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segunda-feira, 22 de abril de 2024

Navegações de cabotagem – O Memorial Padre Léo de Lorena e as tentativas de reforçar a fé através dos argumentos filosóficos

(A fé deveria subsistir por si mesma, mas volta e meia ela precisa de reforços)

“...nada acontece sem uma razão suficiente; isto é, que nada ocorre sem que seja possível, para aquele que conhece as coisas muito bem, fornecer uma razão suficiente para a determinação do porquê as coisas serem assim e não de outra maneira. Dado esse princípio, a primeira questão que colocamos é: por que há alguma coisa em vez do nada? Afinal, o nada é mais simples e fácil do que alguma coisa”.

Leibniz

Olá!

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O Vale do Paraíba, muito mais que um acidente geográfico, é um autêntico manancial de História, com o perdão do trocadilho. Para quem vê desavisadamente, pode parecer a ponte que liga os dois polos da megalópole Rio-São Paulo, mas essa impressão oculta todo o tamanho da cultura que se espalha por esse espaço entre a Serra do Mar e a Mantiqueira, que inclui gastronomia, arquitetura, tropeirismo, ofícios da terra e da fábrica, histórias contadas e religiosidade, muita religiosidade em seus caminhos. É aqui que temos a basílica de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, a sede do movimento Canção Nova, o Santuário das Duas Cabeças e o Santuário da Rosa Mística, somente para citar alguns. Mas há mais.

Em uma tarde de domingo, fui até a cidade de Lorena, distante poucos quilômetros da Taubaté onde mora a filha mais nova. Ela teve fé demais na meteorologia e confiou em uma blusa de lã, para um sol que viria a passar dos trinta graus em poucas horas. A solução, nestes casos, é saber se há algum shopping nas proximidades, porque o comércio dominical abre poucas coisas. Ele há, e fica próximo à Dutra, e foi fácil resolver o problema da camiseta e do almoço. Com o sol pinado, fui até o fundo do estacionamento para tentar achar alguma sombra, que encontrei próximo a uma construção inesperada, muito parecida com uma igreja. Parecida não; é uma igreja… uma igreja em um shopping, é novidade para mim. Mas a questão era o que havia atrás dela: um memorial, dedicado ao Padre Léo, que eu não conhecia ainda. Vamos lá então.

Em primeiro lugar, é preciso dar alguns elementos biográficos e contextuais para se entender que é o Padre Léo. O advento da Renovação Carismática é um movimento que incorporou elementos do protestantismo pentecostal, como cantos emocionais, entoados em primeira pessoa, manifestações do Espírito Santo, uso de depoimentos chamados de testemunhos e outros elementos que transformaram o cerimonial católico mais rebuscado em uma versão mais performática, com ampla participação da assembleia. À parte disso, tem um fundo moral mais conservador do que, por exemplo, aquele das igrejas saídas do Concílio Vaticano II e da Celam de Medellin, menos ligadas aos ritos e mais engajadas socialmente. Nesse contexto, os carismáticos são midiáticos, e começaram, cada vez mais, a ter seus padres pop star, inclusive se tornando fenômenos da cultura popular, como o Padre Marcelo, Padre Zeca e outros. Padre Léo surge nesse meio, sendo considerado uma espécie de comediante de stand up, dado o uso de “causos” e criação de histórias humorísticas para ministrar conteúdo moral, o que o tornou muito querido pela sua comunidade.


A igreja do estacionamento do shopping é a Capela do Sagrado Coração de Jesus, pertencente à Comunidade Bethânia, que foi fundada pelo próprio Padre Léo para tratar de dependentes químicos.

O memorial dedicado ao padre fica logo atrás, em um pequeno anexo que contém muitos dos seus objetos pessoais, de uso no ofício e de seus pensamentos em geral.

O padre teve participações em um programa de televisão, e a curiosidade é que há uma recordação deste fato, que era feito simulando uma beira de fogão à lenha, algo muito típico do interior e que remetia à sua metodologia de ensinar. Lá, ele interagia com um boneco que servia de escada para ele introduzir sua temática religiosa. 

