(Um pequeno desvio pode explicar uma gigantesca mudança?)
“Não há nenhum lugar onde os corpos, quando estão reunidos, possam, perdida a força do peso, ficar imóveis no vazio, nem, por outro lado, aquilo que é vazio deve suster alguma coisa, mas, pelo contrário, como exige a sua natureza, apressar-se a dar-lhe passagem”
Lucrécio
Olá!
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Depois de tanto tempo indo e vindo, é natural que a gente
fique meio cansado. Ainda que seja perto, um lugar aonde vamos muito acaba se
tornando cansativo. Não o local em si, mas sua rota. Eu tenho um piloto
automático tão acionado no caminho Ayrton Senna - Carvalho Pinto (antiga
Trabalhadores) que nem reparo mais nos morros, nas plantações, nas casinhas,
nas vacas, nos postes de luz, somente na faixa de asfalto que parece mais e
mais infinita, a ponto de causar um certo “barato”, onde a alma parece
abandonar o corpo e flanar por aí, enquanto a pobre massa física vai girando o
volante para lá e para cá ao sabor da habitualidade, o que é perigoso.
Redundar em distração a 120 km/h não é exatamente o que mais querem os
legisladores de trânsito, nem os mantenedores da saúde pública. Afinal de
contas, o corpo que está presente ao volante precisa da alma* para lhe dar
vigilância e atenção. Por isso, e como já falei por aqui, resolvi alugar uma
casinha em Taubaté, ainda que não seja para ficar lá cem por cento do tempo.
Afinal de contas, a modernidade permite trabalho remoto, mas o chefe não, e
isso me obriga a manter a base SP, para ficar em formato híbrido.
Alugar uma casa significa estruturá-la, o que não é muito
módico. Sorte que o espólio da Dona
Madalena me disponibilizou um monte de móveis e utensílios, e isso
possibilitou economizar uma grana e viabilizar a empreitada. Geladeira, fogão,
armários, cômodas… tudo isso e outras coisas mais permitiram a este escriba
alugar a casa e não dormir no chão, nem comer comida fria. Não fosse isso, na
verdade, e eu não conseguiria aluguel algum. É casa pequena, parece um
trenzinho, mas, para mim, está de ótimo tamanho.
Mas é óbvio que a macróbia defunta não tinha um kit mudança
pronto, e, para complementar, precisei comprar um monte de miudezas. Uma das
mais óbvias era um método para o santo cafezinho de toda manhã, do qual não
abro mão. Para isso, juntei o leve ar interiorano do campo com a praticidade da
cidade e comprei um método misto, manufaturado pela Fabrikafé, uma empresa
pernambucana que atua com baristas para produzir objetos ecologicamente
sensatos: coadores de pano que se assentam em porta-filtros de mercado.
São produzidos com tecido do tipo saco de farinha, em
algodão grosso. Eles vêm em vários modelos, e eu comprei um cônico e um
trapezoidal, para encaixar nos porta-filtros V60
e Melitta,
respectivamente.
Aqui a ideia é dupla: a primeira é de dar um certo ar de
nostalgia, para que os coadores de pano modernizados possam relembrar as velhas
“calcinhas” que nossas
avós usavam para escoar café nas manhãs agitadas e nos domingões
modorrentos. A outra é mais ecológica. Ao utilizar um coador reaproveitável,
economiza-se muito papel que seria descartado imediatamente após o uso nos
métodos mais costumeiros.
Depois de alguns dias de uso, e usando as recomendações de
limpeza, consegui concluir que, de fato, funciona muito parecido com as velhas
mariquinhas, dando aquele saborzinho de nostalgia. O segredo é o enxágue pós
uso e o escaldamento no momento da extração.
Muitas vezes o que temos de mais esperto a fazer é
exatamente a juntada de características fortes, para sair lá na frente com um
objeto melhor. Isso não se restringe a coisas, mas também a ideias, incluindo o
combate entre elas. E isso também pode ter uma coloração de nostalgia, onde
ideias há muito esquecidas retornam com força, demonstrando como a
racionalidade é poderosa.
Claro que não me refiro a pensamentos estapafúrdios, como terraplanismos
e geocentrismos,
mas a questões que pareciam aposentadas, que são reavivadas pelas descobertas
científicas mais recentes, e voltam à discussão na academia, para depois cair
nas discussões de boteco. Algumas dessas conversas são milenares, e pareciam
que fariam unicamente parte dos compêndios históricos. Um bom exemplo é a
questão da não-linearidade dos eventos, coisa que já se discutiu há um bocado
de tempo, mas que hoje é rediscutida em eventos que parecem trazer metafísica
para o mundo palpável, como o efeito borboleta e outros. É assim que funciona a
ciência. E a filosofia também.
