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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (16 – Filosofia Política)

Olá!


Vamos reciclar rapidinho um tema muitas vezes mencionado neste espaço. É extremamente difícil rastrear com precisão como se desenhou a história humana no pequeno planetinha azul, mas é certo que, tendo descendência comum com tantos outros primatas, tenhamos mais pontos de semelhança que a cara achatada e os olhos frontais. Um destes nos coloca no grupo dos animais gregários, ou seja, aqueles que se associam e vivem junto, partilhando recursos comuns e realizando um processo de custos e benefícios que é vantajoso biologicamente. É fácil de entender por que. Isoladamente, um ser humano é frágil. Seu equipamento corporal não possui grandes destaques, a não ser por um córtex cerebral sui generis. A vida comum permite que o conjunto se comporte como um grande organismo, onde os subgrupos dividem as tarefas de acordo com sua aptidão ou sua disponibilidade: uns caçam, outros coletam, outros vigiam, outros cuidam da prole e assim sucessivamente. Essa estratégia funcionou tão bem que, no final das contas, derivou nas grandes metrópoles que temos hoje. Evidentemente que, na medida em que a quantidade de membros se tornava maior e ao gregarismo foi somado o sedentarismo propiciado pela incipiente agropecuária, as relações entre os membros do grupo foram se tornando mais e mais complexas. Quando a vida consistia em caçar de dia para ter o que comer à noite, as coisas eram bem delineadas – era partir para o pau e pronto. Estando mais fixos e mais protegidos das intempéries, os homens começaram a se deparar com problemas que não existiam: a organização das tarefas, a distribuição dos recursos, a divisão dos resultados dos esforços comuns. Seria muito bonitinho se tudo fosse tratado com justiça, mas, desde que esse é um conceito um tanto dúbio, o que é justo para um pode não ser para outro. Essa é a raiz dos conflitos oriundos da vida comunitária, e, para mediá-los, nasce toda uma linha de pensamentos que tenta compreender como os homens ajustam acordos e concedem a certas pessoas a atribuição de ter poder sobre as demais. Esse é o cerne da Filosofia Política.


Como sempre, vamos começar pela etimologia. Já notaram como há inúmeras cidades que contêm em seu nome o termo polis? Petrópolis, Teresópolis e Florianópolis no Brasil, Indianapolis, Minneapolis e Persépolis no exterior, dentre muitas outras. Isso não é à toa. Vem do conceito grego de cidades-Estado, que eram os grupos humanos que tinham como característica uma forma de poder delegado pelos seus cidadãos a uma determinada figura, que era obtida por alguma forma de consenso – ou porque os cidadãos concordavam que era adequado, ou porque não tinham como derrotá-lo e baixavam as orelhas. É dessa ideia de uma especialização na tarefa da gestão que nasce a Política, a arte de viver na polis.

O desenvolvimento de uma lógica do poder, no entanto, antecede a formação das cidades-Estado. Antes disso, foi preciso que surgisse o próprio conceito de Estado, que corresponde a um poder decisório em nome de uma coletividade. Sendo que os homens não poderiam resolver todas suas pendências e arestas com base em uma guerra interna, foi necessário que a tarefa fosse atribuída a alguém que pudesse ter nas mãos o bastão que decide, e que, em nome desta mesma coletividade, ditasse os rumos que deveriam ser seguidos, como a determinação na execução de tarefas. Entretanto, como os conflitos são o nascedouro da necessidade de uma intervenção externa, podemos dizer que a Política nasce em uma perspectiva judicial. Se observarmos a história dos hebreus, através da Bíblia, veremos que, antes de nomear um rei (o que, aliás, era objeto de contestação de muita gente), em cada aldeia era escolhido um juiz, cuja tarefa era distribuir justiça, exatamente mitigando conflitos. Somente mais tarde, quando há uma institucionalização crescente das territorialidades ocupadas por etnias, que são unidas por um elo cultural e que tem normas e costumes em comum, é que surge a concepção de Estado. Neste momento, não é mais um grupo de pessoas que se relaciona com outros, mas uma nação. Não conversam, discutem ou batalham gregos e troianos, mas Grécia e Tróia. Só que Grécia e Tróia, como Estados, são entidades abstratas, que precisam ser personificadas através de representantes de carne e osso. É nesse âmbito que surge a figura do governante, o ocupante do poder no Estado. Uma pausa para respirar... Sem dúvida alguma, temos uma visão muito torta da figura do político no Brasil, pelo óbvio motivo de que os mesmos fazem um uso ainda mais torto do poder, mas é tarefa da Filosofia Política lembrar que o fogo serve tanto para queimar quanto para aquecer. E Estado não é governo, governo não é Estado, como eu bem acabei de explicar. Está claro?

