(Nada é permanente nos dias de hoje… como, aliás, nunca foi)
“Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado e o homem é obrigado por fim a encarar com serenidade suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes”.
Marx
Olá!
Bem ao contrário da vista da Mantiqueira que eu tenho em
Taubaté, da janela do meu quarto no centro de São Paulo eu tenho uma velha
visão do descaso. Do meu ponto de visada, bem no caminho onde eu poderia
enxergar o Parque Dom Pedro, há um colossal esqueleto de um prédio que deveria
ter sido uma garagem vertical. É o que a cidade conhece como Caveirão.
Ele é célebre, sempre citado como exemplo quando se quer
demonstrar a velocidade de lesma com que as coisas se desenrolam em Terra
Papagalli. Trata-se de um antigo projeto de prédio-estacionamento, imaginado
quando a questão vagas passou a ser problemática por estas bandas. Não sendo
projetada para a maluquice urbana que temos hoje, por sua idade avançada em
termos de Brasil, São Paulo se ressente de bolsões competentes de
estacionamento, ainda mais que, sendo terra da grana (na mão de poucos), é de
carro que a cidade faz seu negocial, e esse tipo de aberração tem sido
imaginado já há tempos. Não teria sido muito melhor esteticamente se este armatoste
tivesse chegado ao seu uso inicial: seria feio, continuaria encobrindo a visão,
reinaria como um marco à miséria do centro da cidade mais rica do país,
imperando sobre o Glicério dos cortiços e da Várzea do Carmo das enchentes. Há
coisas que nascem mal e não tem muito para onde correr. Mas o fato é que esse
entulho armado está embargado desde a década de 70, quando as obras do metrô
colocaram em risco suas estruturas. Entre trocas de proprietários e disputas
judiciais, esse lugar foi ocupado diversas vezes, infelizmente por pessoas
intimamente ligadas ao tráfico e abuso de menores, como bem sabemos nós,
moradores das redondezas. Então tínhamos um caldeirão de problemas sociais
reunidos em um só lugar, ele mesmo um problema urbano prestes a desabar,
fazendo sucumbir as vidas daqueles que procuravam um lugar para morar, para se
esconder, para cometer crimes ou, simplesmente, para ficar de chiacchera
na calçada enquanto a vida passa.
Depois de décadas de imbróglio, parece que as coisas começam
finalmente a tomar um rumo. São incríveis 60 anos que demoraram para um
desfecho, que ainda poderiam ter se arrastado por mais tempo ainda. O
judiciário, frente ao risco de desabamento, expediu ordem judicial ao
proprietário para que ele procedesse a demolição do imóvel, o que foi
sucessivamente descumprido, sob a alegação de ausência de recursos, cada vez
piorada pelas multas não pagas. Diante disso, a justiça intimou a prefeitura a
realizar o serviço e a autorizou a cobrar do proprietário os custos, o que
certamente se dará pela desapropriação da área. Pelo projeto inicial, virá um
conjunto de prédios de uso misto, o que significa lojas no térreo e moradias
acima.
Alguns meses ainda se passaram dessa omelete jurídica, até a
coisa ganhar concretude, e ela veio na forma do cercamento da entrada da
estrutura, pela frente e pelos fundos, bem como do despejo dos cortiços que
lhes são lindeiros. A igreja evangélica foi poupada desse último, mas isso é
história para outro momento. E, nestas últimas semanas, finalmente foi possível
ver ação: uma equipe da prefeitura começou a instalar os patamares que servirão
para dar sustentação à operação de demolição, que, dado ao fato de estar a
coisa toda logo acima do túnel do metrô, precisará ser feita na marretada.
Perdi a chance de ver uma implosão ao vivo e em cores. Droga…
Pena que o jacarandá que resiste no topo do prédio deve ser
a primeira coisa a vir abaixo. Eu o removeria com cuidado e plantaria na frente
da obra que for construída no lugar, como prova da tenacidade da natureza e de
como é possível surgir beleza dentre os abrolhos. O Caveirão já está há tantos
anos não só no meu campo de visão, mas de todo aquele que chega ao centro de
SP, que já parecia um espetáculo a ser candidato a patrimônio histórico. Quem
vem pela Avenida do Estado ou pela Radial Leste já o vê ao longe, com sua
estranha imponência asquerosa, armadura exposta e apodrecida, fruto de um misto
inexplicável de pobreza da intenção estética, falta de imaginação na solução
urbana e surreal lentidão burocrática. Quem o vê, não entende como é possível
que se quisesse erguer um prédio tão horrível, ao mesmo tempo que se assombra
com o fato de que tal edifício tenha sido condenado por ameaçar cair há tanto
tempo e tenha ficado lá, esperando virar desgraça. É o tipo de coisa que nos
faria acreditar que Deus sustenta aquela tralha e evita a hecatombe que seria
sua queda, se não fôssemos tão firmes na nossa falta de fé.
