz as vezes de Seattle meridional, e chove por dias. Mas houve uma trégua e fomos lá. E eu estou aqui, para dar impressões e filosofar.


Quem vem pela entrada principal se depara com uma bela associação de estética com ciência, porque a visão mais marcante é da estufa ao fundo, enquanto se caminha pelos jardins geométricos do caminho.


Pelo que entendi, a elevação da estufa é a nascente das águas que abastecem o lago do parque e que atravessa o campo de fora a fora. É por este percurso que os jardins franceses foram cultivados, e daqui de cima temos a melhor visão da área.

Essa mesma fonte provê de água o chafariz que fica a meio caminho entre o portal e a estufa, onde reina uma estátua que é conhecida como Amor Materno.

O jardim tem trinta anos de existência, mas possui algumas instalações mais novas, como é o caso da Galeria das Quatro Estações, uma notória simbiose de homenagens, juntando o propósito sazonal de certas coleções com a célebre sinfonia de Vivaldi, que fica sendo executada em tempo integral lá dentro.

Uma boa sacada foi colocar as Horas (deusas gregas que regiam as estações do ano) e as amostras exatamente na mesma ordem da sinfonia, embora, para variar, tenhamos percorrido o caminho na ordem inversa. Na ordem, temos outono (Ftinoporão), inverno (Quimão), primavera (Eiar) e verão (Teros).


É preciso reforçar que um jardim botânico não é meramente um parque, mas um espaço de estudos. Um dos recintos é dedicado à flora nativa, que, embora seja semelhante à Mata Atlântica, tem suas sutilezas próprias, recordando que estamos em área de um sistema muito particular, o da Mata das Araucárias, que é particularmente circunscrita à região leste do Paraná.

Obviamente que uma flora bem cuidada atrai a fauna local para interação.

Por falar nisso, o Jardim das Sensações pretende ser exatamente um ponto onde as pessoas podem tocar e cheirar as espécies sem causar prejuízo à praça...

… inclusive das abelhas contidas nos diversos meliponários espalhados no jardim.


Bom… sempre que eu reporto algum equipamento de natureza científica com viés turístico eu acabo por mencionar a Filosofia da Ciência, especialmente dando ênfase na importância oculta que esse modelo de instituição tem não somente para a diversão, mas também para a pesquisa e para o aprendizado. Fiz isso com o Observatório do Pico dos Dias, com o Museu de História Natural de Atibaia e com o Jardim Botânico de Sorocaba, e não será diferente desta vez.

Continuo achando imprescindível que se faça isso, porque, como eu disse, o Jardim Botânico não é meramente um parque, onde levamos as crianças para ver flores e passarinhos. É um espaço da ciência, que aqui demonstra como experimentação e estética podem ser colocados em perfeita harmonia, sem nenhuma espécie de repelência entre si, como muita gente pensa.

Às vezes vivemos os momentos históricos mais importantes da humanidade e nem nos damos conta disso. Ainda ontem nem púnhamos na conta a hipótese de ficar enclausurados por quase dois anos em casa e em máscaras, com milhares e milhares de mortos. Como será que olharemos para este episódio daqui a cem, duzentos, mil anos?

O fato é que não somente muitas vidas foram interrompidas, mas o curso da história de muita gente também se guinou abruptamente. Hoje, passando pela rua São Bento, vejo inúmeras portas fechadas, de lojas e bares tradicionais, inclusive a centenária Casa Califórnia, portinha que servia lanches de linguiça bragantina, e onde eu gostava de fazer crescer minhas discrasias sanguíneas. Como estará cada uma das pessoas que trabalhavam em cada uma dessas lojinhas? A São Bento voltará a ser populada ou essa será a marca do fim de sua tradição?

Embora tudo isso nos diga a corações e mentes, porque vivenciamos e sofremos com a situação, facilmente podemos deduzir que a História se escreve aos tropeções, e isso diz respeito não só a pessoas, mas ao modo como as coisas se dão. Essas guinadas repentinas são costumeiramente chamadas de revolução, que, em sua raiz etimológica, quer dizer aquilo que gira, que dá voltas, que é remexido. Acontece assim com a Ciência também.