A delegação do governo confere muitas responsabilidades aos seus ocupantes, mas, por outro lado e até mesmo por isso, também lhe dá muito poder. Por isso mesmo, os primeiros pensadores políticos trataram da questão no âmbito do idealismo. Como deve se portar o bom político? A quem deve se voltar os interesses do Estado? O que torna legítimo o exercício do poder? Já transparece aqui um amplo substrato axiológico, porque, em tese, estaremos sempre falando de valorações do bem ou do mal. Enfim, nessas linhas de pensamento, a Filosofia Política é, essencialmente, uma derivação da Ética. Os historiadores da Filosofia chamam essa corrente de moralista*.

Gente grande usava a abordagem moralista, como Platão e Aristóteles, mas é com os sofistas e sua inédita visão antropocêntrica que podemos falar em um primeiro pensamento político baseado na razão. De um modo geral, a linha-mestra do que eles pensam tem fundamento na estranha democracia direta helênica, baseada, grosso modo, nas discussões na ágora, a praça pública que acampava as decisões políticas na polis. Os sofistas viam a política como um reflexo da cidade: uma construção humana, e, portanto, tão volúvel e variável quanto. Sua ideia geral era a de que os discursos deveriam se adequar às circunstâncias da variabilidade da vida comum, muito mais do que seguir princípios rígidos.

A partir de Platão, a coisa muda de figura. A noção de cidade como criação humana é deixada de lado, por conta da ideia de agrupamento natural. Agora, os homens vivem em cidades porque é de sua natureza, como já vimos, serem gregários. A invenção da cidade nada mais é do que a evolução esperada das antigas tribos que viviam em choças ou cavernas. Sendo assim, é esperado da polis que tenha o mesmo objetivo dos indivíduos: a virtù, em especial a virtude da justiça. Platão não gostava da democracia ateniense, porque não entendia ser um sistema que favorecesse o exercício de virtudes. Para ele, a distribuição da justiça só poderia se dar pela via da sabedoria, e não pelo conteúdo dos discursos, ou pelo poderio econômico. É a figura do rei-filósofo, aristocrática em sua essência, porque poucos saberiam usar sua razão sem se afetar pelas benesses do poder.

Já Aristóteles nos fala sobre a eudaimonia coletiva, ou seja, uma felicidade que seja aplicável a todos, como já refleti neste texto. É possível detectar a cidade feliz: ela é viva, embora tranquila. O espaço público é ocupado por seus cidadãos, que cuidam bem dele e fazem com que ruas e praças sejam lugares aprazíveis. A cidade feliz só é possível quando há equidade distributiva e participativa. Na primeira, a distribuição dos bens da polis é razoável, não havendo pessoas demasiadamente ricas em detrimento de um grande número de pobres; na segunda, todos têm direito de participar da vida política, tendo espaço para dar e receber justiça e para fazer parte do consenso que resolverá o modo de governar a cidade. Esquerdalha, esse tal de Aristóteles.

