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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os verdes mares de onde não há mar – 7ª parada: Bueno Brandão e a (in)cômoda sensação de não ter escolhas

(Fazemos tudo de nosso gosto e vontade ou temos uma mão que nos guia passo-a-passo?)

Olá!

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Depois da noite dos queijos e morangos colhidos frescos, o tempo deu uma boa firmada. É estranho. Neste ano da graça de 2022 (momento dos acontecimentos da viagem, não do texto), temos tido temperatura mais baixa do que o convencional, com bastante chuva. Os tontos que negam o aquecimento global se locupletam quando isso acontece: "tá vendo? Onde tá o aquecimento?". Mas hoje não. Sol a pino e mais de trinta graus, mesmo na altitude. É a senha para procurar água fresca. Vamos a Bueno Brandão.


Estamos aqui em uma cidade com média de altitude um tanto elevada, mesmo para os padrões serranos que vivemos nesses dias, sendo que a praça central está a 1300 metros.


Nesta mesma praça, as bicas fornecem água mineral bastante útil para um dia especialmente quente.

Em um outeiro que a torna mais um pouco elevada, fica a paróquia de Bom Jesus, com sua arquitetura meio maneirista e escadaria cercada por jardins.


Bem aos seus pés, encontramos o Centro de Apoio ao Turista, onde conseguimos um ótimo mapa da cidade. Além do receptivo, é um local onde também há muito artesanato e uma biblioteca, sem contar que é um belo edifício.

Antes de pegar o rumo para as cachoeiras, demos um pulo à Vinícola Fidêncio, onde fomos bater um papo com o próprio, além de bebericar os muitos produtos que lá existem. Não é um bom lugar para motoristas responsáveis.

Já no caminho para a Cachoeira dos Machados, uma curiosidade: um castelo medieval em plena estrada. Causa estranhamento, sabendo que o Brasil, na época dos castelos, tinha no máximo as ocas dos índios. Disseram-nos pertencer a um médico de nome Bispo de Sá e que o aluga para casamentos e outros eventos.

Mas vamos ao principal. No curso do Rio das Antas, encontramos a Cachoeira dos Machados 1. Dada a chuvarada dos últimos dias, estava bastante barrenta, mas, mesmo assim, é bastante bonita de ver. Fica dentro de um sítio de hospedagem, o que garante uma estrutura bem legal para o visitante.

Depois do almoço, fomos procurar outra cachoeira para passar a tarde. Chegamos a uma das principais, a Cachoeira dos Félix, com água de nascente cristalina.

Seu acesso exige uma bela descida a pé, onde os proprietários utilizaram mais de seiscentos pneus para construir seus trezentos e tantos degraus. O problema é a volta.

Além do tradicional poço e da água geladíssima, o lugar possui uma trilha ao longo do curso d'água formado.

Reclino em uma pedra para me secar, fico observando o espetáculo da natureza construído na minha frente. E é aqui que me dá a sanha de filosofar. Deveria estar pensando na beleza que vejo à frente, ou no almoço, ou na morte da bezerra, mas os pensamentos me vêm à cabeça, sem que eu possa evitar. Por que será que é assim? Olho para a cachoeira e há o impulso de pensar em uma mão que montou tudo aquilo, mas logo eu fixo o foco na cabeleira líquida que fica na crista da água que cai e vejo as pequenas gotas que se destacam.

Se houvesse um construtor, a natureza não teria tantas imperfeições, penso eu. Entretanto, um fato se descortina inexorável: aquela gota que eu miro está exatamente lá onde eu a vejo agora.

A pergunta que me brota é: essa gota está aí por um acaso? Ela não poderia, sei lá, estar sendo bebida por um bicho, enchendo as ruas de uma cidade, sendo processada por algum corpo, refrigerando algum motor, parada num vaso criando mosquitos, no canto dos olhos de uma menina triste, ou ela tinha que estar exatamente aí, caindo com aceleração de 9,8 m/s de uma altura de 40 metros, para contemplação de um gordo barbudo, mas sem bigode, que também não controla o fato de estar fazendo exatamente estes questionamentos? Vivemos em aleatoriedade ilusória? Nossos passos são predeterminados?