Padre Léo teve a vida curta, morrendo em 2007, aos 45 anos, vítima de um câncer no sistema linfático. Ele colocou o tema abertamente em suas pregações, como uma forma de alimentar a fé de quem se encontrava em situações semelhantes de desesperança. Mesmo já bastante debilitado, ainda participava o quanto podia de celebrações e eventos.

Após sua morte, imediatamente se iniciou um processo de beatificação, que é um dos passos para que uma pessoa entre no cânon dos santos da Igreja Católica, o que levou a uma valorização de suas relíquias, e que desembocou na criação do memorial que visito agora.

Todo processo de inscrição de um santo no Catolicismo é longo e cheio de nuances, Primeiro, há um pedido formal para que alguém se torne elegível à bem-aventurança; ocorrido algum milagre, vai-se à beatificação. Depois, com o correr do processo e mais outro milagre, poderemos ter a canonização, e o novo santo vai aos altares, embora a atual Igreja Católica mire seu olhar mais para a vida do candidato do que propriamente a feitos sobrenaturais. Aqui temos a urna que continha os restos mortais do Padre Léo, que foi trasladada durante seu processo de reconhecimento. Isso ocorreu porque o padre estava enterrado em sua terra natal, Minas Gerais, mas a beatificação começou pela Comunidade Bethânia, que fica em Santa Catarina.

Vidas religiosas podem ser admiráveis até por incréus, quando sua ação foge ao mero espectro das liturgias e teologias, e vazam para o terreno social. O exemplo de São Francisco é sempre facílimo de lembrar, mas há sempre casos mais recentes como os de Chico Xavier, dom Paulo Arns, dom Pedro Casaldáliga, irmã Dulce e tantos outros. São pessoas que escolhem doar a vida para uma causa, e isso transcende a fé que defendem.

Mesmo nos meus tempos de religioso, eu tinha muitas restrições práticas ao ponto onde eu acreditava que poderia chegar. Essa dose de heroísmo a que certas pessoas se dão não fazia minha cabeça, e eu sabia que não teria coragem, por exemplo, de encarar um martírio para abnegar minha fé, nem em sonhos, como tantos fizeram. Talvez, parafraseando os testemunhos de conversão, lá no fundo, no fundo eu já soubesse que não acreditava em nada, apenas não deixava aflorar isso em minha consciência por alguma espécie de medo da desconversão.

A questão deus é complexa. Embora seja o sonho da humanidade ter uma entidade que lhe guarde e dê expectativa de dias melhores, o fato é que, estamos assentes, não há como colocar uma divindade em um tubo de ensaio, como li em algum lugar. As próprias características que se lhe dão o excluem do campo da prova, e, ato contínuo, do âmbito científico. Coisas como onipotência, eternidade temporal, infinitude espacial e outros penduricalhos inviabilizam a investigação, e resta a fé, o que, aliás, é defendido por muitos religiosos: deus não precisa estar nos observatórios, mas nas igrejas. Tentar elaborar deus como um artigo científico é afastar-se da essência dele.

Resta só a fé? Não, há também a filosofia, e, por ela, há alguns argumentos que tentam provar deus pela via lógica, sem levar em conta a materialidade necessária para a ciência. Sendo assim, sempre que se tenta falar em provas da existência de deus, é por essas sendas que se corre.

Via de regra, esses argumentos fazem uma regressão de causa e efeito até o ponto em que não há mais como retroceder sem que exista um causador sem causa. É uma hipótese que vem desde Aristóteles e seu primeiro motor imóvel, sendo que nosso amigo estagirita não arriscava uma divindade específica para nomeá-lo, ao contrário de são Tomás de Aquino, que já cravou o seu Deus cristão para a tarefa, utilizando o mesmíssimo argumento.

