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terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre nossos elementos primordiais e a evolução do pensamento filosófico rumo à Ciência

Olá!

É inevitável. A curiosidade infantil sempre leva à pergunta clássica sobre o nascimento dos bebês. Como a cegonha requereu aposentadoria e os repolhos estão estéreis após os pesticidas, a explicação dada aos pimpolhos tem que ser cada vez mais calcadas na realidade. Mas, como bem sabemos, explicar todo o ciclo que leva à gravidez e ao nascimento dá um trabalho imenso para quem ainda não tem um aporte muito significativo de conhecimentos. E então entram em cena aquelas pantomimas que falam sobre como o-papai-começou-a-namorar-a-mamãe-e-então-eles-se-casaram-depois-o-papai-plantou-uma-sementinha-dentro-da-mamãe-que-cresceu-cresceu-cresceu-até-ficar-tão-grande-que-não-cabia-mais-na-barriga-da-mamãe-e-por-isso-precisou-sair-o-papai-levou-a-mamãe-para-o-hospital-e-então-o-médico-puxou-você-para-fora-e-você-nasceu, ou seja, uma bela série de malabarismos didáticos.

Mas não é só isso que desperta a insaciável curiosidade dos nossos queridos fedelhos. A própria humanidade, em sua infância, carregava consigo o ônus de não saber de onde veio, do que eram feitas todas as coisas, porque existiam igualdades e diferenças, entre outras aporias.

Como eu já disse em outros momentos, o homem tinha dois focos nos quais poderiam lançar suas especulações: no universo que o rodeava ou em forças superiores, que eram desconhecidas dele. Esta era a saída mitológica, e a primeira era o que, mais tarde, chamaríamos de Física.

Claro que a mitologia tem mais facilidades. Sua principal arma é a tradição oral, aquelas histórias que se contam de pais para filhos, de patriarcas para aldeães, de sacerdotes para crentes, e assim por diante. Não há o rigor da observação empírica, mas um acúmulo de histórias que buscam, em última instância, uma resposta para a agonia da dúvida. Este tipo de narrativa sobre a origem do universo é o que conhecemos em Filosofia como cosmogonia.

Mas o método mitológico tem seus problemas e dificuldades inerentes. Para que uma explicação minimamente razoável oriunda da mitologia pudesse ser produzida, era preciso não explicar somente a origem do cosmos, já que esta era a parte fácil de explicar – os deuses deram origem a tudo o que existe. Para tanto, era necessário retroceder ainda mais. Era preciso, de alguma forma, narrar a origem dos deuses, que chamamos de Teogonias (theos=deus + gonos=origem). Elas eram muitas, a maioria transmitida oralmente, mas algumas delas se tornaram especialmente célebres, como aquelas escritas por Homero e Hesíodo, que chegaram aos nossos dias. Transcrevo abaixo um pequeno trecho da Teogonia de Hesíodo, descrevendo como todos os deuses brotam do caos, também este devidamente deificado.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Terra primeiro pariu igual a si mesma
Céu constelado, para cercá-la toda ao redor
e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre.

Pariu altas Montanhas, belos abrigos das Deusas
ninfas que moram nas montanhas frondosas.
E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas
o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu
do coito com Céu: Oceano de fundos remoinhos
e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto
e Teia e Réia e Têmis e Memória
e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa.

E após com ótimas armas Crono de curvo pensar,
filho o mais terrível: detestou o florescente pai.
Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração:
Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo
que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio.

Eles no mais eram comparáveis aos Deuses,
único olho bem no meio repousava na fronte.
Ciclopes denominava-os o nome, porque neles
circular olho sozinho repousava na fronte.

Vigor, violência e engenho possuíam na ação.
Outros ainda da Terra e do Céu nasceram,
três filhos enormes, violentos, não nomeáveis.
Cotos, Briareu e Giges, assombrosos filhos.

Deles, eram cem braços que saltavam dos ombros,
improximáveis; cabeças de cada um cinqüenta
brotavam dos ombros, sobre os grossos membros.
Vigor sem limite, poderoso na enorme forma...

Podemos perceber, portanto, que a criação do mundo é dependente da criação dos deuses. Evidentemente, as descrições dos mitos de criação sempre contém mais poesia do que propriamente história. O mito teogônico de Hesíodo é apenas um exemplo, assemelhado com tantos outros, oriundos de tantas outras culturas.

Ocorre que, mesmo com tanta riqueza criativa na construção deste mito, chegou um momento em que o grego antigo olhou para o universo que o rodeava e percebeu que o observável não era a ação destes deuses, mas os próprios fenômenos em si. Não havia um contato direto com as suas divindades, apesar da atribuição de todos os acontecimentos à vontade de um dos deuses. Mesmo não se desvinculando por completo das explicações transcendentes, o grego começou a procurar no próprio universo a sua origem e os seus princípios comuns. Deste modo, a Cosmogonia migrava para a Cosmologia. Não se queria mais entender apenas a origem das coisas, mas entender as coisas em si mesmas, e a partir de si mesmas. Em suma, querem se ver de frente ao real palpável, e não apenas ao suposto.

Mas haveria a possibilidade de se alcançar o real palpável? Talvez não, haja vista às limitações tecnológicas da época, mas desde então se notou que os poucos elementos disponíveis possuíam uma harmonia e uma regularidade que podiam ser vistos como indicativos de uma regra geral. E a partir daí inicia-se a busca por um elemento primordial, presente em tudo o que existe, que justificasse a origem e a composição de cada coisa que há no universo: a arché. E isso tudo se utilizando da melhor ferramenta disponível ao homem: o seu próprio raciocínio, tendo a lógica por estrutura.



Como volta e meia eu volto à questão da arché, achei por bem elaborar um texto onde eu pudesse explanar todas as teorias encontradas no período anterior a Sócrates. Em primeiro lugar, porque é muito interessante verificar como a humanidade sempre procurou saídas inteligentes para suas dúvidas. E depois para que todos nós possamos perceber como o pensamento humano evolui, partindo de teses mais simples, agregando conhecimento e tornando-as mais e mais complexas e plausíveis. Vamos nessa (com paciência, porque o texto ficou longo).

Tales e a água

Tudo começa com Tales, mas já falei dele em duas oportunidades, aqui e aqui, e não o farei de novo, porque senão vão achar que sou tiete. Ou chato de galochas. Portanto, leiam os dois links em questão. Para fins didáticos, vou apenas esclarecer que a arché, para Tales de Mileto, era a água.

De qualquer forma, pincelada rápida: Tales, pela primeira vez registrada, olha para a natureza  para investigar sua própria gênese e dá primazia aos gregos naquilo que concebemos como Filosofia no ocidente. A originalidade dos gregos está na eleição de um objeto a ser estudado, na formação de um conceito e na utilização de um método, ainda que possamos chamá-los de primitivos.

Anaximandro e o apeiron

A segunda proposta introduz pela primeira vez um elemento que não poderia ser percebido a olhos nus. Entra em cena Anaximandro, na mesma cidade grega (hoje turca) de Mileto onde surgiu Tales. Sua proposta supõe que a água, elemento imaginado por Tales, já é uma derivação de algo ainda mais primitivo. A água, por mais elástica que possa ser, e por mais que possa navegar por diversos estados, ainda assim assume uma forma. Ou melhor, é compelida a ter uma forma, ainda que seja a de uma etérea névoa, um transparente e quase invisível vapor.

