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terça-feira, 25 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 2 (o Demiurgo)

(Bem... existe um Mundo das Ideias. Mas como ele se transforma naquilo que vemos e tocamos?)

“O Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria”

Platão

Olá!

Meu filho mais velho tem uma cachorra, cujo nome é Nala. Ocorre que, tendo o shape de um dachshund, todos chamam ela de Guiça, aférese para a palavra linguiça, iguaria com formato aproximado da referida raça. Ela, de fato e de direito, é uma vira-lata, dada a falta de documentações de origem, e veio para casa do primogênito em um esquema de adoção, mas ela não seria a primeira figura em que pensaríamos ao nos referirmos aos simpáticos SRDs. Isso fica para os caramelos e filhos-do-medo-da-noite, como o recém falecido Homem-Cueca.

Só que, atavicamente, ela contém genes dessa espécie que é dada a espreitar cantos e buracos em busca de pequenos animais, e acaba por encontrar algumas coisas inusitadas. No último final de semana, ela apareceu logo cedo com uma prótese dentária na boca, daquelas de ferrinho, na burlesca situação de ter dentes entre os dentes. Para além do inesperado e da consequente galhofa, veio junto o mistério. De onde essa cachorra trouxe a cremilda?

Bom, eu uso prótese, mas a minha está na boca, já que a percorri com a língua para confirmar. Além disso, a minha é só de resina. Então só restam meus sogros, hospedados no escritório/estúdio. Mas eles estão fechados, e por mais que a cachorra Guiça seja esguia e surpreendente, ela não é fantasma para atravessar sólidos. Como a resposta ainda demoraria até eles levantarem, fomos levantando especulações, cada uma mais estapafúrdia que a outra. Estariam os velhinhos tão doidos que deram a dentadura para a Guiça brincar? Teria a nefanda cachorra algum pacto com um duende zombeteiro? Estaria o saci agindo nesta cidade do interior? Seria ela esperta a ponto de conseguir abrir uma caixa de próteses?

A resposta correta foi de quem disse que meu sogro achou uma boa ideia deixar o objeto na bancada do banheiro. Desacostumado com a casa, alguém incerto e não sabido (provavelmente ele mesmo) esbarrou lá e o dente foi para no chão. Daí, em dois minutos de pesquisa a pequena cachorra achou o diferente acepipe. Blergh! Lavada e deixada de molho, recuperou seu antigo uso.

Conto essas narrativas todas para trazer um exemplo de como os mistérios são lidados e processados por nossas cabecinhas. Só que eles só são mistérios enquanto não são resolvidos, ficando até meio sem graça quando elucidados. Essa é uma regra? Absolutamente não. Às vezes os desenvolvimentos de ideias são tão complexos, que, mesmo chegando a uma conclusão, ficamos tão confusos quanto no início.

Esse é um dos motivos pelos quais quebrei o presente texto em dois. Trata-se da intrincada teoria das formas de Platão, e é necessário que se faça a leitura da parte 1 para uma melhor compreensão do que vai se seguir. Perca seus quinze minutos lá, por favor. O outro motivo é mais por comodidade. Iria ficar muito longo para ser lido de uma vez só, penso eu.

A coisa parou em um questionamento: como o Mundo das Ideias é plasmado para a esfera do universo sensível? E também tínhamos um questionamento sobre as oposições entre ser e não-ser. A assertiva maior de Parmênides era de que “o ser é e não pode não-ser”. Como funciona esse negócio em Platão? Aqui, vamos sair um pouco do plano puramente racional e tangenciar com aspectos mais místicos. Ninguém é de ferro.

Começamos identificando um ponto em comum entre a filosofia de Platão e a de Parmênides: o Ser é algo eterno e imutável. Só que neste último o Ser é algo que, além dessas características, identificado com a realidade última, traz um problema para o Mundo das Ideias de Platão: ele é único. Se no Hiperurânio temos uma multiplicidade infindável de ideias, como seria possível a ideia de um não-ser?

Parmênides identifica o Ser com a realidade. Isso é o bastante para dizer que o Ser é imutável porque não existe uma dualidade concreta entre o real e o ilusório. O real é o que existe, e as ilusões apenas estão em uma abstração eivada de erros, especialmente pelos enganos oriundos dos sentidos. O não-ser, nesse sentido, é nada. Ele é tudo o que é mutável, inconstante e, in extremis, indizível. É contraditório querer falar sobre algo que não é, ou seja, que não existe. Portanto, é ilógico que se diga um não-ser, porque ele não é a pura oposição ao Ser (aquilo que existe), mas é o nada absoluto, que nem a linguagem alcança.

Com Platão, a concepção de não-ser muda. Como o Mundo das Ideias é povoado por objetos ideais que representam tudo o que existe, é inconcebível que o Ser seja pensado como um objeto único, já que cada forma carrega consigo uma realidade adjacente. Sendo assim, cada uma das ideias é um Ser, enquanto todas as outras são o seu não-ser específico. Por exemplo: a forma de uma bola é o Ser da bola, e é o não-ser da trave, da chuteira, do jogador, do estádio e de tudo o mais. Em resumo, toda ideia, para ser ela mesma, deve não ser todas as demais. 

Mas o que faz com que as ideias se moldem e o que explica essa multiplicidade de ideias? Afinal de contas, se pensarmos em formas perfeitas, não seria de se supor que elas se mantivessem sempre iguais a si mesmas?

Aqui, nós vamos chegar, em boa parte, nas doutrinas não escritas de Platão, e que chegaram aos nossos dias pela via de seus discípulos, incluindo Aristóteles. Segundo o que pensava o mestre ateniense, havia dois princípios originários para todas as formas, o Uno e as Díades. A ideia base é que, da mesma forma que por trás de tudo o que perceptível no âmbito sensível há uma forma que lhe define, também para as próprias formas há um fundamento ainda anterior. Recebe este nome justamente por representar a unidade que todas as formas compartilham: a existência. O Uno seria então o princípio primeiro, que ordena, que limita, e que define a forma. Por outro lado, as Díades (cuja remissão ao número dois representa exatamente a dualidade e indeterminação) trazem o oposto: oferecer espaço para a indefinição, ou seja, um substrato para que as emanações do Uno sejam moldadas e gerem uma multiplicidade. A tensão gerada entre esses dois princípios, bastante semelhante à doutrina taoísta do yin e yang, gera as formas que habitam o Hiperurânio pela sua constituição matemática e geométrica, agora definitivamente imutável.

A próxima pergunta a ser respondida diz respeito à transição entre a forma inteligível e o objeto sensível, ou seja, qual é a maneira que uma forma se materializa?

O primeiro ponto a ser pensado é que Platão identifica o Uno fundamental com o Bem. Essa identificação se dá por um motivo muito simples: sendo o Uno o princípio de toda a perfeição, a mais perfeita de todas as virtudes, o Bem, só poderia ser identificada com ele. Sendo assim, ambos são uma mesma e única coisa.

Agora, de que vale o Bem se ele não é plasmado para o universo sensível? Se ele é o mais aperfeiçoado de todos os valores, como pode ser prescindido da existência sensível? Para dar materialidade à ideia de Bem, surge o Demiurgo, o responsável pela tarefa de transformar o inteligível em sensível. Quem?

O Demiurgo é, em Platão, uma divindade intermediária que se encarrega de obter matéria do caos primitivo e transformá-la em objetos sensíveis. Vamos trocar isso em miúdos.

Na formação das ideias que povoam o Hiperurânio, a interação entre o Uno e as Díades se dá livremente no âmbito inteligível, por intermédio da oposição de forças entre ambas, o que torna desnecessária qualquer forma de mediação. Ocorre que na materialização do mundo sensível já é preciso que haja interação com um substrato concreto, que sustente a perceptibilidade através das sensações, dadas as limitações desta última, e isso não pode acontecer espontaneamente.