Notem que, apesar da beleza do idealismo platônico-aristotélico, cada um do seu modo, não foi frequente na história a sua aplicação. Em contraposição à justiça distributiva de Aristóteles, presenciamos a ascensão de tiranos que concentraram todo o poder em suas mãos. E ao rei-filósofo de Platão, tínhamos seu antagonista direto: o imperador que se impunha pela força. Diante do caráter opressivo e repressivo que caracterizaram os diferentes impérios espalhados pela Terra, era inevitável que a Filosofia levantasse a questão da legitimidade. O que dá guarida ao detentor do poder para que os outros o aceitem no lugar onde está colocado?

Como já vimos no caso dos gregos, a legitimidade se daria pelo consenso da polis: o governante está no poder porque a sociedade assim assentiu. Só que, no caso das tiranias, sabemos que esse consenso não existe, ou, ao menos, não é livre. O que há é uma espada na garganta dos cidadãos. A violência, no caso, explica o governante e os motivos que o mantém no poder, mas não o legitima. Essa posição, por mais que o tirano seja poderoso, é instável. Conspirações e alianças podem fazer com que o eixo do poderio se desloque, a não ser que se encontre uma justificativa para a guarda do poder. E essa é encontrada na esfera divina – nasce a crença de que o poder é um legado dos deuses.

Essa regra originar-se-á no politeísmo, mas será confortavelmente absorvida pelo Cristianismo crescente. Deus é um imperador supremo, que não rege somente a Terra e os homens, mas o universo inteiro. Sua vontade basta por si própria, não cabendo aos homens conceituar se está certa ou errada, já que suas razões são inescrutáveis. O poder régio dos homens é uma atribuição que Deus dá a indivíduos específicos, supostamente cunhados para governar, com a benção de sua igreja, e esse mandato, portanto, tem o seu selo ISO-9001. Desta forma, como representante de Deus na Terra, o rei goza de uma submissão muito próxima da que é devida a Deus. Perfeito!

Isso significa que, indistintamente, toda decisão proclamada pelo governante é incontestável, por ser reflexo da palavra divina? Nem sempre. Segundo Santo Agostinho, o poder político realmente emana de Deus, mas o homem é dotado de livre-arbítrio, ou seja, não é mera marionete nas mãos do titeriteiro supremo. Sendo assim, nada ter a ver a conduta do governante com o fato de ter lhe sido dado o poder por Deus. Um chefe político é um homem como outro qualquer, inclusive nas imperfeições. A vida perfeita se encontra fora do mundo, e não nele. Agostinho projeta duas dimensões existenciais: a cidade de Deus e a cidade dos homens. E apenas na primeira há regência direta de Deus e, consequentemente, a perfeição. Na cidade dos homens, é perfeitamente possível que o ocupante do poder degenere – imutável é só Deus, a eternidade é um dos atributos da perfeição. No entanto, o governante, apesar de não atingir, deve perseguir esta mesma perfeição. De que forma? Seguindo as leis divinas.

Já para São Tomás de Aquino, o Estado é um espaço para o desenvolvimento das virtudes comuns, algo típico em um ser comunitário como o homem. Se este espaço não cumpre essa função, principalmente na tirania que só se importa consigo mesma, é justo que as pessoas se revoltem com a situação. A base para isso é o desacordo com a lei divina. A imposição de uma regra que leve à profanação dos valores, por exemplo, é um caso. E aqui justifica-se o motim. No entanto, a revolta contra o dirigente deve se limitar a extirpar o que há de errado e sempre deve sopesar os bens e os males que dela decorrerão ao bem comum, de modo que não se imponha uma situação ainda pior, como a adoção de um regime ainda mais despótico, que aprofunde a imoralidade e afaste a nação cada vez mais da lei divina.