O princípio fundamental deveria ser outro. Algo que pudesse permear o universo inteiro e adotar qualquer forma, com base nas condições existentes nos diferentes ambientes por onde ele passasse. Algo que pudesse ser encontrado além das fronteiras do nosso conhecimento, já que os elementos existentes no planeta Terra não poderiam representar a totalidade daqueles que estão espalhados por todo o cosmos. Algo que pudesse conter em si todas as oposições dos estados observáveis na natureza, como o quente-frio, mole-duro, seco-úmido, compacto-poroso.

Esse elemento não seria propriamente uma substância, mas teria a capacidade de se transformar em qualquer uma, justamente por sua indefinição de matéria e forma. Era a massa generativa de tudo o que existe. Tudo surge a partir deste mesmo elemento, que – novamente – por sua indefinição, e também por sua infinitude, pode moldar absolutamente qualquer coisa.

Anaximandro chama esse elemento primordial de apeiron, originado da fusão das palavras gregas a (sem) e péiron (limite). Mais tarde, alguns autores identificaram o apeiron com o éter, uma espécie de quinto elemento imperceptível diretamente pelos sentidos, mas esta é uma outra história.

Anaxímenes e o ar

Anaxímenes é outro filósofo da cidade de Mileto que se debruça sobre a questão da arché. Ao que parece, ele acha a proposta de apeiron de Anaximandro radical demais, e até mesmo fantasiosa. Essa crítica de Anaxímenes é compreensível, principalmente quando lembramos que o princípio primeiro da Filosofia era se afastar do substrato mitológico, que a tese de Anaximandro volta a se aproximar, ao atribuir à arché um aspecto infinito e indeterminado. Para ele, já há um elemento que consegue se espraiar para todo o universo, até mesmo onde se crê que ele não exista: é o ar.

De fato, o ar pode se tornar tão rarefeito que acaba por se tornar indetectável, e somos induzidos a acreditar que há vácuo, mas não; o ar está lá presente. Além disso, o ar pode ser percebido, ainda que invisível, pela ação dos ventos, quando se torna uma percepção táctil. Mas, e se o ar estiver parado? É ainda assim possível percebê-lo, pelo aumento ou diminuição da temperatura.

É no processo de rarefação e condensação que o ar forma tudo o que existe. No pensar de Anaxímenes, ao se rarefazer, o ar se aquece e forma o fogo; ao se condensar, esfria e forma a água; aumentando a densidade, teremos a terra e demais elementos sólidos. Em Anaxímenes, portanto, temos pela primeira vez uma dinâmica dos elementos para reger a formação das coisas.

Xenófanes e a terra

Depois disso, temos Xenófanes de Cólofon, que acredita que o elemento fundamental é a terra. A base para seu raciocínio é a inversão da conclusão de Anaxímenes. Não é o ar que se torna mais denso, mas a terra que se torna mais dispersa. É a terra, ao se rarefazer, que forma a água, que, por sua vez, se torna cada vez mais difusa para formar a atmosfera.

Mas por que a rarefação da terra, e não o adensamento do ar? Xenófanes observa que a primazia do elemento sólido se dá pelo fato de que é um meio onde encontramos uma diversidade muito maior de substâncias. É da terra que brotam os vegetais e para onde voltam os animais depois de mortos, e para onde escoa a água da chuva. Mesmo os oceanos, que são muito maiores do que a porção emersa do planeta, têm em seu fundo a mesma terra, ou seja, é o elemento sólido que suporta o meio líquido.

Mas Xenófanes também encontrou outra base importante para sua teoria: a presença de conchas e esqueletos em escavações. Ele não enxergava a formação de seres em pleno ar, mas, ao encontrar esses vestígios de seres ao se aprofundar na terra, podia interpretar que lá eles se encontravam em formação ou em desfazimento.

Heráclito e o fogo

Como não poderia deixar de ser, haveria alguém para determinar o fogo como arché. E esse alguém foi Heráclito, da cidade de Éfeso.

Este cara tem bastante importância para a Filosofia, porque foi um dos primeiros pensadores a abordar a questão da dicotomia entre permanência e mutabilidade das coisas. Heráclito era mobilista, ou seja, sua metafísica previa que todo o universo está em constante devir. Sua frase mais famosa: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, significando que nem o rio nem quem se banha é o mesmo em dois momentos distintos – a água do rio já passou, a pessoa que nele entra já envelheceu, mesmo que só poucos instantes.

Heráclito aperfeiçoa o dinamismo elementar de Anaxímenes, já que sua arché, o fogo, é o elemento essencial não só corpóreo, mas também simbólico da constante transformação universal. O fogo é real palpável quando faz o sólido derreter, o líquido evaporar e o gás evolar pelo infinito. E é simbólico quando brota pequeno, cresce ao ser alimentado e fica pleno até sua força ser minorada, até produzir pouco calor e luz, e até se extinguir, deixando como marca de sua existência apenas os rastros no ambiente por onde viveu.

Pitágoras e o número

Percebam como, pouco a pouco, os filósofos vão tornando suas teses sobre a arché mais e mais sofisticadas, incluindo elementos que não representavam unicamente o cosmos material, rumando para especulações metafísicas. Isso se torna mais perceptível em nossa próxima estação, a cidade de Samos, onde encontraremos um dos mais seminais matemáticos de todos os tempos: Pitágoras.

Devo agora, por uma questão de honestidade intelectual, confessar minha autêntica ojeriza por essa área tão importante do conhecimento, basilar para qualquer ciência que se queira praticar. E reconheço nisso um defeito meu, até mesmo porque admito plenamente o seu valor. E, com isso, reconheço em Pitágoras um gênio. Com pouquíssimos dados à sua disposição, formulou vários teoremas, sendo que o célebre “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos” recebeu seu nome e é um dos postulados básicos da trigonometria. É um dos mais antigos teoremas matemáticos conhecidos.

Pitágoras e seus discípulos tinham o hábito de observar atentamente o mundo prosaico que os rodeava e encontrar correlações que permitissem reduzir os fenômenos a expressões matemáticas. Observavam trajetórias, impactos, pesos e tudo o mais que estivesse à disposição. E, evidentemente, acabaram encontrando muitas dessas correlações. Perceberam que o universo funcionava de maneira harmônica, e dessa harmonia emergiam os cálculos que a explicavam. E concluíram que o número era a essência de todas as coisas.

É óbvio que Pitágoras não achava que ao picar uma coisa qualquer em mil pedacinhos, apareceria, luminoso, o número 1. Ou que de um belo algarismo instalado no centro de um jardim, brotaria, perfumada e espinhuda, uma roseira-branca. Ou ainda que, uma vez aquecido, esse mesmo algarismo purgasse água e depois desaparecesse, transformado em ar. Pitágoras enxerga na harmonia matemática, na articulação calculável e nas engrenagens naturais a essência de todas as coisas, sem criar, para tanto, um elemento físico.

Essa abordagem será de grande valia para que a questão seja vista de maneira cada vez mais científica, desembocando em uma conclusão surpreendente que veremos mais adiante.

Empédocles e as raízes

A próxima concepção é de Empédocles, da cidade de Agrigento, atualmente na Sicília, mas que fazia parte da Magna Grécia à época. Ele traz duas grandes novidades. A primeira, mais evidente e menos importante (como veremos), é a teorização de que a arché não é composta de um único elemento, conforme imaginavam seus antecessores. Pelo contrário, tudo era composto pelos quatro elementos básicos conhecidos – terra, água, ar e fogo. Eles iam misturados em todos os objetos, em diferentes proporções, e a preponderância de um deles dava a característica geral da substância, que eram bastante óbvias: se o elemento era mais rígido, havia uma maior quantidade de terra; se era líquido, o maioral era a água, e via discorrendo. Deu a esses princípios fundamentais o nome de raízes.

