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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Constantino I e o Concílio de Niceia inaugurando o pensamento medieval

Olá!

Como já contei para vocês neste texto, os dias arrastados da pandemia parecem não ter fim e vão cansando as costas da gente. Logo que tudo começou, mudei muito pouco no arranjo da casa, simplesmente pegando uma mesinha auxiliar para colocar meu computador em cima, e utilizando um cadeirão doado pela Dona Madalena, senhora nonagenária que a patroa toma conta. Passando o tempo, minha sala foi pegando mais e mais cara de escritório. Primeiro, foi uma mesa um pouco maior. Depois, tive que trocar de cadeira antes que minha hérnia de disco me mandasse para o hospital. Por fim, coloquei um monitor a mais e troquei a posição da mesa, removendo as poltronas da sala e mandando-as para o quarto. Já detectei a necessidade de fazer outras adequações, de modo que alguém que tenha vindo em casa há um ano estranhará a nova ordenação da sala (ora escritório), com as perturbações típicas de quem tem que se virar em espaço exíguo.

A vida é cheia desses percalços que nos redirecionam para rumos inesperados, e alguns deles podem afetar não só um indivíduo, mas uma comunidade inteira, uma cidade, um país... o mundo todo! E essas guinadas às vezes são tão fortes que os historiadores utilizam-nas como marcos de inflexão, dando a elas o nome de Idade ou Era. Não sei se os escribas futuros olharão para nossa época e vão chamá-la de Era da Pandemia, mas o fato é que alguma coisa mudará permanentemente.

Enquanto isso, penso em outros momentos decisivos da humanidade, e percebo que a Filosofia meio que correu atrás da História, o que não chega a ser surpresa nenhuma. Tudo vai atrás da História, como se fosse o trio elétrico nas ruas do Nordeste. Só não vai atrás quem já morreu. À frente, só quem teve a sacada de inventá-lo, mas aí a alegoria só vale para os visionários. Essas transições nunca são abruptas, e não dá para atribuir a um único evento isolado as transformações sociais e contextuais para que tudo mude de rumo, e, portanto, os eventos históricos mais expressivos são agregadores de uma pilha de outros acontecimentos que lhe giram em torno. Mas há um em especial que, em termos de guinada filosófica, é mais relevante que o próprio motivador histórico. Estou falando do Primeiro Concílio de Nicéia.


Para compreender, precisamos entender um pouco do que acontecia naquela época. A Filosofia Clássica e sua sucedânea helenística baseavam-se na visão humanista inaugurada pelos
sofistas e levada ao apogeu pelo power trio Sócrates-Platão-Aristóteles. Neste mesmo tempo, o mundo era dominado pelo Império Romano, que estendia seus tentáculos por territórios imensos, a ponto de necessitar ser dividido para se tornar minimamente governável. Seu fim se deu em duas partes, com o final da porção ocidental pela invasão dos povos bárbaros em 476 dC, enquanto o remanescente Império Bizantino durou até 1453, com a tomada de Constantinopla, sua Capital, pelos turcos, o que coincide com a duração da Idade Média. Ocorre que, em termos filosóficos históricos, a Idade Média tem seu princípio no precitado Concílio, no ano de 325. E aqui cumpre a mim uma série de esclarecimentos.

O Cristianismo começa seus dias como uma das tantas seitas surgidas no seio do Judaísmo. Originalmente, adotava uma conotação comunitária, como já faziam outras facções, como é o caso dos essênios. Entretanto, ao invés de buscar isolamento, eles procuravam viver inseridos nas cidades, levando em conta que uma de suas características era o proselitismo, um mandato apostólico dado por Jesus, seu fundador. Em tempos de invasões romanas espalhadas pelo mundo inteiro, é natural que houvesse momentos de resistência na maior parte dos territórios ocupados. Não era diferente na Judeia, e todos os movimentos existentes caíam na mesma vala comum dos insurgentes, mesmo quando pacíficos. Além disso, este caráter apostólico fazia com que os cristãos pululassem por todas as partes, e em todas as partes estava quem? Sim, o Império Romano. Em geral, os cristãos eram bem tolerados, dado seu caráter inicialmente pacifista, mas eram tempos rudes, e as perseguições eram extremamente cruéis, com muito sangue escorrendo, incluindo muita tortura. Em uma situação dessas, era muito difícil dar uniformidade à doutrina, que acabava sendo contaminada pela cultura de cada canto onde se instalasse uma igreja. Sendo assim, o tecido doutrinário cristão foi se transformando em uma colcha de retalhos, maximizada pela dificuldade de comunicação entre seus múltiplos centros, ainda que houvesse uma estrutura hierárquica já bastante rígida em seus alicerces. Afinal de contas, também os bispos e papas eram alvo de perseguição nos momentos de crise, e muitas vezes eles precisavam procurar ficar ocultos.