Bom... É possível perceber que, até agora, mencionamos um monte de ideias que visam estabelecer o que é um bom governante, ou, melhor dizendo, como a Política deve ser. No entanto, toda a história humana nos mostra que a luta pelo poder é escapadiça a esta perspectiva deontológica. Das duas, uma (ou ambas): ou as palavras dos filósofos eram poesias soltas ao vento, ou a análise deveria se voltar para o mundo concreto, despido de tanto idealismo. É com esse painel que lida uma outra cepa de pensadores, à Política que é praticada, ao seu funcionamento e aos seus meandros. São justamente chamados de realistas, e é nessa corrente que nasce a imponente obra O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.

O termo “maquiavélico” já denuncia o alcance da mudança do pensamento filosófico político. Às portas do Renascimento, quando o pensamento científico vai lentamente afastando a metafísica religiosa do substrato do conhecimento, Maquiavel traz uma concepção política vista de dentro. Membro da corte, observou criteriosamente todo o jogo que se desenhou desde os primórdios conhecidos para produzir um livro incisivo, voltado inteiramente para a práxis política, uma espécie de manual sobre como tomar e manter o domínio de povos e adversários. Sua abordagem exclui todo o mote da justificativa do poder; este é obtido pela força e pela astúcia, não por consenso deliberado ou interveniência divina. Ele deixa de olhar para a Política como uma derivação da Ética, e passa a estudar seus mecanismos. Com esse afastamento e esse sentido prático, Maquiavel se torna detestado por aqueles que exigiam um fundo moral, e o adjetivo derivado de seu nome é, até hoje, um sinônimo de demoníaco. Parece que a injustiça nesse ponto de vista está no fato de que há um desalinhamento irreparável entre o que se oferecia como legitimação ao poder e seus corolários éticos e o que se exercia de fato nos bastidores do poder: traições, eliminação de adversários, favorecimento de aliados e um projeto incessante de continuidade nos tronos reais. Neste sentido, a obra maquiaveliana pode ser vista como um libelo contra a hipocrisia dos detentores do poder e dos devaneios moralistas. Ele enfatiza a necessidade do príncipe (termo que pode ser transposto para qualquer categoria de dirigente) acautelar-se para ser amado ou temido, nunca odiado, porque este é o combustível da deposição. Adota a virtude não no sentido utópico da virtù latina, mas da areté original grega, a virtude propositiva de quem sabe o que fazer na hora certa, com a virilidade necessária, em especial diante da fortuna, a personificação do destino inesperado.

Sua obra, apesar das polêmicas, fez escola, e a Política começou a ser vista mais em si mesma. O laço que une os homens, por exemplo, passou a ser tratado mais pragmaticamente. A humanidade se une em torno de uma impossibilidade de viver em estado de guerra permanente, como preconiza Thomas Hobbes em sua obra mais conhecida, o Leviatã (vejam mais aqui). Em seu entendimento, a natureza humana não é corrompida; é má em si. Veja-se que as crianças nascem eminentemente egoístas, e só vão se solidarizando à medida que captam vantagens em seu relacionamento interpessoal. A sociedade nasce de uma espécie de acordo tácito de se aliar e não se agredir, que foi denominado de contrato social**. A garantia de que estes acordos sejam cumpridos reside na existência do Estado, que é colocado acima do interesse individual.

A Filosofia Política continuou a produzir teses contratualistas, notadamente em 
Rousseau e Locke, que aperfeiçoaram cada vez mais a necessidade da preponderância da lei sobre os membros do Estado, a ponto de, através de Montesquieu, chegarmos a mecanismos que limitem o excesso de poder na mão de poucos, de modo a não se colocar ninguém para além do Estado de Direito, princípio com o qual a legislação deve abranger todo o guarda-chuva social, sem diferenciações. E sua ferramenta para a cumprir essa tarefa é a tripartição dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, onde, respectivamente, são colocadas em prática as medidas de administração do Estado, elaboradas as leis e verificados os seus cumprimentos. É algo que perdura até hoje nas democracias, ainda que, em algumas, de maneira cambaia.

