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terça-feira, 15 de julho de 2014

Sobre goleadas e a dialética que explica os vexames no futebol

Olá!

“Que traulitada!”, diria meu avô. “Que sacolada!”, diria meu pai. “Que chocolate!”, diria eu. “Que sacode!”, diria meu filho. “Que porra foi essa?”, dirão meus netos. “Que vexame!”, diremos todos nós.
Vergonha: a tristeza diante da incapacidade, o luto que tende à permanência diante do erro, da afronta. Vergonha é a palavra que mais li e ouvi nos últimos dias, reflexo dos indiscutíveis 7 x 1 aplicados pela Alemanha no Brasil nas semifinais da Copa do Mundo. Indiscutíveis em tese, aliás. Podia ter sido muito mais.

Gosto muito de futebol. Quando eu era criança, existiam dois campos de futebol na minha rua: no começo, na parte baixa, existia o campo do Disparada, time de várzea sustentado por uma casa de materiais de construção de igual nome; no final, no topo da ladeira, existia (existe ainda) a tubulação que leva água do Rio Claro até não sei qual parte da metrópole. Andando por sobre os canos, rapidamente chegava-se ao campo da Rua Deiz (assim mesmo, conforme estava escrito pelo indigitado que redigiu ambas as placas que a identificava). Era um local menos recomendável, porque pertencia à malandragem local (Vila Diva, no caso), mas como era plano, tinha suas partidas menos influenciadas por fatores “geográficos” e mais por fatores “sociológicos”, como brigas nos fins dos jogos, às vezes com alguns objetos perfuro-cortantes. O campo do Disparada tinha um leve, porém perceptível declive, mas o pessoal que jogava lá era composto de operários que moravam na Vila Ema e arredores, e que iam trocar a graxa pela lama no final de semana (rapidíssimos parênteses: o clima de São Paulo mudou demais nas últimas décadas. O inverno era gelado de verdade, e durava três meses. Hoje em dia, cai em um final de semana. No verão, sempre tinha chuva no final de tarde. E os níveis de umidade do ar nunca eram tão baixos – o epíteto “Terra da Garoa” não se justifica mais). Esse pessoal se reunia nos botecos e combinavam seus jogos, em meio a muitas cervejas e talagadas da “marvada”. Conhecia quase todos. Sentava na beira do campo e ficava assistindo o proletariado judiar da bola, enquanto comia os indigestos torresmos do seu Geraldo, fundidor de ofício que nas horas vagas fazia as vezes de barman. Cara curioso, esse seu Geraldo. Vivia coberto de fuligem, em qualquer hora que fosse visto, e transferia seus vestígios em todo lugar onde encostasse, inclusive nas garrafas de Caçulinha que nos eram servidas. Bom, nunca tivemos problemas com anemia.
Também costumava frequentar, com certa frequência, o Desafio ao Galo. Quem tem mais de 40, sabe do que estou falando. Tratava-se de um torneio de várzea, mais “requintado”, no CMTC Clube (onde hoje há o recomendável Museu do Transporte, na Ponte Pequena), e que era disputado no seguinte esquema: o time detentor da última vitória era chamado de “galo”, o dono do terreiro. A cada domingo, um time desafiante vinha enfrentá-lo. Se vencesse, era o novo “galo”, e voltava a jogar na semana seguinte, contra um novo desafiante. Se perdesse, abaixava a crista e ia esperar sua vez de novo. Em caso de empate, pênaltis. Quem fosse o galo por mais tempo no ano, ganhava um troféu adicional, se não me engano.

Conheci muitos times que participaram do torneio, quase todos extintos: Atlas, SDR, Botafogo do Imirim, Corinthinha do Sapopemba, Estrela do Sul, Parque da Mooca, Aliança de São Bernardo, A. A. da Penha, Portuguesinha da Água Rasa... Essa era a ponta mais visível do futebol de várzea, porque era transmitido pela TV. Passava na Record, que na época não tinha absolutamente nada a ver com a IURD. Na pequena arquibancada, era possível observar duas coisas: vários olheiros tentando caçar talentos (era fácil reconhecê-los, já que sempre tinham na mão algum bloquinho ou caderneta, e também costumavam ir a campo para abordar algum rapaz mais habilidoso) e meu avô berrando impropérios para pernetas que ele nem conhecia.
Também peguei gosto em ir a estádios, principalmente na década de 80. Apesar de ser corinthiano, o time profissional que eu mais assisti foi o Juventus. Explica-se: o campo da Rua Javari era perto de casa – meia hora de ônibus, o ingresso era muito barato, havia frequentes promoções para sócios do clube, eu pagava meia-entrada por ser estudante e havia ainda a ligação afetiva: mooquense que sou eu, mooquense que é o Juventus, bairrista que é o mooquense (sou-o de nascimento, não de residência).

O resultado é que hoje volta e meia me pego assistindo jogos como Batatais vs. Lemense na rede Vida. Se me interessa o futebol mais miúdo, quanto mais não me atrairá seu evento maior, a Copa do Mundo. É bem verdade que os brasileiros não têm mais a mesma ligação com a seleção que tinham antigamente. Na Copa de 70, todos os jogadores atuavam no Brasil. Na de 82, acho que só o Falcão jogava na Itália, mas tinha uma forte ligação com o Internacional de Porto Alegre. Dos jogadores da atual, não me lembro de ver jogar com camisas brasileiras os seguintes: Daniel Alves, David Luiz, Dante, Marcelo, Maxwell, Luiz Gustavo, Fernandinho, Hulk. Vi muito pouco do Maicon no Cruzeiro, do Tiago Silva no Fluminense e do próprio Willian no Corinthians. Nenhum dos jogadores atua no estado de São Paulo. A desvinculação se torna inevitável. Mas, mesmo assim, a vontade de enfiar a cabeça na areia é inexorável.
Por que o futebol nos afeta tanto assim? O que há nele, que a princípio é apenas um jogo, para fazer com que percamos o sono, choremos, soframos, até morramos? Lembro os inúmeros casos de enfarte e do torcedor vascaíno que precisou ser seguro para não se atirar quando seu time foi rebaixado pela primeira vez.

Vejo e ouço em muitos lugares a explicação de que o futebol é metáfora da vida, por isso nos perturba tanto. Não me convenci.
Uma metáfora é uma figura de linguagem em que uma característica concreta é substituída por outra, por um processo de semelhança e comparação. Vai aqui o exemplo do “mala sem alça”. Qual é o seu uso na linguagem coloquial? É o cara chato, difícil de suportar. Uma formação de frase para estabelecer a correlação entre o cara chato e a mala sem alça é a seguinte:

Ok, temos uma comparação clara, que não é uma metáfora, porque não há sentido figurado. Na metáfora, pegamos uma característica comum e a imiscuímos na relação. É possível representar graficamente.


Na metáfora, temos a fusão daquilo que é explícito na comparação:

Presto! O termo que medeia ambos some e enriquecemos nossa linguagem, trazendo um novo significado para uma expressão anteriormente unívoca, tomada apenas em seu sentido estrito:

Posto tudo isso, acho que não é possível traçar um paralelo tão próximo entre vida e futebol para considerar um metáfora do outro. Muitos são os motivos: o futebol tem tempo e espaço definidos, regras razoavelmente claras, acesso restrito, e outros que-tais. Para mim, o futebol é muito mais semelhante a uma metáfora da guerra. Eu acho isso até óbvio demais. Mas cabe explicação, e farei isso com as teses de um alemão, vejam vocês! Ninguém menos que Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o pai do Idealismo moderno.

Nosso caro tedesco é bem conhecido. Formulou um sistema completo de Filosofia, que abarcou teoria do conhecimento, metafísica, lógica, ética e estética, entre outros, e influenciou gente à beça. Com tão vasto sistema, só posso brincar aos poucos, e me concentrarei em sua visão peculiar sobre a dialética neste texto.
A dialética sempre foi utilizada em Filosofia, lançando mão da linguagem como ferramenta para partir do particular ao universal, o que dá cientificidade ao método. Zenon, Sócrates e principalmente Platão, na sua alegoria da caverna, dão mostras de como é possível galgar uma escada em que se abandonam as imperfeições da sensibilidade para adquirir conhecimento seguro. Para Hegel, no entanto, o movimento dialético é um reflexo da própria motricidade da natureza e da história, no sentido de que um estado ou situação sempre caminha no sentido de algo que lhe opõe, e desse confronto é obtido um terceiro estado, que agrega algo de uma proposição e algo de sua negação. Este terceiro estado também é passível de uma nova negação, que gerará mais uma vez uma junção de opostos que se interpenetram, e assim por diante, ao infinito. O primeiro estado ou situação é a tese, sua negação é a antítese e o resultado de ambos é a síntese. Quando o intelecto aplica esse método na obtenção do conhecimento, nada mais faz do que plasmar um ciclo já existente em tudo ao seu redor.