Entretanto, uma história cheia de elementos lendários mudaria para sempre o curso do Cristianismo e, por extensão, do pensamento. Em 306, Constantino torna-se césar, e, desde então, foi concentrando mais e mais poder em suas mãos. Em 313, após uma suposta experiência mística*, expede o Édito de Milão, onde dá liberdade de culto para todos os habitantes do império, dando fim à possibilidade de novas perseguições. Com isso, os cristãos puderam abrir comunicação mais franca e assumida.

É óbvio que Constantino foi tomado como um santo pela época, uma espécie de libertador. Com isso e mais um pouco, ele teve bastante influência nos destinos da igreja, que ficou definitivamente catalisada pelo Primeiro Concílio de Niceia, aquele que eu mencionei logo acima. Estando notavelmente fragmentada, a dogmática cristã se encontrava ameaçada em sua unidade. Constantino percebeu que isso não era um problema meramente religioso, mas que podia se estender à manutenção política. Fundamentalmente, a resolução de que se Cristo era ou não consubstancial ao Pai** não faria o preço da saca de especiaria mudar, mas como os cristãos passaram a habitar cada vez mais os palacetes reais, o imperador achou interessante tirar proveito político da situação, e patrocinou a realização do concílio, reunindo, hospedando, transportando os bispos de todo o mundo onde houvesse cristãos e, principalmente, dirigindo os seus trabalhos.

Somente para esclarecer, um concílio (que tem a mesma origem etimológica da palavra conselho) é a reunião de bispos com o objetivo de decidir dogmas e doutrinas controversas, e somente a partir de Niceia ganha um caráter ecumênico, ou seja, que se estende por todo o mundo. É bem verdade que outras reuniões de caráter doutrinário foram realizadas anteriormente. Entretanto, elas sempre se deram em âmbito local, por todos os motivos que listei mais para cima. Este formato se deu por imitação do Concílio de Jerusalém, descrito na própria Bíblia nos Atos dos Apóstolos (At 15), onde uma decisão para fins de uso da circuncisão aos novos convertidos foi discutida em uma reunião com a então incipiente comunidade cristã.

Embora seja muito difícil duvidar da influência de Constantino na realização do concílio, afirmar que ele influenciou as decisões doutrinárias é algo que não farei. Diz-se que este concílio decidiu o cânon bíblico, dizendo o que era válido entre os livros que compunham seu totus, mas isso é um erro. São muitas colocações feitas com relação a Constantino que não possuem rigor histórico, nem a favor, nem contra, e não vou entrar na pilha de fazê-lo eu. Sua pauta tinha mais a ver com aparar divergências que podiam produzir dissensos populacionais do que propriamente de temas teológicos, como seria a determinação do cânon.

E o grande tema, doutrinariamente falando, foi a questão da homoousia já mencionada. A faceta política dessa contenda tem a ver com o sacerdote Ário, um dos presbíteros de Alexandria, que negava a divindade de Jesus e formou um bom número de seguidores. Vencido no concílio, foi excomungado e exilado. Continuou debatendo pela validade de seus argumentos, até ser readmitido pelo imperador e tendo sua excomunhão revertida. Pouco tempo depois foi encontrado morto, alguns dizendo ser castigo dos céus, outros envenenamento.

Outra resolução foi relacionada ao Cisma Meleciano, ocasionado pelo patriarca Melécio, que aplicava rigor excessivo contra os arrependidos de apostasia, algo muito comum nos tempos de perseguição. Achava que eram relapsos que não tinham coragem de sustentar a própria fé, o que partia desde as altas hierarquias. Isso fez com que ele criasse uma hierarquia própria em seu patriarcado. Os padres conciliares foram mais amenos com relação a Melécio. Mantiveram seu patriarcado, impedindo-o, no entanto, de ordenar novos clérigos, e colocando como necessária a revalidação das ordenações feitas por ele.