A coisa é mais ou menos assim: tudo o que existe tem uma causa que lhe deu origem. Um fruto era uma flor, que era um botão, que era uma semente, que veio de outro fruto, que era outra flor, e assim por diante, em um processo de regressão infinita. Entretanto, entende-se que a cadeia de causas e consequências teve um começo, uma causa incausada, o kinoumenon kinei, com os atributos de ser substância imaterial, indivisível, eterno, uniforme, essas coisas todas. Como se pode perceber, esse conjunto de características é imediatamente aderente ao conceito de um deus, sempre igual a si mesmo, que não depende de nada mais do que si para se justificar, e assim vai. Embora seja possível contestar esses arrazoados, o certo é que eles são poderosos, porque fornecem lógica a uma cadeia de fenômenos que são quase todos bastante intuitivos, e onde se encaixa perfeitamente, no começo, o deus que se quiser.

Só que tem uma coisa. Por mais bem engendrado que seja o argumento, ele continua sendo uma hipótese, e não uma prova. Sendo assim, contestações podem ser abundantes, e de fato as são. Por conta disso, o tal argumento cosmológico sempre foi recebendo melhorias, de modo a trazer mais premissas e tentando fortalecer a conclusão. O principal problema é que normalmente ela segue uma rota de petitio principii, ou seja, a resposta já está dada; o que falta é construir as questões de forma a se conduzir para ela.

Leibniz, já no século XVIII, sintetizou uma forma desse argumento em um silogismo e adicionou a questão da contingência para reforçá-lo. Segundo ele, era preciso dar uma resposta à grundfrage, a pergunta fundamental ao redor da qual toda a filosofia girava: por que há algo, ao invés de nada?

Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que este nada a que Leibniz se refere não se trata de um grande vácuo, de um imenso vazio onde não há planetas, estrelas ou qualquer outra matéria, onde, no entanto, existe um espaço, mas um nada ontológico, onde não houvesse nem tempo, nem espaço, nem coisa alguma que pudesse ser pensada: o absoluto não-ser.

Para formular sua hipótese, Leibniz lança mão de um antigo princípio que usa um encadeamento lógico semelhante à regressão infinita: a razão suficiente. Este princípio diz que existe uma relação necessária entre um fato e outro, que é de uma determinada maneira e não poderia ser de outra. Se há algo, existe uma razão suficiente que lhe deu causa, que lhe moldou na origem e que justifica não só sua existência, mas que ele seja como é.

E qual seria essa razão? Diz Leibniz que ela não poderia partir de uma causa contingente. De uma causa o que?

Contingências são todas as coisas que são de uma determinada forma, mas poderiam ser de outra. Estou aqui em frente à minha xícara de café, mas poderia ser de infinitas outras maneiras: poderia ser chá, leite (eca), chocolate, água, suco, pinga ou nada. Entretanto, o encadeamento de uma série de fatos e fenômenos levou a ser o que é, e, dados todos eles, não seria de forma diferente. O café está contingentemente na minha frente por causa de uma razão suficiente moldada por todo esse conjunto de circunstâncias. Por outro lado, necessário é tudo aquilo que é da forma que é, e não poderia ser de outra forma. Eu coloco no meu caderninho a expressão 2+2, e procuro, de alguma forma, respondê-la diferentemente de 4. Como uma criança, junto duas pedrinhas brancas e duas pedrinhas marrons, duas laranjas e dois abacates, duas galinhas e dois gatos, duas cadeiras à direita e duas cadeiras à esquerda, duas telhas em cima e dois tijolos embaixo, e o resultado é sempre o mesmo: quatro elementos. Temos aqui uma relação de necessidade: dois mais dois é igual a quatro em qualquer circunstância.

Ok. Se o universo não pode partir de uma causa contingente, precisa partir de uma causa necessária. Leibniz retira essa causa da matéria, porque cairíamos em um princípio de regressão infinita e bateríamos na mesma parede de Aristóteles. A matéria, por si só, é inerte, e só se põe em movimento quando há uma causa para isso. Por isso, a matéria não se explica sozinha. Há de existir uma causa necessária fora da cadeia das contingências, e, para isso, essa causa precisa ser bastante em si mesma, conteúdo de toda perfeição, onipotente, onisciente, cuja existência de tudo deriva de sua própria perfeição. Conhecem algum ser que possui esses atributos?