Vamos dar um exemplinho rápido de procedimento dialético simples, que vi em algum livro. Interiorizei o exemplo, mas não encontro onde. Perdoe-me o autor. Em um estado absoluto, tudo é guiado pela vontade de um rei. Suas determinações podem ser justas ou não, podem se basear em seus caprichos ou na lógica, podem voltar-se para a população que rege ou exclusivamente em seu interesse. Essa é a tese. As pessoas desejam liberdade, porque não querem se submeter unicamente ao desejo régio, querem decidir suas causas coletivamente, querem escolher o que fazer da vida, sem depender de um poder central. Essa é a antítese. Pois bem. Se por um lado a tirania cria grilhões para as pessoas, a liberdade ilimitada é anárquica em seu pior sentido, porque ninguém tem garantias de que o desejo do outro não conflitará com o próprio. Para solucionar este problema, temos sua síntese: a lei. A lei impede que a tirania se estabeleça, porque dá balizas e limites ao exercício do poder. Faz o mesmo com o interesse individual, demarcando onde cada um pode chegar e o que cada um pode ou não fazer. Percebam que na lei há um elemento do absolutismo, que é sua propriedade de nada estar acima dela, mas também tem um elemento de liberdade, porque tira a coletividade do domínio da vontade de um só. E assim caminha a humanidade...
Vamos agora, e finalmente, aplicar toda essa parafernália à nossa inglória derrota. O ser humano tem algumas características básicas. Quer sobreviver instintivamente a todo o custo, quer preservar a própria espécie, vive em grupo, procura espalhar seus genes pelo mundo todo. Isso faz com que cada agrupamento procure expandir seu alcance ao maior território possível. Isso era bem simples quando o mundo era povoado por meia dúzia de tribos, mas na medida em que foram se reproduzindo mais e mais, os encontros começaram a ser inevitáveis. No dia em que o homem resolveu que queria entrar à força em um domínio alheio, nasceu a guerra. Ela esteve presente em todos os tempos, por conta dessa necessidade atávica de ampliar seus domínios. Criou armas e diversas táticas para isso, e, portanto, usou de violência e da morte em quantidades inimagináveis, por mais que a razão tentasse dissuadi-lo disso.

Acontece que as mortes geradas em uma guerra, que em última instância é uma ferramenta da preservação das espécies, vai também contrária a ela, porque se enfiar em uma aventura guerreira traz baixas para si; há sempre o risco de se perder uma batalha ou mesmo a guerra toda. Há o medo ancestral da morte, e a guerra é uma usina de morte e destruição, não só no combate direto, mas também na fome, na doença, no empobrecimento.
Temos então dois fatores que se imiscuem mutuamente. O instinto de sobrevivência traz a combatividade, mas também traz o medo da morte. Como podemos solucionar estas duas potências que tentam se anular? Como satisfazer o espírito de luta e o desejo de paz ao mesmo tempo? Qual é a síntese possível para estas duas necessidades contraditórias? Como podemos combater sem que haja perdas?

Sim, através do esporte.
Desse confronto dialético entre guerra e paz, temos o simulacro que satisfaz os desejos de combatividade e as garantias de que essa agressividade não terá como objetivo o extermínio do outro lado. E, de acordo com o meu entendimento, é no futebol que temos o exemplo mais bem acabado desta metáfora.

Não vou esgotar o assunto, mas vou exemplificar: no vôlei, no beisebol, não há contato físico; no basquete, o contato é mínimo e é repudiado quando existente; no tênis, nas lutas, na esgrima, o esporte é individual; no automobilismo, depende de máquinas; no remo, na canoagem, nas corridas atléticas, afere-se somente a velocidade ou a resistência. Já no futebol, temos um grupo grande, com funções bastante específicas (goleiro, zagueiro, atacante, armador, técnico, massagista, roupeiro, etc.). As cores do exército estão em evidência, há uma insígnia no peito e a torcida que rodeia é a população que a esquadra defende. O campo é amplo, as táticas são variadíssimas. As intempéries se fazem presentes: há jogos na chuva, no sol intenso, na noite, em dias sem umidade, até sob a neve. Joga-se na grama, na areia, no asfalto, no tablado, na terra, no cimento, no carpete. Não há riquezas – uma bola basta, com dois marcos fazendo as vezes de trave, se necessário. Não precisamos de cavalos ou iates. Há o general – o cartola; há o sargento – o técnico; há o cabo – o capitão do time; há os soldados – os jogadores. Há a retaguarda, que são o goleiro e a zaga; há a artilharia (termo militar), que é o ataque; há a reserva, que é o banco.
Aqui, temos espaço para os baixinhos e para os galalaus, para os delgados e para os espadaúdos, para os lentos e para os lépidos, até para os inábeis com força de vontade há utilidade. Vejam como é difícil uma “zebra” em qualquer esporte; só no futebol ela é frequente. É o inesperado, a força vence a inteligência e vice-versa. E, nestes caracteres todos, vemos reflexos da guerra. Só o futebol tem tantas características comuns com a guerra. Por isso, tanto somos afetados por uma derrota no futebol: é uma derrota na guerra, ainda que levada no plano do simbólico. Tanto pior na goleada acachapante. É a derrota fragorosa, algo como se todos nós fôssemos dizimados. É como se estivéssemos ameaçados de existir como nação, ou como sermos objetos de chacota para qualquer lugar que formos, de mãos amarradas, de cabeça baixa, com o chicote estalando em nossas costas, cidadãos de segunda linha – se é que mereceríamos essa denominação. Estaríamos mais próximos da escravidão e do cárcere, a nossa vergonha.

Quanto drama! Melhor que seja no esporte do que em uma guerra real. Mas dói. Principalmente quando nos consideramos melhores do que os outros.
Recomendação de leitura:
Abordei aqui apenas milimetricamente uma tese de Hegel. Para conhecer mais a fundo seu pensamento, recomendo a leitura de sua obra maior.

HEGEL, Friedrich. Fenomenologia do Espírito. São Paulo: Vozes, 2002.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O martírio como ato dramático e equivalente ao suicídio (ou não)

Olá!

Quando redigi meu texto em que eu falava sobre a dimensão estética do suicídio, que pode ser lido neste link, meu leitor e colaborador Vitor Bertalan levantou um questionamento sobre a questão do martírio. Ele teria o mesmo efeito estético que pretendi atribuir à minha dissertação, ou há algo de diferente no ato de entrega da vida em nome de uma causa, de uma convicção? Pois bem, dois anos depois, vou tentar responder.
O primeiro ponto a ser discutido é que não temos um só tipo de martírio, e por aí já adianto que há também diferenças no modo com os quais devem ser encarados. A palavra “mártir” acabou por se tornar muito genérica, e desde já vou excluir deste texto sua aplicação simbólica. Para definir bem que exclusão é esta, vou contar mais uma historinha da minha vida, um tanto fútil, mas perfeitamente significativa para exemplificar.

Na segunda metade da década de oitenta, eu trabalhava com custos e contabilidade (vida emocionante...) em uma empresa de metalurgia, mais especificamente uma fabricante de máquinas-ferramenta para deformação de metais, mais especificamente ainda uma fábrica de prensas. Era uma época em que a indústria nacional ainda era pujante, dados os caríssimos impostos de importação, que faziam com que valesse a pena produzir no país. Acontece que, tão logo se deu a virada para a década de noventa, o então presidente Fernando Collor, julgando os carros produzidos no Brasil autênticas carroças, resolveu mudar a política econômica, barateando a importação de quase tudo. Por outro lado, o crédito industrial foi limitado e os investimentos em aplicações financeiras, até mesmo inocentes cadernetas de poupança, foram confiscados por um bom tempo. O efeito foi devastador para a indústria nacional, e foi particularmente cruel para a indústria pesada, como a que eu trabalhava em particular. Muitas portas baixaram e os empregos foram se tornando raridade. Bom, não vou entrar em grandes discussões do gênero neste momento. Para a compreensão geral, isso basta.
As empresas em geral começaram a partir para cortes de gastos, e, além do cafezinho, as primeiras afetadas eram as cabeças dos empregados. É evidente que aqueles funcionários que mais incomodavam eram os primeiros a ser desbastados, mas, para tentar amenizar os impactos dos cortes, eram realizadas semanalmente reuniões entre gerência e funcionários para tentar obter alguns consensos. Alguns eram bastante impactantes, como a redução temporária da jornada e de salários, com a garantia de que não haveria dispensas durante o período. Outras eram um pouco menores, como a diminuição de benefícios. Tínhamos até então um refeitório farto, com prato principal, saladas, guarnições, sobremesas e máquina de refrigerantes, além do direito de opção para quem não pudesse/gostasse de consumir determinada iguaria. Para reduzir esse custo, foi estabelecido que o contrato com a empresa fornecedora de comida seria rescindido, e seria oferecida uma refeição bem mais simples: arroz, feijão, uma mistura qualquer e salada, sem direito a opção, guarnição ou refrigerante. No lugar deste último, foi colocada uma daquelas maquininhas de suco, tão presentes nos botecos que servem churrasquinho grego nos arredores da Praça da Sé. Resignados, porém conformados, aceitamos de bom grado o declínio alimentar. Na reunião seguinte à primeira semana das medidas culinárias, um dos funcionários fez um pedido sucinto porém justo, e silenciosamente apoiado por toda a galera: o suco das maquininhas era horrível – açúcar pintado com algum corante, cheio de resíduos. Este funcionário pediu apenas e tão somente que fosse trocada a marca do suco, ou algo semelhante. Estava melhor beber água ou nada. Pois muito bem. Na reunião, a gerência falou iria rever o produto que estava sendo utilizado, se o problema não estava no preparo ou coisa congênere. No dia seguinte, nosso desventurado amigo foi colocado em aviso prévio... Ficou conhecido como “o mártir do suco”, aquele que entregou o emprego pela nobre causa de um acompanhamento digno para a gororoba diária. Perceberam que é um mártir simbólico? Pois é, deste tipo de mártir não vou tratar, nem do termo ainda mais genérico, que indica qualquer sofrimento intenso. Tipo: “Ai, essa dor nas costas é um martírio”, “Meu chefe é um martírio”, “Subir essa ladeira é um martírio” e outras metáforas do estilo.