Além dessas provisões mais importantes, muitas miudezas foram deliberadas, tipo proibir os fiéis de ajoelhar durante o Pentecostes, e desmistificando um pouco da influência de Constantino, podemos chegar à sua importância filosófica, porque foi a primeira vez que a igreja se reuniu de fato e sem impedimentos para determinar seus caminhos doutrinários, o que determinou a rota do pensamento a partir de então. Aliado a uma aproximação muito forte com o poder central, é a partir deste marco que a Filosofia tem uma guinada, inclusive com a chancela oficial do Estado, o que só se solidificou daí para frente, em especial quando o Imperador Teodósio fez o Cristianismo saído do Concílio de Niceia como religião oficial de Roma, em 380.

Quando nós pensamos nas novidades da Filosofia Medieval, temos o teocentrismo em mente logo de cara. Muito embora eu já tenha escrito um longo texto onde desembrulho a visão de monotemática exclusiva nesse período, é importante observar as confluências e as mudanças de paradigma que ocorreram na transição entre ambos os períodos históricos.

É preciso observar que as antigas escolas helenistas já traziam consigo muitas das coisas que serão absorvidas pelo Cristianismo, em especial com os estoicos, com os cínicos e, em certa medida, com os ecléticos. Sempre lembrando que todas essas escolas traziam uma ideia de desprendimento do mundo pela via da desimportância da articulação do mundo com a subjetividade de cada um, nota-se que a ideia de transitoriedade da vida, cujo objetivo é a preparação para um além-mundo, usa dos mesmos recursos de resiliência à dor, a passagem do destino a um segundo plano e uma escolha ética pela fé, no que vão divergir frontalmente dos céticos, que optam pela supressão dos juízos acerca da verdade. Para a nova corrente, é imprescindível uma verdade do modelo emunah, baseada mais na confiança no discurso do que propriamente na verificabilidade (sobre isso, redigi um texto que os convido a ler).

Embora existam esses pontos em comum, não estaríamos falando em uma guinada na história filosófica se não existissem muitos pontos de inflexão no então novo pensamento. Uma das mudanças de paradigma mais expressivas foi o reconhecimento da fé como fonte cognitiva. De fato, até hoje compreendemos que não há uma fonte alternativa para se falar em uma transcendência que não seja pela via da fé. Não faz nenhum sentido colocar uma Bíblia na frente dos olhos e querer ler nela histórias literais. É muito diferente fazer essa leitura de um ponto de vista meramente técnico ou imbuído de um espírito de que lá está a palavra de uma divindade. Dessa forma, há uma completa mudança de visão não só da maneira como as pessoas se relacionam com seus deuses, mas como se relacionam com o mundo. Sendo assim, a Filosofia ganha um viés novo, escapadiço à objetividade da razão e buscando uma nova lógica.

Além disso, a própria História ganha um caráter linear e envelopado, cujo princípio está na criação do universo e que se encerra no Apocalipse. Entretanto, o desaparecimento da História se dá unicamente no plano material, e há uma continuidade da existência que vai para além da História, com a vida eterna em uma dimensão metafísica, onde o sentido de ciclos das filosofias orientais perde a razão de ser e a pouca importância que os helênicos davam à questão passa a ter relevo. A História é, para a Filosofia Medieval, como um caminho, cujo propósito é um supremo bem meio que semelhante ao que nos falava Platão. Só que, neste caso, esse bem se personaliza na figura de um deus assemelhado a um pai, tanto para o afeto, quanto para o castigo.

No plano da Ética, há uma mudança muito significativa dos valores, com a simplicidade e a alteridade ganhando um estatuto de ferramentas salvíficas. Sabemos que os gregos tinham no heroísmo um propósito de vida, que vira de ponta-cabeça a partir da lógica cristã. Não é mais aquele capaz de grandes feitos o que consegue seus objetivos, mas aquele que melhor se adapta à vida comunitária, vendo no outro alguém com tanto valor quanto a si próprio.