A segunda novidade prenunciava as leis de atração e repulsão, muito embora Empédocles atribuísse uma espécie de “valor ético” a seres inanimados. É que nosso profético filósofo sacou que, a partir de quatro raízes, era possível obter infinitas composições, que possibilitariam a obtenção de todos os materiais do universo e a constituição de novos. E o que faria com que estas diferentes raízes se combinassem e se dissolvessem?
Bem, Empédocles propõe uma solução inusitada. Assim como no relacionamento entre os seres vivos, havia entre as raízes forças de atração e repulsão equivalentes ao amor (eros) e ao ódio (neikós). O amor é a força agregadora e atrativa. Faz com que os elementos se aglutinem, ao inverso do que ocorre com o ódio, que separa e fragmenta. Pode parecer esquisito, mas sabemos hoje que, sem os princípios de atração e repulsa, é impossível compreender bobagens como magnetismo, estrutura atômica e gravidade.
Anaxágoras e as homeomerias
Depois vamos visitar Anaxágoras, da hoje turca cidade de Clazômenas, que também traz uma grande novidade. Ele rejeita a multiplicidade de elementos preconizada por Empédocles. Para ele, a multiplicidade existe, mas encerrada em um único elemento, que contém todos os outros. São as homeomerias, que vamos investigar agora.
Anaxágoras observa o seguinte: sem que seja necessário agregar nada, uma pequena semente já contém em si a árvore inteira. Idem com um homem. Um pequeno embrião vai se tornar um homem adulto, talvez um forte guerreiro, talvez um gordo comerciante.
Ou seja, os seres não surgem do nada, como mágica. Seguem um processo de divisão que torna sobejas algumas características e inibidas outras. Isso não se aplica unicamente aos seres vivos, mas aos brutos também. Portanto, a arché seria alguma coisa que se assemelha a uma semente, chamada por Anaxágoras de spérmata (o termo homeomeria consagrou-se por conta da afinidade de Aristóteles com esta tese, e significa alguma coisa semelhante a “partes qualitativamente iguais”). O elemento seminal conteria em si mesmo a totalidade da tipificação da matéria universal, se diferenciando umas das outras pelas partes que seriam ativadas, divididas daquelas que permaneceriam inertes. As frases-mote: “tudo está em tudo” e “em cada coisa há parte de cada coisa”.
Mas havia um princípio cósmico transcendente que explicava o que fazia uma homeomeria se transformar em uma determinada coisa, e não em outra qualquer. Anaxágoras enxergava outro princípio fundamental, que determinava qual de cada componente da homeomeria prevaleceria sobre os demais. Ele não se desvencilha de atribuir a este princípio ordenador uma certa divindade. Era o nous.
A característica divinizante do nous era que essa inteligência ordenadora estava apartada das coisas, sendo sua integradora, mas não integrante. É ela que fez o universo girar e que reconheceu as necessidades de aglutinação e separação dos seus fundamentos, sendo externa a eles, para que pudesse se dar conta da harmonia do seu funcionamento.
Demócrito e o átomo (Pobre Lêucipo, todo mundo esquece-se dele)
E assim chegamos à nossa estação final. Vamos falar de Lêucipo de Mileto e de seu discípulo mais ilustre, Demócrito de Abdera. Com eles, teremos a primeira tentativa de explicar o universo de maneira puramente mecanicista, sem nenhum tipo de intervenção de divindades ou entidades metafísicas.
Desde muito tempo, o homem percebeu que os objetos de seu ambiente podiam ser reduzidos a partes cada vez menores. Uma rocha pode ser fragmentada até se transformar em areia, e que dos seus grãos poderia ser obtida uma divisão ainda maior, o que somente não era possível conseguir por causa de falta de meios. Mas é fato que essa redução era possível, até o limite da percepção.
Qual era o limite desta divisão? Até onde era possível chegar sem que a matéria se descaracterizasse? Demócrito imaginou que, quando esse limite fosse atingido, não mais haveria como tornar a matéria ainda menor. Este limite de divisibilidade da matéria era o átomo. Essa palavra grega é composta pelas partículas a (sem) e tomos (divisão).
A grande modificação em relação às raízes de Empédocles e à homeomeria de Anaxágoras era que, agora, as partículas que compõem o universo são indiferenciáveis entre si. Um átomo de água não é diferente de outro átomo de água, e nada há nele além do elemento que representa. Claro que o conceito de molécula era ainda inalcançável, mas Demócrito previu que eles teriam combinações possíveis entre si. Isso porque nosso risonho amigo pensava que o número de tipos de átomos era bastante pequeno, se comparado com o total de elementos perceptíveis no cosmos. O que fazia com que suas características fossem distintas era uma descoberta ainda mais surpreendente: os átomos tinham espaçamentos entre si, que não era preenchido por absolutamente nada. Era o vácuo.
Como não havia nenhum princípio ordenador nas teses de Lêucipo e Demócrito, tudo era formado ocasionalmente. É meramente o encontro mecânico dos átomos que produzia a ordem do universo.
Então vamos ver:
1. O mundo é composto por minúsculas partículas espalhadas por toda a parte;
2. Os átomos possuem movimento;
3. Os átomos existentes são poucos, mas suas combinações são infinitas;
4. O espaço entre os átomos é preenchido de vácuo;
5. Nada mais há do que átomos e vácuo;
6. Todas as coisas se diferenciam por conta do arranjo e disposição dos átomos que as compõem;
7. Os átomos são indivisíveis. Claro que Demócrito não previu que o átomo era particionado, ele não tinha nenhum recurso para isso, mas é preciso lembrar que não essencialmente erro nessa assertiva. Um átomo somente pode ser dividido, pelo que se conhece hoje, por fusão ou fissão, o que o destrói.
Lembrando que a construção deste conceito nasceu unicamente pela via filosófica, dá para perceber o quanto esse modelo estava correto. Pena que os maiores nomes da Filosofia Antiga, Platão e Aristóteles, não compraram essa ideia. O mesmo se aplica à Filosofia Medieval, que já dava por suficiente a explicação teológica da origem do cosmos. Por conta disso, a ideia do átomo ficou adormecida por muitos séculos, até que os alquimistas, atraídos pela possibilidade de transmutar um elemento em outro, voltaram a investigar as teses que previam a unicidade dos materiais. Mas só deslanchou mesmo com John Dalton, no século XIX. Lêucipo e Demócrito mataram a charada.
Parmênides e o Ser
È finito? Sim, mas eu ainda gostaria de fazer uma observação sobre Parmênides, o pai da permanência, do Ser infinito e imutável. Ele não discorreu fundamentalmente sobre uma arché, mas o filósofo da ciência Karl Popper percebeu que as características atribuídas ao Ser, como a redução imutável à essência daquilo que existe, e a impossibilidade de atribuir qualitativos àquilo que não existe, ou seja, da imutabilidade do Ser, em clara oposição ao mobilismo de Heráclito, faz com que vejamos uma mesma intenção, agora metafísica, de explicar a origem e a causa do universo.
O Ser é o que é, sentença estranha. Mas isso quer dizer que, livre de todos os fenômenos e aparências, que fazem com que ele seja colocado como algo mutável aos nossos olhos, não teremos nada do que o Ser não é. E, com isso, atingimos sua essência e, de certa forma, sua arché.
Não há dúvidas de que voltarei com mais rigor a este tema em especial, mas não queria deixar passar batido. O mais importante de todo esse caminho que tracei é perceber o rumo que a Filosofia tomou, e a percepção de como o conhecimento é colaborativo. Um pensador não jogou fora o conhecimento obtido por outro apenas por não concordar com ele. Pelo contrário, o pensamento de um deu base ao outro, mesmo que por oposição. E o exemplo da arché demonstra como se transita da Filosofia para a Ciência. A primeira especula até que a segunda acha. Esse é o mundo do pensamento.
Chega! Já tá muito longo. Obrigado pela paciência.