A Revolução Científica foi uma virada de chave nos princípios gerais do conhecimento, que ocorreu no momento em que o enclausuramento da Idade Média foi dando lugar à abertura para o mundo vinda com a Idade Moderna. Em rápido périplo histórico, podemos dizer que a Europa vivia espalhada em feudos cujos principais senhores eram os reis, e o conhecimento ficava guardado nos conventos, convenientemente disponibilizado na medida em que se adequasse à fé. Entretanto, a tomada de Constantinopla pelos turcos obrigou os europeus a se lançar ao mar, e as novidades, sejam concretas, sejam ideológicas, vinham aos borbotões. Tudo bem grosso modo.

Essa onda de novidades e de necessidade de desenvolvimento de técnicas fez com que as ideias científicas saíssem do marasmo. Entretanto, a Revolução Científica não foi um evento declarado, e, como costuma acontecer, os "revolucionários" não sabiam que estavam participando de um movimento histórico, que só foi ganhar esse nome bem mais tarde, quando já havia distanciamento suficiente para bem delineá-lo. Guilherme de Ockham, Roberto Grosseteste e Roger Bacon, por exemplo, eram clérigos que buscavam a construção de métodos sem desprezar os ensinamentos de sua religião. E os principais pioneiros da virada tiveram sempre algum tipo de problema com os sacerdotes estabelecidos: Giordano Bruno foi martirizado, Nicolau Copérnico publicou suas obras no anonimato e Galileu Galilei precisou voltar atrás com suas teses, para não ter o mesmo destino do pobre Bruno. Ou seja, os dois modelos de pensamento se imbricavam de alguma forma, o que dá uma ideia de continuidade.

Foi somente no século XX que surgiu o termo Revolução Científica na academia, pelas mãos do historiador e filósofo da ciência franco-russo Alexandre Koyré. Ele foi um estudioso da história medieval que se interessou pela história das Ciências justamente quando percebeu o processo contínuo de rupturas epistemológicas que se deu naquele momento de transição.

Esse novo olhar proposto por Koyré, que veremos mais adiante, vem se contrapor com a filosofia de fundo em vigor até então, baseada fortemente no Positivismo. Apenas para fazer uma rápida remissão, essa corrente de pensamento tinha um cunho otimista, na medida em que acreditava que a Ciência possuía um sentido estrito, apontando para o futuro como uma longa cadeia de progressos. Mais ainda, os positivistas sobrevalorizavam a Ciência como um método para tudo, de forma a reputar como válido apenas os conhecimentos que se encaixassem na metodologia científica.

De um modo geral, essa maneira de ver as ciências não era propriamente ruim, já que, embora as descobertas de base fossem neutras em si mesmas, a sua aplicação e transformação em tecnologias eram, sim, ferramentas do progresso. Ocorre que o otimismo reinante no Positivismo não conseguiu resistir à aplicação dos novos conhecimentos em máquinas de guerra, que alcançaram um poder destrutivo jamais sonhado. Ainda mais: a transformação de conhecimentos sociais e humanos em Ciências não foi capaz de prover previsibilidade aos teatros de eventos onde as nações passaram a se digladiar. Com isso, a confiança na escola positivista foi caindo por terra, e era natural que novas propostas de descrição da história das ciências começassem a pipocar pela academia.

A primeira coisa que foi pensada foi a seguinte: quando começou isso tudo? As mudanças de pensamento de fundo que encaramos a partir do evento da Primeira Grande Guerra também foi sentida em outros momentos? Esse tipo de pergunta conduziu filósofos e historiadores para o século XVII, no momento em que transitávamos do teocentrismo medieval para o humanismo moderno.

Uma das alternativas vinha da academia francesa, onde uma visão de continuidade histórica, liderada por Pierre Duhem, entendia serem as mudanças na concepção científica o fruto de longos períodos e de fenômenos em camadas sobrepostas, que faziam as transições serem mais ou menos suaves.

Koyré toma outra linha, muito influenciado por seus estudos anteriores. Ele havia se debruçado sobre a história do pensamento religioso medieval e havia percebido que não existem dissociações entre filosofia, religião e ciência, formando uma espécie de unidade onde uma vertente influencia na outra. Isso significa que mudanças em cada uma dessas linhas vai influenciar nas demais, porque o pensamento é um grande sistema.