E, para não ficar muito cansativo, muda muito a questão dos sentimentos, mais especialmente do amor. Tínhamos na Antiguidade Clássica uma ênfase no amor em sua dimensão erótica, que dependia de corpos para acontecer, e que desembocava em uma ascensão dos sentimentos. Porém, o Cristianismo propõe um novo modelo, que vai refletir no pensamento filosófico. O amor emana do próprio Deus, e, portanto, não tem um sentido elevatório como quer Platão, mas sim de doação divina, o que lhe dá um caráter de gratuidade impossível no contexto do Eros. Isso tira os limites deste amor, que recebe o nome de ágape, uma novidade em termos de relação com o divino, já que os deuses gregos e romanos eram de um modelo completamente distinto, muito mais semelhantes a homens.

Estes e outros fatores fizeram com que o estudo filosófico se dirigisse ao fenômeno religioso, e por lá foi mantido por cerca de mil anos. Constantino não oficializa o cristianismo, mas lhe dá pleno apoio, e com isso a instituição se torna poderosíssima, que acabou transcendendo o próprio poder temporal. Mais tarde, como signo desse poder, muito acabou por se impor ao pensamento, especialmente no período inquisitório, mas isso é outro assunto, para outro momento. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Pouco nós temos de verdadeiramente fiável para nos relatar o que foi o Concílio por dentro, especialmente a questão da influência de Constantino. O principal narrador é Eusébio de Cesareia, que tinha uma visão particularmente parcial, e sua obra é, na verdade, um panegírico. Mas é possível filtrar uma boa quota de informações relevantes.

EUSÉBIO. Vida de Constantino. Gredos: Madri, 1994.

* Homoousia é um termo grego que significa da mesma substância. A controvérsia ariana dizia respeito ao entendimento de que o Filho não tinha a mesma substância do Pai, ou seja, era um homem especialmente abençoado, mas sem a essência divina. A briga toda era essa.

** Diz-se que Constantino, às vésperas de uma decisiva batalha contra seu opositor Maxêncio, sonhou com uma cruz resplandecente, onde era possível ler a frase “com este sinal vencerá”. Mandou pintar uma cruz nos escudos de seus soldados e obteve uma vitória acaçapante.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Luzes ou trevas, ou nem isso e nem aquilo – A Filosofia Medieval como um conjunto de ideias semelhantes a qualquer outro

Olá!

Um feliz 2014 para todos os leitores deste espaço. Recentemente, tivemos a virada de ano (oh!), e com ela, todo o ritual que lhe cabe, com a explosão dos fogos, com os saltos de ondas, as roupas brancas e os axés vários. Neste momento, a palavra de ordem é desejar tudo de bom, e esquecer os maus fluidos, as intrigas, as brigas, a gordura acumulada, os fracassos futebolísticos e tudo o mais. É tempo de filosofar também.
Esse assunto das boas energias me fez lembrar algo um tanto insólito (a lembrança, não o tema): a Filosofia da Idade Média. Como toda pessoa que se aprofunda na história dos movimentos filosóficos bem sabe, esse período é conhecido como “Idade das Trevas”, por conta do declínio do Império Romano e do domínio da Igreja Católica no pensamento preponderante, o que fez com que o centro das especulações filosóficas se deslocasse do homem para Deus. É fato que o núcleo do ideário medieval se concentrou na teologia, mas é injusto pensar que tal período tenha sido tão pobre assim. Até mesmo pelo contrário, já que essa era uma nova via para tentar explicar toda a complexidade da constituição do mundo, com sua física e sua humanidade. Compensa conhecer um pouco melhor das ideias nascidas na era medieval para julgá-las com um pouco mais de critério.
Essa foi a tônica da Filosofia de Étienne Gilson, pensador francês do início do século XX, que observava na retomada do pensamento escolástico uma rara oportunidade de desenvolver uma importante escola metafísica.