Recomendação de leitura:

Todo manual de Filosofia que se preze fala sobre a questão da arché. Por isso, vou preferir indicar a versão completa do texto de Hesíodo mencionado no começo do post. É meio pesadinho, mas não deixa de ser interessante, em especial porque é um testemunho do sistema que buscava dar sentido ao mundo antes que partíssemos para a aventura do conhecimento racional.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Cartas náuticas para marinheiros de terra firme - 3º relato: Estiva Gerbi e os caminhos religiosos frente à evolução científica

Olá!


Continuemos. Saímos de Águas da Prata no dia seguinte à nossa visita a Poços de Caldas. De lá, tomamos rumo à segunda parte de nossa jornada, procurando o caminho que levaria ao Circuito das Águas, região paulista plena de cidades onde o principal atrativo é a exuberância na disponibilidade de água mineral. Como tem sido costume em nossos périplos, não tínhamos certeza ainda se começaríamos pelo começo ou pelo final, mas nossa tendência era sair em Águas de Lindoia e descer o mapa na direção de Socorro. Antes disso, achamos por bem comer algo pelo caminho. Juntamos a literal fome com a vontade de comer e passamos pela pequena cidade de Estiva Gerbi, cuja principal fama é a existência de um santuário dedicado à Nossa Senhora da Rosa Mística, dos quais existem vários espalhados pelo Brasil, e cuja devoção se popularizou entre as décadas de 80 e 90.

Quando se pega a estrada vicinal que sai da Rodovia Adhemar de Barros e ruma-se para o centro urbano da cidade, uma das primeiras coisas que se veem digna de nota é o pórtico de entrada do santuário, com uma aparência algo curiosa.



Algumas referências são evidentes, como o formato triangular que remete a um manto e às rosas de três cores: uma branca, uma vermelha e outra amarela, como é facilmente visível no alto do portal:


Logo sob esta construção, existe algo semelhante a uma portaria, mas que, na verdade, se trata de um pequeno oratório, onde há torneiras para água benta (secas no dia) e lugares para sentar e fazer as preces que o caboclo julgar necessárias. Não havia ninguém por lá.


Também lá dentro, havia uma reprodução da famosa imagem, logo defronte aos dois ou três banquinhos, meio que protegida por uma redoma de plástico, com várias plantas e a expressa proibição de acender velas. Imagino que tal imagem se presta aos viajantes que por lá vão de passagem.


A mesma formatação do pórtico se repete para quem está no interior do terreno do santuário, olhando da parte baixa para frente.


É uma estrutura interessante, formada por cinco seções triangulares que se emendam uma na outra através de traves laterais em forma de escada, e que estão solidamente fixadas no chão com um esquema de aparafusamento. A mim, pareceram ser feitas de algum metal sólido, mas como não apresentava sinais de corrosão, não consegui fazer a mínima determinação de que material a compunha. Nos vãos entre cada uma das seções, há um banco de concreto para tomar um solzinho (maroto naquele dia específico, apesar de janeiro).


Na frente deste pórtico, existe uma pequena praça verde, com a colocação de alguns anjos e uma imagem do Cristo Redentor, infalível nessas cidades do interior. O jardim era, sem dúvida, o que havia de mais belo naquele local, ao menos naquele dia.


Mas o mais curioso era o quanto o local estava deserto. Não havia viv’alma no pedaço!!! Na parte abaixo do terreno, há uma espécie de cobertura de quadra, em formato de concha, que abriga uma boa centena de cadeiras e um palco, onde se arma o altar. Claramente as missas do lugar são rezadas lá.


Com tal ausência de gente, a curiosidade ficou atiçada. Onde estaria todo mundo? Por que uma imagem tão famosa não se encontrava em seu santuário? Etc, etc e etc?

O negócio era procurar a área urbana da cidade para caçar algumas informações. E o que encontramos foi uma cidade muuuuuuuuito pacata, bem quieta mesmo. Pelas ruas e pelas praças, bem pouca gente.


Paramos aqui e ali pelo comércio local, em busca de algumas notícias, que, finalmente foram obviamente encontradas na Igreja de São José, onde, aliás, foi possível comprar uma bem boa paçoca caseira.


Lá dentro, encontrei a Leonice. E através dela fiquei sabendo que a imagem é peregrina, voltando poucas vezes durante o ano para as festividades principais, daí a total ausência de movimento no santuário, privado de sua principal atração. Também fiquei sabendo outras coisas, como os porquês que levaram a esta devoção em especial. No caso, uma série de aparições ocorridas do meio para o fim do século XX, nas cidades italianas de Montichiari e Fontanelle. Diz-se que a santa apareceu a uma fiel pela primeira vez com três espadas cravadas no peito. Santa Maria chorava e dizia, suave e enigmaticamente, três palavras: oração, penitência e reparação. Algum tempo depois, no mesmo lugar onde as espadas estavam penetrando no peito da santa, surgem três rosas, nas mesmas cores e sequência que mencionei acima: branca (cor-símbolo da oração), vermelha (sacrifício) e dourada (penitência), como que informando aos fiéis as bases para a salvação do mundo. A partir daí, uma série de novas aparições foram relatadas por toda a extensão do mundo católico, inclusive no Brasil. Não é ainda uma devoção oficialmente reconhecida pela Igreja, mas bastante disseminada pelo corpo dos devotos.

E assim, diante dos meus olhos, vejo surgir uma nova tradição para quem os homens vão se dirigir em seus momentos de desespero. E começo a pensar nos motivos que levam a essas contínuas gêneses: novos santos, novas devoções, novas religiões. Por que surgem ainda, e por que proliferam, em um mundo que já não benze as feridas, preferindo passar-lhes um unguento?

Bom, para ajudar a entender como a história se movimenta dos vodus pré-históricos para a cristalização em ausência de gravidade, vou buscar em minha estante um livro sobre Auguste Comte, pai da Sociologia e do Positivismo. Depois disso, já mais interessado, busco a obra do próprio.

Comte vive em um tempo no qual a Idade Média já ia longínqua, em que o Iluminismo já havia trazido uma explosão de ideias e ideais e que a Revolução Francesa já havia tratado de derrubar reis e convicções. Para o bem e para o mal, o mundo se apresentava como algo totalmente novo – um novo pensamento que, desamarrado das estruturas religiosas que guiaram seus passos até então, fazia vislumbrar o futuro pelas lentes da Ciência.

É neste clima que Comte desenvolve suas teses. Ele vislumbrou uma Filosofia da História que, por final, desembocou em novos paradigmas epistemológicos, como poderemos observar. Vamos lá.

No princípio da humanidade, o homem, dono da faculdade da razão, mas ainda com aporte de conhecimentos reduzido, começou a observar vários fenômenos para os quais não conseguia explicação – o surgimento dos brotos na terra, dos fungos na umidade, das doenças e das curas, além de eventos fantásticos, como as avalanches, os grandes temporais, os cometas e eclipses. Começa a perceber que a vida não se limita a si mesmo, aos animais e às plantas que o cercam, e passa a atribuir uma anima a tudo o que está ao alcance do seu olhar. Para que se sele um pacto entre ele e esse mundo, que tanto pode lhe auxiliar como lhe matar, o homem passa a lhe render culto, a agradar essas entidades de alguma forma, aos objetos e astros dos quais acredita restar dignidade desse seu esforço. E, nesse comportamento associativo, nasce o fetichismo.