A substância material de que são feitas as coisas no mundo sensível é a ananché, diferente de todos os elementos visíveis e caracterizada por ser amorfa e invisível, movida pela necessidade, ou seja, um princípio cego que é causa errante. De um modo bem grosseiro, é como se fosse um cimentão indefinido e caótico, e que o trabalho do pedreiro fosse dar ordem nessa meleca informe. E esse pedreiro existe: é o tal do Demiurgo. Além disso, há uma espacialidade por onde esse princípio material é formatado pelo princípio inteligível, denominada por Platão de chora (pronuncia-se córa). E, ok, mantendo a má metáfora, é o terreno por onde o pedreiro-demiurgo assenta os objetos moldados. Ninguém disse que é fácil de entender.

O Demiurgo é um deus que foge ao conceito abraâmico, que possui todos aqueles atributos já tão decantados de infalibilidade, onisciência e blá-blá-blá. O Demiurgo é um artífice (a tradução de seu nome seria algo como “trabalhador público” – no sentido de levar os objetos à sensibilidade universal) que se propõe a transformar o Bem que representa o Uno em realidade sensível, dando-lhe plena existência, tanto inteligível, quanto sensível. Sem essa completude, o Bem não seria o Bem, porque lhe faltaria um atributo essencial: a existência.

Então o Demiurgo toma o modelo ideal de um objeto qualquer do Hiperurânio, e molda a massa informe fisicamente, tornando-a perceptível aos sentidos. Mas não é tão simples assim, de ir pegando ideias, a massinha e a chora e sair moldando a realidade sensível. A primeira coisa que o demiurgo fez foi plasmar o próprio mundo. Lembrando que originariamente a intenção do artífice é ordenar algo que se encontra em desordem, dotou todo o cosmos de uma espécie de inteligência compartilhada, a quem foi dado o nome de anima mundi (vide). Dessa forma, existe uma espécie de alma compartilhada em tudo o que existe no universo, que são seus princípios inteligíveis. Tudo carrega uma porção de eternidade, pela sua methexis (participação) com formas ideias imperecíveis e inamovíveis. Notem que o mundo inteligível, sendo eterno, não tem passado, nem futuro, porque está desencaixado da dimensão do tempo. Daí que Platão nomina o tempo e encaixa o mundo sensível como a face móvel da eternidade, que é gerada e caminha para a transformação. O tempo nasce com a anima mundi e com a materialidade do cosmos, porque ele inexiste no campo do inteligível.

As coisas sensíveis, entretanto, não são perfeitas como são perfeitas as formas do mundo inteligível. Isso porque a espacialidade da chora e a matéria que lhe compõe é amorfa e moldável, e, exatamente por tomar qualquer modelo, não é perfeita em si mesmo, representando, por si só, um limite para a ação do Demiurgo. Lembremos que este não é um deus ao modo abraâmico e, portanto, sujeito às limitações físicas que o universo lhe impõe. Dessa forma, ele plasma o mundo inteligível da melhor maneira possível, e não de maneira absolutamente perfeita. E isso explica a falta de confiabilidade dos sentidos.

Neste final, podemos perceber como Platão, ainda que tentando se manter fixado a alguma lógica, acaba descambando para explicações míticas. Como eu afirmei em outros textos (alegoria da caverna e mito de Er), Platão realmente usava esses expedientes para trazer didática aos seus ensinamentos, mas é um pouco mais difícil de dissociar a doutrina do Demiurgo de especificidades da crença. E, até mesmo por isso, Santo Agostinho pode utilizar o platonismo como base para sua patrística. Quer saber? Vou falar sobre isso também, mas não agora, para não fazer exatamente o que procurei evitar: alongar demais o post.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O livro abaixo é aquele em que Platão fala mais amiudadamente sobre o demiurgo e suas façanhas:

PLATÃO. Timeu. In: Timeu/Crítias. Lisboa: Instituto de Estudos Filosóficos, 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/111656254/Plata_o_Timeu_Cri_tias. Acesso em: 21.08.2026.



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 1 (a segunda navegação)

 (O Mundo das Ideias é tão central na filosofia de Platão que é inevitável tratar dele com mais cuidado)

“O que me parece é que se existe algo belo além do belo em si, só poderá ser belo por participar do belo em si”

Platão

Olá!

Não é de propósito (quase nunca). Embora tenhamos uma invasão de anglicismos em Patropi para qualquer assunto que tratemos, na área de Informática a questão é inerente, já que vem da gringa as ferramentas de produção desse tipo de produto, o que se torna ainda pior quando a coisa aporta nas quinquilharias técnicas. Então é muito fácil de escorregar para jargões que fazem os circunstantes nos olharem como quem vê uma mulher barbada num desses circos da velha guarda.

Explico: recentemente, veio uma reclamação do meu cliente “favorito”. Onde está o relatório X que eu pedi para desenvolver? Era mais uma daquelas baboseiras que alguém de alta patente quer, e mais ninguém. O problema é que essas coisas vão caindo no esquecimento até que alguém lembra da história, e a cobrança vem a cavalo, ou seja, na forma de coice. Vamos lá para o e-mail.

Expliquei que a tal funcionalidade tinha ficado em um branch apartado, e que seria preciso fazer um novo merge para que fosse possível fazer um deploy praticável, e colocar para homologar de novo. Se você entendeu, é porque é coleguinha. Já o figurão não entendeu nada, achou que eu estava o enrolando e queria esclarecimentos em português. Vamos lá para a reunião.

Expliquei calmamente. Em desenvolvimento de sistemas, fazemos uma cópia do módulo que temos em uso para um ambiente onde não haverá problemas em ser mexido, e, uma vez validado, pode substituir a versão disponível para todo mundo. A dita cuja estava em um desses ramais para ser testada (branch). Como o tempo passou e ninguém homologou, outras versões foram sendo sobrepostas, de modo que não era mais possível simplesmente colocar essa versão em uso, porque todos os outros desenvolvimentos posteriores seriam perdidos. Era necessário então juntar a parte do código com a velha funcionalidade em outra versão (merge), para disponibilizar a aplicação em um ambiente (deploy) testar tudo de novo e, desta vez sem colocar na gaveta, botar para uso. Nem é tão complicado assim. Só que EU sei disso, mas o cliente não.

O grande busílis é que estamos tão habituados com nosso próprio linguajar que acabamos esquecendo que, fora de nossa toca, as pessoas não são obrigadas a saber do que estamos falando, e nos colocam na conta de arrogantes, iniciáticos e, pior ainda, enrolões. Não é diferente na Filosofia.

Por esta razão, é costumeiro que eu tagarele sobre vários termos como se estivesse em plena Grécia antiga, e todo mundo estivesse entendendo com perfeição minha chiacchera. Só que, para estes, eu estou falando literalmente em grego. Em um esforço de contextualização e pesquisa, é possível compreender o que quero dizer, mas vamos combinar que eu preciso de um esteio para indicar onde falei melhor sobre determinados temas. Já senti a mesma necessidade quando falava inúmeras vezes sobre a arché, e, para deixar todos sem dúvidas, fiz uma espécie de ensaio-glossário que eu indico sempre que vou tratar do assunto (este). O mesmo se repete com o Mundo das Ideias platônico, que me referencio à exaustão, e ficar fazendo retomadas, ainda que breves, torna-se cansativo. Então achei dever de ofício dar uma boa explicação sobre o conceito e fazer as devidas remissões quando necessário. Vamos içar as velas, partir para a segunda navegação.

Antes da virada ética ocorrida no pensamento grego ocorrida a partir dos sofistas, sabemos que o principal motor da especulação filosófica estava na tentativa de detectar um substrato comum a toda a realidade. Platão vai partir da premissa de que os raciocínios dos filósofos da physis foram insuficientes para carregar conclusões sobre as essências. Mas o que procuravam estes? Eles buscavam no próprio universo as causas para explicar a realidade, com as explicações mais diversas possíveis, em um elemento a quem deram o nome de arché. Não se trata de um empreendimento despido de valor, já que foi a primeira vez em que se buscou pesquisar a realidade sem a interveniência de entidades ad hoc, mas através de encadeamentos lógicos, que conduzissem a uma resposta mais consistente. A própria diversidade dessas proposituras comprova a aspereza da tarefa, e a atuação dos naturalistas mais se aproximou de uma Ciência natural do que propriamente de uma filosofia.