Vou por em discussão dois outros tipos de martírio, desta vez reais, que implicam na morte do pobre coitado. E a base que os separa é simples: se se trata ou não de um ato de livre vontade. Temos mártires voluntários e mártires involuntários. Mas antes, vou conceituar a palavra.
Sua origem data do advento do Cristianismo, que, em seus primeiros séculos, tinha o duplo dissabor de ser uma dissidência do Judaísmo e uma oposição ao Paganismo imperial romano. Era um termo aplicado às pessoas que, por não abdicar de sua fé, preferiam serem mortos, dando assim seu testemunho. Este testemunho (martys) tinha origem nos primeiros discípulos de Jesus, que o conheceram pessoalmente, presenciando seu julgamento e condenação, e praticamente todos eles tiveram algum tipo de fim triste similar: crucificação, esfolamento, apedrejamento, decapitação, essas coisas. Faziam isso por um ideal – manter sua fé diante da opressão de um sistema que lhes tolhia a liberdade de escolha.

Com o passar do tempo, o termo foi se aplicando a qualquer pessoa que colocava sua causa acima de sua própria vida. Mas, no caso dos mártires involuntários, isto é, aqueles que tiveram sua vida ceifada sem sua própria asserção, não podemos equipará-los a suicidas. Caso mais clássico que posso fazer remissão agora é o de Tiradentes, o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Rapidíssima revisão: Tiradentes fez parte de um movimento chamado Inconfidência Mineira, que pretendia se libertar da dominação portuguesa, que se apropriava das riquezas produzidas pela extração de ouro em Minas Gerais. Pela delação de um dos partícipes, o movimento foi desmantelado e seus membros punidos, com penas que passavam por prisão, desterro e enforcamento, esse último aplicado apenas para o infeliz dentista/militar. Sua execução foi explorada à exaustão por artistas e patriotas vários, muitas vezes baseados em uma visão mítica (em momento oportuno, posso tentar falar algo sobre a “barba de Tiradentes”), mas o fato é que seu martírio foi imposto, o que não tira sua aura de heroísmo, mas reduz significativamente sua dramaticidade, pelo menos no que diz respeito ao ato em si como sinônimo de entrega extrema a uma causa.
Partamos, portanto, para a análise do martírio como suicídio. E, para tanto, vamos abordar dois filósofos, este que é um espaço destinado à Filosofia. Um é megaconhecido, até por leigos; outro, nem tanto. Mas quem estudou Filosofia ou História o conhece, sim.

Sócrates é, provavelmente, o mais célebre dos filósofos. Não deixou escritos, principalmente pela força da oralidade de seus métodos, e sua vida é conhecida, principalmente, pelos relatos deixados por Platão e Xenofonte, que têm inspiração mais doutrinária do que histórica. No entanto, alguns pontos de sua biografia são consensuais, o que permite deduzir que, ao menos na essência, estes relatos são dignos de fé. Sócrates renovou decididamente a maneira de pensar dos antigos gregos e, por extensão, de todo o ocidente. O princípio básico de suas ideias aponta para a identificação da essência do homem com a sua alma, mas em um sentido diverso do religioso. Alma, para Sócrates, é o logos, a razão, o eu consciente. O corpo já não é o mais importante, ele é apenas um instrumento para por em prática as ações deste logos. Desta forma, a busca do homem não deve ser calcada no poder ou no prazer, mas na areté, a virtude. E, para tanto, é fundamental o autoconhecimento (nada de auto-ajuda, por favor). Se o homem não se conhece, não saberá buscar essa virtude.
Dessas assertivas derivam todas as demais doutrinas socráticas. Para que a virtude seja atingida, é preciso exercitar um domínio sobre si mesmo: o homem-razão deve preponderar sobre o homem-animal, a racionalidade tem que saber dominar os instintos, e é preciso cada vez menos tornar imperativas as necessidades do corpo. A sabedoria consiste, assim, em fazer com que esse domínio sobre as paixões aproxime o homem das divindades. Os deuses bastam a si mesmos; o homem deve buscar o mesmo.

Esse desligamento do homem com as noções de poder trazia suas consequências. O homem sábio procura se afastar do embate, da guerra e da disputa. Calcando sua vida na busca dos valores racionais, chegaria sempre em uma solução pacífica, bem acordada. Isso ia de encontro à classe dirigente de Atenas, sempre necessitada de soldados preparados para o combate. Dessa forma, pesou sobre Sócrates a acusação de que estava pervertendo a juventude, os braços preferenciais dos exércitos. Além disso, havia a acusação secundária de que Sócrates ofendia os deuses do panteão grego, ao ensinar doutrinas diversas daquelas do entendimento geral, especialmente ao se utilizar o espírito crítico contra verdades prontas para consumo. Em seu julgamento, foram-lhe dadas as opções do exílio, da extirpação da língua ou da morte. Dizendo ser ambas as primeiras um castigo insuportável, opta pela última, que ao menos lhe é desconhecida. Sócrates não só não se retratou das acusações que lhe fizeram como ainda recusou a ajuda de seus companheiros, que queriam planejar sua fuga. Argumentava que, em primeiro lugar, sua condenação era um prêmio por sua vida justa. Mas, principalmente, morria em obediência às leis da polis. Se ele defendeu a virtude como principal objetivo a ser perseguido pelo homem, como poderia ele mesmo se voltar contra suas convicções, tomando uma atitude antiética, ainda que sua condenação tenha sido injusta? Preferiu tomar ele mesmo seu cálice de cicuta, diante do desespero de seus discípulos, como podemos ver na interpretação de Jacques-Louis David, a famosa tela “A morte de Sócrates”.


O martírio de Giordano Bruno tem contornos ainda mais dramáticos. Tinha um espírito difícil de amestrar, sendo a insubordinação uma de suas maiores características. Para falar mais claramente, era um encrenqueiro de mão cheia. Para que se tenha ideia do que estou falando, nosso corajoso porém imprudente filósofo foi beber nas fontes da mitologia egípcia para elaborar suas teses sobre o universo, em um tempo de intensa preponderância do pensamento cristão, que, como bem se sabe, não era muito dado a tolerâncias nos idos do século XVI. Suas ideias constituíam uma retomada, com influência neoplatônica, da tradição de Hermes Trismegisto, Deus da magia e da escrita. Segundo esta doutrina, a mente tem dentro de si um conjunto de imagens que totalizam todo o conhecimento do universo. As sombras das ideias não são, como imaginava Platão, obtidas através das coisas sensíveis, mas de uma impressão mágica que nada mais é do que reflexo das ideias divinas. Como tal, essas ideias estão eternamente residentes nos cérebros humanos, o que faz com que seja possível desenvolver técnicas de memorização que seriam praticamente infalíveis, assim como potencializa o alcance do conhecimento a praticamente qualquer lugar onde ele possa ser obtido, já que este seria nada mais do que a ativação da ideia. A partir destes princípios, Giordano Bruno desenvolve um sistema de mnemotécnica que o torna famoso, e que, no final das contas, foi a causa final de seu martírio.
Há dois pontos de divergência mais significativos do pensamento bruniano com relação ao Cristianismo: o universo infinito e eterno e o deus in rebus, o Deus nas próprias coisas. Bruno imagina que existe uma entidade suprema da qual emana tudo do universo, mas essa própria entidade não pode ser conhecida plenamente. Giordano Bruno concebe a emanação divina como uma distribuição dela própria, ou seja, Deus está em tudo. Mais do que isso: se tudo procede de Deus, se tudo é composto de Deus, se tudo é plasmado pela substância de Deus, então tudo contém o Deus completo, o que inclui não só a matéria, mas o intelecto de Deus. Tudo tem alma: os homens, os animais, as plantas e os minerais. A filosofia de Bruno não é só panteísta; é também panpsiquista.

Tem mais: partindo do princípio de que o universo é infinito, cada ponto de onde parte uma perspectiva é o centro deste universo. Essa característica, por exemplo, remove qualquer centrismo: nem a Terra, nem o Sol (embora Bruno entenda o Sol como o centro do nosso universo “local”), nem nada – tudo e ninguém são centrais. Bruno, inclusive, não exclui a possibilidade da existência de outros mundos com vida – um proto-ufólogo.
Está mais do que na cara que este tipo de posicionamento confrontaria diretamente o pensamento cristão da época, que era, como sabemos, tremendamente autoritário e pouco propenso a oposições. O universo infinito e eterno dava uma noção de incompletude, e, portanto, de imperfeição, o que era inadmissível para os teólogos de então. O mesmo se dá no panteísmo e no pampsiquismo: as coisas são imperfeitas e possuem muitos vícios. Não é possível conceber, na filosofia cristã, um Deus que não se destaque de sua própria criação, que não se situe em uma posição de paradigma de perfeição, a ser perseguido por suas criaturas.