Como sabemos, a Idade Média era caracterizada pelo pensamento teocêntrico, que se baseava em grande parte no ideário aristotélico, com as reformas e adaptações realizadas pelo tomismo, muito em voga na filosofia cristã. A partir do momento em que a visão metafísica vai se deslocando de foco, vai junto também as demais maneiras de pensar o mundo. Copérnico é um bom exemplo disso.

O astrônomo polonês, com a mudança de ares filosóficos, retira a Terra do centro do universo e vai colocar o Sol em seu lugar. Para além das observações empíricas, há um pano de fundo metafísico na atitude. Copérnico surfava no resgate das tradições clássicas, que cotejavam o Sol como uma espécie de divindade, e é exatamente o que o heliocentrismo faz. Eis que, portanto, a solução dos problemas aristotélicos-ptolomaicos é dada com um substrato religioso: o deslocamento do Sol para o centro não é só fruto da observação, como diria a Ciência, mas uma nova promoção de ordem metafísica. Por isso o pensamento é todo ele encadeado entre si.

Quando Koyré olha para o século XVII, o que ele vê não é uma escalada cheia de degradés no pensamento, mas uma coleção de rupturas. Copérnico tira a Terra do centro do universo, Lavoisier elimina o flogisto* e descobre que não se cria nem se perde energia, Newton descarta a imobilidade do universo e Darwin remove a imutabilidade das espécies. A Ciência não evolui de modo suave, mas em quebras de estrutura, o que se estende à própria maneira de pensá-la. Portanto, não são os avanços técnicos que caracterizam a Revolução Científica, mas uma mudança de paradigmas que começa no campo das ideias. Há mais revolução na ideia de produzir uma bomba atômica do que em sua efetiva produção.

As ideias de Koyré influenciaram bastante gente, principalmente o teórico estadunidense Thomas Kuhn, que passou a desenvolver uma teoria de crise na história das Ciências baseada na troca de paradigmas, ou seja, uma teoria preponderante começa a perder força na medida em que lhe são confrontadas teorias opostas, até que seu próprio paradigma implode, para dar lugar à nova maneira de se pensar, e é desta forma que a Ciência evolui. Tratei desta questão neste texto.

Nossa... Fiquei meio longe do Jardim Botânico, mas isso não é um problema. Vejam que na botânica também tivemos importantes quebras de paradigma, como aquela que deu origem ao conhecimento sobre genética, nascida de Mendel. Então por aqui também podemos observar e nos surpreender com os rumos que a Ciência tomou desde sua Revolução, inclusive em um lugar que é uma celebração não somente da Ciência, mas da Filosofia como um todo. Mas os rostos mascarados de fora a fora neste jardim me faz pensar se por trás dos fatos históricos atuais também não teremos uma nova maneira de ver a Ciência. Será que desde agora ela passará a fazer parte mais próxima de nossas vidas? Será que o modelo de verdade que ela defende será considerado ultrapassado? Será que um “bichinho” invisível será o divisor de águas em que o senso comum tomará as rédeas? Credo! Bons ventos a todos!

Recomendações:

Apesar de muito circunscrito aos meios acadêmicos, os estudos de Koyré podem ser lidos com boa dose de compreensão. Segue uma fonte:

KOYRÉ, Alexandre. Estudos de História do Pensamento Científico. Rio de Janeiro: Forense, 1991.

E o Jardim Botânico de Curitiba merece a fama que tem. Não deixem de passar nele quando forem a Curitiba.

Jardim Botânico de Curitiba
Rua Engenheiro Ostoja Roguski, sem nº
Jardim Botânico
Curitiba/PR
A aproximadamente 420km do centro de São Paulo

* Flogisto seria um elemento que proporcionaria a possibilidade de um material qualquer, e quanto maior a quantidade desse hipotético elemento, maior a capacidade de queima. Dessa forma, uma madeira seria muito mais rica em flogisto do que um granito, para citar um exemplo.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

5 anos de Aporias Plurais – sobre o que motiva e o que desmotiva a atividade filosófica

Olá!

Efeméride importante. Há exatos cinco anos eu inaugurei este espaço, dadas as facilidades proporcionadas pela internet gratuita e a necessidade de desenvolver um projeto pedagógico. Gostei da brincadeira e a mantive até hoje, já com uns novos propósitos.