Resumindo, o argumento contingencial de Leibniz é o seguinte: se há algo, é porque há uma razão suficiente para tanto. Essa razão não pode ser contingencial, haja vista que somente uma causa necessária basta em si mesma. A necessidade implica em perfeição e outros atributos inamovíveis, que só podem pertencer a deus.

O grande problema deste modelo de explicação reside no salto lógico que é imputar para um deus determinado a causa necessária. Quando a ciência fala em Big Bang ou coisas semelhantes, para por aí porque não há como especular o que vem antes. O grande círculo que é a imensa expansão universal até um certo limite, para depois voltar a encolher e se concentrar em um mesmo ponto, onde o mesmo fenômeno de expansão se dará novamente, e novamente, e novamente não explica o que colocou aquele ponto incrivelmente concentrado a se mover pela primeira vez. O que faz a ciência? Coloca um ponto final na sua tarefa, até que seja possível novamente aferir o que está na relação de causa e consequência. É incômodo, mas é aceito.

Colocar a causa incausada como princípio de todo o universo é um by-pass lógico, porque responde a tudo sem responder a nada. Isso porque a cadeia de questões continua. Consideremos que, de fato, tenhamos uma divindade que lá em um ponto inespecífico do tempo e do espaço criou o universo. A quantidade de perguntas que surgem daí são ainda maiores do que as materiais: qual divindade é essa? Se é perfeita e basta a si mesma, para que criou o universo? E se não é, não é ela mesma contingente? Não poderia ter sido ela também criada? Neste último ponto, não pode ser o universo divinizado e ele mesmo ser a causa incausada? Ainda: deus é mesmo a única causa necessária por excelência? Não há mais espelho nos entes matemáticos (o 2+2 que citei) do que em uma certa divindade? Ao menos, os números traduzem o universo. São tantas as perguntas possíveis que acabam por transformar a hipótese de Leibniz mais uma entre outras.

Há algo de errado em se especular o que viria antes de todos os movimentos? Não, absolutamente nada, porque é disso que se alimenta a filosofia. A grande intercorrência está em chamar isso de prova. Isso não é prova. É, no máximo, um argumento engenhoso, que pode ser verdadeiro ou não, e que, com isso, vai cair no que acreditamos, e não no que sabemos. Especificamente, é por isso que se presta a alimentar a fé, e não o conhecimento. Bons ventos a todos!

Recomendações:

O escrito de Leibniz que contém seu argumento cosmológico está na seguinte coletânea:

LEIBNIZ, Gottfried. Princípios da Natureza e da Graça. In: A Monadologia e Outros Textos. São Paulo: Hedra, 2009.


O memorial do Padre Leo, como eu disse fica dentro de um shopping, o Eco Valle, e segue o seu endereço:

Centro Cultural Memorial Padre Léo

Estacionamento do Shopping Eco Valle

Rodovia Presidente Dutra, Km 53

Jardim Novo Horizonte

Lorena/SP

A aproximadamente 198 Km do centro de São Paulo

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Sobre os princípios racionais e nossa mania de classificar

Olá!

Tudo bem com vocês? Olha, eu lancei há bem pouco tempo atrás minha postagem comemorativa de dez anos deste humilde blog, e até que o número de visualizações está acima da média. Para quem gosta de listas, o endereço é este, e lá tem de tudo um pouco: dos meus textos, de Filosofia, de futebol, comida, livros e lojas, entre outros badulaques e penduricalhos.