Bruno foi se virando do jeito que dava – fugia daqui para lá e dali para cá, na exata medida em que arrumava suas altercações. Já era problemático desde adolescente: foi expulso da escola que estudava em Nápoles. Fugiu para Roma, passou por Turim, Nola, Veneza, Savona e Gênova – todas no norte da Itália. Se mandou para a Suíça, onde foi encontrar barulho com os calvinistas de Genebra. De lá foi para a França, onde passou por Toulouse e Paris, onde finalmente conseguiu proteção do embaixador francês. Acompanhou-o até a Inglaterra, sobretudo em Londres, mas também foi à Oxford para se indispor com os acadêmicos da universidade local. Voltando a Paris, percebeu que o antigo clima amistoso havia se esvaído, e migrou para a Alemanha, onde elogiou publicamente os luteranos, que o acolheram em Helmstädt. Adivinhem o que aconteceu em menos de um ano? Sim, ele foi expulso. Foi para Frankfurt, onde parou de tergiversar um pouco para se dedicar à poesia, quando foi convidado pelo nobre veneziano Giovanni Mocenigo para ministrar aulas de mnemotécnica, da qual era mestre. Deu um tiro n’água: retornou à Itália e, claro, foi angariar discórdia com seu contratante, que não pensou cinco minutos em levá-lo preso ao Santo Ofício. Condenado à fogueira, Bruno tinha a opção de abjurar, mas não quis se contrapor às suas próprias ideias, entregando-se à morte, que se deu em 1600.
Temos aí, portanto, duas histórias em que poderíamos fazer uma equivalência real entre martírio e suicídio, já que existia a opção de não morrer. Mas é uma opção meio que falsa: haveria uma perda ainda assim. No caso de nossos caros filósofos mencionados, que não são conhecidos por obras artísticas, ou por realizações políticas, ou por sutilezas físicas, ou por práticas de guerra, mas apenas e tão somente por suas ideias, renegá-las significa manter a vida, mas tirar-lhe totalmente o sentido. Olhando por este ângulo, manter a sobrevivência significaria atirá-la no vazio. É um ato de coragem escolher pela morte, mas a coisa vai mais além: a obra de ambos era, concordemos com eles ou não, maior que a sua própria existência, e, no final das contas, era a melhor coisa a fazer para se manter vivos, permanentes, eternos. Vejam vocês: seria muito menos provável eu estar falando sobre Giordano Bruno neste espaço unicamente por sua Filosofia hoje superada – tanto Religião quanto Ciência concordam que o universo não é infinito e que teve um ponto inicial: a criação para os religiosos, o big bang para os cientistas – do que pelo fato de sua entrega em nome de suas convicções.

E nessa medida o martírio se equivale em dramaticidade ao suicídio, de quem se destaca sem se descolar, porque o suicida “comum” encerra uma tragédia pessoal, enquanto o mártir deixa um legado para a humanidade: morre muito mais aquele que renega o que crê do que aquele que efetivamente se deixa matar. Concordar ou não, é com vocês.
Recomendações de leitura:
Menciono aqui as duas obras que melhor fazem referência à morte de Sócrates, e que citei neste texto. Claro que a linguagem não é das mais fáceis, mas são bem importantes de serem lidas para compreender os motivos pelos quais Sócrates se entrega em martírio.

PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Col. Os Pensadores.
XENOFONTE. Banquete e Apologia de Sócrates. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2008.

O livro principal de Giordano Bruno é o que menciono abaixo. Saibam que ainda hoje é muito utilizado por esotéricos.
Bruno, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1992.


A imagem da tela de Jacques-Louis David foi extraída do seguinte site:
http://galeriadefotos.universia.com.br/

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Data maxima venia: Sobre juízes e religiões, com direito a um rápido volteio pela história da Filosofia

Olá!

Antropologia é Filosofia. No texto abaixo, tentarei manter o meu distanciamento e colocar entre parênteses minhas convicções religiosas para analisar o tema com o máximo de isenção possível.
Algum tempinho atrás, um juiz da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro negou provimento a uma ação movida contra uma igreja evangélica pelo Ministério Público Federal, por conta da divulgação de vídeos considerados ofensivos a religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda (notícia aqui – retratação do juiz aqui). Alegou o doutíssimo magistrado que tais denominações não podem ser enquadradas como religiões, já que não possuem um texto base, não seguem uma hierarquia e não veneram um deus específico. O MPF recorreu da decisão e pediu nova liminar, que o tal juiz negou novamente, desta vez baseado na liberdade de expressão, item basilar da Constituição, e aproveitou para retificar os termos de sua decisão anterior, no que tange à polêmica definição de religião, extraída pelo juiz não sei d’aonde.


Para deixar minhas considerações um pouco mais claras, vou explicar rapidamente o que é uma liminar. Quem já for versado nessas artes pode saltar o parágrafo seguinte sem nenhum prejuízo, mas sinto-me na obrigação deste esclarecimento, já que este espaço é visitado preponderantemente por jovens, que talvez não compreendam bem essas sutilezas jurídicas.

Pois bem, uma liminar é solicitada ao juiz todas as vezes em que se deseja que o pedido seja atendido imediatamente, antes do julgamento da ação - dada a sua urgência. Para que um pedido de liminar seja atendido, ele deverá cumprir dois requisitos: o fumus bonis juris e o periculum in mora. São dois requisitos que buscam dar um mínimo de legitimidade e fundamento à antecipação dos efeitos do que se pede. O primeiro (“fumaça de bom direito”) significa que o pedido tem lógica jurídica e não infringe claramente nenhuma norma legal. O segundo (“perigo na demora”) indica que, se houver perda de tempo, há risco de não se ter os direitos assegurados. Exemplo para lá de comum: vou a um médico, que constata em mim uma doença qualquer de natureza grave e agenda uma cirurgia urgente. O convênio que eu pago todo santo mês, que corrói o fígado de minhas finanças, alega que não há cobertura. Vou no juízo e requeiro meus direitos, com pedido de liminar. Há fumus bonis juris: tenho um contrato regular com uma operadora de saúde, com as parcelas em dia e com previsão de cobertura, ainda que tacitamente. Há periculum in mora: trata-se de uma doença, em que há risco de agravamento ou morte se não forem adotados procedimentos médicos urgentes. Cumpridos esses requisitos, o juiz decidirá rapidamente pela concessão (ou não) da liminar. Reparem no seguinte: a concessão de uma liminar não significa que o mérito da ação tenha sido julgado. Não é uma garantia de vitória na demanda, é apenas uma antecipação dos seus efeitos.
O que o MPF solicitava em sua liminar era que os vídeos fossem retirados imediatamente do YouTube. Eu os assisti. São nojentos. Há tanta necessidade em certas religiões de que exista um inimigo a ser combatido que essa busca acaba por se tornar doentia. É preciso personificar o mal que elas veem ao seu redor, criar um diabo não basta. Nada melhor, neste caso, do que ter ao seu dispor uma religião oriunda de uma minoria, típica de sua cultura, que já é, explícita ou implicitamente, detestada pela sociedade (falem-me sobre as chapinhas). Pronto! Já temos nosso espantalho. Já falei sobre o tema anteriormente, deixo aqui o link. Basicamente, o mau e velho preconceito de cor.

Apesar disso, a questão aqui é menos pela não concessão da liminar do que pela tentativa de definição do magistrado do que é e do que não é religião. Por que foi utilizada uma argumentação desse tipo? Seria o ideal analisar os três requisitos que foram apontados como configuradores de uma religião, mas o farei mais tarde. Antes, e para melhor embasar minha tese, pedirei um pouco de paciência e convido-os a fazer um pequeno itinerário filosófico. Vamos lá.
Vivemos em um país ocidental, relativamente jovem, e que foi colonizado por europeus. Portanto, nossa base cultural, apesar de receber fortes influências indígenas, africanas e asiáticas, tem preponderância europeia, povo dominador que foi, e que, por sua vez, teve como berço a Grécia Antiga.

Desde a antiguidade, o homem tem a curiosidade como uma de suas grandes características. A humanidade teve desde sempre as perguntas clássicas na cabeça: Quem somos? De onde viemos? Qual a origem de todas as coisas? A ciência experimental era algo totalmente primário, o principal elemento a ser estudado era o universo ao alcance dos sentidos nus. Por exemplo, os homens olhavam para os céus e percebiam que a posição das estrelas permitia deduzir alguns traçados que se assemelhavam a objetos, a animais, a humanos. Não tinham como perceber as distâncias existentes entre si e elas, nem entre as próprias estrelas. Percebiam também seus movimentos. Esses desenhos se deslocavam pela abóbada celeste no decorrer do ano, e, como também era possível perceber seus ciclos e regularidades, foi possibilitada a associação de certos eventos com a posição dos astros, como a chegado do frio, do estio, da temporada de chuvas. A cada ano esses ciclos se repetiam sempre iguais, com raras exceções. Essa perfeição nos ciclos fez com que esse homem comparasse os mecanismos cósmicos com a volubilidade humana e com a mutabilidade dos eventos mais próximos. Isso o levou a duas deduções: não era possível explicar os fundamentos destas regularidades sem a existência de inteligências superiores a guiar o maquinismo universal; e se caso houvesse uma exceção, sua explicação se dava pela própria ação humana, que causaria o descontentamento dessas divindades. Uma guerra, por exemplo, poderia fazer com que as chuvas fossem mais torrenciais, ou inexistentes. A posição das constelações seria, portanto, indicações aos homens do que deveriam fazer: a época de plantar, de colher, de armazenar. Mas é uma mensagem difusa, não escrita, não presencial. E o homem busca explicações para que lhes sejam dispostas essas indicações e da perfeição dessas mensagens. E nascem os mitos, que vão se desenvolvendo através da história até se tornarem complexíssimos, como pode ser observado através do estudo da mitologia grega, um amplo conjunto de reflexos sobre a condição humana e suas origens.
Belo dia, e um cidadão chamado Tales, da cidade de Mileto, repropõe a maneira como o cosmos deve ser interpretado e dá uma reviravolta na abordagem ao conhecimento, dando o pontapé inicial àquilo que até hoje chamamos de Filosofia. O diferencial de Tales reside no axioma geral de que as explicações para a origem e composição das coisas estão nas próprias coisas. Ele buscava a arché, que representa a substância primordial e comum a todos os seres, sejam eles vivos ou inanimados. Tales concluiu que esse elemento era a água. Chegou a essa conclusão por motivos lógicos, por força do raciocínio. A água, por exemplo, é moldável. Ela adota a forma de seu recipiente quando em estado líquido ou gasoso, prescindindo do mesmo quando congelada. A água muda de estado físico com pouca variação de temperatura, muito diferentemente do que acontece com metais, que precisam de altas temperaturas para fundir (sim, eu sei, existe o mercúrio – mas lá Tales sabia que o mercúrio era um metal?) ou de gases, que precisam de temperaturas muito baixas para condensar. A água também está presente onde menos se espera. Da terra seca, fura-se um poço e se extrai água. Dentro de um quarto escuro, ao cair da noite, as paredes outrora secas começam a ter água escorrendo. Do cozimento de um alimento aparentemente pouco úmido desprende-se um monte de líquido. Perceba-se que Tales não tem uma explicação mitológica para a arché: ele tem dados concretos e raciocínio lógico.