Nunca pretendi fazer deste blog um espaço puramente acadêmico, e sim um humilde norte para estimular a interpretação filosófica de espertos rapazes e cultas garotas, apoiado em duas constatações: ainda que surpreendente, há muita juventude interessada no pensar filosófico, mas que não sabe exatamente onde achá-lo. Por isso mesmo, vou dando minhas dicas de livros, filmes e etc. para que nossos mancebos e moçoilas possam tomar gosto pela coisa.

Um lustro! Deu tempo de produzir bastante coisa. Mas confesso que tem horas que bate um certo desânimo. Às vezes fico pesquisando um tema por meses a fio, principalmente aqueles que geram textos concatenados entre si, para ter, como resultado, quinze ou vinte visualizações. De vez em quando, alguém compartilha um desses textos nas redes sociais (devo agradecer muito ao Fernando Faria, que tem feito um grande trabalho de divulgação do meu blog) e o tal acaba ganhando um pouco de respiro, mas é raro. Fico com aquele encafifamento típico de quem acha que está falando muito, falando difícil, falando merda... Mas, raciocinando, chego à conclusão de que o formato blog está perdendo a força. A média de visitas a este espaço tem aumentado, pelo óbvio motivo de que há cada vez mais postagens, mas a consulta a textos novos declinou bastante.

Talvez eu devesse migrar de plataforma, usar o Tumblr ou o Wordpress, mas minha inabilidade atual com edição para internet chega a causar pena. Sou do tempo dos frames e do Front Page, tecnologias que se vão longínquas nesses tempos atuais (longínquo, no caso, são dez anos). Também pensei em criar um canal no YouTube, mas posso garantir a vocês, meus amigos, que escrevo muito melhor do que falo. E, além disso, precisaria fazer a edição, produzir uma vinhetinha decente, cuidar de conseguir um equipamento razoável, sem deixar de escrever o texto, transformado em roteiro, ora pois. E, por último mas não em último, minha figura não é, por si só, uma atração. Quem me conhece pessoalmente pode atestar.

Pode ser que um dia eu faça isso, mas não vai ser agora. Por enquanto, lutemos contra a pusilanimidade e prossigamos neste formato, e tentando descobrir a causa do sucesso do meu texto mais lido, escrito de maneira tão despretensiosa que quase não o publico. Quer dizer, o porquê de sua busca constante eu já descobri: se você digitar no Google os termos “eclesiastes” e “filosofia”, verá o fagueiro artigo na cabeceira da consulta:


O que eu não compreendo é o motivo da benesse concedida pela gigante das buscas. Como nunca pensei muito bem em termos publicitários, não sei como cheguei nisso, e como ninguém que torna uma escrita pública gosta de vê-la escondida (caso contrário, guardá-la-ia numa gaveta), aceito dicas de bom grado.

Minha patroa me pergunta às vezes porque não colijo meus pensamentos em livro. E há quem pergunte por que eu não parto para a produção de artigos acadêmicos de verdade, publicar em revistas e o escambau. Bom, por vários motivos.

O primeiro é que este espaço é um hobby atualmente. Por isso, não preciso esquentar a cabeça com prazos de entrega, periodicidade, disponibilidade de livros, ABNT e così via. Depois, os artigos acadêmicos podem ser mais úteis e precisos, mas são naturalmente mais chatos, e com isso não vou atingir o público que eu quero. Além disso, para pesquisar seriamente, precisaria de mais tempo, e não posso largar minha atividade principal. Fazer pesquisa significa produzir novidade, o que não preciso fazer no meu blog. Outra coisa: não sou um nome conhecido para chegar na academia e dizer “publicaê”. E, final e principalmente, pesquisa demanda dinheiro.

Ora (direis), vá aos cofres públicos! Faça um bom projeto de pesquisa e requeira verbas às instituições de fomento, quem sabe você não consegue mamar nessas gordas tetas? 1. Não gosto de leite. 2. Financiamento gera obrigação. 3. Atualmente, não tenho vínculo empregatício com nenhuma instituição de nível superior. 4. Vou contar uma historinha.