Embora Platão não exatamente menospreze os experimentos mentais dos filósofos da natureza, o fato é que ele considerava suas propostas ineficazes. Segundo o que ele dizia, os pré-socráticos tentavam explicar o físico pelo físico, o natural pelo natural, entrando em um ciclo vicioso que sempre redundava em se imobilizar, como se fosse uma nau no meio de um oceano sem ventos porque, no entender do mestre, o universo tem dois planos, e os naturalistas somente conseguiam apreciar a totalidade das aparências, deixando para trás a totalidade da realidade. Quando isso acontece, é preciso ir além e recorrer aos remos, iniciando a belíssima metáfora da segunda navegação, que ele se entendia responsável por trilhar.

E qual seriam os remos dessa segunda navegação? Partindo da premissa de que o móbile do conhecimento até então eram os sentidos que percebiam o universo, era preciso colocar uma premissa fundamental: os sentidos não são garantia de conhecimento, haja vista às abundantes distorções que os mesmos sofrem. E essas são, de fato, incontáveis. Portanto, a saída é reconhecer que, se há uma verdade, ela está no campo do racional, do inteligível.

Os exemplos que Platão dá são bastante ilustrativos. Um deles diz respeito à prisão de Sócrates. Por que Sócrates se encontra preso? Se olharmos pelo plano puramente material, é porque ele está, resumidamente, com seus músculos e ossos contritos em um espaço cercado. Percebam que qualquer disposição moral ou substrato eidético está excluído dessa resposta, demonstrando sua insuficiência. A resposta que esperamos está além da mera disposição física: Sócrates está preso porque foi condenado pelos atenienses e lá ele próprio se mantém porque entende ser importante permanecer fiel ao compromisso com a justiça. E tudo isso não é perceptível pelo uso dos sentidos, tais justificativas operam a nível intelectual. Ou seja, as causas reais vão além das causas físicas, e isso não funciona sem passar pela racionalidade. Essa materialidade não seria a realidade em si mesma, mas as ferramentas que constituem seu aspecto concrescível.

Ok, até aqui, beleza. Mas o que seriam essas “coisas” que transcendem a materialidade? Onde podemos encontrar esse conjunto de conceitos e valores que dão mais caracterização ao universo do que sua própria existência sensível? No pensamento de Platão, justificar o sensível pelo sensível significa se manter em uma perspectiva de engano, porque a sensibilidade é extremamente variável e enganosa. Para se chegar a um lugar onde os erros dos sentidos podem ser superados, é preciso observar a própria racionalidade pura, ou seja, o pensamento no seu mais elevado grau. É por aí que é possível enxergar as coisas em sua estrutura mais fundamental, inalcançável unicamente pelo plano do sensível. Platão sintetiza o termo Eidos, que pode ser traduzido por Ideia, mas com um sentido mais aproximado de Forma. Trata-se daquilo que o intelecto pensa quando despido de qualquer aspecto material. Para captarmos o que ele quer dizer, vamos tentar pensar em uma pessoa muito bonita, mas que, por ter passado pelos percalços da vida, já não é mais bela, independentemente do motivo. Nós sabemos que essa pessoa era bonita, e também sabemos que não é mais bonita, porque temos, intelectualmente, o conhecimento do que é a beleza em si mesma. Essa beleza-em-si não se perde com o tempo, nem com os azares da vida, porque ela não pertence unicamente à pessoa que era bela e deixou de ser, mas à ideia de beleza. Essa ideia, embora seja sujeita a mudanças no tempo, indica que temos a capacidade mental de possuir uma ideia de belo, seja ela qual for. Ainda que hoje tenhamos que corpos marombados sejam o belo, isso é só uma contingência, ligada à sensibilidade. O que há de absoluto é que o belo, que captamos o belo. A maneira com a qual enxergamos coisas belas pode mudar hoje e amanhã, mas sempre enxergaremos coisas belas.

Para simplificar ainda mais as coisas, pense em uma bola. Materialmente, ela é feita de que? Ordinariamente, de couro. Mas o couro resume a bola? Se sim, então ele resume a vaca, a jaqueta, o banco do carro, o sofá, o cinto, o sapato. Ou seja: não, não é materialmente que você define qualquer coisa. Por outro lado, você pode ver uma bola desenhada, uma bola esculpida, uma bola imaginada e, ora vejam, uma bola real, e você sabe que tem uma bola diante de si. Portanto, segundo Platão, o que define uma essência é a sua forma, o seu eidos. E ele vai além do sensível, ele reside no seu intelecto.

Ok. Então vamos agora pensar nesse Mundo das Ideias, a quem Platão dá o nome de Hiperurânio. Puxando unicamente pela etimologia, temos aqui dois termos em grego. O primeiro, bastante comum em nosso dia-a-dia, significa algo que está acima, que vai além. Um hipermercado, por exemplo, é um estabelecimento comercial que está acima do que convencionamos a entender por mercado, porque, além dos produtos típicos, há praça de alimentação, posto de combustível, amplo estacionamento, serviços diversos como chaveiros e caixas eletrônicos. Portanto, algo que ultrapassa um conceito inicialmente dado. Já o termo urânio faz remissão ao Deus Urano, o mesmo que nomeia o planeta gasoso lá nos confins do sistema solar, e que era o regente dos céus, pensados aqui como firmamento. Então todos os fenômenos celestes, como estrelas, cometas e asteroides são regidos por essa divindade, no entender dos gregos. Só que o sentido que Platão dá aqui não é exatamente de “acima dos céus” como algo que está fisicamente para além da abóbada celeste, mas de ponto mais distante que pode ser percebido pelos sentidos. Esse é o limite do que alcança nossa visão, ou seja, o mundo dos sentidos, e o intelecto tem a capacidade de perceber o que está além destes. O Hiperurânio não é um lugar efetivamente material, mas aquilo que o suprassumo da alma, a inteligência, consegue captar como efetiva realidade dos seres, já devidamente desvinculados dos entes, suas porções materializadas.

Nós reconhecemos nos objetos concretos do mundo sensível um ponto de contato com as suas ideias essenciais em um processo que Platão dava o nome de methexis, que pode ser traduzido por “participação”. De um certo modo, a ideia do objeto é mais geral do que o objeto concreto, porque carrega o cerne da forma, mas tem suas características peculiares, típicas da captação dos sentidos: cores, configuração, peso e etc. Essa participação, portanto, é a porção de forma ideal que um objeto concreto carrega e que pode ser percebido nos demais entes do mesmo ser.

Pensando em algo mais abstrato, relembro de uma ocasião em que eu estava no Parque Tingui, em Curitiba. A cena era a seguinte: é comum sentar-se na beira do lago que fica na parte baixa do parque, e muita gente faz isso para comer alguma coisa, onde eu estava também, certa feita. A uns cinquenta metros de distância, um casal prepara-se para tirar seu cachorro da coleira. Instantaneamente, o bicho pega um impulso e se atira na água como se fosse um salva-vidas no desespero do cumprimento de sua missão. Um salto elegante e um tchipum final. Ele saiu do lago pulando nas quatro patas pulando como um carneiro, quase como se estivesse gargalhando, numa expressão de alegria pura. Pensando em termos platônicos, esta não é a alegria em si mesma, porque ainda precisamos de um veículo para materializá-la, mas é uma de suas concreções possíveis, porque a alegria do cachorro, esta sim, participa da alegria ideal, hiperurânica.