Deste momento em diante, muito outros pensadores tentaram encontrar, através de argumentos e ponderações, o que seria a tal da arché. Empédocles achava que eram os quatro elementos, misturados em maior ou menor proporção. Anaxímenes imaginava o apeiron, uma substância indefinida que tomaria formas e características próprias a cada elemento que tivesse de representar. Pitágoras fascina-se com a perfeição matemática existente na natureza e nomeia o número como elemento fundamental. E com isso chegamos a Demócrito. Muito antes de a moderna química desvendar os mistérios das composições dos corpos, o risonho e sarcástico grego percebeu que toda a matéria poderia ser reduzida a pedaços cada vez menores, e menores, e menores, até chegar a um ponto em que não seria mais possível dividi-la, sob pena de descaracterizá-la. Era o átomo, descoberto pelo puro raciocínio, sem instrumentos, há cerca de 2500 anos atrás.
Percebam que, até aqui, o grande problema da Filosofia era compreender a composição cósmica, que matéria seria comum e originadora de tudo o que existe. A Filosofia era, portanto, uma Física. As coisas começaram a mudar com os sofistas (pretendo redigir sobre eles, sob uma perspectiva ética), para quem essa discussão sobre a arché era uma inútil caceteação que não trazia nenhum benefício justamente a quem deveria, a quem lhe doa o sentido: o ser humano. Com efeito, o mais célebre dos sofistas, Protágoras, enunciou que “o homem é a medida de todas as coisas”.

Na mesma época, surge Sócrates. Se o mais célebre filósofo da Antiguidade discordava das finalidades dos sofistas, por outro lado tinha o mesmo foco, uma filosofia voltada para o humano, investigando o que é possível conhecer, começando por si mesmo. Ele inaugura um método dialético ao qual foi dado o nome de maiêutica, o parto das ideias. Para ele, o conhecimento não está no mundo que cerca o homem, mas reside em seu interior. A ele sucede Platão, seu pupilo e principal “ghost-writer”, que discorre sobre o mundo inteligível e o mundo sensível, com a preponderância do primeiro sobre o último. Segue-o Aristóteles e suas investigações sobre as causas e os efeitos, o ato e a potência, além de amplos estudos éticos. Daí por diante, temos os céticos, que creem na impossibilidade do conhecimento, colocando todo e qualquer juízo em suspensão; os epicuristas e o prazer como centro da motivação vital; os estoicos, que já foram objeto de um texto meu, adotando uma atitude de resiliência ao sofrimento; e os cínicos, com sua busca pelas virtudes morais.
Percebam que a Filosofia tem, neste momento histórico, suas especulações voltadas para um objeto apoiado em um tripé formado pela metafísica, que quer discutir o Ser; pela gnosiologia, que se ocupa de investigar o que é possível conhecer e a origem do conhecimento; e pela ética, que estuda as relações humanas. O tal objeto é o ser humano, o anthropos. Já não é a physis dos pré-socráticos o que interessa. A Filosofia torna-se antropológica e antropocêntrica.

Mas o mundo prosseguiu em suas voltas e um fato novo fez girar o leme filosófico. A novidade foi a adoção do Cristianismo como religião oficial do ainda poderoso Império Romano, por volta do século III. O Cristianismo trazia uma grande reviravolta no modo com o qual era dado o relacionamento com as divindades. O paganismo era politeísta, com deuses antropomórficos e movidos por paixões humanas, suscetíveis a toda sorte de defeitos: enganadores e enganáveis, traidores e traídos, ardilosos e ingênuos. Com exceção de alguns poderes específicos, tinham essas mesmas características dos homens, só que em ponto maior – algumas coisas como a imortalidade, a capacidade de modificar os astros, ou de manipular fenômenos meteorológicos. Eles poderiam ser encontrados em um local determinado, o monte Olimpo. Sua casta sacerdotal era reduzida e pouco influente. O Deus cristão é o inverso desse modelo divino. Ele é único, dotado de onipresença, portanto não se limita a um lugar determinado; de onipotência, portanto não tem limite de atributos; de onisciência, portanto não pode ser enganado. Ao contrário das divindades pagãs, possui uma relação paternal com o homem, a quem distribui justiça e misericórdia. Essa divindade é paradigmática: seus atributos sempre apontam para a perfeição, Deus sempre é bom, e é dever do homem segui-lo em inteireza. Aparece o conceito de pecado, que é o desvio da norma estabelecida para a aproximação com sua transcendência, e a casta sacerdotal cristã é considerada via de acesso a esse ser supremo, através da administração de sacramentos. A Igreja torna-se muito mais organizada, com cargos e hierarquia claramente definidos.
Como modelo de perfeição, Deus passa a ser a entidade a ser analisada. A Filosofia quer compreender como funciona o relacionamento entre Deus e os homens, como a fé pode ser fonte de conhecimento, como a semelhança entre ambos se dá através das virtudes, e não dos vícios, como ocorria no paganismo. Percebam que a Filosofia entra em uma nova era. Ela agora é Teologia, o que não significa que ela seja religião. A Filosofia não perdeu seu escopo, ainda utiliza a lógica e a dialética para construir seus argumentos. Em suma, a conciliação entre fé e razão não pode se dar em base mítica, mas lógica.

O tempo continuou passando e também a filosofia teocêntrica declinou. Mas tínhamos aqui uma novidade, que é o centro da minha argumentação.
A Filosofia do Iluminismo não só tenta recolocar o homem no centro das investigações, mas também procura se calcar na ciência e na evidência. Cada vez mais a Filosofia procura a dúvida, e, através de Descartes, transforma-a em método. Enquanto isso, os empiristas querem provas. Querem fazer experimentos e observações que não se limitem à especulação. Querem tocar, querem ver, querem ouvir. Toda metafísica que não tenha como sair do processo meramente especulativo não serve à Ciência.

E é justamente aí que está a salvaguarda do pensamento religioso. Ainda que a Filosofia Medieval não tenha conseguido comprovar a existência de Deus em moldes científicos, isso não constitui um problema para uma divindade do modelo judaico-cristã. Prova é uma necessidade da Ciência, não da Metafísica. A Ciência também não prova que Deus não existe. A averiguação científica é um problema para os deuses gregos: basta subir o Olimpo e ver que eles não estão lá, ou entender o ciclo das águas e perceber que a chuva não é mandada por uma divindade. Mas a base existencial do Deus cristão prescinde dela.
O resultado é que, apesar da superação da Filosofia teocêntrica, a religião não enfraqueceu. Pelo contrário, deu base à moral ocidental, para o bem e para o mal. Entendam bem a diferença – a Filosofia pouco se ocupa da teologia hoje em dia, mas a religião em si é ainda bastante presente (ainda que em curva descendente), principalmente na constituição dos códigos morais. Isso significa que, mesmo com igrejas mais vazias, a religião continua se fazendo presente. E é exatamente nesse ponto que vemos o caso do nosso douto magistrado.

Não cheguei a saber se ele é cristão, muçulmano ou pertencente a outra denominação, mas é claríssimo que sua sentença se baseou no formato religioso no qual ele está circunscrito, e entendeu ser suficiente para dar fundamento à sua decisão.
Em minha opinião, não deveria fazê-lo. Ao contrário do que pode parecer, juízes não tendem a ser arrogantes com opiniões alheias. Eles judicam sobre causas que, em muitas vezes, não possuem nenhum conhecimento. E, neste caso, lançam mão de peritos, que escrevem laudos que dão base às suas decisões. Um juiz não pode decidir por um plágio sem o parecer de um músico, não pode decidir por um embargo de obra sem ouvir um engenheiro, não pode decretar uma falência sem ter a opinião de um contador. Se o fizer, sua sentença pode ser facilmente combatida. Por isso mesmo, a própria função faz com que o juiz se habitue a ouvir. Não foi o que ocorreu no caso. Os três quesitos utilizados para tipificar uma religião servem muito bem para refletir o Cristianismo, o Judaísmo ou o Islamismo como paradigmas. Mas eles são falsos quando estendido a outras crenças. Porque uma religião é muito simples de se definir. É uma sistematização de pensamentos e ritos para que o homem possa se relacionar com a transcendência na qual acredita. Simples assim.