Fosse uma implosão, e tudo iria ao solo em segundos, como
ocorreu com prédios vizinhos na praça Clóvis, com nuvens de poeira invadindo as
salas e filas de caminhões para remover o entulho. Seria o fim espetacular de
algo que, no final das contas, parecia que iria desafiar eternamente as regras
da engenharia. E eu lembro de uma frase usada meia solta por aí: “tudo o que é
sólido desmancha no ar”, como sinônimo da transitoriedade daquilo que
acreditávamos imutável. Ela é uma frase de Karl Marx, usada no conhecidíssimo
Manifesto do Partido Comunista*, e é preciso deixar algumas coisas um pouco
mais claras sobre ela.
O Manifesto Comunista é uma obra que divide opiniões. Para
alguns, um panfletão sindicalista; para outros, a base de uma nova sociedade,
ambas defendidas e atacadas com as mesmas altas doses de rancor e reverência.
Não dá para conversar com esses ânimos, mas é possível tentar esquecer das
dicotomias atuais e chegar a um didatismo desapaixonado. Olhado por um prisma o
mais isento possível, o texto é baseado numa análise do processo de Revolução
Industrial, ponto culminante da implantação do Capitalismo, passando pelas
fases anteriores e com comparações sociais do que seriam as classes dominantes,
com a qual se pode concordar ou não. O cerne do livro é detectar no processo
histórico a repetição de uma mesma lógica de dominação, passando desde os
primórdios da organização política até a chegada da burguesia ao poder.
Entretanto, a divisão entre burgueses e proletários, ainda que reproduzindo a
mesma estrutura da realidade, tem suas sutilezas que trazem um cenário único:
movidos pela expansão do comércio e pela expansão industrial, nunca uma divisão
entre classes foi tão acentuada.
A burguesia é revolucionária. Ela transformou o mundo de uma
maneira tão radical quanto as guerras e invasões, de modo a modificar todas as
relações econômicas e sociais como nunca se viu antes. Sua principal virtude
foi desmontar a lógica hereditária dos antigos reinados e a estrutura baseada
no sentimentalismo sustentada pela religião. Tudo, absolutamente tudo, virou um
conjunto de relações comerciais.
A grande questão é que esse modo de produção capitalista,
segundo os autores, precisa se retroalimentar continuamente. A cada vez em que
uma transformação do sistema se instala, junto com ela vem uma revolução
social. A expansão marítima tornou necessária imensa quantidade de recursos
para viagens cada vez mais distantes. A Revolução Industrial transferiu para a
fábrica a lenta produção artesanal. A linha de produção hiperespecializou e
simplificou tarefas que eram realizadas mais lentamente por funcionários que
precisavam conhecer o produto como um todo. E assim andou pela época de Marx, e
assim anda até hoje.
Essa contínua transformação impede que as coisas se tornem
perenes, mas não as impedem de se afigurar como tendências irrefreáveis. Um
produto fabricado com altíssima tecnologia terá sucedâneos que aparentam não
ter substitutos. Um celular hoje em dia é tudo, menos um telefone, e cada vez
menos há pessoas com linhas fixas em casa, como é meu caso mesmo. Para se obter
essas maravilhas eletrônicas a um preço que esteja ao alcance de um número cada
vez maior de pessoas, é peremptório que os custos sejam diminuídos em algum
canto, e ele se dá exatamente pelo aproveitamento cada vez menor de recursos
humanos.
Parando para pensar, as novas formas de produção são uma
constante na linha evolutiva do modo de produção capitalista, e sentimos isso
em nossas mãos. Nos tempos dos inícios da indústria, a grande preocupação era
produzir mais e mais, com um custo cada vez menor. Essa lógica não mudou, mas a
forma como esse objetivo é perseguido muda muito rapidamente. Vivemos nos dias
de hoje algo que os sociólogos chamam de desemprego estrutural. Não se trata
mais das inúmeras crises que fazem com que a produção encolha e a desocupação
expanda, para logo depois ser retomada a trilha costumeira, mas de um nível tão
avançado de automação que o trabalhador se tornou desnecessário. Lembro muito
bem de quando fui, aos quatorze anos, trabalhar de office boy em uma grande
rede varejista. Os relatórios que buscávamos na matriz para levar ao RH hoje
são extraídos de um celular. As inúmeras cartas de cobrança encaminhadas ao correio
viraram ameaçadores e-mails. Tudo é virtual e não serviríamos para mais nada
nos dias de hoje, com nossas perninhas ágeis e nossas cabecinhas distraídas. Em
outra empresa, aos dezesseis, éramos nove no departamento de contabilidade.