Muito bem. Como já está bem decantado pela nossa operosa imprensa, vivemos uma crise sem precedentes na nossa história (o que não é verdade inconteste; basta que se tenha mais de 40 anos para lembrar bem da década de 80, mas não quero discutir política neste momento), gerando grandes contenções de gastos em todas as áreas onde o governo precisa injetar dinheiro. Algumas destinações de primeira necessidade, como saúde e educação, recebem quantidades brutais de verbas (se são bem empregadas, é outra história), e qualquer por cento que se reduza em seus orçamentos representa uma avalanche de (ainda) dilmas. Outras áreas não são tão agraciadas, para a nossa lamentação, como é o caso das pastas de Ciências e Tecnologia, mas, até mesmo pelo fato de não fazer ninguém morrer de fome diretamente, recebem cortes orçamentários proporcionalmente mais profundos. Tudo isso está lindamente explicado neste e neste vídeo do Canal do Pirula, e não vou tentar fazer melhor do que ele. Assistam lá e voltem cá.

Vejam como a discussão entre o financiamento da Ciência de base e a Ciência aplicada é importante. Não há como fugir do questionamento do uso prático de uma pesquisa científica, mas também não há como aplicar conhecimento se não o temos. Ciência de base inclui especulação, longas observações, cálculos complicados, tempo e mais tempo. É muito mais atraente falar sobre medicamentos, mas alguém teve que pesquisar sobre composições químicas antes disso; é atraente falar sobre cirurgias a laser, mas alguém teve que descobrir propriedades óticas primeiro; é atraente falar sobre carros elétricos, mas alguém precisou compreender o que é eletricidade um dia. Não se aplica Ciência sem se saber Ciência.

Mesmo assim, a Ciência de base ainda tem algum apelo e atrativo. Só em São Paulo, entidades como a Estação Ciência (fechado temporariamente), o Museu de Zoologia da USP, o Catavento Cultural e outros exibem a seus visitantes atrações como simulador de terremotos, fósseis, imersão em cavernas, corpo humano por dentro, modelos computacionais e, com isso, demonstram que a ciência de base desperta o interesse das pessoas até mesmo como espetáculo, porque são coisas que podem ser bastante curiosas e trazem respostas a algumas de nossas perguntas fundamentais. E são incríveis mesmo – uma pessoa cabeluda com a mão em um gerador de Van der Graaf sabe do que estou falando. Não é exatamente o melhor dos universos, mas é muito útil para cutucar o espírito científico e para divulgar a atividade acadêmica.

Mas o fato é que a grana está curta, e se já é difícil obter verbas para o financiamento das Ciências, que tem algum apelo junto à população, o que diremos do financiamento à pesquisa filosófica? Mais ainda: quem acreditará que pesquisar filosofia de base pode ser importante?

Sim, porque também temos essa diferenciação em Filosofia. Há áreas voltadas para a análise de atividades práticas, como a Filosofia Política, Filosofia da Educação e Filosofia da Ciência, e existe aquela Filosofia mais profunda, que discute o âmago e as causas mais primordiais das coisas, como a Metafísica, a Epistemologia, a Lógica, a Ética. A Filosofia de base discute temas abstratos como a verdade, o tempo, o ser.

E eu pergunto: quem conseguiria financiamentos para repropor o Ser? É claro que a pesquisa filosófica é bem menos cara do que uma pesquisa científica, que requer materiais, laboratórios, observatórios, equipamentos, cobaias e muitas coisas mais. Em Filosofia, os maiores gastos são com livros, que poderiam, em todo caso, ser acessados nas bibliotecas das próprias universidades. No extremo, será necessário adquirir um bom computador, contratar um tradutor, fazer algumas viagens e utilizar os serviços de algum biblioteconomista, de um historiador, de um arqueólogo, mas dificilmente atingirá o custo de uma pesquisa científica simples. Mas são custos que existem e que dificilmente podem ser suportados pelo pesquisador com seus parcos ganhos. E, de acordo com a natureza do objeto a ser pesquisado, o total auferido será zero.

Imaginem a seguinte situação: o conhecimento consagrado diz que a Filosofia nasce a partir dos gregos. Queremos investigar e repropor essa tese, e, para tanto, precisamos viajar para a África, berço mais antigo da humanidade. Precisaremos nos encaminhar para lá, detectar as fontes históricas, conversar com os acadêmicos locais e tentar extrair alguma sistematização do conhecimento que possa estar fugindo da base mitológica, à semelhança do que aconteceu na Grécia. Sendo semelhante e anterior o leque de temas propostos por essa primeva Filosofia, teríamos que perscrutar os caminhos que conduziram essas linhagens de pensamento aos gregos, se é que tal fato aconteceu. E com isso mudaríamos a data de nascimento do pensamento racional.