Está tudo lá para se concordar ou achincalhar, desde que com o devido respeito. Afinal, nada há mais de opinativo na vida do que listas. Eu pergunto para Joãozinho as comidas que ele mais gosta e lá vem feijoada, churrasco e chocolate. Mariazinha discorda dizendo que doce não é comida, e Joãozinho reage perguntando por onde Mariazinha come o chocolate. Não quero criar nenhum tipo de caso, nem mesmo entre meus estudados hipotéticos, mas, como eu disse no próprio corpo do texto, o ser humano tem uma sanha classificatória combinada com indolência elaborativa. Não se assuste, todo mundo é assim em alguma medida. Isso parte da nossa capacidade de raciocinar.

Mas não deveria ser exatamente o inverso? Bem, na parte da preguiça talvez, mas mesmo ela tem sua razão de ser. Quando utilizamos listas e classificações, estamos preenchendo o barramento de informações que utilizamos nos nossos pensamentos, ou, em outras palavras, estamos trazendo informações de referência para a memória. Nem sempre estamos seguros quando construímos nós mesmos esse processo, e por isso recorremos a ajudinhas. A coisa cresce ainda mais quando lembramos das vantagens evolutivas em se copiar processos bem sucedidos, especialmente no quanto isso facilita nossa adaptação ao meio. Já falei sobre isso várias vezes, podem ler este texto aqui para ficar mais claro.

Isso tudo faz parte do jogo da razão, considerada nosso grande distintivo das demais espécies, ainda que muitas vezes não pareça. Na própria origem da palavra já podemos pegar umas dicas. Vem de ratio, palavra latina que significa “dividir”, e, por extensão, “calcular”. Vejam: palavra como racionar ou rateio carregam também consigo esse mesmo sentido, o de distribuir adequadamente um objeto. Fazemos exatamente isso quando raciocinamos, ainda que inconsciente e automaticamente: dividimos os problemas em partes compreensíveis, classificamos as separações e concatenamos todas as partes de maneira lógica. Raciocínio não é muito mais do que isso e Descartes explica.

É claro que, falando assim, tudo parece mais simples do que verdadeiramente é. Há regras a reger o pensamento, de modo que não extraiamos meras abobrinhas do pomar de nosso patrimônio mental. Essas normas não são aplicáveis cem por cento do tempo, e, quando estamos só nos defrontando com os absurdos do dia-a-dia, não há muito compromisso lógico, mas quando estando proposicionando, aí sim é de rigor que o raciocínio tenha balizas, ou, melhor dizendo, princípios.

O primeiro deles é o princípio da identidade, que é resumido classicamente com a sentença A=A. Ou seja, qualquer coisa é igual a si mesma: Joãozinho é Joãozinho, Mariazinha é Mariazinha, malandro é malandro, mané é mané. Em um primeiro olhar, parece a assertiva mais estúpida de todos os tempos. Mas há um verdadeiro oceano de justificativas por trás de axioma tão aparentemente singelo.

A primeira coisa a pensar é a seguinte: por que o nosso costumeiro RG é também chamado de cédula de identidade? Ora, porque ela identifica uma pessoa, e isso significa descrever uma série de características que são próprias dela e que a tornam única. Neste documento, existe um conjunto de informações que pretendem tornar seu portador um indivíduo único. Data de nascimento, nome dos pais, local de nascimento e digital do polegar são dados que, somados, são irrepetíveis, e por esse motivo fazem com que você possa ser identificado com segurança. Identificar, portanto, significa que a descrição de um cidadão corresponde a ele mesmo, tornando-o único e distinguível de todos os demais. Idem, o étimo da palavra, significa 'o mesmo'. Você é você, seja em carne e osso, seja documentalmente – concreta e abstratamente.