Podemos então começar a pensar na simetria entre Platão e os principais pensadores ontológicos da fase naturalista. O mundo sensível, sujeito a mudanças no decorrer do tempo, tem correspondência ao fluxo de Heráclito, porque corresponde ao universo das imperfeições e da impermanência, enquanto o Mundo das Ideias tem ligação com o Ser de Parmênides, muito mais próximo das essências das coisas. Platão traz a síntese de todo o pensamento naturalista e vai além dele. O universo do devir é um verdadeiro turbilhão que oferece aos sentidos toda forma de apresentação dos mais diferentes fenômenos, que, por sua vez, continuam guardando em si uma ideia do que ele é em si mesmo, independentemente da materialidade que ele assume. Esta é a porção permanente e imutável de tudo o que há no universo.

No Hiperurânio, portanto, estão todas as ideias de todas as coisas existentes no universo, em sua forma perfeita. É de se compreender que haja uma multiplicidade bastante grande dessas ideias por lá, haja vista a imensa quantidade de objetos que percebemos no universo sensível, incluindo aí aqueles abstratos, porque as ideias não são só de objetos físicos, mas de princípios morais, de valores estéticos, de propriedades matemáticas e assim sucessivamente. Essas ideias não se deterioram como os entes, são eternas e incorruptíveis. Mas há um problema a resolver que é a do não-ser. De fato, o problema proposto pela filosofia de Parmênides é a famosa frase enigmático: o Ser é e não pode não-ser; o não-ser não é e não pode ser. Sendo assim, como poderíamos afirmar que uma Ideia é e não pode não-ser, sendo que existem inúmeras no Hiperurânio?

Outra pergunta bastante inquietante é sobre a transição entre o intelectual e o sensível. Como aquilo que está no Mundo das Ideias é plasmado para o universo sensível?

Aqui, vamos descer aos subníveis verdadeiramente complexos dessa filosofia das formas, mas não vou fazê-lo agora, porque vai ficar muito longo. Deixo para fazê-lo em breve, para que eu chegue no meu objetivo. Fiquem de olho no blog para complementar a segunda navegação. Bons ventos a todos!

 Recomendação de leitura:

Esta é a obra onde Platão fala de suas segunda navegação:

PLATÃO. Fédon. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.



terça-feira, 28 de julho de 2026

O café filosófico do quotidiano – Como os mitos expressam suas verdades

(Nem sempre um mito é só uma historinha. Ele pode servir como concretização de sistemas de ideias complexos)

“E depois de obtermos as recompensas da justiça seremos como os vencedores que recolhem os prêmios. Tanto aqui, quanto no percurso de mil anos que acabamos de descrever”.

Platão 

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Eu nasci em um tempo de transformação. Ainda muita coisa pertencia ao meio mais analógico da vida, mas já havia algumas coisas que despontavam no mundo digital, como os relógios de cristal líquido e o apoio da informática no mundo empresarial, ainda na forma de um computador que armazenava todos os processos mais complexos, enquanto o trivial continuava na base das fichas. E isso, de certa forma, era traspassado para a vida quotidiana. É certo que o ressurgimento de LP’s demonstra que certos retrocessos acabam por se tornar desejáveis, mas no cômputo geral a escala tecnológica é um caminho sem volta. A não ser que surjam ondas de revival e ressuscitem objetos que achávamos mortos. É o caso desse belo método trapezoidal cerâmico, que achei bem barato numa dessas casas orientais.


Ele não é uma mera reprodução dos Melittões que usávamos para agilizar os coadores de pano na minha época de criança, mas um utensílio que teve alguns melhoramentos. Em primeiro lugar, seu material (cerâmica esmaltada) facilita a limpeza e favorece um escoamento com menos aderência.

Além disso, sua base possui três furos de calibre mediano, que visa corrigir o problema clássico dessa arquitetura: a retenção da filtragem e consequente aumento da adstringência e do amargor. Sem contar que é bastante elegante.



Nome do utensílio: porta-filtro cerâmico trapezoidal

Tipo de técnica: percolação com filtragem por elemento de papel

Dificuldade: baixa

Espessura do pó: média

Dinâmica: introduz-se um filtro de papel de tamanho apropriado no porta-filtro, com dobra cruzada nas costuras, para depois realizar-se um escaldamento no mesmo. Deposita-se café moído em ponto médio no filtro. Despeja-se água suficiente apenas para umedecer todo o pó (blooming). Após cerca de trinta segundos, realizam-se ataques de modo a não ultrapassar o limite do filtro ou do porta-filtro.

Resíduos: nenhum

Temperatura de saída: média

Nível de ritual: baixo-médio

Diante do bombardeio de métodos baseados na estrutura V60 (Origami, Mugen, Waals, Fluire, Cone Coffee), talvez essas novas concepções de filtro trapezoidal representem uma espécie de novo ciclo para o método. Um sistema que funcionou bem por tanto tempo pode encontrar nova subsistência. É assim que o mundo gira, e, sendo assim, ele próprio é cíclico.

Essa ideia de universo cíclico já é muito antiga nos conceitos filosóficos, e deriva da compreensão empírica de eternos reinícios. “Depois da tempestade, vem a bonança”, diz um antigo ditado anônimo, que nos passa essa noção de que sempre é possível prever a repetibilidade dos fenômenos. Como é preciso que se obtenham explicações sobre os mais diversos deles, também a ressurgência da vida se enxergou em formato circular. Como não é detectável por meios empíricos, tomou aspecto religioso, e veio a claro na forma da mitologia grega.

O mito de Er é um dos mais conhecidos no âmbito da Filosofia. Veio a público especialmente pela letra de Platão. Antes de cuidar de seu significado, é preciso contá-lo, e vou tentar fazê-lo da maneira mais sintética possível, mas, antes ainda, é preciso pincelar um pouco sobre o significado dos mitos nas narrativas platônicas, visto que as mesmas são abundantes e parecem um contrassenso quando se lembra da objetividade requerida pela razão.

Platão utiliza o mito pelo mesmo motivo que eu uso exemplos e mais exemplos de minhas próprias aventuras neste humilde espaço. Embora toda a racionalidade seja a melhor ferramenta para se obter a aproximação com a realidade em si mesma, sempre se pode notar que ela pode ser um esqueleto, ou uma estrutura, mas carece a ela uma característica: o real palpável. Todas as vezes em que eu reduzir um fenômeno a fórmulas matemáticas, vai faltar uma “carne” para revestir esses ossos, e o mito, ainda que não seja uma realidade efetivamente existente, tem o condão de se apropriar da liberdade criativa para emoldurar a realidade exatamente como queremos. Sendo assim, o mito em Platão não tem o aspecto dogmático de quem se guia por uma fé, mas de complementaridade ao raciocínio construído pelo logos, na função de adjutor. É bem isso que se pode perceber no mito de Er, onde trataremos de aspectos escatológicos e éticos. Mas passemos à sua sinopse.

Conta-se que Er era um soldado da Panfília (atual Armênia) que morreu em combate, junto a diversos companheiros de espada. Restou junto da carnificina de batalha, com outros também mortos, mas foi o único cujo corpo, passados dez dias, permanecia incorrupto. Embora isso causasse admiração, foi encaminhado para as exéquias da mesma forma. Sendo feitos os preparatórios para sua cremação, eis que o gajo volta à vida, para a surpresa geral. Estando acordado, passou a relatar tudo o que vira no seu sono profundo.

Assim que sua alma abandonou seu corpo jazente, foi para um prado tranquilo onde se podia ver quatro aberturas, sendo duas no céu e duas na terra, que tinham o propósito de permitir o ir e vir das almas. Aqueles que eram justos, pegavam o caminho que subia aos céus, enquanto aos iníquos cabia descer às profundezas da terra. Era o Hades, uma espécie de inferno regido pelo deus de mesmo nome, no qual a parte mais profunda era o Tártaro, como uma masmorra onde ficavam os criminosos mais graves.