Uma das regras mais características da Ciência é a capacidade de fazer previsões. Se eu dispuser de algumas informações fundamentais, conseguirei estabelecer com precisão como um fenômeno se desenrolará. Por exemplo: se eu der um chute em uma bola com força tal, direção tal, atrito do campo tal e força do vento tal, é inevitável que ela vá para um local perfeitamente calculável. Se não foi, faltou algum fator, e não uma mãozinha metafísica marota.

Isso encantou o físico Piérre-Simon Laplace, que, ante todas as descobertas realizadas por Isaac Newton et caterva, verificou a possibilidade de que absolutamente tudo no universo era previsível. De fato, em uma cabeça matemática como a de nosso herói, toda a natureza podia ser reduzida a fórmulas, como acontece com a gravidade, a gravitação, as forças magnéticas e todas as outras. Em um contexto onde todos os fenômenos naturais estivessem sistematizados nas formulações, seria possível prever qualquer acontecimento, vaticinando o futuro de qualquer molécula.

Ocorre que Laplace viveu em uma época onde ainda não se conhecia a mecânica quântica. Se houvesse vivido, veria que as coisas não são assim "simples". Não que seja impossível de se fazer previsões nessa área da Física, mas há dificuldades inerentes ao princípio da incerteza de Heisenberg, cientista alemão que cuidou da mensurabilidade de partículas subatômicas. Segundo este princípio, quanto mais sabemos sobre a velocidade de uma partícula, menos sabemos sobre sua posição, porque não se consegue manter o par de referenciais. Para que eu saiba com precisão onde uma partícula estará daqui a um intervalo de tempo, eu preciso conhecer ambas as variáveis, e se eu não tenho a certeza do dado presente, também não tenho do dado futuro. Dessa forma, o funcionamento universal é caótico, e não organizado, como adoraria Laplace, e o que teríamos são probabilidades, e não determinações. Não vou me aprofundar na questão, porque não manjo dos paranauês e já é o suficiente para o que quero propor aqui.

Embora seja lícito supor que nosso pobre Laplace provavelmente se sentiria decepcionado com seu palpite furado, não podemos descartar a possibilidade de, um dia, o princípio da incerteza ser resolvido e que sua profecia volte a fazer sentido. Se pensarmos muito radicalmente, lembraremos que tudo é feito de átomos, inclusive o sistema nervoso por onde trafega os pulsos elétricos que nos fazem perceber o mundo. Se há chance de se prever todo o movimento cósmico, podemos talvez pensar que mesmo nossos pensamentos são predeterminados, como a gota da cachoeira.

Será que isso faz sentido? É uma discussão longa, que se arrasta há tempos. O velho Santo Agostinho, por exemplo, já dizia que, se não somos livres para escolher, não há sentido em falar de racionalidade. Um ser racional é aquele que possui predisposição para fazer opções, inclusive aquelas que redundam no mal. Se assim não fosse, não existiria sentido no pecado: quem não pode escolher, não pode ter culpas pelos atos e escolhas. O livre-arbítrio, nesse caso, é um dom divino que dá ao homem capacidade de guiar sua própria vida, ainda que seja pelo mal. Já na Reforma Protestante, Lutero prefere dar mais ênfase à graça divina, colocando para o homem a fé como meio salvífico, e não suas escolhas. Calvino vai mais fundo ainda, reabilitando a predestinação (vide), tendo como fundamento as afirmações bíblicas de onipotência divina. O homem recebe sinais de sua graça, mas nada pode fazer em relação à sua sina, apenas viver de acordo com as regras que lhe são dadas. Volta e meia vejo algum floreio dizendo que há escolhas dentro da predestinação, mas, infelizmente, são argumentos cheios de contradições lógicas.

Com o advento do Positivismo, a escola filosófica que festejou a ciência como solução para todos os problemas e que só colocava como conhecimento válido aquele redutível a fórmulas, a hipótese do determinismo foi elevada aos altares, principalmente com Hippolyte Taine. Já aqui, tínhamos que todo o aspecto ambiental e genético influenciava na maneira como um ser humano pensa, inclusive colocando muito na conta o fator racial. 