Isso tudo é muito lindo, mas vamos cair na pergunta pragmática: serve para quê? E a resposta não é muito animadora, já que, a princípio, serve “apenas” como conhecimento. Não haverá uma revolução científica, não haverá uma transformação histórica, não haverá uma reforma ética, não haverá a redescoberta da roda. Teremos mais saber, e somente o futuro dirá o que faremos com ele. A Filosofia, que já convive com especulações sobre sua utilidade, não tem grandes armas para se defender. E o agente de financiamento mete o fúnebre carimbo de “rejeitado”, selando com o túmulo o projeto de pesquisa.

Mas as coisas não são assim e já é hora de que haja uma melhor divulgação filosófica, incluindo os pensamentos mais fundamentais. Mencionei acima a Filosofia da Educação, que é indistinguível das correntes pedagógicas adotadas pela escola do seu filho, meu caro amigo. Construtivismo, Comportamentalismo, Criticismo e outras vertentes não sobrevivem sem a Epistemologia, área da Filosofia que versa sobre o conhecimento. Com relação à Filosofia Política, que é a discussão racional sobre as relações de poder, e que geram todas as discussões entre direita e esquerda, podemos falar em Marxismo, Monarquismo, Liberalismo, mas não podemos falar em nada disso sem ter em mente a Ética, que é a área da Filosofia que trata das relações humanas. E sobre Filosofia da Ciência, vou me alongar um pouquinho mais.

Os antigos gregos possuíam uma metodologia de investigação que se baseava na dedução, e que não dependia muito da experimentação e da observação, o que nos afasta dos métodos científicos como os conhecemos hoje. Quem primeiramente descreveu cuidadosamente um sistema em que múltiplas variáveis deveriam ser recolhidas e comparadas foi Francis Bacon, ainda no século XVII (já falei dele neste texto). Era o indutivismo, onde cada observação de um fenômeno era candidata a derrubar todo o conhecimento formado até então. A Ciência parte definitivamente para o empirismo, e esse método perdurou até o começo do século XX, quando Karl Popper, que mencionei no mesmo texto, introduziu o conceito de falseabilidade, uma das grandes características da pesquisa hodierna.

Basicamente, a diferença entre ambos é muito sutil. O empirismo de Bacon dá força a uma indução na medida em que encontre elementos que confirmem a tese. Por exemplo: uma minhoca vive na terra, duas minhocas vivem na terra, três minhocas... Bacon procura sempre mais minhocas para reforçar sua conclusão. Já Popper vira o foco: ele vai procurar a minhoca que não vive na terra. É o que ele chama de ponto de falseabilidade – uma circunstância que invalida a conclusão. Quanto mais testes sofrer a teoria, mais forte ela se torna. E mais ainda: uma proposição somente pode ter caráter científico se ela possuir esse ponto. Tudo o que não puder ser falseado, não é científico. É Filosofia, é Religião, é Metafísica, é Arte, mas não é Ciência.

Mas mesmo o sólido modelo de pesquisa de Popper não passa incólume a críticas e revisões. Paul Feyerabend, filósofo austríaco, por exemplo, faz críticas virulentas à tentativa de encerrar a Ciência em uma metodologia fechada. Para ele, toda a história de descobertas científicas está marcada por mudanças de rota, detalhes insólitos, acaso e tortuosidades que não podem, nem em sonho, ser previstas pelas folhas limpinhas de um método. O ponto em comum de todas as descobertas é um só – sempre que se tentar encaixar uma experiência em uma norma, haverá a possibilidade de se fazer um desvio dessa norma.

Algum problema nisso? De jeito nenhum, no pensamento de Feyerabend. Essa liberdade de acontecimentos é rigorosamente necessária para o surgimento do novo. Sob pena de não se progredir, os cientistas de escritório precisam supor mais, mexer mais, até mesmo sonhar mais. A regra é: o único método válido para a Ciência é o vale-tudo, chamado pelo pomposo nome de anarquismo epistemológico. Não se pode pautar unicamente pelo racional – é também necessário buscar no absurdo.