Esse trabalho de despacho era feito por juízes que se encarregavam de avaliar feitos e culpas de cada um que se lhe compareciam à frente. Disseram a Er para registrar todos os fatos, porque caberia a ele retornar à vida para contar aos outros homens como funcionava o além-vida.

Os recém mortos, portanto, seguiam pelas aberturas que conduziam ao céu ou às profundezas, enquanto os seus respectivos pares serviam para os regressos das almas. Estes que voltavam o faziam para reencarnar. Os que subiam do subterrâneo lamentavam as agruras que passaram, os que desciam dos céus cantavam seus dias felizes. Faziam-no porque ou cumpriam penas de mil anos, ou porque completavam mil anos de regozijo, tudo em função da vida anterior que haviam levado na terra.

Estes que regressavam carregavam consigo os rastros de suas experiências extraterrenas. Os que vinham do céu diziam das maravilhas que lá viveram, enquanto os que subiam do Hades davam graças por ter encerrado o sofrimento. De volta ao prado, as almas que retornarão à vida terrena vão dar de frente com as três Moiras, filhas da Necessidade, de quem sinto-me na obrigação de redigir um texto mais específico, o que farei em breve. Elas são Láquesis (passado), Cloto (presente) e Átropos (futuro), sendo que é a primeira que professa às almas o que haverá de acontecer: serão apresentados a elas vários modelos de destinos – vidas humanas e animais, com livre escolha de cada uma delas. Cada alma escolherá o caminho que percorrerá em sua nova existência. São vidas que tanto podem ser venturosas quanto pacíficas, tirânicas ou pastoris, guerreiras ou filosóficas.

Após a escolha, Láquesis nomeava um daimon para acompanhar a alma encarnante por toda a sua vida, que era urdida por Cloto e tornada irreversível por Átropos. Esse daimon, cuja palavra é a origem do termo demônio, não tem nada a ver com a visão cristã de espírito de maldade ou assecla de Lúcifer. O daimon é uma espécie de guia espiritual que seguirá o renascido em suas trilhas para garantir a execução do destino escolhido. Para nos trazer uma imagem, o daimon estaria atuando naqueles momentos em que temos uma intuição sobre o que devemos fazer nessas encruzilhadas da vida, de modo a nos manter no destino por nós mesmos escolhido perante as moiras. 

Após esse processo, as almas são encaminhadas para o Vale do Esquecimento, onde tomarão as águas do Rio Âmelas antes de reencarnar. Essa sorvedura tem o propósito de fazer esquecer as vidas passadas, para que a nova vida não seja contaminada pelas experiências passadas. Quem bebia demais, esquecia inclusive os vínculos com o Hiperurânio, tornando-se um tolo. Aqueles que bebiam apenas um pouco mantinham boa parte do conhecimento adquirido através das existências sucessivas.

A princípio, o mito de Er parece mais uma entre outras mitologias religiosas sobre o post-mortem, e realmente o é. A escatologia platônica está fortemente calcada na visão órfica, que pressupõe um dualismo corpo-alma e a eternidade dessa última, além da possibilidade de reencarnação e do tráfego entre planos distintos. A ideia de regresso à vida vem da ideia das religiões de mistério que intuíam muitos dos fenômenos humanos a partir da observação de acontecimentos naturais. Assim como uma planta morre em um ciclo, ela renasce por intermédio de suas sementes, o que também ocorreria com os seres sencientes. Inclusive, uma das hipóteses de reencarnação segundo Platão é parecida com a metafísica budista – há a possibilidade de se reencarnar como um animal. A ingestão das águas do Rio Âmelas representaria a ausência de lembranças das vidas passadas, embora aqueles que eram prudentes bebessem menos, o que lhes fazia manter uma tênue recordação, não dos fatos em si, mas das estruturas sapienciais que podiam ser revestidas por novas ocorrências, e este era o que poderia ser considerado o sábio na sua vida atual.

Mas o que está efetivamente sedimentado no mito de Er são os eixos éticos da filosofia clássica. Aqui, encontramos uma discussão bastante profunda com relação ao peso da justiça, que veio refletir inclusive no posterior Cristianismo. Qual é a responsabilidade moral que um indivíduo tem de praticar a justiça? A resposta do mito se dá na forma de prêmio ou punição que não são movidos pelo acaso, uma vez que eles são obtidos a partir de escolhas. Não se pode atribuir à sorte ou a uma divindade o destino que se obteve, vez que ele, desde a origem, é formatado por cadeias de causas e consequências disparadas por nossas opções de vida. Ou seja, muito antes dos existencialistas, Platão já colocava o peso das escolhas sobre o próprio indivíduo. Tudo o que é imputado para alguém de fora – acaso, divindade, outras pessoas – tem unicamente o encargo psicológico de tirar de si as culpas. Percebam que os paradigmas colocados por Láquesis ao retornante são proposituras, e não imposições. Embora não exista a opção de não reencarnar, é perfeitamente possível à alma optar por condutas morais mais perfeitas do que sua mera vontade pode guiar, já que a liberdade de escolha nesse caso é plena. O daimon escolhido para companhia estará em função desta mesma escolha, portanto não deverá ser a ele também imputada nenhuma responsabilidade pela escolha. Esse é o modo com o qual Platão desenha sua ética individual – o indivíduo é completamente responsável pelas suas escolhas, tem livre-arbítrio para tanto e disso deriva sua sorte e seu destino.

O mito de Er sintetiza também uma teoria das reminiscências platônica que não apenas casa com princípios de reencarnação que foram adotados muito mais tarde por espíritas, mas é também uma alegoria sobre o funcionamento de sua epistemologia. Relembrando do princípio geral de que os raciocínios nascem a partir de contatos intelectuais com o mundo das ideias, onde todas as formas são perfeitas, podemos nos perguntar por que não os retemos se estivemos em outras existências. O fato de se beber demais da água do esquecimento alegoriza justamente a atitude que não é filosófica: quem se embriaga com a água sintetiza unicamente a força do momento e da necessidade, sem refletir sobre a prudência da moderação e do cuidado intelectual. Dessa forma, a atitude racional de se manter o máximo de reminiscências melhora o aporte intelectivo em detrimento da supressão de uma necessidade ocasional. E com isso vem a máxima platônica de que aprender é relembrar. Por isso, Platão era um racionalista puro: tudo o que uma pessoa aprende já reside nela mesma, bastando que esse conhecimento seja ativado através da escalada do raciocínio, como Sócrates fez com o experimento intelectualidade do escravo (também vem texto sobre isso por aí).

Sendo assim, crianças, podemos perceber como as aparências enganam. Um mito não é só uma história da carochinha, nem uma mentirinha para ajudar a aquietar as crianças, mas, sendo bem utilizado, é uma ferramenta didática das mais efetivas. E também pudemos ver aqui como algo tão quotidiano quanto um porta-filtros revisitado pode conduzir a discussões que estão nas raízes dos problemas filosóficos há milênios. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O Mito de Er está na célebre República, então a recomendaremos novamente, sem qualquer constrangimento. Aprendam, jovens, que, se vocês quiserem tomar contato mais íntimo com a filosofia ocidental, esta leitura é inescapável.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



terça-feira, 21 de julho de 2026

Sobre patriotismo e refúgios de canalhas

(Samuel Johnson diz que “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. É ruim ser patriota, portanto?)

“Uma família que frequenta a igreja não terá um comportamento muito melhor, caso um de seus membros se torne ateu. É a reação a uma deserção, até mesmo a um roubo. Alguém ou alguma coisa roubou ‘nosso’ menino (ou menina). Ele, que era um de nós, agora virou um deles. Com que direito fazem isso? Ele é nosso”.

C. S. Lewis

Olá!

Bem, bem… sacumé, né? O brasileiro já é tão acostumado com apertos e aperreios que, quando eles acontecem, vão consagrar mais uma chacota. Não seria diferente desta vez, quando as coisas trafegavam pelo óbvio. Um futebol chinfrim não ia chegar mais longe de onde escretes autenticamente bons não passaram, ainda mais levando em conta que nem todo ano é 2004*.