Com o passar do tempo, o ser humano percebe que nem sempre seus ritos são eficientes para atrair ou afastar a atenção de seus fetiches. Não é toda dança que traz chuva, não é todo amuleto que afasta azar. O homem passa a entender que, por trás dos fenômenos e irregularidades da natureza, há uma vontade superior que os conduz. A sapiência não está no objeto, mas em alguma coisa externa a ele. E, desta forma, nascem as divindades. Há um deus que cuida dos ciclos das colheitas, outro que orienta as marés e correntes oceânicas, outro ainda que indica a força e a direção dos ventos, e mesmo há aqueles que regem as relações humanas: deuses do sexo, do medo, do comércio. É o politeísmo.

Esse politeísmo persiste até que surja a percepção de que, mesmo que a princípio não pareça, o universo tem regularidade e equilíbrio: os ciclos de verão e inverno se repetem, as auroras surgem sempre na mesma época, as estrelas sempre se repetem no mesmo lugar, e mesmo aquelas que se movem (os demais planetas) seguem sempre a mesma rota. O universo existe em um totus, e a existência de vários deuses, em permanente conflito, passa a não ser mais uma explicação satisfatória, e, com isso, chegamos ao monoteísmo. Uma vontade universal unificada explicaria a mecânica dos ciclos, e sua ira era a causa de suas quebras.

Essas três fases – o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo – compõem o que Comte chamou de estágio teológico da história humana.

Na continuação do estudo desta evolução da História, Comte entende que o eixo da busca do conhecimento sai das causas que regem o universo e vai para o sentido da existência. Se o homem perguntava o que dava causa às coisas, agora questiona por que as coisas são como são. Desloca-se do estudo da causa para a consequência, e, nesse movimento, já não são mais os deuses que importam, mas entidades abstratas que representam os valores humanos. Dessa forma, se uma pedra cai na cabeça de alguém e o mata, já não é mais uma vontade divina e ponto final. Aqui, questionamos o que é a morte, seu valor como distintivo do final do ciclo da vida; questionamos o próprio valor da vida que se perde. Os valores são personificados: a Vida, a Morte, o Amor, a Justiça. O conhecimento perde em crença, ganha em ética.

Esta é a etapa metafísica da História, aquela que observa além do cosmos, já não recorrendo a deuses, mas ainda sem olhar para o próprio mundo na caça do saber. E, para Comte, portanto, essa é ainda uma fase da qual é preciso evoluir. É preciso alcançar o Positivismo, o estágio da História onde a análise é voltada para o real concreto.

Para explicar o termo, vou lançar mão de um recurso que não estava disponível ao filósofo em questão, mas que é didático o suficiente. Imagine uma fotografia qualquer, mas não das atuais, feitas com câmeras digitais. Imagine uma fotografia daquelas tiradas em rolos de filme (se você não tem idade suficiente, peça uma para pais ou avós, que com certeza têm). A foto que consta do rolo não possui correspondência direta com a realidade. Suas cores são diferentes dos objetos, que são mui dificilmente identificáveis. Destas fotos, que chamamos de negativos, podemos ter uma ideia de como são os objetos retratados, mas não os temos nítidos. Segundo Comte, os estágios teológico e metafísico são negativos, pelo mesmo motivo.

Já a fotografia revelada, em oposição ao negativo, é clara, evidente, nítida. Sabemos com precisão o que há à nossa frente e podemos analisá-lo pela sua própria imagem. É o positivo da foto, o afirmativo.

O estágio positivo, portanto, não mais se ocupa do “o que” teológico ou do “por que” metafísico. A sua preposição símbolo é o como. Como se cura uma doença? Como se formou o universo? Como produzir mais e melhor? A base da sociedade positivista não é mais a Religião nem a Filosofia; é a Ciência e a sua derivação prática, a Tecnologia.

O que assegura um destino mais auspicioso para a humanidade é o pensamento científico, o que fez Comte deduzir que conhecimentos outrora especulativos deveriam fazer uso da mesma metodologia utilizada pelas Ciências em geral, e, assim, tornarem-se eles mesmos novas Ciências. E é desta forma que surge a Sociologia.

Comte tinha para si que os fatos e as relações sociais obedeciam a algum tipo de mecânica que poderiam ser redutíveis a observações e experimentos, de forma que deles pudessem ser extraídos leis e postulados. Aliás, Comte supunha que a Sociologia era uma Ciência de altíssima complexidade, que dependia de todas as demais para produzir suas conclusões. Aliás, Comte hierarquizava as Ciências, e colocava a Sociologia no topo de uma escada alegórica. Na base, a Matemática, seguida pela Astronomia, a Física, a Química, a Biologia e a Sociologia, sendo que mais adiante foi acrescida a Moral.

Pois muitíssimo bem. Comte propõe um mundo em que as Ciências devem ter a primazia no desenvolvimento da intelectualidade humana, e que o estágio positivista é a resposta adequada para seu futuro. Mas qual é a posição que a Religião pode ou deve se colocar diante do papel terciário em que foi colocada?

Em primeiríssimo lugar, é preciso ter em mente que o pensamento comteano é plenamente contestável, como qualquer outro. O que não há como negar é que ele tinha razão quando preconizou a predominância científica em relação à Religião. Quem tem dor de cabeça prefere tomar uma Aspirina no lugar de água benta, basta ver. Portanto, o papel da Religião como pensamento para a physis do mundo está superado. E o seu olhar deve se voltar para aquilo que é sua essência, a fé. Todas as vezes em que a Religião tentar competir com a Ciência na esfera da dedução experimental, vai tomar de goleada.

Quando lida com questões de fé, a Religião ganha “direitos” em relação à Ciência que, tendo necessidade de provas e evidências empíricas, não consegue se valer. A Religião recebe um poder especulativo que, para a Ciência, está limitado à sua capacidade de se movimentar dentro de seus próprios métodos. Nesse sentido, a Religião, assim como a Filosofia e a Arte, goza de maior liberdade. Enfiar a Religião no método científico mata-a por sufocamento. Se colocarmos a Ciência em uma metodologia de pesquisa religiosa, o acidente também se consuma: teríamos a volta da astrologia e da alquimia, a consolidação do criacionismo como alternativa científica à teoria do evolucionismo, e também da ressurreição de outras áreas “científicas” que já foram definitivamente descartadas.

Só que, evidentemente, há uma presença maciça da Ciência e da Tecnologia em nosso quotidiano, progressivamente cada vez maior. Essa predominância leva a Religião a fazer uma busca permanente de novos objetos que reforcem a fé das pessoas, sua matéria-prima. E assim surgem testemunhos pessoais de milagres, o que é muito forte em religiões de origem protestante, mais especificamente aos evangélicos neopentecostais, tão em voga no Brasil; surgem novas derivações, vertentes e seitas em toda e qualquer religião existente no mundo; surgem novos líderes, com uma nova retórica, mais próxima do linguajar científico, como é o caso do Espiritismo e da Cientologia. E, finalmente, surgem dentro do Catolicismo essas novas manifestações de fé – imagens que choram, santos que mandam mensagens, milagres eucarísticos. São vários, como é o caso deste santuário que motiva a existência desta pequena e pobre cidade. Não é pouca coisa. Basta lembrar que a imensa maioria das pessoas no mundo inteiro ainda possui algum tipo de relação com a transcendência, e estas manifestações são tremendamente significativas para elas.