Claro que Feyerbend construiu suas teses na medida certa para “socar” a metodologia de Popper, mas muitas de suas assertivas são coerentes, e, principalmente, feitas para provocar e tirar a comunidade científica da comodidade.

Já a crítica de Thomas Kuhn, filósofo norte-americano, está ligada à falta de uma perspectiva histórica na aplicação dos métodos científicos. Isso porque o racionalismo que caracteriza a Ciência não a tira do lapso temporal. A Ciência existe no tempo como todos nós, e se transforma através dele, também como todos nós. E são essas transformações que fazem com que o conhecimento científico mude radicalmente. Para entender melhor, Kuhn lança mão do conceito de paradigma.

Paradigma é um conjunto de representações que formam um modelo consensual a ser seguido. Como existe um acordo entre todos os atores, o paradigma é a matriz a partir da qual toda a atividade científica evolui. Da formação de um paradigma e de sua aceitação, nasce a Ciência Normal, que nada mais é que o conjunto de atividades que seguem determinado paradigma. Veja a semelhança que Kuhn dá entre um paradigma e um dogma...

Acontece que Kuhn observa que, de tempos em tempos, surgem hipóteses que fogem aos ditames do paradigma e da ciência normal. A princípio, como o paradigma é bem consolidado, estas hipóteses são consideradas meros desvios e erros na aplicação da metodologia. Na medida em que vão surgindo mais e mais evidências que corroboram a hipótese destoante, o modelo começa a entrar em crise. E, na medida em que a crise se amplia, ocorre o fenômeno: o paradigma anterior explode, e surge um novo paradigma. Essa é a revolução científica, como chamada por ele mesmo. Esse repente no surgimento do novo paradigma faz com que a tese anterior seja defendida a todo custo pela maioria da comunidade acadêmica, e o convencimento, este se dá aos poucos.

Assistimos inúmeros destes casos na história da Ciência: antes de Darwin, o fixismo era normalmente aceito por gente do calibre de Linneu. Antes de Copérnico, todos achavam que Ptolomeu já tinha matado a charada com o geocentrismo (e mesmo Copérnico foi superado por Kepler). Antes de Pasteur, a geração espontânea era uma solução francamente aceita pela comunidade científica. E todos eles precisaram segurar a barra de montanhas de contestações. Ou seja, o paradigma novo surge repentinamente, mas sua aceitação é progressiva.

A falseabilidade de Popper e as novas propostas de Kuhn e Feyerabend não são transformações científicas; são epistemológicas, são filosóficas. São aplicadas para a Ciência, mas nascem da Filosofia, e daqueles questionamentos mais profundos: o que é a verdade? É possível conhecê-la? ISSO é filosofia de base, que deriva para uma Filosofia “prática”. Seria melhor prosseguirmos na dedução aristotélica e na indução baconiana para praticarmos Ciência? É onde estaríamos se a Filosofia não apontasse novas metodologias e caminhos. E, com isso, espero humildemente colaborar para diminuir a sensação de que a Filosofia é coisa inútil. Já me sinto melhor.

Portanto e finalmente, meus bons leitores, convido vocês a refletir sobre os indicativos que fazem decidir quais pesquisas devam ou não ser realizadas. O critério de utilidade é significativo, mas não pode ser definitivo, sob pena de ficarmos dando voltas e mais voltas ao redor do conhecimento disponível, sem grandes perspectivas de sair do lugar. Uma hora as ferramentas disponíveis se esgotam, e precisaremos novamente filosofar sobre as perguntas mais arquetípicas para encontrar soluções. Ou não?

Recomendações:

O canal do Pirula é excelente para quem gosta de discussões sobre Ciências. Suas séries sobre Criacionismo e suas explicações sobre temas como cladística e migração de espécies são primorosas. Vale a pena assistir (lembrando que vídeos longos não são um problema para mim).

https://www.youtube.com/user/Pirulla25

Feyerabend é, antes de tudo, um contestador. Seu livro parece pretender menos estabelecer uma metodologia (ou falta de) do que ser um libelo contra o cerceamento do livre pensamento científico. Afinal, tolher a liberdade do cientista significa impor alguns limites que podem dificultar o alcance da pesquisa.

FEYERABEND, Paul. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.

E, finalmente, a obra-prima de Thomas Kuhn, onde está exposta sua tese de vinculação da história ao progresso científico.


KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2006.