A Copa acabou e tem gente dizendo que foi a copa dos protagonistas, dos craques e outras bazófias. Para mim, foi a Copa do óbvio. A campeã era uma das óbvias, a vice também, assim como terceiros e quartos colocados. O craque era óbvio, bem como o artilheiro, além é claro, das decepções, Brasil inclusíssimo. Notem que o grande drama do futebol brasileiro continua sendo o Maracanazo de 1950**. Esse doeu de fato. Os 7x1 foram a maior humilhação, mas não a maior desgraça. O chocolate alemão faz parte da longa cadeia de fracassos que se arrastará por pelo menos 28 anos, o que já constituirá o maior jejum de copas do Onze Canarinho. Então a campanha deste ano será uma espécie de indignação que se transformará em peça de humor, progressivamente. Isso é típico do Patropi.

Eu faço aniversário justo no meio de uma Copa do Mundo, mais especificamente a de 70, gloriosa. Minha mãe contava que meu pai, completamente bêbado, comemorava às escâncaras em pleno hospital a vitória contra o Peru, pelas quartas de final, assim como outros pais completamente bêbados naquela Mooca festiva pelo mega time que tanto orgulhava os 90 milhões em ação. Ou seja, nasci bicampeão para virar tri poucos dias depois. Sendo assim, a cada quatro anos é fácil de me dar um presente. Eu ganhei uma camisa da seleção este ano, daquelas do Extremo Oriente, fornecida pelo filho mais velho. Teve quatro usos e já vai para o fundo da gaveta, esperando 2030.

Mas eu já ouvi algumas pessoas dizendo que a camisa terá uso antes, nas proximidades da eleição deste ano. Sim, eu sei e já falei sobre o sequestro da amarelinha neste humilde espaço (vide), mas, pelo visto, ela continuará a ser uma marca política ainda mais uma vez, e não sei mais quantas, para nosso desespero. Fazem isso por se dizerem patriotas, amar o país e se opor à ameaça vermelha, essas coisas que não se sustentam, mas que seduzem vastas camadas da população, como se pode ver há mais de dez anos no Impávido Colosso.

O grande problema é que se autodenominar patriota é uma mera palavra, uma ação sem significado quando você olhar pela lupa e perceber que tanto os tais patriotas prejudicam sua pátria, muito além do que fazem os tais vermelhos, que também gostam de futebol, mas ficam vetados de amar seu próprio país, nos dizeres desses outros.

E a vingança vem na forma de palavras também. Os que se opõe a essa cosmovisão vão buscar na era georgiana da Inglaterra uma frase que, colocada solta, é uma delícia de pronunciar contra os supostos amantes do verde e amarelo: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Tem sido bastante usada essa frase.

Este é um aforismo que foi atribuído ao escritor inglês Samuel Johnson, através de sua biografia escrita por James Boswell. Johnson foi um dos mais célebres ensaístas e poetas ingleses do século XVIII, tendo escrito inúmeros artigos para jornais, além de sua especialidade maior, as biografias. Mas nada supera a sua frase lapidar.

Para entender um pouco melhor o que foi dito, é preciso compreender seu contexto, e, para isso, é preciso entender bem o que é o patriotismo e, mais ainda, o que é o amor storgé. Para tanto, vamos recorrer a outro pensador, o irlandês C. S. Lewis.

Eu não sou um dos maiores fãs deste escritor, mas é inegável que ele tenha desenvolvido bem as origens dos conceitos gregos de amor, e, por isso, caberá bem para o que quero discorrer aqui. O storgé é aquele amor que é inerente à espécie e que não depende diretamente de dispositivos racionais ou emotivos, sendo um tipo de instinto gravado na personalidade humana. Provavelmente ocorreu pelo nosso caráter gregário, já que uma predisposição a procurar companhia é um elemento favorável à sobrevivência de uma espécie que não se caracteriza por nenhum grande atributo físico que lhe possa garantir defesa. Dessa forma, surge um forte elo existente entre os membros de uma família, os membros da espécie mais próximos, que não depende de uma formação passional, mas de um convívio habitual. É como se meus genes dissessem que aquele meio é o lugar tranquilo onde eu posso estabelecer uma confiança mínima. Isso acontece em duas mãos. Um bebê tem necessidades que, sozinho, não consegue suprir por si mesmo. Então ele cria um laço afetivo por quem lhe supre essa necessidade. Por outro lado, o bebê é a continuidade da espécie de uma mãe que lhe deu à luz, então essa mãe lhe dá os cuidados como dádiva, e também forma laços poderosos com sua cria. Posto que sem esses nexos causais não haveria manutenção do ser humano, ele acaba sendo inerente à espécie.

Vamos pensar agora. Essa afeição interpessoal é extensível. Em uma comparação meio rústica, meu vizinho ajuda a vigiar meu quintal, e eu faço o mesmo, ampliando a segurança de ambas as casas. E, assim, outras pessoas vão sendo agregadas ao convívio familiar, e essas pessoas vem da sociedade que nos cerca. Esse amor-necessidade se estende à minha redondeza na medida em que eu tenho a necessidade de obter maior segurança, enquanto eu o devolvo na forma de amor-dádiva ao fazer a mesma coisa à minha vizinhança. Da mesma forma, idêntico sentimento se aplica em círculos cada vez maiores, por características que são compactuadas pelos grupos: a língua, o espaço físico, o governo, a bandeira, até o limite onde estes pontos comuns se quebram. Esse território afetivo, mais psicológico do que geográfico, é o que chamamos de pátria.

Podemos perceber que, em si, o patriotismo nada mais é do que uma afeição pelo espaço em que cada um de nós se irmana com aqueles que o condividem com a gente. E, em resumo, isso é quase que uma consequência natural do nosso instinto gregário. O problema, portanto, não está no patriotismo, mas no canalha. Não é o patriotismo que gera o canalha, mas o canalha que se aproveita do patriotismo.

Nestes tempos de Copa do Mundo, é notável a propensão em sentirmos um certo exacerbamento no sentimento patriótico, especialmente pela via de um dos raros ramos onde somos realmente competitivos internacionalmente. Isso enche de brios o povo, e dá sensação de unidade maior do que a que sentimos no quotidiano. Esse sentimento, apesar de legítimo, é facilmente manipulável, e não só por nós, auriverdes. Cansamos de ver o alaranjado presidente ianque interferir no evento, e ele não o faz porque é um amante de futebol, mas porque quer aproveitar cada minuto de destaque que a Copa dá. Nós estranhamos as suas atitudes, mas ele está bem consciente do que a sua comunidade, a sua sociedade, a sua pátria admira. Não à toa, foi eleito duas vezes, em que pese o insólito sistema eleitoral estadunidense. Ou seja, ele sabe mexer com as cruzetas que manipulam as marionetes políticas (ainda que nos causem congestão).

A questão da pátria vai no mesmo condão. Alegar ser um patriota, embora devesse ser uma mera platitude, nada mais é do que tocar em um ponto que é comum a praticamente todos, e isso costuma ser infalível no quesito populismo. Mas é exatamente aqui que entra a canalhice citada por Johnson. Se não tem reflexo na vida real de quem o profere, o patriotismo é um mero manto para interesses próprios. Imagine que você é um político cujas verdadeiras intenções não podem ser abertas a quem vai lhe eleger, sob pena de se ver despencar as intenções de voto. O que lhe restará de discurso? Duas coisas: falar de coisas bonitas, como Deus, pátria e família, e colocar seu adversário exatamente no ponto inverso, como se fosse impossível a ele ser cristão, ser patriota ou acreditar em valores familiares. Pior ainda quando se observa a sua prática, com valores que, a miúdo e sem manipulações, nada têm em comum com o discurso que se professa.