Essa propriedade de identificação, por conseguinte, faz com que seja possível tornar único qualquer objeto dentro de qualquer relação. É possível mudar os referentes, mas o objeto permanecerá o mesmo. Quando eu falo em São Paulo, Terra da Garoa, Capital da Solidão, cidade mais populosa do Brasil, terra da gastronomia, túmulo do samba, território nas coordenadas tal e tal, cidade-sede de um time chamado Nacional, pelo princípio da identidade, estou falando sempre da mesma coisa, possuidora da mesma identidade, o que a torna única entre todas as cidades do mundo. As variações nas designações são uma mera questão de sinonímia, e não de troca de essência. E é obedecendo este princípio que conseguimos estabelecer relações racionais. Imagine se falássemos de São Paulo sem ter exatamente sua identidade. Como saberíamos qual passagem comprar, como poderíamos saber do seu PIB, do seu IDH, como poderíamos nos situar no espaço se não temos elementos para identificá-la firmemente? Portanto, dizer que A=A não é um mero papo de malucos, e sim a síntese de uma parte de qualquer processo de racionalização, que busca isolamento de partes. Como eu isolo uma parte se não tenho como a identificar seguramente?

Só que o princípio da identidade sozinho não carrega o piano da retidão lógica de um raciocínio. O princípio da não contradição é quase uma derivação do princípio da identidade, que, de certa forma, deixá-lo-ia inválido se não existisse. Resumidamente, diz que uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo, ou, melhor dizendo, não é possível que se obtenha verdade de duas afirmações contraditórias ao mesmo tempo e na mesma relação.

O processo em que imputamos atributos é chamado de predicação. Lembra daquela história de sujeito e predicado nas aulas de português? É exatamente isso: alguém recebe qualificações, e essas qualificações devem seguir alguns critérios para atender a um bom raciocínio. O principal deles é regido pelo princípio em tela. Não é possível predicar um sujeito com atributos contraditórios, não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Vamos para os exemplinhos, que sempre são mais didáticos:

No momento que estou digitando este texto, vejo pelo canto dos olhos meu celular transmitindo o jogo em que meu pobre Nacional vai levando sua biaba do Noroeste de Bauru. Algumas situações – para que eu esteja digitando o texto, é necessário que o computador esteja ligado, idem com o celular que está transmitindo a contenda. Eles não podem estar ligados e desligados ao mesmo tempo. Se o Nacional está perdendo do Noroeste, ele não pode estar ganhando. Não se ganha e perde ao mesmo tempo. Pode até ser que o Ferrinho vire o jogo, mas não temos aí a mesma relação temporal. Também é possível que o pessoal da bocha do Naça tenha aproveitado a viagem e esteja fazendo o resultado oposto contra os velhinhos do Norusca. O resultado é oposto, mas não há contradição, porque a relação não é a mesma: uma coisa é o jogo de futebol, outra é o de bocha.

Trocando em miúdos, não é possível que uma proposição seja verdadeira e falsa ao mesmo tempo, ou que uma predicação e sua respectiva negação sejam ambas verdadeiras. Uma proposição do tipo p ^~p é o que nós chamamos de contradição, e ela não nos diz nada sobre a realidade, assim como uma tautologia também não diz. Enquanto na tautologia todo resultado é verdadeiro, na contradição ele sempre será falso. Quando eu digo que “vou assistir o jogo do Nacional OU não vou assistir o jogo do Nacional”, isso sempre terá como resultado a verdade proposicional, e por isso é o típico argumento tolo, que não está errado, mas que não acrescenta nada ao nosso conhecimento. Já se eu digo que “vou assistir o jogo do Nacional E não vou assistir o jogo do Nacional”, tenho um argumento impraticável, cujo resultado será sempre falso. As regras de raciocínio não permitem que as operações mentais lógicas fujam de sua função de espelhar a realidade, mesmo que seja a nível abstrato, e este princípio descreve exatamente essa impossibilidade.

Bom, sabemos agora que um objeto qualquer não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Mas além dessas duas hipóteses, há uma terceira? É possível que algo seja mais ou menos verdadeiro, ou razoavelmente falso? A resposta é não. Pelas leis do razão, as proposições carregam apenas dois valores de verdade possíveis, e este é o chamado princípio do terceiro excluído. É assim: se eu afirmo que estou na Comendador Souza vendo um jogo do Nacional, ou estou de verdade, ou não estou. Pode-se até tentar uma gracinha, do tipo dizer que estou bem no portão de entrada, nem para dentro, nem para fora. É só uma questão de critério para derrubar a armadilha: se eu considero que o portão faz parte do clube, então tenho uma verdade; se não, uma falsidade, e pronto. Dificuldades com essa definição somente são possíveis em quebra-cabeças mentais do tipo gato de Schrödinger*, que refletem as dificuldades de compreensão da física de partículas e da mecânica quântica. Na realidade observável, as afirmações somente podem ser verdadeiras ou falsas.