Embora o Positivismo de Comte e o Determinismo de Taine tenham sofrido duras derrotas com a tecnologia de guerra, que demonstrou que o aperfeiçoamento humano tinha mais a nos por medo do que esperança, o fato é que, por outras vias, a ideia de um universo ordenado inclusive a nível da pessoa ganhou força a partir do século XX. O próprio marxismo se encarrega de demonstrar parcialmente como a ideologia e as superestruturas delineiam um mundo pelo qual os pensamentos são movimentados dentro de limites. As relações estruturais de uma sociedade são construídas de acordo com a proposição da manutenção dos status quo, especialmente na questão econômica. A partir disso, todo o conjunto político, judiciário, religioso e, no limite, interrelacional é construído, de forma a escrever o trajeto por onde os componentes da sociedade pensam.

No entanto, é com a corrente do Estruturalismo que a ideia de um determinismo social passa a ganhar mais corpo. Grosso modo, o Estruturalismo entende que todos os aspectos humanos derivam de relações com um sistema estabelecido, e é sobre essa estrutura que toda a realidade se assenta. Por exemplo, nós gostamos de futebol porque estruturalmente esse esporte está inserido tanto na nossa cultura, quanto em nossas relações econômicas, já que ele movimenta vários recursos. Nativos da ilha de Tonga não têm futebol na sua lista de preferências porque ele não faz sentido lá, não pertence às suas estruturas. O Estruturalismo, mais que uma corrente filosófica, é uma maneira de pensar o mundo, e tem seus braços na Linguística, na Antropologia, na Psicologia, na Sociologia e assim por diante.

Um estruturalista diria que as pessoas se adaptam à estrutura social à qual pertencem, e isso guiaria sua maneira de pensar. Notaram que sabor forte de causalidade que isso tem? Algo é assim porque anteriormente tais condições eram assado, de forma a moldar o presente. Isso, por exemplo, ajudaria a explicar porque estou na cachoeira nesse momento. Se eu for recuando no tempo, verei que estou aqui porque tirei um descanso, porque trabalhei por um determinado período, porque entrei em um determinado emprego, porque estudei para um determinado trabalho, porque me senti atraído por uma determinada carreira e assim para trás. Cada um dos pontos de inflexão já estaria descrito na própria relação de causa e efeito: como eu recebi uma educação específica, tive uma história específica, ouvi opiniões específicas e fui formado em uma cultura específica de uma casa específica, cada escolha que fiz na vida não poderia ser diferente do que foi, e a escolha, na verdade, é uma mera ilusão.

Mas o meio é tão engessante que torna absolutamente inviável a escolha do indivíduo? Não é o que pensam os existencialistas, por exemplo. Para eles, não faz sentido entender o ser humano como se fosse qualquer outro objeto no universo. Uma pedra, uma bola, um aspirador de pó ou uma agulha de costura, sejam naturais ou manufaturados, não possui o elemento volitivo que nos caracteriza. No limite, nem mesmo um animal, porque a ele cabe seguir seus instintos e cumprir suas necessidades imediatas. Dono de abstração e capacidade de escolha, não há como estabelecer um plano predeterminado que dirá o que uma pessoa será. Ela, no final das contas, sempre trará consigo uma consciência e uma liberdade para fazer suas escolhas, mesmo que não seja nenhuma. Os existencialistas entendem que um determinismo, seja ele qual for, nada mais faria do que ocupar um lugar de divindade, que preestabelece cada lugar para cada coisa no universo, o que é um erro, reputam eles. Por muitas vezes, nossas precondições sociais e históricas estabelecem limites da mesma forma que as religiões fazem, ao impor coações no que podemos ser, e, aí sim, temos um destino desenhado.

É evidente, no entanto, que o meio gera a rede de influências inegável nas escolhas do contribuinte. Uma pessoa que more em uma cidade com um time vitorioso terá uma bela motivação para torcer para ele, mas isso não pode ser imposto como regra. Portanto, a partir do Existencialismo, temos um direcionamento para o mesmo universo probabilístico da mecânica quântica, incerto por nossa capacidade de escolha, mas com algum grau de previsibilidade, dado o ambiente que nos cerca e baliza limites.

E de repente eu já nem estou mais olhando para a gota que se perde no restante da água, com a visão perdida de quem pensou e se perdeu, já passando para a próxima questão, escolhendo (ou não) o que fazer logo em seguida. Eis uma das grandes desvantagens em não se seguir uma religião: os fieis já tem tudo isso pronto, tudo isso dado, seja para estabelecer a necessidade de se fazer escolhas, seja para deixar tudo na mão de seu deus. Tudo deve ser pesado e sopesado, e a incerteza é sempre o resultado final.