O sentido de refúgio do canalha é, portanto, o de uma casamata onde este pode se escorar todas as vezes em que o vazio de suas ideias se fizer evidente, ou a dubiedade de suas intenções se tornarem claras. Ele é canalha porque usa um sentimento comum como subterfúgio para manter seu meio de manter justamente aquilo que se opõe às suas próprias palavras. E isso desmerece o próprio sentimento de identificação.

Mas o discurso é eficiente, conforme se pode observar em Terra Brasilis.

Estranho esse país.

Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Esta é a obra onde Boswell eterniza o aforismo de Johnson:

BOSWELL, James. A Vida de Samuel Johnson. Volume I. Ebook. Brasil: José Filardo, 2019.


E o livro de C. S. Lewis a que me refiro é o seguinte:

LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.


* 2004 foi um dos anos mais atípicos do futebol mundial. Não foi um ano de copa, mas talvez teríamos algum campeão absurdo se houvesse. Foi o ano em que o São Caetano foi campeão paulista; o Santo André, campeão da Copa do Brasil; o Once Caldas foi campeão da Libertadores e a cereja do bolo: Grécia, campeã da Eurocopa.

** Maracanazo foi um dos episódios mais relevantes do futebol mundial, uma perfeita alegoria dos efeitos das comemorações antecipadas e da decepção com um resultado inesperado. O Brasil era favorito disparado para ser campeão mundial da Cop de 50, por inúmeros fatores: a copa sendo jogada em casa, um estádio novinho em folha e com cerca de 200 mil presentes, uma equipe poderosa, um retrospecto invejável naquela competição, a vantagem do empate e saindo na frente no placar. Mas futebol é futebol e o Uruguai, um time ótimo, mas ainda assim amplamente inferior ao escrete tupiniquim, juntou forças suficientes para uma virada histórica. Todos esses elementos transformaram o improvável resultado no maior drama nacional do esporte. O impacto foi tão forte que até mesmo o uniforme da seleção foi mudado, e o bode expiatório eleito, o goleiro Barbosa, passou o resto de seus dias carregando o fardo de uma culpa que não foi sua.






quinta-feira, 25 de junho de 2026

O café filosófico do quotidiano – a Escola de Kyoto e suas aproximações e contraposições ao pensamento ocidental

(O que é a Escola de Kyoto, principal centro intelectual do Japão?)

“Alguns homens nunca tinham ouvido falar dos escritos asiáticos, e outros jamais se convenceram de que havia algo de valor neles. A todos convém desculpar ou encobrir nossa ignorância, e raras vezes estamos dispostos a permitir alguma excelência além dos nossos próprios limites, semelhantemente aos selvagens que imaginaram que o Sol subia e se punha apenas para eles, e não podiam imaginar que as ondas que rodeavam suas ilhas deixavam corais e pérolas em qualquer outra praia”.

William Jones

Olá!

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Não preciso perguntar se já aconteceu de você, eventual leitor, acordar atrasado para compromissos do quotidiano. Isso deve ter acontecido com certa frequência, neste mundo que não gira, antes capota, especialmente nas nossas metrópoles travadas e longínquas em termos de trânsito. E isso faz com que todo o seu planejado saia do eixo e tudo vire de ponta-cabeça. O reajuste das ações exclui preparos longos e mobiliza a adoção de atalhos. Com isso, aquele cafezinho feito com critério e detalhe precisa ser acelerado, para a infelicidade geral da nação.

Só que dá uma pena desgraçada de queimar vela boa em cima de defunto ruim, ou, melhor dizendo, café de primeira com processo açodado. Então, ao invés de se fazer um despejo único, como se fosse um balde, é possível usar um acessório que torna essa tarefa minimamente mais racional: um gotejador de acrílico que faz o fluxo de água ser feito de maneira contínua, sem a necessidade de se ficar debruçado sobre a tarefa.

A mecânica é simples. O gotejador possui um recipiente onde pode ser colocada água suficiente para uma extração de duas xícaras. Então basta colocá-lo por sobre um método compatível e despejar a água toda da operação.

Como os furos da base do gotejador são diminutos, o fluxo é controlado para que não haja um despejo imenso de uma vez só, o que costuma extrair menos do que um café pode te oferecer.

São combinadas, portanto, uma velocidade compatível para a decência do café e a necessidade de mãos livres para passar manteiga no pão, dentre outras tarefas, do tipo calçar meias e contar o dinheiro do ônibus.

Nome do utensílio: Gotejador acrílico

Tipo de técnica: Retenção de água para gotejamento lento 

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Não se aplica

Dinâmica: Coloca-se o gotejador sobre um método compatível com o café já devidamente alojado. Despeja-se toda a água necessária para a percolação no depósito e aguarda-se o escoamento total. 

Resíduos: Não se aplica, dependendo do método a ser utilizado

Temperatura de saída: Não se aplica, mas, sendo um estágio a mais, tende a torna a temperatura mais baixa

Nível de ritual: Baixo

Estamos diante de um objeto sobre o qual podemos lançar uma dupla visão. Por um lado, no nosso corrido dia-a-dia, é bastante interessante a possibilidade de manter algum controle sobre o sagrado café enquanto saímos correndo atrás de brincos e gravatas. Por outro, é uma espécie de reconhecimento de que não conseguimos dar conta de nossos rituais, lançando mão de expedientes fundeados pragmaticamente, e não no seu autêntico propósito: eu já falei aqui, inúmeras vezes, que o café deve ser feito com cuidado e atenção, e com isso ganhar um novo significado. Tire o café e coloque o que quiser no lugar. A partir do momento em que ele passa a ser um problema a ser resolvido, metade de seu sentido se perde.

É preciso perceber que o mundo é assim mesmo, que ganha velocidade na mesma medida em que se globaliza, ao mesmo tempo em que o trânsito metropolitano aumenta seu travamento a cada dia que se passa, e optamos pelo caminho de abrir mão da serenidade em nome da oportunidade. E é isso que esses fabricantes orientais percebem ao mirar o consumismo ocidental.

Não se trata de pensar somente em coisas ruins. Apenas somos mais agressivos em nosso consumismo e, por isso, somos bons para fazer negócios. Um belo dia, o lado direito do mapa-mundi olhou para nós com menos ojeriza, e viu que aqui havia o que ser absorvido, de modo a até mesmo influenciar em suas filosofias, a ponto de fundar escolas específicas de pensamento.

Escolas filosóficas não são fenômenos raros. Sempre temos uma tendência que capitaneia linhas de pensamento, da mesma forma que é possível observar desenhos táticos prevalentes em determinadas épocas no campo do futebol. Um futebol mais malemolente, apoiado no drible e na improvisação é característico da escola sul-americana. Uma organização tática rígida e muita força física está mais no contexto da escola alemã, assim como o esforço físico levado até a extenuação é a cara da escola italiana, e a escola inglesa se baseia em jogadores altos e inúmeros chuveirinhos. Ora, direis, isso tudo se aplicava ao passado, hoje as coisas estão quase que invertidas. É verdade, e isso demonstra como essa questão de escolas é variável no decorrer do tempo. Hoje os times sul-americanos têm mais que se defender do que os europeus, que lhes toma os melhores jogadores quase no berço. Mas, passons, o mundo gira e a lusitana roda, sem que possamos ter tanto controle assim.

Mas eu dei essa volta para dizer que há diversas escolas filosóficas, que vão desde de divisões dicotômicas, como os racionalistas e os empiristas, até divisões que se dão mais por geografia que por temática. Temos a Escola de Frankfurt, especializada na interpretação moderna do marxismo, o Círculo de Viena e seu positivismo lógico, a École des Annales e a nova historiografia francesa. E já que estamos nos referindo a um produto fabricado no leste do globo, temos aquela que é a primeira escola fundada no Oriente que obteve reconhecimento do mundo ocidental: a Escola de Kyoto.