É preciso muita calma nesta hora porque podemos ter a impressão de que a realidade é dicotômica, um enorme sim ou não, mas está longe de ser isso. O princípio do terceiro excluído não está preocupado em contemplar nuances dos fatos e dos acontecimentos, e sim de assegurar que uma proposição somente tenha dois caminhos possíveis: ser verdadeira ou ser falsa. Nestes tempos em que nos obrigam a tomar posições com base em polos opostos, qualquer declaração no sentido de que somente há duas posições possíveis na própria interpretação da realidade torna-se uma justificativa para forçar a aceitação das falsas dicotomias. Cuidado, isso é burro. Toda realidade pode ser quebrada em inúmeros pedacinhos, e o conjunto deles não demonstra que só existem dois lados (principalmente em Política).

Pois então. Esses três princípios agem em contiguidade e dependência, de maneira a se articular mecanicamente. Na verdade, é como se o princípio da identidade já contivesse, em si mesmo, os outros dois, que nada mais seriam que seus corolários. E, no fim das contas, não nasce das formulações modernas ou contemporâneas, mas do poema ontológico de Parmênides, ainda no século VI aC, onde se dizia que “o Ser é e não pode não-ser; o não-ser não é e não pode Ser de modo algum”. Notem que aí já está contido explicitamente o princípio da identidade e o da não-contradição, e tacitamente está o do terceiro excluído. Mais tarde, Aristóteles vai sintetizá-los de forma mais explícita em sua obra sobre a Lógica, e acabar por consagrando essa teoria para os tempos pósteros.

Mais adiante, um novo item foi incorporado à teoria clássica, o princípio da razão suficiente, também chamado de princípio da causalidade. Bem sinteticamente, nada mais é do que dizer que todos os fenômenos que acontecem no universo tem sua razão de ser por conta de uma longa cadeia de causas e efeitos, que se interconectam de modo a tornar a realidade como ela é. A função do raciocínio seria enxergar estes liames entre os diferentes objetos e acontecimentos. Se as coisas são como são, há uma razão que é suficiente para que elas sejam dessa forma, seja em âmbitos bastante particulares, seja em visões mais macrocósmicas, estendidas por longos períodos de tempo. Confuso?

Já que fomos de Nacional até agora, vamos continuar de Nacional. Dentre os times profissionais da Capital, ele é certamente o menor**. Possui uma história bacana, ligada à estrada de ferro e aos primeiros movimentos pela fundação do futebol no Brasil, mas nunca pode ser considerado um dos grandes, nem mesmo no passado, como a Portuguesa em São Paulo ou o América no Rio. Quando entra em campo, não assusta os adversários com o barulho de sua torcida, porque ela praticamente não há. Até mesmo por isso, costuma-lhe ser indiferente jogar em casa ou fora dela. Quando enfrenta adversários em melhor situação, como é o caso do Noroeste, coirmão na origem ferroviária, joga fechadinho lá atrás, esperando um contragolpe que lhe permita alguma chance melhor de vitória. Isso tudo posto, podemos pinçar um lance isolado e olhar para o seu todo. Uma bola espirrada vai parar na zona morta e é alcançada pelo lateral-direito, que tenta uma bola espichada para a cabeça de área, na esperança de que o lépido atacante de seu time consiga se livrar da marcação e tentar vencer o goleiro. No seu ímpeto incontido, vence o zagueiro que lhe funga no cangote e sai em direção ao gol, e tenta pegar o goleirão rival desprevenido, mandando uma bola por cobertura. A intenção é magnífica, mas a falta de habilidade faz com que a bola vá parar atrás da arquibancada de fundo, para desespero da comissão técnica e gáudio dos gandulas.