Segundo nosso caro professor, a Idade Média não pode ser encarada como um período de mil anos em que nada de importante foi produzido no pensamento humano. Aliás, ele chegou a essa conclusão primordialmente através do estudo da História, para depois chegar às sendas filosóficas. Ele percebeu que muitas das proposituras medievais têm pleno valor nos dias de hoje, e elenca várias interessantes conclusões atingidas por filósofos daquela era.
Sua principal preocupação é restabelecer o tomismo como interpretação válida dos caminhos para atingir a transcendência. Para pincelar bem rapidamente, o tomismo é a escola teológico-filosófica inaugurada por São Tomás de Aquino, também chamada de Escolástica, e que tinha como principal propósito a conciliação entre a razão e a fé. Para levar a cabo tal tarefa, São Tomás utilizou as traduções árabes dos escritos de Aristóteles, o que, de cara, dá a dimensão do caráter metafísico deste trabalho. No entender de Gilson, o padre espanhol desvenda, com vantagens, uma das maiores dificuldades da especulação aristotélica, ao distinguir com uma clareza inalcançada os conceitos de “essência” e “existência”. Aristóteles tratou com maestria de elementos como o ato e potência, mas não chegou a distinguir o modo como algo que existe em uma forma (um dos principais componentes da substância – cerne na metafísica aristotélica) se corporifica, ou seja, como deixa de ser algo essencial para efetivamente existir.

Gilson vê que Aquino consegue perceber que a essência é uma ideia real daquilo que pode existir, é algo que está presente em todos os seres que existem. Ela é uma descrição da natureza do Ser, e como tal, uma essência está sempre à espera de se tornar tangível, ela não depende da massa ou do corpo para existir, mas somente completa seu sentido no momento em que se torna concreta, em que existe de fato. A existência é a complementação da essência, e, se cremos em um Deus essencial, também a ele deve ser atribuída a existência, já que a perfeição só pode ser atingida quando o ser está completo, em essência e existência.
Tomás de Aquino, além dessa ponderação existencial, elaborou cinco provas da existência de Deus, todas tomadas com base nos princípios aristotélicos. Não mencionarei todas, para que o assunto não se estenda ao nível da caceteação, mas um dos itens mais célebres diz respeito ao Primeiro Motor Imóvel. Esta tese é o amálgama das leis de causa e efeito, e diz que tudo o que se move é movido por alguma coisa: uma rede é movida pela bola, que é movida pelo chute, que é dado pelo jogador, que é movido pela queima de nutrientes em seu corpo, etc. e ao infinito. Há um momento tal, regredido ao ponto mais remoto desta cadeia, que é o ponto em que, digamos, o mundo começa a girar. Não há nenhuma causa anterior para esse efeito? Para Aristóteles, há. É o primeiro motor, que é imóvel porque senão teria que existir uma anterioridade que o moveu. E Tomás de Aquino identifica esse primeiro motor com Deus, que é causa sem ser causado.

Mas há muito mais na Filosofia Medieval. Há um filósofo chamado Pedro Abelardo, que é mais conhecido por sua vida trágica (retratada nas suas correspondências com sua amada, Heloísa), que abordou uma questão bastante polêmica à época: a disputa entre realistas e nominalistas.
Vamos entender um pouco melhor a questão. Os realistas entendiam que os universais (aquilo que caracteriza um ser independentemente de suas contingências e acidentes) tinham uma existência metafísica real, e que serviam para moldar os seres particulares. É algo que se assemelha ao mundo das ideias de Platão, ou seja, existe uma instância intelectiva onde habita o pensamento puro, e lá os universais são reais – existe o modelo perfeito de homem, de animal, das coisas todas. Já para os nominalistas, as designações dos universais nada mais eram que nomes, construídos e atribuídos aos seres pelos homens. Nessa solução, os universais não tem nenhum tipo de relação direta com os seres que designa, a não ser na linguagem. Não há um mundo onde morem, álacres e trigueiros, os modelitos de tudo o que existe.