Mas ainda que os quesitos fossem verdadeiros e bem formulados, ainda assim há erro. Vejamos:
1º - Ausência de texto-base

É verdade que a Umbanda e o Candomblé não possuem um registro escrito a ser seguido, como é o caso da Torá judaica, da Bíblia cristã ou do Corão islâmico, mas isso não significa nada. Estes livros são utilizados para dar sistematização às religiões que os seguem, o que existe nas religiões afro sem a necessidade da codificação baixada por escrito. Todo o rito é sobejamente conhecido por seus praticantes e é possível reconhecer de longe suas indumentárias típicas. A tradição lhes basta para suas celebrações. Mas ainda é possível olhar para o outro lado. Se observarmos o Cristianismo, em especial na sua vertente protestante, veremos que, apesar da existência do código escrito, há milhares de denominações que divergem na formação de suas doutrinas, cada uma se achando mais correta que a outra. Ou seja, a existência de um texto-base não garante a unicidade do rito nem uma sistematização consagrada, por conta da variabilidade de interpretações.
2º - Ausência de estrutura hierárquica

Neste caso, não há nem mesmo o “fumus bonis juris” do item anterior. Existe, sim, uma hierarquia nos terreiros de Umbanda e uma “carreira” bem definida, com pleno conhecimento dos passos necessários para se chegar a cada um dos estágios. Cada casa tem um pai ou mãe-de-santo (babalorixá e ialorixá) que a comanda, e todos os membros tem uma função específica, como cambonos, ogãs, sambas, médiuns em geral e etc. É como no Catolicismo, onde a autoridade típica de uma paróquia é o padre, que tem sob sua supervisão os diáconos, ministros, coroinhas e assim por diante. Os umbandistas e candomblecistas também tem a possibilidade de filiar-se a federações, a quem cada um dos líderes de centro se submete. Tremenda bobagem, essa história de hierarquia.
3º - Ausência de um Deus a ser venerado

Se chamei o item anterior de bobagem, a afirmação de agora beira (se não extrapola) o desrespeito. O simples fato de uma religião ser politeísta não pode ser usado para desqualificá-la como tal. A Umbanda e o Candomblé possuem divindades muito bem definidas e conhecidíssimas, mesmo por quem não as cultua, como Ogum, Oxóssi, Iansã, Iemanjá e outros. Aliás, são religiões politeístas “numas”, já que há, inclusive, um Deus maior, uma espécie de Deus dos Deuses, que é Oxalá. Temos aqui claramente uma visão atravessada pela cultura pessoal – falta alteridade para reconhecer plena validade nos convicções do outro.
Desde já, peço desculpas pelo meu insuficiente entendimento no quesito "religiões de matriz africana", e posso até ter misturado algumas coisas (sintam-se livres para fazer as correções necessárias). Mas, no meu entender, o grande problema que temos aqui é que os cultos africanos possuem a mesma estrutura que os antigos ritos pagãos greco-romanos – deidades antropomórficas, com paixões e emoções humanas. Este foi o modelo que as religiões monoteístas suprimiram com o esgotamento do paganismo, mas que, incomodamente, vem bater à sua porta com os paradigmas de origem africana. São religiões que lidam com o bem e o mal com mais naturalidade que as religiões predominantes no ocidente. E isso choca, já que estas últimas tem em seu horizonte um Deus perfeito, modelar.

Gente, é só um exercício de respeito às diferenças. Nunca foi necessário ofender o azul por se gostar do vermelho. É necessário dizer que a entidade que gravou os vídeos é, ela mesma, alvo de grande preconceito. São tidos como retrógrados, como alienados, como fechados em si mesmos. Seria mais inteligente de sua parte olhar para o outro pelo que os iguala, não pelo que os distancia. São religiões que tem inúmeros pobres em suas fileiras, inúmeros excluídos, que buscam na prática religiosa uma motivação para as suas vidas, para se sentir abrigados em comunidade. O discurso do ódio não vai ajudar em nada – aumentará a exclusão de uns e a antipatia de outros. Enfim, devemos ter em mente que nosso pomar vai frutificar se eu cuidar bem dele, deixando que o meu vizinho cuide do dele. Lançando sementes de pragas no quintal do meu vizinho, corro o risco de que o vento me devolva boa parte delas. Se suas doutrinas são inconciliáveis, que um deixe o outro quietinho no seu canto, e acabou.
Data venia, a única coisa de bom que toda essa história trouxe foi a oportunidade de se tornar claro certos posicionamentos de nossa sociedade, e de trazê-los a debate.

Recomendação de navegação:
Hoje, uma dica diferente. O link abaixo traz o segundo pedido (um agravo de instrumento) do MPF do Rio de Janeiro relativo ao caso acima. Traz a relação de todos os vídeos combatidos, com comentários e respectivos links. É duplamente interessante, porque explica bem o caso e dá uma mostra de como funciona uma demanda judicial.

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Agravo de Instrumento com pedido de antecipação de tutela recursal no processo 0004747-33.2014.4.02.5101. Disponível em:

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sobre a tragédia grega revisitada e sua permanente atualidade

Olá!

Todo mundo que curte Filosofia sabe a importância que a tragédia teve na formação do ethos grego, e como isso desembocou no modo de pensar ocidental.
Falo isso porque alguns dias atrás fui assistir a peça “Trágica.3” no CCBB, junto de minha esposa. O diretor, Guilherme Leme, pegou três grandes histórias da mitologia grega protagonizadas por mulheres e as juntou em um só painel, lançando mão de recursos eletrônicos para aumentar o clima de tensão em um espaço bem menor do que os dos antigos estádios gregos, onde, em geral, as tragédias eram encenadas.


A tragédia grega é importante na história da Filosofia porque foi uma espécie de propedêutica a esta. Os questionamentos eram os mesmos: Qual o sentido da vida? O que vale mais – uma vida serena e desimportante ou uma vida arriscada e gloriosa? O que nos iguala às nossas transcendências? É possível escapar do destino? A diferença estava basicamente no método. A tragédia buscava estas explicações no desenrolar dos enredos, que lançava mão dos mitos para protagonizá-los, e a Filosofia se vale do raciocínio lógico e das evidências. Evidentemente que ainda não existia o distanciamento que hoje temos entra pensamento científico e pensamento mítico, mas podemos perceber suas diferenças e aproximações.

A origem do termo “tragédia” é estranha. Em uma tradução direta, significa “coro dos bodes”, o que exige alguma explicação. É que as primeiras formas desta arte ocorreram em festas chamadas de “dionisíacas”, e eram chamadas de ditirambos. Dionísio era o deus grego da alegria, das festas, das orgias, do vinho, e, por extensão, do embriagamento, da loucura, das emoções, da inconstância. A embriaguez era o modo com o qual os gregos entendiam ser possível ao homem se fundir com as divindades. Portanto, os ditirambos se desenvolviam em uma espécie de transe, no mais das vezes através da utilização de bebidas alcoólicas e outras poções menos votadas. Na mitologia grega, Dionísio era cercado por um séquito de seres denominados sátiros, que lhe serviam e prestavam culto. Os sátiros eram seres híbridos, metade homens, metade bodes. A montagem de uma tragédia levava isso em conta – a estrutura de uma representação consistia em um ator inserido no centro de um estádio, encenado um personagem qualquer, em geral um herói grego. O ator que representava o herói colidindo com seu destino, representava o próprio deus Dionísio. Era acompanhado por um grupo de músicos reunidos em coro. Para caracterizar a homenagem a Dionísio, os membros do coro representavam sátiros, e se vestiam como bodes, e então temos o nome tragosoidé – a tragédia.

Quem nos dá a estrutura da tragédia grega clássica é Aristóteles, principalmente em sua obra A Poética. Para o mestre estagirita, a tragédia não era apenas um texto com final triste. Era necessário musicalidade – os temas deveriam ser abordados com ritmo e harmonia. Precisaria ser protagonizado por um deus ou por um herói, e deveria estar voltado para temas grandiosos. Além disso, deveriam ser tratados com extrema seriedade – a função da comédia é totalmente distinta da solenidade com que a tragédia deve trabalhar seus assuntos. E, principalmente, seu foco não era voltado para o mito em si, para o texto ou para a interpretação do ator, mas para a reação do público. Vamos destrinchar isso.
Em geral, a tragédia buscava traduzir os atos e pensamentos de um herói colocado diante de uma aporia. Os mitos são conhecidos, narrados pela tradição oral e sintetizados por grandes escritores da época, como Hesíodo (Teogonia) e Homero (Ilíada e Odisséia), e foram adaptados para a dramaturgia por mestres como Sófocles, Eurípedes e Ésquilo. A descrição do mito era narrativa: aconteceu isso, aquilo e o outro. A magia da tragédia, portanto, não estava propriamente na história em si. Se eu contar as histórias da peça que estou tratando aqui (o que farei), não praticarei spoiler, porque seu encanto está na conjunção da genialidade do dramaturgo em “pensar com a cabeça” do personagem e da força da interpretação do ator. Entrever as emoções e reações destes personagens é a tarefa do dramaturgo. Seu objetivo principal era atingir a catarse: uma purificação dos sentimentos que a plateia atinge ao reconhecer nos deuses e heróis as mesmas aflições diante daquilo que transcendia seu alcance – a dor, o destino, a morte. Nesse sentido, a catarse seria pharmacon. Assim como as ervas, os óleos e os minerais, que, quando usados corretamente são remédios para o corpo, a tragédia é remédio para a alma. Assistir a uma tragédia e atingir a catarse representa uma purgação espiritual. Seu equivalente corpóreo, segundo os antigos gregos, era utilizado para livrar o organismo dos males que lhe contaminavam. Então a tragédia tinha também essa dimensão do coletivo, era a história de todo o gênero humano, não só dos protagonistas.