Desvantagem? Não sei. Também disso não tenho certeza. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Vai para o ótimo Santo Agostinho. Discorde de tudo o que ele diz, mas saboreie a construção de argumentos com lógica impecável.

SANTO AGOSTINHO. Sobre o Livre-arbítrio. São Paulo: Vozes, 2021.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Cartas náuticas para marinheiros de terra firme - 6º relato: Águas de Lindoia e a dúvida entre o destino determinado ou aleatório

Olá!


Mais um dia, mais uma cidade. Desta vez, fomos à fronteira com Minas Gerais e conhecemos a cidade de Águas de Lindoia.

O tempo estava com ameaçadora cara de chuva, muito bem vinda nestes tempos ressecados, mas trazendo uma ponta de lamento para quem viaja. Aventuras como subida de morros, estradas de terra e outros ambientes convertidos em lama ficam tremendamente limitadas. Mas para nós, que fazemos de um torresmo e uma garrafa de cerveja um acontecimento, não havia nada de mau.

Águas de Lindoia já dá suas marcas germânicas logo no portal de entrada, algo que a aproxima de Campos do Jordão, por exemplo. Há em comum o fato de ser uma região bem montanhosa, a Serra da Mantiqueira.


A arquitetura com cara de Alemanha e região aliás, é espalhada por toda a cidade, conferindo um ar europeu a cada rua que se vá da porção urbana.


Este mesmo aspecto se mantém nas variadas lojas de roupas, em especial as malhas e tricôs, uma especialidade da sua vizinha Monte Sião, já no estado de Minas Gerais. Há um conjunto que se vê de longe, na estrada que sai da cidade.


Obviamente devido à proximidade com Minas, a culinária dos porcos e dos leites é quase que onipresente. A quem resolver conhecer Águas de Lindoia, recomendo um belo regime para baixar as taxas de colesterol. A comida é boa demais, e a vida é curta.


A cidade é altamente arborizada. Conseguiram o milagre de praticamente dobrar a área verde preexistente, que, associada à arquitetura que reproduz algumas peças semelhantes a castelos (como abaixo), dá uma sensação de deslocamento temporal rara.
 

A prefeitura tem um aspecto diferente em relação ao que mostrei até aqui. Tem um ar mais “brejeiro”, como uma das casas de fazenda bastante frequentes em outras épocas...


... fronteada por uma praça com simbologia aquática, com sói acontecer nestes municípios onde o precioso líquido é atração principal.


Com relação à religiosidade, temos aqui uma curiosidade. A padroeira local, Nossa Senhora das Graças, era homenageada por uma pequena capela localizada em uma encosta íngreme, acessada por uma bela de uma escadaria. Devido ao seu tamanho acanhado, foi construída a atual igreja matriz, que não lembra em nada o padrão de igrejona do interior, com seu estilo barroco, sua imensa praça e coreto. Também no alto de um monte, a nova construção é mais modernosa, mas que, devido às triangulações de seu teto, dá alguma lembrança aos sótãos típicos de todas aquelas construções teutônicas vistas anteriormente.


Mas é evidente que a principal pegada da cidade é mesmo a disponibilidade de água. Visitamos o balneário municipal, majestoso e fechado, para nossa infelicidade. Várias piscinas, tobogãs, vestiários, quadras... Tudo bacana e fechado em pleno janeiro*. É bem certo que a chuva estava às portas, mas molhado por um, molhado por mil.


Pelo menos foi possível refrescar a cara e a garganta na fonte que tem dentro do clube, acompanhado das bênçãos da padroeira retromencionada. Podia estar chuvoso, mas estava quente, viu?


Do lado de fora, mas no mesmo quarteirão, existe uma fonte com água mineral, devidamente homologada pelas autoridades sanitárias e sobejamente procurada por locais e turistas, armados, em sua maioria, de gulosos garrafões de plástico. Lembram que eu falei da capelinha original da cidade? É aquela que se vê ao fundo.


As bicas de água estão à disposição de quem estiver disposto a aguentar fila. Paulistanos que somos, não tivemos grandes percalços para encher nosso carro pipa de 500 ml.