A Filosofia Política ainda solta sua coruja sobre muitos outros temas, mas, sucintamente, é sobre a descrição destes desenhos do poder que ela se debruça. Em tempos de instabilidade, como o atual, é importante que se saiba bem em que tipo de terreno se pisa, para que se saiba filtrar a torrente de bobagens que costumeiramente temos presenciado em redes sociais. Bons ventos a todos.

Recomendação de Leitura:

Não confie em ninguém que queira se meter a politizado, mas não saiba te dizer do que trata o livro abaixo. Ele é a base para entender o que é a Política em bases práticas, mesmo que você não queira entendê-lo como um guia de conduta da classe dirigente.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Centauro, 2001.

* É evidente que este termo, no caso, não tem o sentido moderno de “prócer dos bons costumes”, mas de observação dos valores como critério de avaliação.

** Aqui, não há nenhuma equivalência com o termo utilizado para fins contábeis.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uma casca de nós

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó* que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) – Trecho d’A Tabacaria – Na minha humilde opinião, um dos melhores (senão o melhor) poema de todos os tempos


* Dominó: espécie de fantasia semelhante a um grande paletó
Olá!

A feira de orgânicos do parque da Água Branca (oficialmente: Parque Fernando Costa), onde me encontro neste momento, é um lugar curioso. Seus consumidores, no todo, buscam alimentação saudável e saborosa, mas que costumam fazer mal a um órgão especialmente suscetível a cólicas e espasmos, que é o bolso. Munido de espírito crítico, tenho a tendência a não aceitar fácil o preço das feiosinhas maçãs e dos esquálidos abacates; mas que eles são mais saborosos, isso são. Posto isso, acabo por me conformar. As pessoas costumam vir para cá paramentadas meio que a caráter, numa mistura algo insólita de saias indianas, mocassins, sandálias de couro cru, camisetas com slogans e faixas na cabeça – nossa, como gostam de faixas na cabeça. Dificilmente estas mesmíssimas pessoas utilizam estas indumentárias em seus quotidianos. Não imagino o rapaz em seu escritório de advocacia com uma calça de algodão cru, nem a menina indo prá faculdade embrulhada num sári, ou as senhoras indo ao bingo com aquelas pedras brilhantes coladas no meio da testa. Mas, entre mortos e feridos, percebo que as pessoas que frequentam o lugar têm uma boa média de cultura, conversam de assuntos um pouco mais elevados que a média geral, têm preocupações ambientais sinceras, que fogem um pouco do individual – não raro, há palestras interessantes sobre ecologia, biodiversidade e outras bossas do gênero, ou há escritores do assunto fazendo lançamentos e autografando suas obras. Isso tudo dá um ar meio hippie a estes eventos, o que me agrada. Por isso mesmo, tenho trazido meu caderno e fico sentado nas mesinhas do lado de fora da feira, enquanto aguardo, cercado de abelhas (leiam aqui), as aflitivas aquisições de minha esposa e filha – não, elas não usam faixas na cabeça (só às vezes) – e acabei por gostar do lugar, onde logo pela manhã tomo um ar fresco e sinto o agradável cheiro do café orgânico sendo passado. Acontece que, neste exatíssimo instante, estou sendo expulso do local onde estava sentado porque há pessoas que estão consumindo e não tem cadeiras disponíveis para sentar. Como eram idosos os que estavam aguardando, não criei caso, até mesmo porque, como é natural nas pessoas que escrevem, eu estava de cabeça baixa e não vi ninguém esperando. Mas, a partir de agora, passei a detestar o lugar que a 30 segundos atrás me agradava. Como a vida é dinâmica, não?
Mas isso tudo me levou a refletir. Por que as pessoas têm indumentárias diferentes nos diferentes lugares? Mais que isso: por que as pessoas têm comportamentos diferentes em diferentes locais e situações? Haverá uma verdade pública e outra privada? A multiplicidade de características é algo que devemos encarar como normalidade ou somos todos falsos?