Mais do que em outro gênero, a representação da tragédia exigia muito dos atores. É aqui que o ator mais doa sentido ao seu personagem. As interpretações são derramadas, os gestos são intensos, as expressões são quase exageradas. Muitas delas eram longos monólogos, entremeados por cantos. Estamos nos estádios gregos, em espaço aberto, sem acústica, sem microfones, sem efeitos de luz. O ator tem que dar mais de si, há uma mensagem a ser entregue por seu corpo ao espírito dos espectadores. E assim nasce essa forma de linguagem que hoje chamamos de teatro.
A análise da tragégia atravessou os séculos, e, da filosofia contemporânea, quem mais profundamente cuidou do tema foi Nietzsche. O alemão das marteladas falava muito mal de Sócrates. Ele coloca o pai da Filosofia Clássica no papel de assassino da tragédia grega, e como o mundo não pode ser vivido fora de sua dimensão estética, o racionalismo e a dialética socrática são tidos como um imenso mal, uma desfaçatez à própria natureza humana. Neste sentido, Nietzsche concorda com Schopenhauer, que afirma ser a vida um imenso vazio fora da sensação produzida pela arte. Só que para Nietzsche isso é um bem, não é motivo para pessimismo, mas pela celebração. É nesse campo que o homem transcende a si mesmo. Sócrates, ao apostar na racionalidade, afoga toda a criatividade do homem e o impede de ir além de si mesmo, o übermacht – super-homem, a quem voltarei oportunamente, em outro texto. Como toda a Filosofia posterior à Sócrates é um reflexo e derivação deste modelo de pensamento, o método libertador trágico ficou latente.

Nietzsche percebeu que, nas entrelinhas, a grande sacada da tragédia grega era enxergar, à perfeição, não só a inconstância e o pathos dionisíaco, mas também a grandiosidade e a perfeição das formas do apolíneo. Este nome deriva do deus Apolo, que regia a racionalidade, o equilíbrio, a harmonia e a beleza, o exato oposto de Dionísio. Na tragédia residia essa permanente tensão, entre o que é possível e o que é realizado, entre criação e destruição. Essas pulsões nascem artisticamente da própria natureza, não é algo que dependa da genialidade de um artista. O mundo é um revolver dionisíaco de alternância e caos que se desenrola em um modelo apolíneo harmônico, que o limita e contém, mas que por sua vez é atravessado e remoldado pela atividade vulcânica do primeiro. Segundo ele, é justamente essa corda sempre prestes a partir que faz com que a tragédia seja reflexo da vida e, no limite, a justifique. Na tragédia, o apolíneo fala pelo caos e o dionisíaco fala pela harmonia.
Pois então. Vamos à peça em si.

Três excertos foram pinçados: os mitos de Antígona, Electra e Medeia. O escopo é relacionar estas mulheres com o destino extremo – a morte. Cada uma delas se relaciona de uma forma diferente com a senhora da capa preta.

Antígona é uma das protagonistas de uma das mais importantes sagas gregas, Édipo Rei. Torna-se relevante a partir da disputa de poder dos pretendentes ao trono de Édipo, seus irmãos Polinice e Etéocles. Édipo havia sido expulso do reino de Tebas, e Antígona foi a única filha a acompanhá-lo em seu exílio, até sua morte. A guerra entre os irmãos começa quando o acordo de revezamento no trono foi quebrado, com a recusa de Etéocles em ceder o reinado. Terminou com a morte de ambos em uma batalha fratricida. Com isso, seu tio Creonte assumiu o governo, e decidiu enterrar Etéocles com todas as honras de estadista, enquanto mandou o cadáver de Polinice ficar exposto às intempéries, para que fosse devorado pelos lobos e pelas aves de rapina. Fazia isso para servir de exemplo a todo aquele que desejasse tentar lhe tomar o poder. Antígona não admite deixar o corpo de seu irmão insepulto, e toma ela mesma a tarefa de cumprir os ritos sagrados e enterrá-lo. Tinha perfeita consciência da gravidade de sua atitude, e se lança nesta tarefa sabendo dos riscos que corria: ela própria ser sacrificada, o que acaba por ocorrer, com o ato de seu suicídio. Põe em evidência, com essa mentalidade transgressora, o valor que dava para as leis divinas, que não deveriam ser descumpridas por conta das leis humanas, além de se tornar paradigma do amor fraternal.
A peça retira o momento em que Antígona decide cometer a transgressão de enterrar seu irmão, em um longo e lamentoso monólogo, e decide levar a cabo sua tarefa até as últimas consequências. Foi interpretada pela Letícia Sabatella, atriz bem conhecida das novelas. Para mim, uma grata surpresa, já que não a conhecia fora do ambiente platinado da rede globo, onde costuma vestir muito frequentemente papéis do tipo mulher-de-meia-idade-chorona-porque-injustiçada. Defendeu sua personagem com maestria e soube transmitir os propósitos do autor.

Electra, por sua vez, é símbolo da impulsividade e seu mito serviu à psicanálise como oposição ao complexo de Édipo, onde o filho homem guarda com a mãe uma relação psicológica de atração sexual inconsciente, que acaba redundando em um sentimento de repulsa em relação ao pai. No complexo de Electra ocorre o mesmo, porém invertendo os pares – aqui, temos a filha que pulsiona em relação ao pai, e tem a mãe como rival. Esse mito foi utilizado porque Electra, filha de Agamênon e Cliemnestra, arquitetou a vingança contra o ato urdido por esta última. Sua conduta foi motivada pelo fato de que Agamênon, rei de Micenas, havia sacrificado Ifigênia, outra filha sua, e com isso tomado o poder ao lado de seu amante, Egisto. Electra passa a viver amargurada pelo desejo de vingar seu pai (este é o ponto que a peça aborda), implorando às divindades que lhe propiciassem um modo pelo qual fazê-lo. Consegue seu intento utilizando seu irmão Orestes, que consuma o ato. No entanto, o arrependimento chega depois: Ifigênia está viva! É uma sacerdotisa de Ártemis, vivendo em isolamento nos montes gregos. Electra é aquela que se vinga e se arrepende, aquela que manda matar e com isso mata seu próprio interior por sua impulsividade. A atriz que nos contou a história foi Miwa Yanagizawa, em um ambiente de tensão do princípio ao fim, desde sua postura praticamente imóvel e desconfortável (ao contrário de Antígona, que flana pelo palco). Seu rosto é impassível o tempo todo, o foco da vendeta não é perdido em momento algum. Realmente tenso.
Já com relação a Medeia, o mito é contado a partir da crueldade da protagonista. Ela era esposa de Jasão, o comandante dos Argonautas, que buscavam o velocino de ouro, um estranho objeto confeccionado a partir do pelo de ouro de um carneiro oferecido em sacrifício ao deus Ares. Medeia ajudou substancialmente Jasão a cumprir seu intento, inclusive traindo seu pai, o rei Aetes. No entanto, Jasão a trai, apaixonado que estava por Gláucia, com quem resolve passar a viver. É aqui que a peça se desenrola: nos planos de vingança de Medeia. Ela mata todos os filhos que teve com Jasão, e utilizou seus poderes para matar também a sua adversária, ao confeccionar um vestido e presenteá-la. Esse vestido se incendiou assim que Gláucia utilizou-o pela primeira vez. Também sobrou para Jasão, que se viu enlouquecido e morto pelo peso de seu próprio navio. Esse mito também é utilizado na psicanálise para demonstrar o ato de loucura cometido pelos pais que matam os filhos em acessos coléricos. Denise del Vecchio faz uma interpretação correta e segura, insensível como deve ser o prato comido frio. É a mão que mata em nome de um pretenso restabelecimento da honra.

E é isso. O desenvolvimento do trágico dá a nós, pobres mortais, toda a dimensão da inexorabilidade do destino, e nos explica o quanto a arte, através de suas representações, pode refletir sobre o que é a vida.

Recomendações:

Primeiramente, recomendo a própria peça. É bastante significativa da arte grega e das origens do teatro. Não sei se, nesta altura do campeonato, tem ingressos à disposição, mas vale a pena tentar.

LEME, Guilherme. Trágica.3. Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (SP) até 07/07/2014.
 
O livro de Aristóteles é bem interessante para compreender as regras que regem a tragédia grega.

ARISTÓTELES. A Poética. Lisboa: INCM, 1998

Já o de Nietzsche é essencial para enxergar uma versão mais complexa de como pode ser entendido esse tipo de arte.
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia grega ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Entre tintas e desencantos - arte e juventude entrelaçadas

Olá!