Parece que essa questão é fácil de resolver. Que grande besteira é essa, de dizer que existe um mundinho místico, onde os universais servem de modelo para tudo o que há no universo? Essa é a tendência de pensamento em um mundo regido pela lógica. Mas isso é um engano, pelo menos a princípio. Querem ver um exemplo do nosso quotidiano?
Já ouviram a frase “a palavra tem força”? Acho que algumas centenas de vezes, confere? Pois bem, há alguns nítidos casos onde isso é aplicável. Um deles é a questão do medo que algumas palavras nos impõem. Muitas pessoas, principalmente as mais antigas, evitavam a todo custo falar a palavra “câncer”, porque era sinônimo de morte certa e dolorosa. Tratavam este mal como “doença ruim”. Por que faziam isso? Porque há a crença de que as palavras tem um perfil mágico, e pronunciar estes nomes pode atrair a concreção do que representam. A palavra “câncer” dá câncer. O mesmo se diz para a palavra “morte”, repleta de eufemismos: as poéticas “ir-se”, “passar desta para melhor”, “prestar contas a São Pedro”; as irônicas “bater com as dez”, “comer capim pela raiz”, “abotoar o paletó de madeira”, “dar o laço no pacote”, “dar com o rabo na cerca”; e até mesmo a tenebrosa “bater com as costas no inferno”. E, por falar no diabo, esse é um nome de muitos esconjuros, que ninguém gosta de falar – coisa-ruim, tinhoso, cramonhão, capeta, anjo caído, cão danado, capiroto... deve ter uns 666 eufemismos para o príncipe das trevas. São palavras faladas com temor, em voz baixa, e que por isso mesmo excita a criatividade humana para expressá-las sem dizê-las.

Pois é... Se é possível acreditar que a palavra pode atrair sorte ou azar, presença ou ausência, ventura ou desgraça, não é cabível dizer que os nomes são simplesmente isso. Então verificamos que a tese realista não é tão absurda assim, ainda que filosoficamente possa parecer pobre. Não podemos desalinhar nosso pensamento de nossa conduta.
Pedro Abelardo elabora uma tese nova, chamada de conceitualismo. Para ele, o realismo erra ao tentar vincular nomes aos universais como coisas reais. Eles não existem na natureza, mas em nossas mentes, como elementos lógico-linguísticos. Estes, por sua vez, não são meros nomes: são a representação obtida a partir da constatação da semelhança entre os elementos comuns que procura agrupar. Eles existem, porque podem ter sua presença verificada nos seres que descrevem, mas sem que habitem um espaço à parte no mundo tangível ou metafísico. Portanto, nem tanto a Deus, nem tanto ao diabo (epa!). O universal existe, mas como conceito, não como coisa real, nem como mero nome.

Também lembro de Santo Agostinho. Já citei o padroeiro em algumas postagens (como essa e essa), onde menciono suas observações sobre o tempo e sobre o livre arbítrio. Mas ele também discorreu sobre inúmeros outros assuntos, como a constituição humana, que reflete a trindade de Deus. De fato, Deus Pai tem a atividade criadora que a mente humana possui; Deus Filho tem a corporeidade, a concretude da existência física; e o Deus Espírito Santo tem o sopro da vida e a ação que o espírito do homem também denota. Dessa forma, explica-se a frase bíblica que diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança.
Vou falar também de Guilherme de Ockham, e sua famosa navalha. Este frade franciscano afirmava que, quando no exercício da atividade de pesquisa, devemos eliminar todo penduricalho desnecessário. Isso o tornou um pouco reconhecido precursor do método científico, porque os desvios causados ao escapar do cerne da especulação faz com que, inevitavelmente, caiamos no vazio da discussão infrutífera. Ele dizia que era necessário economizar na criação de uma tese da mesma forma que a natureza economiza em sua ação no universo. Sempre que o caminho mais simples puder ser adotado, deve-se fazê-lo.

Há muitos outros filósofos relevantes e menosprezados na Idade Média. Vou citá-los aqui en passant, apenas para que possamos ter uma dimensão mais clara de suas contribuições:
Filon de Alexandria: tentou fundir, pela primeira vez que se tem notícia, fundir a filosofia grega e a teologia judaica, com a utilização da alegorese, um sistema que transforma as figuras alegóricas literais da Bíblia em conceitos simbólicos e verdades morais;

São Justino Mártir: conciliou o Cristianismo com o platonismo e com o estoicismo, sendo precursor de Santo Agostinho;
Dionísio Areopagita: discorreu sobre a estrutura hierárquica do paraíso, servindo, inclusive, de influência para a construção da obra de Dante Alighieri;

Boécio: criou o quadrado lógico das proposições, uma esquematização gráfica dos silogismos aristotélicos. Pesquei um exemplo na internet. Quem já estudou lógica, com certeza enfrentou um desses;