Recomendação de leitura:

Comte faz uma síntese completa de suas ideias em um livro na forma de um curso, que indico logo abaixo. Voltarei a este filósofo logo em breve, para tratar de sua concepção de sociedade, que é bastante polêmica e atual.

COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Col. Os Pensadores.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Pequeno guia das grandes falácias - 14º tomo - O declive escorregadio (bola de neve)

Olá!


Quando eu era pequeno, achei na caixa de correio da minha casa (que nada mais era que a lateral do portão, onde o carteiro encaixava as correspondências devidamente dobradas) um papel sulfite xerocado, onde uma estranha história era contada. Tratava-se de uma pequena cantilena que falava sobre umas orações milagrosas que deveriam chegar ao mundo inteiro. O mecanismo utilizado para falar desta estranha evangelização era reproduzir o mesmíssimo texto e espalhá-lo o mais possível, com uma quantidade mínima que não tenho como lembrar. Evidentemente, estas orações estavam transcritas no tal papel, seguidas pela descrição das graças recebidas pelas pessoas que davam seguimento a tal tarefa, bem como as desgraças ocorridas com aqueles que lhe davam as costas, com morte de filhos e quedas de avião. Estava eu diante de minha primeira corrente, tão comum hoje nestes tempos de internet.

Fiquei um pouco impressionado, mas o bom senso de minha mãe, aliado a uma preguiça atávica, fizeram-me entrar na turma dos candidatos à miséria, o que não acabou ocorrendo, para meu gáudio. Mas descrevi esta pequena historinha setentista para demonstrar que não há nenhuma novidade nestas obras da maldade humana tão frequente hodiernamente, já que, acredite-se, há MUITA gente que ainda perde seu precioso tempo com isso.

Há uma destas, em voga, que me chamou um pouco de atenção, haja vista a combinação esdrúxula de componentes atuais. Vamos a ela.

Sabe-se da fama do pastor Silas Malafaia, e sabe-se também do seu estilo... digamos... histérico de proclamar suas convicções. Mas esse estilo favorece a utilização do seu nome neste tipo de boato. Ele não tem nada a ver com a conversa, como, de resto, toda a notícia é falsa. Acontece que tem gente a quem falta duas coisas: espírito crítico e trabalho. E, por via da alienação ou da maldade, cria esses factoides e espalha-os por aí, elevados à enésima potência com os atuais recursos cibernéticos. Os espíritos mais pobres acreditam e espalham a conversa mole pelo universo todo. O nome do Malafaia foi colocado apenas para dar credibilidade (?!) à notícia. E, além da mentira em si, temos um belíssimo exemplo de declive escorregadio (a falácia da vez) neste exemplar. Vamos com calma para entender.

O hoax diz que o precitado pastor utilizaria seu programa de TV para trazer uma informação bombástica: o governo brasileiro aprovou a implantação de chips no corpo das pessoas para monitorá-las em todas as suas ações, incluindo tudo aquilo que compra, todos os lugares por onde anda e outras vigilâncias mais. Segundo o boato, o pastor diria que isso nada mais é do que o cumprimento da profecia bíblica da besta, que faria com que o homem carregasse em seu corpo a sua marca e seu número, o famigerado e tão mal afamado 666.

(Abrindo parênteses. Esta história está descrita na Bíblia, no livro do Apocalipse, o mais tortuoso e carregado de simbologia de todos. Conforme está descrito em seu capítulo 13...

“15 Foi-lhe dado, também, comunicar espírito à imagem da Fera, de modo que essa imagem se pusesse a falar e fizesse com que fosse morto todo aquele que não se prostrasse diante dela. 16 Conseguiu que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, tivessem um sinal na mão direita e na fronte, 17 e que ninguém pudesse comprar ou vender, se não fosse marcado com o nome da Fera, ou o número do seu nome. 18 Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da Fera, porque é número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis”...

Já se falou de tudo sobre este conjunto de versículos e sobre quem seria a tal da besta. Já se disse que era o imperador Nero, que era um país como a União Soviética, que era um dos papas, obviamente sem se chegar a conclusão nenhuma).

Para dar algum tipo de veracidade, há um vídeo acoplado onde a presidente Dilma anuncia a intenção do governo em promover a unificação de todos os documentos do cidadão em um só, um smart card que dispensaria todos os demais. Uma pessoa com algum senso crítico diria: “Tá, e daí?”.

E daí que esse é o ponto de onde despenca a bola de neve. Segundo o texto este seria o PRIMEIRO PASSO para a implantação de uma nova ordem mundial, algo previsto na Bíblia, e que o chip seria o sinal da besta preconizado no Apocalipse. Bom, não preciso dizer a sucessão de desgraças que está prevista em tal escrito, mas perceba como se cai na ladeira e não se tem onde segurar.


Escorregou, lá se vai ladeira abaixo...

E assim nasce o nome desta falácia, o “declive escorregadio”. Também é chamado de “bola de neve”, por motivos óbvios, como se verá. Vamos ver como nasce este nome.

Só quem já levou um tombo na ladeira vai entender o que eu vou falar. Está cada vez mais rara a existência de ruas calçadas por paralelepípedos, nossas queridas pedronas que nos acordavam assustados quando o ônibus deixava o asfalto. Foram substituídas quase todas pela pavimentação asfáltica, mais eficiente e fácil de aplicar e manter. Esse processo de substituição do macadame vem se dando paulatinamente desde meados do século passado, mas as ruas que mais necessitavam desta substituição foram as que mais demoraram a recebê-la. São as ladeiras.

Isso tudo porque havia uma dificuldade técnica em aplicar asfalto nos declives (ou aclive, se você estiver subindo). Como se sabe, o asfalto é aquecido até derreter, formando um líquido de alta viscosidade misturado com brita. Quando é derramado em uma superfície plana, amolda-se ao perfil até secar, ficando suficientemente liso prá você correr macio, como zune um novo sedan. 

O processo funciona bem também nas inclinações leves, porque a secagem é relativamente rápida. Nas moderadas, a aplicação precisa ser feita de modo mais lento e em faixas menores, mas ainda assim é factível. Só que nos declives verdadeiramente fortes, havia um problema sério. O asfalto, ainda quente e mesmo espesso, tendia a escorrer para a parte baixa da rua, formando grandes calombos, além de frisar por completo a já incômoda parte alta, fazendo as nada agradáveis “costelas de vaca”. Isso não era somente um problema para o leito carroçável, mas também causava grandes transtornos nas chuvas - formavam-se belas poças e, pior ainda: como no processo de pavimentação acabava escorrendo asfalto para dentro das bocas de lobo, estas ficavam com suas manilhas reduzidas; às vezes, selando-as por completo. É convite certo para pequenas (ou grandes) inundações. Diante do cenário trágico, melhor deixar as coisas como estavam. Claro que a tecnologia evoluiu e hoje é plenamente possível asfaltar ladeiras, tão frequentes cá nos campos de Piratininga.

Acontece que o paralelepípedo é lisinho, lisinho... A ladeira é inclinada e a chuva faz tudo ficar devidamente escorregadio. Nosso destino é morro abaixo e estamos de chinelo... Na primeira falseada, lá se vai de tobogã até a base do acidente geográfico, agora em duplo sentido. Garantia de hematomas em braços, pernas e regiões menos votadas, com a possibilidade de galos e alguma fratura em costela de menor importância.

