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domingo, 3 de maio de 2026

Consciência do corpo é prova de sua participação na racionalidade (Pequeno guia das grandes falácias – 78º tomo: a incredulidade pessoal)

(O corpo não está fora da relação de conhecimento)

Gostaria de uni-las [N. do A.: a arte e a natureza]. A arte é uma apercepção pessoal. Coloco esta apercepção na sensação e peço à inteligência transformá-la em obra”.

Cézanne apud Merleau-Ponty

Olá!

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Aconteceu. Demorou, mas aconteceu. O médico olhou, olhou e olhou os números nos meus exames e franziu o cenho. Olhava para mim e olhava para os números, para as curvas, para os mapas. Olhava para mim e para a anamnese na tela do computador, com o histórico familiar denunciando a genética desprivilegiada. Por fim, olha para mim e entrecruza os dedos sobre a escrivaninha, proclamando a sentença: você tem duas escolhas – incluir atividades físicas na sua rotina ou já fazer as encomendas típicas de um enfarte. Nem preciso dizer quais são. 


A coisa toda se deu em exames de rotina, o que já tira a agudeza de algum evento bem demarcado, como uma dor no peito ou desmaio. Diante de ultimato tão convincente, eis que eu cumpri, finalmente, uma ordem médica e um desejo antigo da patroa, e me inscrevi na academia. Não se trata de nada filosófico ou científico, como sói acontecer com admiradores de Platão, mas físico mesmo, para dar um pouco mais de sustentação na maquininha. Nada muito aeróbico no começo, porque é preciso primeiro que o coração vá se fortalecendo, então vamos de musculação e de Pilates. Dizem que este último é coisa para senhorinhas, e de fato a chiacchera come solta, reforçando o estereótipo, mas me deixa ainda mais moído que o primeiro, porque seus aparelhos de nomes malucos fazem esticar e suster o próprio peso na maioria das atividades, o que me faz ter consciência de que minha barriguinha não é só uma ode ao ócio, mas à flacidez dos músculos. Incluindo o cardíaco.

Os exercícios especificamente de Pilates são estranhos. Como é de se esperar, há poucos homens fazendo suas torções, enquanto as mulheres se desenrolam em ginásticas que se assemelham a acrobacias, com muitas piruetas nas barras e pranchas, além de técnicas que lembram yoga e balé. Com isso, há um certo ar feminino que nosso preconceito nos faz olhar de bico torto para uma atividade que nada tem a ver com o sexo e a sexualidade do contribuinte. Prometo dar uma boa estudada na história da técnica para trazer a vocês o que ela pode sustentar de filosofia.

Fato é que todos os médicos com os quais conversei após começar a treinar o corpo acudiram com beneméritos à atitude. A verdade é que nós vamos deixando nosso físico para trás à medida que os aperreios da vida nos distanciam de coisas que reputamos como secundárias. Ou, melhor dizendo, que vamos colocando na caixinha de secundárias, porque, na realidade, secundárias elas nunca foram. É claro que passei apertos que simplesmente me impediam de sonhar com o custeio de uma academia, e o tempo disponível era utilizado para trabalhar, e trabalhar, e trabalhar, sempre na esperança de receber um trocado a mais para limpar a longa lista de desafios financeiros. Com isso, veio o costume pela lei do menor esforço e o engordamento, a dificuldade cada vez maior de fazer trabalhos duros e, nessa roda-viva do círculo vicioso, as ateromatoses, as pressões altas, as palpitações e ela, sempre ela, a diabetes mellitus.

Refazer tudo o que ficou para trás é duro e, principalmente, limitado. É muito pouco provável que eu atinja um nível minimamente parecido ao que eu tinha com vinte anos, por força dos abusos e do envelhecimento, mas é preciso tentar, e é isso que eu estou fazendo agora.