Na cidade, há um baixio semelhante ao Grande Lago da vizinha Lindoia, onde também há um lago e capivaras, muitas capivaras. Não gosto de vê-las andando pela estrada, mas não pude deixar de observar sua presença e registrar a arriscada fila indiana.


Por algum tempo, pensei que Lindoia e Águas de Lindoia fossem uma só e mesma coisa, algo como Águas de Lindoia ser o nome oficial e Lindoia uma redução afetiva. Mas, apesar da proximidade nominativa e do compartilhamento da mesma riqueza natural, existem diferenças significativas entre ambas. Comparada com Lindoia, este município é mais bem estruturado, ao menos no que diz respeito aos quesitos turísticos. Lindoia parece a mim uma cidade mais industrial, voltada ao engarrafamento de água mineral, e Águas de Lindoia explora um pouco mais sua vocação de destino de viagem. Cada uma com seu mérito próprio e seus encantos peculiares, não criemos adversidades.

Mas o fato é que, por conta destas escolhas, cada uma delas parece ter assumido um destino diferente. O que resta de discussão é se destino se escolhe ou se suporta. Teve corrente filosófica que achava o destino inexorável. Vamos falar sobre isso?

Para tanto, vamos retomar a discussão sobre o Positivismo, a doutrina filosófica em que Auguste Comte propõe a Ciência como guia do pensamento, com este já devidamente dissociado das fantasias religiosas e das especulações metafísicas (o começo da conversa está na carta náutica de Estiva Gerbi). Esta linha filosófica foi uma autêntica pedra de toque para o emergente mundo capitalista, porque justificava socialmente as diferenças de classes através de uma sistematização rígida (quase um regime de castas) e adotado com fervor por todas as partes.

Este sistema social era desmembrado em quatro partes: os industriais (burguesia), os operários (proletariado), os sacerdotes e as mulheres. Mesmo reconhecendo as tensões entre as duas primeiras classes, Comte entendia que elas eram complementares e necessárias para o bem maior, uma solidariedade orgânica que daria arrimo e respaldo à industrialização, braço tecnológico da Ciência a distribuir bem-estar por entre as diferentes camadas. Porém, para existir, o empreendimento industrial necessita de três fatores – terra, capital e trabalho. Os dois primeiros representavam o poderio econômico, enquanto os operadores diretos, os trabalhadores, somente teriam os próprios corpos para entregar à equação. Desta forma, Comte legitima a burguesia como mantenedora de privilégios econômicos, muito embora entenda que todas as partes do conjunto tenham sua importância.

Com relação aos sacerdotes e às mulheres, tem funções sociais ditas espirituais, algo como cuidar do rebanho e dos filhos. Nem vou me aprofundar, mas Comte criou uma espécie de religião da humanidade, onde o papel de ambos estaria melhor descrito – só que aí já não estamos mais no campo puramente filosófico.

Toda essa rigidez no desenho das classes sociais e de sua estrita observação parte da premissa científica de que todo ato dá causa a outro ato, ou seja, em tudo existe uma relação de causa e efeito. Uma sociedade bem azeitada é aquela onde tudo o que é produzido alcança o maior bem possível ao maior número de pessoas (pensamento base para a corrente filosófica do utilitarismo, que será tratada oportunamente). Ou seja, para que o mecanismo social girasse sem percalços, era necessário estabelecer uma ordem que seria a causa para um progresso cada vez maior. Seu principal ponto de dissensão com relação aos socialistas anteriores a Marx era que, para estes, era necessária uma reforma na construção social com base nas instituições, enquanto para ele a revolução deveria ocorrer no plano individual, com a revisão do modo pessoal de se colocar diante dos valores e costumes. A beligerância entre as diferentes classes nada mais seria do que um instrumento que dificultava a obtenção da ordem e do consequente progresso. A ordem social era uma questão moral.

Ciência, causa e consequência. O progresso é a consequência da ordem, e a ordem é a causa do progresso. Essa circularidade representa bem o escopo social de Comte. A Ordem é a parte estática desse mecanismo, que lhe dá a estrutura que permite ao Progresso, sua parte dinâmica, fazer mover as suas engrenagens. Uma estrutura social em conflito não é uma ordem, e, sem ordem, não há como girar a roda da técnica – não há progresso. De nada adianta a Ciência se ela não consegue dar frutos – o fruto da Ciência é o progresso.