Em primeiro lugar, precisamos ter consciência de duas coisas: existem diferentes ângulos de visão e também a diferença entre algo que é visto em seu todo e algo que é visto em suas partes. Sobre esse segundo aspecto, vejam o estudo de caso (absolutamente informal) que segue:
Peguemos como exemplo a própria cidade de São Paulo. Grande, multifacetada, costumam dizer que é a cidade dos negócios. Pode ser mesmo. Aqui, temos uma enorme quantidade de ruas com atividades especializadas, e em cada delas temos um volume de compras, vendas e escambos que seriam dignos de qualificar e nomear qualquer cidade que praticasse as mesmas atividades. Como podemos considerar a cidade em seus aspectos mais particulares?  Ela é suntuosa como os lustres da Consolação ou espartana como os uniformes da Tiradentes?  É moderna como os eletrônicos da Santa Ifigênia ou arcaica como os antiquários da Dom Orione? É rica como as boutiques da Oscar Freire ou popular como as “lodgínias” da Oriente e da José Paulino? É idealista como os vestidos de noiva da São Caetano ou realista como as máquinas usadas da Piratininga? Tem o cheiro forte das madeiras da rua do Gasômetro ou a fragrância suave das essências da Silveira Martins?  Tem a sisudez dos bancos da Quinze ou a descontração das fantasias da Porto Geral? É de labor masculino como as ferramentas da Florêncio de Abreu ou feminino como as máquinas de costura da Rua da Graça? Tem a cara de quem está por ser preparado dos cereais da Santa Rosa ou da tarefa realizada nas panelas da Paula Souza (claro que me refiro a comida)? Tem sorriso de criança como nos enxovais infantis da Maria Marcolina ou a compenetração da caça e pesca da Brigadeiro Tobias? É arte para os ouvidos como a dos instrumentos musicais da Rua do Seminário ou é arte para os olhos como a que sai dos equipamentos fotográficos da Conselheiro Crispiniano?  É limpa como as casas médicas da Borges Lagoa ou empoeirada como os móveis usados da Marechal? Trafega nos sonhos como as agências de viagem da São Luiz ou trabalha a realidade dura como as cordoarias da Senador Queiroz? É ágil como os telefônicos da Gusmões ou leve como os artigos orientais da Galvão Bueno? É multicolorida como as flores do Arouche ou monocromática como o ouro da Barão de Paranapiacaba? Anda célere nos carros das agências da Anhaia Melo ou lentamente nos calçados da Rua Cavalheiro? Aponta para o futuro como as auto-peças da Barão de Limeira ou remete ao passado das mãos das avós e seus tecidos da 25? Adere ao chão como os panos de saco da Bresser ou pensa que vai para o céu como as comércio sacro da Sarzedas? É milionária como os carrões da Avenida Europa ou miserável como a feirinha de rolo da Rua do Glicério?


Veja que a cidade é uma e também são várias. Quem olha o todo, vê uma cidade grande, pujante; quem vê o detalhe, percebe o quanto ela é diversificada, e que se coloca em posição de paradoxo com relação ao que foi citado para o todo. A cidade é grande, mas ainda tem área rural; é opulenta, mas tem enormes bolsões de pobreza; é moderna, mas possui um restinho de memória no casario antigo dos primeiros bairros; é mal estruturada, mas tem setores invejáveis e verdadeiramente funcionais; é, ao mesmo tempo, uma cidade com um colapso educacional na base e com o maior número de universidades do país; oferece ao visitante a melhor gastronomia do mundo e os piores índices de violência urbana. Tudo isso é verdadeiro, e as pessoas também são assim.

Se as pessoas são várias em seus aspectos, é porque o ser humano é uma espécie em constante adaptação ao meio em que vive. Recebe influências externas e percebe que, a cada uma delas, há algo a temer, que afeta sua sobrevivência, e daí luta para se adaptar.