Bom, vamos lá. A ideia de atomismo nasceu a partir do
pensamento de Lêucipo
e seu aluno mais famoso Demócrito, que descreveram a hipótese da formação
do universo a partir das interações entre as partículas fundamentais da
matéria, os átomos, e o vazio, espaço onde absolutamente nada existia.
Anteriormente, na pesquisa racional para a descoberta de um princípio geral da
formação do universo e do que se mantinha no seu substrato, sempre tínhamos
alguma espécie de vetor físico definido, como água,
ar,
terra,
fogo
e da combinação
de todos eles, ou de elementos menos figurativos e mais abstratos e
moldáveis, como o ápeiron
e as homeomerias,
ou até mesmo matemáticos,
a tal da arché.
No entanto, em consórcio com todos eles, havia alguma espécie de moção
metafísica, como a ação divina ou impulso volitivo, porque se entendia que era
necessária alguma forma de impulso para a coisa funcionar. Faltava a aposta em
um fundamento puramente material, e é nisso que reside o atomismo, já que não
há nada que gire o universo a não ser ele mesmo.
O que seria então esse tal de átomo? Seriam partículas
mínimas puramente materiais e a combinação entre elas, de modo que cada uma
delas fosse indivisível. É uma ideia parcialmente intuitiva, já que podemos
partir um bolo em pedaços cada vez menores, inclusive no âmbito micrométrico,
até o ponto em que essa divisão se torne impossível, e essa seria um “átomo” de
bolo. Sempre lembrando que Demócrito anteviu que a tipagem de átomos era
bastante limitada, e a imensidão de substâncias se dava pela combinação entre
eles, o que poderíamos atualizar para as moléculas.
Mas como se dava o processo de construção dos corpos? Os
atomistas entendiam que, observada a existência da gravidade, os átomos caíam
no vazio em queda livre, até que um acabasse colidindo com o outro, porque os
mais pesados terminariam encontrando os mais leves pelo caminho, o que poderia
causar uma agregação (do tipo enganche) e isso ocasionaria sucessivas formações
maiores, desde poeirinhas até planetas.
A estruturação dessa ideia parecia poderosa, mas Aristóteles
resolveu jogar água nesse chope. Em primeiro lugar, ele não concordava que
havia alguma coisa trafegando no vazio, porque não existia vazio. Aquilo que
assim parecia, na verdade, era algum dos quatro elementos em estado
desvanecido, mas não em algo rigorosamente sem nada, como o vácuo absoluto. E
segundo, ainda que assim fosse, pelo funcionamento da própria racionalidade,
Aristóteles concluiu acertadamente que, não havendo nenhum material a interpor
resistência, não havia por que uma partícula mais pesada cair mais rapidamente
do que uma mais leve. Estando em caminhos rigorosamente verticais e paralelos,
jamais uma partícula atingiria outra, e o fenômeno da agregação atômica nunca
se daria, e essa explicação sobre o funcionamento do universo era furada. Outra
coisa: uma perspectiva puramente material desafiava a tese teleológica
aristotélica. Dentre as famosas quatro
causas, uma era a causa final, um motivo para que todas as coisas existam.
No universo puramente material de Demócrito, não haveria propósitos, nem
causas, nem finalidades, e isso contradizia o pensamento aristotélico que, como
demonstrei, não gostou nada dessa explicação.
É neste contexto que aparece o romano Lucrécio. Fundado no Epicurismo,
e observados os inúmeros fenômenos do acaso que ocorrem incessantemente no
mundo e no universo, teorizou que, sem nenhum tipo de determinação, ocorriam
minúsculos desvios na trajetória de certos átomos, o que levaria à colisão
pensada por Demócrito. Seria essa, e não o peso dos átomos, a responsável pelas
colisões que realizaram as agregações necessárias à construção dos corpos. É
daí que surge o termo clinamen, ou inclinação, em latim.
Aparentemente, temos aqui um argumento
ad hoc dos mais clássicos: se não tem explicação, eu arrumo uma. Mas também
Lucrécio não tira sua hipótese do nada. O princípio geral da ideia é que, caso
a teoria dos atomistas estivesse completamente correta, teríamos um mundo
determinístico, completamente previsível e imutável. Mas não é o que temos na
prática. Nem somente as coisas mudam ao menor sabor de variáveis, bem como
também as próprias linhas de pensamento não seguem um caminho reto. Como os
materialistas dos átomos achavam que tudo era composto por estes, também os
pensamentos e abstrações seriam, e isso vai incluir livre arbítrio e
criatividade. Vamos cuidar dessa questão.