Esta doutrina foi tão bem aceita no período de otimismo em que nasceu que foi parar até mesmo na bandeira do Brasil. “Ordem e Progresso”, o lema positivista, era tido como a chave para a transformação de um país recém saído do império, que havia abolido a escravidão poucos anos antes, e que estava fervilhando de novas ideias trazidas pelos europeus, advindos em grande fluxo naquele momento histórico.

(Em tempo: há muita gente que entende ser correto o lema completo “Amor, ordem e progresso”, já que Comte usa tanto um quanto outro. Chegou a existir projeto de lei para alterar seu uso na bandeira. Mas é preciso fazer uma distinção importante: o lema “ordem e progresso” tem um contexto social e político, construído no momento em que o camarada sistematizava sua Filosofia prática. Já o segundo lema nasceu depois que Comte já tinha “fumado um” e decidido fundar sua religião positivista – exacerbando aquilo que ele mesmo renegou, a Religião – e procurava justificar a motivação para uma submissão à ordem. Quer dizer, cada um tem seu uso e o artista que desenhou a bandeira, Décio Villares, acertou na mosca – bem como seus idealizadores Raimundo Teixeira Mendes, Miguel Lemos e Manuel Pereira Reis).

Pois muito bem. Todo esse movimento teve sua radicalização, e a constatação de que a Ciência trabalha fortemente com relações de causa e efeito, inclusive com reflexos sociológicos, fez com que alguns pensadores constatassem que, ainda que de modo inaparente, absolutamente nada na vida se movia de maneira independente. O papa chamava-se Hippolyte Taine, e a corrente era o Determinismo.

O Determinismo percebe uma interpenetração tão grande entre todos os fenômenos naturais que reputa por impossível o isolamento de ocorrências aleatórias. Começando pelo cosmos, com o movimento dos astros; passando pela Terra, com os fluxos dos mares e dos ventos; e também pelo nascimento da vida, o brotar das plantas, a geração das crias, até chegar ao humano e seu comportamento, sua psicologia e desejos, tudo é fruto de correlações de causa e efeito. A avalanche de acontecimentos turva a visão, mas nada acontece sem uma anterioridade detectável. O homem é aquilo que esse ciclo determina que ele seja, bem como seu futuro.

Taine fazia sua Filosofia da História procurando vincular os acontecimentos humanos à tríade ambiente-raça-momento histórico. Para ele, esses três fatores determinavam, de modo inexorável, tudo o que um ser humano é. Por extensão, e sendo a sociedade uma coletivização das individualidades, também ela tinha estes fatores subjacentes ao seu destino.

O ambiente é muito importante na determinação do homem físico. Inclui todas as características geográficas do meio em que o homem vive, e explica muitas das diferenças existentes entre os habitantes de diferentes pontos dos planetas. Além disso, o ambiente se interpola ao próprio homem, imputando-lhe uma série de modos de ser. Um meio libidinoso gera indivíduos libidinosos, um meio agressivo gera indivíduos agressivos, e assim sucessivamente. O homem não é uma figura que se destaca do horizonte onde vive, pelo contrário. É aprisionado pelo mesmo.

A raça, por sua vez, carrega consigo as características inatas de diferentes povos, transmitidas hereditariamente, não só nos genes, mas também no temperamento. Usos e costumes de uma região do mundo são transmitidos não só pelo meio ambiente, mas também por essa genética psicológica. Também a dinâmica dos instintos é determinada pelo quesito hereditário: uma família de tarados gera mais tarados, idem para criminosos, idem para tolos, idem para viciados. 

Cheira a racismo? Sim. Não especialmente na intenção, mas inegavelmente nas consequências. O Determinismo, lido em suas entrelinhas, tem forte coloração eurocêntrica. Não porque afirme que os europeus sejam mais capacitados que os demais povos, mas porque atribui a eles um conjunto moral mais aperfeiçoado, sem fazer juízo crítico convincente. Aí sim, por tabela, deixa entrever que o europeu é uma raça mais “digna”, ainda que não o diga peremptoriamente.