Tudo é muito doloroso, até mesmo simples agachamentos, porque meu corpo é um bocado pesado, então nos primeiros dias tudo o que eu fazia era tentar levar as séries até o final. Com o decorrer do tempo e do esforço, as coisas foram melhorando um pouco, a ponto de se poder colocar atenção em outras coisas, como a exata parte do corpo que é ativada nos movimentos. Alguns dos exercícios têm me provocado reações contraditórias. Como a única atividade mínima que eu fazia era andar, esperava que as pernas me doessem menos, o exato oposto do que me ocorre, com autênticos frangalhos pós-treino. Já os braços têm se mostrado resistentes e rijos, justo onde eu esperava dores e mais dores. Por ora, algum incômodo e é só. Isso se dá porque os exercícios físicos causam microlesões e suas consequentes inflamações, que, ao regenerarem-se, acabam por causar o fortalecimento do músculo. Nos exercícios mais pesados, há ainda o acúmulo de ácido lático, que causa aquela sensação impossível de queimação, que não é agradável, mas que também é esperada.

O que eu tenho achado de mais filosófico nesses primeiros meses de treino é a consciência de corpo, de como não a temos até sentir cada uma das fibras sendo repuxadas por aparelhos e exercícios. De fato, nas pausas suadas entre um exercício e outro, repuxo as molas da parede girando os pulsos, e percebendo como cada uma das posições retesa um músculo diferente. Mão virada para baixo ativa o músculo X; virada para cima, mexe com o músculo Y e, para os lados, outro ainda. Você lentamente vai percebendo como cada puxada afeta uma parte diferente do corpo e praticamente consegue desenhá-lo mentalmente. Essa consciência também é treinada na medida em que os instrutores berram suas correções: “mantém o abdômen contraído”, “apruma a coluna”, “abre o peito”, “sinta suas escápulas, escápulas, escápulas, escápulas…” em um longo eco que parece mesclar algo de sonho com uma palavra da moda, ou como se entrássemos em uma caverna na busca da pequena ninfa Eco. No meu tempo de rapaz, dizíamos: omoplata. Numa dessas viradas de nomenclatura, a coisa virou escápula e precisei reaprender tudo isso, menos quando caí do muro empinando pipa e quebrei a dita cuja, seja omoplata ou escápula. Foram dois meses de gesso com o braço esquerdo cruzado sobre o peito. Dizem que tive sorte por não ser o direito, que me consumiria muito tempo de aula. Não sei se concordei com isso na época.

Entretanto, independentemente do meu posicionamento pessoal, o fato é que essa consciência de corpo era praticamente uma lenda tanto dentro do âmbito filosófico, quanto do científico. Se por um lado a consciência parte de um sujeito, ela precisa do caminho dúbio dos sentidos para ser trazida “para dentro”; por outro, a roupagem pessoal de cada uma das consciências deturpa o objeto analisado de como ele efetivamente é.

Estamos em um momento em que está bem estabelecida a divisão entre filosofia e ciência com relação ao quesito “homem” na relação do conhecimento. O principal fundamento da fenomenologia e sua grande novidade está no papel da consciência de quem observa os fenômenos, ou seja, as ocorrências reais que se desenrolam no universo. Sem uma consciência, nada se registra e o ato cognitivo, evidentemente, não acontece. Portanto, a primazia do conhecimento, nesse sentido, está no sujeito, na razão que processa a realidade, e esse é um parecer filosófico.

Já a ciência se baseia na oportunidade empírica de se observar os fenômenos e deles tirar conclusões sobre suas causas e suas consequências. Ao contrário do que pensa a filosofia, não há processos cognitivos sem um fenômeno a ser observado, dando a precedência ao objeto nessa relação: uma consciência nada observa se nada acontece.

Sendo assim, o corpo seria um mero suporte por onde corre a consciência, sem nenhuma função além de “segurar” a mente que capta o exterior. Ocorre que há um preconceito metafísico nessa dicotomia. Onde fica o corpo nessa história toda? Por que nos esquecemos de que a entrada de toda e qualquer sensação se dá por via dele?

É uma questão muito simples. Não há erro em atribuir importância para a razão. É efetivamente por ela que se dá sentido ao conhecimento que se adquire. Mas acontece que a mente pura não existe – ela reside em um corpo como um de seus componentes e não alguma coisa à parte. É tão influenciada por ele, quanto o influencia.