Quando falamos em arbítrio, automaticamente pensamos em
julgamentos e escolhas. Isso pode incluir opções simples, como resolver a
janta, ou decisões delicadas, como planejar a economia de um país, o que,
naturalmente, implica em uma série de consequências, algumas mensuráveis,
outras nem tanto, outras ainda absolutamente imprevisíveis. O que temos de
certo é que o arbítrio é uma decisão diante de uma questão. Ele tem uma
anterioridade: nosso conhecimento, nossas condições psicológicas, nossas
necessidades materiais. Uma vez colocados diante de uma questão, todas essas
condições são fatores que vão influenciar nas escolhas. A discussão é se todos
esses fatores são capazes de fixar uma escolha - se aquilo que eu optar poderia
ser de outra forma ou se eu de fato opto livremente. Se entendermos que há
determinação na escolha, ou seja, ela está escrita nas estrelas, então não há
que se falar em liberdade. Mas, se ela houver, o que faz o desvio das condições
que, em tese, faria algo ser decidido como foi? O que é essa vontade própria
que contraria o curso natural dos acontecimentos?
Outra questão: um mundo determinístico pressupõe uma
ordenação muito menos mutável que a que enxergamos ao nosso redor. A teoria da
evolução, por exemplo, preconiza que as espécies surgem através de descendência
com modificação. Isso não quer dizer que um pelo dia nascerá um humano com
asas, mas com sutilíssimas, porém vantajosas mudanças com relação aos seus
ascendentes. Um membro minimamente mais flexível, um osso um pouquinho mais
resistente, um olho que enxergue em níveis de luminosidade um trisco mais baixos
podem trazer vantagens que, oferecidos no atacado, parecem de pouca monta, mas
no varejo fazem toda a diferença. A própria palavra mutação carrega consigo uma
aura de desvantagem, resultando em perdas, não em ganhos. Quando eles ocorrem,
são esse pequeno desvio, essa minúscula inclinação que tornam a sobrevivência
ligeiramente mais apta.
Mais uma coisa ainda. Como se explica a criatividade?
Artistas traçam um mundo que não veem, que vai além do alcance do mero ato
empírico. Sim, é perfeitamente possível reproduzir situações em uma tela ou uma
pedra, mas, mesmo estas, são frutos de abstrações, e da sensação inicial surge
algo novo, modificado com relação à natureza, criado. Se não houver alguma
forma de desvio, não há como surgir o novo, porque só teremos a eterna
reprodução daquilo que já tínhamos antes, e de novo, de novo, de novo.
O clinamen de Lucrécio, portanto, surge como contraponto à
tendência cada vez maior de se estabelecer um determinismo tão marcante que
parece impossibilitar o livre arbítrio. Se um pequeníssimo desvio é capaz de
gerar novos mundos, novas espécies, fazer furacões através de movimentos de asa
de uma borboleta, então não parece ser plausível que não seja possível optar
sem chance de que a escolha fosse outra.
Em resumo, a grande questão se transforma no seguinte: se o
universo é determinístico, por que raios ele varia de modo imprevisível? Talvez
nosso grande problema seja a dificuldade de enxergar processos, e, quando os
enxergamos, pensemos neles como estruturas lineares, que seguem roteiros
invariáveis e caminhem em uma só direção, ainda que tremendamente complexos.
Pode até ser que os deterministas estejam certos, e por detrás do liame
irresolvível dos fatos tenhamos eventos que são como são e não poderiam ser de
outra forma, mas não é assim que a realidade se apresenta a nós, e essa
linearidade se mostra inconsistente. Saltos quânticos, mutações e outros
desvios são percebidos como acaso de difícil encadeamento lógico, ainda que
haja uma ordem em seu substrato.
Duas observações finais, para além do próprio assunto em si.
Notamos como a mente é uma ferramenta poderosa, que, mesmo sem possuir
instrumentos técnicos, consegue dispor os fatos de maneira lógica a ponto de se
aproximar muito da realidade em si mesma de maneira muito sofisticada.
Demócrito, Leucipo, Aristóteles e Lucrécio, para ficar apenas nos citados neste
texto, falaram sobre coisas difíceis com grande percentual de acerto. Não são
risíveis suas deduções. Levaram a lógica ao esplendor por se tratar da única
ferramenta disponível para compreender o mundo naquela época, e é invejável o
modo como conseguiram ao menos tangenciar coisas que hoje a ciência explica com
sofisticadíssimos equipamentos.
Mais ainda: isso tudo demonstra como o pensamento científico
deixou de andar desde os sofistas até mais ou menos o tempo dos Bacons, Roger
e, especialmente, Francis,
quando novamente se passou a olhar para o universo em si com um espírito de
descoberta. Sabe-se lá como estaríamos hoje sem esta interrupção milenar. Bons
ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Lucrécio faz parte daquela leva de pensadores romanos que
trouxe a base grega ao centro decisório do mundo de então. Seus escritos são
curtinhos e rápidos de ler.
LUCRÉCIO. Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio
d’Água, 2015.
*Antes que algum chato me pergunte, “alma”, aqui, tem o sentido de consciência.