Pessoas destinadas exclusivamente para fazer faturamento, para calcular
correção de patrimônio, para operar a máquina contábil (eu), para cuidar do
arquivo, para preencher fichas de lançamentos estão todas hoje subjugadas pelo
toque de um botão, que integra todas as informações financeiras de uma empresa
instantaneamente. Folha de pagamento, contas pagas, duplicatas a receber,
baixas de estoque, absolutamente tudo é integrado nos livros contábeis no exato
momento em que acontecem, e ao contador resta somente a parte analítica, quando
muito. Mas cuidado, vem vindo mais.
Hoje temos a inteligência artificial que ameaça fazer
sucumbir toda a indústria de desenvolvimento de software como conhecemos até
hoje. Em um processo de autofagia, a cibernética decreta seu próprio fim e faz
desmoronar tudo aquilo que parecia ter vindo para ficar. O contador, que olhava
com preocupação a queda nos índices de liquidez, agora tem que olhar com
preocupação a necessidade de seu trabalho, frente à capacidade infinita de
coligir dados de uma IA que, se ainda não é perfeita, mostra que o horizonte é
novo. Até que outro processo inimaginável neste momento vai superar a tão
decantada IA, sempre na busca de aperfeiçoamentos para o sistema de acumulação
de capital, sempre maximizando ganhos através da economia proporcionada com a
mão de obra. O desemprego estrutural é a demonstração de que mesmo um sistema
exploratório encontra seu término. Nas épocas de Marx, o pequeno produtor, o
artesão e o comerciante miúdo eram transformados em proletários porque não
tinham outro caminho a não ser vender sua própria força de trabalho. Hoje,
perguntamo-nos se haverá empregos amanhã. Nada é para sempre.
Só que muitas das vezes em que essa frase é usada, há um
sentido meio que puxado para o estoico, como, por exemplo, trata Sêneca no seu
famoso texto “Sobre a Brevidade do Tempo”, sobre o qual já dei meus
pitacos. Neste, a questão das transformações inesperadas se dá em um âmbito
ético, mais no sentido de não se desperdiçar momento vivido com sonhos
irrealizáveis, mais para o tempus fugit, carpe diem.
Marx dá uma ideia mais de destruição. O Capitalismo funciona
sob uma lógica de que todas as relações são efêmeras e podem mudar ao sabor da
sua necessidade de se reinventar continuamente. Não são só as artes e ofícios
que se transformam, mas as tradições e relações sociais vão na mesma esteira. Reis
e sua vassalagem eram um fato tão concreto na Idade Média que nada pareceria
romper essas relações tão cheias de mística. O próprio fenômeno burguês surge
como uma quebra de hierarquia política: o poder sai das mãos de quem tem
direito “divino” para ir para os que têm recursos.
A expansão contínua toma proporções planetárias, extinguindo
fronteiras; a natureza é subjugada ao máximo, em uma medida que seus ciclos não
mais dão conta, fazendo áreas inteiras modificar-se irremediavelmente. Tudo
precisa ser grandioso e rápido, e, no fim, mesmo que velada por uma atmosfera
conservadora, para a manutenção do status quo, só resta o reconhecimento
de que todas as relações humanas se baseiam no negócio, nas relações comerciais
e, no limite, no desigual confronto de classes.
Então percebam como o sentido da famosa frase se dá no
âmbito político e econômico, sendo menos genérico do que seu uso “profano” pode
fazer crer. Mas esse uso pode ser considerado ilegítimo? Não, né?
O sentido de efemeridade é aplicável a praticamente tudo na
vida. Sempre temos situações que achamos hoje serem imutáveis, mas que giram
180 graus de um minuto para o outro. Um prédio vai pelos ares em segundos. Pode
parecer insignificante em uma cidade com milhões deles, mas, se eles forem
torres gêmeas, mudam o destino do mundo. Ídolos incontestes sucumbem em uma
colisão. Era inimaginável que isso acontecesse, e vocês
sabem de quem estou falando, mas a solidez não resiste ao vento do acaso.
Só que, como podemos ver, embora seja uma interpretação válida da frase em
sentido genérico, ela escapa do real contexto para o qual ela foi criada.
Portanto, é uma questão mais de se saber do que se está
falando do que vetar seu uso por um capricho ideológico. O importante é saber o
que se faz na cozinha para não passar vergonha na sala. E lembremos que nada
impede que novas firulas judiciais façam com que os pedaços de concreto não
comecem a cair e que a afirmação objeto deste texto seja mais uma vez falseada
em nosso insólito país. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Critique somente o que você conhece. O Manifesto Comunista é
curtinho e não exige grande ciência para ser lido, além de poder ser baixado de
graça na internet.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista.
São Paulo: Boitempo, 2000.
*Pois é… você usa uma frase marxista e nem sabia disso.

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