Certa vez, assisti a uma palestra do historiador Leandro Karnal, e ele dizia sobre o contraponto do pensamento de três importantes pensadores dos séculos XVII e XVIII. Olhem só como teorizavam os pensadores contratualistas.
Para Thomas Hobbes, o homem era essencialmente um átomo de egoísmo. Isso significa dizer que cada homem é único e se reconhece como tal. Todas as relações humanas não se baseiam em um consenso natural, como ocorre com os animais, por um motivo muito simples: ele não existe. Como o homem é movido por egoísmo e por interesse próprio, a situação típica de uma relação é de guerra de todos contra todos. Enquanto os animais, quando se debatem entre si, tem como pano de fundo a preservação da espécie, no homem se configura a preservação de si mesmo. Daí a famosa utilização hobbesiana da frase de Plauto: “homo homini lupus - o homem é o lobo do homem” . Neste estado de coisas, e como o egoísmo do homem é extremo, ele reconhece o risco de perder seu bem maior, que é a própria vida. Desta forma, o homem estabelece acordos não escritos com os outros homens, de maneira que todos reconheçam entre si esse direito maior, e assim nasce a sociedade e o Estado, que implica no reconhecimento consensual de uma autoridade maior. Hobbes chamou o Estado de Leviatan, que é o nome de um monstro bíblico encontrado no livro de Jó, e representa o poder invencível. Em resumo, o homem é mau por natureza e necessita do Estado para controlar sua barbárie.

Em Jean Jacques Rousseau, o pensamento vai para o polo oposto: o homem era naturalmente bom. A natureza era um reflexo da divindade, e o ser humano inserido neste meio teria todos os elementos necessários para exercer sua harmonia e liberdade, em um princípio filosófico que foi fortemente identificado na literatura como bom selvagem. Só que o meio social acabava por distorcer suas virtudes originárias através da supressão da liberdade, daí sua célebre frase: “O homem nasce livre, e por toda a parte se encontra acorrentado”.  Segundo o filósofo genebrino, o homem perdeu sua pureza e bondade natural a partir do momento em que cercou um pedaço de terra e disse: “Isso é meu”.  Como os demais homens, ao invés de admoestá-lo a parar de falar bobagens, trataram de fazer o mesmo, estabeleceu-se o princípio da propriedade, e, por causa dele, todo tipo de guerra e discórdia floresceu. Essa é a triste gênese da sociedade. Para se tornar possível a vida em comum, estabeleceu-se que a vontade individual deveria ser suprimida a favor de uma vontade coletiva, o que, naturalmente, desagrada muita gente. Sumarizando: o homem é bom, mas se torna mau por influência social.
Já para John Locke, o homem era tabula rasa. Sua mente era um papel em branco no qual seria escrito tudo aquilo que sua experiência pudesse captar. Ele se tornaria aquilo que fosse escrito em sua alma, seja para o bem, seja para o mal. Não há aqui nenhuma predisposição inata, o homem não carregaria bondade nem maldade do berço. Aliás, Locke dava grande valor à educação como formadora da personalidade das crianças, e atribuía ao educador papel vital em exercitar no aluno o uso de sua razão. A sociedade se forma, ao contrário do que dizem Hobbes e Rousseau, não da necessidade de cerceamento dos instintos selvagens, mas do próprio uso da razão, na medida em que deve garantir que a liberdade de uns não seja restritiva para a liberdade de outros. Desta forma, nasce a ideia do Liberalismo, que reduz a necessidade do Estado como ferramenta de coerção e aloca-o como guardião da lei. No final das contas: o homem não é nem bom, nem mau; ele é o que fizerem dele.