Eu já citei Merleau-Ponty por aqui e vou fazê-lo novamente, por sua abordagem original com relação à participação dos corpos na matriz do conhecimento. A principal crítica do mestre francês se dirige ao pensamento racionalista de Descartes, mas ele detecta que vem desde Platão um certo menosprezo pelo corpo, quando pensamos que é nele que residem os sentidos. O padroeiro grego dizia com todas as letras que o mundo dos sentidos, o mundo corpóreo, era eivado de erros, justamente porque eles eram facilmente enganados por toda sorte de defeito. E é exatamente sob esse signo que o fenomenólogo em tela cria um de seus grandes exemplos de importância da corporeidade.

Platão despreza a arte. Ele o faz porque, para ele, todas as coisas do mundo sensível são meras reproduções imperfeitas dos objetos existentes no racional mundo das ideias. Dessa forma, qualquer paisagem que se possa visualizar nada mais é do que a paisagem obtida através do intelecto na perfeição matemática e geométrica das formulações, e que é plasmada para as formas imperfeitas verificáveis na natureza e com os distúrbios dos sentidos. Ao se reproduzir a paisagem em tela, nada mais se faz do que aumentar o nível de discrepância entre o objeto intelectual e o objeto sensível: uma cópia da cópia. Descartes sacramenta a divisão através da dualidade res cogitans - res extensa, sendo que o corpo é colocado no âmbito da matéria como uma pedra ou um pau qualquer, jogados no caminho. E Ponty se opõe vertiginosamente a essa posição. Para ele, corpo e mente são simbiontes que têm cada um a sua função própria no processo de absorver o mundo. De fato, as reações corporais advindas de qualquer processo de interação com o ambiente são prova de que tal interação é influente no caminho cognitivo, nosso modo pessoal de dar suporte à consciência. Eu sinto raiva, e meus níveis de adrenalina e cortisol são de uma determinada maneira; sinto alegria, e os mesmos hormônios se dosam de maneira diferente. São instâncias corpóreas que influenciam decisivamente na maneira com a qual eu desenvolvo minha percepção, provando que o corpo importa, e muito. Dependendo do meu estado emocional, vejo as coisas de maneiras diferentes.

Em contraposição a Platão, Merleau-Ponty entende que a mão do artista reproduz exatamente aquilo que está na relação entre a mente e o corpo, ou seja, a realidade que a mente do pintor processa ao se defrontar com a paisagem é traduzida pelos seus dedos no trabalho na tela. A obra do pintor é a tradução da consciência que não está além do corpo, e que é traduzida por ele. Como exemplo, ele tenta criar uma relação entre a visão e a reprodução da realidade realizada por Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês que traz uma absoluta originalidade na sua obra.

O grande distintivo da obra de Cézanne é a distorção de perspectivas, levada a cabo pela simplificação das formas. Para um olhar mais descuidado, pode parecer uma falha de técnica, uma inabilidade no trato com os pincéis, mas a existência de obras mais convencionais desfaz essa impressão e nos trazem a pergunta: por que ele está pintando dessa forma?

A questão é a seguinte: se olhamos para um círculo obliquamente, vemos uma elipse. Sabemos se tratar de um círculo, e nossa mente se encarrega de corrigir essa percepção, mas o fato concreto, efetivo e real é que vemos uma elipse, que varia de forma dependendo do ângulo que a captamos. Vejam a obra abaixo, chamada “natureza morta: jarra e frutas em uma mesa” (disponível em https://paul-cezanne.org/Still-Life-Jug-And-Fruits-On-A-Table.html):


Notem que as formas não são precisas como se esperaria de uma reprodução fiel. Há várias referências à esfericidade das frutas, aos pontos de fuga da linha do horizonte e aos paralelismos congruentes, que são todos imprecisos, da mesma forma que é imprecisa nossa sensibilidade voltada para o mundo. O objetivo de Cézanne não é reproduzir os objetos como eles são, mas como ele os percebe.  