Com relação ao momento histórico, também ele fornece traços aos homens, na medida em que o quotidiano é transformado pelo giro político e social. Independentemente do aspecto geográfico (meio ambiente), toda uma comunidade é transformada pelo contexto histórico. Vejam, por exemplo, o que é uma aldeia em um tempo de colheita ou na passagem dos carros de guerra. O que é uma vila de trabalhadores em tempo de opressão ou de revolução. Ou o que é um sindicato em tempos prósperos ou miseráveis. O que uma pessoa faria em uma situação, não faria em outra.

A principal crítica a esse modelo mecanicista é a reificação do homem, reduzido a uma máquina que, mesmo pensante, não faz escolhas. Mesmo quando o faz, suas opções são contaminadas pelos bons e velhos três fatores, que o guiam. O cientista que conseguir fazer a leitura destes fatores conseguirá até mesmo descrever a predestinação do indivíduo e da comunidade. Resumindo a ópera: não existe ato de espontânea vontade; quando se pensa tê-lo, há uma triste ilusão. O acaso e o livre arbítrio não existem; tudo é determinado.

O Determinismo, longe de ser um pensamento restrito, conquistou adeptos que persistem até hoje. Mas, especialmente quando do seu surgimento, teve um leque de influências extremamente amplo, a ponto de fazer nascer uma das mais prolíficas correntes literárias modernas: o Naturalismo e seus romances de tese.

O Naturalismo possui a mesma base conceitual do Determinismo, ou seja, o homem é fruto de fatores extrínsecos e intrínsecos que conduzem sua existência sem qualquer tipo de ingerência pessoal. A ficção desenvolvida é muito próxima da realidade (muitos autores consideram o Naturalismo como um braço cientificista do Realismo, com o que concordo). A partir da fundação desta escola, todos os aspectos humanos, por mais tabus que se constituam, são abordados com uma crueza pouco vista até então. A ação dos instintos chega ao seu paroxismo: a sobrevivência e os atos sexuais permeiam e justificam toda sorte de mazelas. O homem não maquina, mas é uma máquina; antes, cede a impulsos.

O Naturalismo é impessoal. Seus romances quase são artigos científicos, onde um determinado grupo social é esmiuçado pelas premissas mencionadas anteriormente. Há uma tendência em focar grupos marginalizados, onde nada mais se faz do que se tentar provar os porquês de sua condição, sempre inevitável e fruto de um encadeamento lógico. Apesar de parecer contraditório, o movimento teve uma visão patológica sobre a sociedade e pôs em tela os sofrimentos de classes antes pouco mencionadas na arte, como os homossexuais, os negros, os trabalhadores de mais baixa casta.

Este roteiro aparentemente engessado dá a entender que o Naturalismo gerou poucas obras de qualidade, mas isso não é verdade. Começando por Émile Zola, seu principal autor, um dos grandes mestres da palavra de todos os tempos, passando por Abel Botelho e Eça de Queiroz em Portugal (se bem que o segundo não se prende unicamente à escola) até chegar ao Brasil, com Aluísio Azevedo, Julio Ribeiro, Inglês de Souza, Adolfo Caminha e companhia bela. Todos muito recomendáveis.

Então é isso. Não me parece que Lindoia e Águas de Lindoia tenham sentado e esperado o mundo girar para escrever seus destinos, mas é sempre interessante pensar que há fatores com os quais não esperamos, e mesmo mexem no nosso jeito de ser sem que percebamos. Esse é, no meu humilde entender, o grande mérito das correntes que expus neste texto.

Recomendações de leitura:

Não consegui achar os livros de Taine em português. Mas ele não escreveu um livro específico para descrever suas teses sobre o Determinismo. Fê-lo no livro abaixo (em espanhol):

TAINE, Hippolyte. Introduccion a la historia de la literatura inglesa. Aguilar: Buenos Aires, 1977.


Recomendo também dois livros do Naturalismo. O primeiro, o mais importante da literatura mundial:

ZOLA, Émile. Germinal. São Paulo: Abril Cultural, 1972.


E o segundo, o mais importante da literatura brasileira.

AZEVEDO, Aluísio de. O cortiço. São Paulo: Saraiva, 2015.

* Como pode ser lido nos comentários, a Prefeitura local informa que o balneário não se encontrava fechado na data em que o visitei, apenas estava vazio...