Pintado o quadro, vamos ver as relações de causalidade entre diversos fatos. A bola  perdida na arquibancada foi consequência de um chute mal dado. Este foi consequência de um lançamento vindo da defesa, que foi motivado por uma sobra, que foi causada por um ataque mal sucedido do adversário. Poderíamos regressar ab ovo, até o início da partida ou mesmo antes. A coisa podia ser vista por outro ângulo, um pouco menos restrito à partida em si. O Nacional enfrenta o Noroeste na terceira divisão paulista porque foi rebaixado da segunda em 2019. Está disputando as divisões inferiores porque não possui um orçamento comparável aos dos manda-chuvas, porque seu quadro de sócios não é grande, e porque os clubes associativos já não atraem mais tanta gente, porque as comodidades modernas fazem haver uma academia em cada esquina, porque a cultura da imagem induz as pessoas a ter corpos perfeitos, porque isso significa consumo permanente, porque esse é o motor do sistema capitalista, e de porque em porque voltaremos até o surgimento do homo sapiens, ou até mesmo antes. É possível radicalizar e ampliar ainda mais o horizonte: o Nacional está disputando sua partidinha porque os seres humanos gostam de futebol, porque são seres altamente sociáveis, porque existiam vantagens evolutivas em se agremiar, porque a compleição física humana não é grandemente privilegiada, porque há diferentes estratégias evolutivas, porque há diferentes seres surgidos na Terra, porque condições específicas de tempo e espaço fizeram surgir a vida no planetinha azul, porque houve um afastamento adequado do Sol, porque disposições físicas permitem os fenômenos de repulsão centrífuga e atração gravitacional, porque um belo dia surgiu um universo com todas essas características.

Daí para trás, ou temos uma causa incausada, como o Primeiro Motor Imóvel aristotélico ou uma divindade qualquer, ou a simples assunção de que há ainda mais causalidades que simplesmente não podemos conhecer, que nos cutuca a especular: o que há antes do Big Bang, por exemplo. Nossa ânsia é tocada por esse tipo de movimento – não gostamos de buracos no conhecimento, e queremos fechar toda a conta, sem facilidades para aceitar dúvidas. Mas, de toda forma, há toda uma cadeia que permite reconhecer o nexo causal que caracteriza a nossa realidade circunstante.

Falado tudo isso, podemos então notar que a ânsia classificatória é uma prerrogativa de quem busca o conhecimento, porque todos os elementos estão lá: as separações necessárias, as referências, as bases comparativas, e as balizas para que a racionalização seja mais segura. É quase uma bobagem achar que uma lista de dez comidas favoritas seja arcabouço para alguém averiguar a precisão das suas próprias preferências, mas lembremos que isso se repete quase inconscientemente, como acontece com a moda, por exemplo. E, além do mais, é divertido. Não é preciso fazer macerações filosóficas a cada vez que queremos simplesmente comparar as coisas que gostamos com as dos outros. A coisa só se complica quando queremos classificar pessoas, mas aí é conversa para outro momento. Fiquem à vontade para comparar as suas listas com as minhas, e bons ventos a todos!!!

Recomendações de leitura:

Para compreender os três primeiros itens, mais clássicos, é bom ir no velho estagirita.

ARISTÓTELES. Órganon. Bauru: Edipro, 2005.

Para uma visão mais ampla, englobando explicitamente o princípio da razão suficiente, recomendo o livro abaixo:

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982

* Não vou me arriscar aqui a tentar explicar aqui o experimento mental de Schrödinger. Melhor será recomendar um bom vídeo sobre o assunto: https://www.youtube.com/watch?v=k5jIYbf2cSo

** Não estou desconsiderando o pequeno Barcelona de Capela do Socorro. É que trata-se de uma agremiação que flutua entre o amadorismo e o profissionalismo, então a mesma acaba por ter menos tradição que times verdadeiramente amadores, como o Indiano ou o Parque da Mooca.