Cézanne tinha uma dúvida. Será que sua vocação não era uma mera falsidade, e que sua obra peculiar não era advinda de alguma moléstia visual? Será que todo o seu talento não é originado de um mero acidente da vida? 

Merleau-Ponty entende que a dúvida nada mais é que a confusão para uma ideia que vai além do mero alcance imediato. O que Cézanne faz é deixar aflorar sua percepção, e, a partir dela, traduzir o que seus sentidos apreendem da maneira mais brusca, mais pura. Não se trata de uma obra puramente racional, em que a mente se encarrega de corrigir as distorções dos sentidos, mas com os objetos sendo traduzidos da maneira exata com a qual são apreendidos, nas suas formas mais elementares. É a tradução perfeita de como o corpo, o intermédio dos sentidos, é parte integrante da relação da consciência com o mundo.

Essa questão da distorção, sendo traduzida para nossa vida presente, demonstra como a intuição inicial passa por processos de correção em nossa mente, mas ocorre de pararem no ponto da opinião, e de se ficar sem querer que haja continuidade no mecanismo racional. O problema, muitas vezes, é que nós mesmos não acreditamos muito nas recomendações mais abalizadas, por um simples motivo de… nada. Posição pessoal, em resumo. Muitas vezes influenciadas por opiniões arraigadas, fincadas em convicções apoiadas nas nuvens.

Eu mesmo tinha um exemplo de conduta. Desde 1999 foram iniciadas campanhas de vacina contra a gripe no Brasil. Quando o acesso foi franqueado para a população ampla, fui lá tomar minha dose, ofertada pela prefeitura. Eu passei muito mal, com os piores sintomas possíveis: febre alta, corpo mole, coriza e dor de cabeça. Eu pensei comigo mesmo ter tomado uma vacina PARA gripe, e não CONTRA. Desde então, parei por completo de tomar a dita cuja. Só após a crise da pandemia, convencido pelo conhecimento maior acerca das vacinas e já com a explicação médica de que eu não tinha uma espécie de restrição, mas apenas o efeito de receber uma carga viral muito alta e de cepas variadas, que eu voltei a receber as mesmas.

É aí que colidem conhecimento e opinião. Por mais que uma coincida com a outra, a última tem um estatuto de verdade ainda menor que a primeira. Como assim? Todo conhecimento é o conhecimento que temos no momento atual, podendo ser modificado na medida em que se aprofunda um estudo sobre o tema em questão. Já a opinião é composta mais por carga cultural e convicção pessoal, que, justamente por isso, são mais nossas, e as amamos mais.

Não é incomum que alguém diga que “para mim”, tal coisa é verdadeira ou falsa baseada meramente em convicções. E isso é evidentemente falacioso. A falácia da incredulidade pessoal se baseia na assertiva de que minha opinião é tão válida quanto qualquer teoria científica. Há milhões de cientistas que compõem uma academia (agora no sentido de conhecimento) que guarda tudo o que se pesquisou nos observatórios, laboratórios e nos campos, e uma opinião baseada em qualquer tipo de achismo não tem o mesmo valor. O fato de que eu não acreditei em uma teoria científica não a torna inválida, simplesmente isso. As vacinas continuam a funcionar mesmo que eu creia em algum maluco que diz que há chips sendo injetados em mim.

A incredulidade pessoal dispersa o foco do argumento porque traz um confronto entre realidade cognoscível e mensurável e opinião, uma espécie de lalalalá das crianças frente a qualquer coisa que ela não goste ou não queira ouvir, e, sendo assim infantil, é também irrelevante para um debate levado à sério. 

E entre falácias, pintores em dúvida e gordos na academia vamos entrelaçando nossas realidades com a percepção que temos dela, seja em nossos corpos, seja em nossas mentes. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A Dúvida de Cézanne é um artigo publicado inicialmente na revista da universidade onde Merleau-Ponty lecionava, e que foi parar em diversas coletâneas. Segue uma indicação:

MERLEAU-PONTY, Maurice. A Dúvida de Cézanne. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.



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