É mesmo parecido com uma avalanche: nada segura e vai engolindo tudo pelo caminho. Veja que o mesmo acontece com a falácia. A partir de um evento qualquer, uma série de consequências catastróficas vai se sucedendo, até o colapso final. O problema todo é que a escorregada, quando o argumento é falacioso, não tem concatenação lógica com a conclusão. No nosso caso, a criação de um registro único (ou cadastro único, para os mais espirituosos) é sinal de que vão se desencadear as previsões bíblicas, o que não tem como ser provado. Falta descrever como se dará a tradição lógica de um passo para o outro. Tudo o que temos é o pseudodepoimento do pastor: “Cuidado com o PT (N. do A.: que surpresa!). Primeiro engana dizendo que é somente no cartão e depois a obrigação da implantação na pele e quem não perceber que está entrando numa estrada sem volta vai ser enganado com uma ordem do governo mundial previsto na bíblia”. Sic.

Pois bem. Declives escorregadios são bastante comuns e muitas vezes difíceis de perceber. Em geral, segue-se a lógica de aglutinar uma montanha de argumentos, para que seja pouco possível perceber onde está o erro. Na maioria das vezes, isso acontece engolindo algum passo. Existe uma trovinha de bêbados que diz o seguinte:

“Quem bebe, vai para o céu”.

Claro que é uma brincadeira, mas a amarração da lógica omite a seguinte sequência:

“Quem bebe, sente sono
Quem sente sono, dorme
Quem dorme, não peca
Quem não peca, vai para o céu”.

É um exemplo banal, mas que serve para explicar bem como funciona o processo de escorregar no declive: são consideradas apenas a primeira e a última observação, e o salto direto de uma para a outra faz nascer uma “verdade” não explicada. É a mesmíssima coisa que ocorre no exemplo da corrente. Há um fato, que é a criação do RU (ou outra sigla, como queiram) e a consequente vinda do capeta para perturbar nossas tão justas e solidárias sociedades, sem que se demonstre seu encadeamento lógico. Tudo o que deve ser feito é medrar e não obedecer às hostes diabólicas.

Outro exemplo, vindo diretamente dos debates presidenciais do ano passado. Para quem bem lembra, havia uma rusga especialmente quente entre Levy Fidelix, candidato conservador, e Luciana Genro, de posição à esquerda. Entre as trocas de farpas relacionadas ao tema homossexualidade, nosso caro amigo se saiu com essa:

“Luciana, você já imaginou? O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir para 100 (milhões)”.

Isso para dizer as consequências do casamento entre homossexuais. Mais uma vez, temos um ponto escorregadio. Em primeiro lugar, é preciso demonstrar porque a diminuição da população é um mal em si mesmo, já que tal condição está claramente colocada na frase. Depois, o fato de existir o casamento entre homossexuais não fará com que tal fato, a redução populacional, surja do nada. Os homossexuais já existem, sem gerar filhos. É preciso verificar se mudar seu estado civil estimulará a tal ponto a ausência de procriação que fará com que a população caia pela metade. A mim, parece que não. Mas se há argumentos, que eles sejam expostos e colocados ao senso crítico.

Não há declive escorregadio não falacioso propriamente dito, já que, para que ele ocorra, é preciso que haja problemas na amarração lógica em um momento da construção do argumento. Mas isso não significa que longos argumentos logicamente bem construídos não possam indicar situações extremas. Neste caso, temos um argumento longo (o que às vezes é desejável e necessário), e não um declive escorregadio.

E, para concluir, voltando à questão do chip, há muitas expectativas promissoras quanto à sua utilização no campo médico. Ele poderá ser usado em várias moléstias, permitindo ao médico, por exemplo, dosar remotamente medicamentos de uso contínuo, necessários ao controle da pressão arterial, a doenças nervosas e cardíacas. Também poderá ser utilizado para constatar alterações significativas que demandem intervenção farmacêutica, internação hospitalar ou realização de exames. Poderá regular quantidades e horários de liberação de medicamentos para os esquecidinhos, bem como substituir as inconvenientes picadas diárias de insulina, hormônios ou de medicamentos para osteoporose. Não me parece coisa do diabo, só tecnologia. E quem dá crédito a esse tipo de baboseira vai se privar dessas benesses. Sinta o tamanho da irresponsabilidade de quem as profere e espalha...

Vou falar bem a verdade: se alguém me demonstrar que a implantação de um chip fará com que eu não precise mais ficar me medicando contra a diabetes, fazendo com que eu possa viver como se não tivesse a doença, pode implantá-lo agora mesmo. Demorou até.

Recomendação de leitura:

O livro que eu vou recomendar é excelente. Trata-se de uma coletânea de contos que versa sobre o absurdo das atitudes humanas, contrastando a realidade com o fantástico. Usa muito do surrealismo para analisar o insólito do comportamento humano. Destaque especial para o conto “O homem que espalhou o deserto”, um belo exemplo poético de uso do declive escorregadio. No caso, muito apropriado.

BRANDÃO. Ignácio de Loyola. Cadeiras Proibidas. Rio de Janeiro: Codecri, 1979.

Agradeço à Jazz por emprestar os pés para este texto. A ladeira eu não sei onde é.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pequeno guia das grandes falácias - 13º tomo - A falsa dicotomia

Olá!


Bom ou mau. Esquerda ou direita. Destro ou canhoto. Coxinha ou petralha. Vivo ou morto. Real ou imaginário. Verdadeiro ou falso. Bonito ou feio. Covarde ou corajoso. Comportado ou arreliento. Comum ou raro. Focado ou disperso. Macho ou bicha. Homem ou mulher. Emotivo ou razoável. Rápido ou lento. Forasteiro ou conterrâneo. Novo ou velho. Agudo ou grave. Anjo ou demônio. Gentil ou hostil. Doce ou salgado. Elegante ou cafona. Junto ou separado. Amor ou ódio. Presença ou ausência. Bruto ou lapidado. Grande ou pequeno. Calmo ou feroz. Ativo ou passivo. Preto ou branco. Branco ou preto.


Pensando em branco e preto...

... ou em preto e branco.

Uma das coisas mais importantes que aprendemos nas matérias voltadas à didática na faculdade é o quanto é importante analisar as coisas em seus mais amplos aspectos. Basta que se veja o quanto os diferentes temas vão variando através do tempo. Pegue-se, por exemplo, o caso da concepção do homem. Já fomos seres duais (corpo-alma), já fomos um animal como outro qualquer, já fomos a joia da criação, já fomos nós mesmos parte do divino, já fomos materialistas, já fomos existencialistas e muitas coisas mais, sem que nenhuma dessas variantes tenha sido plenamente invalidada.

Questões nascem para serem colocadas dialeticamente, ou seja, em sucessões de teses e antíteses. E a cada degrau que se sobe, novos aspectos até então impensados vem à tona. Por mais que se queira lutar contra, nunca existe resposta única (sobre a dialética hegeliana, ler este texto).

Com isso temos que, conforme diz o bom senso, devemos sempre observar os dois lados de uma questão. Isso obviamente está certo, concordam?

Não, errado.

Esse é um dos grandes problemas do senso comum. Uma questão não pode ser vista unilateralmente, mas também não pode ser colocada como uma dicotomia sempre. Uma questão pode ter um terceiro, quarto, quinto, milésimo, infinitos lados. E quem insiste em reduzir todas as questões entre bons e maus, claros e escuros, nós e eles, é chamado de maniqueísta. E de onde vem este termo?