Santo Isidoro de Sevilha: grande estudioso e escritor, que reputava a etimologia como chave principal para o conhecimento, ou seja, para conhecer, é preciso estudar as origens das coisas e das palavras;
Escoto Erígena: refutou o dogma da predestinação, no qual os homens já nascem determinados e com destino marcado, sendo, portanto, mais um defensor do livre-arbítrio;

Pseudo-Dionísio: pensou a Filosofia e principalmente a Teologia por dois caminhos distintos: o positivo e o negativo, sendo este último aquele cujo intelecto humano não consegue atingir;
Santo Anselmo: elaborou uma famosa prova ontológica da existência de Deus, a partir da premissa que não há nada maior que possa ser pensado;

João de Salisbury: estabeleceu que a lei somente pode ser considerada eficaz se pautada na equidade e na justiça;
Nicolau de Cusa: Pré-renascentista, este frade estabeleceu a Ciência como a arte de lidar com conjecturas, já que há um desnível entre o objeto passível de conhecimento em seu todo e a parte que nossa intelectualidade consegue absorver dele;

Avicena: filósofo árabe, exibiu as distinções entre o ser possível e o ser necessário;
Averróis: outro árabe, que traduziu Aristóteles e dá nova sistematização à sua obra. É partir de seus escritos que São Tomás de Aquino desenvolve suas teses;

Moisés Maimônides: filósofo judeu que afirmou serem meramente aparentes as incompatibilidades entre fé e razão;
Santo Alberto Magno: estabeleceu as cinco diferenças primordiais entre a Filosofia e a Teologia;

São Boaventura: discutiu sobre a autonomia da Filosofia em relação à Teologia;

Roberto Grossatesta: criou uma filosofia da luz, retomando a antiga ideia de arché dos filósofos da phisys, porém com a utilização de elemento místico;
Roger Bacon: precursor da metodologia científica, dizia que a Ciência é um fruto da humanidade como um todo, e não de indivíduos, colocando-a sob uma perspectiva ética;

São Beda, o venerável: discorreu sobre arte, geografia, gramática, ciência, história e, evidentemente, teologia. Introduziu o conceito de importância da geografia no desenvolvimento filosófico;
João Duns Escoto: precursor de Descartes, voltava sua filosofia para o desmembramento das causas complexas em argumentos simples, de fácil análise e constatação;

Mestre Eckhart: discorreu sobre a unidade entre Deus e o homem;
Ramon Llull: Pela primeira vez, estabelece uma lógica baseada em uma linguagem formal.

Deixei de mencionar aqui filósofos que trataram da teologia fora de uma perspectiva abrangente, como são os casos de Lutero e Wycliff, que se encerram em si mesmos. Mas são também dignos de serem chamados de filósofos medievais, o que só prova que tal período é ainda mais rico do que aquilo que estou discorrendo.
Pois é, pessoas. Entendo que é o suficiente para que possamos levar um pouquinho mais a sério a filosofia realizada na era medieval. Uma das principais constatações de Gilson é que os historiadores da Filosofia muitas vezes se fazem seduzir pelo pensamento de que o uso da razão deixou de existir com os gregos antigos e saltou diretamente para a Renascença, e que tudo o que aconteceu nesse meio tempo foi apenas um domínio acrítico do Cristianismo, o que não é verdade. Gilson demonstrou fartamente que a filosofia do Renascimento tem toda uma ligação com a Idade Média, da qual é subsequente direta, e não há uma mera retomada da época clássica. Alguns pensadores fizeram isso para se colocar em oposição ao primado do teocentrismo, mas é preciso lembrar (já escrevi isso em algum lugar, não lembro onde) que esta é uma visão tão válida quanto as outras, é um caminho a mais para que o intelecto possa seguir. Desprezar a era medieval é um tiro pela culatra, porque quer libertar ao se impor limites.

Recomendação de leitura:
Para aqueles que se interessarem no assunto, há um brinde. Além de historiador dos mais talentosos, Étienne Gilson tem uma escrita ótima de ler, o que facilita muito a tarefa.

GILSON, Étienne. O espírito da Filosofia Medieval. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

A imagem do quadrado lógico de oposição foi obtida do seguinte endereço:
Http://www.notapositiva.com/apntestbs/filosofia/10_logica.htm