Conclusão geral: não há consenso (se esses três, que são colocados na plêiade dos principais filósofos da história não chegam a um acordo entre si, não chegam a um denominador comum, que poderei fazer eu, pobre filósofo de porta de botequim?). E o consenso não existe porque as pessoas são formadas pelos mais variados aspectos, reagindo diferentemente em cada uma de suas situações. Tendemos a indicar a falsidade como um defeito, e ela é mesmo, mas é preciso compreender porque o comportamento humano nem sempre é legítimo.
A pessoa tem uma tendência óbvia de maximizar suas qualidades e mascarar os seus defeitos até mesmo como mecanismo de defesa. Um mundo onde se vive em constante espírito de competição tem a tendência de fazer com que as pessoas se munam com todas as armas que tem ao seu dispor.  E isso se enraíza de maneira tão profunda que dificilmente as pessoas se desnudam completamente. Estão sempre como uma noz: envolvidas por uma casca impenetrável, mesmo quando desnecessário, porque é-nos muito duro reconhecer a falibilidade, a fraqueza, a incoerência...

Incoerência! Quantas vezes não nos obrigamos a suportar o que detestamos, só por uma questão de conveniência. Quantas vezes fazemos em casa o que jamais faríamos na rua. Quantas vezes repreendemos em nossos filhos o que elogiamos nos filhos alheios. Quantas vezes debochamos de uma etiqueta que nunca deixamos de usar. Ou, pior ainda, quantas vezes condenamos preconceitos dos quais nunca conseguimos nos livrar no foro íntimo.
Sim, o homem se adapta às mais diversas circunstâncias, e usa tudo para isso, e dá bela ênfase à mentira e à falsidade, por um motivo absolutamente simples: ela é muito mais moldável do que a verdade. Mas não devemos nos colocar no exílio por causa disso – é também uma questão de sobrevivência. Afinal, a mimetização e a camuflagem nos animais não é, de certa forma, uma mentira necessária à vida?

Não estou erguendo um estandarte à falta de caráter do ser humano. Muito pelo contrário. Estou reconhecendo que o homem usa armas que fogem a qualquer compromisso ético. Apenas estou constatando uma característica nossa: a de moldar uma face para cada tipo de luz que ilumina seu ambiente, sem que isso seja um motivo essencial para condenações. Somos, para o mundo, uma casca de nós. A aparência que se extrai de nossas atitudes não denuncia, necessariamente, o que se pode observar de dentro.
Dessa forma, o aspecto que apresentamos ao mundo depende essencialmente do aspecto de cada uma de nossas relações. Não há uma verdade por inteiro. Que isso não nos desnature também por inteiro.

Recomendações de leitura:
São os contratualistas que eu citei. É muito interessante analisar as discrepâncias entre suas teorias.

HOBBES, Thomas. Leviatan ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
LOCKE, John. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Saraiva, 2011.

PS: Resolvi acrescentar as palavras do Pedro Debs Brito no Facebook, para enriquecer ainda mais este texto:

" E se puder adicionar algumas poucas palavras, essas seriam as seguintes: do Riobaldo, lá do grande sertão: "este mundo é muito misturado" e aí uma consideração do Edgar Morin, filósofo: o ser humano é complexo, do sentido original do termo, complexus significa aquilo que é tecido junto; tece e entretece... são os vários fios e as diversas partes que se unidas formam uma casca. Dessa maneira a questão pra mim se concentra no olhar; ou melhor, na forma como olhamos. Se buscarmos olhar de uma maneira compreensiva, de natureza complexa, conseguiremos - acredito eu - enxergar melhor, não enxergar mais, mas enxergar melhor. Ter em conta que não olhamos coisas, mas pessoas, fenômenos dinâmicos e nada integrados: ao contrário, espalhados. "Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos e pela lei natural dos encontros: eu deixo e recebo um tanto" disseram os Novos Baianos.

Tudo isso pra dizer que vejo que somos feito casca de nozes compostos por diálogos infinitos e compreensões plurais; são essas coisas que ficam em nós das nossas relações que formam nossas identidades (no plural mesmo)."