Kyoto é uma cidade que forma, junto a Kobe e Osaka, a segunda maior região metropolitana do Japão, atrás apenas de Tóquio e adjacências. É uma região que guarda um pouco mais das tradições locais em relação à capital, mas que possui um dos maiores centros educativos do país, a Universidade de Kyoto, cujo principal diferencial está nos estudos das ciências humanas. Também é a terra onde se assinou o célebre protocolo de proteção ao meio ambiente, onde os países da ONU se comprometem, fundamentalmente, a baixar os níveis de emissão de carbono. Embora não tenha sido adotado por quem mais precisava, deixou um importante legado ao ser pela primeira vez colocada a hipótese de compras de créditos de carbono, uma maneira de compensar excessos de emissões e de tentar resolver o problema pela via do bolso, já que pela consciência está difícil.

O aspecto humanista verificado aqui tem a ver com a quantidade de templos da região. Compreende-se que Kyoto se manteve mais fiel do que Tóquio com relação às tradições milenares, e, levando em consideração que grande parte da filosofia praticada no Japão tem fundo religioso, até mesmo porque a religião nipônica tem correlação mais estreita com princípios filosóficos que a matriz abraâmica ocidental (vide), faz sentido que lá se desse o germe da imbricação intelectual com o ocidente.

A Universidade de Kyoto é célebre pela liberdade de pensamento, o que garantiu, desde seus primeiros anos no século XIX, que diversas correntes intelectuais se desenvolvessem concomitantemente. Pouco após sua fundação, seu corpo diretivo já era escolhido por consenso do corpo docente, ao invés de receber indicações do Ministério da Educação do governo central. E é dele que partiu a iniciativa de traduzir para o japonês moderno mais de 30 mil títulos da literatura ocidental, além de fazer o envio dos primeiros jovens estudantes para intercâmbio cultural na Europa. O próximo passo veio na forma de convite a professores de filosofia europeus para ministrarem aulas em solo japonês, o que foi, aos poucos, ampliando cada vez mais a interpenetração entre ambas as culturas acadêmicas.

Isso fez de Kyoto uma espécie de Sorbonne do Extremo Oriente. E, junto ao seu nome, criou-se a abstração que leva o nome de escola, no sentido de estabelecer uma corrente de pensamento que possui algumas características em comum. E a maior delas é a absorção de conteúdo ocidental e sua mescla com as ideias fundamentalmente nascidas do zen budismo.

É preciso, antes de mais nada, situar-se minimamente no tempo e no espaço. O Japão até hoje é ponto de referência quando queremos ter um exemplo de distância, mesmo em tempos de voos intercontinentais com aviões turbinados. E isso se dá há coisa de 100 anos, quando os primeiros aviões conseguiram autonomia suficiente para chegar em um ponto do Oceano Pacífico nem tão próximo da massa continental asiática. Portanto, o contato com o Japão era coisa muito precária até bem pouco tempo atrás. Some-se a isso uma diferença abissal da cosmovisão clássica oriental e as posições ocidentais: mesmo que não façamos juízos de valor, as diferenças de estrutura familiar, de acepção religiosa, de sistemas políticos e sociais e qualquer outra coisa que se possa pensar são tão opostos quanto os pontos de localização no globo.

A evolução dos transportes e das comunicações fizeram com que o contato entre as duas metades do mundo se tornasse mais intenso. E isso resultou em um novo modo de se olhar a maneira de pensar do ocidente. Antes de se tornar um desvirtuamento do pensamento nipônico, os estudiosos de Kyoto perceberam que eles eram complementares.

Embora a escola tenha gerado um número expressivo de pensadores e trabalhos filosóficos, podemos dizer que a tradição que foi criada a partir de seu nascimento possui um tripé composto por pensadores que vieram em sucessão: Kitaro Nishida, Hajime Tanabe e Kenji Nishitani. Cada um à sua forma, todos trilharam mais ou menos o mesmo caminho. A partir de uma matriz budista, fazer a releitura dos fundamentos ocidentais, sem que se tire valor deles por uma questão nacional.

A metafilosofia por trás do pensamento de Kyoto era a universalidade do pensamento. A aproximação ao ocidente se justifica pelo valor dado aos processos cognitivos e pela lógica em qualquer lugar do mundo, que para ter os atributos de universalidade e necessidade, precisavam valer em qualquer tempo e em qualquer lugar. Isso inclui Japão e Alemanha, o principal ponto de contato na Europa para os discentes de Kyoto. Esse posicionamento trouxe críticas de fundo político ao movimento. Por um lado, os nacionalistas afirmavam que, ao se render ao pensamento ocidental, os pensadores de Kyoto perdiam a pureza de uma intelectualidade puramente nipônica. Por outro, a adesão entre ambas as tendências filosóficas (o racionalismo ocidental e a religiosidade oriental) remove as liberdades da primeira, já que, mesmo diante de uma transcendência mais racional, ainda aqui temos posições dogmáticas.

Eu já mencionei aproximações de pensadores europeus ao budismo, e o que a escola de Kyoto fez foi exatamente o mesmo procedimento, porém do lado de lá. Objetivamente, foram mirados os pensadores alemães, exatamente aqueles que fundamentaram toda a filosofia contemporânea: Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger. Notem que são autores que tratam de temas absolutamente universais, ou de pensadores que já tinham um olhar sobre a filosofia oriental, o que, evidentemente, facilita tanto a compreensão, quanto o interesse. São momentos em que se pode perceber uma vontade em se desvincular daquela ideia de que há um conhecimento base do qual outras vertentes, de outros povos, deverão derivar. 

Certamente um dos principais ganhos da Escola de Kyoto foi a criação de um contraponto dialético ao pensamento ocidental, mas não na forma de antítese, e sim de complementaridade. Os ocidentais se preocuparam, via de regra, com o Ser, com a substância e sua maneira de se integrar ao universo. Já os pensadores de Kyoto trabalharam com o reverso da medalha, também considerado pelos ocidentais, mas sem o nível de profundidade que o tema merecia: o Nada. Para mencionar um exemplo, enquanto os existencialistas enxergam o vazio como ausência de sentido para a vida e daí como o grande motivador da angústia, os nipônicos não o veem nessa clave negativa, mas justamente no espaço onde a vida ocorre. Sem o Nada, não há o Ser, porque ele não teria onde subsistir.

Também o fenômeno da consciência tem lugar nos alfarrábios de Kyoto. A experiência é, para eles, tudo aquilo que está além da divisão entre sujeito e objeto, que se dá pela percepção imediata e irreflexiva diante de um fenômeno qualquer. É dessa forma que eles propõem uma solução para o problema da epoché fenomenológica proposta por Husserl: se extraída antes do processamento racional, a experiência ainda não sofrerá todos os efeitos da imersão cultural própria de um indivíduo, e poderá se apresentar mais purificada.

Ainda outro conceito caro à filosofia ocidental, o niilismo, encontra acolhida e aperfeiçoamento pelos nossos bravos estudiosos da Terra do Sol Nascente. O problema diz respeito à negação dos valores que se dá pela perda de sentido dos seus sustentáculos originais na cultura geral da humanidade. Enquanto Nietzsche propõe a supressão da subversão dos valores através da explosão da vontade de potência, os filósofos desta escola defendem o princípio budista da impermanência para o reconhecimento da transitoriedade universal, inclusive nesses mesmos valores que se perderam pela transformação em andamento do universo inteiro, inclusive dos seus valores.

Esses são alguns dos temas que são abordados por Kyoto, que eu já trouxe por aqui e pretendo fazê-lo mais, na medida em que der encaixe e eu me aprofunde um pouco mais em seus autores. Talvez aconteça como naquele dia em que o despertador falhou, ou como em um tranquilo de silêncio e paz, como em uma inspiração espiritual, nunca se sabe. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Para se aprofundar mais nesta interessante escola de pensamento, existe um livro muito completo, que indico logo abaixo.

FLORENTINO NETO, Antonio; GIACOIA JR., Oswaldo. O Nada Absoluto e a Superação do Niilismo. Os Fundamentos Filosóficos da Escola de Kyoto. Campinas: Phi, 2013.