Vem de Maniqueísmo, uma religião que surgiu no Império Sassânida (antiga Pérsia, atual Irã), pelas mãos do filósofo Mani, também chamado de Manes ou Maniqueu, por volta do século III d. C. Sua filosofia de fundo é um forte dualismo: há um princípio do bem, genericamente chamado de Luz, e um do mal, denominado Trevas, que se espraiam para todos os aspectos da existência universal e humana. Daí que somos colocados diante de tudo com uma perspectiva de divisão entre o bem e o mal. Sendo tudo impregnado por um ou por outro, cada coisa e ato são bons ou ruins. A matéria vem das Trevas, portanto é ruim; o espírito vem da luz, portanto é bom. Cada ação que busca aperfeiçoamento é originada da Luz, portanto é boa; cada uma que denigre vem das trevas, portanto é má. Sempre será necessário, nesta lógica, atribuir um valor positivo ou negativo a cada um dos elementos existentes no universo.

Esta religião e filosofia foram perpassadas por muitas influências. Reúne elementos do Zoroastrismo, religião predominante na Pérsia antiga, com uma série de características pertencentes ao Budismo, ao Hinduísmo e ao Cristianismo. As divindades de cada uma destas religiões eram levadas em conta como “pais da justiça”, que tinham sua síntese perfeita em Mani, agregador de todas as perfeições. Seus monges precisavam levar vida de extremo rigor, absorvidos na oração e na pobreza. Como coligia elementos derivados de uma heresia do Cristianismo chamada Gnosticismo, que propugna o conhecimento das verdades espirituais como meio de salvação, o Maniqueísmo foi bastante perseguido até a Idade Média, quando se deu sua extinção.

Por causa de todas essas características, a vida da linguagem levou a uma identificação entre o Maniqueísmo e o pensar dicotômico. Dizer que uma pessoa é maniqueísta é um reducionismo óbvio, aceitável apenas se levarmos pelo lado da metáfora. Mas o que explica que ainda utilizemos um termo de uma religião e filosofia que, forçando a barra, teve relevância apenas até a Idade Média?

Concorde-se ou não, a verdade é que o maniqueísmo possui uma resposta bem estruturada a algumas das questões que mais causam aflição à espécie humana. Uma delas é a questão da existência do mal, que tem explicação árdua em monoteísmos tradicionais, como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, já que é necessário que se elaborem longas teses sobre um Deus bom que permite catástrofes e discórdias alvejando suas criaturas. É a mesmíssima pergunta que se faz todas as vezes que temos um tsunami, ou terremoto, ou outra desgraça qualquer. Ou ainda quando uma criança morre assassinada pelos pais, ou cai uma pedra na cabeça dela, e assim sucessivamente: “Como Deus permite que tantos sofram?”.

O dualismo maniqueísta, ao imputar ao ser humano, ao mundo e ao universo uma composição onde ambos os princípios são necessariamente presentes, dá uma lógica muito mais confortável. Há um equilíbrio muito menos precário quando se diz que tudo está embutido pelo bem e pelo mal. Ou seja, as desgraças ocorrem quando os atos estão impregnados pelas Trevas. Pronto e ponto.

Bom... O Maniqueísmo cuida de todas as questões como dicotomias, ou seja, há sempre duas e somente duas respostas para todos os problemas que se propuserem: ou se origina da Luz, e é bom, ou se origina das Trevas, e é mau. São princípios opostos e coexistentes, que explicam tudo. Mas se estendermos esse método a todas as circunstâncias que plasmam nossa vida, teremos sérias dificuldades. A questão das quotas raciais é um belo exemplo. Como conseguimos designar quem é branco e quem é preto? Se admitimos as quotas, admitimos para quem? Uma gota de sangue negro é suficiente para tornar alguém negro? Uma gota de sangue branco é suficiente para tornar alguém branco? Negro é aquele que tem origem racial africana ou é aquele que sofre com o preconceito? Enfrentei este problema neste texto, inclusive com fotos. Parece a mim que a comissão de porteiros proposta pelo Elio Gaspari é muito mais efetiva do que qualquer legislação que tente dividir o país entre negros e brancos.

(Em tempo: esta comissão se constituiria no seguinte – uma comissão formada por um determinado número de porteiros de prédio apreciaria uma foto de cada um dos candidatos às quotas, com a seguinte pergunta: “Você deixaria esta pessoa adentrar em seu prédio sem reservas?”. Aqueles que tivessem seu acesso barrado seriam considerados negros).

Percebam a extrema dificuldade em dividir o mundo dicotomicamente. De cara, extinguimos os meios termos, o que torna as posições estanques. E isso distorce grandemente a visão que formamos de uma pessoa ou de uma situação. Podemos extrair mais um exemplo quando observamos o debate político. Tudo é direita ou esquerda. Se dissermos que uma pessoa é contra o aborto, automaticamente é considerado um conservador, independentemente de procurar saber suas posições sobre tudo o mais que diz respeito à vida social, ainda que este mesmo indivíduo seja a favor da intervenção estatal, da relativização do direito à propriedade, e tantas outras vontades típicas daquilo que se considera “esquerda”. O mesmo se aplica a uma pessoa que, mesmo favorável à livre iniciativa, à obtenção de lucros e à redução do tamanho do Estado, posiciona-se ao lado dos financiamentos estudantis. Já não é um cara da “direita”, um “libertário”, ou coisa semelhante. Por isso mesmo, as dicotomias tendem a formar rótulos, que tem o grande mal de induzir tendências nas pessoas individualmente por aquilo que um determinado grupo pensa.

A falsa dicotomia, que também pode ser chamada de "falso dilema" ou de "pensamento em preto e branco", é a utilização da linguagem de maneira a fazer crer que há apenas duas posições possíveis, mutuamente excludentes. Toda lógica é binária, o que é tão bom para os computadores, mas tão ruim para as relações humanas. Falta ao argumento dicotômico uma tolerância a posições intermediárias, e a inadmissibilidade de que ambas as alternativas propostas podem ser verdadeiras ou falsas.

Uma das melhores explicações para a frequente utilização desta falácia é a teoria da mente descontínua, que corresponde à dificuldade humana em conseguir perceber transformações, mas vou tratar deste tópico com mais cuidado em outro texto, por se tratar de assunto amplo e deveras interessante.

Mas as dicotomias podem ser não-falaciosas? Claro, e isso é muito frequente. Quando um determinado assunto tem de fato apenas duas posições, é óbvio que somente uma poderá ser adotada. Por exemplo: digo que uma cidadã está grávida. Pelo que me consta, não existe uma moça meio grávida – ou está, ou não está. Neste caso, a dicotomia é fato, sem posições intermediárias, e não há falácia. Podemos ainda lançar um dilema dúbio, mas, neste caso, tudo vai depender da posição de quem profere o argumento. Se digo que alguém está morto, a dicotomia será legítima, já que não existem pessoas metade vivas, metade mortas. Mas isso se eu não acreditar em vida após a morte, ou em vampiros, ou em zumbis. De qualquer forma, pode-se argumentar que espíritos, vampiros e zumbis precisaram morrer para existir, mantendo a proposição em forma de dicotomia, ou seja, essas espécies são mortas.

Então é isso. Não basta ver apenas um lado da questão, mas é preciso ir além. As questões podem ter muito mais de dois lados.

Recomendação de leitura:

O livro abaixo contém ótimas informações sobre o desenvolvimento e características do Maniqueísmo:

COSTA, Marcos Roberto Nunes. Maniqueísmo: História, Filosofia e Religião. Petrópolis: Vozes, 2003.

Agradeço à Natália por emprestar seu rosto e gengivas para a brincadeira do P/B incluída neste texto.