Por estes dias, recebi um convite para visitar uma exposição de três jovens artistas, que, em comum, tem a causa vegana como filosofia de fundo, tanto para suas vidas, como para suas obras. Estive lá no último domingo. Vejam o anúncio:


Bom, comecemos situando o contexto ou contextualizando a situação. O Broto de Primavera é um restaurante cujo mote não se encerra no fornecimento de comida vegetariana estrita, mas em divulgar uma mensagem ambiental, que se estende ao amor às coisas da natureza, ao equilíbrio entre os elementos vivos do planeta e, no final das contas, a uma nova harmonia na relação universal. Demorei um pouco para entender as diferenças entre os vegans e outras classes de alimentandos engajados, mas pude perceber que, neles, há uma causa muito mais profunda a defender. O endereço do lugarejo está aí acima, e acho que vale a pena conhecer, até para compreender melhor estas diferenças.

Já vou falar sobre a mostra em si, mas, como de costume, conto um pouco dos meus percalços ocorridos no dia. O evento transcorreu em uma movimentadíssima e pouco estruturada rua do centro de São Paulo, como são quase todas as ruas do bairro da Liberdade. Para quem não conhece, trata-se do bairro tradicionalmente ocupado pelos imigrantes orientais, outrora japoneses, atualmente coreanos e chineses. As ruas tem todo um jogo de decoração e alegorias de forma a tornar essa presença bem marcada, como os postes de iluminação, os frontais dos comércios, a dupla grafia e outros que-tais. Estas ruas são quase todas bastante estreitas, mas como era um domingão meio que puxado para o frio, tomei uma decisão pouco ecológica, muito preguiçosa e nada feliz – fui de carro, mesmo morando a uns vinte minutos a pé do logradouro (com um voto de desagravo – eu já estava de carro voltando do mercado). Decisão nada feliz mesmo – não tinha um único canto para encostar meu veículo pouco mais que popular. Pior: havia um concurso público sendo realizado, uma reunião de grande porte em uma das sociedades nipônicas e o hospital do alto da rua São Joaquim estava pleno de gente aflita com suas incômodas gripes (sem contar os habituais frequentadores da feirinha da praça da Liberdade). O resultado só podia ser um – fiquei mais ou menos uma hora dando passo de tartaruga, sem lugar para parar nem mesmo um tico-tico (quem tem mais de 40 sabe do que eu estou falando). Fui parar bem longe dali, andei para caramba. Adiantou muito...
Passons. Em minha santa ingenuidade e na minha percepção turvada pela pressa, esperava algo como a culinária artística japonesa, com seus kyarabens e bentôs chiques e bem arrumados. Nada disso. Em um ambiente quase “underground”, regado a acepipes do estilo, a exposição em si é muito simples, como é de se esperar para três jovens artistas: Azul, Camila Hardt e Maurício Kanno. O que vale, de fato, é observar a sua produção e o que ela tem a nos dizer. E, nesse sentido, posso afirmar que se tratou de uma experiência cultural válida (para minha definição do que há de producente em uma experiência cultural, visite este tópico).

Não pedi explicações sobre o sentido das obras. Isso significa tirar pelo menos metade do seu encanto e de sua abertura. Se fosse assim, cada painel, cada mural, cada grafite, cada estátua, cada instalação e cada intervenção precisariam vir com um manual de instruções. Daí, busquei interpretar por mim mesmo. Se errei muito, peço perdão – exerci minha liberdade, e acho que isso já justifica tudo.
O substrato do que vi colocado nas paredes do restaurante pode ser resumido em uma só palavra: desilusão. E essa desilusão transpõe a própria causa, ou seja, não é restrita ao propósito vegano; ela é extensível a toda essa complicada fase denominada adolescência.

Basicamente, todo jovem carrega em si algo que se assemelha a um insight, um momento um tanto difuso em que se dá o verdadeiro desmame. Esse momento é particularmente doloroso, porque ele ocorre quando os olhos da ingenuidade, que legitimavam todo o universo construído ao seu redor, começam a ficar embotados. Já não é possível discernir claramente o que tem coerência com o aporte que nos foi entregue quando éramos crianças, e o resultado é um estranhamento que nos leva à angústia, uma angústia permeada de dúvidas. No final das contas, esse caminho é pavimentado pela perda: perda da inocência, que leva à perda das certezas, que leva à perda da confiança e, o que é mais grave, que leva à perda de nosso lugar no mundo. A perda é lenha que alimenta a fogueira da tristeza: em cada dia que se passa, há um luto. Chega a ser confortável quando ainda conseguimos identificar a causa deste luto, porque assim podemos arribar os muros da nossa consciência e nos defender. Pior quando a dor já não está na perda de um objeto, de um ser, de uma ilusão ou de uma convicção. É quando chega a melancolia, a perda de nós mesmos. Quem se perde, não apenas abaixa a cabeça; mesmo que a erga, não se reencontra, é mais do mesmo, é tédio, é depressão.
Como a juventude é o instante em que se dá essa sensação de “despertença”, de deslocamento, o equipamento psíquico busca uma saída, que em geral se dá em dois ramos: ou o jovem se aliena, se deixa levar pela correnteza do mundo que o venderam desde o berço – escapa se aprofundando ainda mais, ou seja, escapa negando o valor de suas próprias reflexões, e compra um pacote pronto de ideologia; ou tem uma reação quase que orgânica: é a revolta e o inconformismo. Quem cai nesta senda, em geral procura se exprimir de alguma forma, em uma necessidade quase corporal. Eu escrevi canções de protesto...

“Quem diria que esta terra um dia
Tão dura e crua iria se tornar
O sangue urbano corre nas veias
Nas avenidas, nas ruas, em todo lugar”

Centro da cidade, 1986

 ... de despedida...

“Beira do cais, suor e madeira
E nos corais, anos da vida inteira
Que na orla trazem a febre e o sorriso
E como a maré, vem e vai sem aviso”

Muito além do porto, 1989

... de desespero...

“É o suor das horas mortas de parir um filho morto
É o sangue de formas tortas que rega as flores do horto
É urgir, é rugir prá ter de volta o perdido
É fugir, é sumir sem nunca ter aparecido”

Levógiro, 1988

... e mesmo de rancor.

“Ao léu, o trem que nunca vem
Sem ele, nada me arrasta
E, se não me arrasta, não tenho porque crer no destino”

Largo da Misericórdia, 1989

Depois parei de compor. Voltei-me para a filosofia, prima-irmã da arte, que não tive a competência de levar à frente. Acho que o caminho estético é mais favorável. Com a filosofia, você tem um comprometimento que te prende, o que não acontece com a arte. Este é um campo de liberdade total, não há lugar melhor para expressar tanto a esperança quanto o desencanto. É o que havia nos ladrilhos do Broto. Um grito abafado na forma do Cristo black power pendurado no poste da modernidade. É quase uma pergunta, despida de religiosidade: não seria o Cristo também um rebelde, como todos os jovens que vieram antes e depois dele? Não seria também ele um fruto colhido para consumo rápido, como fazem com todos os Guevaras das camisetas vendidas a R$ 100,00? Não seria ele representado por cada um que carrega a cruz de seu deslocamento, de sua miséria, de desespero diante do mundo que se vê com as costas voltadas mutuamente?


O animal simbionte com o humano, o que representa? Uma perspectiva de comunhão natural, utópica, demasiadamente utópica; ou é o humano que se animaliza, o animal que se humaniza – desnaturamento ou busca de harmonia? De quem deve partir nós já sabemos, tanta gente já ensinou – Aldo Leopold, Arne Naess, Peter Singer, James Lovelock – mas onde começa nossa vontade de reconhecimento do homem como parte integrante do planeta?

 
A principal lição que nos traz um manifesto desse tipo é: Qual é o mundo que estamos colocando para os nossos jovens? Ele espelha nossos ideais ou nós deixamos escapar o fio da nossa história? Era isso o que queríamos quando pegávamos nossos violões para tocar no relento, nossas mochilas para conhecer o mundo, escrevíamos nossos versos para deixar nossas marcas? O que deu errado? Onde nos perdemos? Ou nada disso é real – temos o que plantamos, e plantamos o que queríamos? Era tudo um sonho, devíamos sabê-lo?

Quantas perguntas... Sou simpático à causa dos veganos, ainda que não pretenda aderir a ela. Acho o caminho de fazer da arte um vetor para a divulgação de suas idéias tremendamente mais válido do que um mero proselitismo que se venha a se assemelhar a uma religião. Isso porque existe a aposta na inteligência das pessoas (muito embora essa aposta seja, na maioria das vezes, frustrante). O proselitismo tem o risco de lançar mão de qualquer espécie de argumento para fazer-se valer. Quando ele cai em paradoxo, deixa de ser opção, e trai sua própria bandeira. A arte não. Ela é o espaço autêntico da liberdade, tanto na sua criação quanto na sua interpretação, e ela é sempre autobiográfica – há sempre um pedaço da minha história e do meu pensar em cada obra que crio. Parabéns aos meninos pela iniciativa. Sugirp que sejam persistentes - na causa, com a razão; na arte, com a intuição e talento.
Recomendações de visita:

Quem puder visitar essa pequena mostra não se decepcionará. É breve, é perto, fica no endereço do cartaz acima. Se você não puder ou não der tempo de conhecê-la, fique atento a esses três nomes: Azul Cantù, Camila Hardt e Maurício Kanno. Suas abordagens são interessantes, tem muito potencial. Não vale reclamar de que nossa juventude não produz nada de bom se não procuramos sabê-los.